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Full text of "Revista do Instituto Geográphico e Histórico da Bahia"

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The  Branner  (ieol(\i,ncal  Liljrarv 


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REVISTA 

DO 


luplilili  ^f  i|f  t||if  i 


T|i$l0riío  hn  ^n\\n 

FUNDADO  EM  1894,  RECONHECIDO  DE  UTILIDADE  PUBLICA 
PELA  LEI  N.  110  DE  13  DE  AGOSTO  DE  1895 

Máxima  sunt  (iocumeiíta  equideni  rcs  tcniporis  adi 
Id  proísens,  validusque  in  vcniens  stimulus. 


ANNO  VIII 


DEZEMBRO  DE  1901 

VOL.  VIII 


N  27 


Typ.  Encadei-naçúo— Empreza  Editora 

Rua  Oons.  Saraiva  —  n.  38 


1901 


24^954 


•  ••  •      •        ••  «•  •  _»^  •••  •  ^«    •     • 

•  ••      •       •••.*      ••*•    •• 

•  ••  •      •      •   •  •••  I    •    ••  •«••   •  • 


REVISTA 


DO 


iico  e 

DA   BA.HIA 


Ànno  YIII       Dezembro  de  1901       Num.  27 


O  TUPI  NA  GEOGeÀPHIH  NACIONAL 


C) 


I 


Não  é  novo,  antes,  pelo  contrario  muito  frequen- 
temente debatido  é  o  objecto  do  presente  estudo. 
Sobra-lhe,  poróm,  interesse  histórico,  exalça-o  nota- 
velmente o  valor  que  assume  na  geographia  naciona 
e,  sobretudo,  o  recommenda  a  attençào  sympa- 
thica  que  sempre  logrou  despertar  no  nosso  meio 
litterario. 

Encarando-o  agora  por  uma  face  nova,  outro  nâo 
é  o  nosso  intuito,  aliás  despretencioso  e  modesto, 
que  não  o  de  methodisar,  ou  subm»  tter  a  regras 
esse  estudo  linguistico  que  por  ahi  anda  ao  bel- 
prazer  das  phantasias  de  uns  e  ao  desazo  dos  que 
menos  familiarisados  com  a  lingua  dos  primitivos 
iiabitadores   desta    terra    a  deturpam    e  desfeiam, 

(•)  £xtr.  da  Memoria  lida  no  Instituto  Histórico  e  Geogra- 
phico  de  S.  Paalo.  pelo  nosso  illustrado  consócio  Dr.  Theo- 
doro  Sampaio. 

R.  I 


vttrrbi>i'^do-lhe  aos  vocábulos  sentido  e  significados 

'.\al>surdos    ou    procurando    interpretar   aquelles   já 

'."•'adulterados  ou  assimilados  pela  dicçuo  vulgar  por 

processos  extranhos  ás  leis  gottologicas  que  regem 

a  matéria. 

Não  ha  quem  desconheça  a  predominância  do 
tupi  nas  nossas  denominações  geographicas.  As 
nossas  montanhas,  os  nossos  rios,  as  cidades  como 
os  simples  povoados  trazem  geralmente  nomes  bár- 
baros que  o  gentio,  dominador  outr'ora,  lhes  ap- 
plicou,  que  os  conquistadores  respeitaram  e  que 
hoje  são  de  todos  preferidos,  pois,  não  raro,  se 
trocam,  se  substituem  nomes  portuguezes  de  antigas 
localidades  por  outros  de  procedência  indígena,  ás 
vezes  lembrados  ou  compostos  na  ocçasião,  ás  vezes 
restaurados  pelos  amadores  de  coisas  velhas  e  tra- 
dicionaes. 

Mas  essas  denominações  geographicas,  explicáveis 
e  naluralissimas  numa  época  em  que  o  tupi  era  a 
lingua  geral,  uu  a  mais  fallada  no  paiz,  são  agora 
para  as  modernas  gerações  verdadeiros  enigmas 
que  as  alterações  quotidianas  ou  as  inevitáveis  cor- 
ruptellas  vão  tornando  indecifráveis. 

Portanto,  preservar-lhes  a  graphia  verdadeira,  e 
a  verdadeira  pronuncia,  fixar-lhes  o  significado,  in- 
ter[)retado  através  do  véo  obscuro  dos  metaplasmas, 
vale  tanto  como  resguardar  um  monumento  histórico. 
Sim,  porque  si  a  geographia  pôde  passar  intan- 
givel  por  um  nome  fossiiisado  ou  cru'^lmente  adul- 
terado peln  correr  dos  annos,  com  a  Historia  já  não 
succederá  o  mesmo  sem  damno  sensível  para  a 
perfeita  comprehensão  dos  successos  com  que  ella 
evoca  as  oras  passadas 

Já  ninguém  desconhece  o  valor  da  phílología  nos 
estudos  históricos,  a  qual,  como  é  sabido,  explicou 


as  migrações  dos  povos,  anteriores  a  qualquer  tra- 
dição oral  ou  escripta. 

Simples  vocábulos,  diz  Cezar  Canlú,  revelam  ou 
confirmam,  ás  vezes,  uma  circumstancia  importante 
da  Historia. 

CarlííS  von  Martius,  na  sua  dissertação  sobre 
a  como  se  deve  escrever  a  Historia  do  Brazil  »,  con- 
sidera a  língua  dos  iridios  como  documento  mais 
geral  e  mais  significativo,  e  accrescenta: 

o  Pesquizas  nesta  actualmente  tão  pouco  cultivada 
esphera  não  podem  járnais  ser  suffioientemente  re- 
commcndadas,  e  tanto  mi)is  que  as  linguas  ameri- 
canas não  cessam  de  achar-se  í*ontinunmenle  em 
uma  SÓI  ia  fusão,  do  sorte  que  algumas  delias  em 
breve  estarão  inteiramente  extinctas).  (') 

Quando  isso  não  bastasse;  quem  é  que  viajando 
a  nossa  terra  se  não  tomará  de  curiosidade  a  mais 
justificada  e  não  indagará  pelo  significado  de  tantos 
nomes  bárbaros  applicados  aos  logares,  ás  regiões 
que  vae  atravessando? 

Quem  de  nós  não  terá,  por  vezes,  inquirido  pelo 
significado  de  tantos  nomos  extranhos,  cuja  pronun- 
ciação  já  corre  adulterada  e  cujo  sentido  já  ninguém 
comprehendel? 

E  são,  todavia,  vocábulos  doces  e  sonoros,  longos 
muitas  vexes,  excellentes  em  geral  como  designa- 
ção de  lugares,  mas  que  muito  perdem  do  seu  valor 
por  se  não  saber  o  que  exprimem,  o  que  recordam, 
o  que  nos  revelam  do  sentir  e  do  génio  do  povo 
primitivo  que  nol-os  legou. 

E  como  na  America  esta  triste  verdade  se  assi- 
gnalou  tão  breve? 


(•)  Carlos  von  Martius— Revista  do  Instituto  Histórico  e 
Geographico  Brasileiro,  vol.  (;<».  paof.  389. 


No  Brazil  nem  sequer  a  língua  do  gentio  desappa- 
roceu  totalmente.  Nos  seus  vastíssimos  sertões  ainda 
vagam  numerosos  os  representantes  das  nações  sel- 
vagens que,  ouir'ora,  os  possuíram. 

As  vozes  tupis  se  escutam  ainda  hoje  nas  margens 
do  Amazonas,  como  nos  campos  do  Paraguay  e  do 
Paraná.  Mas,  o  esquecimento  dessa  língua,  que  os 
cultores  de  outr'ora  acharam  tão  rica  e  tão  bella, 
lavra  intenso  no  seio  da  moderna  e  culta  sociedade 
que  lhe  desconhece  o  valor  e  atira  para  o  rói  das 
coisas  enigmáticas  e  incomprehensiveis  os  nomes 
com  que  designa  as  cidades  opulentas  em  que  ora 
vive  e  prospera. 

Comtudo,  nesse  diluvio  de  esquecimento,  alguns 
espíritos  de  eleição  se  ergueram  com  os  seus  traba- 
lhos litteraríos,  pondo  em  contribuição  os  thesouros 
de  poesia  e  de  inspiração  que  se  encerram  nos 
costumes  e  nas  scenas  pittorescas  da  vida  selvagem. 
Gonçalves  Dias,  Domingos  de  Magalhães,  José  de 
Alencar,  cultores  do  americanismo  na  litteratura  na- 
cional, logram  despertar  entre  os  seus  contemporâ- 
neos o  gosto  pelos  estudos  relativos  áraça  indígena. 

Mas,  si  com  o  exemplo  delles,  os  escriptos  de 
Anchieta,  Luiz  Figueira,  Montoya  e  Restivo  lo- 
graram reviver  aos  esforços  de  abalisados  cultores 
como  Couto  de  Magalhães,  Baptista  Caetano,  Bar- 
bosa Rodrigues  e  Mendes  de  Almeida,  todavia  o 
gosto  por  estudos  deste  género  se  não  generalísou 
ou  tão  largamente  se  não  diffundiu  que  viesse  a  re- 
clamar dos  competentes  a  creação  de  escolas  onde 
se  aprendesse  a  lingua  dos  aborígenes,  ou  cursos 
especiaes  onde  se  preparassem  os  que,  para  taes 
estudos,  mostrassem  predilecção. 

Estudos,  porém,  systematicamente  guiados  para 
o  fim  de  extirpar  o  vocabulário  geographico  de  pro- 


cedência  tupi,   poucos  cultores  têm  tido,   bem  que 
não  raros  o  tenham  tentado. 

Frei  Francisco  dos  Prazeres  Maranhão  foi,  ao 
que  nos  consta^  o  primeiro  a  encetar  taes  estudos, 
mas  fel-o  tão  incompletamente  e  sem  aquella  in- 
dispensável e  criteriosa  analyse  que  a  matéria  re- 
queria, que  as  swdiS  Etymologias  Brasileiras,  publica- 
das no  volume  8.**  da  Revista  do  Instituto  Histórico, 
não  têm  outro  mérito  que  o  de  uma  obra  de  iniciação. 

Antes  delle  alguns  chronístas  e  viajantes  tentaram 
parcial  ou  isoladamente  o  mesmo  assumpto,  mas, 
no  geral,  sem  resultado  apreciável.  O  padre  Simão 
de  Vasconcellos  dá-nos,na  sua  Chronica  da  Compa- 
nhia de  Jesus,  taes  interpretações  de  vocábulos  tupis 
que  se  chega  a  duvidar  dos  conhecimentos  linguis- 
ticos do  celebre  jesuita. 

O  Dr.  Francisco  José  de  Lacerda  e  Almeida,  como 
se  veriBca  do  seu  «Diário  de  viagem  pelas  capita- 
nias do  Pará,  Rio  Negro,  Matto-Grosso,  Cuyabá  e 
S.  Paulo,  nos  annos  de  1780  a  1790»,  é  um  dos 
viajantes  que,  com  mais  interesse  e  competência, 
tractou  desta  matéria.  As  suas  etymologias  brazi- 
leiras,  constantes  das  notas  do  citado  «Diário»,  são 
tão  numerosas  e  interessantes  que  bem  se  pôde 
consideral-o  ura  precursor  nestes  estudos. 

O  trabalho  de  frei  Francisco  dos  Prazeres  si,  de 
facto,  não  é  tão  copioso  e  exacto  nas  interpretações 
como  o  objecto  comportava,  é,  comtudo,  o  único 
systematisado  e  tal  que,  como  diz  o  seu  auctor: 
c(.  .  .não  deixará  de  ser  de  alguma  utilidade,  ou  por- 
que dará  principio  a  uma  obra  nova,  ou  porque 
alguma  coisa  accrescentará  a  essa  obra,  talvez  já 
principiada.»  Tal  era  a  importância  por  el!e  ligada 
ao  objecto  que  não  só  se  suppunha  precedido  como 
achava  que  a  obra  por  outrem  emprehendida  devia 


:V 


ser  de  vulto,  isto  é,  em  ponto  grande  para  usar  das 
"^  suas  próprias  palavras.  O  certo,  porém,  é  que,  do 

ponto  de  vista  de  um  estudo  methodico  e  systema- 
tisado,  frei  Francisco  dos  Prazeres  Maranhão  não 
teve  predecessor  como  bem  poucos  foram  os  seus 
continuadores. 

O  Dr.  Francisco  Freire  Allemâo,  em  uma  Me- 
moria,  publi.^ada  na  Revista  do  Instituto  Histórico 
(tomo  45,  pag.  351)  em  1850,  tractou  do  assumpto 
sob  o  titulo:  «Questões  propostas  sobre  alguns  vo- 
cábulos da  lingua  geral  brasiliana»,  mas,  como  o 
próprio  titulo  o  manifesta»  o  seu  trabalho  não  pas- 
sava de  uma  investigação  sem  nenhum  caracter  de 
generalisação,  e  setn  methodo,  embora  exhibindo 
erudição  e  conhecimento  da  matéria. 

Braz  da  Costa  Rubim  segu'-u-lhe  os  passrs  com 
processo  idêntico  e  idêntico  resultado,  como  se  veri- 
fica do  mesicio  volume  da  citada  Revista. 

O  senador  Cândido  Mendes  de  Almeida  occupou-se 
da  matéria  exhibindo  critério  seguro,  vasta  erudi- 
ção e  notável  penetração  nos  poucos  estudos  que 
publicou  sob  o  tiiulo  —  Notas  sobre  a  historia  pa- 
tria,  na  já  citada  Revista  O  seu  irmão,  o  Dr.  João 
Mendes  de  Almeida,  era  outro  dedicadissimo  cultor 
do  brazilianisnio,  si  assim  podemos  designar  a  ma- 
téria do  presente  escripto.  e  consti  mesmo  que 
deixou  a  respeito  obra  inédita  de  copioso  cabedal. 

O  general  Couto  do  Magalhães  tinha  a  peito  e 
em  muita  conta  os  estudos  deste  género.  Varias 
publicações  fez  explicando  o  significado  de  muitas 
denominações  geographicas  de  |)rocedencia  tupi,  e 
mais  recentemente,  numa  das  ultimas  sessões  do 
Instituto  Histórico  a  que  assistira,  e  quando  apre- 
sentou o  seu  plano  commemorativo  do  quarto  cen- 
tenário do  descobrimento  do  Brazil,  indicou,   como 


dos  mais  importantes  assumptos  e  dos  mais  ade- 
quados para  essa  commemoração,  o  estudo  das 
etymologias  brazilicas,  isto  é,  do  brazilianismo,  feito 
em  collaboração  com  alguns  cultores  da  língua  tupi 
que  o  fallecido  general  indicaria  ou  convidaria  op- 
portunaménte. 

Ricardo  Burton,  annotando  a  traducção  da  obra 
de  Hans  Staden,  em  1874,  enriqueceu  esse  livro 
com  abundantes  e  preciosíssimos  estudos  sobre  os 
vocábulos  indigenas  referidos  na  sobredita  obra. 

O  Dr.  Frederico  Hart,  tão  cedo  roubado  ás  in- 
vestigações scientificas  de  que  fizera  theatro  predi- 
lecto o  nosso  Brazil,  enriqueceu  também  alitteratura 
do  brasilianismo  com  as  mais  eruditas  e  criteriosas 
interpretações  ou  contribuições. 

Baptista  Caetano  de  Almeida  Nogueira,  nas  suas 
annotações  á  Narratioa  epistolar  de  Fernão  Cardim  ; 
Barbosa  Rodrigues,  nos  seus  vários  escriptos  sobre 
a  língua  do  gentio,  são  dois  cultores  do  brasilia- 
m«moque  se  recommendam  pela  sua  erudição,  senso 
critico  e  especial  critério  nas  interpretações. 

O  trabalho,  porém,  de  maior  monta  que  até  aqui 
se  ha  publicado  sobre  esteobject)  é,  incontestavel- 
mente, o  do  Dr.  Carlos  von  Martius,  trabalho  pu- 
blicado em  annexo  no  Glossaria  Linguarum  Brasi- 
liensium.  Era  o  Dr.  Martius,  a  quem  tanto  deve  a 
botânica  brazileira,  mui  versado  na  língua  tupi, 
tinha  muito  viajado  o  nosso  paiz,  possuia  vasta  eru- 
dição scíentifica  e  os  melhores  elementos  para  um 
trabalho  de  vulto  nesta  questão  da  origem  e  inter- 
pretação dos  vocábulos  tupis  usados  na  geographia 
nacional.  Infelizmente  não  lhe  pôde  o  illustre  sábio 
dar  o  preciso  desenvolvimento,  nem  aprofundar  as 
suas  investigações  como  era  mister,  lendo  as  chro- 
nicas^  as  relações  antigas  de  viagem,  isto  é,  consul- 

R.  2 


10 


tando  o  elemento  histórico  para  descobrir  a  verda- 
deira graphia  primitiva  dos  vocábulos,  muitos  dos 
quaes,  sem  isso,  jamais  seriam  explicáveis  ou 
traduíiveis  no  ponto  de  vista  etymologico. 

Comtudo,  procuramos  sempre  no  presente  traba- 
lho seguir  os  passos  do  naturalista  bavaro.  Mas,  se- 
guindo-o  tão  de  perto  quanto  possivel  no  que  respeita 
ao  exame  etymologico,  preferimos  o  processo  critico 
de  Freire  AUemào,  reconhecendo  primeiro  a  iden- 
tidade do  vocábulo,  discutindo  as  suas  alterações 
subsequentes  antes  de  traduzil-o  ou  dar-lhe  o  respe- 
ctivo significado. 

Fiz,  por  isso,  preceder  o  trabalho  propriamente 
interpretativo  e  etymologico  de  uma  rápida  aprecia- 
ção sobre  o  caracter  da  lingua  tupi,  a  sua  extensão 
na  America,  e  especialmente  no  Brazil,  as  suas  al- 
terações sob  a  influencia  do  portuguez,  analysando 
ao  mesmo  tempo  o  processo  segundo  o  qual  se  deram 
as  ditas  alterações  na  phonetica  dessa  linguçi. 

Não  presumo  com  isso  dar  a  ultima  palavra  na 
questão.  Mas  acredito  ter  adiantado  alguma  coisa, 
firmando  alguns  principios  que,  no  futuro,  hão  de 
servir  a  outros  e  melhores  investigadores,  e  elimi- 
nando umas  tantas  obscuridades  que  aíTectam  a 
graphia  e,  portanto,  o  significado  ou  sentido  de  não 
poucos  vocábulos  indígenas  com  applicação  á  nossa 
geographia.  Terei,  entretanto,  levantado  uma  ponta 
desse  vôo  de  esquecimento  que  pesa  sobre  a  memoria 
do  povo  desapparecido  a  quem  succedemos  no  do- 
minio  desta  terra,  cujas  vozes  barbaras,  na  sua 
lenta  e  secular  fossillisação,  perdida  a  primitiva  e 
o.riginal  estructura,  já  não  tôm  sentido  nem  ex- 
pressão, designando  as  prosperas  cidades  dos  novos 
dominadores. 


11 


II 


Da  expansão  da  língua  tupi  e  do  seu  ptedomiliio 
na  geograpliiia  nacional 

A  vasta  superfície  que,  por  um  exame  geogfaphico 
do  nosso  paiz,  se  reconhece  ter  sido  avassatlada 
pelo  íupi,  não  pôde,  de  modo  algum,  ser  attribuida 
á  força  de  expansão,  própria  da  raça  primitiva,  que 
dominava  no  littoral  e  em  grande  parte  do  interior 
ao  tempo  do  descobrimento  pelos  portuguezes. 

Vastissima,  na  verdade,  era  a  região  por  onde 
dominou  a  língua  tupi  no  novo  continente;  no  Brazil, 
porém,  deve-se  a  sua  mais  notável  expansão  aos 
próprios  conquistadores  europeus,  ás  numerosas 
expedições  ou  bandeiras  que  penetraram  nos  sertões 
para  descerem  escravos  Índios,  e  para  a  pesquiza 
do  ouro;  deve-se  principalmente  á  catechese  que 
tornou  geral  esse  idioma  bárbaro  e  o  cultivou. 

Occupavam,  com  effeito,  os  povos  da  raça  tupi 
o  littoral  quasi  todo,  por  cerca  de  seiscentas  léguas, 
donde  haviam  expellido  outros  povos,  sem  duvida 
conquistadores  antes  d'elles,  e  que  por  sua  vez  ti- 
veram de  ceder  diante  de  forças  mais  numerosas 
e  aguerridas ;  dominavam  ainda  o  valle  do  Paraná- 
Paraguay  na  sua  média  zona,  onde  se  limitavam 
cora  outras  nações  de  procedência  andina  e  lança- 
vam colónias  através  dos  valles  do  Araguaya,  .Ta- 
pajós e  Madeira,  alcançando  o  Amazonas  cujo  curso 
disputavam  e  partilhavam  com  outros  povos  desde  a 
foz  até  grande  extensão  em  direcção  ás  cabeceiras, 
e  ainda  para  além  das  Guyanas,  no  valle  do  Orinoco, 
e  nas  Antilhas,  entre  os  carahibas,  se  encontravam 
representantes  delles. 


12 


Nas  chapadas  centraes,  nas  regiões  de  solo  roais 
ingrato,  nos  grandes  valles  interiores  roenosaccessi- 
veis  quedavam-se  como  encurralados  os  povos  da 
raça  vencida  que  os  tupis  denominavam  commum- 
mente  iapuyas,  equivalente  a  bárbaro  ou  extrangeiro, 
como  vieram  a  chamar  tapuytinga,  ao  europeu  e 
tapuyuna  ao  africano. 

Ao  europeu,  porém,  ou  aos  seus  descendentes 
cruzados  que  realisaram  as  conquistas  dos  sertões 
é  que  se  deve  a  maior  expansão  do  tupi  como  lingua 
geral  dentro  das  raias  actuaes  do  Brazil.  As  levas 
que  partiam  do  littoral  a  fazerem  descobrimentos 
fallavam,  no  geral,  o  tupi ;  pelo  tupi  designavam 
os  novos  descobertos,  os  rios,  as  montanhas,  os 
próprios  povoados  que  fundavam  e  que  eram  outras 
tantas  colónias  espalhadas  nos  sertões,  fatiando 
também  o  tupi  e  encarregando-se  naturalmente  de 
fundil-o. 

O  portuguez  era,  sim,  a  lingua  official,  como  ainda 
hoje  o  hespanhol  no  Paraguay,  a  lingua  do  com- 
raercio  nos  portos  do  littoral,  nas  cidades  e  villas  de 
mais  importância,  e  no  seio  das  familias  propria- 
mente portuguezas,  mas  ainda  ahi  apparecia  o  tupi, 
fallado  pelos  fâmulos  quasi  lodos  indios  ou  de  des- 
cendência Índia. 

Nos  povoados  mais  apartados,  a  catechese,  ini- 
ciada e  desenvolvida  pelos  jesuítas,  ia  dando  á 
lingua  barbara  os  foros  de  um  vehiculo  civilisador. 
Paliavam  os  padres  a  lingua  dos  aborígenes,  es- 
creviam-lhe  a  grammatica  e  vocabulário  e  ensina- 
vam e  pregavam  nesse  idioma.  Nos  seminários  para 
meninos  e  meninas,  curumins  e  cunhatains,  filhos  dos 
indios,  mestiços  ou  brancos,  ensinavam  de  or(jiinario 
o  portuguez   e  o  tupi,    preparando  deste   modo  os 


13 


primeiros  catechumenos,  os  mais  idoaeos.  para  le- 
varem a  conversão  ao  lar  paterno. 

Até  o  começo  do  século  XVI 11  a  proporção  entre 
as  duas  iinguas  falladas  na  colónia  era  mais  ou 
menos  de  três  para  um,  do  tupi  'para  o  portuguez. 
Em  algumas  capitanias  como  em  S.  Paulo,  Rio 
Grande  do  Sul»  Amazonas  e  Pará,  onde  a  catechese 
mais  influiu,  o  tupi  prevaleceu  por  mais  tempo  ainda. 
Nas  duas  primeiras  fallava-se  entre  os  homens  do 
campo  a  lingua  geral  até  o  fim  do  século  XVIII. 
No  Amazonas  e  no  Pará  ainda  é  commum  o  tupi 
no  seio  da  população  civilisada  dos  íapuyas,  como 
vulgarmente  ahi  se  appellidam  os  Índios. 

Mas,  naquelles  tempos,  quando  o  desbravamento 
dos  sertões  apenas  começava  e  as  expedições  para 
o  interior  se  succediam  com  a  obstinação  das  coisas 
fataes  e  irresistiveis,  o  tupi  era  deveras  a  lingua 
dominante,  a  lingua  da  colónia. 

Todos  a  (aliavam  ou  a  comprehendiam.  Parecia 
mesmo  haver  certa  predilecção   por  ella.  (") 

Saudavam-se  no  tupi,  dizendo:  Enecoêmay  que 
quer  dizer  bom  dia,  a  que  respondia  o  interlocutor, 
repetindo  a  mesma  saudação,  ou  dizendo  simples- 
mente:—  Yauê, 

Ao  toque  da  Ave  Maria,  o  christão  da  America 
erguia-se  persignando  :  Santa  Ciiruçá  rangaua  recê, 
que  quer  dizer:  pelo  signal  da  Santa  Crus  e  repetia 
na  sua  lingua  a  oração  da  tarde. 


(•)  O  Padre  António  Vieira  em  1G94  escrevia:  "E'  certo 
que  as  famílias  dos  portugaezes  e  índios  em  São  Paulo, 
estão  ligadas  hoje  umas  com  as  outras  que  as  mulheres 
e  os  fílhos  se  criam  mystíca  e  domesticamente,  e  a  lingua 
que  nas  ditas  famílias  se  fala  é  a  dos  índios  e  a  portu- 
gueza  a  vfio.  os  meninos  aprender  á  escola;  ...^  (Obras 
Varias,  I,  249). 


14 


Adoptavam  os  próprios  portuguezes  os  usos  e  até 
o  fallar  brazilico,  preferindo  as  expressões  tupis 
aos  dizeres  da  própria  lingua,  em  que,  aliás,  não 
faltavam  vocábulos  e  locuções  egualmente  expressi- 
vas e  adequadas. 

Appellidavam-se  muitas  vezes  pelo  tupi  (');  e  ti- 
nham cantarese  folguedos  nesta  lingua,  ou  num  mixto 
coqpprehensivel  do  portuguez  e  do  indio.  A  conhe- 
cida canção  popular  Carangueijo  andou  uatd  vem 
desde  este  tempo. 

Alteravam-se  aò  contacto  dessa  lingua  barbara  a 
prosódia  como  a  sintaxe  portugueza.  Desappare- 
ceram  as  vogaes  mudas  ou  breves  c  prevaleceram 
as  graves  e  agudas.  Os  verbos  tupis  modelaram-se 
pelos  do  portuguez,  incorporando-se  em  grande 
numero  neste  ultimo,  como  incorporaram-se  os 
liomes  de  plantas,  animaes,  fructas  e  objectos  de  uso 
domestico. 

Fazia-se  a  conquista  tendo  por  vehiculo  a  própria 
lingua  dos  vencidos,  que  era  a  lingua  da  multidão. 

As  bandeiras  quasi  que  sô  fallavam  o  tupi.  E  si 
por  toda  a  parte  onde  penetravam  estendiam  os 
dominios  de  Portugal,  não  lhe  propagavam,  todavia, 
a  lingua,  a  qual  só  mais  tarde  se  introduzia  com 
o  progresso  da  administração,  com  o  commercio  e 
os  melhoramentos. 

Recebiam  então  um  nome  tupi  as  regiões  que  se 
iam  descobrindo,  e  o  conservavam  pelo  tempo  adian- 
te, ainda  que  nellas  jamais  tivesse  habitado  uma 
tribu  de  raça  tupi.  E  assim  é  que  no  planalto  central, 

(*)  Pela  época  da  independência  voltou  o  uso  dos  nomes 
e  appellidos  de  procedência  tupi.  Muito  conhecidos  se  torna- 
ram depois  os  de  Francisco  Gê  Acayaba  de  Montezuma, 
Dendé  Bus,  Sucupira,  Japyassd,  Tupinambá,  Jaguaripe, 
Jucá,  Piragibe,  Cuim  Atua,  Pitanga  e  tantos  outroSr 


15 


onde  dominam  povos  de  outras  raças,  as  denomi- 
nações dos  valles,  rios  e  montanhas  e  até  das 
povoações  sào  pela  mór  parte  da  língua  geral. 

Bem  poucos,  na  verdade,  são  os  nomes  de  pror 
cedência  tapuya,  conservados  na  Geographia  Nacio- 
nal,   e  estes  mesmos  nas  regiões  centraes  onde  a 
catechese  jamais  penetrou,  ou  se  iniciou  muito  tarde 
por  motivos  particulares  que  atrazaram  a  conquista. 

Tomando-se  uma  carta  do  pai2  e  examinando-a 
quanto  ao  que  diz  respeito  ás  denominações  geogra- 
phicas,  reconhece-se  para  logo  o  predominio  do  tupi 
em  toda  a  região  littoral;  nota-se  que  elle  penetra 
fundo  nos  sertões  pelo  valle  dos  grandes  rios,  onde 
se  tornou  fácil  o  accesso  do  lado  do  mar;  nota-se 
mais  que  elle  assignala  através  dos  divisores  das 
grandes  bacias  fluviaes  o  trajecto  costumeiro  dos 
bandeirantes  ou  descobridores;  reconhece-se  também 
que  elle  persiste  como  vestigio  indelevol  da  cate- 
chese, onde  quer  que,  ou  isoladamente  ou  seguindo 
uma  sério  de  estações  intermediarias,  penetrou  o 
christianismo  pelo  trabalho  apostólico  dos  missio- 
nários. 

Consideremos,  por  exemplo,  essa  parte  do  Brazil 
entre  o  rio  de  S.  Francisco  e  o  Maranhão.  Notamos 
logo  no  littoral  e  nos  valles  mais  accessiveis  e 
férteis  os  nomes  tupis  em  grande  numero,  ao  lado 
de  alguns  nomes  portuguezes  designando  os  logares 
e  os  vários  accidentes  topographicos;  no  interior, 
porém,  as  denominações  tapuyas  prevalecem,  desi- 
gnando as  aguadas,  e  as  feições  mais  salientes  da 
região.  As  montanhas  e  as  chapadas  se  designam 
em  grande  extensão  pelo  nome  Cariry,  do  povo  mais 
numeroso  que  outr'ora  as  possuiu.  Os  rios  do  in- 
terior, que  não  alcançam  directamente  o  mar,  donde 
lhes  podia  vir  a    denominação    tupi,   prevalecente 


16 


no  litloral,  tèm  nomes  tapuyas:  Moxotó,  Ororohá^ 
Choco,  em  Pernambuco  ;  Piancô,  Gurunhem,  Catolé, 
na  Parahyba;  Mossoró,  Seridó,  Caycó,  no  Rio  Grande 
do  Norte;  Quixeramobim,  Quixadá,  Quixelô,  Quixossó, 
Quinquilerêy  no  Ceará;  Jaicós,  Gurgueia,  Longa, 
no  Piauhy. 

Nesta  região,  cujo  interior  reveste  um  aspecto  mais 
áspero  e  as  seccas  periódicas  tornam  o  viver  in- 
certo e  atormentado,  as  levas  dos  conquistadores 
atravessam  sem  encontrar  algures  o  que  as  retenha, 
sem  descobrir  uma  mina  cuja  riqueza  determine  ou 
justifique  um  estabelecimento  permanente,  ou  um 
solo  fértil  tentando  a  cobiça  dos  aventureiros.  Elles 
passam  sem  intenção  de  ficar. 

Só  o  gentio  adaptado  ahi  permanece  como  que 
protegido  pela  própria  inclemência  do  sólo. 

O  tupi  ahi  nâo  penetra  como  não  penetra  o  por- 
tuguez  senão  depois  que  o*  gado  invadindo  as  ca- 
tingas áridas  e  entranhando-se  no  deserto  abriu  as 
veredas  e  guiou  o  vaqueiro  até  as  várzeas  onde  se 
assentaram  as  primeiras  fazendas.  O  gentio,  sem 
grande  resistência,  submetteu-se  então,  e  assim  se 
explica  como  alguns  vestigios  da  sua  lingua  per- 
duraram nas  denominações  dos  logares,  recordando 
a  raça  dos  vencidos. 

Desça-se,  porém,  das  chapadas  áridas  e  asso- 
ladas pela  secca,  e  procure-se  mais  além  ou  o 
curso  do  Parnahyba  a  Oeste,  ou  do  S.  Francisco 
mais  ao  Sul  e,  para  logo,  apparecem  de  novo  os 
nomes  tupis  designando  osaccidentesgeographicos. 

Transpondo  o  S.  Francisco  em  direcção  ao  Sul, 
penetra-se  de  novo  numa  região  ingrata  pela  incle- 
mência do  céo,  evae-se  atravessando  a  bacia  elevada 
do  Vasa-Barris,  antes  de  ganhar  os  trechos  esparsos 
e  mais  deprimidos  das  chapadas  bahianas  que,  de- 


17 


pois  do  salto  de  Paulo  AíTonso,  depois  de  Canudos 
e  de  Monte  Santo,  levam  á  Itiuba,  ao  Tombador  e 
ao  Assuruá.  Ahi,  nesse  trecho  do  pátrio  território, 
aliás  dos  mais  ingratos,  onde  outr'ora  se  refugiaram 
os  perseguidos  destroços  dos  Orizes,  Procás  e 
Carirys,  de  novo  apparecem,  designando  os  logares, 
os  nomes  bárbaros  de  procedência  tapuya  que  nem 
o  portuguez,  nem  o  tupi  logrou  supplantar.  Lêm-se 
então  no  mappa  da  região  com  a  mesma  frequência 
dos  accidentes  topographicos  os  nomes  como  Pambã, 
Patamoíéy  Uaua,  Bendegô;  Cumbe,  Massacarà,  Co- 
corobó,  Geremoabo,  Tragagó,  Canché,  Chorrochô, 
Quincuncd,  Co«thó,  Ceníocé,  Assuruá ,  Chique- Chique, 
Jequiéf  Sincorà,  Catulé  ou  Catolé,  Orobó^  Mocugé  e 
outros,  egualmente  bárbaros  e  extranhos. 

Mais  para  o  Sul,  peneirando  já  na  região  mineira, 
entre  a  zona  littoral  e  a  Serra  do  Espinhaço,  que 
foi  o  paiz  dos  bolocudos,  dos  purys  e  de  numerosas 
tribus  (apuyas,  já  a  raridade  dos  nomes  selvagens 
na  geographia  local  resalta  logo.  Prevalecem  de- 
nominações portuguezas  entre  alguns  nomes  tupis. 
Difficilmente  se  encontrará  ahi  um  nome  tapuga, 
boíucudo,  pury  oxxcamacan,  designando  um  monte, 
um  rio  ou  um  povoado.  Jequitinhonha,  Chopotó, 
Pujichá,  Norek  são  bem  [)oucos  vosligios  da  lingua 
dos  primitivos  dominadores  acaso  salvos  do  diluvio 
tupi  ou  portuguez  que  o  bandeirante  ou  missionário 
estendeu  por  toda  a  parte. 

Levando  a  pesquiza  para  as  regiões  do  Sul,  e  do 
centro,  na  larga  superfície  pela  mór  parte  deserta, 
como  na  mais  densamente  povoada,  observa-se  logo 
que  o  tupi  é  a  lingua  dominante  na  geographia.  Em 
Minas  Geraes  o  portuguez  leva  vantagem  ao  tupi. 

No  Rio  de  Janeiro  as  duas  línguas  se  equilibram. 

Em  S.  Paulo  o  predomínio  do  tupi  ó  quasi  com- 

R.  3 


18 


pleto,  notando-se  o  mesmo  do  Paraná  para  o  sul 
até  o  Rio  Grande,  e  para  o  centro,  em  direcção  ao 
valle  do  Paraguay. 

Rarissimas  são  as  denominações  tapuyas  perdidas 
na  grande  torrente  tupi-portugueza  que  alastrou  por 
toda  a  parte.  Os  nomes  Chopin,  Chapecô,  Chancherê, 
Goyó,  Coprà,  na  região  dos  Coroados,  dentre  o 
Iguassú  e  o  Uruguay  ;  Nioak  e  alguns  poucos  entre 
os  Guaycurús  de  Matlo-Grosso ;  e  os  nomes  dos  rios 
da  bacia  superior  do  Amazonas,  eis  tudo  o  que  Se 
salvou  das  linguas  barbaras  dos  tapuyas  diante  da 
invasão  tupi  impulsionada  pelos  portuguezes.  Eis 
porque  para  o  objecto  que  nos  occupa  não  é  mister 
discriminar  as  regiões  que  serviram  de  habitat  a 
cada  raça  selvagem;  basta  reconhecer  no  tupi  ge- 
neralisado  na  geogra|)hia  nacional  o  effeito  da  in- 
fluencia civilisadora  dos  europeus. 

Theodoro  Sampaio. 


Riqueza  minerardo  Estado  da  Balia 


Fhenomenos  geológicos  e  mineralógicos,  especialmente  na  zona 
de  Santo  Amaro  C) 


o  Jornal  do  Commercio,  o  orgào  mais  importante 
sul-americano,  tratou  por  vezes  da  grande  riqueza 
mineral  de  Minas-Geraes,' dando  a  esse  Estado  a 
primazia  da  riqueza  mineral  do  Brazil. 

Pois  bem;  muitos  annos  de  estudos  que  fiz  nas 
diversas  zonas  dos  terrenos,  julgados  metalliferos, 
do  Estado  da  Bahia  em  milhares  de  amostras  de 
rochas,  cascalhos,  terras,  areias  e  argillas,  que 
possuo,  resultados  das  minhas  pesquizas  no  sul,  no 
norte  e  no  centro  do  Estado  da  Bahia,  auctorisam-my 
a  asseverar  que  a  riqueza  mineral  da  Bahia  em  nada 
é  inferior  á  de  Minas-Geraes;  pelo  contrario,  a 
Bahia  possue  até  alguns  mineraes  que  nâo  existem 
em  outra  qualquer  parte  do  mundo,  nem  em  Minas 
Geraes,  a'ém  de  diversos,  mui  interessantes  e  raros 
phenomenos  geológicos  e  mineralógicos,  que  perten- 
cem exclusivamente  ao  Estado  da  Bahia. 

Os  minérios  são  os  seguintes: 

1.*^  As  celebres  areias  monazitiferas  do  Prad'^, 
concedidas  ao  Sr.  Gordon,  por  tempo  indeterminado, 
e  cuja  posse  pertencia  ao  Estado  da  Bahia. 

2.^  Os  famosos  carbonatos,  pedras  pretas  crysla- 


(*)  Este  trabalho    foi  lido    Da  sessão    do  Instituto   do  dia 
10  de  Março. 


20 


Usadas,  com  superior  valor  dos  diamantes,  um  ver- 
dadeiro monopólio. 

3.0  Uma  terra  branca,  polurenta,  com  descom- 
munal  peso  especifico,  sem  cheiro,  sem  gosto» 
misturada  com  cryslaes  brancos,  opact  s,  parecendo 
pertencer,  pela  côr  e  crystalisaçào,  á  lamilia  dos 
«Albites»,  mas,  devido  ao  seu  extraordinário  peso 
prova  que  é  um  novo  metal  desconhecido. 

4.0  Phenomenos  geológicos  e  mineralógicos. 

a)  Existe  no  Museu  do  Rio  de  Janeiro  o  celebre 
«Bendegó»,  celebre  meteoro,  descoberto  em  1784, 
pelo  Sr.  Domingos  da  Moita  Botelho,  proprietário 
da  fazenda  «Anastácio»,  distante  cerca  de  6  léguas 
de  Monte  Santo,  no  riacho  denominado  Bendegó : 
os  naturalistas  Spix  e  Martins  examinaram  esse  me- 
teoro, em  18  de  Março  de  1817,  declarando  que  o 
peso  era  17.300  libras  allemães,  e  levaram  para  o 
museu  da  cidade  de  Munchen  diversos  pedaços 
grandes. 

6)  Acha-se  no  museu  de  Lisboa  uma  grande  e 
volumosa  pedra,  que  parecia  ser  ouro,  mas,  exami- 
nada, foi  reconhecida  ser  cobre  metallico  nativo. 
Esta  pedra  foi  descoberta  em  um  pequeno  riacho, 
no  sitio  denominado  Mamoeabo,  pertencentes  essas 
terras  hoje  ao  Sr.  Major  Olympio  Barretto;  a  pedra 
teve  um  peso  de  304  kilos  e  foi  remettida  para  o 
Reino  [)elo  então  juiz  de  direito  da  Cachoeira,  o 
Dr.  Manuel  Silva  Pereira,  em  12  de  Julho  de  1799. 

Muitas  pesquizas,  feitas  no  logar  da  descoberta, 
não  deram  indicios  da  existência  de  minas  de  cobre, 
e  provavelmente  foi  um  meteorite. 

c)  Possuo  no  meu  museu  um  curioso  aerolitu, 
que  representa  uma  grande  massa  de  ferro  com- 
pacto, crystalino,  com  150  kilos  de  peso,  0,"'68  de 


21 


altura,  e  0,"^õ4  de  diâmetro,  cheio  de  erosões  e  pe- 
quenas cavidades,  parecendo  com  escorias  de  ferro, 
e  parece  certo  que  o  mineral  é  de  origem  da  forma- 
ção cósmica. 

d)  Columnas  de  ferro  iiydratadas. 

Ao  longo  da  costa  da  cidade  do  Prado,  até  a  po- 
voação «Pixame»,  existe  um  mui  interessanie  phe- 
nomeno  mineralógico,  que  espanta  o  viajor  inlelli- 
gente  e  bom  observador,  vendo  levantadas,  em 
alguns  logares  da  costa,  enormes  massas  de  ferro 
carbonatado  e  hydratado,  crystalisado,  e  com  aspecto, 
mais  ou  menos,  de  columnas  ou  guardas,  talvez 
para  defender  as  enormes  e  ricas  terras  monaziti- 
feras:  parece  que  o  levantamento  das  três  columnas, 
em  pontos  determinados,  no  começo,  no  centro  e 
no  fim  da  zona  mineralógica,  foi  originado  por  mys- 
teriosas,  e  por  nós  desconhecidas,  manipulações  do 
interior  do  globo  terrestre,  que  teve  o  capricho  de 
collocar  o  primeiro  colosso  no  logar  chamado  «Ta- 
pemirim»,  onde  começa,  espalhada  á  flor  das  terras 
da  praia,  immensa  camada  de  areias  brancas,  ama- 
rellas  e  pretas,  misturadas  ;  estendem-se  até  o  rio 
de  aOuro»,  onde  existe  o  segundo  colosso,  e  deste 
ponto  em  diante  começam  os  depósitos  riquíssimos 
das  minas  de  areiasamarellas,  ondese  extrahem,  com 
grande  facilidade  e  rapidez,  as  areias,  durante  as 
horaí^  da  vasante,  depositadas  quasi  na  flor  da  terra, 
nas  fraldas  dos  barreiros  próximos,  que  têm,  nestes 
pontos  privilegiados,  pouca  altura  ;  essa  rica  zona 
prolonga-se  até  a  povoação  de  Curumuchatiba,  de- 
posito geral  das  areias  extrahidas,  e  nos  riachos 
Peixe  Grande  e  Peixe  Pequeno  começam  em  grande 
extensão  os  mesmos  depósitos  de  areias  amarellas, 
misturadas  com  brancas  de  Tt^pemirim,  e  perto  do 
ponto  aPixame»  existe  o  terceiro  colosso.  Esses 
enormes  e  possantes  depósitos  de  ferro  vedam,  nas 


22 


enchentes  das  marés,  o  único  transito  para  Santa 
Cruz  e  Porto-Seguro. 

e)  Crystaes. 

E*  digno  de  mencionai  um  curioso  phenomeno, 
que  se  observa  perto  da  cidade  de  «Caelité»,  onde 
uma  grande  zona  da  estrada  geral  é  lastrada  de 
grandes  crystaes  brancos,  chrisolitos,  aguas  mari- 
nhas,  triphanas   e  principalmente  amethistas. 

/)  Aguas  ihermaes. 

Tôm  grande  valor  iherapeutico  as  celebres  aguas 
thermaes  do  Sipó,  perto  da  Villa  do  Soure  des- 
cobertas em  1836.  e  opinam  gei-almente  que  as  aguas, 
convenientemente  applicadas  prestam  importantes 
serviços  aos  doentes,  garaniindo-se  o  seu  valor  thera- 
peutico  igual  ás  afamadas  aguas    de  Carlsbad. 

g)  Lagoa  Branca.  {") 

Devo  á  gentileza  d'um  intelligenle  e  dislincto  ca- 
valheiro os  seguintes  apontamentos  sobre  a  exis- 
tência de  uma  curiosa  e  encantada  lagoa,  denominada 
oLagôa  Secca»,  de  forma  oval,  cercada  por  peque- 
nos morros  de  pouca  altura,  medindo  cerca  de  6 
kilometros,  cujas  aguas  são  brancas,  côr  de  leite, 
e  da  mesma  côr  são  os  peixes,  as  argillas  e  as 
terras  visinhas;  as  aguas  não  são  calcareas  e  nas 
terras  e  morros  visinlios  não  existem  rochas  ou 
terras  calcareas;  nove  kilometros  distantes  da  pri- 
meira Jagôa,  existe  uma  segunda,  denominada  «Gon- 
zaga», nas  mesmas  condições. 

As  aguas  não  são  nocivas,  e  ignora-se  a  nascente 
e  o  esgoto  delias,  provavelmente  devido  a  olhos  de 
agua  existentes  no  fundo  da  lagoa' 

O  terreno  é  geralmente  de  «taboleiroso.  Convinha 
examinar  as  aguas  das  duas  lagoas,  que  talvez  pos- 
suam alguma  utilidade  therapeutica  uu  industrial. 

(*)  A  lagoa  Branca  dista  da  cidade  do  Inhambupe  cerca 
de  4  kilometros. 


23 


Historia  e  origem  das  argillas 

E'  geralmente  conhecido  que  a  definição  exacta 
e  completa  das  argillas  silo  rochas  moveis,  com- 
postas de  particulas  microspicas,  mecanicamente 
misturadas,  cujo  volume  se  reduz,  em  muitos  casos, 
ao  das  moléculas  chimicas  de  que  se  compõem,  e 
os  principaes  elementos  são  subhydrato  de  sílica 
e  alumina,  silicatos  de  alumina,  mais  ou  menos 
hydratádos,  e  algumas  vezes  hydrato  de  ferro  e 
subhydrato  de  magnesia ;  são  portanto  a  silica,  a 
alumina,  o  ferro  e  a  magnesia  os  principaes  ele- 
mentos que  entram  na  composição  das  argillas,  de 
combinação  com  a  agua. 

Refiro-me  às  argillas  européas  que  contêm  também 
cal,  ao  contrario  das  argillas  brazileiras  que  tém 
muito  ferro,  ora  como  oxydo,  ora  como  hydrato,  e 
consta  que  até  hoje  ninguém  fez  ainda  estudos  e 
analyses  sobre  a  argilla  brazileira. 

E'  difflcilimo  explicar  a  verdadeira  origem  das 
argillas,  mas  muitos  geólogos  affirmam  que  a  origem 
das  mesmas  é  devida  á  terra  vegetal :  o  geólogo 
André  Deluc  conjecturou  que  as  argillas  se  pode- 
riam ter  formado  de  fluidos  elásticos,  escapados  do 
seio  da  terra  e  condensados  depois,  pjr  effeito  de 
combinações  chimicas;  e,  por  falta  de  melhor  idéa, 
geólogos  modernos  acceitam  a  trituração  das  rochas 
pelas  aguas,  o  que  é  pouco  verosimil,  pois  o  mo- 
vimento das  aguas  diminue  as  formações  da  ar- 
gilla, visto  que  as  dissolve  e  separa  em  suas  di- 
versas partes,  segundo  o  peso  que  estas  tôm,  e  as 
areias  no  Brazil  se  destacam  e  produzem-se,  como 
as  próprias  argillas,  da  vegetação. 

As  argillas  vermelhas  escuras,  denominadas  «Mas- 


24 


sapé»,  contem  30  a  40  7o  àe  ferro,  com  o  sal  de 
bôa  qualidade,  e,  auxiliado  por  agua  salgada,  produz 
um  eífeilo  hydraulico  superior  e  mais  rápido  nos 
seus  effeitos  do  que  os  cimentos  artificiaes. 

Empreguei  essa  liga,  com  o  melhor  suceesso 
possível,  nas  grandes  obras  da  rua  da  Montanha, 
na  construcçâo  das  duas  ruas  novas  na  Praça  do 
Ouro  e  do  longo  cães  alé  ao  pharol,  na  povoação 
da  Barra, 

O  tanà  e  os  massapés 

Um  surprehendente  phenomeno  apresentam  as 
maravilhosas  terras  de  Santo  Amaro,  que  uns 
chamam  argllla  cretácea,  e  outros  dizem — Tauá  e 
Massapé;  terras  mysteriosas  e  nunca  estudadas, 
que  possuem  elementos  desconhecidos  e  tào  po- 
derosos que,  ha  mais  de  400  annos,  fornecem  aos 
lavradores  grandes  e  ricas  safras,  sem  necessitar  o 
arado  e  o  húmus  europeu,  e  é  de  suppôr  que  a 
grande  e  constante  fertilidade  dessas  extraordinárias 
terras  é  devida  a  desconhecidas,  e  por  nós  incom- 
prehensiveis,  manipulações  dos  fluidos  athmosphe- 
ricos. 

Ainda  não  houve  engenheiro  ou  geólogo  que 
soubesse  explicar  os  reaes  elementos  destas  terras, 
e  a  causa  da  maravilhosa  drenagem  subterrânea  que 
existe  e  o  modo  da  collocação  da  mesma. 

Não  ha  no  mundo  inteiro  terras  tão  maravilhosas 
e  tão  mysteriosas  nos  seus  elementos. 

Exame  das  terras 

Disse  no  livro  que  publiquei  ultimamente,  sobre 
a  geologia  e  a  mineralogia,  e  especialmente  sobre 
as  maravilhosas  terras  da  zona  de  Santo  Amaro,  que 


25 


pretendia  estudar  o  curioso  e  raro  phenomeno  dos 
terrenos,  que,  ha  mais  de  400  aniios,  produzem,  sem 
auxilio  de  adubos  e  de  correctivos,  a  preciosa  canna 
de  assucar.  Hoje  posso  confirmar  que  esse  pheno- 
meno estende-se  também  ázona  de  Sào  Francisco 
da  Barra  de  Sergipe  do  Conde,  que  em  parte  per- 
corri nas  duas  freguezias  de  São  Gonçaio  e  Monte. 

Ahi  pude  fazer  algumas  analyses  qualitativas  de 
terras  e  rochas  dos  engenhos  Gurgaia,  Santa  Cruz, 
Vera  Cruz  e  Engenho  Novo,  e  por  ellas,  e  pelo  que 
consegui  observar?  posso  dizer  que  a  formação 
geológica  das  rochas  da  maior  parte  desta 
grande  zonaagricola  é,  na  camada  superior,  a  terra, 
denominada  vulgarmente  «massapé»,  producto  da 
decomposição  do  «Tauáí),  proveniente  de  fragmen- 
tos de  lages  de  um  chisto  argilloso,  rocha  molle 
e  quebradiça,  de  côr  cinzento-claro,  composto  de 
diversos  elementos,  e  tem  propriedades  particulares, 
dignas  de  serem  estudadas  com  muito  cuidado. 

Encontrei  no  engenho  Gurgaia,  em  um  morro  de 
cerca  de  250.00  m.  de  altura  acima  do  nível  do  mar, 
uma  mina  de  ferro  oligista,  carbonatada,  que  mede 
45.00  m.  de  altura,  cerca  de  70.00  m.  de  largura  e 
cerca  de  120.00  m.  de  comprimento,  com  blocos  de 
ferro,  contendo  manganez,  o  ferro  oligista,  espe- 
cular e  compacto,  de  tacií  exploração,  por  se  achar 
o  mineral,  aberto  no  cume  do  morro,  visivel  a 
olho  nii 

As  terras  visinhas  do  morro  são  argillas  silicosas, 
ferríferas,  onde  nascem  diversas  vertentes  de  aguas 
ferrogiferas,  que  se  dirigem  para  o  rio  de  Joannes, 
que  ahi   perto   tem  a  sua  nascente. 

Todos  os  terrenos  desta  gr*ande  propriedade  são 
compostos  da  melhor  qualidade  do  ar'gilla  vermolho- 
hydr-aulica,  denominada  amassupe», 

R.  4 


26 


Nu  Engenho  Novo  encontrei  uma  rocha  estra- 
tificada, aberta,  devido  a  grandes  desmoronamentos, 
composta,  em  toda  sua  extensão  e  altura,  de  enor- 
mes depósitos  de  chistos  silicosos  da  furmação 
terceira,  de  côr  cinzento-claro,  o  em  grande  parte, 
na  flor  da  terra,  em  completa  deeomposiçlo,  re- 
duzida a  terra  vegetal  cm  húmus  ou  «Tauá»,  que 
se  transforma,  por  sua  vez,  em  matéria    argillosa. 

A  estructura  do  morro,  que  tem  quasi  160  melros 
de  altura  e  cerca  de  80.00  m.  de  largura,  é  curio- 
sissima  e  surprehendente,  pois»  o  morro,  rachado, 
em  tempos  idos,  por  enormes  tempestades,  desde 
o  seu  cume  ató  a  flor  do  solo  ficou  dividido  em 
duas  partes  iguaes,  produzindo  no  vácuo,  no  fundo, 
um  leito,  formando  um  riacho  com  cerca  de  6.00  m. 
de  largura  e  cerca  de  áoO.OO  m.  de  comprimento, 
sendo  o  lateral,  á  direiía,  coberto  em  toda  a  sua 
altura  e  largura,  com  plantas  silvestres,  e  o  lateral, 
á  esquerda,  em  completo  caminlio  do  decomposição, 
e  a  parte  supenor,  reduzida  em  parte  a  pequenos 
moluculos  térreos. e  sendo  complotamonte  denudado, 
apresenta  ao  espantado  viajor  um  phantastico,  mas 
maravilhoso,  panorama,  representando  o  aspecto 
d*uma  enorme  casa  industrial,  com  numerosis 
prateleiras,  representadas  por  enormes  lages  de 
pedras  cinzsntas,  manejada  por  seres  invisíveis,  e 
produzindo,  dia  e  noite,  o  tão  valioso  e  tão  necessário 
«Tauá»,  origem  da  extraordinária  fertilidade  das 
soberbas  terras  sant'amarenses. 

A  formação  exterior  do  morro  é  um  cliisto  argiloso 
silicoso,  representado  por  enormes  e  extensas  lages 
de  grossura  media  de  0,30  m.  aȎ  0,32  m,  e  contei 
na  parte  visivel  c  metamorphisada  a  existen^Ma  de 
30  lages,  em  parte  em  plena  decomposição,  em  parte 
em  bom  estado,  collocadas  na  face  da  rocha  paralella- 


27 


mente,  parecendo  uma  escada  com  os  seus  degráos, 
com  a  differença  que,  entre  a  capa  e  lapa  de  cada 
par  de  liges.  existe  uma  camada  de  verdadeiro 
húmus,  reprt?Sfc»niado  por  uma  terra  escura.  Hna, 
solla,  trabalho  cuja  manipulação  provavelmente 
6  devida  aos  fluidos  atmosphericos,  que  com 
o  seu  oxigénio  e  o  acide  azotico  concedem  a  estas 
terras  saes  fecundantes.  Parecia-me  que  em  algum 
ponto  destas  maravilhosas  terras  encontraria  uma 
drenagem  subterrânea,  e  realm^^nte  vi  esse  extra- 
ordinário phenomeno,  que  julgo  devido  a  enorme 
porosidade  do  otauá»,  mas  confesso  que  é  necessá- 
rio fazer  novos  estudos,  para  mais  ou  menos  expli- 
car o  modo  curioso  e  engenhoso  por  que  a  grande  e 
poderosa  natureza  soube  construir  uma  maravilhosa 
drenagem  subterrânea  com  extraordinária  perfeição, 
e  beíleza  sobrenatural. 

A  cata  destes  interessantes,  difficeis  e  pouco 
vulgares  estudos  fez  perder  a  um  dos  mais  notáveis 
engenheiros  brazileiros  as  suas  esporas,  nas  trai- 
çoeiras lamas  de  Santo  Amaro. 

E*  fora  de  duvida  que  todas  as  argillas  conheci- 
das no  mundo  terrestre  são  dos  mesmos  princi- 
pios  das  plantas,  e  parece  que  a  origem  d^ellas  sâo 
as  mesmas  plantas,  formando  a  terra  vegetal  e  o 
próprio  húmus,  que,  por  modos  mysteriosos  e 
desconheci  los  em  matéria  argillosa,  denominada 
« massapé •>,  podia-se  denominar  «argilla  hydrau- 
lica  brazileira». 

No  leito  do  riacho  do  Morro  encontrou-se  uma 
pedra  calcarea,  que  é  indicio  da  provável  existência 
de  depósitos  í^alcareos ;  mas  esle  facto,  por  ora  spo- 
radico,  não  auctorisa  denominar  as  terras  em 
geral,  «Cretáceas»,  conforme  julgaram  diversos 
geólogos  e  naturalistas,  principalmente  por  não  ler 


28 


eu  encontrado  ainda  a  espécie  dos  fosseis,  que 
deternninam  a  formação  «Cretácea»;  tive  porém 
noticia  de  que  existe  pedra  calcarea  no  «Bom  Jardim» 
e  no  engenho  Pindobeira,  e,  logo  que  seja  per- 
mittidô,  pretendo  estudal-a. 

Chamo  a  attenção  do  Governo  e  do  intelligente 
secretario  das  obras  publicas  sobre  a  riquíssima 
zona  de  Sáo  Francisco,  que  com  toda  a  certeza 
dará  á  estrada  de  ferro  de  Santo  Amaro  a  renda 
que  lhe  falta,  dobrando  a  actual  receita,  com  pouca 
despeza  administrativa,  ligando-se  a  actual  linha 
férrea  de  Santo  Amaro  á  industriosa  e  tuturosa 
villa  de  São  Francisco,  e  um  pequeno  ramal  para 
São  Sebastião,  duas  zonas  de  immensa  vantagem 
agricola  e  industrial,  zonas  importantes  e  que 
possuem  cerca  de  30  engenhos,  quasi  todos  em 
plena  actividade,  e  uma  relativamente  numerosa 
população,  cuja  grande  maioria  é  composta  de 
lavradores  muito  laboriosos  e  muito  instruidos. 

A  zona  das  terras  de  «tauá»  e  «massapé»  é  a 
jóia  mais  rica  que  o  Estado  possue,  e,  repito  o 
que  disse,  não  ha  no  mundo  inteiro  terras  milagrosas 
similhantes. 


Devo  ao  distincto  cavalheiro,  o  talentoso  e  mui 
estudioso  engenheiro,  Dr.  Gonçalves  Júnior,  a  grande 
fineza  de  informar-me  de  curiosíssimos  e  surpre- 
hendentes  phenomenos  produzidos  por  essas  mila- 
grosas terras,  que  provam,  com  toda  a  evidencia, 
quanto  é  difficil  de  saber  o  modo  e  a  causa  d'esses 
curiosos,  mas  inexplicáveis,  effeitos  geológicos,  que 
mais  pareceriam  lendas,  si  não  existissem  os 
seguintes  factos,  que  se  deram  na  zona  da  linha 
de  ferro,  em  1892. 


20 


Sendo  rigoroso  o  inverno  desse  anno,  o  intelli- 
gente  e  previdente  engenheiro,  onlio  director, 
percorreu,  certa  manhan,  o  trecho  de  Santo  Amaro 
a  Jacuipe,  afim  de  verificar  si  a  linha  se  achava 
em  boas  condições  e  voltou  na  hora  da  partida 
do  trem. 

Deu  ordem  para  o  trem  partir,  pois  que  tinha 
deixado  a  linha  desimpedida. 

Minutos  depois  da  partida  do  trem,  recebe  aviso 
de  que  este  tinha  parado  n3  logar  denominado 
Catacumba,  em  virtude  de  estará  linha  desmoronada* 
Foi  logo  ao  logar  e  qual  não  foi  o  seu  espanto  e 
admiração  ao  encontrar  um  pequeno  trecho  do 
leito  arqueado,  em   forma  de  um   monticulo. 

O  o  massapé»  havia  soífrido  o  mesmo  eífeito  que 
um  pão  lançado  em  agua:  inchou  e  cresceu  de 
volume. 

No  mesmo  anno,  sumiu-se  de  repente,  sem  deixar 
o  menor  vesiigio  uma  possante  e  profunda  muralha, 
construida  com  as  melhores  regras  da  arte,  pelo 
hábil  e  conhecido  engenheiro  austríaco  Júlio  Pinkas, 
no  logar  denominado  Catacumba,  nas  proximidades 
dos  engenhos  Macacos  e  Pindobeira. 

Um  bambuzal,  mandado  plantar  na  encosta  de 
um  aterro  pelo  engenheiro  Fernandes  Pinheiro, 
tem  sido  transportado,  pelo  incessante  e  mysterioso 
movimento  continuo  dessas  extraordinárias  terras» 
para  grande  distancia  e  continua  a  mudar-se  para 
o  fundo  do  valle  do  engenho  Pindobeira,  levado 
pelas  inquietas  terras   em  tempos  chuvosos. 

Julgo  difficilimo  explicar  a  causa  e  o  modo  por 
que  as  terras  produzem  phenomenos  tão  curiosos, 
que  são  grandes  enigmas  para  o  melhor  geólogo 
e  naturalista  e  digno  de  graves  e  prolongados 
estudos. 


30 


Pc»róm  é  certo  que  a  classificação,  dada  por 
notáveis  geólogos  estrangeiros,  denominando-as 
«topinaçio  cretácea»,  é  menos  exacta,  e  a  verda- 
deira existência  de  antigos  depósitos  de  lenhite, 
em  diversos  engenhos,  algumas  minas  de  ferro  em 
outros  pontos,  e  quasi  sempre  acompanhada  de 
chistos  nrgillosos  silicosos,  parece,  baseado  na 
iheoria  geral  das  terras,  que  a  zona  pertence  á 
formação  terciária  e  em  parte  também  quaternária; 
mas,  saber  e  dizer  a  verdadeira  e  completa  analyse 
destas  maravilhosas  e  realmente  mysteriosas  terras 
6  prematuro,  pois  ellas  prcduzem  phenomenos  tão 
surprehendentes,  que  embaraçam  o  espirito  do 
melhor  investiga'tor,  e  confesso  que  me  espantou 
encontrar  neste  mundo  terras  que  engolem  mura- 
lhas e  obras  feitas  de  alvenaria  grossa  e  cimentada, 
que  engordam  e  emmagrecem  ao  seu  bel  prazer, 
e  que  mandam  passear  os  valentes  bambuzaes,  sem 
licença  de  ninguém,  e  compromettem  também  a 
fama  e  o  saber  do  melhor  engenheiro  hydraulico, 
que  não  pode  vencer  estas  bravias  e  indomáveis 
terras. 

Bahia,  1901. 

Henrique  Praguer. 


l[rHntÍ$íD  ¥ilb$  k 


-A.3:,0-A.IIDB    ISOlÓ-R 


;tttip$ 


SÉCULO  XVII 

E'  incoQlestavtílmente  um  nome  de  trágica  tra- 
dição na  historia  colonial  da  Bahia  o  do  temido  e 
odiado  alcaide    raór  Francisco  Telles  de  Menezes. 

Evoca,  logo  que  se  o  pronuncia,  una  época  de  per- 
seguições e  de  vinganças,  uma  autoridade  desme- 
dida, um  orgulho  que  estimulava  todos  os  desman- 
dos, todas  as  arbitrariedades. 

Nobre  pelo  nascimento,  poderoso  pelas  allianças 
de  sua  familia  com  as  mais  illustres  e  antigas  da 
capital  do  vice-reino,  intangível  quasi  pela  sua  ele- 
vada posição  militar  e  civil  de  alcaide-mór  de  uma 
cidade  como  a  do  Salvador,  omnipotente  durante 
o  governo  de  António  de  Souza  Menezes,  «o  braço 
de  prata»,  o  soldado  brioso  das  longas  lulas  de  Per- 
nambuco, mas  sem  tino  politico,  sem  conhecimentos 
de  administração,  e  sem  talento  para  exercer  o 
cargo  para  que  o  nomeara  o  regente  de  Portugal, 
D.  Pedro,  em  1682,  tornara-se  Francisco  Telles  de 
de  Menezes  o  alvo  de  todos  os  ódios  e  de  todas 
as  revoltas  dos  mais  conceituados  moradores  e  fun- 
ccionorios  da  cidade,  fatigados  da  sua  ambição, 
feridos  dos  S3us  insultos,  deshonrados  pelas  suas 
accusjções  e  perseguições.  Anteriormente  á  época 
da  sua  influencia  directa  nas  cousas  da  Bahia,  en- 
contramos os  vestigios  do  seu  caracter  indomável, 
das  suas  inclinações  e  ambições  desregradas. 


32 


E  no  entanto  não  faltavam  serviços  rcaes  a  Fran- 
cisco Telles;  em  1652,  podendo  ler  18  annos,  veri- 
ficara praça  de  soldado,  e  daqiiella  data  á  de  1065 
como  alferes  e  capitào-mór  de  infanleria  achara- 
se  em  vários  recontros  com  os  inimigos  que  de 
continuo  surgião  nos  mares  e  no  recôncavo  da  Bahia. 
Não  lhe  faltavão  até  as  peripécias,  as  emoções, 
os  perigos  e  o  renome  de  ter  sido  roubado  e  feito 
prisioneiro  pelos  piratas  em  1659,  quando  o  navio 
que  o  levava  para  o  reino  fora  subitamente  atacado, 
saqueado  e  aprisionado,  ficando  captivo  dos  temi- 
veis  salteadores  do  mar,  que  o  levaram  para  a  Gal- 
lisa,  onde  permaneceu  longo  tempo  prisioneiro. 

De  volta  a  Portugal,  naturalmente  em  recom- 
pensa, D.  Aff  Miso  VI,  em  1664,  dera-lhe  uma  com- 
panhia de  ialanleria  de  Presidio  da  Bahia,  vindo 
logo  assumir  o  seu  commando. 

Governava  então  o  Brazil  com  o  titulo  de  vice- 
rei,  D.   Vasco  de   Mascarenhas,  conde  de  Óbidos.  . 

Parece  que  não  tardou  muito  que  c  então  capi- 
tão Francisco  Telles  dósse  signal  de  seu  gonio 
irrequiet»»  e  ambicioso.  No  seu  espirito  trabalhavam 
grandes  paixões  que  explodiram  finalmente  na  te- 
merária conspiração  tramada  para  depor  o  vice-rei, 
prendel-o  e  remettel-o  para  Portugal. 

Muito  poucus  são,  infelizmente,  os  dados  que 
nos  ministram  as  chronicas  -antigas,  os  monumen- 
tos que  guarda  o  nosso  Archivo,  a  tradição  colhida 
por  nossa  historia. 

Não  sabemos  também  a  data  precisa  da  conspi- 
ração; o  certo  é  que  de  1664,  anno  em  que  volta 
á  Bahia,  á  de  1667  em  que  deixou  o  governo  o  conde 
vice-rei,  Francisco  Telles  de  Menezes  auxiliado 
por  Lourenço  de  Brilto  Corrêa,  chamado  o  velho 
Queiroz,que  julgo  ser  António  de  Queiroz  Cerqueira, 


33 


cavalleiro  da  ordem  de  Chrislo,  capitão  pago  do 
regimento  velho,  e  Alvâro  de  Azevedo  que,  também 
por  cálculos  e  deducções  chronologicas,  me  parece 
ser  aquelle  de  quem  diz  um  historiador  que  servia 
bem  ao  rei  e  á  republica  e  que  por  seu  mereci- 
mento chegara  a  ser  mestre  de  campo  de  um  terço 
na  Bahia,  que  governara  interinamente  com  o  Chan- 
celler  e  António  Guedes  de  Britto,  por  morte  de 
Affonso  Furtado  de  Mendonça,  a  26  de  Novembro 
de  1675,  tenta  depor  o  vice- rei  por  motivos  desco- 
nhecidos. 

Por  mais  minuciosas  que  fossem  as  pesquizas 
relativas  aos  companheiros  de  Francisco  Telles 
nesta  conspiração,  nada  de  verdadeiro,  de  indiscu- 
tivel  encontramos;  na  época  a  que  nos  referimos  — 
não  figuram  outros  com  os  nomes  de  Queiroz  e 
Azevedo  além  <los  citados;  e  não  seria  de  estranhar 
que  esses  fossem  os  cúmplices  do  futuro  alcaide- 
mór,  pois,  companheiros  de  armas,  e  numa  socie- 
dade resumida  como  a  daquelle  tempo,  podiam  ter- 
se  conhecido,  comprehendido  e,  levados  pelo  mais 
emprehendedor  e  ambicioso,  projectassem  o  atten- 
tado. 

Houve,  porém,  um  traidor,  o  capitão  Damião  de 
Lançóes,  como  o  chama  um  chronista,  e  por  pre- 
mio da  revelação  foi  feito  sargento-roór. 

Francisco  Telles  de  Menezes  e  seus  cúmplices 
foram  immedialamente  presos,  seguindo  aquelle 
para  o  reino  na  frota  prestes  a  largar,  permane- 
cendo os  outros  nas  prisões  da  Bahia. 

Chegado  a  Portugal  o  principal  accusado,  valendo- 
se  das  suas  relações  e  dos  serviços  anteriormente 
prestados,  conseguiu  a  sua  soltura  e  que  o  seu 
processo  fosse  archivado. 

Foi  então  que  Francisco  Telles  comprou  a  Henri- 

R.  5 


34 


que  Henriques  de  Miranda  a  alcaidaria-mór  da  Bahia 
que  a  este  fora  dada  por  D.  AflFonso  VI,  por  Carta 
Regia  de  9  de  Abril  de  1666,  sendo  approvado  esse 
acto  pela  Carta  Regia  de  16  de  Março  de  1667. 

Coincidiu  quasi  a  sua  nomeação  com  a  termina- 
ção do  governo  do  conde  de  Óbidos,  que  foi  sub- 
stituido  pelo  velho  e  doente  Alexandre  de  Souza 
Freire,  em  13  de  Junho  de  1667. 

Com  este  governador  veio  novamente  Francisco 
Telles  á  Bahia,  provido  em  um  dos  mais  altos  e 
importantes  postos  do  Brazil,  e  do  qual  fez  preito  e 
homenagem  em  18  de  Junho  de  1667,  nas  mãos  do 
novo  governador,  como  vê-se  do  precioso  e  antigo 
livro  existente  no  Archivo  Publico. 

A  nova  dignidade  não  fez  senão  estimular  os  de- 
sejos de  vingan(;a  e  a  altivez  desmedida  do  nosso 
heroe. 

No  período  que  vae  de  1667  a  1682,  isto  é,  du- 
rante os  governos  de  Alexandre  de  Souza  Freire, 
do  visconde  de  Barbacena,  do  triumvirato  interino 
e  de  Roque  da  Costa  Barretto  pouco  se  ouve  falar 
no  temido  alcaide-mór;  apezar  disso,  porém,  se  o 
accusa  de  ter  instigado  um  seu  sobrinho  a  tirar 
represália  de  um  insulto  que  lhe  fizera  António  de 
Brito.  E  a  represália  foi  tremenda.  De  emboscada, 
ao  dirigir-se  António  de  Brito  com  seu  irmão  para 
o  Carmo,  foram-lhe  disparados  vários  tiros  de  ba- 
camarte, travando-se  lucta  tenaz  na  qual  sahiu  o 
aggredido  gravemente  ferido.  Foi  este  o  prologo 
de   um  drama  ainda  mais  sangrento. 

Como  era  natural,  sobre  o  alcaide-mór  recahiu 
a  censura  e  reprovação  geral  de  tal  attentado, 
principalmente  porque  António  de  Brito  Castro  era 
mui  liberal  e  geralmente  estimado.  Era  filho  do 
tenente-general  do   mesmo    nome,  cavalleiro    pro- 


S6 


fesso  na  ordem  de  Christo,  cujo  foro  herdou,  tendo 
vindo  como  capitão  na  armada  real,  no  anno  de 
1625,  no  navio  «Sâo  Bartholomeu»>,  comraandado 
por  Domingos  da  Camará  Pinto,  a  cmililar  contra 
os  hollandezes»).  Foi  ainda  o  tenente-general,  pelo 
seu  casamento  com  D.  Leonor  de  Brito,  provedor, 
cargo  que  recebeu  em  dote,  e  no  qual  foi  confir- 
mado pelo  alvará  régio  de  7  de  Maio  de  1640,  to- 
mando posse  em  12  de  Janeiro   de  1641. 

Como  vê-se,  era  uma  família  illustre  e  conceituada 
aquella  que    o  alcaide-mór    atacava    directamente. 

Isto  davâ-se  pouco  antes  de  ser  nomeado  gover- 
nador e  capitão  general  António  de  Souza  Menezes, 
conhecido  por  «Braço  de  Prata»,  em  1682.  Come- 
ça então  á  influencia  e  intervenção  fatal  de  Fran- 
cisco Telles  de  Menezes  nos  negócios  públicos  da 
Bahia. 

O  governador  e  o  alcaide-mór  conheciam-se  da 
Corte,  onde  intima  amisade  os  ligara,  sentimento 
esse  que  renovaram  e  que  serviu  de  base  a 
Francisco  Telles  para  dominar  completamente  o 
fraco  governador. 

Arbitro  da  sua  vontade,  com  a  mais  requintada 
perversidade  o  alcaide-mór  explorou  as  paixões 
do  seu  amigo  em  proveito  das  próprias,  começan- 
do então  a  época  do  terror  para  os  inimigos  do 
poderoso  valido  e  para  todos  aquelles  que  com  elles 
eram  aparentados. 

Os  mais  illustres  funccionarios  do  Estado,  aquel- 
les que  pelos  seus  serviços  ou  pelo  nome  que  usa- 
vam mereciam  a  consideração  e  a  estima  geral, 
esses  foram  as  primeiras  victimas  do  vingativo 
senhor. 

André  de  Brito  Castro,  provedor  da  Alfandega 
da  Bahia,  e  seus  irmãos,  principalmente  aquelle  An- 


36 


tonio  de  Brito,  atacado  e  gravemente  ferido  pelo 
sobrinho  do  alcaide-mór;  Gonçalo  Ravasco  Caval- 
canti de  Albuquerque,  tão  conceituado,  tão  illustre, 
pertencendo  a  uma  família  que  honrava  a  pátria, 
commendador  da  Ordem  de  Christo,  alcaide-mór, 
depois  de  seu  Pae,  da  cidade  de  Assumpção  do 
Cabo-Frio,  e  a  quem  devia  succeder  no  cargo  de 
secretario  de  Estado,  para  que  fora  nomeado  por 
D.  João  IV;  António  de  Moura  Rollira;  Manoel  de 
Barros  da  Franca;  João  Gomes  Carneiro,  escrivão 
da  camará;  o  da  fazenda  real  Francisco  Dias  do 
Amaral;  os  capitães  de  infanteriado  Presidio, Dio- 
go de  Souza  Camará  e  José  Sanches  de  Elpoço; 
eis  a  principal  lista  dos  condemnados,  eis  os  no- 
mes illustres  dos  proscriptos,  dos  presos,  dos 
marcados  com  a  cruz  á  tinta  vermelha  pelo  punho 
do  alcaide-mór. 

Com  a  chegada  do  novo  governador  que  se  sabia 
ser  intimo  de  Francisco  Telles,  o  temor  nascera 
em  todos  os  ânimos  ;  e  logo  que  André  de  Brito 
foi  privado  do  seu  cargo,  pela  devaça  e  apparente 
culpa  que  se  lhe  fez  ;  desde  que  Barros  da  Franca, 
vereador  do  senado  da  camará  foi  preso  na  enxo- 
via e  transferido  depois  para  a  fortaleza  do  Morro  ; 
desde  que  todos  os  acima  nomeados  foram  priva- 
dos dos  seus  cargos,  escapando  alguns  á  prisão 
por  se  terem  recolhido  ao  Collegio  dos  Jesuitas, 
um  rumor  surdo  de  oceano  encapellado  começou 
a  envolver  o  alcaide-mór,  uma  animosidade  cres- 
cente e  terrível  acompanhava  o  autor  de  todas  essas 
desgraças  que  promettiam  ir  ajém,  ferindo  a  todos, 
indistinctamente,  não  se  respeitando  o  mérito  eos 
serviços  nos  Ravascos,  a  farda  doexeicilo  em  Ca- 
mará e  Elpoço,  a  representação  do  senado  da  ca- 
mará em  Barros  Franca,  a  magistratura  suprema 


37 


no  desembargador  João  de  Couto  de  Andrade  re- 
fugiado corno  os  outros  no  collegio  da  Companhia, 
convertido  em  Asylo  Romano,  a  cujas  portas  pa- 
rou finalmente  a  acção  governamental^  a  vingança 
do  alcaide-mór. 

Essa  situação  horrenda  não  podia  continuar.  Â 
população  toda  pedia  no  intimo  das  almas  um 
vingador,  e  este  appareceu  em  António  de  Brito 
Castro,  aquelle  mesmo  que  conservava  como  uma 
religião  o  dever  da  represália,  e  que  tinha  por  es- 
timulo as  cicatrises  suggestivas  do  corpo. 

Francisco  Telles  estava  condemnado;  embora 
recebe  avisos  de  amigos  revelando  attentados;  quem 
se  atreveria  a  offendel-o  durante  o  governo  de  An- 
tónio de  Souza  Menezes,  a  elle,  a  segunda  auto- 
ridade do  Estado,  poderoso,  nobre  e  temido  ainda 
que  odiado? 

Póde-se  dizer,  porém,  que  o  momento  psycholo- 
gico  havia  chegado;  não  era  António  de  Brito  o 
assassino.  Era  a  Bahia,  pelo  seu  povo  representado 
em  todas  as  classes  opprimidas  que  armava  o  bra- 
ço do  mais  offendido  e  do  mais  forte.  Insensivel- 
mente, lentamente  os  successos,  as  vexações,  os 
crimes,  tinham  preparado  esse  desenlace  fatal,  ti- 
nham marcado  o  dia,  escolhido  o  monrento,  armado 
do  punhal  libertador  a  mão  de  um  representante 
inconsciente  talvez  da  vontade  e  da  aspiração  da 
multidão.  E  nada  poderia  salvar  o  alcaide-mór.  No 
dia  do  crime  recebe  uma  carta  pedindo-lhe  que 
não  sahisse  á  rua;  mostra-a  ao  governador,  que 
treme  por  sua  vida  c  offerece-lho  escoltas,  guardas, 
que  são  regeitadas  com  orgulho,  e  altivo,  e  cora- 
joso desce  as  escadarias  do  Palácio  e  reclina-se 
mudo  e  arrogante  na  sua  serpentina  dourada  e 
desapparece  sob  as  cortinas  lavradas    de    brocado 


38 


da  índia.  Os  lacaios,  levando  nas  vestes  as  cores 
das  armas  do  poderoso  amo,  levam-no  e  escoltam- 
no,  através  da  Praça  antiga  de  Palácio,  tão  diver- 
sa do  que  hoje  é,  e  encarainham-se  para  a  rua  di- 
reita atrás  da  Sé,  onde  subitamente  foram  atacados 
por  oito  homens  mascarados  que  dispararam  três 
ou  quatro  bacamartes,  matando  um  lacaio  e  ferin- 
do outros. 

A  serpentina  foi  abandonada  e  para  ella  avan- 
çou António  de  Brito  que  arrancara  da  mascara 
para  matar,  a  rosto  descoberto  e  ^om  honra,  o  ar- 
rogante alcaide-mór,  que  procurava  erguer-se  e 
que  sentiu  naturalmente  o  sangue  gelar-se-lhe  ao 
vôr  a  face  pallida  e  resoljuta  de  seu  immortal  ini- 
migo por  entre  as  cortinas  de  brocado  da  índia, 
que  as  mãos  tremulas  e  frias  de  António  de  Brito 
apartavam  em  procura  do  poderoso  valido,  em 
quem  o  vingador  cravou  profundamente  o  punhal. 
Levado  moribundo  para  sua  residência  falleceu  na 
tarde  do  mesmo  dia. 

Lentamente,  descoberto,  acompanhado  pelos  seus 
companheiros  que  se  conservaram  mascarados,  se- 
guiu António  de  Brito  até  o  Collegio  dos  Jesuí- 
tas, onde  se  recolheu. 

Não  tardou  o  governador  em  ter  noticia  do  inau- 
dito attentado  e  á  sua  colora  só  egualou  a  sua 
dôr  pela  perda  incomparável  do  amigo  caríssimo. 

Dominou-o,  nesses  momentos,  o  coração  e,  a  com- 
postura perdida,  praticou  actos  violentos,  lançando 
na  enxovia  ao  secretario  de  Estado,  o  velho  res- 
peitabilissimo  Bernardo  Vieira  Ravasco,  cercando 
estreitamente  a  casa  de  André  de  Brito  e  o  CoUe- 
gio   de  Jesus. 

Insultou  e  appellídou  de  cobardes  aos  seusoffi- 
ciaes  e  não  sabemos  o  termo   da  explosão  do  seu 


39 


sentimento  si  a  Corte  Portugueza  conhecedora  da 
situação  nâo  o  fizesse  substituir  por  D.  António 
Luiz  de  Souza  Telles  de  Menezes,  Marquez  das 
Minas,  em  1684. 

Logo  após  a  morte  de  Francisco  Telles  de  Menezes, 
em  1683,  o  governador,  querendo  dar  ainda  uma 
prova  de  quanto  lhe  fora  caro  o  amigo  que  per- 
dera, e  usando  das  attribuições  que  tinham  os  de 
sua  qualidade  e  posição,  nomeou  para  substituir 
o  alcaide-mór  fallecido  ao  irmão  deste,  A'itonio 
Telles  de  Menezes,  por  Carta  Patente  de  20  de 
Junho  daquelle  mesmo  anno. 

Nesse  documento  vê-se  o  desejo  do  governador 
de  salienlar  os  méritos  do  escolhido,  procurando 
tornar  natural  a  nomeação  e  successão  na  alcai- 
daria-mór  do  irmão  do  funccionario  fallecido,  des- 
tacando os  seus  serviços  como  capitão  de  infan- 
teria  da  ordenança  do  districto  de  Paripe,  na  con- 
quista do  gentio  do  recôncavo  e  como  soldado, 
alferes  e  capitão.  Aos  30  de  Junho  do  mesmo  anno 
nas  mãos  do  governador  fez  elle  preito  e  home- 
nagem daquelle  alto  cargo. 

O  Marquez  das  Minas,  ao  assumir  o  governo  do 
Estado,  fez  soltar  todas  as  victimas  injustamente 
presas,  acalmar  os  ânimos,  restabelecer  a  paz. 

Dizem  as  chronicas  antigas  que  o  infeliz  Antó- 
nio de  Brito  andou  muitu  tumpo  homisiado.  An- 
tónio Telles  partira  para  Portugal  a  queixar-se  do 
assassinato  do  irmão,  gastando  nisso  os  seus  ha- 
veres e  voltando  à  Bahia  onde  acabou  mui  pobre, 
tendo  perdoado  a  António  Brito,  em  Portugal,  a 
pedido  de  D.  João  de  Lancastre  que,  em  1692, 
voltara  do  governo  de  Angola  e  que  já  estava  in- 
dicado para  governar  o  Brazil,  como  etTectivamente 
o  fe/.,  em  1694. 


40 


D.  Pedro  II  perdoou  igualmente  ao  infeliz  assas- 
sino do  alcaide-mór  a  pedido  do  Pontifice  Inno- 
cencio  XII  que,  por  sua  vez,  queria  comprazerão 
Grão  duque  de  Florença  e  ao  cardeal  d'Este  que 
lh'o  tinham  solicitado. 

Poude,  finalmente,  em  1694,  após  11  annos  de 
desterro,  voltar  á  Bahia,  onde  falleceu  em  1699, 
António  de  Brito  Castro. 

Archivo  Publico,  1900. 

Innocencio  Góbs. 


EPHEMERIDES  CACHOEIRANÂS 

POR 

Aristides  A.  Milton 

V  de  Dezembro 

— Em  1889,  se  começou  a  executar  n'esla  cidade 
6  na  freguezia  de  S.  Félix,  lioje  cidade  também, 
a  postura  municipal,  que  prohibe  enterramentos 
nas  egrejas. 

Custou  muito,  entretanto,  que  fosse  adoptada 
similhante  medida,  reclamada  aliás  pela  hygiene 
e   pela  civilisação. 

Quando  os  pequenos  povoados  possuiam  já  seus 
cemitérios,  em  que  eram  todos — indistinctamonte — 
sepultados,  Cachoeira  e  S.  Félix  toleravam  ainda 
as  inhumações  nos  templos.  E  estas  eram  feitas 
com  uma  solemnidade  profundamente  lúgubre,  por 
noite,  ao  clarão  de  muitas  toclias,  e  dobre  de  vários 
sinos. 

Até  à  data  que  ora  recordo,  os  cemitérios  aqui 
existentes,  excepto  o  acatholico,  serviam  para  des- 
canso apenas....  de  indigentes. 

Não  obstante,  a  carta  régia  de  11  de  Janeiro  de 
1801  tinha  já  prohibido  as  inhumações  dentro  de 
egrejas  e  capellas. 

O  preconceito,  portanto,  Iutt»u  com  a  lei  por  es- 
paço de  quasi  um  século! 

Eis  porque  o  povo  brazileiro,  apezar  de  nâo  pa- 
recer, é  na  lealidade  um  povo  eminentemente 
conservador. 

R.  6 


42 


2  de  Dezembro 

— Em  1845,  o  rio  Paraguassú,  transbordando,  mais 
uma  vez  espraiou-se  pelas  ruas  doesta  cidade,  e 
de  S.  Félix. 

Passados  poucos  dias,  as  aguas  voltaram  ao  seu 
leito;  mas,  a  23  tornaram  a  sobrepujal-o,  si  bem 
que  declinassem  logo  depois;  finalmente,  horas 
após  de  novo  subiram  para  baixar  dentro  em  pouco. 

Assim,  n'esse  mez  o  Paraguassú  teve  tros  cheias^ 
com  todos  os  inconvenientes  e  prejuízos,  que  en- 
tão sóe  acarretar  ás  populaí;ões  ribeirinhas. 

—Em  1851,  houve  uma  explosão  de  pólvora,  em 
casa  de  José  António  Pimenteira,   nesta  cidade. 

O  facto  occorreu  ás  7  horas  da  noite,  e  além 
dos  damnos  materiaes,  causou  a  morte  da  mulher  de 
Pimenteira,  bem  como  a  de  um  operário  seu,  victi- 
mas  ambos  de  queimaduras  do  primeiro  grau. 

—Em.  1876,  foram  officialmente  inaugurados  o 
trafego  do  ramal  da  Feira  de  SanfAnna,  e  os 
trabalhos  do  viaducto  do  Batedor,  no  ramal  da  es- 
trada de  ferro  Central   da  Bahia. 

O  viaducto  referido  tem  55  metros  de  comprimentOf 
9  de  altura  das  columnas,  27  48  centímetros  de 
altura  total  do  primeiro  pilar,  26  e  1  centimetro  do 
segundo,  e  18  metros  e  13  centimetros  da  primei- 
ra escarpa. 

3  de  Dezembro 

— Em  1822,  o  Conselho  interino  do  governo  da 
Bahia,  cuja  sôde  era  aqui,  resolveu  crear  uma  li- 
nha de  correio,  por  paradas,  para  o  Rio  de  Janeiro. 

Assim,  o  estafeta  respectivo  ia  d'esta  cidade, 
então  villa,  até  ao  arraial  do  Tijuco  (  hoje  cidade 


43 


de  Diamantiaa),  em  Minas  Geraes,  a  encontrar  o 
correio  de  Villa-Rica  (presentemente  cidade  de 
Ouro-Preto);  e  d'ahi  seguia  enlao  para  o  Rio. 
Na  mesma  data,  foram  expedidas  as  insírucçôes, 
necessárias  para  esse  serviço. 

—No  dicto  anuo,  o  general  P.  Labatut,  commu- 
nicando  ao  supradirto  Conselho  os  feitos  que,  dos 
pontos  de  Itapoan,  tinha  a  tropa  brazileiía  realisa- 
do  sobre  o  forte  de  S.  Pedro;  enviou-lhe  a  rela- 
ção dos  presos,  durante  essa  façanha  tomados  a 
uma  jangada  pelo  coronel  Felisberto  Gomes  Cal- 
deira. 

Sem  contar  esses  [)resos,  foram  feridos  muitos 
luzitanos,  e  sete  ficaram  mortos  no  campo  da  acção. 

4  de  Dezembro 

— Em  1704,  o  Governo  ordenou  ajs  ofRciaes  da 
camará  doesta  cidade,  então  vill.i.  que  fizessem 
prender  e  guard.ir  na  cadeia  todos  os  atravessa- 
dores, que  compranam  farinha  de  mandioca  para 
revendel-a  por  mais  da  taxa. 

Como  se  está  vendo,  a  luta  com  o  monopólio 
vem  de  muito  longe. 

—Em  1822,  o  general  P.  Labatut  se  dirigiu— 
por  officio—ao  Conselho  interino  do  governo  da 
Bahia  cuja  sede  era  aqui,  se  queixando  da  falta 
de  satisfação  aos  seus  pedidos  ;  e,  ao  mesmo  tem- 
po, lhe  dando  conta  dos  feitos  praticados  em  Pi- 
rajá,  no  dia  anterior,  disse— que  «lhe  constava 
terem  os  cônsules  estrangeiros  ido  para  bordo  de 
navios  de  guerra  das  suas  resi)eclivas  nações,  e 
reinar  grande  desgjsto  na  cidade  da  Bahia  ». 

— Em  1822  também,  o  mencionado  Conselho,  offi- 
ciando  ao  alludidr»  general   sobre    a    nomeação  de 


44 


commandante  das  armas  d*esta  cidade,  então  villa, 
exigiu— que  se  procurasse,  em  casos  taes,  o  ac- 
cordo  prévio  do  mesmo  Conselho. 

— Em  I8â4,  o  lenente-coronol  Rodrigo  António 
Falcão  Brandão  foi  nomeado  commandante  de  po- 
licia, em   todo  termo  desta  cidade,  então  villa. 

Além  das  attribuições  concernentes  á  manuten- 
ção da  ordem  pnblica,  o  tenente-coronel  Rodrigo 
Brandão,  cujo  patriotismo  e  actividade  a  ninguém 
pediam  meças,  foi  encarregado  de  inspeccionar  a 
força  de  linha  aqui  destacada. 

— Em  1837,  a  camará  municipal  doesta  cidade  re- 
cebeu um  oflScio,  em  que  o  secretario  do  governo 
da  provincia  lhe  communicava  que,  a  30  do  mez  an- 
terior, os  rebelde?  da  Sabínada  haviam  atacado  o 
acampamento  do  Pirajá,  sendo  porém  repellidos 
com  grandes   perdas. 

Das  forças  legaes,  que  tinham  feito  sete  prisio- 
neiros, apenas  um  soldado  ficara  fora  de  combate. 

O  presidente  da  provincia  pernoitara  no  enge- 
nho Cabrito. 

—  Em  1879,  falleceu  na  freguezia  da  Moritiba, 
onde  morava,  o  tabellião  do  termo  d'esta  cidade  — 
Frederico  José  da  Cunha,  que  era  homem  inoffen- 
sivo  e  bom. 

—  Em  1889,  talleceu  também,  na  villa  da  Puri- 
ficação de  cuja  comarca  era  juiz  de  direito— o  nosso 
conterrâneo  Dr.  Inno'jencio  de  Almeida,  contando 
54  annos  de  edade. 

Fora  chefe  de  policia,  interino,  da  provincia,  hoje 
Estado. 

— Em  1891,  íinou-se  em  Pariz  L).  Pedro  de  Al- 
cântara, que  fora  o  segundo  e  derradeiro  impera- 
dor do  Bra7il.  Nascera  a  2  de  Dezembro  de  1825. 
A  28  de  Julho  lie  1840,  subira  ao  ihrono  donde  a 
revolução  de  15  de  Novembro  de  1889  o  derribara. 


ib 


Honesto  e  patriota,  D.  Pedro  teve  um  reinado 
feliz,  que  se  tornaria  de  certo  glorioso  si  sua 
magestade  não  desconfiasse  tanto  dos  homens  de 
seu  tempo,  e  preferisse  as  altas  cogitações  da  po- 
litica ao  estudo  poeiico  dos  astros. 

Em  todo  o  caso,  D.  Pedro  foi  muito  accusado  de 
exercer  o  poder  pessoal,  e  nos  últimos  dias  do  seu 
governo  não  faltou  quem  exagerasse  o  estado  de 
sua  mentalidade  para  fazel-o  passar  como  instru- 
mento passivo  nas  mãos  de  seu  genro,  e  de  um 
medico  de  sua  imperial  caiKiara. 

Falou-se  mesmo,  sem  rebuço,  n'uma  certa  con- 
spiração, tramada  no  próprio  paço,  com  o  fim  de 
obter  a  abdicação  do  velho  monarcha,  em  favor 
da  princeza  D.  Izabel. 

E'  occasião  de  assignalar— que  a  revolução  trium- 
pliante  tratou  o  ex-imperador  com  iodas  as  de- 
ferências, possiveis  no  momento;  e  que  na  Con- 
stituição da  republica  foi  votada  uma  pensão  para 
elle,  que  entretanto,  por  escrúpulos  muito  louvá- 
veis e  dignos,  não  a  quiz  acceitar. 

Os  restos  morlaes  de  D.  Pedro  jazem  ao  lado 
dos  de  seus  illuslres  avoengos,  em  Portugal. 

— Em  1892,  foi  sepultado  na  cidade  de  Caldas, 
Estado  de  Minas-Geraes,  onde  se  achava,  o  Dr. 
Gregório  Mauricio  Bellas,  que  era  natural  d*esta 
cidade. 

Homem  de  talento  o  de  acção,  se  linha  formado 
primeiramente  em  [)harmacia,  e  de|)OÍs  em  medi- 
cina, pela  Faculdade  do  Rio  de  Janeiro. 

Começara  sua  vida  como  caixeiro  de  uma  casa 
commercial  aqui,  e  tão  á  sua  tenacidade  e  ao  seu 
mérito  deveu  a  conquista  do  grau  scientifico  de 
que  se  exornava. 

Contava  apenas  38  annos  de  edade. 


46 


5  de  Dezembro 

—Em  1697,  chegou  á  Bahia  D.  João  Franco  de 
Oliveira,  bispo  que  presidiu  esta  diocese  ató  28  de 
Agosto  de  1707,  quando  partiu  para  Lisboa,  por  ter 
sido  removido  para  o  bispado  de  Miranda. 

Foi  elle  quem  creou  a  freguezia  de  Nossa  Se- 
nhora do  Rosário,  desta  cidade ;  e  o  primeiro  pre- 
lado que  realizou  penosa  viagem  pelo  sertão,  chris- 
mando  a  esse  tempo  para  cima  de  40.000  pessoas. 

Por  tão  valioso  servi(;o,  D.  João  recebeu  do  con- 
cilio de  Trento  merecido  elogio. 

—  Em  1822,  fel  creada — por  carta  imperial— uma 
junta,  que  succedeu  ao  Conselho  de  governo,  in- 
stalado n'esta   cidade,  então  villa,  com  o  fim  de  de- 
fender   a    independência  nacional,    promovendo    a 
prompta  expulsão  das  tropas  portuguezas. 

Essa  junta  provincial,  lendo  tomado  posse  em 
Junho,  só  se  dissolveu  depois  que  o  general  Ma- 
deira de  Mello,  a  2  de  Julho  de  1823,  se  retirou 
da  provincia,  com  as  torças  de  seu  commando. 

E  ella  era  composta  por  Francisco  Elesbão  Pi- 
res de  Carvalho,  (depois  barão  de  Jaguaripe),  pre- 
sidente ;  Joaquim  José  Pinheiro  de  Vasconcellos, 
dr.  (  depois  barão  de  Mont-Serratt ),  secretario  ; 
Joaquim  Ignacio  de  Siqueira  Bulcão,  (  depois  ba- 
rão de  S.  Francisco)  ;  José  Joaquim  Moniz  Bar- 
retto  de  Aragão,  (depois  barão  de  Itapororocas  )  ; 
António  Augusto  da  Silva,  dr.  (  depois  desembar- 
gador da  Relação  da  Bahia);  Manuel  Gonçalves 
Maia  Bittencourt  e  coronel  Felisberto  Gomes  Cal- 
deira. 

—Ainda  em  1825,  o  imperador  expediu  um  aviso, 
mandando  que  a  villa   de  Sant'Anna    do    Catii,    e 


47 


todas  as  da  comarca  de  Jacobina  se  unissem,  quanto 
ames,  ao  governo  que  fora  estabelecido  aqui  na 
Cachoeira,  capital  interina  da  província,  e  onde 
portanto  se  deveria  apurar  a  eleição  de  um  go- 
verno provisório,  composto  de  sete  membros,  que 
na  mesma  data  ticava  marcada  ;  salvo  si  já  então 
«  a  cidade  da  Bahia  estivesse  livre  de  seus  bár- 
baros inimigos  ». 

—Em  1837,  o  coronel  Rodrigo  António  Falcão 
Brandão  dirigiu-se — por  officio — ao  presidente  da 
provinda,  asseverando-lhe— que  na  Feira  de  Sant- 
Anna  v<  não  havia  senão  intrigas  e  algtms  descon- 
tentes »  ;  dando  assim  a  entender — que  nada  se 
tinha  a  receiar  pela  ordem  publica. 

Nove  dias  depois,  porém,  o  mesmo  patriota  con- 
fessou— que  recebera  aviso  de  ter  Hygino  Pires 
Gomes,  adepto  da  Sabinada,  constituído  um  gran- 
de partido  dentro  d'aquella  localidade,  ao  qual  — 
com  surpresa  de  muita  gente— pertenciam  juizes 
de  paz  e  camaristas,  dispostos  a  coadjuvar  os  re- 
beldes, no  caso  de  abandonarem  estes  a  Bahia, 
acossados  pelas  tropas  legaes. 

—Em  1837,  também,  foi  publicada  a  proclama- 
ção, que  o  commandante  das  armas  rebelde — Sér- 
gio José  Velloso  dirigiu  aos  seus  subalternos. 

D'esse  documento  se  colhe— que  o  verdadeiro  fim 
da  Sabinaday  conforme  já  íiz  ver  aliás,  era  a  sepa- 
ração da  Bahia,  s6  durante  a  menoridade  do  im- 
perador Pedro  II. 

6  de  Dezembro 

— Em  1899,  foi  organizada  a  relação  dos  juizes 
de  direito,  que  tôm  servido  n*esta  comarca  da  Ca- 
choeira, a  contar  da  promulgação  do  Código  do 
processo  criminal. 


48 


E'  a  seguinte  : 

lo  Dr.  Innocencio  Marques  de  Araújo  Góes,  (de- 
pois Barão  de  Araújo  Góes ) ;  2^  Dr.  Manuel  Joaquim 
Bahia  ;  3°  Dr.  António  Ladisláu  de  Figueiredo  Ro- 
cha; 4°  Dr.  Policarpo  Lopes  de  Leão ;  5<*  Dr,  Igna- 
cio  Carlos  Freire  de  Carvalho  ;  6°  Dr.  Domingos 
Ribeiro  Folha  ;  7^  Barão  de  Anadia  ;  8<*  Dr.  Da- 
niel Luiz  Rosa  ;  9^  Dr.  Manuel  Alves  de  Lima  Gor- 
dilho;  10.  Dr.  Joaquim  José  de  Oliveira  Andrade; 
11.  Dr.  António  José  de  Castro  Lima;  12.  Dr.  Hor- 
mino  Martins  Curvello;  13.  Dr.  José  Machado  Pe- 
dreira ;  14.  Dr.  Joaquim  António  da  Silva  Carvalhal. 

D'estes  o  Dr.  Castro  Lima  serviu  até  ao  fim  da 
monarchia,  e  nos  primeiros    annos    da    republica. 

7  de  Dezembro 

— Em  1837,  o  Coa^titucional  Cachoeirense  narrou 
minuciosamente  o  ataque,    dirigido  pelos  rebeldes 
da  Sabinada  contra  os  pontos    fortificados    de  Ca- 
brito, e  Campina. 

As  forças  revolucionarias  montavam  a  900  praças, 
e  de  300  era  a  força  legal,  que  defendia    Cabrito. 

Ahi  se  achava  um   piquete  de  20  homens  da  ex- 
pedição d*esta   cidade,  commandada    pelo  tenente 
José  Raymundo  de  Figueiredo  Branco. 

Em  Campina,  estava  uma  guarnição  de  60  praças 
do  corpo  de  policia,  sob  as  ordens  do  major  José 
da  Rocha  Oalvâo,  cachoeirano  do  comprovada  bra- 
vura. 

Coube  á   legalidade  a  victoria,  em  toda  a  linha. 

— Em  1900,  falleceu  n*esta  cidade  o  Dr.  Henri- 
que Alvares  dos  Santos,   com  72  annos  de  edade. 

Era  natural  da  capital  do  Estado,  e  residia  aqui 
a  muito  tempo. 


49 


Clinicava,  e  publicou  vários  jornaes,  todos  po- 
rém de  vida  ephemera. 

8  de  Dezembro 

—Em  1822,  o  tenente  João  Francisco  de  Oliveira 
Bottas,  que  d'es1a  cidade,  então  villa,  havia  sido 
mandado  pelo  governo  provisório  á  ilha  de  Itapa- 
rica,  afim  de  organisar  uma  força  na/al,  conseguiu, 
felizmente,  pôr  a  salvo  18   barcos  e  lanchas. 

Estas  embarcações  estavam  no  porto  de  Cote- 
gipe,  carregadas  de  mantimentos,  com  destino  às 
tropas,  que  se  batiam  pela  independência  nacional. 

O  tenente  João  Bottas  teve  que  aífrontar  um 
alentado  fogo  de  parte  da  esquadra  portugueza, 
composta  da  escuna  «  Emilia  d,  brigues  «Audaz», 
e  «  Promptidão  »,  duas  grandes  barcas,  oito  canho- 
neiras, e  mais  alguns  lanchões. 

—Em  1876,morreu  n^esta  cidade, de  onde  era  filho, 
o  tenente-coronel  Fructuoso  Gomes  Moncorvo, 
abastado  capitalista,  que  fora  negociante,  tanto 
aqui,  como  na  capital  do  Estado,  então  provincia. 

Tinha  exercido  vários  cargos  públicos,  entre  os 
quaes  o  de  vereador  da   Camará  Municipal. 

Chegou  a  ser  o  homem  mais  rico  do  municipio. 
Seus  herdeiros,  porém,  não  poderam  conservar 
essa  fortuna. 

9  de  Deitembro 

—  Em  1864,  em  festejo  á  Nossa  Senhora  da 
Lapa,  houve  em  São  Félix  quinze  dias  seguidos 
de  mascaras  á  pé! 

Ainda  hoje,  quer  n*aquella,  quer  n'esta  cidade, 
muitas  festas  de  egreja  sâo  precedidas  d'esse  singu- 

R.  7 


50 


lar...  divertimonto.  Mas,circumstancia  digna  de  nota, 
pelo    carnaval  quasi    ninguém    a  toma    careta  x>,    á 
excepção  das  pessoas,  que  fazem  parte  dos  «clubs». 
Bem  original.  .  . 

—  Em  1889,  o  arcebispo  da  Bahia  fez  expedir 
uma  «portaria»,  prohibindo  que  se  fizessem  as 
lavagens  de  egrejas  com  a  solemnidade  então  em 
moda. 

Uma  porção  de  mulheres,  pertencentes  em  regra 
á  classe  baixa,  levando  á  cabeça  potes  enfeitados, 
precedidas  de  musica  e  queimando  foguetes,  per- 
corria as  ruas,  entoando  a  chulas »,  e  erguendo 
acclamações  e  «vivas». 

Com  o  correr  dos  tempos,  essa.  . .  festa  assumira 
proporções  de  uma  bacchanal. 

Para  maior  desgraça  ainda,  as  «  lavagens»,  nesta 
cidade,  chegaram  a  ser  feitas  á  sombra  de  parti- 
dos, que  quasi  se  engalfinhavam  por  amor  de  tão 
grande  extravagância,  a  que  não  era  extrànha  a 
politica  local  I 

Apezar  da  0  portaria  »  prohibiliva  do  arcebispo, 
ha  logares  onde  ainda  hoje  «as  lavagens»  continuam 
com  o  mesmo  ardor  e.  .  .  brilho  de  outr'ora. 

10  de  Dezembro 

—  Em  1704,  D.  Rodrigo  da  Costa,  que  então  nos 
governava,  accusando  a  recepção  da  carta,  em  que 
a  camará  d'esta  cidade,  villa  a  esse  tempo,  lhe 
havia  communicado  a  descoberta  das  minas  do 
Serro-frio  (Minas-Geraes) ,  que  pertenciam  á  Bahia 
«  por  ficarem  para  a  parte  do  rio  São  Francisco  », 
ordenou  á  mesma  camará— «que  impedisse  os 
descobrimentos  de  minas,  que  estivessem  nos  ser- 
tões da  jurisdicção  de  saa  capitania  ». 

Que  estadistas  e  que  patriotas,  .  . 


51 


—  Em  1822.  o  Conselho  interino  do  governo  da 
Bahia,  cuja  sede  era  nesta  cidade,  então  villa, 
recebeu  communicação  da  camará  de  Porto-Seguro. 
acerca  de  uma  rebellião  de  Índios,  que  lá  irrom- 
pera contra  a  causa  do  Brazil,  e  fora  excitada  pelos 
portuguezes. 

Felizmente,  a  cousa  não  teve  consequências. 

—  Em  1852,  foi  sepultado  o  capitão  Manuel  José 
da  Silva  Lemos,  portuguez  de  nascimento. 

Era  negociante,  e  se  casara  n'esta  cidade,  por 
cujo  progresso  bastante  se  interessava. 

A  seus  esforços  devemos  o  «sino  grande»  da 
egreja  Matriz,  que  elle  mandou  vir  de  Lisboa, 
quando  serviu  de  juiz  da  festa  do  Santissimo  Sacra- 
mento. 

11  de  Dezembro 

—  Em  1822,  foi  publicado  um  decreto  do  Go- 
verno imperial,  mandando  «pôr  em  effectivo  se- 
questro os  bens  e  propriedades  dos  súbditos  do 
rei  de  Portugal,  existentes  em  poder  de  negociantes 
do  império  ». 

O  acto  do  governo  de  sua  magestade  causou 
grande  reboliço  entre  a  população  doesta  cidade, 
então  villa,  onde  era  extensa,  e  simultaneamente 
opima,    a  propriedade  pertencente  a  portuguezes. 

A  28  de  Janeiro  seguinte,  o  Conselho  interino 
do  governo  da  Bahia,  cuja  sede  era  aqui,  mandou 
cumprir  o  citado  decreto. 

—  Em  1864,  foi  lançada  a  primeira  pedra  para 
construcção  do  cemitério  da  irmandade  do  Rosário, 
ao  Monte-formoso,  d*esla  cidade. 


52 


12  de  Dezembro 

— Em  1822,  o  Conselho  acima  indicado  se  dirigiu, 
por  officio,  aos  ouvidores  da  Cachoeira,  Ilhéus,  Ser- 
gipe d'El-Rei,  e  Jacobina,  para  que  participassem  ás 
camarás  e  justiças  respectivas  a  solemne  acclamação 
do  príncipe  D.  Pedro, como  Imperador  constitucional 
do  Brazil,  effectuada  a  12  de  Outubro  do  mesmo 
anno,  no  Rio  de  Janeiro. 

— Em  1847,  ás  7  horas  da  noite,  foi  ferido  por  um 
tiro,  que  lhe  dispararam  traiçoeiramente,  o  Dr, 
Carolino  Francisco  de  Lima  Santos,  que  nascera 
e  clinicava  n'esta  cidade. 
Empregaram  na  viclima  24  caroços  de  chumbo. 
O  Dr.  Carolino,  entretanto,  se  restabeleceu ; 
mas  transferiu  logo  sua  residência  para  Pernam- 
buco, donde  muitos  anãos  depois  passou-se  para 
o  Rio  de  Janeiro. 

O  crime  foi  motivado  por  questões  de  imprensa 
partidária,  que  n*aquella  época  se  limitava  a  uns 
pasquins  pornographicos  de  baixo  quilate. 

—  Em  1883,  fallecen  em  Nicteroy,  Estado  do 
Rio  de  Janeiro,  o  Dr.  Augusto  Teixeira  de  Freitas,  o 
«  Cujacio  brazileiro  ». 

Nascera  nesta  cidade,  então  villa,  a  19  de  Janeiro 
de  1817,  e  teve  por  progenitores  o  barão  e  a  baro- 
neza  de  Itaparica. 

Em  1837,  tomara  o  grau  de  bacharel  em  sciencias  . 
.sociaes  e  jurídicas  peia  academia  de  Olinda,  e,  nesse 
mesmoanno,  viu-se  envolvido  na  «  Sai)inada)),  pelo 
que  foi  processado  send»)  porém  absolvido  polo  jury 
da  Bahia,  em  25  de  Janeiro  de  1839». 

Tendo  transferido  seu  domicilio  para  a  cidade 
do  Rio  de  Janeiro, em  breve  conseguiu  lirmar  invejá- 
vel reputação,  como  advogado  e  jurisconsulto. 


53 


A'  historia  do  direito  civil  brazileiro  estai  sem 
contestação,  ligado  o  nome  do  immortal  cachooirano 
que,  em  1858,  pnblicou  a  1.**  edição  de  sua  im- 
portantissima  obra  «  Consolidação  das  Leis  Civis», 
tazendo-a  seguir  por  outras  de  não  menor  valia. 

Sendo  escolhido,  em  1859,  para  redigir  o  «Projecto 
do  Código  Civil  Brazileiro»,  apresentou  o  seu  notável 
w Esboço  do  Código  Civil»),  que  —em  grande  parte  — 
serviu  de  modelo  ao  Código  civil  Argentino,  con- 
fo^^me  confessa  Velez  Sarsfeld;  e  ao  Código  civil 
do  Uruguay,  por  cuja  commissão  revisora  foi  con- 
siderado como  «o  trabalho  mais  notável  de  codi- 
tícaçáo,  por  sua  extensão,  e  pelo  estudo  e  meditação 
que  revela. « 

Mas,  tendo  o  Dr  Teixeira  de  Freitas  desistido 
de  apresentar  o  Codigc.  foi  rescindido  o  seu  con- 
tracto,  em  18  de  Novembro    de  1872. 

Suppõe-se — que  o  motivo  desse  alvitre  fo»am 
as  idéas,  concebitias  pele  jurisconsulto,  e  repellidas 
pelo  governo,  de  organizar-se  dois  Códigos,  um 
geral,  e  outro  especial,  e  refundir  o  Código  com- 
mercial  no  civil.  A  primeira  delias,  comtudo^  está 
proclamada  por  jurisconsultos  europeus  como  ver- 
dade já  victoriosa;  e  a  segunda  conta  presente- 
mente, na  Itália,  defensores  de  nomeada  e  \alor. 

O  retrato  do  Dr.  Teixeira  de  Freitas  figura  no 
«Instituto  da  Ordem  dos  Advogados»,  do  Rio  de 
Janeiro,  c  no  «  Tribunal  de  Appellação  e  Revista  da 
Bahia»;  e  provavelmente  ha  de  ser  collocado  em 
muitos  outros  legares,  como  significativa  h(jmena- 
gem  de  admiração  e  apreço,  devida  ao  saber  do 
preclaro  cachoeirano. 

O  Conselho  Municipal  desta  cidade,  por  proposta 
do  Dr.  A.  Milton,  mandou  collocar  uma  lapide  com- 
raeraorativa  no  prédio,  onde  aqui  nasceu— para 
honra  do  Brazil—  o  eminente  bahiano. 


54 


—  Em  1886,  falleceu  em  São  Félix  o  tenente- 
coronel  João  Baptista  Pamponet,  que  ali  possuia 
antiga  e  acreditada  pharmacia. 

Deixou  fortuna  regular. 

O  tenente-coronel  Pamponet  servira  sempre  cor- 
rectamente diversos  cargos  públicos,  e  chegara  aos 
80  annos  de  edade. 

13  de   Dezembro 

— Em  1553,  chegaram  cora  o  2.o  governador  ge- 
ral do  Brazil — D.  Duarte  da  Costa  os  16  primeiros 
jesuítas,  que  vinham  catechisar  o  gentio. 

Devemos  á  famosa  ordem  de  Loyola,  sem  con- 
tar outros  serviços,  a  edificação  da  egreja  e  do  con- 
vento de  Belém,  que  ficam  a  6  kilometros  appro- 
ximadamente  d'esta  cidade. 

Do  convento  só  existe  hoje  a  memoria,  resta 
porém  a  egreja,  que  está  regularmente  conservada. 

Os  jesuitas,  em  tempo,  calçaram  cuidadosamente 
a  ladeira  da  Cadeia,  por  onde  d'aqui  subiam  para 
seu  delicioso  retiro.  Nem  mesmo  essa  obra,  de 
utilidade  inquestionável,  soubemos  nós  conservar  I 

— Em  1835,  falleceu  na  cidade  da  Bahia,  onde 
se  achava  temporariamente,  o  senador  por  Minas- 
Geraes — Manuel  Ferreira  da  Gamara  Bittencourt, 
proprietário  do  engenho  de  assucar  denominado 
Ponta,  situado  na  freguezia  do  Iguape,  do  muni- 
cípio e  comarca  doesta  cidade. 

Nascera  em  1762,  no  Serro,  que  é  hoje  cidade, 
também,  d'aquelle  laborioso  Estado  ;  e  se  formara 
pela  Universidade  de  Coimbra  em  leis  e  philo- 
sophia. 

O  senador  Camará  era  um  homem  de  saber,  e 
consummado  mineralista. 


55 


Havia  percorrido  a  Europa,  ao  mesmo  tempo 
que  o  primeiro  José  Bonifácio,  seu  muito  illustre 
amigo.  Publicou  monographias  importantes,  e  dei- 
xou preciosos  manuscriptos,  cujo  paradeiro  se 
ignora  completamente. 

— Em  1843,  o  major  José  António  da  Silva  Cas- 
tro, estando  em  S.  Félix,  então  do  municipio 
d*esta  cidade,  ordenou,  na  sua  qualidade  de  com- 
raandante  da  força  em  diligencia  para  Pilão  Ar- 
cado, que  o  capitão  António  dos  Santos  Castro 
continuasse  a  marcha  para  o  sertão,  aonde  o 
encontraria,  si  bem  que  tivesse  de  tomar  outro 
caminho. 

Essa  força  se  dirigia  para  o  rio  S.  Francisco, 
em  cujas  margens  estava  se  desenrolando  um  dra- 
ma sangrento,  occasionado  pelas  rivalidades,  que 
haviam  surgido  entre  duas  familias  poderosas  :  a 
de  <s  Militão  »  e  a  dos  «  Guerreiros  ». 

Pouco  depois,  com  o  mesmo  destino  subiu,  le- 
vando mais  soldados,  o  major  Joaquim  Rodrigues 
Coelho  Kelly,  de  primeira  linha,  nomeado -com- 
mandante  do  corpo  expedicionário  ao  centro  da 
Bahia. 

Como  delegado  de  policia,  em  commissão  espe- 
cial, foi  mandado  o  Dr  Álvaro  Tibério  de  Mon- 
corvo e  Lima,  nosso  honrado   conterrâneo. 

Por  sua  vez,  a  comarca  de  Urubu  foi  theatro 
de  uma  luta  de  egual  natureza,  tendo  como  proto- 
gonistas  membros  da  familia  Guimarães, 

—Em  1870,  foi  sepultado  na  capital    da  provin- 
cia,  agora  Estado,  para  onde  tinha    ido    tratar  da 
saúde,  o  Dr.  Joaquim  Moreira  Sampaio,  que  resi- 
dia em  S.  Félix,  e  era  um  medico  recommendavel 
pela  intelligencia  e  pelo  tino. 

Fora,  por  vezes,  vereador  da  camará,  e  supplente 
do  juiz  dos  orphãos,  d'esta  cidade. 


56 


14  <le  Dezembro 

— EiQ  1822,  o  general  P.  Labalut,  que  estava  no 
seu  quartel-general  ao  Engonho  Novo,  se  dirigiu 
por  officio  ao  Conselho  interino  do  governo,  esta- 
belecido n'esta  cidade,  então  villa,  c»onvidando-o 
«a  se  harinonisarom  como  dantes,  abrindo  mão 
de  falsos  pundonores,  e  com  os  oUios  na  pátria 
cuidarem  mutuamente  de  auxiliar  seus  justos  es- 
forços »  . 

— No  mesmo  anno,  o  major  António  de  Souza 
Lima,  que  commandava  as  forças  nacionaes  em 
Itaparica,  se  vando  em  sérios  apuros  para  defender 
este  ponto,  pediu  providencias  adequadas  e  pro.n- 
ptas  ao  Consellio  ialeriíi)  do  governo  da  Bahia, 
cuja  sele  or\  n*esta  cila  la,  entlo  vílla. 

— Em  1881,  falleceu  a*esta  cidade  o  pDrtuguez 
António  Lobo  da  Cunha,  que  deixou  quantioso  le- 
gado á  respectiva  Santa  Casa  de  Misericórdia,  da 
qual  é  tido  como  um  dos  mais  dignos  bemfeitores. 

Contava  edade  superior  a  70  annos. 

16  de  Dezembro 

— Em  1900,  o  carmelita  frei  Marianno  Gordon, 
hespanhol  de  origem,  mas  brazileiro  naturalizado, 
deu  começo  ás  obras  de  reparação  do  frontespicio 
da  egreja  do  Carmo  doesta»  cidade. 

Antes  d'isto,  o  activo  religioso  havia  renovado 
todo  o  telhado  do  mesmo  tem|)lo,  collocando-lhe 
na  torre  um  pára-raios  ;  e  continuou  no  louvável 
empenho  de  restaurar  tanto  a  egreja,  como  o  con- 
vento, que  achavam-se  quasi  por  terra.  Era  pena, 
entretanto,  que  se  perdessem  ;  sobretudo  a  primeira. 


57 


cuja  frontaria  representa  um  trabalho   artislico  de 
valor  inestimável. 

Manda  a  justiça— que  se  louve  o  ardor  e  des- 
interesse, com  que  a  população  se  houve,  acur 
dindo  ao  appello,  que  ao  seu  espirito  religioso  e 
generosidade  fizera  o  laborioso  sacerdote* 

16  de  Dezembro 

—Em  1822,  o  Conselho  interino  do  governo  da 
província  da  Bahia,  que  funccionava  n'esta  cidade, 
então  villa,  queixou-se  ao  imperador  Pedro  I  do 
general  P.  Labatut,  allegando— além  de  outros  fa- 
ctos— que  o  dicto  general  conservava  comsigo  todo 
o  dinheiro  de  ouro  e  prata,  que  fora  encontrado 
nos  engenhos  dos  Teixeira  Barbosa,  calculado  aliás 
em  300  contos  de  réis. 

Convém  recordar— que  as  questões,  oriundas  desse 
dinheiro,  atravessaram  até  á  republica ;  e  só  então 
foi  paga  a  indemnisaçào,  que  os  interessados  re- 
clamavam pelo  desvio  d'aquella  somma 

—O  Conselho  alludido,  entretanto,  a'aquella  mes- 
ma occasião  pediu  a  s.  magestade  «  o  estabeleci- 
mento de  modo  solido  e  estável  da  administração 
civil,  e  principalmente  da  militar,  da  provincia  ; 
a  remessa  de  uma  esquadra  correspondente  á  por- 
tugueza,  que  infestava  os  nossos  mares;  a  demisssão 
de  todos,  quer  brazileiros,  quer  portuguezes,  que 
notoriamente  haviam  tentado  contra  a  causa  do 
Brazil  ». 

O  Conselho  ia  mais  longe  ainda.  Solicitava  do 
imperador— «  providencias  acerca  da  pessoa  e  bens 
dos  portuguezes,  presos  e  transportados  para  Per- 
nambuco, por  causa  da  acclamação  do  príncipe 
regente  ». 


58 


O  Conselho,  pedia,  finalmente,  a  o  chamamento 
á  ordem  das  villas  do  Rio  das  Contas,  e  Caetité, 
que  faziam  economia  separada  ddLfamilia  provincial, 
subtrahindo-se  á  autoridade  do  mesmo  Governo 
interino  ;  a  remessa  para  esta  cidade,  então  villa, 
das  peças  necessárias  ás  officinas  de  fieira  e  cu- 
nho da  casa  da  moeda,  que  estava  se  preparando 
aqui,  e  bem  assim  a  determinação  do  valor,  typo, 
e  peso  da  nova  moela  imperial  ;  a  nomeação  de 
ouvidores  para  as  comareasde  Ilhéus,  Porto  Se- 
guro e  Sergipe  »  . 

— Em  1893,  as  aguas  do  rio  Paraguassú  se  avo- 
lumaram bastante  *  e  no  dia  seguinte  innundaram 
parte  d'esla,  e  da  fronteira  cidade  de  S.  Félix. 

Aqui  chegaram  ellas  até  ao  meio  da  rua  25  de 
Junho,  antiga  Direita  da  Praça. 

17  de    Dezembro 

—Em  1822,  o  Dr.  Miguel  Calmon  du  Pin  e  Al- 
meida, secretario  do  Conselho  interino  do  governo 
da  provincia  da  Bahia,  que  funecionava  aqui,  diri- 
giu carta  ao  imperador  Pedro  I,  se  queixando  do 
general  P.  Labatut. 

Por  sua  vez,  este  havia  -  iio  dia  anterior — es- 
cripto  ao  ministro  José  Bonifácio,  se  queixando 
das  intrigas  e  machinaçòes  de  seus  inimigos,  ao 
que  não  era  estranho  aquelle  Conselho. 

— No  citado  anno,  cliegou  a  esta  cidade,  então 
villa,  o  brigadeiro  graduado  José  Egydio  Gordilho 
de  Barbuda,  encarregado  por  carta  régia  de  9  de 
Julho  do  desempenho  de  uma  importante  com- 
missão. 

Trouxera  do  Rio  de  Janeiro  57  dias  de  viagem, 
e  46  de  marcha. 


50 


O  Conselho  supradicto  escreveu  logo  ao  ministro 
José  Bonifácio,  communicando-lhe  o  facto,  bem 
como  a  conferencia  que  tivera  com  o  brigadeiro, 
E.  para  não  perder  o  ensejo,  encaminhou  áquelle 
cidadão  documento  comprobatório  de  abusos,  com- 
meltidos  pelo  general  P.  Labatut. 

—  Em  1830,  chegou  a  esta  cidade,  então  villa,  o 
marechal  João  Chrysostomo  Callado,  que  andava 
inspeccionando  a  força  militar  existente. 

Viera  por  Santo  Amaro,  onde  tinha  estado  — por 
alguns  dias  —  occupado  no  mesmo  serviço. 

—  Em  1868,  falleceu  na  capital  d'este  Estado,  então 
provincia,  o  nosso  estimável  e  distincto  conterrâneo 
—  Dr.  Álvaro  Tibério  de  Moncorvo  e  Lim<^,  que 
nascera  a  16  de  Fevereiro  de  1816. 

Depois  de  bacharelado  em  direito,  o  digno  cachoei- 
rano  aqui  se  demorou  por  algum  tempo,  advo- 
gando, sem  deixar  entretanto  de  se  immiscuir  nas 
lutas  politicas  locaes. 

Transferindo  sua  residência  para  a  cidade  da 
Bahia,  ahi  continuou  o  Dr.  Tibério  a  exercer  a  sua 
profissão,  com  fortuna  e  lustre. 

Em  1843  foi  mandado  em  com  missão  de  grande 
responsabilidade  ávillade  Pilão- Arcado,  no  caracter 
de  juiz  municipal  e  delegado  de  policia. 

Mais  de  uma  vez,  o  prestimoso  cachoeirano 
occupara  o  governo  da  província,  como  seu  vice- 
presidente;  e,  afinal,  na  qualidade  de  presidente 
effeclivo,  lhe  coubera  por  sorte  enfrentar  a  tremenda 
epidemia  do  «  cholera-morbus  »  ,  que  aliás  forneceu- 
Ihe  ensejo  de  prestar  serviços  públicos  da  maior 
valia,  e  que  não  serão  jamais  esquecidos  pelos 
bahianos  de  coração  e  de  caracter. 

Deputado  provincial,  presidente  da  Camará  Muni- 
cipal  da  Bahia,  deputado  á  Assembléa  Legislativa 


60 


Geral,  e  mais  de  uma  vez  contemplado  em  lista 
tríplice  para  a  escolha  de  senador,  o  Dr.  Tibério 
recebia  assim  as  mais  inequívocas  provas  da  sympa- 
thia  e  confiança,  que  merecia  de  seus  concidadãos. 

E  por  amigos  e  admiradores  a  sua  morte  toi  con- 
siderada como  verdadeira  calamidade. 

18  de  Dezembro 

—  Em  1845,  falleceu  o  advogado  Loke  Regadas 
de  Farias,  deixando  alguns  bens  de  fortuna. 

—  Em  1888,  desembarcou  aqui  o  engenheiro 
António  Plácido  Peixoto  do  Amarante,  commissio- 
nado  pelo  governo,  da  então  província,  para  estudar 
os  melhoramentos,  que  se  fazem  precisos  afim  do 
tornar  mais  desembaraçada  a  navegação  do  rio 
Paraguassú. 

Ao  relatório,  que  odiío  engenheiro,  em  tempo, 
apresentou,  tomo  as  seguintes  informações: 

«  O  rio  Paraguassú.  ...  é  o  maior  e  o  mais  impor- 
tante dos  rios,  que  desembocam  na  Bahia  de  Todos 
os  Santos.  Banha  a  cidade  da  Cachoeira,  que  demora 
a  40  kilometros  de  sua  fóz.  na  margem  esquerda, 
e  fronteira  a  ella  a  freguezia  (hoje  cidade)  de  São 
Félix,  na  margem  direita. 

Ponto  inicial  da  c<  Estrada  de  Ferro  Central ».  e 
unidas  pela  importante  ponte  «D.  Pedro  II  >».  são 
estas  duas  localidades  muito  notáveis,  e  florescen- 
tes pelo  grande  commercio,  que  entretém  com  os 
centros  productores  do  interior. 

D'ali  para  baixo  o  rio  Paraguassú,  descrevendo 
largas  curvas,  segue  o  rumo  geral  de  S.  E.,  e, 
correndo  em  leito  quasi  sempre  empedrado,  aper- 
tado entre  altas  montanhas,  com  a  largura  de  300 
a   2.000    metros,    córma    o   lago    (outros    chamam 


Gl 


mais  propriamente  bacia)  do  Iguape,  a  20  kilo- 
meiros  de  sua  fóz,  e  continua  até  lançar-se  no  mar. 
As  marés  se  manifestam  n'este  rio  até  muito  acima 
da  Cachoeira,  attingindo  sua  altura  a  2  m.  3, 
observada  na  escala,  que  fincámos  no  porto. 

Profundo,  e  offerecendo  navegação  franca  e  se- 
gura, desde  sua  embocadura  até  ás  proximidades 
das  povoações  de  Nagé  e  Coqueiros,  na  margem 
direita,  somente  d'ahi  até  o  porto  da  cidade  apre- 
senta largos  baúcos,  ou  coroas  de  areia,  que  em 
muitos  pontos  difficultam  a  navegação,  na  baixa- 
mar,  tornando  o  canal  sinuoso  e  estreito,  principal- 
mente no  logar  denominado  «Pedreiras»,  onde  as 
embarcações  só  encontram  accesào  em  curva  aper- 
tada, junto  ás  pedras  da  margem  direita. 

Efifectuámos  n'este  trecho  do  rio  300  sondagens, 
que  indicaram  canal  com  a  largura  de  30  a  100 
melros,  e  profundidade  de  1  a  3  metros,  sendo 
também  encontrados  alguns  pontos  com  profundi- 
dade maior  de  5  melros. 

O  porto  da  cidade  acha-se  muito  obstruido  por 
bancos  de  lama,  areia,  e  cascalho;  e  seu  canal 
approxima-se  mais  da  margem  esquerda  do  que 
da  direita,  tendo  apenas  na  baixa-mar  a  largura 
de  30  a  60  metros,  com  profundidades  que  variam 
de  1  a  2  m.  3. 

O  melhoramento  para  uma  navegação  franca  e 
segura  exige  dra^^jagem,  em  alguns  bancos  de  areia, 
6  talvez  a  remoção  de  alguns  cabeços  de  pedra 
para  aprofundar  o  leito,  alargar  e  rectificar  o  ca- 
nal, e  o  balisamento  deste,  desde  Nagé  até  á 
cidade. 

No  porto,  será  necessário  estender  a  dragagem, 
em  quasi  toda  a  largura  do  rio  (300  melros), 
afim  de  augmentar  a  sua  profundidade,  e  facilitar 


62 


O  movimento  de  embarcações,  principalmente  junto 
á  ponte  de  embarque  e  desembarque. 

O  produclo  das  excavações  poderia  ser  ulilisado 
no  aterro  do  largo  do  Calabar,  á  montante  da  em- 
bocadura do  rio  Pitanga,  na  cidade;  cujo  cães  já 
começado  deveria  ser  concluido  até  á  ponte  Pedro 
II  :  e  este  melhoramento,  favorecendo  as  condi- 
ções hygienicas  do  porto,  traria  também  o  embel- 
lezamento  d'ell«  ».  (  *  ) 

O  engenheiro  Luiz  de  Souza  Mattos  veio,  em  1893, 
explorar — por  sua  vez— o  rio  Paraguassú.  Traba- 
lhou desde  a  ponte  Pedro  II  aló  ao  engenho  Vi- 
clorin,  sendo  suspensos  depois  os  estudos,  em  con- 
sequência de  se  haver  esgotado  a  verba  a  elles 
destinada. 

— Em  1892,  teve  logar  a  primeira  eleição  para 
membros  do  Conselho,  e  par.i  intendente  munici- 
pal d'esta  cidade,  de  accordo  com  a  legislação  da 
republica. 

Foi  eleito  intendente  o  tenente-coronel  Manuel 
Martins  Gomes. 

19  de    Dezembro 

— Em  1778,  a  camará  doesta  cidade,  então  vil  la, 
designou  a  Casa  do  riacho,  que  pertencera  a  José 
Pereira,  para  deposito  da  pólvora,  que  houvesse 
de  ser  vendida  a  retalho. 

Ora,  vejam  como  são  as  cousas... 


(*J  Por  iniciativa  da  muDicipalidade.  e  com  auxilio 
do  Estado,  o  cáes  está  coucluido  (1000);  e  o  aterro,  a 
que  se  refere  o  engenheiro  Amarante,  vae  se  fazendo  re- 
gularmente, apezar  de  nao  se  tor  ainda  excavado  o  rio. 

D'essas  obras  foi  encarregada  uma  comniissao,  composta 
do  Dr.  Aristides  Augusto  Milton,  coronel  Manuel  Martins 
Gomes  e  major  Francisco  Mendes  Magalhães  Costa. 


63 


Hoje,  quando  já  temos  progredido  assas,  e  parece 
pois  que  tudo  deveria  andar  melhor,  a  pólvora  se 
encontra,  e  é  vendida,  em  qualquer  ponto  da  ci- 
dade, a  despeito  dos  gravissimos  perigos,  a  que 
todos  assim  ficamos  expostos  I 

Nem  Qiesmo  a  tremenda  catastrophe  do  Tabuão, 
na  cidade  da  Bahia,  suggeriu  ás  autoridades  com- 
petentes um  bom  movimento,  no  sentido  de  se 
cortar  o  abuso,  que  pode  ser  fatal  a  uma  popula- 
ção inteira. 

Provavelmente,  querem  por  tal  modo  demon- 
strar, mais  uma  vez, —que  o  c<  brazileiro  só  fecha 
a  porta  depois  de  roubado  ». 

—  Em  1822,  o  Conselho  interino  do  governo  da 
Bahia,  que  funccionava  nesta  cidade,  então  villa, 
se  dirigiu  por  officio  ao  ministro  do  Império  José 
Bonifácio  de  Andrada  e  Silva,  lhe  communicando 
a  chegada  do  brigadeiro  José  Egydio  Gordilho  de 
Barbuda ;  e  repetindo,  ao  mesmo  tempo,  suas  queixas 
contra  o  general  P.  Labatui,  nellas  envolveu  o  nome 
do  coronel  José  Garcia  Pacheco  Pimentel  de  Moura 
e  Aragão,  a  quem  o  Conselho,  embora  qualifique  de 
«ignorante  e  fácil»,  proclama  como  um  dos  bene- 
méritos da  provincia. 

—  Em  1839,  testemunhou  esta  cidade  a  maior 
cheia,  que  tem  tido  o  rio  Paraguassú,  que  o  povo 
conhece  por  «  enchente  grande  ». 

Durante  o  mez  de  Novembro,  as  aguas  do  mesmo 
rio  tinham  a  pouco  e  pouco  crescido,  até  que  afinal 
transbordaram  ;  causando  o  atropello  e  susto,  que 
nessas  eventualidades  costumam  sempre  reinar. 

Eraquinta-feira. 

A's  8  horas  da  noite,  copioso  aguaceiro  desabou 
sobre  a  cidade  e  seus  arredores  ;  e,  de  então  por 
diante,  o    Paraguassú  foi  subindo    cada  vez  mais : 


64 


de  sorte  que,  ás  11  horas,  era  já  grande  o  numero  de 
casas  invadidas  pelas  aguas,  a  confusão  e  o  pavor 
dominavam  por  Ioda  parte. 

No  dia  20,  o  rio  linha  alcançado  já  —  pela  rua  das 
Flores— a  casa,  em  que  morava  uma  certa  Maria 
Magdalena,  ao  lado  esquerdo  de  quem  sobe,  e 
presentemente  figura  sob  n.  53. 
No  dia  21,  as  aguas  ainda  subiram  mais. 
No  dia  22,  o  rio,  que  avançava  sempre  impetuoso, 
achava-se  —ao  começar  da  tarde  —em  {rente  á  casa 
onde  residia  José  dos  Santos  Baptista,  árua  Rodrigo 
Brandão  (outr'ora  do  Fogo),  a  qual  fica  nos  fundos  do 
sobrado  sob  n.  2  á  rua  Formosa.  Nesta  rua,  as  aguas 
haviam  attingido  á  esquina,  formada  pelo  prédio, 
então,  de  Jerunymo  José  Albernaz,  que  hoje  tem  o 
n.  5  e  outros  prédios  ao  lado. 

Ao  mesmo  tempj,  o  rio  tomava  a  rua  Marechal 
Deodoro  (antiga  doo  Curraes-velhos) ,  passando  além 
do  matadouro,  que  existia  ahi. 

No  dia  23,  as  aguas  baixaram  cerca  de  60  melros  ; 
mas,  no  dia  seguinte  tornaram  a  se  elevar,  e  com 
tanta  força,  que  ás  9  horas  da  manhan  penetravam 
ellas  no  becco  da  «Viuva  Motta»,  que  communica 
pela  parte  de  cimaas  indicadas  ruas  Rodrigo  Brandão 
e  Formosa.  Descendo,  então,  por  esta,  só  estaciona- 
ram defronte  do  sobrado  de  dois  andares,  que  tem 
presentemente  o  n.  29. 

Simultaneamente,  outra  porção  de  agua,  subindo 
pela  citada  rua  Formosa,  só  parou  defronte  do 
sobrado  n.  18.  que  era  propriedade  de  José  Pereira 
Nogueira,  e  fica  um  pouco  acima  da  entrada  do  largo 
dos  Amores. 

De  modo  que,  pouco  faltou  para  se  encontrarem 
as  duas  línguas  do  rio,  que  se  bifurcara,  e  tinham 
penetrado  em  sentido  opposto  na  dita  rua  Formosa. 


65 


Pela  rua  25  de  Junho  (antiga  Direita  da  Praça), 
o  Paraguassú  subiu  também  muito  ;  tanto  que  cobriu 
5  1/2  degráos  da  escada  de  pedra,  que  existe  em 
frente  á  cadeia. 

No  sobrado  n.  14,  que  faz  quina  para  a  rua  13 
de  Maio  (então  rua  de  Baix  ^) ,  onde  residia  João  José 
da  Silva  e  Azevedo,  faltaram  apenas  m  0,22  para  as 
aguas  tocarão  respectivo  assoalho.  Mas,  exactamente 
mO,  22  chegaram  ellas  acima  do  assoalho  de  outro 
sobrado,  o  de  n.  9  sito  ao  largo  dos  Arcos. 

A  corrente  qne  subia  pela  rua  da  Matriz,  e  a  que 
descia  pela  rua  da  Ponte-velha,  por  differença  de 
ra  0,11  não  se  juntaram  na  praça  da  Regeneração. 

Por  differença,  também,  de  O  m,22  o  rio  deixou  de 
entrar  pelo  1.®  andar  do  gi*ande  prédio  de  dois  anda- 
res, existente  á  rua  13  de  Maio  (então  rua  de  Baixo) , 
onde  em  1859  foi  hospedado  o  imperador  Pedro  11;  e 
tem  hoje  o  numero  13. 

Em  alternativas  de  augmento  e  diminuição,  se 
mantiveram  as  aguas  até  o  dia  30  quando  se  ira- 
mobilisaram  por  algumas  horas,  Hcando  approxi- 
madamente  m  2,50  abaixo  do  sobrado  á  rua  Formosa 
n.  2,  que  pertencia  a  Bento  José  de  Almeida.  Pelo 
correr  do  dia,  porém,  começando  de  novo  o  rio  a 
subir,  alcançou  a  esquina  fvjrmad.\  por  aquelle  prédio. 

As  aguas  haviam  invadido  tambf.ím  a  egreja  Matriz, 
cuja  porta  principal  cobriram  até  á  altura  de  m2, 0. 
Si  tivessem  crescido  mais  um  [)ouco,  O  m22,  o  altar- 
mór  ficaria  alagado.  Em  todo  o  caso,  o  Santissimo 
Sacramento  foi  transferido  para  a  capella  de  Nossa 
Senhora  d'Ajuda,  o  mais  antigo  templo  da  cidade  E, 
por  aquelle  motivo,  não  se  celebrou  em  1839,  missa 
de  Natal,  na  matraiz  ;  o  que  se  repeliu  aliás,  em  1900, 
sem  causa  justificativa. 

R.  9 


66 


Embarcado,  era  o  único  meio  possivel  de  se  chegar 
á  rua  da  Conceição  do  Monte. 

Além  da  matriz,  as  aguas  penetraram  egualmente 
nas  egrejas  do  Convento,  e  da  Ordem  Terceira  do 
Carmo  ;  cobrindo  os  primeiros  degráos  das  respecti- 
vas capellas-móres. 

As  casas  térreas,  situadas  ao  pé  do  rio.  tanto  nesta 
cidade,  como  na  de  Sào  Félix,  então  simples  povoado, 
ficaram  —  mais  de  meio  telhado  —  cobertas  de  agua. 
Dentre  ellas,  cerca  de  100  desabaram:  e  se  contou 
grande  numero  de  deterioradas. 

Podem -se  apontar  os  pontos  desta  cidade,  poupa- 
dos pela  enchente  grande.  E  foram  estes  :  alto  do 
Caquende,  ladeira  da  Mangabeira  (então  chamada 
rua  do  Assobio),  ladeira  da  Cadeia,  largo  d' Ajuda, 
rua  do  Amparo,  praça  da  Regeneração  (do  lado 
do  chafariz  publico),  rua  da  Pitanga,  ladeira  da  rua 
da  Conceição  do  Monte,  rua  Formosa  (trecho  com- 
prehendido  entre  as  duas  línguas  de  agua,  a  que 
acima  alludi),  e  Recuada  (  pontos  extremos). 

A  1.**  de  Janeiro  de  1840,  as  aguas  começaram  a 
baixar  seguidamente,  até  que  no  dia  9  o  rio  retomou 
seu  leito. 

No  dia  anterior,  entretanto,  a  Gamara  Municipal 
se  tinha  reunido  para  providenciar,  como  lhe  fosse 
possivel  em  similhante  emergência. 

Não  falando  em  outras  medidas,  que  tomara, 
a  Camará  havia  deliberado,  sob  proposta  do  vereador 
Ribeiro  Guimarães,  despender  200$000  na  compra 
de  lenha  e  alcatrão,  com  que  se  fizessem  fogueiras 
para  desinfectar  as  ruas. 

Na  sessão  de  15  de  Janeiro,  a  Camará  resolveu  ele- 
var ao  duplo  essa  quantia. 

O  presidente  da  província,  hoje  Estado,  mandou — 
por  officio  de  7  de  Fevereiro  de  1840  —  emprestar 


67 


á   raesroa    Camará   400$000  para  « continuação  da 
limpeza  das  ruas  da  cidade  ». 

O  Arcebispo  —  D.  Romualdo  Anloiiio  de  Seixas,  a 
3  de  Janeiro  do  referido  anno,  expediu  pastoral  elo- 
quente, ordenando  «  preces  para  que  cessasse  a 
enorme  calamidade,  e  Deus  preservasse  os  habitan- 
tes da  peste  e  da  fome,  consequências  que  ella 
poderia  produzir.  » 

A  verdade  é  — que  morreram,  então  afogadas 
varias  pessoas;  e  assim  que  as  aguas  baixaram  se 
desenvolveram,  como  aliás  era  esperado,  febres  de 
máo  caracter,  que  viclimaram  diversos  cidadãos, 
entre  os  quaes  contou-seo  padre  Malachias  Ribeiro. 

Foram  quantiosos  os  prejuizos,  motivados  pela 
«enchente  grande  o ;  mas  nenlium  roubo  se  registrou, 
durante  aquelles  dias  de  confusão  e  terror. 

Ha  memoria,  também,  de  outra  enchente  exce- 
pcional do  Paraguassú.  succedida  em  1792.  Essa, 
comtudo,  foi  menor  do  que  a  de  1839,  pois  apenas 
attingiu  três  degráos  da  cadeia. 

—  Em  1890,  aportou  a  esta  cidade  o  Dr.  Manuel 
Victorino  Pereira,!.^  governador  do  Estado  da  Bahia, 
no  regimen  republicano,  que  linha  sido  recente- 
mente inaugurado. 

Teve  estrondosa  recepção,  tal  qua!  pouco  antes 
haviam  feito  ao  conde  d 'Eu,  consorte  da  princeza 
imperial;  se  notando  a  coinciJencia  de  ser  amphi- 
Iryào  de  ambos  o  mesmo  cavalheiro,  que  em  sua 
própria  casa  os  recebeu  fidalgamente. 

20   de  Dezembro 

— Em  1712,  o  senado  da  Camará  d'esta  cidade, 
então  villa,  recebeu  do  mestre-carapina  Manuel 
Garcez,  por  estarem  promptas  e  completas,  as  obras 
do  seu  paço. 


G» 


— Em  1799,  o  ouvidor-geral  e  provedor  d'esta  ca- 
mará— desembargador  João  da  Costa  Carneiro  de 
Oliveira,  por  um  proviraeniô  muito  bem  deduzido, 
recomraendou  a  cultura  do  anil,  da  pimenta  da 
índia,  e  da  canella,  «  fora  a  dos  mais  géneros  de 
primeira  necessidade». 

Mas,  qual  !  o  provimento  «  virou  canella  ...» 
Nós  importamos,  ainda,  lanto  essas  especiarias, 
como  palitos  e  vassouras  também.  Só  entendem, 
os  lavradores  de  cá,  do  cultivo  do  fumo,  ou  taba- 
co ;  e  nem  se  lhes  fale  n'outra  cousa  :  principal- 
mente depois  que,  em  1899,  venderam  a  safra  até 
á  razào  de  30$000  por  16  kilogrammas  da  estimada 
solanea,  embora  no  anno  seguinte  nào  encontras- 
sem, durante  alguns  mozes,  quem  a  comprasse  por 
preço   algum. 

Verdade  é — que  da  pimenta  possuímos  uma  va- 
riedade espantosa,  sobresahindo — entre  ellas — a 
«  malagueta  »  ;  condimento  assas  apreciado  na 
cozinha  bahiana  que,  não  por  isso,  mas  por  ou- 
tros titulos  indisputáveis,  arranca  sempre  mere- 
cidos gabos,  e  na  republica  ioda  goza  de  justa  no- 
meada. 

Mas,  além  de  espe^^iarias,  ha  muito  em  que  se 
possa,  e  deva,  aproveitar  o  solo  ubérrimo  de  nossa 
pátria. 

— Em  1808,  uma  carta  régia,  expedida  de  Portu- 
gal, agradeceu  e  louvou  a  todos  os  lavradores  do 
termo  desta  '^idade,  então  villa,  os  quaes,  por  ini- 
ciativa do  juiz  de  fora  José  Raymundo  de  Passos  de 
Porbem  Barbosa,  tinham  contribuído  com  impor- 
tantes donativos  para  soccorrer  a  metrópole  portu- 
gueza. 

— Em  1822,  o  Conselho  interino  do  governo  da 
provincia   da   Bahia,    hoje    Estado,    cuja    sòde   era 


69 


nesta  cidade,  então  villa,  cumprindo  as  ordens 
imperiaes,  transmiltidas  por  aviso  de  15  de  Outu- 
bro, nomeou  José  Egydio  Gordillio  de  Barbuda, 
brigadeiro,  para  commandar — na  qualidade  de  ofíi- 
cial  general— a  3.»  divisão  do  exercito  pacificador. 
Esta  era  composta  pelas  tropas  das  villas  da  Ca- 
choeira, Santo  Amaro,  Maragogipe   e  S.  Francisco, 

E  approvou  o  plano  e  a  proposta,  que  o  capitão- 
raór  João  Dantas  dos  Reis  Portátil  offerecera  para 
organisação  da  guarda  cívica,  destinada  á  defeza 
d'esta  cidade,    então  villa. 

—  Eni  1839,  o  cidadão  Bernardo  José  das  Neves 
arrematou  por  29:865$752  a  obra  da  nova  ladeira 
da  Muritiba,  orçada  em  36:515$7õ2. 

A  ladeira  citada  tem  consumido  muitas  outras 
sommas,  despendidas  pela  administração  publica, 
e  serve  ao  transito  de  centenares  de  pessoas,  dia- 
riamente. 

A  intendência  municipal  de  S.  Félix  melhorou 
muito  o  estado  da  ladeira  da  Muritiba,  que  em 
quanto  não  fôr  toda  calçada,  me  parece,  ha  de  con- 
tinuar a  exigir  concertos,  mais  ou  menos  custosos 
mas  provisórios  também. 

21  de  Dezembro 

—Em  1857,  falleceu — bera  moço  ainda— o  tenen- 
te Manoel  Balbino  da  Costa  Brandão,  que  era  in- 
fluencia eleitoral  e  juiz  de  paz  de  S.  Félix,  então 
pertencente  ao  termo  e  comarca  desta  cidade. 

Tão  infausto  e  prematuro  passamento  foi  geral- 
mente sentido. 

—Em  1859,  a  população  doesta  cidade  despertou 
profundamente  impressionada  por  um  facto  grave, 
que  á  noite  havia  occorrido. 


70 


Tinham    tentado    incendiar  o  edifício  em  que,  á 

rua  da  Matriz,  funccionava  a  «Caixa  Commercial». 

Na  porta    principal,  diz  o  auto  de  corpo  de  de- 

licto  a    que  se  procedeu,  foram  encontrados  «dois 

logares  queimados  interior  e  exteriormeilte». 

E  hccrescenta  a  peça  judiciaria,  «n'um  montão  de 
paus,  que  estava  contiguo  á  mesma  casa,  achou- 
se  uma  fogueira,  que  fora  alimentada  com  pequenas 
maravalhas,  e  porção  de  agua-raz;  havendo  frag- 
mentos de  uma  garrafa  quebrada,  que  continha 
aquella  substancia,  e  um  embrulho  com  porção  de 
phosphoros.» 

Como  autor  doesse  crime  foi  indigitado  João  Pe- 
reira da  Costa,  que  annos  depois  cumpriu  — na 
Bahia— pena  de  prisão,   como  falsificador. 

— Em  1872,  foi  publicado  o  novo  recenseamento 
da  população  doesta  cidade. 

N*esse  trabalho,  sem  duvida  imperfeito,  pois  que 
não  passava  de  um  simples  ensaio  no  género,  attri- 
buiu-se  á  Cachoeira  uma  população  de  11.223  al- 
mas. Doestas  pertenciam  4.847  ao  sexo  masculino 
e  6.376  ao  feminino. 

Verificou-se,  egualmente,  a  existência  de  2.100 
fogos,  distribuídos  por  2.850  prédios,  a  saber:  5 
sobrados  de  dois  andares,  236  de  um  só  andar, 
1.478  casas  térreas  dentro  do  perimetro  da  decima 
urbana,  e  131  fora  d'esta. 

A  esse  tempo,  contavam-se  oito  pessoas  maiores 
de  100  annos,  com  residência  entre    nós. 

A  se  crer  em  Ayres  do  Casal  (Geographia  brasí- 
lica), esta  cidade,  em  1804,  tinha  somente  894  fogos 
e  S.  Félix- 202. 

Uma  noticia,  escripta  pelo  tenente-corouel  J.  Ar- 
nisáu,  faz  certc» — que,  em  1825,  a  Cachoeira  con- 
tava já   o  duplo  d'esses  fogos. 


71 


Em  1866,  foram  arrolados  aqui  233  prédios  de 
sobrado  e  l.Oõl  térreos,  nào  incluindo  150,  que  fi- 
cavam fora  do  perímetro  da  decima;  ao  todo— i. 434. 
Mais  540,  portanto,  do  que  no  anno  de  1804,  e 
menos  44  do  que  em  1872. 

Em  1891,  foi  levantado  um  novo  recenseamento, 
que  produziu  aliás  o  mesmo  resultado  do  de  1900 
no  Rio  de  Janeiro,  quando  serviu  de  assumpto  a 
uma  troça  monumental,  e  teve  de  ser  rectificado. 
Segundo  elle,  a  população  da  Cachoeira  havia  des- 
cido, sem  motivo  algum  conhecido,  a  8.250  almasl 
Entretanto,  conforme  dados  officiaes  colhidos  em 
Dezembro  de  1900,  a  Cachoeira  conta  2.053  pré- 
dios, dos  quaes  249  são  de  sobrado,  1.613  térreos 
e  191  estão  fora  do  perimetro  da  decima  urbana. 
Assim,  no  espaço  de  34  annos,  a  edificação  aug- 
menlou  de  619   prédios. 

Quanto  á  população,  o  recenseamento  procedido 
no  dito  anno  de  1900  dá  para  a  cidade  uma  popu- 
lação de  12.000   almas,  cifra  redonda. 

22  de   Dezembro 

—Em  1881,  teve  logar  a  collocaçào  da  primeira 
pedra  da  ponte  Pedro  II,  que  liga  esta  cidade  á 
de  S.    Félix. 

A  referida  ponte  mede  353."^  de  comprimento, 
está  construida  na  costa  0"\50  acima  do  nivel  da 
maior  enchente  que  já  teve  o  rio  Paraguassii;  e 
consta  de  4  vãos,  a  saber:  2  centraes,  de  91"'50,  e 
2  lateraes  de86"'0,  tendo  o  estrado  9"'0  de  largura. 

A  secção  central  é  destinada  á  passagem  de  trens, 
carroças,  carros  e  animaes  e  as  duas  lateraes  ser- 
vem para  o    transito  de  peões. 

{Vid,  Ephemerid.  de  7  de  Julho.) 


72 


— Era  1881,  também  foi  lançada  a  primeira  pe- 
dra do  novo  comiíerio  que  a  irmandade  da  Sancta 
Casa  de  Misericórdia  deliberara  edificar  n'esta  ci- 
dade e  desde  muito  está  funccionando. 

Presentemente,  a  Cachoeira  possue  quatro  ce- 
mitérios, que  são:  o  da  Misericórdia,  o  do  Rosá- 
rio ao  Monte-Formoso,  o  da  Ordem  3.*  do  Carmo, 
e  o  dos    acatholicos. 

23  de  Dezembro 

—Em  1822,  o  general  P.  Labalut,  contrariado 
com  a  nomeação  do  brigadeiro  José  Egydio  Gor- 
dilho  de  Barbuda,  eíTectuada  no  dia  20,  pediu  seus 
passaportes  ao  Conselho  interino  do  governo  da 
Bahia,  cuja  sede  era  n'esta  cidade,  então  villa. 

Por  sua  vez.  o  referido  Conselho,  em  oíficio  di- 
rigido ao  ministro  do  império— José  Bonifácio  de 
Andrada  e  Silva,  representou  contra  aquelle  gene- 
ral, «por  ser  sô  capaz  de  perder  a  província  e  não 
de  salval-a,  por  ser  sO  capaz  de  fazer  armar  ao 
infame  Madeira,  por  se  mostrar  mais  bárbaro  e 
imprudente  que  este  monstro.» 

—Em  1858,  finou-se  o  major  António  Ferreira 
Souto,  que  fora  sub-delegado  de  polícia,  juiz  de  paz 
e  vereador  da  camará  municipal  desta  cidade,  onde 
dispoz  de  alguma  influencia  eleitoral. 

— Em  1881,  foi  aberto  ao  transito  publico  o  tre- 
cho que  vae  de  S.   Félix  ao  Curralinho  (agora  Ci- 
dade Castro  Alves)  na  estrada  de  ferro  Central  da 
Bahia., 

— Em  1893,  falleceu  na  capital  do  Estado  o  padre 
Salvador  Calixto  de  Barros,  derradeiro  vigário 
oollado  da  freguezia  de  S.  Félix. 

Era  septuagenário. 


73 


24  de  Dezembro 

—Em  1654,  O  conde  de  Atouguia  deu  regimento 
ao  capitâo-mór  Gaspar  Rodrigues  Adorno,  manda- 
do ao  sertão  da  Bahia  para  fazer  guerra  ao  gentio 
bárbaro.  E,  juntamente,  marcou  a  successão,  que 
deveria  ter  esse  explorador,  caso  desapparecesso  — 
por  qualquer  accidente—  na  jornada,  que  ia  em- 
prehender. 

Por  aqui  teve  de  passar  o  valente  capitão,  cuja 
edade  era  então  de  30  annos,  pois  que  tinha  nas- 
cido em  24  de  Juuho  de  1624. 

Em  24  de  Setembro  de  1664,  o  vice-rei  conde 
de  Óbidos  encarregou  o  mesmo  Gaspar  Adorno  de 
trazer  para  as  cabeceiras  de  Iguape,  Maragogipe, 
Jaguaripe,  e  Cachoeira  as  aldeias  então  existentes 
em  Jacobina  o  Payayases;  fosse  por  bem,  ou  fosse 
a  poder  das  armas. 

Também,  não  havia  pessoa  aquém  os  aborigenes 
mais  respeitassem,  pela  tradição  e  conhecimento 
que  tinham  de  seus   avós... 

E  tal  medida  foi  tomada,  exactamente  porque 
aqueile  gentio  costumava  descer  do  sertão  para 
hostilisar   os  habitantes   do  recôncavo. 

— Em  1822,  o  general  P.  Labatut  fez  espalhar 
um  manifesto,  datado  do  seu  quarlel-general  ao 
Engenho-novo;  e  por  meio  delle,  dispensava  o  co- 
ronel José  Garcia  Pacheco  do  commando  da  força 
armada,  existente  n'esta  cidade,  então  vil  la. 

No  mesmo  documento,  não  sei  bem  a  que  pro- 
pósito, o  general  declarava  innocente,  e  de  lodo 
iilibado  o  procedimento  do  capitão-mór  José  Paes 
Cardoso. 

—Em  1889,  foi  inhumado  em  S.  Félix  o  cadáver 

R.  10 


74 


do  importante  industrial  Francisco  José  Cardoso, 
portuguez  de  origem,  mas  brazileiro— havia  muito 
já -naturalizado. 

A  custa  de  trabalho  insano,  conseguira  elle  mon- 
tar uma  fabrica  de  charutos  —  A  Juventude  —  que 
chegou  a  ser  a  mais  acreditada  do  paiz. 

O  serviço  que  Cardoso  assim  prestou,  desenvol- 
vendo a  industria  nacional,  e  simultaneamente  tor- 
nando o  seu  estabelecimento  o  ganha  pão  de  muitas 
familias  pobres,  mas  honestas,  não  se  pode  enca- 
recer de  mais. 

O  prestante  cidadão  que,  além  de  tudo,  era  um 
homem  pacifico  e  chefe  de  família  dedicado,  attin- 
giu  a  74  annos  de  edade. 

25  de  Dezembro 

—Em  1899,  a  farinha  de  mandioca  foi  vendida  ao 
preço  de  800  réis  cada  litro,  a  carne-verde  a  1$200, 
e  o  charque  a  1$500  o  kilogramma. 

O  sertão  era  assolado  por  secca  inclemente,  que 
tangeu  para  esta  cidade  e  as  outras  do  recôncavo 
uma  população  numerosa  e  faminta.  Âssistiu-se 
ali  a  um  êxodo  tremendo  e  acabrunhador.  E  de 
miséria  orgânica  morreram  então  centenas  de 
pessoas. 

Para  soccorreros  retirantes,  que  de  todo  o  cen- 
tro aqui  chegavam,  foi  organizado  um  Comité  po-^ 
pular,  que  no  convento  do  Carmo  distribuiu,  duran- 
te algum  tempo,  géneros  alimenticios  aos  necessi- 
tados. 

^  Dessa  feita,  o  governo  se  limitou  a  dar  passa- 
gem gratuita,  em  vapor  ou  estrada  de  ferro,  a  quem 
queria.  .  .  mudar  de  ares. 


75 


26  de  Dezembro 

—  Em  1837,  partiu  desta  cidade  o  coronel  Rodri- 
go António  Falcão  Brandão,  com  50  praças  do 
batalhão  de  coluníarios,  par^  a  Feira  de  Sant'Anna, 
onde  se  receiava  um  próximo  rompimento,  annun- 
cíado  em  clubs,  e  por  meio  de  proclamações,  dos 
adeptos   da  Sa binada. 

As  outras  praças,  componentes  do  citado  bata- 
lhão, pouco  antes  haviam  seguido,  sob  o  commando 
do  capitão  J.  de  Meirelles,  para  o  Pédrão,  com  o 
fim  de  auxiliar  os  respectivos  juizes  de  paz  na  per- 
seguição e  captura  dos  turbulentos  que,  a  serviço 
dos  rebeldes,  por  ali  vagavam. 

— Em  1891,  foi  celebrada  na  capella  da  Saneia 
Casa  de  Mizericordia,  desta  cidade,  uma  soíomne 
missa  em  acção  de  graças,  por  haver  a  respectiva 
irmandade  conseguido  solver  todos  os  seus  débi- 
tos, que  eram  relativamente    crescidos. 

A  esse  brilhante  resultado  se  chegou  por  meio 
de  esmolas,  que  obtivera  no  Rio  de  Janeiro  o  pro- 
vedor da  mesma  irmandade — Dr.  Aristides  Augusto 
Milton. 

A  Meza  respectiva,  em  testemunho  de  seu  reco- 
nhecimento, mandou  collocar  na  sala  de  suas 
sessões  o  retrato  do  dicto  provedor,  que  se  encon- 
tra ao  lado  dos  retratos  de  outros  bemfeitores  da 
Sancta  Casa;  commendador  Pedro  Rodrigues  Ban- 
deira, commendador  Manoel  Galdino  de  Assis,  João 
Amaro  Lopes,  coronel  José  Ruy  Dias  de  Affonseca 
e  commendador  Rodrigo  José  Ramos. 

27  de  Dezembro 

—  Em  1834,  o  tenente-coronel  Rodrigo  António 
Falcão  Brandão  officiou  ao  presidente  da  província 


76 


lhe  communicando— que  Innocencio  José  Galvão, 
complicado  em  o  negocio  do  batalhão  dos  Periqui- 
to8y  achava-se  nesta  cidade,  então  vilia,  e  só  sahia 
á  noite,  vestido  de  padre,  e  em  cadeira  de  arruar, 
seguido  sempre  de  escravos  com  archotes. 

Eis  como,  nesses  bons  tempos  andavam— de  noite 
— as  pessoas  de  distincção... 

—Em  1837,  entrou  no  povoado  de  S.  Gonçalo 
dos  Campos,  hoje  cidade,  o  mesmo  patriota  Ro- 
drigo Brandão,  que  já  era  coronel,  com  a  força 
daqui  sabida  debaixo  do  seu  commando. 

Dirigia-se  para  a  Feira  de  Sant'Anna,  cuja  attitu- 
de  a  favor  dos  rebeldes  ali  confirmou-lhe  o  respec- 
tivo commandante  superior  da  guarda  nacional. 

Em  S.  Gonçalo,  reuniram-se  mais  80  homens  á 
sobredita  força.  A  seu  turno,  o  presidente  da  pro- 
víncia— Barretto  Pedroso  mandou  reforçal-a  com 
177  praças.  Algumas  outras  foram  chegando  de 
vários  pontos,  enviadas  pelas   autoridades    locaes. 

Foi  com  um  total  de  280  homens,  que— poucos  dias 
depois— o  coronel  seguiu  para  a  Feira  de  Sant  Anna, 
animado  das  mais  lisongeiras  esperanças,  como 
partidário  da  legalidade,  que  sempre  foi. 

— Em  1872.  falleceu— contando  38  annos  de  edade, 
— o  nosso  conterrâneo  Dr.  Manuel  Cândido  de  Araújo 
Lima,  que  estava  de  passeio  nesta  cidade. 

Era  empregado  na  secretaria  do  governo  e  mem- 
bro da  assembléa  provincial  da  Bahia. 

28  de  Dezembro 

— Em  1822,  o  Conselho  interino  do  governo  da 
Bahia,  cuja  sede  era  n'esta  cidade,  então  vilIa,  man- 
dou prender  o  revm.  fr.  José  de  S.  Jacintho  Mavig- 
ni«r,  por  bem  4o,  tranquillidade  publica. 


77 


Com  certeza,  o  bom  do  monge  fizera  algum  es- 
tardalhaço sensacional.  .  . 

— Era  1865,  foi  assignado  o  contracto,  entre  o 
súbdito  inglez  John  C.  Morgan  e  o  governo  impe- 
rial, para  construcção  da  estrada  de  ferro  Para- 
guassúf  convertida  ao  depois  na  Central  da  Bahia 
de  que  foi  emprezario  outro  súbdito  bntannico,  o 
engenheiro  Hugh  Wilson. 

Essa  estrada  começa  na  fronteira  cidade  de  São 
Félix,  e  tem  um  ramal  para  a  da  Feira  de  Sant'An- 
na,  com  o  ponto  de  partida  aqui. 

— Em  1877,  falleceu  de  congestão  cerebral,  quan- 
do se  dirigia  numa  canoa  para  o  vapor,  que  o  de- 
veria conduzir  até  á  cidade  da  Bahia,  o  nosso  con- 
terrâneo Dr.  José  Germano  Mangabeira,  promotor 
publico  d'esta   comarca. 

Estava  ainda  em  todo  o  vigor  da  mocidade. 

—Em  1881,  corto  cidadão  desconhecido  andou  a 
convidar  padres,  músicos  e  diversas  outras  pes- 
soas para  acompanharem    um  enterro. 

Mas,  á  hora  aprasada,  os  que  compareceram  no 
logar  indicado  verificaram  ter  sido  victimas  de  um 
logro    pyramidal. 

O  gaiato,  que  se  divertia  assim  com  a  morte, 
desappareceu  d*aqui  no  mesmo  dia,  sem  que  mais 
nunca  podesse  ser  ao  menos  lobrigado  ,  .  . 

— Em  1893,  a  cidade  amanheceu  innundada  em 
vários  pontos.  Desde  dois  dias  antes,  o  thermo- 
metro  subira  desmedidamente,  e  o  calor  se  tornara 
insupportavel. 

Durante  a  noite  de  27,  a  chuva  que  ás  8  horas 
tinha  começado  fina  e  moderada,  foi  a  pouco  e 
pouco  engrossando;  e  ás  2  horas  da  madrugada 
despejava-se  em  bátegas,  tão  copiosas  quanto  in- 
cessantes. Raro  foi  o  telhado  que  poude  resistir  ao 
peso  da  agua,  que  cahia  em  verdadeiras  catadupas. 


78 


A  população  despertou  sobresaltada,  e  de  muitos 
ângulos  da  cidade  eleva ram-se  gritos  de  conster- 
nação e  soccorro.  Não  poucas  pessoas  abandona- 
ram suas  casas  atabalhoadamente.  Enfermos  e  ve- 
lhos, foram  conduzidos  ás  costas  de  amigos  e  pa- 
rentes para  fugir  no  perigo  que  os  ameaçava. 

Diversos  commerciantes,  cujas  casas  de  negocio 
foram  invadidas  pelas  aguas,  registraram  prejuizos 
enormes.  Alguns  prédios  ficaram  damnificados. 

Em  S.  Félix,  a  tromba  ainda  maiores  estragos 
produziu.  A  ladeira  da  Muritiba,  recentemente  con- 
certada soffreu   bastante. 

O  Paraguassú  avolumou  logo  sua  corrente  e  os 
trens  da  estrada  de  ferro  Central  da  Bahia  não  po- 
deram,  por  alguns  dias,  correr. 

Não  houve,  felizmente,  desgraça  pessoal  a  se 
lamentar. 

29  de  Dezembro 

— Em  1848L,  o  presidente  da  província,  hoje  Es- 
tado da  Bahia,  communicou  á  camará  municipal 
desta  cidade  ter  sido  removido,  da  cadeira  de  rhe- 
torica  de  Minas  do  Rio  das  Contas  para  a  desta 
cidade,  o  professor  Francisco  de  Assis. 

Naquelle  tempo,  o  Governo  mandava  ensinar  a 
rhetorica,  até  pelo  sertão  I 

Foi,  talvez,  o  que  nos  perdeu 

30  de  Dezembro 

—Em  1804,  ancorou  no  porto  da  Bahia  o  5om- 
Despachoy  navio  em  que  regressavam  os  escravos, 


79 


mandados  a  Lisboa  vaccinar,  com  o  fim  de  intro- 
duzir entre  nós  a  grande  invenção  de  Jenner. 

Desde  logo  se  tratou  com  afinco  de  aproveitar  o 
excellente  meio  nrophylatico  para  impedir  nova  in- 
vasão da  repugnante  peste,  que  já  por  vezes  havia 
assolado  o  paiz 

Notadamente  em  1666,  a  variola  fez  milhares  de 
victimas,  tendo  começado  por  Pernambuco  sua  mar- 
cha desoladora  e  cruel. 

Quando,  ao  depois,  ella  irrompeu  no  recôncavo 
da  Bahia,  occasionou  uma  verdadeira  hecatombe. 
Bem  poucos  foram  os  homens  pretos,  que  então 
escaparam.  De  tal  modo,  que  muita  gente  cuja 
fortuna  consistia  em  escravos,  tanto  aqui,  como 
em  S.  Francisco,  e  Santo  Amaro,  ficou  reduzida 
á  penúria. 

Deve-se  a  meia  dúzia  de  negociantes  da  praça 
da  Bahia,  e  sobretudo  ao  marquez  de  Barbacena, 
cujo  busto  foi  por  isto  inaugurado— em  1859— no 
Instituto  vaccinico  do  Rio  de  Janeiro,  aquella  idéa 
de  fazer  vir  de  Lisboa  a  vaccina,  passando-a  de 
braço  a  braço,  durante  a  viagem  dos  pretos  ;  pois 
então  se  acreditava— que  somente  assim  a  lympha 
podia  ser  conservada. 

Os  avisos  de  1  de  Outubro  1802,  de  10  de  No- 
vembro de  1804,  e  outros,  referiram-se  ao  impor- 
tante assumpto,  que  ainda  hoje  desperta  a  atten- 
ção  dos  scientistas. 

—Em  1822.  sahiu  da  cidade  da  Bahia,  com  des- 
tino a  esta,  que  era  então  simples  villa,  o  cónego 
José  Cardoso  Pereira  de  Mello,  a  quem  veio  se 
juntar— dias  depois— o  secretario  do  governo  civil 
— Francisco  Carneiro  de  Campos  ;    ambos  desgos- 


80 


losos  da  desconsideração  geral,    a  que  tinha  des- 
cido o  mesmo  Governo. 

A  verda'le  é— que  os  negócios  públicos  foram, 
de  dia  em  dia,  se  complicando  mais  ;  aggravada 
a  situação  pela  falta  de  numerario,e  de  mantimentos, 
na  praça. 

Nessas  circumstancias,  indubitavelmente  melin- 
drosas, appareceu  uma  proclamação  anarchica;  se- 
guida de  vários  pasquins,  em  que  o  general  Ma- 
deira de  Mello  era  tratado  por  madeira  podre  e 
cobarde. 

A  tensão  dos  ânimos  foi — de  hora  em  hora— se 
accentuando  mais  ,  a  ponto  que,  no  dia  8  de  Maio 
de  1823,  o  general  eflfectuou  concorrida  reunião 
militar,  cujo  fim  foi  declarar  a  Bahia  o  praça  do 
guerra,  em  estado  de  sitio  ». 

Assim  o  estado  de  sitio,  declarado  pela  monar- 
chia  constitucional,  e  tantas  vezes  pela  republica, 
é  instituto  que  muito  de  longe    conhecemos.  ... 

— Em  1822,  também,  o  general  Labatut  se  diri- 
giu, por  officio,  ao  Conselho  interino  do  governo 
da  Bahia,  cuja  sede  era  nesta  cidade,  então  villa, 
informando— que  o  dinheiro  de  ouro  e  prata,  arre- 
cadado nos  engenhos  dos  Teixeira  Barbosa  subia 
á  somma  de  113:000$000,  conforme  havia  já  com- 
raunicado  ao  Governo  imperial. 

Foi  o  Governo  provisório  da  republica  que  man- 
dou indemnizar  os  herdeiros  dos  Teixeira  Barbosa 
dos  prejuizos,  que  lhes  havia  causado  o  exercito 
pacificador,  conforme  já  notei. 

Sessenta  e  tantos  annos  tinham  despendido  os 
interessados  a  reclamar  de  balde  o  pagamento 
dessa  divida. 


«1 


—  Em  1822,  também,  o  referido  general  P.  Laba- 
tut  exonerou  o  brigadeiro  José  Egydio  Gordilho 
de  Barbuda  do  commando  da  3*  divisão  daquelle 
exercito,  e  nomeou  logo  em  seguida  para  o  logar 
de  inspector  geral  das  tropas  em  operações. 

Assim  praticando,  o  general  teve  em  mira— mos- 
trar ao  Conselho  interino  do  governo,  existente 
nesta  cidade,  então  villa,  de  quem  era  a  compe- 
tência para  fazer  o  detalhe  das  forças  em  campa- 
nha ;  pois  que  os  duis  andavam  disputando  prefe- 
rencia de  attribuições. 

31  de  Dezembro 

—Por  um  trabalho  official,  publicado  em  1799, 
se  apurou — que  neste  anno  tinham  sido  exportadas 
da  capitania  da  Bahia  para  Portugal,  Costa  de 
Africa,  e  outros  portos  do  estrangeiro,  mercadorias 
no  valor  de  5.:J15:484$430. 

Comparada  esta  somma  com  a  da  exportação  do 

anno  anterior,  accusava  um    augmento  de 

2.201 :027$070. 

—Em  1800,  de  accordo  com  as  ordens  expedi- 
das por  D.  Fernando  José  de  Portugal,  depois  mar- 
quez  de  Aguiar,  governador  da  Bahia,  foram  lota- 
dos os  officios  de  justiça  d'esta  cidade,  então  villa, 
do  seguinte  modo: 

Cada  tabellião—  300$000,  de  rendimento  annual» 
o  escrivão  de  orphãos— 500$000;  o  da  provedoria— 
400$000;  o  inquiridor  —  240$000;  a  cada  meirinho — 
80$000;  ao  alcaide  que  era  carcereiro  também  — 
100$000;  o  escrivão  da  camará  e  almotaçaria— 100$, 

E'  o  que  consta  do  officio,  expedido  pelo  citado 
governador  em  20    do  Março  de    1801. 

R,  U 


82 


—Em  1822,  foi  verificado— que  a  flotilha,  prepa- 
rada em  Itaparica  para  combater  com  a  esquadra 
portugueza,  que  queria  obstar  á  independência  da 
Bahia,  constava  de  nove  vasos,  afora  algumas  lan- 
chas baleeiras  de  abordagem  e  de  varias  bombar- 
deiras* todas  com  uma  guarnição  constante  de  900 
praças. 

Figurava,  entre  os  primeiros,  a  escuna  Cachoei- 
ray  que  tinha  a  bordo  109  homens,  dos  quaes  70 
eram  daquella  ilha,  e  39  haviam  seguido  desta 
cidade  e  seus  arredores. 


Cachoeira  y   1901. 


A.  Milton. 
(Concluir-se-hu) 


lidas  das  sessíís  ^  ir|qías 


-*- 


82*  SESSÃO  EM  10  DE  MARÇO  DE  1901 
Presidência  do    Sr.  Covs.  Dr,   Saloador  Pires 

Aos  dez  dias  do  mez  de  Março  de  1901,  nesta 
cidade  do  Salvador,  Bahia  de  Todos  os  Santos, 
no  salâo  do  Insiituto,  á  1  hora  da  tarde,  presentes 
os  sócios  Cons.  Drs.  Salvador  Piros  de  Car- 
valho e  Alburquerque.  presidente ;  João  Nepo- 
muceno  Torres,  1^  secretario  ;  capitão  Francisco 
Gomes  Ferreira  Braga,  thesoureiro  ;  Dez.  Thomaz 
Garcez  Paranhos  Montenegio,  Drs.  Bonifácio  de 
Aragão  Faria  Rocha,  Joaquim  dos  Reis  Magalhães, 
Cons.  Dr.  José  Botelho  Benjamin,  Pharmac.  Luiz 
Anlonio  Fiigueiras  e  Comm.  Joaquim  Manuel  de 
Sant^Ani.a,  Comm.  Salvador  Pires  de  Carvalho  e 
Albuquerque,  Henrique  Praguer,  Padre  Luiz  da 
França  dos  Santos.  Francisco  Pires  de  Carvalho  e 
Alfredo  Octaviano  Soledade,  foi  declarada  aberta  a 
sessão,  occupando  o  logar  de  2o  secretario  o  supp- 
lente  Luiz  Fiigueiras  na  ausência  do  effectivo,  dizen- 
do o  2^  secretario  que  a  acta  da  sessão  anterior  não 
estava  lançada  no  respectivo  livro,  mas  que  exis- 
tia sobre  a  mesa  os  appontamenlos  para  a  mesma, 
os  quaes  passou  a  ler  ;  suscitou-se  uma  questão 
de  ordem,  ficando  resolvido  afinal  que  depois  de 
lavrada  fosse  ella  submetiida  á  discussão  e  votação. 

O  expediente  constou  do  seguinte  : 


84 


Officios  :  — de  António  Toledo   Piza,    director  da 
repartição  de  estatística  de  S     Paulo,    remettendo 
um  oxempi  ir  do  relatório  d'aquella  repartição,  re- 
ferente ao  anno  de  1898,  contendo  dados  sobre  as 
condições    demographicas,    económicas    e   moraes 
da  população  paulista ;  de  F^rancisco  Ferraro,  offe- 
recendo  medalhas  e  illustrações    commemorativas 
das  festas  ao  Presidente  Campos  Salles  por  occa- 
sião  de  sua  visita  á  Republica    Argentina,    o    que 
foi  mandado  agradecer;  do    Cônsul   da   Republica 
do  Uruguay,  remettendo  um  exemplar    do  convite 
do  Comité  encarregado  da  reunião  do  2.^  Congresso 
Scientifico-latino-americano,  em  Montevideu,  ao  que 
o  Sr.  Cons.  Presidente  informou  haver  nomeado  o 
nosso  sócio  correspondente,  alli,  Pedro  M.  Reviere, 
residente  naquella  cidade,  para  representar  o  Ins- 
tituto naquella solemnidade,  telegraphando-lhenesse 
sentido  ;  de  Josino  Menezes,  secreiario  do  Governo 
de  Sergipe,  remettendo  seis  volumes    de  leis,    de- 
cretos e  regulamentos  daquelle  Estado,  de    1835  a 
1880,  de  1889  a  1893  e  1897    a  1900  ;    de    Fahricio 
Diniz,  secreiario    do    Centro    Caixeiral    do  Estado 
do  Maranhão,  accusando  a  recepção  de  um  exem- 
plar da  revista  commemorativa  do  4.®  centenário  e 
remettendo  a  quantia  de  12$,  importância  da  assi- 
gnatura    da    mesma    revista ;    do     Dezembargador 
Paulino  Nogueira  Borges    da  Fonseca,    accusando 
a  recepção  da   Carta  de  Pêro    Vaz    Caminha,  Pin- 
dorama,  drama  Descoberta  do  Brasil  e  uma  meda- 
lha ;  da  Sociedade  beneficente  «  União  das  Classes  », 
do  «  Lyceu  de  Artes  e  Officios  »  e  da  «  Associação 
Commerciai   da  Bahia»,  communicando  a    ftleição 
e  posse  de  seus  novos  funccionarios    eleitos    para 
o  corrente  anno  ;  do  Secretario  do   Gabinete    Por- 
tuguez  de  Leitura,  convidando  o  Instituto  para  as- 


85 


sistir  a  sessão  litteraria  em  homenagem  á  memo- 
ria do  seu  illustre  consócio  Thomaz  Ribeiro,  sendo 
nomeada  uma  commissao  composta  dos  sócios  dr. 
Braz  do  Amaral,  cons.  Anlonio  Carneiro  da  Rocha 
e  Damasceno  Vieira  para  representar  o  Instituto  ; 
da  o  Sociedade  Geographica  de  Lisboa»,  commu- 
nicando  o  pezar  que  teve  com  a  perda  do  eminente 
cidadão  Luciano  Cordeiro  ;  do  secretario  da  com- 
missao de  demarcação  de  limites  com  a  Bolivia, 
remettendo  um  mappa  da  região  norte  desse  paiz, 
até  então  desconhecida;  do  secretario  do  a  Archivo 
Publico  D  mineiro,  agradecendo  os  sentimentos  de 
pezar  do  Instituto  pelo  desapparecimento  do  seu 
glorioso  chefe  José  Pedro  Xavier  da  Veiga,  e  do 
sócio  correspondente,  Dr.  Lindolpho  Rocha,  fazendo 
uma  rectificação  do  seu  officio  de  Outubro  ultimo, 
sobre  o  nome  dos  descobridores  das  capoeiras  e 
do  novo  rio,  Alexandre  Cachoeira  e  níio  Juão  Fran- 
cisco. 

Uma  carta  do  Dr.  Silva  Lima,  remettendo  uma 
curiosidade  histórica  e  uns  alfarrábios,  que  julga 
de  interesse  para  o  Instituto  ,  um  cartão  da  Vis- 
condessa Cavalcanti,  escripto  de  bordo  do  vapor 
allemão,  neste  porto,  mas  sujeito  á  quarentena, 
visitando  o  Instituto  e  desejando  possuir  uma  me- 
dalha commcmorativa  do  4.**  centenário  ;  carta  de 
Belisario  Pernambuco  remettendo  um  folheto  rela- 
tivo ao  4^  centenário;  um  livro  do  Brazil  pre-his- 
lorico  a  respeito  do  seu  descobrimento  e  centenário, 
pelo  cónego  Raymundo  Ulysses  Pennaforte,  foi  a 
commissao  de  redacção. 

Foram  apresentadas  tros  propostas  para  admis- 
são de  sócios,  sendo  ellas  enviadas  á  respectiva 
commissao. 

Em  seguida  o   sócio  Sr.    Henrique    Praguer  leu 


8G 


uma  memoria  sobre  as  riquezas  mineraes  da  Bahia, 
memoria  que  será  publicada  na  Revista. 

O  thesoureiro,  Sr.  Francisco  Braga,  leu  o  de- 
monstrativo da  receita  e  desposa,  referente  ao  anno 
lindo,  sendo  o  mesmo  demonstrativo  remettido  á 
commissão  de  contas  para  a  qual  foi  nomeado,  in- 
terinamente, o  Dr.  Paria  Rocha,  em  substituição  a 
um  dos  membros  que  se  acha  ausente. 

Foram  lidos  e  approvados  três  pareceres  da  com- 
missão de  admissão  de  sócios,  sendo  acceítos  para 
sócios  effectivos  os  seguintes  senhores :  cpronel 
Dr.  José  de  Siqueira  Menezes,  director  das  obras 
militares,  neste  Estado,  Francisco  Ferraro,  in- 
dustrial, Casimiro  Cesimbra,  capitão  Ignacio  Mendo 
Filho  e  João  Ramos  Soledade,  e  para  sócio  corres- 
pondente o  Dr.  José  Manuel  Cardoso  de  Oliveira, 
Cônsul  Brazileiro,  em  Berne  e  ali  residente,  João 
Baptista  Perdigão  de  Oliveira,  residente  em  For- 
taleza, e  o  vigário  José  Cupertino  de  Lacerda, 
residente  em  Bomfim  da  Feira,  Senador  Estadual. 
Nada  mais  havendo  a  tratar  foi  encerrada  a  sessão 
e,  de  tudo,  para  constar  eu,  2.°  secretario,  escrevo 
a  presente  acta  pelas  notas  que  me  forào  enviadas, 
e  consigno  que  foi  marcada  outra  sessão  para  o 
dia  3b  do  corrente,  e  assigno— Isaias  de  Carvalho 
Santos  — Approvada  em  sessão  de  31  de  Março, 
de  1901 ,— Salvador  Fires  de  Carvalho  e  Albuquer- 
que-João  Nepomuceno  Torres — Isaias  de  Carvalho 
Santos. 

83^    SESSÃO  EM  31   DE  MARÇO  DE  1901 

Presidência    do    Snr.    Cons,    Dr.     Salvador    Pilhes 

Aos  trinta  e  um  dias  do  mez  de  Março  de  1901, 
nesta  cidade  do  Salvador,  Bahia  de  Todos  os  San- 
tos, no  salão  do  Instituto^  ã  1  hora  da  tarde,  pre- 


87 


sontes  os  sócios  cons.  drs.  Salvador  Pires  de  Car- 
valho e  Albuquerque,  presidente,  Jono  Nepomuceno 
Torres,  i.^  secretario,  Isaias  de  Carvalho  Santos,  2,o 
secretario,  dez.  Thomaz  Garcez  Paranhos  Monte- 
negro, drs.  Braz  Hermenegildo  do  Amaral,  Alfredo 
Cezar  Cabussú,  Joaquim  dos  Reis  Magalhães,  Inno- 
cencio  Góes,  Bonifácio  de  Aragão  Faria  Rocha, 
Egas  Muniz  de  Aragão,  José  Júlio  de  Calasans, 
cap.  Francisco  Gomes  Ferreira  Braga,  padre  Luiz 
da  França  dos  Santos,  comms.  pharm.  Joaquim 
Manoel  de  Sant'Anna  e  Salvador  Pires  de  Carvalho 
6  Albuquerque,  Horácio  Urpia  Júnior,  pharm.  Luiz 
Filgueiras,  Alfredo  Octaviano  Soledade,  Joào  An- 
tunes de  Castro  Menezes,  Damasceno  Vieira,  prof. 
João  Joaquim  dos  Santos  Sá,  Francisco  Pires  .ie 
Carvalho,  coronel  Gonçalo  de  Athayde  Pereira  e 
Alfredo  Requião,  foi  declarada  aberta  a  sessão,  sen- 
do lidas  e  approvadas,  sem  debate,  as  actas  das  ses- 
sões de  18  de  Novembro  de  1900  e  de  10  de  Março 
do  corrente  anno. 

Em  seguida  foi,  pelo  Snr.  «Jons.  Dr.  1»  secretario 
lido  o  expediente,  que  constou  do  seguinte: 

Ojfficios:-^ do  dr.  Guilherme  Pereira  Rebello  e  sua 
consorte,  oflferecendo  o  retrato  a  óleo,  em  tamanho 
natural,  do  fallecido  brigadeiro  Rodrigo  António 
Falcão  Brandão,  barão  de  Belém,  avô  paterno  desta, 
e  cujos  serviços  ao  paiz  tornaram-se  salientes  por 
occasiâo  das  luctas  da  independência  politica;  do 
Inspector  do  Thesouro  do  Estado  do  Pará  commu- 
nicando  a  sua  nomeação  para  esse  cargo;  do  sr. 
Alberto  F.  Rodrigues,  de  Pelotas,  accusando  o  re- 
cebimento do  numero  25  da  nossa  Revista,  e  en- 
viando um  exemplar  do  Jornal  do  Commercio,  do  Rio 
de  Janeiro,  commemorativo  do  4**  Centenário  do 
Pescobriroento  do  Brazil;  do  director  bibliothecario 


88 


do  Centro  Caixeiral  d(^  Maranhão  accusando  a  re- 
cepção de  uma  carta  de  24  de  Janeiro  do  corrente 
anno,  acompanhada  da  Carta  de  Pêro  Vaz  de  Ca- 
minha em  retribuição  á  importância  remetlida  para 
assignatura  da  Revista,  e  agradecendo  a  remessa 
grátis  da  mesma  Revista;  do  bibliotecário  do  Museu 
Nacior  ai  de  Slokolmo,  Suécia,  accusando  recebida 
a  Revista,  VII  vol.  ns.  2^*i— 25  e  a  caderneta  rela- 
tiva á  Commemoração  da  Descoberta  do  Brazil,  e, 
fazendo,  ao  mesmo  tempo,  sentir  que  seriam  rece- 
bidas com  especial  satisfação  as  publicações  an- 
teriores e  <»fferecendoa  Revista  mensal  do  referido 
museu. 

Cartas:  do  sócio  correspondente,  sr.  Cândido 
Costa,  dirigida  ao  sr.  capitão  Francisco  Gomes  Fer- 
reira Braga,  offerecendo  a  quantia  de  500$000  em 
beneficio  do  monumento  a  erigir-se  em  memoria  de 
Pedro  Alvares  Cabral,  com  a  clausula  de  reverter 
essa  quantia  em  beneficio  do  Instituto  si,  no  praso 
de  vinte  annos,  não  se  levar  a  effeito  o  referido 
monumento;  do  sr.  Pedro  Callorda  y  Acerto  com- 
municando  haver  remettido  uma  circular  relativa 
ao  serviço  internacional  do  cambio,  acompanhada 
de  uma  lista  das  publicações  que  ainda  tem  para 
attender  ao  dito  intercambio  e  lamentando  não 
poder  repetir  a  remessa,  e  declara  que  pode  o 
Instituto  indicar  o  titulo  das  obras  que  de- 
seja possuir,  para  serem  remettidas  prompta- 
mente  ;  do  Dr.  José  de  Siqueira  Menezes,  accu- 
sando o  recebimento  da  participação  de  ter  sido 
approvado  sócio  eflfectivo  do  Instituto,  declarando 
acceitar  e  agradecendo,  e  um  cartão  de  convite  da 
commissão  da  Escola  Polytechnica  da  Bahia,  con- 
vidando o  Instituto  para  assistir  a  sessão  solemne 
no  dia  17  do    expirante,  ás  12  horas    do    dia,    no 


HO 


edifício  da  mesma  escola  afim  de  testemunharem 
ao  exm.  sr.  Dr.  Severino  dos  Santos  Vieira  o  seu 
sincero  agradecimento  pelos  relevantes  serviços 
prestados  á  referida  escola. 

O  sr.  cons.  presidente —  disse  ter  nomeado  uma 
commissão  composta  dos  socius  Drs.  Braz  do  Ama- 
ral, Bonifácio  Faria  Rocha  e  Cons.  Filinto  Bastos 
para  representar    o  Instituto. 

Continuando-se  no  ex  pediente  foram  lidas  duas 
propostas,  devidamente  ajjoiadas,  indi(!arido  para 
sócios  correspondentes  os  seguint(ís  cavalheiros: 
Dr.  J.  C.  Branner,  professor  de  jj^eoloi^ia  da  Uni- 
versidade de  Stranforil,  na  Cahfornia,  chefe  da  ex- 
pedição «Agassiz»)  ao  Brazil;  l.)r.  Zeferin<3  Cândido, 
litleralo  e  historiad)r,  re>identLí  na  Capital  Federal  ; 
Guimarães  Passos,  lilterato  e  poeta,  também  resi- 
dente na  Capital  Federal  ;  [)rof.  Amâncio  Pereira, 
da  Escola  Normal  da  cidad'3  da  Victoria  (Espirito 
Santo);  Alberto  Ferreira  Roflrigues,  litterato  e  dire- 
ctor do  Almanack  Popular,  residente  na  cidade  de 
Pelutas:  e  Dr.  Virgile  liossel,  (>rofessor  cathedratico 
da  Universidade  de  Berne  (Suissa),  jurisí^>nsulto 
notável  e  critico. 

Pelo  2,"^  secre-tario  Isaias  Santos  Foram  oíTereci- 
das  para  a  collecouj  do  liístiiuto  duas  cédulas  de 
100$OOO,  sendo  uma  já  re«'olhida  e  ouira  falsa;  duas 
de  2()$000,  muito  antii^as  e  ri^(»olhida>  ha  muitos 
annos;  uma  de  10$()00,  já  recolhitia  e  cinco  de  1$000, 
todas  muito  antigas,  sendo  quatro  carimbadas  como 
falsas. 

Em  seguida  foi  li-io  o  pare(!er  da  commissão  de 
fundos  e  orçamento  cujo  tt-or  é  o   seguinte  : 

A  commissão  de  fundos  e  orçamento,  examinan- 
do attentamente  as  contas  da  receita  e  despeza  pres- 
tadas pelo  sr.    thesoureiro  Francisco    Gomes   Fer- 

R.  12 


90 


reira  Braga,  durante  o  anno  findo  em  31  de  Dezem- 
bro de  1900,  assim  como  a  respectiva  escriptura- 
çio,  as  julga  merecedoras  da  approvação  da  assem- 
bléa  geral. 

No  balançu  junto  apresentado  pelo  mesmo  sr. 
thesoureiro,  e  extrahido  da  referida  escripturaçSo, 
estão  descriminadas  as  verbas  de  receita  e  despeza, 
importando  aquella  em  Rs.  22:297$500  ( vinte  e  dois 
contos  duzentos  noventa  e  sete  mil  e  quinhentos 
réis)  e  esta  em  Rs.  22:212$848  (vinte  e  dois  contos 
duzentos  e  doze  mil  oitocentos  quarenta  e  oito  réis); 
pelo  qu3  verifica-se  um  saldo  de  Rs.  84$652  (oiten- 
ta e  quatro  nui  seiscentos  e  cincoenta  e  dois  réis) 
para  o  anno  seguinte. 

Bahia  e  sala  das  sessões  do  Instituto  Geographico 
e  Histórico,  28  de  Març  >  de  lUOl.  — (Assignados) 
5.  Pirc^  de  Carcallio  c  Albuquerque  —Horácio  Ur- 
pia  Júnior —Bonifácio  de  Aragão  Faria  Rocha, 

As  contas  a  que  se  refere  o  [carecer  da  Commissao 
são  as  do  demonstrativo  seguinte: 

RECEITA 

Subvenção  municipal,Janei- 

ro  a  Dezembro  de  1900.     .  1:000$000 
Idem     estadual,    Dezembro 

de  1899  a  Agosto  de  1900.  4:500$000 
Idem  federal,     Outubro    de 

1899  a  Setembro  de  1900.  5:049$500 
Producto  de  12  loterias.  .  4:800$000 
Mensalidades  de  sócios  .  l:30õ$000 
Jóias  de  sócios  ....  360$000 
Remissão  de  sócios  .  .  .  100$000 
Assignalura  da  Revista  .  .  108$000 
Vendagem  da  Revista  .  .  75$000 
Empréstimo  por  lettra,  Ban- 
co Auxiliar  das  Classes  .  5:000$000  22:297$500 


91 


DESPEZA 


Aluguel  da  casa— Dezembro 
de  1899  a  Março  de  1900 

Ordenado  do  amanuense 

Idem  do  porteiro   .     .     . 

Idem  do  cobrador  .     .     . 

Commissão  ao    mesmo  . 

Juros  e  amortisação  da  let- 
ira  do  Banco  Auxiliar  das 
Classes  

Impressão  da  Revista,  nú- 
meros 21  a  23 

idem  da  Revisla-Indepcn- 
dencia  da  Bahia,  para  o 
Cenienario 

Despeza  da  secretaria,  inclu- 
sive  geraes     

Seguro  do   prédio.     .     .     . 

Compra  de  livros  .     .     .     . 

Idem  de  moveis  e  utencilios 

Pago  a  diversos — niateriaes 
para  o  prédio     .... 

Idem  ao  Thesoureiro  Fran- 
cisco G.  F.  Braga,  como 
empréstimo 

Saldo  para   o  exercicio  se- 


540$000 
960$000 
720$000 
399$996 
164$700 


376$000 
2:745$000 


guinte 


400$0Í)0 

1:838$000 
115$800 
300$000 
899$010 

ll:730$27õ 


1:023$507  22:212$848 
84$(>25 


O  guarda  livros  (Assignado)  João  Jcaquim  Santos 
Sá. — Bahia  e  sala  das  sessões  do  Insliiuto  Geogra- 
phico  e  rlistorico  da  Bahia,  10  de  Marco  de  1901. — 
O  thesoureiro  (assignado)  Francisco  Gomes  Ferrei- 
ra Braga, 

Posto  em  discussão  o  parecor  e  lulo  havendo  quem 
pedisse  a  palavra,  é  approvado. 


V>2 


O  sócio  Dp.  Faria  R-^cha,  membro  da  Commissão 
de  Fundos  e  Orçameiuo,  peiiindu  a  palavra,  leu  o 
seguinte  parecer  firmado  por  toda  a  Commissão: 

A  Commissão  de  Fundos  o  Orçamento  verifican- 
do não  serem  prosr)eras  as  condições  financeiras  do 
Instituto,  e  tendo  em  vista  quo,  no  exercicio  de  1900 
não  foram  amortisadas  as  dividas  por  liypotheca  e 
letra  ao  Banco  Auxiliar  das  Ciasses,  e  que,  nem  ao 
menos,  foram  pagos  os  respectivos  juros,  o  que 
aliás  consta  da  ex[)Osiçã()  feita  pelo  Sr.  Thesou- 
reiro,  em  documento  por  elle  lido,  em  sessão  de- 
10  do  cadente,  e  annexado  ás  contas  apresei^.tadas 
por  aquelle  funccionarin  ; 

Attendendo  a  que  também  não  foram  pagas  di- 
versas contas  relacionadas  no  alludido  documento, 
na  importância  total  de  r):042$0()0  ; 

Atíondendo  ainda  a  que  com  a  rescisão  do  con- 
tracto celebrado  com  o  coronel  Júlio  Telles  da  Silva 
Lob«»,  pei'deu  '.*sta  associação  uma  das  melhores 
fontes  de  renda,  quai  <>  produ(!to  das  loterias  con- 
cedidas em  seu  bcMieíicio  ; 

Attendendo,  consoquentcmenlí»,  (|iie  ó  de  neces- 
sidade ur^i^ente  c  imprescindível,  remediar-se  de 
alguma  sorte  essa  alHictiva  situação  ;  propõe: 

1.*^  Ficam  pr  jvis'>iiame!ite  elevadas  a  2$000  as 
mensalidades  dos  sócios,  sendo  mensal  a  cobrança 
dessa  contribuição. 

2/'  D  Sr.  Tiiesourciro  (.Mn|)regarâ  os  mais  dedica- 
dos estV)rços  para  í|uh  íj.juom  em  dia  as  alludidas 
mensalidades,  devi^ndo  o  Sr.  1."  Secretario  avisar, 
por  escripto,  aos  qur»  se  acharem  em  atrazo,  que 
serão  (íxcluidos,  ii.i  forma  do  art.  54  dos  Estatutos 
a(juelles  que  não  se  quitarem  em  prazo  nunca  su- 
perior a    trinta  (30)  dias. 

3.'>  Ki(!a  a  Mt^za   autoris.uia  a  chamar  concurren- 


93 


cia  e  firmar  contracto  com  quem  mais  vantagens 
offerecer  para  a  extracção  das  loterias  do  Instituto; 
b  j  a  entender-se  com  o  Banco  Auxiliar  das  Clas- 
ses, no  sentido  de  reformar  a  lettra  de  que  é  cre- 
dor do  Instituto,  augmentando  o  debito  com  as 
importâncias  devidas  por  juros  da  hyt)0theca  do 
prédio  e  da  referida  lettra,  até  a  época  em  que  for 
efíeciuada  a  operação; 

c}  a  promover  por  si  ou  com  auxilio  da  Com- 
missãoque  entender  de  nomear,  concertos,  kormes- 
ses  ou  quaesquer  diversões  ou  espectáculos  [)ubli- 
cos  em  beneficio  da  associação,  sendo  o  producto 
de  taes  festa?  destinado  ao  pagamento  dos  actuaes 
credores,  não  pudendo  lançar  mão  desse  recur- 
so para  outras  dos[>ezas  em  quanto  aqutlles  nãv) 
forem,  por  com[)leto,  embolsados  de  seus  cré- 
ditos ; 

4.^  As  quantias  ;)roveriientes  das  subvenções  con- 
cedidas pela  Unia'.)  e  pelo  Kstado  serão,  exclusiva- 
mente, destinadas  á  amortisação  e  pagamento  de 
juros  devidos  ao  Banco  Auxiliar  das  Classes. 

5.®  Para  as  demais  des[)ezas  do  Instituto  a  Meza 
empregará,  além  da  subvenção  municipal  as  outras 
rondas  ordinárias  í|ue  forem  arrecadadas,  observan- 
do a  mais  severa  eon^mia  e  autorizando  somente 
as  despezas  de  caracter  absolutamente  inadiáveis 
com  restricta  observância  dos  aris  28,  §  5*  e  32  § 
2.°  dos  Estatutos. 

6.'^  Fica  suppresso  o  logar  de  servente.  Ao  portei- 
í*o  incumbirá  a  limpeza  dos  moveis,  sendo  encar- 
regado do  asseio  das  dependências  reservadas  e  das 
^'arreduras  da  casa  um  ganhador,  contractado  mas 
occasiões  em  que  se  fizer  mister  esse  serviço,  pa- 
gando-se-lhe  de  cada  vez  a  quantia  ajustada. 
Saia  das  sessões  do  Instituto,    31   de    Março   de 


94 


1901.  (Assignadosj  Salvador  Pires  de  Carvalho  e 
Albuquerque— Horácio  Urpia  Júnior —  Bonifácio  de 
Aragão  Faria  Rocha, 

Em  discussão,  falaram  sobro  a  proposta  o  Sr. 
Thesoureiro,  osDrs.  Cabussú,  Reis  Magalhães,  J. 
Culasins  e  o  Cons  1*  Secretario,  sendo  apresen- 
tada a  seguinte  emenda  ao  n.  4  :  cdas  subvenções 
federai  e  estadual  será  destinada  a  quantia  de  oito 
contos  de  réis  (8  000$000)  para  amortisaçâo  do  de- 
bito contrahido  com  o  Banco  Auxiliar  das  Classes»), 
—Bahia,  31  de  Março  de  1901.  ^Assignado)  João 
Torres. 

Em  votação,  são  approvados  os  n^.  1,  2,  3  e  5. 
a  errienda  t*  su|)presso  o  n  6  da  proposta,  era  tem- 
po retirado  a  pedido  da  Coramissão. 

Foram  approv.:dus  em  escrutínio  secreto  os  pa- 
recei*es  sobre  a  admissío  de  sócios,  sendo  accei- 
tos  os  seguintes:  Para  sócios  effectivos  os  Drs. 
Clemente  de  Oliveira  Mendes,  juiz  de  direito  apo- 
sentado, Guilherme  Muniz  Barreito  de  Aragão,  Ur- 
bano Pires  de  Carvalho  e  Albuquerque,  Francisco 
Prisco  de  Souza  Paraíso,  José  de  Oliveira  Leite, 
Francisco  Cardoso  e  Silva,  Affunso  Pires  de  Car- 
valho e  Albuquerque  e  o  rvm. cónego  Lino  Pereira 
da  Fonseca;  e  para  sócios  correspondentes  os  Drs. 
Carlos  Reis,  secretario  do  Instituto  Histórico  de 
S.  Paulo  e  Eduardo  Prado,  litterato  e  historiador, 
ambos  residentes  naquelle  Estado;  D.  Raymundo 
Britto,  bispo  de  Olinda,  a  Exma  Sra.  D.  Voridiana 
Prado,  fazendeira  e  capitalista  em  S.  PauU)  c  o  Sr. 
Belisario  Pernambu(i«»,  r<'sidonto  na  Capital  Federai. 

Nada  mais  havendo  a  tratar  foi  encerrada  a  ses- 
são e  de  tudo,  para  constar,  eu,  2.^  Secretario^  la- 
vrei a  presente  acta  e  assigno.  — Isaías  de  Carvalho 
Santos. 


95 


Approvada  em  sessão  de  13  de  Maio  de  1901.— 
Saloadjr  Pires  de  Carvalho  e  Albuquerque.--  João 
Nepomuceno  Torres, — Isaías  de  Caroalho  Santos. 


U,^  SESSÃO  EM  3  DE  MAIO  DE  1901 
Sessão  magna  commemorativa  no  anniversario 

DA     INSTALLAÇÃO     DO    INSTITUTO 

Presidência  do  Exm,  Sr.  Dr.  Severino  Vieira 

Aos  3  dias    do  mez  de  Maio  de  1901,    nesta  ci- 
dade do  Salvador,  Bahia  de  Todos  os  Santos,  á  1 
hora  da    tarde,    presentes  os   Srs.    Drs.    Severino 
Vieira,  sócio  do  Instituto  e  G<.>vernador  do  Estado, 
José  de  Oliveira  Leite,   secretario    do  Thesouro    e 
Fazenda  do  Estado,  Salvador  Pires  de  Carvalho   e 
Albuquerque  Junio^  Secretario  da  Policia  e  Segu- 
rança Publica  e   Josó  Eduard<j  Freire  de  Carvalho, 
Intendente  Municipal ;  o   representante  do  Sr.  Ge- 
neral Commandante  do  3.^  districtc  nnilitar  ;  coni- 
missões  dos  Tribunaes  e  dn  diversas  associações, 
6  os  sócios  Cons.  Drs.  Salvador  Pires  de  Carvalho 
6  Albuquerque,  [)residente,    Joào  Ne[)omuceno  Tor- 
res, 1.0  secreiario,  Braulio  Xavier  da  Silva  Pereira  e 
António  Carneiro  da  Rocha  ;  Drs.  Braz  Hermenegildo 
do  Amaral,    Manuel   Pedro   de   Rezende,    Júlio    da 
Gama,  Guilherme  da  Conceição  Fa^ppel,  Augusto 
Góes.  Joãu    Pimenta   Bastes,   Francisco  Muniz    de 
Aragão,  Satyro  Dias,  Alfredo  António  de  Andrade, 
Ernesto  Carneiro  Ribeiro,  Bonifácio  de  Aragão  Fa- 
ria Rocha,  Egas  Muniz  Barreilo  de    Aragão,    José 
Júlio   Calasans,    Alfredo    César   Cabussú,    Aurélio 
Pires    de    Carvalho    e    Albuquerque,  Dez.   Manuel 
Jeronymo  Gonçalves,  Barão    de   S.  Francisco,  Pro- 


96 


fessores  António  Alexandre  Borges  dos  Reis  e  Ma- 
noel Raymundo  Quorino.  Phariri.  Comm.  Joaquim 
Manuel  de  SanfAnna  e  Alfredo  A(!CÍoly  do  Prado, 
coronéis  Gonçalo  de  Athayde  Pereira,  AíTonso  Pe- 
dreira de  Cerqueira  e  Martiniano  de  Almeida,  có- 
negos Manfredo  x\lve.s  de  Lima  e  Joio  Paranhos 
da  Silva.  Paires  Dr.  Samu^^l  Elpidio  de  Almeida 
e  Luiz  da  Frauí^a  dos  Santos,  capitão  Francisco 
Gomes  Ferreira  Braga,  Alfredo  Octaviano  Soledade, 
Damasceno  Vieira,  comm.  Salvador  Pires  de  Car- 
valho e  Albuquerque,  Nicolau  Tolentino  Carneiro 
da  Cunha,  Isaias  de  Carvalho  Santos,  2. *>  secretario 
e  Silio  Boacanera  Júnior,  foi,  pelo  Sr.  presidente, 
Cons.  Dr.  Salvador  Pires  de  Carvalho  e  Albuquer- 
que, declarada  aberta  a  sessão  e  convidado  o  Sr. 
Dr.  Severino  Vieira  [»ara  assumir  a  presidência,  o 
quo  este  tez. 

Em  seguiiia  o  mesmo  Sr.  Cons.  Dr.  Salvador  Pi- 
res, com  a  palavra,  leu  extenso  e  substancioso  dis- 
curso, pondo  em  saliência  os  factos  [)rinci|!aes  oc- 
corridos  no  ultimo  anno,  o  progresso  do  Instituto  e 
a  dedicação  di^s  Srs.  sócios,  com  os  quaes  se  con- 
gratulava; e  logo  depois  o  Sr.  C(ms.  Dr.  Joào  Tor- 
res, 1.^  secretario,  obtendo  também  a  palavra,  leu 
minucioso  relatório,  individuando  factos  e  aconte- 
cimentos do  anno  íindo,  seguiiido-se  cnm  a  pala- 
vra os  Sr^v  Silio  Bo;'(!anera  Júnior,  como  represen- 
tante do  Grémio  Litterario,  Dr.  ligas  Muniz,  como 
representante  de  joi*naos  allemâes  e  Damasceno 
Vieira,  os  quaes  saudaram  o  Instituto,  e  por  ultimo 
o  Dr.  Braz  do  Amaral,  orador  do  Instituto,  que,  na 
forma  dos  Estatutos,  fez  o  el(»gio  dos  sócios  falle- 
cidos. 

E,  nâo  havendo  mais  quem  pedisse  a  fialavra,  foi 
encerrada    a  sessão,  e  de  tudo,    para   constar,  eu, 


97 


Isaías  de  Carvalho  Santos,  2r  secretario,  lavrei  a 
presente  acta  e  assigno.  --ísaias  de  Carvalho  Santos. 
Approvada  em  sessão  de  12  de  Maio  de  1901.— 
Salvador  Pires  de  Carvalho  e  Albuquerque.  ^João 
Nepomuceno  Torres. — Dp.  Egas  Muniz  Barreito  de 
Aragão,  secretario  interino. 


DISCURSO  DO  PRESIDENTE 

Exm.  Sr.  Dr.  Governador  do  Estado. 

Exms  Srs. 

Srs.  sócios  do  Instituto  Geographico  e  Histórico 


E'  urna  grande  verdade  experimentada  quotidia- 
namente por  toda  gente,  mas  que  só  ao  emérito  lit- 
terato  portuguez  Pinheiro  Chagas  foi  dado  crystali- 
sal-a  nas  vibrações  eloquentes  de  seu  talento  :  «  nós 
vemos  quasi  sempre  a  natureza  pelo  prisma  do  nosso 
coração;  ou  envolvemos  a  paisagem  no  luto  de  nos- 
sos pezares,  ou  adornamol-a  com  o  risonho  manto 
de  nossas  alegrias  ». 

E'  assim  que  por  mais  que  me  concitem  ás 
alegres  expansões  d'alma  as  galas  que  revestem  o 
recinto  em  que  pairamos  neste  momento,  e  a  im- 
ponência desta  solemnidade  commemorativa  do  7.* 
anniversario  do  «  Instituto  Geographico  e  Histórico 
da  Bahia x>,  eu  sinto  que,  hoje  mais  do  que  nunca, 
em  idênticas  festas,  a  voz  se  prende  nas  fauces,  e 
emoções  diametralmente  antagónicas,  ora  confran- 
gem o  meu  coração  em  cruciantes  dores,  principal- 
mente naquella  parte  em  queCamillo  Casiello  Bran- 
co imaginou  ter    o  anjo    dos  allivios  depositado  o 

R.  13 


08 


pranto:  ora  dislendem-no  como  para  o  sensório 
receber  em  toda  plenitude  a  sinistra  impressão  das 
attribulações  angustiosas  da  Pátria,  as  quaes  por 
eífeito  reflexiv)  envolvem  a  todos  nós  brazileircs  na 
lúgubre  diaphaneidade  de  sombrio  crepe 

E  não  pareça  inopportuna  a  manifestação  das 
apprehensões  que  assaltam  o  meu,  e  talvez  nossos 
espiritos.  não;  porque  vejo  ante  mim  homens  capa- 
zes de  submetter  a  uma  rigorosa  analyse  as  occur- 
rencias  da  nossa  vida  social  o  palpar  a  sede  e  origem 
do  mal  que  invadiu  seu  organismo, fazer  a  diagnose  da 
enfermidade,  e  determinar  as  prescripções  therapeu- 
ticas;  não,  porque  não  estamos  em  um  salão  de 
baile,  onde  os  perfumes  e  abelleza  conspiram  pela 
narcotisação  de  todo  sentimento  que  não  seja  volu- 
ptuoso, ou  em  um  opiparo  banquete  em  que  o  ol- 
facto estimula  pelo  aroma  dos  acepipes  o  estômago 
para  um  repasto  de  Epicuro,  o  estômago  que  já 
Menenio  Agrippa,  no  seu  tempo,  chamava  o  «cen- 
tro da  vitalidade  dos  membros»;  não,  meus  senho- 
res, porque  nos  achamos  constituídos  n'um  centro 
litterario,  corporificamos  uma  instituição  scientifica, 
que  tem  por  objectivo  a  historia,  mas  a  historia 
pátria,  particularmente  a  historiado  grandioso  Es- 
tado da  Bahia;  e  a  historia  não  se  constroe  sinão 
registrando  e  concatenando  os  factos,  nomeando 
os  seu?  protogonistas,  assignalando  as  datas,  pes- 
quizando  omnimodamente  a  verdade  para  com  estes 
elementos  fundir  e  burilar  o  cMeo  monumento  que 
se  chama  -Historia. 

Oxalá  que  as  solemnidades  com  que  festejamos 
os  nossos  anniversarios,  nas  quaes  os  bellos  orna- 
tos da  eloquência  e  o  deslumbrante  rendilhado 
das  phrases  porfiam  pelos  louros  da  lethorica,  fos- 
sem   substituídas  por    uma    confercicia  de  sábios 


99 


historiadores  e  chronistas,  cada  qual  trazendo  na 
corbelha  modesta  de  seus  labores  os  mais  formosos 
ponios  de  sua  seara,  ou  na  fronte  um  foco  de  luz 
para  iliuroinar  no  íuiuro  a  liistoria  do  presente  I 

Oxalá  que,  tornados  mais  [íralicps,  os  nossos.es- 
pipitos  baixassem  das  interminamente  elevadas  re- 
giões da  phantasia,  e  pairassem,  e  estudassem  os 
phenomenos  nas  suas  orif^ens,  e  na  apreciação  dos 
factos  históricos,  por  minúsculos  que  sejam  appa- 
rentemenle,  applicassem-lhes  a  mais  criteriosa  in- 
vestigação para  obter  a  exacta  relação  de  causa 
e  effeito,  evitando  as  falsas  e  incompletas  conclu- 
sões que  commodamonte  explicam  pelo  acaso  a 
emergência  de  factos  cujo  movei  e  objectivo  pare- 
cem inexplicáveis  ao  primeiro  aspecto  ;  porque  o 
acaso  perante  a  historia  não  existe,  como  não  pode 
existir  perante  a  philnsophia  um  effeito  sem  causa 
e  elle  nao  ô,  como  disse  o  sábio  Littré  «senão  o 
efleito  [)roduzido  pelo  encontro  de  cousas  entre  si 
iuílependentes»),  mas  que  devem  ser  averiguadas, 
pois,  conforme  em  termos  mais  precisos,  já  outro 
philosopho  dissera,  a  o  acaso  não  è  senão  a  causa 
ignorada  de   um  effeito  conhecido  »>. 

Mas,  senhores,  o  í»rogramma  de  nossas  fastas 
não  foi  ainda  modificado,  e,  pois,  cumpre-me  obe- 
decer aos  estylos  da    nossa  instituição. 

E'já  passado  um  anno  depois  da  trasladação  do 
«Instituto  Geographico  e^Historicu  da  Bahiio  de  seu 
primitivo  e  modesto  berço  para  esse  elegante  edi- 
fício, cujas  portas  pela  vez  primeira,  como  se  fo- 
ram de  um  tempi  >,  festivamente  abriram-se,  para. 
no  seu  tabernáculo  penetrarem  os  próceres  do  saber, 
as  culminancias  da  administração  publica,  os  re- 
presentantes de  differentes  nações,  emfim,  os  abne- 
gados levitas  do  progresso,  vindos  de  procedências 


100 


diversas,  mas  trazendo  todos  as  oblatas  do  suas 
inestimáveis  gentilezas  ao  motivo  mais  que  sublime 
da  solemnidade,  que  não  era  simplesmente  comme- 
morativa  do  6.-  anniversario  do  Instituto,  senão  a 
rememoração  quatricentenaria  de  um  grande  acon- 
tecimento geographico-historico,  a  descoberta  de  um 
treclio  do  globo  nfio  ainda  traçado  no  mappa-mundi 
conhecido,  de  uma  região  ignota  ou  mal  suspeitada, 
tão  expressivamente  comparad.i,  por  um  dos  mais 
possantes  talentos  poéticos  do  Brazil,  o  inditoso 
Franco  de  Sá,  a  um  indio  gigante,  nascido  entre 
selvas,  ao  sopro  dos  vent  ^s,  ao  som  das  cascatas, 
cuja  collossal  dimensão  resumiu  em  ardente  alle- 
goria  na  mais  mimosa  de  suas  estrophes: 

«  de  zonas  ardentes,  de  frigidas  zonas, 
o  vasto  collosso  se  estende  atravez  ; 
repousa-lhe  a  fronte  no  immenso  Amazonas  , 
e  as  aguas  do   Prata   murmuram-lhe  aos  pés.  » 

O  que    foram  aquellas  sumptuosas  festas,  a  im- 
pressão   vibrante    de    patriotismo    que   gravou    no 
animo  da  população  toda    dest  i  capital,    desde    o 
nao.ional  até  o  estrangeiro,   desde  o  sábio  ao  mais 
rude,  do  artista,  do  operário  ao  opulento  industrial, 
do  mutuário  ao  banqueiro,  no  clero  como  nas  for- 
ças armadas,   nas  altas  regiões  officiaes  como  nas 
associações  liilerarias  e  beneficentes,  o  que  foram 
ellas  não  serei  eu  que  ouse  restaurar  na  vossa  re- 
miniscência; que  o  façam  por  mim  o  echo  das  bri- 
lhantes peças  oratórias  que  se  fizeram  então  ouvir, 
o  colorido  das  expressões  enihusiasticas  de  toda  a 
nobre  imprensa  desta  capital;  e  si  alguma  rememo- 
ração me  ó  dado  fazer   consista    na    reiteração  do 
profundo  reconhecimento  do  Instituto  a  todos  quan- 
tos contribuíram  para  a  imponência -e  sumptuosida- 


201 


de  dps  alludidos  festejos,  nomeadamente  .á  Cora* 
missão,  que,  arcando  contra  mil  difficuldades,  ga* 
ihardameAlte  mediu  o  desempenho  pela  grandeza  o 
extensão  da  incumbência. 

E,  foi  este  o  facto  mais  notável  do  ultimo  anno 
social,  passando  o  Instituto  a  desiisar  em  seu  viver 
normal  e  sereno  até  i|ue  transpoz  o  magestoso  hum- 
bral  do  século  XX,  tão  solemnemente  preconisado 
pela  sciencia,  pela  egreja.  pela  humanidade  em  ge- 
ral, que  avidamente  aguardam  a  vindima  dos  bons 
e  máos  fructos  semeados  no  século  ido. 

Não  foram  nelle  raras  as  construcçòes,  demoli- 
ções e  transformações  qu«  em  todos  os  campos  da 
actividade  do  homem  operou  aquelle  século,  quer 
na  vida  iatima,  quer  na  internacional  dos  povos; 
nas  leis  e  costumes,  nas  artes  e  industrias  como 
na  sciencia  em  geral,  na  paz  e  na  guerra,  na  cí.- 
vilisação  como  na  evangelisaçâo  dos  povos;  ora  ex- 
tinguindo pequenas  suzeranias  e  transformando-as 
em  nações  poderosas  pela  força  de  aggregação; 
ora  desaggregando  de  grandes  colossos  pequenos 
territórios,  que  extremecem  e  heroicamente  deba- 
tem pela  sua  independência;  alli,  metamorphosean- 
do  os  pequenos  estados  italianos  em  uma  grande 
nação— a  Itália  Una,  a  grandiosa  concepção  do  emi- 
nente estadista  o  conde  de  Cavour;  mais  ao  norte 
um  Rrupo  de  principados  e  ducados,  Hlhos  Ja  ve- 
ll^a  «mãe  dos  povos»  a  Germânia,  cuja  historia  apre- 
senta uma  serie  de  transformações,  como  diz  Max 
Nordau,  equivalentes  a  outras  tantas  mortes  e  re- 
surreições,  depois  de  um  esphacelamento  quasi  com- 
pleto, renasce  no  pequeno  ducado  da  Prússia,  que 
se  faz  reino,  e  guiada  pelo  rijo  braço  de  Bismarck, 
o  grande  «chanceller  de  ferro»,  atravez  de  Sadowa 
e  Sedan,  a   Prússia    chega  à  Allemanha,  iransfor- 


102 


•fnaadr^-á  Confederação  Germânica  no  poderoso  im- 
fíçrio  allemão,  cujo  território  e  commercio  dilata-se 
'•por  lodosos  os  continentes  ;  cuja  nnarinha  luzida  e 
bem  apparelhada  pretende  o  dominio  dos  mares: 
cujo  exercito  disciplinado  e  instruido  simultanea- 
mente impõe  a  ordem  interna  e  assegura  a  paz 
externa. 

Mas,  srs..  si  prodígios  tantos  operou  o  s^eculo 
XfX,  não  menos  alongada  e  luminosa  será  a  rota 
do  actual  século  airavez  do  espaço  infinito,  tangido 
pela  força  e  tendência  irreductiveis  do  progresso 
o  da  perfectibilidade  humana,  e  as  prophecias  ahi 
estão  :  cada  sábio  ou  philosopho,  cada  astrónomo 
ou  maihematico,  cada  publicista  ou  jurisconsulto 
prevê  pelo  prisma  de  suas  locubrações  a  incom- 
mensuravel,  a  deslumbrante  trajectória  do  século 
XX,  approximadamento  calculada  pelo  vigoroso 
impulso  que  traz  do  precedente  século. 

Comquanio,  porém,  muito  liaja  ainda  por  fazer 
na  vida  material  dos  povos,  é  comtudo  certo  que 
o  progresso  moral  e  social  da  humanidade  tem 
attingido  um  gráo  bastante  elevado  para  que,  sem 
prejuizo  do  aperfeiçoamento  de  que  cada  uma  na- 
ção em  particular  ainda  seja  susceptivel,  já  possa- 
mos nos  agrupar  em  torno  do  lábaro  da  fraternisa- 
çHO  geral  dos  povos  pela  approximação  das  leis  e 
costumes,  das  religiões  e  normas  administrativas, 
pela  uniformisação  do  commercio  e  industria,  pela 
segurança,  emfim,  da  paz  universal,  de  modo  a 
preparar  a  solução  do  arrojado  problema  proposto 
ao  futuro  no  século  passado  pela  vibrante  voz  de 
seus  mais  sábios  pensadores,  do  grande  vidente 
€  virtuoso  padre  Lamenais,  que  nos  reptos  de  sua 
mystica  eloquência  synthetisara  como  o  bem  su- 
premo : 


103 


o  Um  só  Deus  no  céo,  e  na  terra  uma  só  pátria 
para  os  homens  ». 

São  estes,  meus  srs.  os  votos  do  «  Instituto  »,  e 
de  envolta  com  elles  dignae-vos  acceitar  a  sua  sin- 
cera gratidão  á  lineza  de  vossas  presenças  a  esta 
sessão. 


RELATÓRIO  DO  CONS.  1-°  SECRETARIO 

Sr.  Presidente: 

Hlnstres  Consórcios: 

Ainda  uma  vez  tenho  a  honra  e  o  prazer  de  vos 
trazer  o  relatório  d'esta  instimição,  referente  ao 
anno  social  que    hoje  findou. 

Mandatário  de  vossa  generosa  confiança,  a  dele- 
gação que,  renovada,  recebi  para  o  exercicio  das 
funcções  de  1.'  secretario  procun»  cumprir  com  a 
máxima  satisfação  e  o  maior  esforço. 

E'  inútil  salienlar-vos  os  elementos  de  vida  que 
impulsionam  o  nosso  Instituto  na  elevada  missão 
que  lhe  cumpre  como  guarda  avançada  da  nossa 
historia:  testemunhas  que  sois  dos  relevantes  ser- 
viços por  elle  prestados  a  esta  causa,  bem  conhe- 
ceis quaes  as  forças  motoras  da  actividade  por  elle 
desenvolvida. 

Ainda  no  curso  do  anno  que  agora  termina,  tal- 
vez, esquecido,  se  tivesse  [)assado  o  quarto  cente- 
nário do  descobrimento  do  nosso  paiz,  si,  em  nobre 
e  alevantado  impulso,  não  partisse  do  seio  do 
nosso  grémio  a  idéa  de  condignamente  comme- 
nnoral-o. 


104 


A  Bahia,  primeiro  pedaço  do  solo  brazileiro  pi- 
sado pelo  ousado  descobridor,'que  como  mãe  cari- 
nhosa soube  gloriosamente  acolher  o  seu  hospede, 
abrindo  as  portas  da  immensa  e  desconhecida  re- 
gião á  civilisacào  humana,  não  podia,  quatro  sécu- 
los depois,  deixar  de  relembrar  este  felí/.  momento 
celebrando  a  sua   commemoraçào. 

Mas,  a  vida  actual  é  de  preoccupações  presen- 
tes e  futuras,  pouco  se  deixa  levar  pelo  passado; 
e  esta  indiíferença  deixa  o  maiornumero  esquecido 
dos  seus  deveres  civicos  para  com  as  datas  que  a 
historia  aponta  como  dignas  de  serem  lembradas 
e  mesmo  glorificadas. 

Entretanto,  para  contrapor  a  este  pouco  caso  pelas 
cousas  mais  serias,  temos,  felizmente,  mantido  o 
nosso  Instituto  que,  incumbido  de  zelar  pelos  nos- 
sos dias  de  outr'ora,  gravando  na  estima  dos  novos 
a  lembrança  viva  dos  memoráveis  factos  do  passa- 
do, não  podia  ficar  quedo  e  mudo  ante  este  acon- 
tecimento. 

A  Bahia,  pelo  seu  órgão  histórico,  quiz  e  devia 
render  homenagem  ao  grandioso  commettimento,  e 
os  primeiros  ensaios  partidos  do  nosso  meio  encon- 
traram logo  a  a-dhesào  sympathica  de  todas  as  clas- 
ses e  do  governo  do  Estado  e  do  Municipio,  que  nos 
deram  o  auxilio  preciso  para  levarmos  a  effeito  o 
nosso  intento. 

Assim,  apoiados  pela  vontade  da  opinião  publica 
e,  dispondo  dos  recursos  capazes  de  fazer  face  ás 
grandes  despezas  necessárias,  conseguimos  cele- 
brar a  data  commemorada  com  magnitude  excep- 
cional, já  pelas  festas  populares,  já  pela  eloquência 
tribunicia  dos  oradores  que  encarregaram-se  de 
realçal-a. 

A'  semelhança  do  que  fizemos  com  o  centenário 


105 


da  morte  do  grande  evangelisador  e  sábio  padre 
António  Vieira,  completamos  a  commemoração  com 
a  publicação  de  um  numero  especial  da  nossa  ox- 
cellenle  Revista,  contando  notáveis  trabalhos  origi- 
naes  e  outros  transcriptos,  que  pela  sua  importân- 
cia assim  exigiam. 

A  vida  normal  do  nosso  Instituto,  a  despeito  da 
crise  económica  que  ataca  o  nosso  Estado  e  que 
reflecte-se  sobre  todas  as  classes,  vae  correndo 
em  regulares  condições,  dependendo,  em  grande 
parte,  do  concurso  dedicado  de  todos  os  consócios 
que  não  devem  esquecer  o  auxilio  devido  á  sua 
manutenção. 

Agora,  em  obediência  aos  Estatutos,  passo  a 
recatar- vos  as  principaes  occuirencias  havidas  du- 
rante o  anno  social  que  findou. 

N*esse  periodo  celebrou  o  Instituto  7  sessões 
ordinárias  e  uma   extraordinária. 

A  sessão  anniversaria  de  3  de  Maio  de  1900  foi 
celebrada  com  o  maior  brilhantismo,  tendo  deixado 
no  animo  de  quantos  aqui  estiveram  presentes  a 
mais  viva  impressão,  porque  n^esse  dia  era  pelo 
nosso  illustrado  presidente  declarado  inaugurado  o 
novo  edifício  do  o  Instituto  Geographico  e  Histórico 
da  Bahia». 

Fazendo  referencia  a  esse  facto  com  que  a  Meza 
Administrativa  procurava  dar  maior  realce  á  festa 
que  se  commemorava,  disse  eu  então:  «Alliando 
á  data  do  descobrimento  do  Brazil  a  da  inauguração 
do  nosso  edifício,  cumprimos  um  dever  histórico, 
rendendo  a  melhor  das  homenagens  que  nos  era 
licito  prestar». 

Logo  após  o    discurso  do    orador  official,  foi    a 

R.  14 


106 


tribuna  occupada  successivamenle  pelos  intelli- 
gentes  consócios  Professor  Alexandre  Borges  dos 
,  Reis  que  leu  uma  substanciosa  memoria  sobre  os 
usos  e  costumes  dos  indigenas  da  Bahia,  João  Da- 
masceno Vieira  Fernandes  e  capitão  Arthur  Gomes 
de  Carvalho  que  discorreram  sobre  o  descobrimento. 

Na  sessão  de  13  de  Maio,  teve  logar,  na  forma 
dos  Estatutos,  a  eleição  da  Meza,  que  foi  reeleita, 
e  das  differentes  commissões,  sendo  lidos  vários 
officios  de  congratulações  pelas  festas  do  4.-  cen- 
tenário do  Brazil,  propondo  a  Meza  Administrativa, 
outro  sim,  que  se  lançasse  na  respectiva  acta  um 
voto  de  louvor  e  agradecimento  á  commissão  exe- 
cutiva do  centenário  pelo  modo  por  que  se  houve 
ella  no  desempenho  de  sua  árdua  tarefa,  aos  Po- 
deres Públicos  e  a  todas  as  classes  sociaes,  cor- 
porações e  indivíduos  que  contribuíram  para  o  realce 
das  mesmas  festas. 

Na  sessão  de  1/  de  Julho  é  lida  a  communica- 
ção  feita  [)elo  secretario  da  commissão  executiva 
do  centenário  de  que  a  mesma  commissão  oppor- 
tanimenle  apresentaria  relatório  circumstanciado 
dos  seus  trabalhos,  resolvendo-se,  sob  proposta 
do  1."  secretario,  que  fossem  enviados  á  commissão 
de  biographías  os  papeis  e  jornaes  existentes  no 
archivo,  relativos  ao  grande  patriota  Dr.  Cypriano 
Barata,  bem  como  a  certidãt»  de  óbito  e  outras  in- 
formações que  o  Instituto  recebera  da  capital  do 
Rio  Grande  do  Norte,  onde  elle  fallecera  no  dia  1.* 
de  Junho  de  1838. 

Resolveu-se  ainda,  sob  proposta  escriptado  sócio 
Dez.  Manuel  Maria  d  »  Amaral,  que  fossem  transcri- 
ptos  na  «  Revista  »  todos  os  escriptos  relativos  á  uma 
cidjids  :\bind  )na'la,  que  existiu  xi)  centro  do  Es- 
tado, e  sobre  a  conveniência  de  novas  pesquizas 
e  explorações  serem  feitas   n'esse  sentido. 


J07 


Na  sessão  de  12  de  Agosto  é  lido  e  approvado 
o  parecer  sobre  as  contas  apresentadas  pelo  sr. 
ihesoureiro,  e  apresentado  o  novo  orçamento,  que 
é  discutido,  sendo  votado  na  sessão  seguinte  do 
dia  26  do  mesm  >  mez,  com  um  additivo  sobre  a 
creação  do  logar  de  servente,  cuja  necessidade  foi 
então  justificada  em  virtude  da  acquisição  do  novo 
prédio  e  installaçâo  dos  differentes  serviços  do  In- 
stituto. 

N'essa  mesma  sessão  de  26  de  Agosto  procede- 
se  ú.  eleição  de  um  supplente  de  secretario  e  de 
dois  membros  da  commissão  de  admissão  de  só- 
cios, por  fallecimento  do  professor  Austricliano 
Coelho  e  por  ter  o  Dr.  Abílio  de  Carvalho  transfe- 
rido sua  residência  para  o  Estado  do  Rio  de  Ja- 
neiro, sendo  eleitos— supplente  de  secretario  o 
Pharm.  Luiz  Filgueiras,  e  membros  da  commissão 
de  admissão  o  Pharm.  Comm.  Joaquim  Manuel 
de  Sant'Anna  e  o  Coronel  Gonçalo  de  Athayde 
Pereira. 

Na  sessão  de  18  de  Novembro  lô-see  6  transcripla 
na  «Revista»  interessante  communicação  enviada 
pelo  nosso  consócio  Dr.  Lindolpho  Rocha  sobre  a 
existência  de  grandes  «  capoeiras  »  no  districto  da 
«Boa  Nova»,  habitadas  por  selvagens,  onde  exis- 
tem minas  de  diamantes  e  talvez  de  prata,  junto 
(ias  quaes  devem  restar  as  ruinas  de  uma  feitoria 
abandonada,  e  de  que  a  el  rei  D.  João  V  já  falla- 
va,  em  15  de  Julho  de  1731.  o  explorador  mestre 
de  campo  João  da  Silva  Guimarães. 

Na  sessão  de  10  de  Março  o  Cons.  Presidente 
informa  que  em  resposta  ao  convite  do  Comité  en- 
carregado da  reunião  do  2.^  Congresso  Scienliíico 
Latino-Americano  de  Montevideo  havia  nomeado  o 
sócio  correspondente,  ali  residente,   Dr.   Pedro  M. 


108 


Reviére  para  represealar  o  Instituto  n'aquella    í;o- 
iemnidade. 

O  sr.  Thesourei PO  apresenta  o  demonstrativo  da 
roceita  e  despeza  durante  o  anno  tindo,  e  o  sócio 
engenheiro  Henrique  Praguer  lê  unia  memoria  so- 
bre as  riquezas  mineraes  da  Bahia,  especialmente 
sobre  os  phenomenos  geológicos  da  zona  de  Santo 
Amaro,  deliberando-se  que  ella  fosse  publicada  na 
«  Revista  ». 

Na  sessão  de  M  de  Março  é  lida  no  expediente 
a  carta  do  illustre  consócio  Cândido  Costa,  dirigida 
ao  sr.  Thesoureiro,  em  que  o  autor  das  a  Duas 
Américas  »  fazia  entrega  da  quantia  de  500$  para 
o  monumento  a  Cabral,  revertendo  essa  quantia 
para  o  «  Instituto  »,  caso  esse  monumento  nào  fosse 
erigido  no  espaço  de  20  annos,  resolvendo-se  que 
essa  carta  fosse  transcripta  na  acta. 

Em  seguida  a  commissão  de  orçamento  apresenta 
o  seu  parecer  sobre  as  contas  do  exercicio  finan- 
ceiro, findo  em  31  de  Dezembro  de  1900,  o  qualé 
discutido  e  approvado,  sendo  votadas  outras  cne- 
didas  economicasproposlas  pela  mesma  commissão, 
taes  como  a  que  eleva  provisoriamente  a  2$000  a 
mensalidade  dos  sócios,  o  applicação  da  quantia 
de  8  contos  das  subvenções  para  a  amortisaçâo 
annual  do  debito  hypothecario. 

Do  balancete  apresentado  na  sessão  de  10  de 
Março,  na  forma  dos    Estatutos,  verifica-se    que  a 

receita  rxi  exercicio  de  1900    iniportou  em 

22:297$500  e  a  despeza  em  22:212$848   inclusive  a 
quantia  de  11:730$  com  as  obras  do  prédio. 

A  importância  despendida  com  o  prédio  do  las- 
tituto  até  o  anno  passado  quando  foram  ultimadas  as 
obras,  monta  em  62:000$000. 

O  nosso   honrado    e   zeloso    thesoureiro   capitão 


101) 


Ferreira  Braga  convidado  pela  commissàc  execu- 
tiva do  centenário  do  Brazil  para  servir  o  logar 
de  thesoureiro  da  mesma  commissão,  recebeu  no 
Thesouro  do  Estado,  por  conta  da  verba  de  30 
contos  votada  ()elo  Congresso  para  as  despezas  do 
Centenário,  a  quantia  de  24:679$'200,  conseguindo 
pagar  contas  na  importância  de  29:409$200,  por 
ter-se  apurado  a  quantia  de  4:730$000  com  as  «Cartas 
do  Vaz  Caminha  »,  editadas  pela  commissão  Exe-. 
cutiva. 

Resta  ainda  pagar-se  :i  quantta  de  7:300$000  de 
dois  prémios  e  outras  poquenas  despezas. 

Além  dos  sócios  fallecidos  no  biennio  de  1898  a 
1900,  cujos  nomes  constam  do  ultimo  relatório, 
falleceram  mais  durante  o  anno  social  os  seguin- 
tes sócios  :  Professor  Austricliano  Francisco  Coe- 
lho, a  9  de  Julho,  sócio  effectivo  e  fundador; 
Comm.  José  Pedro  Xavier  d-x  Veiga,  publicista  e 
historiador,  a  8  de  Agosto,  na  cidade  de  Ouro  Preto, 
onde  exercia  o  cargo  de  Director  do  Archivo  Pu- 
blico, o  Dr.  César  Augusto  Marques,  litterato  e 
historiador,  a  5  de  Outubro,  na    Capital    Federal. 

E,  embora  o  Instituto  tenha  recebido  novos  ele- 
mentos de  força  com  a  acquisiçào  dos  sócios  ulti- 
mamente approvados,  não  pode  deixar  de  lamentar 
a  perda  d'aquelles  que  com  elle  collaboraram  desde 
a  sua  fundação,  dedicando-lhes  palavras  de  saudade 
e  gratidão. 

Em  breve  a  palavra  justa  e  eloquente  do  nosso 
orador  salientará  os  serviços  por  elles  prestados  á 
pátria  e  ao  Instituto  em  particular. 

Foram  approvadas  varias  propostas  de  nomes 
que  se  impunham  á  nossa  escolha  pelo   seu  reco- 


110 


nhecído  mérito  litterarío  ;  entretanto  a  associação 
conta  hoje  com  298  sócios,  a  saber :  1  benemérito, 
8  honorários,  170  effeciivos  e  119  correspondentes. 
Dos  eífectivos  são  remidos  apenas  16. 

Do  livro  das  offertas  constam  os  importantes  do- 
nativos que  no  anno  findo  receberam  a  nossa  bi- 
bliotheca,  o  museu  e  o  archivo  que  já  conta  grande 
numero  de  manuscriptos  e  autographos. 

Essas  valiosas  oí!ertas  feitas  pelos  sócios,  pelas 
sociedades  congéneres  e  pessoas  outras  que  se  in- 
teressam pela  nossa  associação  são  minuciosamente 
publicadas  na  «  Revista  »  que  ja  conta  26  fasciculos, 
em  7  volumes. 

No  anno  passado  live  occasiào  de  fazer  um  ap 
pello  ás  commissões  para  a  installação  ilas  pre- 
ciosidades que  já  possuímos,— «que  toda  a  dedica- 
ção, todo  o  devolamento,  agora  que  tinhamos  um 
prédio  próprio,  era  uma  necessidade, — e  do  que 
contribuísse  cada  um  na  medida  de  suas  forças 
dependia  a  nossa  prosperidade  e  o  nosso  futuro  ». 

Eu  repelirei  ainda  hoje,  trabalhemos  todos  em 
esforço  commum,  e  concluirei  com  as  palavras  de 
D.  Diogo  Orliz,  quando  pregava  a  8  de  Março  de 
1500  na  legendaria  ermida  de  Belém  diante  da 
Corte  e  dos  intrépidos  navegadores  :  —  «  a  coragem 
e  a  perseverança  sno  poderosos  elemontos  de  re- 
sistência que  fortificam  o  coração  do  homem  para 
as  maiores  o  mais  arriscadas  emprezas  o. 


DISCURSO  DO  SR.  SILIO  60GGANERA 

Orador  io  Grémio  Lítterario 

Exm.  Sr,  Dr.  Governador  do  Estado  : 
Exm,  Sr,  Dr.  Intendente  do  Município  : 
Eann,  Sr,  Cons,  Dr,  Presidente  do  Instituto  : 

O  meu  mais  profundo  respeito  e  alta  consideração  I 
Permitti  que  as    minhas  palavras    sejam    dignas 
de  vós  «  desta  illustrada  allembléa  ! 

Senhores  do   Instituto  Histórico  e  Geographico : 

Acceitae  as  cordiaes  felicitações  que  vos  trago, 
em  nome  do  <f  Grémio  Litterario  di  Bahia»,  e  as 
que  ainda  vos  dirijo,  no  caracter  particalar  de  ob- 
scura sócio  fundador  desia  edificante  instituição, 
que,  pelos  seus  fins  de  alta  importância  para  a 
sciencia,  para  a  historia  e  para  as  leltras  pátrias, 
é  digna  do  mais  franco  apoio,  da  mais  sincera  adhe- 
são  e  ingentes  esforços  de  todos  os  que  trabalham 
pelo  alevantamento  social  desta  terra,  de  todos  os 
que  nutrem  a  salutar  e  patriótica  idéa  de  elevar 
a  Bahia,  já  disiincta  por  muitos  títulos,  á  altura 
que  possa  ennobrecel-a,  sempro  e  sempre,  perante 
o  Brazil  e  peranie  o  estrangeiro. 

Solemne,  solemnissima  é  a  festa  que  ora  aqui 
celebraes. 

E'  a  festa  do  progresso,  da  civilisação — do  mar- 
char da  humanidade. 

Em  taes  occasiões,  dirigira  i)alavra  aos  que  são 
capazes  de  apreciar  o  que  é  bom,  justo  e  bello— 
ennobrece  ;  mas  demanda,  meus  senhores,  compe- 
tência, e  essa  competência  me  fallece. 


112 


lia  postos  honrosos  que  são  verdadeiros  sacri- 
ficios. 

Este  6  um  delles,  pela  grande  responsabilidade 
moral  que  lhe  é  inherenle. 

Interpretar  os  sentimentos  do  «  Grémio  Littera- 
rio  »  neste  momento,  interpretar  os  sentimentos 
de  seus  illustres  representantes  em  dia  de  tão  ma- 
gno rugosijo  [)ara  esta  casa,  cercado  como  ora  me 
vejo  de  tão  conspicuos  cavalheiros,  qual  de  mais 
brilho  na  intelligencia,  qual  de  maior  grandeza  na 
illustração  e  no  saber -audácia  fora   pensal-o. 

Fallar-vos,  porém,  com  verdade  e  sentimento, 
isso  tende  por  seguro;  e  fal-o-ei  com  intima  satis- 
fação. 


Salve  !    «  Instituto    Histórico   e    Geographico  da 
Bahia  »  I 

Já  não  é  uma  utopia  tua  existência! 

Para  honra  desta  terra,  tão  rica  de  tradições  his- 
tóricas, que  se  remontam  aos  primitivos  tempos 
do  seu  descobrimento,  a  idéa  gei'minada,  como 
centelha  divina,  no  cérebro  de  homens  superiores 
aos  cálculos  do  egoísmo  e  do  indifferentismo,  su- 
periores ás  torpes  gananciaes  do  mundo  material, 
fortes  pela  vontade,  fortes  pelo  querer— transfor- 
mou-se  em  realidade  um  dia,  e  desde  então,  sete 
annos  são  decorridos,  seus  sectários,  escudados 
sempre  na  mais  louvável  e  admirável  coragem,  sem 
um  só  momento  de  rjesanimo  na  penosa  jornada, 
marcham  impávidos  caminho  de  novas  glorias,  pela 
estrada  larga  e  confiante  da  perseverança,  guiados 
pela  fé,  que  arma  heroes,  pola  fé,  que  não  conhe- 
ce impossiveis. 

Oh  I  bem  hajam  aquelles  apóstolos  da  civilisação 
que  lançaram  a  pedra  angular  deste  Templo! 


113 


Gioriíi  a  vós,  meus  senhores,  que,  de  facho  em 
punho,  espancaes  a  trova  do  antro  do  obscuran- 
tismo I 

O  «  Grémio  Litlcrario  »,  fremente  de  enthusias- 
mo,  congralula-se  comvosco  I 

Elle  pensa  comvosco,  meus  senhores,  e  comvosco 
sente  :  não  podia,  portanto,  faltar  á  vossa  festai 

Náo  podia  ainda  faltar  porque  fora  esquecer  o 
passado  que,  por  estreitos  laços  de  amizade,  vin- 
culou-o  a  esta  instituição. 

Em  seu  seio,  bem  o  sabeis,  recebeu  elle  os  pri- 
meiros alentos  de  vida  do  «  Instituto  Histórico  e 
Geographico  da  Bahia  s>. 

Em  seu  seio  guarda,  qual  amoroso  pae,  os  pri- 
meiros vagidos  da  creança  sublime,  talhada  desde 
o  berço,  «  para  as  grandezas,  para  crescer,  crear, 
subir»,  na  phrase  do  poeta. 

E  a  creança  não  tem  mentido  á  prophecia. 

Tem  crescido,  como  soem  crescer  os  gigantes 
de  envergadura  de  condores. 

Tem  creado  :  dizem-no  seus  annaes,  affirmam-no 
seus  archivos,  proclamam -no  seus  museus. 

Tem  subido,  e  ha  de  subir  ás  regiões  da  luz, 
ás  espheras  resplandecentes  dos  espiritos  adianta- 
dos, onde  paira,  não  o  amor  dos  sentidos,  que  gera 
vicios  e  crimes,  mas  o  amor  da  alma,  que  inspi- 
ra obras  primas  e  virtudes,  no  dizer  de  Lamartine. 

Salve!  ©Instituto  Geographico  e  Histórico  da 
Bahia  »  I 

Já  não  é   uma  utopia  tua  existência  ! 

• 
*    * 

O  dia  de  hoje  marca  mais  uma  nova  phase  á  exis- 
tência desta  útil  Instituição. 
Elle  é  o  marco  milliario  de  nova  jornada,  na  con- 
R.  15 


114 


quista  de  novos  Iriumphos — pelo  caminho  da  per- 
severança—único  possível  de  salvação  numa  terra 
em  que,  infelizmente,  as  sociedades  que  se  fun- 
dam, por  mais  úteis  e  edificantes,  são  qaasi  sem- 
pre victimas— ou  da  vaidade,  ou  do  indififerentismo 
dos  homens. 

Incontestavelmente,  meus  senhores,  as  grandes 
conquistas  são  sempre  filhas  da  perseverança. 

E*  ella  que,  segundo  as  leis  de  sua  architectura 
moral,  levanta  fortalezas  inexpugnáveis  em  torno 
do  nosso  espirito,  para  defendel-o  dos  ataques  do 
erro,  da  ignorância,  do  egoismo,  da  inveja  ou  in- 
credulidade. 

Ella  tem  sido  o  santelmo  desta  casa  como  o  tem 
sido  de  sua  irman  em  lutas— o  «  Grémio  Litterario  », 

Não  fora  a  perseverança,  a  gr  mde  perseverança 
de  seus  fundadores,  e  esta  Instituição  jà  teria  de 
ha  muito  desapparev^ido  nas  chammas  destruidoras 
desses  incendiários  das  boas  obras  humanas,  como 
muitas  tém  desapparecido. 

«  Não  são  só  os  carrascos  que  matam,  não  são 
somente  os  bandidos  que  povoam  os  cemitérios, 
não  meus  senhores  ;  a  ignorância,  assim  como  a  su- 
perstição e  o  indififerentismo,  fazem  diariamente 
horrendas  hecatombes  ». 

Instituições  desta  ordem  devem  ser  respeitadas 
e  apoiadas  por  todos  os  philosophos, todos  os  homens 
intelligentes,  todos  os  pensadores, almas  grandos,íco- 
raçòes  generosos,  amigos  do  progresso  moral  e  in- 
tellectual. 

Instituições  desta  ordem  estão  espalhadas  por 
toda  a  superfície  do  globo  ;  não  havendo  Estado,  go- 
veiM3,povj  i^ivilisalo,  livre  e  grande,  que  a  não  ame 
que  não  colha  deila  seus  fructos  benéficos  de  vida. 

Entretanto,  progresso  moral  do  século  I  ainda 
ha  quem  as  desvirtuo,  quem  as  accuse  de  inúteis. 


115 


im(>ondo,  desfarte,  os  mais  ingentes  esforços  e 
sacrifícios  da  parte  dos  que  trabalham  pela  exis- 
tência das  mesmas. 

Ainda  ha  liomens,  e  homens  intelligentes,  que 
se  dizem  amigos  do  progresso,  das  idéas  nobres 
e  alevantadas,  porém  que  apunhalam  a  justiça  e 
a  verdade — assassinos  do  bem  social,  attestado 
pelos  povos  ! 

Estãu  no  seu  papel,  é  certo,  cumprem  a  triste 
missão. 

E'  contra  estes,  meus  senhores,  é  contra  estes 
que  precisaes  estar  em  guarda  :  são  os  vossos  e 
nossos  inimigos. 

Dar-llies-emos,  porém,  batalha,  como  sempre  ; 
seremos  vencedores,  e  como  sempre  os  fulmina- 
remos com  a  nossa  possante  arma  de  guerra— a 
perseverança  I— alavanca  dos  fortes  e  dos  crentes 
que  tudo  esmaga,  c  com  a  qual  espedaçaremos  o 
alvião  que  pretender  derrocar  as  nossas  instituições. 

Animo,  pois,   meus  senhores! 

Afastae-vos  de  tudo  e  de  todos  que  representam 
a  negação  do  amor  puro,  e  marchae  confiantes, 
desassombradamente,  caminho  do  futuro,  guiados 
pela  fé,  que  ha  de  conduzir-vos  á  posse  de  bens 
immorredoiros,  apanágio  do  mundo  das  intelli- 
gencias. 

Alto   é  o  papel  que  vos  cabe  I 

Santa  é  a  vossa  missão ! 

Para  longe  os  tenebrosos  de  todos  os  tempos, 
monstros  capazes  de  despirem  Templos  para  ce- 
varem vinganças,  coveiros  da  religião  do  bem  e 
do  amor— e  trabalhae  pelo  «  Instituto  Histórico  » 
com  esse  mesmo  afan  com  que  outros  lêm  traba- 
lhado   afim  de  que  elle   prosiga   triumphanle. 

Trabalhae  com  vossa  palavra  e  com  vosso  exemplo. 


IIG 


Reduplicae  d'esforoo  de  intelligencia,  do  vontade 
e  de  acção — e  avante  ! 

Avante  I  E  Deus,  e  as  gerações  futuras  vos  bem- 
dirào. 

Quanto  aos  indifTerentes,  esses  condemnados  sem 
salvação  do  inferno  dantesco,  para  quem  nenhuma 
esperança  existe  na  terra— o  nosso  esquecimento, 
peior  que  o  despreso. 

«Fama  di  loro  il  mondo  esser  non  lassa: 

cMisericordia  e  Giustizia  gli  sdegna  : 

«Non  ragioniam   de  lor,  ma  guarda  e  passa.  » 


Senhores  : 

Na  ordem  physica,  como  na  moral,  tudo  está 
sujeito,  bem  o  sabeis,  ás  leis  da  harmonia  e  da 
equidade  ;  e  por  isso  nenhum  homem,  nenhuma 
instituição  deve  reputar-se  o  non  pliis  ultra. 

{)  Instituto  Geographico  e  Histórico  da  Bahia 
ainda  não  está  collocado  na  altura  que  vossa  mente 
ambiciona  e,  entre  doces  esperanças,  vos  afTaga  o 
porvir. 

Muito  tendes  feito,  6  certo ;  muito,  porém,  é  o 
que  ainda  vos  cumpre  fazer. 

Tenho  fó,  porém,  que  o  dia  de  hoje  vos  dealba 
novos  horisontes  de  prosperidades. 

E  lenho  fé  porque  Deus  está  comvosco  para  vos 
fortalecer,  para  vos  encorajar  contra  as  intenções 
suspeitadas,  a  intriga  e  a  calumnia,  elementos  que 
si  não  servem  sempre  de  coroa  aos  esforços  dos 
que  luctam  e  trabalham  por  uma  causa  justa  e 
santa— nlo  rara  vez  ameaçam  a  dculicaçâo  dos  mais 
estrénuos  propugnadores  do  bem. 

Comvosco  est{'i  também   a  vossa  consciência. 

E*  quanto  basta,  meus  senhores,  para  contribuir- 


117 


des  poderosamenla  para  todo  o  esplendor  e  engran- 
decimento  desta  bella  instituição. 

E*  quanto  basta  para  proseguirdes  em  vossa  obra 
de  eivilisação,  elevando  este  Templo  á  culminância 
que  todos  nós  sonhamos. 

E'  quanto  basta  para  poderdes  legar  aos  vin- 
douros uma  instituição  scientifica  digna  da  terra 
que  deu  o  berço  a  Castro  Alves,  e,  que  em  seus 
aseios  titânicos  de  heroina»  ainda  estreitar  pode, 
com  orgulho  e  sem  inveja,  filhos  da  estatura  de 
Ruy  Barbosa  e  Manoel  Victorino. 

E'  quanto  basta,  meus  senhores,  porque  onde 
não  ha  Deus  nem  consciência,  tudo  cae,  tudo  se 
perde— abatendo  o  homem  em  seu  orgulho  e  esma- 
gando-o,  humilhando-o  em  suas  ambições  de  glo- 
ria ou  fastígio,  de  riqueza  ou  talento. 

Sinão,  vôde,  rr  eus  senhores: 

Houve  um  grande  império  -Roma. 

Houve  muit  )S  imperadores  poderosos  —Nero,  Ca- 
lígula, Heliogabalo. 

E  o  império  cahiu,  e  os  imperadores  tornaram- 
se   miseráveis. 

Porque  1 

Porque  un?— incendiários  e  matricidas;  outros — 
déspotas  e  tyrannos; —  irreligiosos,  porém,  todos 
esquecidos  de  Deus  e  dos  seus  deveres,  não  tinham 
consciência,  e,  portanto,  só  o  que  podiam  fazer, 
só  o  que  de  facto  fizeram — foi  a  desgraça  dos  seus 
governados,  sempre  as  viclimas  do  arbítrio,  da 
prepotência  e  da  crueldade,  quando  não  sabem  ou 
não  têm  valor  para  reagir. 

Entretanto  vôde  em  contraposição,   meus  senho- 
res, os  eífeitos  do  amor  e  da  justiça. 
Houve  também  um  Tito. 

E  que  fez  elle  ? — as  delicias  de  Roma, 


118 


Houve  também  um  Chrislo. 

E  que  fez  ? — a  felicidade  do  género  humano. 

Mas  de  que  modo  ? 

Pelo  amor  e  pela  paz,  pela  tolerância  e  bons 
exemplos;  embora  ensinasse  entre  phariseus.  em- 
bora soubesse  que  seria  crucificado. 

Grandes  e  edificantes   exemplos! 

Lecções  sublimes  de  fecundo  ensinamento  para 
os  que  se  esquecem,  ou  se  não  querem  convencer 
de  que  sobre  a  tnrra  «só  ha  uma  justiça— ô  a  que 
sahe  da  consciência:  só  ha  uma  verdade— é  a  que 
vem  de  Deus ! 


Sacerdotes  da  religião  do  bem,  enviados  á  terra 
em  missão  social  I 

Eia!  Avante  I 

Cumpre  a  cada  qual  de  vós  proseguir,  intemente, 
arrostando,  embora,  as  iras  dos  Attilas  e  Torque- 
madas,  dos  inimigos  selvagens  e  inimigos  jesuiias. 

Não  descoroçoeis  diante  de  escolhos  que,  im- 
previstos, surjam;  procurae,  antes,  tornar-vos  for- 
tes nessas   diííicudades. 

Não  percaes  de  vista  o  futuro:  elle  é  a  vossa 
gloria. 

Forte  cada  qual  em  sua  consciência!  ea  victo- 
ria  será  completa. 

E  si  mesmo  assim  fordes  vencidos,  si  mesmo 
assim  tombardes  victimas.  ainda  tereis  iriumphado. 

Morrer  martyr  de  uma  idéa  ou  de  um  principio 
é  virtude:  é  parecer  Christo. 

Honra  a  vós,  meus  senhores,  «^ue  com  a  vossa  pre- 
sencia neste  logar,  provaes  eloquentemente  que  o 
sentimento  civico  na  Bahia  não  está  de  todo  per- 
dido. 


119 


Honra  a  vós  que,  a  despeito  de  atravessarmos 
uma  ópoca  de  indifferentismo  para  tudo  que  não 
seja  o  sórdido  egoismo,  daes  o  solemne  testemunho 
de  que  um  punhado  do  homens  sempre  existe 
que  de  seus  maiores  não  herdaram  vicios,  mas 
virtudes  I 

Honra  a  vós,  espíritos  cultos  e  su|)eriores,  que 
sabeis,  com  a  coragem  dos  illuminadcs,  fugir 
ás  chammas  lethiferas  dessa  nova  Gomorra  social 
dos  tempos  hodiernos,  onde  a  corrujjção  tem  seus 
alti»res  erguidos  á  Hypocrisia,  á  Mentira  e  á  Ingra- 
tidão I 

Senhores  do  Instituto  Geographico  e  Histórico  1 
Em  nome  do  Grémio  Literário  da  Bahia—  eu  vos 
saúdo. 

Illustres  e  dignissimos  senhores  consociosi  Eu 
me  congratulo  comvosco. 

Silio  Boccanera. 


DISCURSO  DO  SR.  DAMASCENO  VIEIRA 

Exm,  Sr,  Dr.  Got^ernador  do  Estado : 
Exm,  Sr,  Conselheiro  PrcmdeiUe  do  Instituto  : 
Senhores  Consócios  : 
Meus  Senhores: 

Em  meu  nome  eem  nome  do  «  Instituto  Histórico 
e  Geographico  do  Brazil  »,  venho  trazer  as  minhas 
congratulações  ao  c<  Instituto  Geographico  e  His- 
tórico da  Bahia  o  pelo  facto  de  commemorar  hoje 
o  sétimo  anniversario  de  sua  existência. 

Sete  annos  de  luctas  e  de  sacrifícios  para  im- 
plantar um  estabelecimento  exclusivamente  consa- 


120 


grado  a  ietlias  e  á  diffusâo  de  conhecimenlos  que 
interessam   o  progresso  de  nossa  pátria  I 

Pela  persistência  de  seus  esforços,  de  que  a 
compra  deste  edifício  6  o  testemunho  mais  elo- 
quente, o  «  Instituto  o  bahiano  impõe-se  á  consi- 
deração de  todos  os  espiritos  <!ultos,  que  devem 
sentir  gloria  em  congregar-se  em  torno  desse  lá- 
baro que  tem  como  emblema  uiu  escudo  e  como 
uma  estrella  a  expandir  urbi  et  orbi  scintillações 
que  supplantam  as  trevas  e  vào,  atravez  dos  mares, 
levar  a  centros  scientificos  a  certeza  de  que  o  Brazil 
os  quer  acompanhar  em  sua  marcha  triumphal  para 
o  futuro ! 

Compenetremo-nos,  Srs.,  das  responsabilidades 
que  assumimos  como  collaboradores  do  novo  sé- 
culo. Neste  anno  em  'jue  elle  surge  como  uma 
alvorada  ridente  de  promessas,  unamos  as  nossas 
actividades,  para  que  se  desenvolvam  associações 
desta  ordem,  como  uma  aspiração  não  já  de  um 
paiz  como  de  toda  a  humanidade. 

Pela  lei  da  evolução,  que  impelle  em  escala  as- 
cendente o  espirito  humano,  o  século  20,  alentan- 
do de  novos  e  vigorosos  estímulos,  realisará  maiores 
conquistas  que  o  século  anterior  ;  v  um  dos  pro- 
blemas sujeitos  á  sua  analyse  e  solução  é  aqueile 
que  se  relaciona  com  a  fellicidade  geral  dos  povos  : 
é  a  confraternisação  das  nações. 

No  centenário  da  morte  de  Voltaire,  o  grande 
poeta  Victor  Hugo,  uma  das  mais  brilhantes  per- 
sonificações do  século  19,  proferiu  palavras  sole- 
mnes  que  deveriam  ser  decoradas  pelas  poderosas 
potencias  de   todo  o  mundo. 

«  A  força  chama-se  violência.  A  guerra  senta-se 
no  banco  dos  réos.  A  civilisação,  ouvindo  as  quei- 
xas do  gíMiero  humano,   instrue  o  processo  e  ins- 


121 


taura  os  grandes  autos  criminaes  contra  os  con- 
quistadores e  chefes. 

«A  realidade  severa  apparece.  Em  muitos  casos, 
o  hepoe  guerreiro  é  uma  variedade  do  assassino. 
Os  povos  comprehendem  a  final  que  a  amplifica- 
ção de  um  crime  não  pode  ser  a  sua  diminuição; 
que  si  matar  é  um  crime,  matar  muito  não  pode 
ser  circumstancia  attenuante  ;  que  si  roubar  é  uma 
vergonha,  invadir  não  pode  ser  uma  gloria.  Não  se 
muda  a  physionomia  do  assassino,  porque,  em  vez 
do  barrette  de  grilheta,  lhe  põem  na  cabeça  uma 
coroa  de  imperador». 

Estas  palavras  do  immortal  poeta  da  Legenda 
dos  séculos  devem  circumdar  o  orbe  como  aquelle 
palpitante  annel  luminoso  que  envolve  o  planeta 
Saturno. 

A  conquista  de  Cuba  e  das  Philippinas,  a  hor- 
rorosa guerra  do  Transvaal,  o  pretendido  retalha- 
mento  do  império  chinez,  são  factos  degradantes 
que  fazem  equiparar  a  nossa  civilisação  à  dos  po- 
vos bárbaros  que,  impellidos  por  eguaes  ambições, 
ensanguentaram  as  paginas  da  Edade  Media. 

Sejamos,  Srs.,  os  paladinos  da  nova  cruzada,  que 
tem  por  fim  demonstrar  a  inutilidade  da  guerra  e 
a  necessidade  de  occupar  milhões  de  soldados  em 
misteres  dignos  do  presente  século,  como  coope- 
radores do  progresso,  nas  fabricas  e  nas  officinas, 
na  agricultura  e  nas  artes,  nas  escolas  e  nos  ins- 
titutos, formando  todos  grandioso  concerto,  como 
um  enorme  Te-Deum  erguido  á  gloria  de  todas  as 
nacionalidades  1 

Esta  deverá  ser,  dentre  todas,  a  mais  imponente 
conquista  do  século  XX  ! 

Como  Gallileu  proclamando  que  o  mundo  move- 
se,  demonstremos  que  o  mundo  social  não  se  man- 

R.  16 


122 


tém  estacionário  e  é  também  arrastado  por  leis  do 
equilíbrio  para  proporcionar  ao  borrem  a  relativa 
perfeição. 

Tal  o  ideal  que  o  «  Instituto  Geographico  e  His- 
tórico da  Bahia  »  deverá  ter  em  vista  ao  erigir  um 
marco  de  existência  na   nova  era. 

Como  fecho  á  homenagem  que  lhe  tributo,  con- 
densei em  dois  sonetos  as  idóas  que  expuz  ao 
illustrado  auditório  : 

A  Paz   Universal 

A  paz  universal  I  Será  chimera, 

Utopia,  phantaslica  miragem  i 

c<0  homem — disse  um  vate  — é  sempre  a  fera 

Faminta,  insaciável  de  carnagem  »>I 

Os  sentimentos  de  unifio  reagem 
Contra  a  crueza  da  sentença  austera  I 
Em  breve  novas  leis—leis  d'arbitragem — 
Darão  mais  honra  e  brilhantismo  á  era  I 

Todo  o  rude  arsenal  d'armas  perversas 
Ha  de  fundir-se  em  machinas  diversas 
Em  prol  da  Sciencia— victoriosa  liça  I 

A  formar  dos  soldados — operários 
Seguirão  as  nações  por  modos  vários 
O  bello  exemplo  que   oíTerece  a  Suissa! 

Eterno   Templo 

Subamos  firmes  a  marmórea  escada 
Que  nos  conduz  ao  templo  da  Sciencia 
— A  Deusa  eternamente  illuminada  ! 

Curvemos  o  joelho,  em  reverencia, 

Perante  a  galeria  aureolada 

Dos  gentios  em  perpetua  florescência  I 


123 


Ruja  da  guerra  a  indómita  cohorte 
Em  torno  ao  templo;  as  ambições  terrenas 
Travem,  bramindo,  ensanguentadas  scenas, 
Em  que  o  justo  é  vencido  pelo  forte  I 

Indifferente  ao  bellico  transporte, 
A  Deusa  arfante  de  alegrias  plenas, 
Tendo  por  armas  diamantinas  pennas. 
Vive  na  Historia  que  supplanía  a  morte  ! 

Bahia,  3  de  Maio  de  1901. 

Damasctno   Vieira, 


DISCURSO  DO  SR.  DR.  RRAZ  DO  AMARAL 


Exm,  Sr.   Governador  : 
Senhores  : 

Agradeço,  em  nome  do  Instituto,  aos  que  se  di- 
gnaram acceder  ao  convite  para  comparecer  aqui 
e  assistir  a  esta  sessão,  com  a  qual  marcamos 
mais  um  estalão  e  um  posto  no  caminho  que  nos 
traçamos,  e  que  prova  haver  ainda  quem  com- 
prehenda  solemnidades  destas,  indifferentes  para 
tanta  gente,  nesta  terra  da  Bahia,  outr'ora  tão  fe- 
cunda e  tão  inclinada  ás  festas  da  intelligencia. 

Reunimo-nos  hoje,  os  fundadores  desta  institui- 
ção e  os  continuadores  desta  obra  magnânima  para 
rememorar  os  trabalhos  dos  que  se  foram  e  o  que 
fizeram  por  ella. 

Tenho,  durante  os  últimos  annos,  dirigido  regu- 
larmente a  saudação  que  os  estatutos  mandam  seja 


lU 


teita    neste  dia.    mas.    ppopositalmente,  nunca  me 
referi  á  vida  própria  da  sociedade. 

Achava  pouco  I  Achava  pouco  o  tempo  decorri- 
do, um  lustro,  e  pouco  o  que  existia  I 
E  não  me  parecia  adequado  proclamar  louvoresl 
Si  hoje  me  refiro  a  isto  é  porque  sinto  deveras 
que  já  representa  um  esforço  enorme  o  que  se  ha 
conseguido  porque  é  uma  verdade  indubitável  que 
só  o  facto  de  viver  uma  sociedade  litieraria  e  sci- 
entifica,  como  a  nossa,  no  meio  detestável  em  que 
vivemos,  e  entre  as  diffieuldades  de  toda  a  sorte 
que  manietam  ou  assaltam  os  que  a  dirigem,  quer 
dizer  uma  victoria  ingente. 

Não  quiz  a  fortuna  adversa  que  o  espirito  ini- 
ciador desta  instituição  e  que  parece,  a  meus  olhos 
amigos,  estar  presente  ás  nossas  prosperidades  e 
aos  nossos  pezares,  como  uma  visão  benéfica,  pre- 
sidisse hoje  a  esta  commemoração,  que  elle  ideara, 
como  um  preito  de  justiça  que  se  paga  aos  mor- 
tos, e  que  é  a  primeira  que  se  faz  aqui,  na  casa 
da  associação,  bem  sua,  no  seu  home,  como 
em  um  lar  se  fala  dos  que  faliam  a  uma  so- 
lemnidade,  a  uma  das  festas  nobres  ou  doces  da 
familia  1 

Felizmente,  no  tempo  que  passou,  no  ultimo  pe- 
riodo  do  S3culo  findo,  si  alguns  zelos  arrefeceram 
não  foram  muitos  e  houve,  se  não  uma  legião  de 
honra,  pelo  menos  uma  legião  de  combate,  que  tem 
supportado  as  agruras  e  veníudo  os  primeiros 
saltos. 

Resta,  porém,  ainda  tanto  a  fazer,  que  é  preciso 
coragem  para  enfrentar  a  vereda,  antes  de  subir  á 
montanha. 

Falta  ainda  orginisar  tudo,  catalogar  os  livros, 
classificar  as  collecções,  agrupal-as  separada  e  sei- 


125 


entificameale  graças  aos  commodos  de  que  dispo- 
mos agora,  para  que,  neste  repositório  da  historia 
pátria,  ache,  fácil  e  adaptailamente,  o  erudito  os 
elementos  que  se  irão  aqui  accumulando  para  a 
descripção  da  prehístoria  e  da  vida  politica,  da 
sciencia,  da  litteratura  e  da  arte,  da  geographia  e 
da  geologia  deste  pai'/.. 

Dentre  os  que  nos  deixaram,  avultam  alguns  que, 
ou  pela  sua  actividade  nos  tempos  da  organisaçSo 
deste  Instituto,  ou  pela  influencia  que  exerceram 
no  meio  em  que  se  passou  a  sua  vida,  não  podem 
deixar  de  ter  uma  mensão.  embora  muito  succinta. 

Havia-os  notáveis  pelo  saber,  pela  dedicação  á 
causa  publica;  havia-os  absorvidos  pelos  labores 
da  vida,  operosos  e  perseverantes,  simples  e  tena- 
zes, agindo,  como  átomos,  na  grande  massa  da  vida 
social,  constructores  das  boas  causas  do  progresso 
pacifico  da  lenta  evolução  das  sociedades  :  houve- 
os  enlevados  na  vida  por  alguma  dessas  correntes 
de  sympathia  ou  de  amor,  pelas  causas  politicas, 
sociaes  ou  humanas,  que  lá,  no  sou  intimo,  nos 
recessos  do  seu  cérebro  e  do  seu  coração,  lhes 
pareciam  as  melhores. 

Entre  os  que  hoje  commemoramos,  perdeu  esta 
terra  um  poeta,  que  era  uma  das  organisações  mais 
genuinamente  bahianas,  assim  como  um  dos  génios 
mais  curiosos  e  especiaes  que  tenho  conhecido. 

No  .seio  deste  povo  triste,  quasi  sempre  a  poesia 
é  melancólica,  como  a  fraqueza  da  raça  de  que  sa- 
hiu,  cheia  da  nostalgia  do  meio  em  que  vem  cantar. 

Ha,  por  isso,  muita  originalidade  nos  vorsos  de 
Guimarães  Cerne  e  é  elle  um  dos  poucos  poetas 
nossos,  em  que  vibra  o  sainete  irónico  de  Gregório 
de   Mattos  Guerra. 

Reproduzindo  os  conceitos    de    um    dos  nossos 


126 


mais  conscienciosos  poetas  e  um  dos  eriticos  mais 
finos  da  nossa  pequena  roda  liiteraria,  o  Dr.  Ma- 
noel Joaquim  de  Souza  Brito,  julgo  fazer  sobre 
Guimarães  Cerne  o  melhor  e  mais  seguro  juizu. 
Era  poeta  lyrico  e  satyrico.  Como  lyrico,  é  subjecti- 
vista  e  seu  lyrismo  é  puro  e  fluente;  não  é  um 
choramingas  sentimentalista  de  1850,  nào  tem  a 
alma  triste,  «  como  as  arapongas  no  sertão  deserte  »; 
pelo  contrario,  sempre  alegre,  as  suas  producções 
lyricas  quasi  todas  tôm'  uma  pedrinha  de  humo- 
rismo. 

Como  satyrico,  era  mordaz  e  cáustico,  á  seme- 
lliança  de  Gregório  de  Mattos,  seu  mestre,  humo- 
rista e  chistoso  como  Nicolau  Tolentino  e  Fausti- 
no de  Novaes,  seu??  auctores  predilectos,  e  é  mais 
por  essa  face  que  elle  se  recommenda  entre  os 
poetas.  Tinha  facilidade  enorme  em  produzir  neste 
género,  chegando  até    a  improvisar. 

Sua  cbra  pode  ser  dividida  em  duas  partes  :  a 
primeira,  que  vae  de  18G2  a  1870  e  que  está  toda 
em  seu  livro  Facos  c  Travos  publicado  ,em  1870,  e 
a  segunda  que  vae  de  1870  a  1898  e  se  encontra 
nos  Pufs  de  um  sertanejo  e  nas  obras  inéditas  — 
Diluculos  e  enigmas  para  creanças. 

Das  producções  de  G.  Cerne  as  que  tiveram  mais 
voga  foram  o  dialogo  O  estudante  e  a  visinha  e 
Aphorismos   aca  demicos. 

Dos  inéditos,  os  Etàgmas  foram  o  que  de  mais 
primoroso  produziu  o  auctor. 

De  génio  irrequieto  e  folgazão,  sempre  levando 
tudo  a  riso,  algumas  vtv/^es,  u  sua  poesia,  quando 
lyrica  e  seria,  e,  ainda  mais,  quando  cantava  a  pá- 
tria, seus  vultos  e  seus  factos,  resentia-se  de  des- 
leixo e  até  erros  d'arte  ;  lá  ap[)arecia,  de  vez  em 
quando,  um  verso  frouxo  ou  prosaico,  destoando  da 
harmonia  do   conjuncto. 


127 


No  humorismo,  porém,  pandego  e  brejeiro  ou  na 
satyra,  mordaz  e  cáustica,  não  se  encontram  taes 
defeitos 

Foi  ao  mesmo  tempo  um  magistrado  muito  inte- 
gro e  muito  illustrado 

Os  seus  concursos  e  o  seu  trabalho  sobre  as  «Or- 
denações Philippinaso,  provam-no  de  sobejo,  no 
dizer  dos  entendidos. 


O  Dr.  Cezar  Augusto  Marques  nasceu  em  Caxias, 
n'aquelle  Maranhão,  tão  celebre  pela  cultura  de  seus 
filhos.  Fo:.  contemporâneo  da  grande  crise  da  inde- 
pendência e  dos  Factos  relevantes  que  se  seguiram: 
as  revoluções  do  primeiro  império  e  da  regência  ; 
a  longa  paz  do  segundo  império  e  a  corru[)çào 
profunda,  que  caracterisaram  o  tim  deste  periodo 
politico. 

Era  um  cultor  delicado  e  dedicado  da  historia  e 
trabalhou  nesta  sciencia  por  toda  a  sua  vida  fe- 
cunda, apresentando  monographias  e  memorias  pre- 
ciosas, publicadas  na  «Revista»  do  Instituto  Geo- 
graphico  e  Histórico  Brasileiro. 

A  mais  im[>ortante  de  suas  obras  foi  o  «  Dicciona- 
rio  Histórico,  Topographico  e  Esiatistico  do  Mara- 
nhão» que  foi  o  premio  opulento  e  nobre  com  que 
este  filho  illustre  pagou  á  terra  nata)  a  ventura  de 
o  ter  visto  nascer. 


José  Pndro  Xavier  da  Veiga,  nosso  sócio  corres- 
pondente também,  como  César  Marques,  era  mi- 
neiro, pois  tinha  nascido  n'\    Campanha,   em  1846. 

A  principio,  dedicado  pelos  seus  ascendentes  ao 
commercio,  troçou  esta  vida  pelos  trabalhos  e  as- 


128 


pirações  litterarias,  fundando,  com  outros,  a  So- 
ciedade de  Ensaios  Litterarios,  no  Rio  de  Janeiro. 
Mais  tarde  foi  escrivão  da  comarca  de  Lavras  e  de- 
putado á  assembléa  provincial  de  Minas. 

Dedicou-se,  por  este  tempo,  á  imprensa  e  fun- 
dou o  jornal  intitulado  Provinda  de  Mmas,  que  se 
transformou  r\'A  Ordem,  após  a  proclamação  da 
Republica . 

Foi  um  dos  representantes  do  povo  no  congresso 
mineiro  e  um  dos  redactores  da  «Encyclopedia  Po- 
pular», assim  como  do  «Almanack  do  Sul  de  Minas»  e 
oEphemerides  Mineiras.» 

Era,  ao  mesmo  tempo,  poeta  lyrico,  delicado  e 
director  do  Archivo  Publico  Mineiro. 

•  • 

Nesta  triste  galeria,  pela  qual  somos  obrigados 
a  passar  tão  rapidamente,  perdemos  ainda  alguns 
operosos  e  infatigáveis   companheiros. 

Um  delles  foi  justamente  quem  me  transmittiu 
o  pensamento  da  creaoão  do  Instituto  e  a  quem 
por  isto  devo  uma    especial  lembrança. 

Foi  Olavo  de  Freitas  Martins.  Não  era  propria- 
mente o  que  se  podo  chamar  um  erudito,  mas  era  um 
^ntelligente,  um  espirito  aberto  e  sympathico  a  to- 
das as  concepções  adeantadas  e  nobres,  por  mais 
difíiceis  que  fossem  e  por  maior  que  fosse  também 
o  sacrifício  que  eile  tinha  a  empregar  para  ajudar 
a  obra. 

* 

•  • 

A  nossa  associação  viu  desapparecer  também  um 
dos  raros  sobreviventes  do  antigo  «  Instituto  Geo- 
graphico  e  Histórico  da  Bahia»  e  um  dos  fundado- 
res do  actual  na  pessoa  de  frei  Francisco  da  Nati- 
vidade Carneiro  da  Cunha.  Não  se  pode  deixar  de 
reconhecer  que  elle  era  um  altruista. 


129 


Na  edade  media  teria  sido  templário.  Vivendo 
em  um  meio  muito  diverso  áo  que  era  adequado 
ao  seu  temperamento,  quando  soou,  nas  moíitanhas 
de  Pindorama,  a  tuba  guerreira,  o  soldado  se  re- 
velou no  frade  e  elle  partiu  com  a  intrepidez  do 
voluntário,  que  não  mede  o  perigo. 

Neste  dia  de  [»rovações  para  a  pátria,  deixou  o 
claustro  o  religioso,  que  trocara  o  quieto  remanso 
da  vida  conventual  pela  aspereza  das  agruras  da 
vida  de  soldado  em  campanha. 

Propunha-se  edificar  os  que  iam  morrer,  ou 
era  o  mesmo  ímpeto  generoso  do  patriotismo  que 
inflammava  os  seus  discursos,  que  o  impellia  para  a 
abnegação  e  os  perigos  estuantes  da  guerra? 

Provavelmente  uma    cousa  e  outra. 

Era  um  jornalista  e  polemista  de  força  e  tinha 
sido  fundador  e  collaborador  de  diversos  jornaes, 
quasi  todos  de  discussão  e  de  combate. 

Conheci-o  como  uma  relíquia,  mas  uma  gloriosa 
relíquia,  que  se  exaltava  e  que  contava,  graças  á 
sua  prodigiosa  memoria,  tudo  o  que  linha  visto, 
ouvido  e  feito,    na  sua  longa  carreira. 

A  sua  obra,  porém,  mais  meritória,  a  que  lhe  dá, 
só  por  SI  um  logar  distincto,  no  circulo  dos  bene- 
méritos, tão  raros  entre  nós,  foi  a  fadiga,  o  cuida- 
do, o  desinteresse,  o  generoso  sacrifício  com  que 
creou  e  manteve  um  asylo  para  educação  de  meni- 
nos desamparados  (»u  pobres. 

A  isto  dedicou  elle  todo  o  seu  tempo,  até  que  a 
moléstia  quasi  o  impossibilitou  de  ser  útil. 

Com  esta  obra  tão  grandiosa,  tão  simples  e  tão 
bella,  sem  espalhafato,  nem  reclamo,  soube  coroar 
a  sua  vida  de  patriota  e    grande  cidadão  1 

Um  outro,  que  nos  fez  falta,  foi  o  advogado  Fran- 
cisco Rodrigues  Monção. 

R,  17 


150 


Tendo,  em  1872,  concluido  os  seus  preparatórios, 
matriculou-se  na  faculdade  de  Olinda,  esta  mãe 
dos  legistas  do  Norte,  e  obteve  numerosas  distin- 
cções,  no  seu  curso,  brilhante  e  feliz. 

Alli,  coUaborou,  com  os  seus  collegas  Rosa  e  Silva 
e  José  Marcellino,  n'A  Lucta,  e  fez-se  admirar,  na 
sua  terra  natal,  pelas  Carias  de  um  bahiano^  escri- 
ptas  para  o  Correio  da  Bahia. 

Foram  ellas  que  o  fizeram  admittir  na  assembléa 
provincial,  na  legislatura  de  1878  a  1880,  como  re- 
presentante do  partido  conservador,  pelo  terço,  pois 
é  bem  verdade  que  jA  houve  um  tempo  em  que  os 
partidos  não  eram  agrupamentos,  que  se  collavam 
á  pessoa  do  governante,  como  porções  de  matéria 
cósmica  que  se  incorporam  á  cauda  dos  cometas 
periódicos,  e  sim  forças  constituidas  que  acompa- 
nhavam' a  evolução  politica  e  social  da  nação,  que 
se  faziam  respeitar  pelas  administrações,  não  en- 
trando nos  cargos  públicos  pela  condescendência 
ou  interesse  destas,  mas,  pela  sua  própria  força  ou 
pela  da  moral,  de  modo  que  conservavam  a  sua 
liberdade  e  independência.  Julgava-se  até  oftensivo 
á  dignidade  do  paiz  que  não  tivesse  representação 
a  expressão  das  minorias  divergentes  e  vergonho- 
sas estas  unanimidades,  tão  incompativeis  com  o 
espirito  das  democracias  liberaes,  que  parecem 
indispensáveis  hoje  a  quem  governa,  mas  que  tal- 
vez venham  a  pôr  um  dia  em  perigo  a  integridade 
e  até  a  estabilidade  da  Republica! 

Outra  vez,  deputado  em  1882,  notabilisou-se  por 
discursos  pronunciados  alli,  que  revelam  a  força 
de  seus  estudos  nas  questões  importantes  da  época. 
Já  então  tinha  abandonado  a  carreira  da  magis- 
tratura, depois  de  exercer,  por  pouco  tempo,  a  sub- 
stituição da  vara  de  orphàos  e   o  nosso  foro    con- 


131 


servará,  ainda  por  muito  tempo,  a  recordação  dos 
seus  talentos  e  erudição  jurídica,  com  advogado. 

Trabalhava  ultimamente,  com  ardor,  numa  obra 
sobre  direito  commercial  «  Leiras  de  cambio  e  ci édi- 
tos mercantis  »  que  não  conseguiu,  infelizmente, 
terminar,  e  que  viria  collocar  o  seu  nome  entre 
os  dos  mais  notáveis  jurisconsultos. 
•  Era  poeta  lyrico,  primoroso  e  muito  delicado, 
mas  não  queria  dar  publicidade  a  seus  versos,  dos 
quaes  só  foram  impressos  os  que  compoz  em  Ser- 
gipe, saudando  os  saldados  que  voltavam  da  expe- 
dição de  Canudos. 

Foi,  principalmente,  na  visinlia  cidade  de  Itapa- 
rica,  onde  nascera,  e  da  qual  era  intendente,  quan- 
do falleceu,  que  o  Dr.  Monção  deixou  traços  fundos 
da  sua  dedicação  á  causa  publica  e  desvelado 
interesse. 

Aquella  localidade  prestou  ao  seu  cadáver,  em 
29  de  Setembro  de  1898,  o  preito  de  justiça  que  elle 
merecera,  pela  dedicação  e  honesto  escrúpulo,  sem- 
pre revelados  na  sua  administração. 


O  Instituto  registra  ainda,  com  pesar,  a  morte 
de  Alexandre  Garcia  Pedreira,  advogado  muito  co- 
nhecido; de  Christino  Ramos  de  Oliveira,  que  pres- 
tou, especialmente  na  phase  inicial  da  associação, 
modestos  e  úteis  serviços;  de  José  Maria  Barretto 
Falcão;  do  Dr.  Pedro  Noiasco  Buarquo  de  Gusmão, 
correspondente,  e  fallecido  no  Rio  de  Janeiro,  a  16 
de  Janeiro  de  1899  ;  de  António  Moreira  de  Góes, 
e  do  sócio  correspondente  Josó  Machado  Pedreira. 

Não  sendo  possível  estender-me  sobre  cada  um 
delles,  sobre  a  sua  vida  e  seus  feitos,  porque  não 
cabe  numa  resenha  necrologica  e  oral  trabalho  deste 


132 


fôlego,  menciono  os  seus  nonies  com  a  lembrança 
da  gratidão  do  Instituto,  que  não  poderá  esquecel- 
os,  pela  justiça  quo  elles  lhe  merecem  e  pela  honra 
de  tel-os  possuido  entre  os  seus. 

O  professor  Austricliano  Francisco  Coelho  foi 
um  homem  dotado  de  espirito  muito  atilado  e  pres- 
tou serviços  relevantes  a  este  Instituto,  do  qual  foi 
um  dos  fundadores,  assim  como  da  Academia  de 
Bellas-Arles,  á  qual  sempre  se  dedicou,  como  em 
geral,  ás  causas  pelas  quaes  se  interessava,  com 
devotamento  e  ardor. 

O  melhor  e  mais  nobre  altruísmo,  porém,  da  sua 
vida,  foi  a  parte  que  tomou  na  lucta  abolicionista, 
naquella  grande  e  gloriosa  lucta  legal,  que  é  a 
maior  honra  da  nossa  pátria  no  periodo  imperial. 

No  tempo  em  que  o  partido  abolicionista,  aqui, 
era  o  partido  dos  pequenos  e  dos  pobres,  ao  qual 
se  oppunham  os  interesses  dos  que  tinham  que  per- 
der, como  se  dizia  então,  era  preciso  coragem  para 
defender  a  causa  dos  captivos  e  enfrentar  com  os 
ricos,  que  eram  os  que,  em  geral,  tinham  mais  van- 
tagem no  detestável    trafico. 

Quando  mais  tarde  a  victoria  bafejou  a  bandeira 
que  cobria  os  (\\xe.  tinham  sido  tão  calumniados,  des- 
presados  e  guíMToados,  lodos  se  arrogaram  a  gloria 
da  victoria,  mas  só  os  humilhados  de  outros  tem- 
pos, os  que  tinham  tantas  vezes  sentido  a  amargu- 
ra das  decepções  podiam  contar  a  quem  custara  a 
campanha  da  abolição. 

Um  dos  soldarlos  mais  p^NMuptos  desta  cruzada, 
deverecebero  logarque  lhe  pertence. 

O  Dr.  João  B;.ii)ti.sta  de  Sá  (»  Oliveira  foi  também 
abolicionista  dos  primeiros  tempos,  e  a  sua  dedi- 
cação a  esta  nobre  causa  d-i  realce  a  seu  nome  na 
historia  desta  terra. 


133 


Era  medico  muito  caritativo  e  carinhoso,  e  a  lo- 
calidade onde  viveu  boa  parte  de  sua  existência, 
teve,  da  sua  dedicação,  milhares  destes  grandes  e 
ignorados  sacrifícios  que  só  conhece  quem  pratica 
a  medicina  entre  as  classes  pouco  favorecidas. 

Acostumara-se  a  ser  muito  laborioso,  assiduo 
no  trabalho  e  consciencioso  até  o  escrúpulo,  mas 
um  tanto  acanhado. 

Foi  secretario  do  congresso  constituinte  do  esta- 
do, após  a  Republica,  e  serviu  neste  posto  com 
dislincção  e  honra.  Collaborou  também  no  jornalis- 
mo, e  publicou  uma  memoria  sobre  os  Índios  Ca- 
ma quans  ádk  comarca  de  Ilhéos,  que  foi  apresentada 
ao  3.*>  Congresso  Brazileiro  de  Medicina  e  Cirurgia 
reunido  aqui  em  1890,  além  de  outras,  algumas  das 
quaes    bem  meritórias. 

Estes  trabalhos,  de  accordo  com  o  seu  tempera- 
mento litterario  e  com  o  pendor  de  seu  gosto  por 
estudos  desta  natureza,  indicam  até  onde  poderia 
ter  chegado,  si  houvesse  tido  tempo  para  isso. 


O  conselheiro  Diogo  Velho  Calvacanti  de  Albu- 
querque, mais  tarde  visconde  de  Calvacanti,  foi 
por  muitos  títulos,  um  dos  personagens  mais  no- 
táveis do  segundo  reinado. 

Natural  da  Parahyba  e  formado  em  direito,  na 
faculdade  de  Olinda,  elle  estreou  na  carreira  da 
magistratura,  carreira  que  abandonou  depois  pelas 
agitações  da  vida  politica,  pois,  como  bem  diz  um 
dos  seus  biographos,  tinha  mais  o  temperamento 
do  politico  do  que  o  do    magistrado 

Filiado  ao  partido  conservador,  fez  parte  de  mi- 
nistérios nas  pastas  do  commercio  e  obras  publi- 
cas e  da  justiça  e  negócios  estrangeiros. 


134 


Foi  depois  eleito  senador,  no  tempo  em  que  o 
duque  de  Caxias  linha  a  presidência  do  conselho, 
e,  nesta  occasião,  foi  a  sua  escolha  o  ponto  em 
torno  do  qual  se  bateu  o  partido,  numa  das  luctas 
politicas  mais  interessantes  do  império. 

A  sua  casa  era,  no  Rio,  o  ponto  de  reunião  da 
elite  da  intelligencia,  o  lar  amigo  dos  homens  de 
talento,  aos  quaes  attrahia  a  cultura  sensata  do 
visconde  e  o  tino  espirito,  a  vcrvo  íçraeiosa  e  deli- 
cada de  sua  esposa,  nossa  consócia  também  e  se- 
nhora tào  notável,  pelo  seu  elevado  gosto  atheniense 
como  pelos  predicados  com  que  encantou,  consolou, 
e  conservou  a  vida  do  visconde,  no  meio  dos  ata- 
ques da  velhice  e  das  tristezas  da  cegueira,  que 
o  atormentou  nos  últimos  annos  de  uma  existência 
tào  útil,  como  nobremente  dedicada  ao  serviço  da 
pátria. 

Estava  representando  o  Br^zil  na  exposição  de 
Pariz  de  1889,  quando  se  fez  a  proclamação  da 
Republica,  o  desterro  dos  imperantes  e  a  disso- 
lução do  senado. 

O  visconde  de  Calvacanti  foi  um  dos  poucos  que 
tiveram  vergonha  de  adherir,  com  o  desembaraço 
e  a  rapid^^z  açodados,  com  que  muita  gente  se 
atropf»llou,  agarrando-se  á  Republica  nascente, 
como  se  agarraria  a  qualquer  cousa  que  appare* 
cesse  e  que  soubesse  vencer. 

De  lá,  daquella  Europa  longínqua,  elle  nos  en- 
viava, ora  um  presente  precioso,  ora  uma  lem- 
brança delicada,  como  os  beijos  que  mandamos  aos 
nossos  filhos  atra  vez  os  mares  e  os  espaços,  quan- 
do, isolados  em  terra  estrangeira,  nos  lembramos 
com  intensa  saudade  dos  que  ficaram  e  dos  que 
amamos;  lá,  na  pátria  distante,  sob  o  seu  céu  ful- 
gurante, que  testemunhou  as  illusões  e  os  risos  da 


135 


juventude    e   os  pesares    do    hom-»m,    recordações 
que  são  os  últimos  consolos  dos  prosc^riptosl 

Elle  o  visconde  de  Calvacanti,  fica  como  um 
exemplo  da  coherencia  pundonorosa,  que  se  torna 
cada  vez  mais  rara,  mais  rara  ainda  porque  já  ha 
quem  tenha  acanhamento  de  confessar  que  a  sen- 
te, esta  dignidade  correcta  e  decente  dos  caracte- 
res honestos. 


O  Dr.  José  Macedo  de  Aguiar,  fallecido  em  23 
de  Outubro  de  1899,  foi  um  magistrado  muito  pro- 
bo e  professor  muito  distincto. 

Depois  de  honrar  a  sua  toga,  como  juiz,  em  di- 
versos logares,  foi  elevado  a  um  dos  mais  altos 
tribunaes  do  estado,  onde  se  noiabilisou,  nào  só 
pelos  seus  talentos  e  estudos  de  jurisconsulto,  como 
principalmente,  pela  attitude  sobranceira,  que  man- 
teve contra  o  governo,  quando  era  exercido  por 
um  homem,  o  sr.  conselheiro  Luiz  Vianna,  diante 
de  quem  quasi  toda  a  gente,  quasi  todos  os  órgãos 
de  publicidade,  porfiavam  nos  agrados  que  lhe  fa- 
ziam  por  obras,  palavras  e  pensamentos. 

O  conselheiro  Macedo  de  Aguiar  foi  um  dos 
poucos  que  se  ergueram  contra  a  administração  de 
então  e  esta  sua  posição  fel-o  destacar  ainda  mais 
pela  inclinação  exagerada  da  grande,  da  esmaga- 
dora maioria. 

Seria  esta  attitude  motivada  pelo  prejuizo  que 
resulta  da  approvação  incondicional  e  da  estimu- 
lação tacita  da  autoridade  que  se  vae  tornando, 
por  isso,  cada  dia  mais  illimitada,  com  acquiescen- 
cia  de  todos,  e  que  elle  julgava  altamente  perigosa 
para  a  magestade  das  attribuições  do  poder  judi- 
ciário, do  qual  era  um  dos  depositários? 


13G 


Seria  porque  elle  possuía  esta  espécie  de  pudor, 
susceptível  e  irritadiço  d  iquelles  que  são  genuina- 
mente independentes  diante  da  brutalidade  das 
unanimidades  e  das  felicidades  omnipotentes,  da- 
quelles  que  se  envergonham  de  fazer  coro  no  lou- 
vor, justamente  porque  é  um  coro  i 

Ou  este  espírito  culto  se  aterrava,  notando  a  cor- 
rente de  vassallagem,  cada  dia  maior,  este  temivel 
indicio  da  moléstia  que  mata  as  republicas,  que 
foi  na  antiguidade  a  origem  e  o  incentivo  das  ty- 
rannias  e  que  se  traduz  pelas  condescendências 
louvaminheiras  dos  jornaes,  que  mais  blasonam 
independência,  destes  sopliistas  que  adivinham  a 
a  vontade  dos  governantes,  para  ir  ao  encontro  dos 
seus  desejos,  dos  que  garantem  a  felicidade  das 
|)rovidencias  futuras  o  a  excellencia  dos  pensa- 
mentos dos  seus  Ídolos,  dos  que  regulam  a  fideli- 
dade |)elo  tempo  que  estes  terão  de  permanecer  ainda 
nos  altares,  mais  ou  menos  pacientes  até  aos  màos 
tratos,  conforme  u  costume  daquelles  fâmulos,  que, 
sopitando  a  insolência,  toleram  a  rabugice  dos  pa- 
trões emquanto  é  opulenta  o  generosa  a  casa !  f 

O  nobre  juiz  não  escoridia  a  sua  irritação,  não 
dissimulava  a  sua  cólera,  rjuando  entendia  que 
devia  reagir  contra  o  que  (ílie  considerava  inob- 
servância das  Íeis,  e  altamente  manifestou-se,  entre 
outras  occasioes  com  energia,  quando  se  tratou 
da  questão  de  um  habeas-corpus,  que  ficará  cele- 
bre nos  annaes  do  nosso  foro,  e  que  a  seu  tem- 
po, servirá  do  curioso  estudo,  especialmente  com- 
parada a  certos  acontecimentos  posteriores,  para 
se  avaliar  a  orientação  democrática  eo  critério  da 
opinião  neste  paiz  e  para  se  ajuizar,  mais  uma  vez, 
do  que  valem  as  garantias  escriptas  nas  leis,  en- 
tre os  povos  que  não  têm  madureza  suHiciente  para 
coraprehendel-as  I 


137 


Conta-se  que,  um  dia,  quando  referiam  a  Marco 
Bruto  uma  das  costumadas  tergiversações  de  Cí- 
cero, julgando,  com  acerbo  azedume,  o  orador  de 
Arpinum,  tão  grande  na  tribuna,  pela  magia  po- 
derosa daquella  bocca  eloquente,  que  pronunciou 
as  Philipicas,  e  tão  pequeno  pelas  fraquezas  a  que 
o  arrastavam,  ás  vezes,  o  interesse  ou  a  vaidade, 
elie  exclamara:  o  Cicero  não  se  importa  de  ter  um 
senhor,  comtanto  que  seja  um  bom  senhor  !  Eu, 
porém,  não!  Ou  hei  de  viver  livre,  ou  hei  de  dei- 
xar de  viver»! 

Lembro-me  de  evocar,  nobres  consócios,  as  pa- 
lavras fortes  do  altivo  republicano,  para  applical- 
as  ao  nosso  illustre  companheiro,  porque  elle  era 
também  um  dos  que  não  podiam  ter  senhor,  por- 
que a  sua  resolução,  intransigente  e  corajosa,  na- 
quelle  tempo,  em  que  muito  poucos  a  tinham,  honrou 
a  elle  e  ao  poder  ao  qual  se  oppoz  e  porque,  po- 
de-se  ter  a  certeza,  si  tivesse  vivido  mais,  si  ti- 
vesse avistado  um  dia  que  não  estava  longe,  em 
que  a  fortuna  mudou  e  uma  revira-volta  se  deu, 
elle  teria  sabido  conservar  a  attitude  circumspe- 
eta  e  decente,  digni  e  correcta,  cheia  daquelle 
respeito  de  si  mesmo,  que  separa  o  homem  ele- 
vado das  grosserias  do  povo  e  que  este  admira, 
mesmo  quando  não  o  comprehende  ! 

«    • 

O  general  Frederico  Sólon  Sampaio  Ribeiro,  nas- 
ceu no  Rio  Grande  do  Sul,  em  1842. 

Entrou  para  o  exercito  em  1857,  e  serviu  na  ca- 
vallaria,  por  occasião  da  guerra  paraguaya,  toman- 
do parte  em  todos  os  combates  da  campanha. 

Era  major  e  commandava  o  9.°  regimento  da 
mesma  arma,  estacionado  no  Rio,  em  Novembro 
de  1889,  época  em   que  entrou,  de  chofre,  na  car- 

R.  18 


138 


reira  politica,  do  modo  tal  que,  diante  do  seu 
nome,  ha  de  parar,  d'ora  avante,  quem  tiver  de 
escrever  a  historia  do  Brazil. 

Parece  que  foi  em  30  de  Outubro  que  teve  scien- 
cia  do  pronunciamento,  que  se  preparava,  por 
Menna  Barretto  e  Sebasti  lo  Bandeira,  e,  logo  no 
outro  dia,  ou  no  dia  5  do  mez  seguinte,  entrou 
em  relações  com  o  general  Deodoro  e  com  Ben- 
jamin  Constant. 

O  partido  liberal  subira,  em  6  de  Junho  daquelle 
anno,  ao  poder,  e  o  visconde  de  Ouro  Preto,  pre- 
sidente do  conselho,  começara  a  g^wernar  com  o 
orgulho   e  a    temerária  energia   de  um    Strafford  1 

Diante  delle  e  contra  elle  subia  a  irritação  altiva 
e  crescente  dos  militares,  que  yÁ  tinham  tomado 
o  pulso  á  fraqueza  do  governo  imperial,  derrubando, 
pouco  antes,  o  ministro  Alfredo  Chaves,  por  uma 
destas  manifestações  desabridas  e  arrogantes  da 
força,  que  só  se  podem  explicar,  sem  justificar, 
pelo  estado  lastimoso  a  que  tinha  chegado  a  ad- 
ministraçfxo,  e  o  esmorecimento,  cada  dia  mais 
derivante,  da  monarchia,  em  consequência  da  hos- 
tilidade da  classe  dos  proprietários  agrícolas,  que 
fora,  em  todos  os  tempos,  o  seu  melhor  apoio, 
já  irritada  e  logo   empobrecida  pela  abolição. 

Havia  também  em  todo  o  [)aiz  uma  propaganda, 
a  cada  momento  mais  arrojada  e  vehemente,  que 
o  exemplo  do  triumpho  próximo  da  propaganda 
abolicionista  exaltava  até  o  extremo,  eá  qual  per- 
tenciam, em  regra  geral,  toda  a  mocidade  que  sa- 
bia das  escolas  e  muitos  militares. 

As  ironias  pungentes  com  que  o  sr.  Gomes  de 
Castro  ílagiciara,  na  camará,  o  novo  ministério, 
na  sessão  memorável  de  11  de  Junho,  e  o  discur- 
so intrepidamente  fatídico  do  padre  João   Manuel, 


139 


indicavam  que  o  espirito  conservador  deixava  agir 
a  vingança  e  era  o  braço  armado  do  gladio  que 
ia  desfechar  o  golpe  I 

Teriam  feiío  bem  os  quatrocentos  e  tantos  sol- 
dados que  proclamaram  a  Republica  ? 

Ainda  é  cedo  para  julgar  a  revolução,  apesar 
das  misérias  do  presente. 

Naquelle  tempo  já  havia  uma  desastrada  e  real 
fraqueza  em  cima,  e  o  poder,  apesar  de  moderado 
nas  leis,  era  sempre,  de  facto,  absoluto  no  fundo; 
mas,  os  que  governavam,  não  sabiam,  nào  queriam, 
ou  tinham  pejo  de  fazer  dos  parlamentos  estes  es- 
cravos dóceis,  acorrentados  a  seus  pós  I 

A  tyrannia  já  era  mesquinha,  e  os  abusos  que 
ella  produz  pesavam  sobre  a  nação ;  mas,  todos 
nós  que  alimentáramos  o  sonho  querido  da  Re- 
publica, não  pensávamos  em  cousa  ()eor:  na  amar- 
gura dos  máos  dias,  dos  dias  das  orgias  do  onci- 
lliamento  e  das  orgias  da  degolla. 

O  sombrio  erro  é  que  não  prc>viramos  que  não 
conseguiríamos,  depois  de  dois  lustros,  o  mesmo 
ideal  que  a  nação  ingleza,  ha  cerca  de  dois  séculos 
e  meio,  também  não  logrou  alcançar,  em  doze  annos 
de  Republica — um  parlamento  que  não  fosse  njan- 
dado  peh^s  governantes,  um  parlamento  sem  majo- 
res generaes  e  sem  certificados  de  admissão,  um 
parlamento  livre  emtimi 

O  visconde  de  Ouro  Preto  não  dissimulava  con- 
siderar como  inimiga  a  gente  da  milicia  e  que  as 
ordens  para  o  seu  afastamento  eram  medidas  po- 
liticas. 

Foi  em  casa  do  major  Sólon  que  se  reuni- 
ram os  conspiradores,  no  dia  3  de  Novembro,  e 
foi  elle  quem,  ás  7  horas  da  tarde  de  14,  mandou, 
por  Joaquim  Ignacio,  prevenir  que  estivessem  todos 


140 


promptos  para  aquella  noite,  porque  o  governo 
descobrira  tudo,  e  toi  ainda  em  torno  delle,  no  seu 
quartel  de  S.  Christovão,  onde  chegou,  á  meia  noite, 
que  se  agruparam  os  revolucionários,  desde  Ser- 
zedello  Correia,  que  veiu,  por  ordem  de  Benjamin, 
incorporar-se  ao  movimento,  até  o  tenente-coronel 
Telles,  que  devia  commandar  a  2.»  brigada  revol- 
tada. 

Foi  alli  que,  pelas  5  1/2  horas  da  manhã,  apeou- 
se  Benjamin  Constant  com  Lauro  Múller  e  um  cla- 
rim, dizendo  : 

«Agora,  estou  entre  os  meus  amigos.  Chegou  o 
momento  de  ver  quem  sabe  morrer  pela  pátria  »  I 
O  major  Sólon  trouxe  o  seu  regimento  ao  Campo 
da  Acclamaçiio,  commandando  a  vanguarda,  arris- 
cando-se  abertamente  ao  crime  de  rebellião,  e  in- 
cumbiu-se  depois  da  perigosa  honra  de  guardar 
preso,  no  seu  paço,  o  imperador  e  de  levar-lhe  o 
decreto  da  deposição. 

Não  era  proporcional  ao  posto  a  embaixada, 
mais  era-o  de  sobejo  o  homem  ! 

Havia  nesta  dupla  missão  duas  tremendas  res- 
ponsabilidades e  era  preciso  ter  uma  alma  soli- 
damente lemperada  para  encarregar-se  delias. 

A  historia  das  [)roscripções  politicas  tem  muitas 
particularidades  ora  cómicas,  ora  sinistras,  desde 
a  de  Ricardo  Cromwell,  recommendando  que  trans- 
portassem, coii»  todo  o  cuidado,  a  mala  que  levava 
os  protestos  das  dr.dicaçõcs  ilU/nitadas,  que  re- 
cebera por  occasião  da  sua  elevação  ao  protecto- 
rado, por  conduzir,  conforme  elle  dizia  com  o  seu 
humorismo  de  saxnriio,  a  vida  e  a  fortuna  do  bom 
povo  de  Inglaterra,  até  a  de  Maximiliano,  acom- 
panhada pela  lembrança  daquellas  promessas,  que 
deviam  ter  por  cumprimento  o  sorriso  com   que  o 


141 


responsável  pela  trágica  aventura  se  esquivou  mais 
tarde  perante  o  dramati-ío,  o  sublime  desespero 
da  esposa  do  destitoso  fusilado  de  Queretaro  I 

Nenhuma  delias,  porém,  se  parece  com  a  que 
este  soldado  levava  num  papel  dobrado,  em  gran- 
de uniforme,  á  frente  de  um  piquete  de  cavallaria, 
naquella  tarde  de  sabbado,  IG  de  Novembro,  que 
ficará,  na  historia  do  Brazil,  como  o  dia  da  ancie- 
dade  e  do  espanto  e  que  era  a  ordem  de  uma  pro- 
scripção,  que  devia  ser  eternal 

Conta-se  de  Luiz  XVI  que,  si  tivesse  possuido, 
na  madrugada  de  10  de  Agosto,  a  coragem  reso- 
luta e  guerreira,  digna  de  um  neto  de  sessenta  reis, 
si  tivesse  podido  vencer  o  pendor  do  seu  próprio 
organismo,  inflammar  os  guardas  nacionaes  hesitan- 
tes e  corresponder  á  fria  bravura  dos  suissos, 
talvez  tivesse  repellido,  nos  arredores  das  Tulhe- 
riâs,  os   bandos  de  Westermann  e   de  Santerre. 

Si  Pedro  II,  lambem,  mais  moço,  mais  resoluto 
e  valente,  se  tivesse,  violando  as  ordens  das  sen- 
tinellas,  dirigido  á  tropa  e  ao  povo  ;  si  tivesse  lem- 
brado a  uns  o  seu  juramento  áquella  bandeira,  que 
fora  sempre  a  bandeira  das  victorias  ;  si,  falando 
aos  marinheiros  e  aos  soldados,  lhes  tivesse  recor- 
dado Itozoró  e  Riachuelo,  e  evocado  a  tradição 
daquelles  gloriosos  exércitos,  que,  diante  dos  es- 
trangeiros, sabiam  morrer,  como  em  Pirajá  e  Monte 
Casftros,  saudando  com  vivas  o  seu  imperador ;  si, 
com  um  grupo  de  convertidos,  pudesse  sahir  á 
rua,  e,  expondo-se  d  morte,  se  tivesse  dirigido  ao 
povo,  por  maior  que  fosse  a  prostração  moral  e  a  pusi- 
lanimidade  deste,  e  pudesse  agitar  as  poderosas 
sympathias  que  tinham  por  elle,  tão  grandes  que 
ainda  não  se  desfizeram,  é  possivel  que  tudo  se 
tivesse  mudado. 


142 


Isto,  porém,  não  se  deu  e  foi  ainda  sob  a  espa- 
da deste  grande  rebelde,  victorioso  e  bravo,  que, 
naquella  madrugada  de  domingo,  17  de  Novembro, 
escura  e  trágica,  filas  dobradas  de  soldados  som- 
brios, no  meio  de  linhas  densas  de  baionetas  palli- 
das,  passou  o  coche  negro,  o  coche  que  conduzia 
para  o  mar  o  velho  descoroado  da  véspera  que  ia, 
aos  70  anncs,  começar,  em  terra  estrangeira,  uma 
vida  do  expatriado,  a  vida  da  pobreza  e  do  exiliol 
Quando,  em  1660,  a  restauração  dos  Stuarts  deu 
ensejo  para  se  revelar  lodo  o  servilism.»  de  que 
eram  capazes  os  políticos  e  os  particulares,  quan- 
do a  reacção  monarchica  era  tanto  mais  inconsi- 
derada e  cruel  no  parlamento  inglez,  quando  se 
accommoda  bem  á  covardia  dos  homens  diluir  o 
odioso  da  tyrannia  e  dos  crimes,  no  meio  da  de- 
bandada geral,  do  repudio  de  todos  os  antigos 
compromissos  e  de  todas  as  velhas  amizades,  quan- 
do conduziam  numa  carroça,  [)ara  Charing  Cross, 
o  coronel  Harrison,  um  miserável,  insolente  ou 
desapiedado,  gritou  da  turba,  para  insultar  o  velho 
republicano:  «Onde  está  agora  a   tal  boa  causa»?. 

«Levo-a  aqui»,  respondeu  o  valente  soldado,  ba- 
tendo no  coração ! 

E  continuou  a  avançar  para  o  supplicio,  altivo 
e  heróico,  como  costumava  avançar  á  frente  do  seu 
regimento  I 

Seria  muito  temerário  suppor  que  todos  os  que 
estabeleceram  a  foima  polittca,  que  ha  doze  annos 
aqui  se  mantém,  respondessem  <t  mesmo  em  cir- 
cumstancias  idênticas. 

Um,  porém,  fal-o-hia  de  certo,  si  vivesse  e  si 
ella,  pur  desgraça  encontrasse  um  Monk. 

Era  o  general  Sólon. 


143 


8ò\    SESSÃO  EM  18  DE  MAIO  DE  1901 
Presidência    do    Snr.    Cons.    Dr,     Saloador    Pires 

Aos  trinta  e  um  dias  do  mez  de  Março  de  1901, 
nesta  cidade  do  Salvador,  Bahia  de  Todos  os  San- 
tos, no  salão  do  Instituto,  á  1  hora  da  tarde,  pre- 
sentes os  sócios,  Cons.  Drs.  Salvador  Pires  de 
Carvalho  e  Albuquerque,  presidente  e  João  Nepo- 
muceno  Torres,  1  ^  secretario,  Drs.  Braz  do  Ama- 
ral, Augusto  de  Araújo  Santos,  Joaquim  dos  Reis 
Magalhães,  Aurélio  Pires  de  Cai*valho  e  Albuquer- 
que, Guilherme  Fooppel,  Manoel  Alfredo  de  Carvalho, 
João  Pimenta  Bastos  e  Júlio  Barbuda,  Pharms. 
Joaquim  Manoel  de  Sant*Anna,  Luiz  Filgueiras  e 
Accioly  do  Prado,  Professores  Elias  de  Figueiredo 
Nazareth  e  Francisco  Torqualo  Bahia  da  Silva 
Araújo,  Padre  Luiz  da  França,  Damasceno  Vieira, 
capitães  Francisco  Gomes  Ferreira  Braga  e  Manoel 
Quirino,  coronel  Gonçalo  de  Athayde  Pereira,  Sal- 
vador Pires  de  Carvalho  e  Albuquerque  e  Isaias 
de  Carvalho  Santos,  2.^  secretario,  foi  aberta  a 
sessão. 

O   expediente  constou    do  seguinte  : 

Officios:  do  Cônsul  de  Portugal,  da  Provedoria 
da  Santa  Casa  da  Misericórdia,  do  Conselho  exe- 
cutivo do  Centro  Operário,  do  Presidente  do  Tri- 
bunal de  Appellaçào  e  Revista,  das  sociedade  B.»- 
neficencia  Caixeiral  e  Euterpe,  agradecendo  o  convite 
para  a  sessão  anniversaria  do  Instituto,  sendo  q  u 
a  Beneficência  Caixeiral  envia  a  lista  dos  funccio- 
narios  para  o  corrente  anno. 

Cartas:  á^  sócio  capitão  de  mar  e  guerra  An- 
nio  Alves  Camará  communícando  não  poder,  por 
molivd  de   moléstia,  comparecer    á    sessão    anni- 


144 


versaria;  do  presidente  da  commissão  promotora 
dos  festejos  do  4.«  Centenário  do  descobrimento 
do  Brazil,  em  Belém  do  Pará,  Dr.  Gentil  A.  do 
Moraes  Bittencourt,  oflferecendo  um:i  collecçào  das 
quatro  medalhas  comraemorativas  que  a  mesma 
commissão  mandou  cunhar,  em  bronze ;  da  Dire- 
ctoria da  Escola  Polytechnica,  deste  Estado,  com- 
municando  que,  por  ter  recebido  tarde  o  convite 
para  a  sessão  anniversaria,  deixou  a  Congregação 
de  fazer-se  representar  na  respectiva  solemnidade; 
do  Dr.  Carlos  Reis  communicando  que  acceita  o 
logar  de  sócio  correspondente  para  que  foi  eleito 
e  offerecendo  os  seus  préstimos,  em  S.  Paulo ;  da 
Viscondessa  de  CaUacanti,  escripta  de  Ron)a,  accu- 
sando  a  recepção  de  uma  carta  acompanhada  da 
medalha  commemorativa  do  descobrimento  do  Bra- 
zil  e  explicando  o  motivo  por  que  dirigiu  ao  In- 
stituto uma  carta  ao  passar  por  esta  cidade  ;  ura 
cartão  da  directoria  do  Centro  Operário,  congra- 
tulando-se  com  o  Instituto  pelo  anniversario  da 
sua  installação  :  uma  carta  do  sr.  Gustavo  Alexandre 
Joys,  escripta  da  fazenda  Santa  Cruz  do  Chixiú, 
em  Cannavieiras,  fazendo  um  largo  histórico  sobre 
as  riquezas  mineraes  daquelle  municipio  e  pedindo 
auxilio  para  a  exploração  de  diversas  jazidas,  carta 
que  foi  a  respectiva  commissão  porá  estudar  o  as- 
sumpto. 

Offerías:  do  secretario  geral  do  governo  do  Es- 
tado de  Sergipe,  enviando,  com  officio  de  22  de 
Março  ultimo,  um  exemplar  da  Colleccão  de  leis 
e  decretos  do  anno  de  lUOO  ;  do  consócio  Dr.  Pedro 
M.  Riviere,  jornaes  que  trazem  a  descripção  das 
festas  e  trabalhos  do  «Congresso  Latino-Americano», 
e  communicando  que  acceitou  a  incumbência  de 
representar  este  Instituto  naquella  solemnidade,  o 


145 


que  tudo  consta  dos  offlcios  de  13  de  Março  e  3 
de  Abril  do  corrente  anno,  enviando  taaibem  a  me- 
dalha do  referido  Congresso;  do  Dr.  Ribeiro  dos 
Santos,  um  quadro  dos  deputados  e  senadores  ao 
congresso  Constituinte  do  Estado  da  Bahia  ;  do 
Dr.  Foeppel,  trinta  e  uma  moedas  antigas  estran- 
geiras e  sete  modernas;  do  Dr.  Joviniano  Avelino 
Pereira  Duarte  uma  cédula  de  20$000  amarella  ; 
do  photographo  Sr.  Vargas,  a  [)hotographia  do  edifí- 
cio do  Instituto  ;  do  Cons.  Torres  uma  collecção 
do  jornal  ©Revista  da  Semana»  e  os  volumes  das 
leis  flConsolidação  das  leis  do  processo  civil,  cri- 
minai e  commercial  do  Estado  da  Bahia». 

D  Sr.  Cons.  Presidente  communica  o  fallecimento, 
em  Abril,  do  professor  Adriano  Augusto  de  Araújo 
Jorge,  lente  do  Gymnasio  de  Maceió  e  presidente  do 
Instituto  Geographico  de  Alagoas  e  do  historiador 
Josó  Arthur  Montenegro,  fazendo  justas  referencias 
a  tão  illuslres  consócios,  propondo  que  se  inse- 
risse na  acta  um  voto  de  profundo  pesar,  o  que 
foi  approvado. 

O  Cons.  Torres  fez  também  referencias  aos  dois 
consócios  fallecidos  e  particularmente  ao  consócio 
Montenegro  e  propõe  que  o  Instituto  faça  um  ap- 
pello  aos  demais  Institutos  para  auxiliarem  a  pu- 
blicação de  uma  obra  sobre  a  guerra  do  Paraguay, 
escripta  por  elle,  e  a  mais  completa  no  assumpto. 

Em  seguida  passou-se  aos  trabalhos  da  eleição 
que  deu  o  seguinte  resultado  : 

Para  presidente,  Cons.  Dr.  Salvador  Pires,  21 
votos;  Dr.  Satyro  Dias  1. 

Para  l.<>  vice-presidente,  Dr.  Satyro  Dias,  21  ; 
Cons.  Torres,  1 . 

Para  1.**  secretario.  Cons.  João  Torres,  19;  Dr. 
Reis  Magalhães,  2. 

R.  19 


146 


Para  2.^  secretario,  Dr.  Isaiasde  Carvalho  Santos. 
20  ;  ,Aloysio  e   Faria   Rocha,  1. 

Para  supplentes  de  secretario,  major  Aloysio  de 
Carvalho,  20;   Dr.   Reis   Magalhães,  18. 

Para  thesoureiro,  capitão  Francisco  Gomes  Fer- 
reira Braga,   20;    Eloy  Guimarães,  1. 

Para  orador,  Dr.  Braz  Hermenegildo  do  Amaral, 
19;  Dr.  Araújo  Santos,  1  e  Cons.  Filinto  Bastos,  2. 

Para  supplenie  de  orador:  Cons.  Filinto  Justi- 
niano Ferreira  Bastos,  20  e  Dr.  Octaviano  Bar- 
retto,  2. 

Para  commissão  de  admissão  de  sócios:  Dr.  Al- 
fredo César  Cabussú,  22;  Comm.  SanfAnna,  il; 
Gonçalo   de  Athayde,  21   e   Eloy  Guimarães,  1,    " 

De  fundos  e  orçamento:  Dr.  Bonifácio  de  Aragão 
Faria  Rocha,  22;  Horácio  Urpia,  22;  Comm.  Sal- 
vador Pires  de  Carvalho  e  Albuquerque,  21  e  Dp. 
Araújo  Santos,    1. 

De  redacção  da  Revista:  Cons.  João  Torres,  21 ; 
Dr.  Reis  Magalhães,  21;  Dr.  Ini.ocencio  Munhoz, 
21;  Dr.  Fiancisco  Calmon  e  Luiz  Filgueiras,  1  voto 
cada  um. 

De  manuscriptos  e  documentos :  cónego  Man- 
fredo  Alves  de  Lima,  22;  Cons.  Filinto  Bastos,  22 
e  Dr.  Egas  Muniz,  22. 

Geogra[)hia  e  Historia  :  Dr.  Francisco  Marques 
de  Góes  Calmon,  22;  professor  Borges  dos  Reis, 
22;  Luiz  Filgueiras,  21  e  Isaías  Santos,  1. 

Estatistica  :  Professor  Nazareth  21;  Aurélio  Pires 
14;  Dr.  Júlio  Gama,  10;  António  Calmon,  8  e  Júlio 
Barbuda,  12. 

Topographia  :  Pimenta  Bastos,  22;  professor  Tor- 
quato  Bahia,  21;  Accioly,  18;  Dr.  Glycerio  Volloso, 
6  e  Dr.  Calmon,  1. 

Numisn^atica :  Dr.    Guilherme    Foeppel,  22;  pro^ 


147 


fessor  Quirino,  22;  Ferraro,  22  e  Damasceno  Viei- 
ra, J. 

Mappas:  Capitão  de  mar  e  guerra  Alves  Gamara, 
82;  Octaviano  Soledade,  22  e  Dr.  Júlio  Caiusans,  22. 

Biographias  :  Dr.  Manoel  Brito,  Damasceno  Vieira 
e  Dr.  Guilherme  Rebello,  22  votos  cada  um. 

Pelo  sócio  capitão  Ferreira  Braga,  Ihesoureiro, 
foi  dito  ser  necessário  o  concerto  de  uma  viga  no 
salão  da  bibliolheca,  concerto  esse  orçado,  com  as 
obras  necessárias,  pelo  sócio  Dr,  Pimenta  Bastos 
em  sete  centos  mil  reis,  no  máximo,  pedindo  para 
isso  autorização.  Apoiado  o  pedido  pelo  sócio  Dr. 
Reis  Magalhães,  foi  approvado  pola  assembléa. 

E  nada  mais  havendo  a  tratar  foi  encerrada  a 
sessão,  do  que  eu,  2.^  secretario,  lavrei  a  presente 
acta,  que  vae  por  mim  assignada.  -Isaías  de  Car- 
valho Santos. 

Approvada  emsessâ)  de  14  de  Julho  de  1901.— 
Salvador  Pires  de  Carcallio  e  Albuquerque.  — João 
Nepomuceno  Torres. — Gonçalo  de  Athayde  Pereira. 

86.»  SESSÃO  EM  14  DE  JULHO  DE  1901 

Presidência    do     Sr.     Cons.     Dr.    Salvador    Pires 

Aos  14  dias  do  mez  de  Julho  de  1901,  nesta  ci- 
dade do  Salvador,  Bahia  de  Todos  os  Santos,  no 
salão  do  Instituto,  á  1  hora  da  tarde,  presentes 
os  sócios  Cons.  Salvador  Pires  de  Carvalho  e  Al- 
buquerque, presidente,  João  Nepomuceno  Torres, 
1  *^  secretario,  Drs,  Egas  Muniz  Barretto,  Alfredo 
Cabussú  e  João  Pimenta,  capitão  Francisco  Gomes 
Ferreira  Braga,  Comms.  Salvador  Pires  do  Car- 
valho e  Albuquerque  e  Joaquim  Manoel  de  Santa 
Anna,  coronel  Gonçalo  de  Athayde  Pereira,  Alfredo 


148 


Soledade  e  Henrique  Praguer,  abriu-se  a  sessão, 
sendo  lida  e  approvada  a  acta  da  sessão  anterior. 
O  expediente  constou  do  seguinte  : 
Officios  :  do  general  Pina  Vidal,  secretario  geral 
da  Academia  das  Sciencias  de  Lisboa,  enviando 
varias  obras  para  a  bibliotheca  ;  do  secretario  ge- 
ral da  sociedade  de  Estudos  Colioniaes  de  Bru- 
xellas,  enviando  um  boletim  e  pedindo  permuta 
da  Revista;  do  presidente  da  Associação  Commer- 
cial,  enviando  um  exemplar  do  Relatório  do  anno 
findo;  dos  secretários  do  Grémio  Litterario  e  da 
sociedade  Nacional  de  Agricultura,  enviando  a  re- 
lação das  novas  directorias;  da  commissão  de 
exéquias  em  homenagem  ao  Juiz  de  Direito  Arthur 
Leal  Ferreira,  pedindo  o  comparecimento  do  Ins- 
tituto (foi  nomeada  uma  commissão  composta  dos 
sócios  Drs.  Braz  do  Amaral,  Guilherme  Rebeilo  e 
Cabussú);  da  directoria  do  Instituto  Agronómico 
e  Industrial  da  Bahia,  convidando  o  Instituto  para 
assistir  à  solemnidade  de  sua  installação  no  dia  14 
do  corrente  (foi  nom^^ada  uma  commissão  com- 
posta dos  sócios  Drs.  Braz  do  Amaral,  Pimenta 
Bastos  e  Affonso  Maciel);  do  Provedor  da  Santa 
Casa  de  Misericórdia,  enviando  o  Relatório  con- 
cernente ao  biennio  de  1899  a  1900  ;  do  Dr.  José 
Manoel  Cardoso  de  Oliveira,  secretario  da  legação 
brazileira,  em  Londres,  acceitando  e  agradecendo 
a  sua  eleição  do  sócio  correspondente  deste  Ins- 
tituto ;  da  commissão  encarregada  dos  festejos  do 
dia  2  de  Julho,  convidando  o  Instituto  a  tomar 
parte  no  cortejo  civico  ao  parque  «Duque^de  Caxias», 
onde  se  acha  o  Monumento  da  nossa  emancipação 
politica:  do  U^nmo  Sr.  Ai  cebispo  desta  Archidio- 
cese ;  do  General  conunandonte  do  3.o  districto 
militar  ;  do  Cônsul  Portuguez;  dos  Drs.  Secretários 
da  Segurança  Publica  e  da  Viação  e  Agricultura; 


140 


dos  Directores  das  Faculdades  de  Medicina  e  de 
Direito ;  do  Dr.  Inspector  Geral  do  Ensino  ;  do  Dr. 
Intendente  Municipal ;  do  capitào  de  mar  e  guerra, 
capitão  do  porto  Alves  Camará  ;  do  Inspector  da 
Alfandega ;  dos  presidentes  da  Associação  Com- 
raercial  e  da  Junia  Commercial  ;  do  Provedor  da 
Santa  Casa  de  Misericórdia  ;  do  l.*  secretario  do 
Grémio  Litterarie  ;  do  Presidente  do  Conselho  Exe- 
cutivo do  Centro  Operário  ;  dos  presidentes  do 
Instituto  Archeologico  Alagoano,  Instituto  Polyte- 
chnico  Brazileiro,  sociedade  de  Geographia  do  Rio 
de  Janeiro,  do  Instituto  Histórico  de  S.  Paulo  e 
do  1.-  sucrelario  do  Instituto  dos  Advogados  Bra- 
zileiros,  todos  accusando  o  recebimento  da  com- 
municação  da  nova  directoria  do  Instituto  Bahiano 
e  manifestando  votos  de  prosperidade  do  mesmo 
Instituto. 

Foram  lidas  duas  cartas  do  sócio  correspondente 
Carlos  Ferreira  de  Mello,  residente  em  Berlim  e 
professor  alli,  datadas  de  16  e  27  de  Maio  do 
corrente  anno,  vindo  esta  ultima  acompanhada  de 
uma  outra  carta  do  Sr.  Cari  Chum. 

Na  primeira  aquelle  consócio  comrnunica  que 
está  proseguindo  em  seus  estudos  geographicos  e 
generalisando  a  lingua  como  professor  particular; 
e,  confirmando  as  carias  anteriores  do  1.2  e  13  Ju 
Fevereiro,  diz  que  julga  ser  fácil  alcançar  gratui- 
tamente obras  para  a  bibliotheca  do  Instituto,  uma 
vez  que  sejam  remeltidas  á  sociedade  de  Geogra- 
phia de  Berlim  as  publicações  ofíiciaes,  tendo  mes- 
mo promessa,  nesse  sentido,  da  referida  sociedade, 
e  enviou  os  provas  do  titulo  e  do  índice  da  obra 
que  escreveu  e  que  está  se  editando,  pedindo  ao 
Instituto  que  a  recommende  no  seu  boletim  ;  na 
segunda  propõe-se  o  referido  sócio  a  mandar  pre- 


150 


parar  peia  casa  Cari  Chum  inappas  escolares  de 
geographia  physica  e  polilioa,  segundo  o  plano  e 
ppGço  que  indica  e  também  mappas  geraes  com 
todas  as  minudencias  nossivois.  pliysicas  e  poli- 
liticas,  com  o  traçado  dos  limites  dos  municípios 
e  das  estradas  e  caminhos  de  ferro,  lembrando 
que  a  desp«za  poderá  ser  feita  pelo  Estado,  por 
tratar-se  de  serviç.^  publico,  e  serviço  remunera- 
dor, uma  vez  que  o  listado  poderú  vender  as  cartas 
por  conta  própria.  E  a  carta  do  Sr.  Cari  Clium  é 
no  mesmo  sentido. 

Em  seguida  foram  lidos  os  [careceres  da  com- 
missão  de  admissão  de  sócios,  ficando  adiada  a 
Viitação  para  a  sessão  seguinte  por  falta  de  nu- 
mero legal  de  sócios  para  a  votação. 

E  por  nada  mais  haver  a  tratar-se,  foi  encerrada 
a  sessão,  e  de  tudo  para  constar,  lavrei  a  presente 
acta,  que  vae  por  mim,  2.'  secretario,  assignada. 
— haias  de  Carvalho   Santos. 

Approvada  em  sessão  de  25  de  Agosto  de  1901, 
— Salvador  Fires  de  Carvalho  e  Albuquerque- João 
Nepotmuteno   Torres— Gonçalo  de  Athayde  Pereira. 

87.*»  SKSSAO,  EM  11  DE  AGOSTO  DE  1901 

Presidência    do    Sr.    Côas.     l)r     Salvador    Pires 

Aos  11  dias  do  mez  de  Agosto  de  1901,  nesta 
cidade  do  Salvador,  Bahia  de  Todos  os  Santos, 
no  salão  do  Instituto,  á  1  hora  da  tarde,  presen- 
tes os  sócios  Cons.  Salvador  Pires  de  Carvalho  e 
Albuquerque,  presidente,  e  João  Nepomuceno Torres 
1.'  secretario,  Drs.  Alfredo  César  Cabussú,  João 
Pimenta  Bastos,  Joaquim  dos  Reis  Magalhães, 
Cons.  Filinto  Justiniano  Ferreira  Bastos,  Pharms. 
Alfredo  Accioly,  Lui:'  Filgueiras  e  Comm.  Joaquim 


151 


Manoel  de  SanfAnna.  capitão  Francisco  Gomes 
Ferreira  Braga,  Ihesoureiro :  coronel  Gonçalo  de 
Alhayde  Pereira.  Nicolau  Toleniino  Carneiro  da 
Cunha,  Alfredo  Octaviano  Soledade  e  Isaias  de 
Carvalho  Santos,  2.-  secretario,  abriu-se  a  sessão, 
sendo  lida  a  acta  da  anterior,  que   foi    approvada. 

O  expediente  constou   do  seguinte  : 

Ofjicios  ;  do  secretario  da  sociedade  Beneficente 
União  dos  Artistas,  communicando  o  resultado  da 
eleição  dos  novos  funccionarios ;  do  Director  da 
Bibliotheca  Nacional  do  Rio  de  Janeiro  commu- 
nicando achir-se  naquella  trese  (13)  pacotes  de 
publicações  procedentes  da  America  do  Norte  e 
da  Europa  e  destinados  a  este  Instituto. 

Lidos  os  [)areceros  sobre  as  propostas  de  ad- 
missão de  sócios,  foram  sub  nettidos  á  votação, 
por  escrutinio  secreto,  sendo  approvados  para  só- 
cios eflfectivos  us  Engenheiros  Francisco  Lopes  da 
Silva  Lima  e  José  Maria  das  Neves,  e  correspon- 
dentes os  Drs.  VirgiJe  Rossel,  J.  C.  Branner,  Ze- 
ferino Cândido,  Guimarães  Passos,  Alfredo  Rodri- 
gues e  Arno  Philipp  e  o  Prof   Amâncio  Pereira. 

Foi  lida  e  remettida  á  respectiva  commissão  a 
proposta  para  sócio  etiectivo  do  engenheiro  agró- 
nomo Luiz  da  França  Imbassahy  da  Silva. 

Offertas  :  de  duas  pennas  de  pato  que  pertence- 
ram ao  fallecido  D.  Pedro  II,  ex-Imperador,  pelo 
sócio  coronel  Rogociano  Pires  Teixeira  ;  do  ma- 
xilar superior  de  uma  tartaruga  encontrada  a  mil 
metros  de  distancia  do  Pharol  da  Barra,  pelo  ca- 
pitão Vitalino  de  Almeida;  e  de  diversos  mappas 
pelo  sócio  Cons.  António  Carneiro  da  Rocha. 

Em  seguida,  pedindo  a  palavra  o  Comm.  Santa 
Anna,  explicou  o  seu  voto  na  proposta  do  Dr. 
Vipgile  Rossel,  e   disse    que    rejubilava-se    com  o 


152 


Instituto  pela  acquisiçrio  de  tão  illustre  sócio,  que 
muito  contribuirá  na  questão  Amapá  para  o  reco- 
nhecimento do  nosso  direito  áquella  parte  do  ter- 
ritório  nacional. 

E  por  nada  mais  haver  a  tratar,  encerruu-se  a 
sessão  e  de  tudo,  para  constar,  lavrei  a  presente 
acta  e  assigao. — Isaias  de  Carcalho  Santos. 

Approvada  em  sessão  de  25  de  Agosto  de  1901. 
— Salvador  Pires  de  Carrulho  e  Albuquerque, — 
João  Nepomuceno  Torres —Gonçalo  de  Athayde  Pe- 
reira, 

88.»^  SESSÃO  ExVI  25  DE  AGOSTO  DE  1901 
Presidência    do    Sr.     Cons.     Dr.     Salvador    Pires 

Aos  25  dias  do  mez  de  Agosto  de  1901,  nesta 
cidade  do  Salvad-  r,  Bahia  de  Todos  os  Santos,  no 
salão  do  Instituto,  â  1  hora  di  tarde,  presentes 
os  sócios  Cons.  Salvador  Pires  de  Carvalho  e  Al- 
buquerque, presidente  e  João  Nepomuceno  Torres, 
secretario,  Drs.  Egas  Moniz,  Alfredo  Cabussú,  Au- 
rélio Pires  íle  Carvalho  e  Albuquerque,  Joaquim 
dos  Reis  Magalhães  e  José  Júlio  de  Calasans,  Comm. 
Salvador  Pires  de  Carvalho  e  Albuquerque,  Hen- 
rique Praguer,  Alfredo  Accioly,  capitão  Francisco 
Gomes  Ferreira  Braga,  thesoureiro,  António  José 
Gonçalves  Neves,  Alfredo  Soledade  e  coronel  Gon- 
çalo de  Athayde  Pereira,  foi  aberta  a  sessão,  sendo 
lidas  e  approvadas  as  actas  das  sessões  de  14  de 
Julho  e  11  de  Agosto  do  corrente  anno. 

O  expediente  constou  do  seguinte  : 

Officios  :  dos  secretários  do  Grémio  Bibliophilo 
Barrense  e  da  Associação  dos  Empregados  noCom- 
mercio  de  Pernambuco,  communicando  a  posse 
dos  novos  funccionarios  eleitos  para  o  anno  social 
do  1901  a  1902,  e  da  Sociedade  Nacional  de  Agri- 


153 


cultura  acompanhado  de  um  regulamento  do  Con- 
gresso de  Agricultura. 

Foi  lido  o  parecer  da    commissào    de    admissão 
de  sócios  sobre  a  proposta,  para  sócio  eífectivo,  do 
engenheiro  Luiz  da  França  Imbassahy  da  Silva,  que 
deixou  de  ser  votada  por  não  haver  numero  legal. 
Foram  lidas  e  enviadas  á  respectiva  com  missão 
as  seguintes  propostas:  para  sócios  correspondentes 
os  litteratos  :  Arthur  Vianna,  director  da  bibliotheca 
do  Pará,    António    Lobo,    director    da    bibliotheca 
publica  do  Maranhão  e  o  escriptor  portuguez  Fran 
Pacheco,  autor  do  «Sangue  Latino»;  e  para  sócios 
efifectivos  os  Drs.  Joaquim  Augusto  Tanajura,  me- 
dico, João  Gualberto  Nogueira,  deputado  estadoal, 
e  António    Ferrão  Muniz  de  Aragão,   advogado,  e 
a  Exma.  Sra.  D.  Maria   Elisa    Valente    Muaiz    de 
Aragão,   todos  residentes  nesta  cidade. 

Em  seguida,  procedeu-se  a  eleição  para  o  pre- 
enchimento da  vaga  de  um  membro  da  commissãode 
orçamento,  sendo  recolhidas  quatorze  cédulas,  que 
aparadas  deram  o  seguinte  resulta«io :  Dr.  Alfredo 
Cabussú,  trezti  voios,  Dr.  Reis  Magalhães,  um  voto. 
Finda  a  eleição,  foi  lido  o  projecto  de  orçamento 
para  o  corrente  anno,  apresentado  pela  respectiva 
commissão,  sendo  adiadas  a  discussão  e  votação 
para  a  sessão  seguinte,  por  não  haver  numero  le- 
gal de   sócios. 

E  nada  mais  havendo  a  tratar,  foi  encerrada  a 
sessão,  e  de  tudo,  para  constar,  eu,  2.*  secretario, 
lavrei  a  presente  acta  e  assigno. — Isaías  de  Caroa- 
lho  Santos. 

Approvada  em  sessão  de  8  de  Setembro  de  11)01. — 
Sahadur  Pires  de  Carvalho  e  Albuquerque.  —  João 
Nepomuceno  Torres. — Isaías  de  Carvalho  Santos. 

R.  20 


89^  SESSÃO  EM  8  DE  SETEMBRO  DE  1901 
Presidência    do    Snr.    Cons.    Dr.     Salvador    Pires 

Aos  oito  dias  do  mez  de  Setembro  de  1901, 
nesta  cidade  do  Salvador,  Bahia  de  Todos  os  San- 
tos, no  salão  do  Instituto,  á  1  hora  da  tarde,  pre- 
sentes os  sócios,  Cons.  Drs.  Salvador  Pires  de 
Carvalho  e  Albuquerque,  presidente,  e  João  Nepo- 
muceno  Torres,  1  ®  secretario,  Drs.  Joaquim  dos 
Reis  Magalhães,  Alfredo  César  Cabussú,  José  Júlio 
de  Calasans,  Joaquim  Pires  Muniz  de  Carvalho, 
Egas  Muniz  Barretto  de  Aragão,  Francisco  Alexan- 
dre de  Souza  e  Henrique  Praguer,  Pharm.  Joaquim 
Manoel  de  SanfAnna,  coronel  Gonçalo  de  Athayde 
Pereira,  capitão  Francisco  Gomes  Ferreira  Braga, 
thesoureiro,  João  Antunes  de  Castro  Menezes,  Al- 
fredo Octaviano  Soledade  e  Isaias  de  Carvalho 
Saniros,  2.-  secretario,  foi  aberta  a  sessão,  sendo  lida 
e  approvada,  sem  debate,  a  acta  da  sessão  anterior. 

O   expediente  constou  do  seguinte : 

Três  propostas  apresentando  para  sócios  eflFecti- 
vos  os  Drs.  José  Gonçalves  de  Castro  Cincurá  e 
José  Sabino  Pereira  Filho,  o  Pharm.  Clemente 
Tanajura  Guimarães  e  o  litterato  bahiano  Xavier 
Marques;  e  para  sócio  correspondente  o  Dr.  Antó- 
nio Augusto  de  Lima,  Director  do  Archivo  Publico 
Mineiro,  as  quaes  foram  remettidas  á  commissão 
respectiva. 

Foram  lidos  os  pareceres  da  commissão  de  ad- 
missão de  sócios,  opinando  pela  acceitação  para 
sócios  eíiectivos  da  Exma.  Sra.  D.  Maria  Elisa  Va- 
lente Muniz  de  Aragão  e  dos  Drs.  Joaquim  Augusto 
Tanajura,  João  Gualberto  Nogueira  e  António  Ferrão 
Muniz  de  Aragão,   e    para  sócios    correspondentes 


1S6 


dos  5Srs.  Arthur  Vianna  e  António  Lobo,  Directores 
das  Bibliothecas  Publicas  dos  Estados  do  Pará  e 
do  Mai^nhão,  e  Fran  Pacheco,  escriptor  portuguez, 
redactor  da  «Revista  do  Norte»,  não  sendo  submet- 
tidos  á  votação  por  não  haver  numero  legal  de  sócios. 
O  Sr.  Cons.  Dr.  João  Torres,  1.'  secretario,  pe- 
dindo a  palavra,  propoz  que  se  inserisse  na  acta 
um  voto  de  sincero  e  profundo  pezar  pelo  falleci- 
mento  do  notável  litterato  e  historiador  brazileiro, 
Eduardo  Prado,  o  que  foi  approvado. 

Em  seguida,  é  lido  o  parecer  da  commissão  de 
orçamento  sobre  a  receita  e  despeza  do  anno  de 
1901,  como  se  segue: 

«A  commissão  d^  orçamento  do    Instituto    Geo- 

graphico  e  Histórico  da  Bahia  submette    á  appro- 

vação  da  Assembléa  Geral  o  projecto  de  orçamento 

para  ocorrente  anno  de  1901,  sob  as  seguintes  bases: 

Art.  1.-  A  receita  é  fixada  em  16:326$500,  a  saber: 

§  1.-  Subvenção  estadual   ....        6:000$000 

§  2.-  Dita  federal 5:000$000 

§  3.-  Dita  municipal 1:000$000 

§  4.'  Ditas  de  exercícios  anteriores 
não  recebidas,  a  saber  : 

a)  estadual 1:500$000 

6)  municipal 500$000 

§  5.'  Mensalidades  de  sócios  sendo, 
a)  de  9  sócios  que  devem  de 
diversas  épocas  a  contar  de 
Julho  de  1894a  de5:embr.)del90l  526$000 

6  j  de  40  sócios  que  devem  de  di- 
versas épocas  a  contar  de  Ja- 
neiro de  1899  a  Dezembro  de 
1900  (409$000j  dedusindo  bO  J^ 


14:526$000 


156 


Transporte  14:526$000 

presumiveis  não  serem  recebidos 
na  respectiva  cabrança.    .    .     .  254$500 

c)  de  151  sócios  eífectivos  não  in- 
cluidos  os  9  de  que  trata  a  lettra 
a)  e  dedusidos  50  ^/^ presumi- 
veis não  serem  recebidos  na 
respectiva  cobrança  das  men- 
salidades dos  40  sócios  de  que 

trata  a  lettra   6) 1:572$000 

§  6.*  Jóias  de  sócios 300$000 

§  7.-  Donativos ^ 

§  8.-  Remissão  de  sócios  ....  ^ 

§  9.-  Producto  de  kerniesses,  con- 
certos e  espectáculos    públicos  $ 


16:326$500 

Art.  2,'  A  despeza  ó  fixada  em  16:317$240,  a  saber: 
§  1.'  Juros  e  amortisaçao  do  debito 

por  hyfiOtlieca  e  lettra  do  Banco 

Auxiliar  das  Classes  .     .     ,     .  8:000$000 

§  2.-  Seguro  do  prédio 115$800 

§  3.'  Pagamento  a  credores,  sendo  : 

A  João  Primo  Campello 771$400 

Francisco  Ferraro 1:170$000 

Joel   &    C 272$540 

Companhia  Serraria  a  vapor  e  ma- 

teriaes   de  construcção     .     .     .  468$500 

Costa  Santos  &  C 460$000 

Em  preza  Editora 700$000 

Guarda-livros 200$000 

Joaquim   Manso  &  C 479$000 

12:637$240 


157 


Transporte 
§  4."  Ordenados,  sendo  : 

a)  do    amiinuense 

b )  do  porteiro 

c)  do  cobrador 

GÍ)  do   servente 

§  5.'  Commissão  do  cobrador    .     . 
§  6.'  Despezas  da  Secretaria,  inclu- 
sive agua  e  sellos 

§  7.'  Impressão  da  ^Revista»,  inclu- 
sive a  publicação  da  «Historia 
da  Independência»  pelo  Dr.  Ma- 
noel Correia  Garcia.     .     .     .     . 


12:637$240 

800$000 
720$000 
360$000 
300$000 

$ 

300$000 


1:200$000 


16:317$240 
Art.  3.*  A  impressão  da    Revista    será  feita  por 
meio   de   concurrencia    publica. 

Art.  4.*  Não  far-se-i\  despeza  alguma  que  não 
esteja  prevista  neste  orçamento,  nem  que  exceda  á 
verba  no  mesmo  designada. 

Art.  5/  O  sr.  the.soureiro  não  poderá  realisar 
pagamento  de  despeza  alguma  sem  o  «visto»  do 
sr.  secretario  e  o  «pague-se»  do  Presidente. 

Art.  6.'  Si  no  correr  do  exercicio  verificar-se 
algum  saldo,  será  applicado  exclusivamente  á  atnor- 
tisação  do  debito  hypothecario. 
Art.  7.-  A  porcentagem  do  cobrador  será  de  15  %. 
Art.  8.'  As  mensalidades  dos  sócios  voltarão  a  ser 
de  1$000  e,  nesse  sentido,  serão  dadas  as  devidas 
providencias  relativamente  aos  sócios  que  acceita- 
ram  o  ultimo  augmento  para  2$000. 

Bailia,   24  de  Agosto  de  1901.  (Assignadosj  Sal- 
vador Pires    de  Caroalho    e  Albuquerque — Alfredo 
César  Cabussú. 
Em  discussão  esse  projecto,  o  sr.  Cons.  Torres 


158 


propõe  que  se  faça  a  discussão  e  votação  por  ar- 
tigos. 

O  Dr.  Cabussú,  relator  da  commissão  de  orça- 
mento, diz  que,  como  projecto  que  é  a  proposta, 
não  tem  propósito  em  que  sejão  aeceitas  todas  as 
idéas  ahi  apresentadas,  julgando  que  a  assembléa 
pode  adoptar  o  que  melhor  se  offerecer  sobre  o 
assumpto;  e,  depois  de  ligeiras  explicações,  é  ap- 
provado  o  projecto  na  parte  rela*iva  á  receita. 

Lida  a  2.*  parte,  relativa  á  despeza,  o  Cons.  Tor- 
res apresenta  uma  emenda  ao  §  3  •  do  Art.  2.'  nos 
seguintes  termos:  «Aos  srs.  Júlio  Telles  da  Silva 
Lobo  &  C.  t:000$000  da  fiança  de  seu  contracto 
para  a  extracção  das  loterias  na  conformidade  da 
clausula  3  *»,  fazf«ndo  o  histórico  do  referido  con- 
tracto. 

Pedindo  a  palavra  os  Drs.  Reis  Magalhães  e 
Cabussú  acham  inopportuna  a  discussão,  desde  que 
o  Instituto  resolveu  que  o  assumpto  fosse  estudado 
pela  meza  administrativa. 

E'  approvado  o  Ar.  2.*  e  prejudicada  a  emenda, 
bem  como  o  Art.  3.*.  São  rejeitados  os  Arts.  4.- 
e  5.-.  Em  discussão  o  Art.  6.*,  o  Dr  Reis  Maga- 
lhães mostrou-se  contrario  a  esse  Art  ,  declarando 
o  Dr.  Cabussú  que  a  commissão  nâo  dispoz  uma 
inutilidade  ;  entretanto,  sciente  a  commissão  de  que 
já  existem  despezas  feitas,  propunha  a  seguinte 
emenda  : 

«Applique-se  o  saldo  ás  despezas  já  feitas  e  ás 
verbas  excedidas  :  o  mais  como  está. — E'  appro- 
vado o  Art.  com  a  emenda. 

São  approvados  os  Arts.  7.*  e  8.'. 

Por  escrutinio  secreto  procede-se  a  votação  do 
parecer  relativo  á  admissão  do  Engenheiro  Luiz  da 
França  Imbassahy  da  Silva,  sendo  approvado,  e 
proclamado  sócio  effectivo. 


1^9 


Nada  mais  havendo  a  tratar,  é  encerrada  a  ses- 
são, e  de  tudo,  para  constar,  eu,  2.'  secretario,  lavrei 
a  presente  acta  e  assigno.  — /sa/os  de  Caroalho  Santos. 


OFFERTAS 

Além  dos  Jornaes  e  Revistas,  nacionaese  estran- 
geiras, que  permutam  com  a  «Revista»,  recebeu  o 
Instituto  durante  o  anno  muitas  outras  offertas  de 
livros  e  opúsculos,  cuja  relação  consta  do  livro 
respectivo. 

Mencionaremos  aqui  as  principaes,  e  que  são  as 
seguintes  : 

—Em  Janeiro : 

Historia  da  Independência  da  Bahia,  pelo  Dr. 
Manoel  Correia  Garcia,  Bahia,  1900 ;  Obras  re- 
ligiosas e  profanas  do  vigário  Francisco  Ferreira 
Barretto  (Recife);  Plano  topographico  de  la  re- 
gion  norte  Argentina  limitrofe  com  a  Bolívia  ;  Álbum 
de  Estatistica  Graphica  dos  caminhos  de  ferro  por- 
tuguezes  das  províncias  ultramarinas,  1898,  Lisboa; 
Revista  do  Instituto  Histórico  de  S.  Paulo,  edição 
commemorativa  do  4  •  centenário  do  descobrimento 
do  Brazil. 

—Em  Fevereiro . 

Brazil  Prehistorico,  Memoria  a  propósito  do  4.* 
centenário,  pelo  cónego  Uiysses  Pennafort;  Com- 
pilação das  leis  provinciaes  de  Sergipe  de  1835  a 
1880,  e  do  mesmo  Estado  de  1889  a  1900;  La  Re- 
publica Argentina  y  Chile— historia  de  la  demar- 
cacion  de  sus  fronteras,  2  vols. ;  Frontera  Argen- 
tino-Chilena,  memoria  apresentada  por  Valentín 
Virasoro;  Limites  Argentino-Chilenos— El  divor- 
tium  aquarum  continental  ante  el  tratado  de  1893, 


160 


—Em  Março  e  Abril : 

L'Or  a  Minas  Geraes  (Bresii)  par  M.  Paul  Ferrand, 
vol.  2.' ;  Annaes  do  Congresso  Nacional  e  Re- 
latórios de  ministros,  14vols.;  Funeraes  da  Rainha 
Victoria  I,  na  Capital  Federal;  O  Acre,  Direito  da 
Bolivia,  Rio,  1900  ;  Uma  collocção  de  «Revistas», 
trabalhos  dos  annos  de  1873  a  1895  da  Real  Aca- 
demia de  Bellas  Artes  o  Archeologia  de  Stockol- 
mo ;  Ephemerides  do  Ceará,  pelo  coronel  Joào 
Erigido,  com  um  estado  sobre  a  região  e  costa 
do  mesmo  Estado ;  O  descobrimento  do  Brasil 
pelos  Portuguezes,  por  Capistrano  de  Abreu  ;  O 
Muyrakyià  e  os  Ídolos  symbolicos,  por  J.  Barbosa 
Rodrigues,  2  vols.  :  O  Annuario  Illustrado  do  Jor- 
nal do  Brazil  para  11)01 ;  Estudos  sobre  o  Pará 
— Limites  cum  os  Estados  do  Amazonas  e  Matto 
Grosso,  por  Arthur  Vianna. 

Pelo  sócio  Dr.  P.  M.  Riviére,— a  medalha  com- 
memorativa  do  Congresso  Latino  Americano. 

Pelo  sócio  coronel  Raymundo  C.  Alves  da  Cunha 
— Paraenses  Illustres,  2.*  edição. 

Pelo  sócio  Dr.  Reis  Magalhães,  retratos  de  Cha- 
teaubriand  e  do  patriota  Henrique  Dias. 

Pelo  sócio  Dr.  Guilherme  Fceppel — varias  moedas 
romanas  antigas,  e  modernas  da  Europa. 
—Em  Maio  : 

Annaes  da  Bibliotheca  Nacional,  vol.  22,  1900; 
Annuario  Fluminense,  e  Obra  com  memorativa  do 
4.°  centenário  do  Brazil,  pelo  Dr.  Ferreira  da  Rosa  ; 
Repertório  da  legislação  sobre  o  serviço  sanitário 
do  Estado  de  S.  Paulo  ;  Revista  do  Instituto  Ar- 
cheologico  Alagoano,  vol.  3.\  1901. 

Pelo  cons  1.  secretario,  Consolidação  das  Leis 
do  Processo  do  Estado  da  Bahia,  4  vols. 

Pelo  Dr.  Joaquim  Ribeiro  dos  Santos,  um  quadro 


161 


com  os  retratos  dos   membros  do  congresso  Coq- 
stituÍDte  da  Bahia  em  1891. 

Pelo  sócio  Dr.  Henrique  de  Santa  Rosa,  4  me- 
dalhas commemoraiivas  do  4/  centenário  no  Estado 
do  Pará. 

—Em  Junho  e  Julho  : 

Relatório  da  Santa  Casa  de  Misericórdia  d'esta 
capital  em  i900 ;  Modelos  de  atlas  geographicos 
para  escolas  elementares,  por  Cari  Chun  (  Berlim) ; 
La  Ropublica  Argentina  y  Chile  ante  el  Arbitro  ; 
Partes  Officiaes  e  Documentos  srelativo  a  la  guerra 
de  la  independência  Argentina  pelo  sócio  Dr.  Ma- 
riano Pelliza  ;  Revista  do  Archivo  do  Municipio  da 
Capital  da  Bahia  ;  Guia  Policial^  pelo  Dez.  Cardoso 
da  Cunha  ;  Discurso  do  Dr.  António  Cândido  por 
occasião  do  4.*  centenário  do  Brazil  na  cidade  do 
Porto  ;  Noticias  e  documentos  para  a  historia  de 
Damão  ;  Revista  do  Instituto  Agronómico  e  Indus- 
trial da  Bahia,  vol.  1*. 

Pelo  Dr.  Manuel  Freire  de  Carvalho,  duas  pho- 
tographias  commemorativas  do  enterro  do  Cons.  Al- 
meida Couto  e  da  missa  do  Dr.  Augusto  A.  Gui- 
marães. 

Pelo  sócio  Cons.  Carneiro  da  Rocha,  carta  geral 
da  costa  do  Brazil,  indicando  os  pharoes  e  pha- 
roletes  em  1888. 

Pelo  secretario  geral  da  Academia  de  Sciencias 
de  Lisboa,  Cartas  de  Aífonso  de  Albuquerque,  2 
vols.  ;  Trabalhos  Náuticos  dos  Portuguezes,  2  vols.; 
Padrões  dos  descobrimentos  portuguezes  em  Africa; 
Elogio  de  Latino  Coelho;  Relatório  da  sessão  da 
mesma  Academia  em  1898. 

—Em  Agosto  e  Setembro: 

Annuario  da  Escola  Polytechnica  de  S.  Paulo  para 
o  anno  de  1901  ;  Relatório  dos  trabalhos  do  Tribu- 

R,  21 


162 


nal  de  Appellaçào  e  Revista  da  Bahia  em  1900  ;  Re- 
vista da  sociedade  de  Ethnographia  e  Civilisação  dos 
Índios  (S.  Paulo)  n.  1,  1901  ;  Jornal  dos  Agricultores 
(  Rio )  1901;  Revista  do  Commercio  (Rio)  1901  ;  Bo- 
letin  de  la  Officina  Nacional  de  iníiníiigracion,estadis- 
tica  y  propaganda  geographica,  (  Bolivia )  anno  1, 
1901 ;  Estudo  descriptivo  das  estampilhas  fiscaes, 
pelo  engenheiro  Victor  Maria  da  Silva  (  Pará  )  1901 ; 
Mensagem  dirigida  ao  Congresso  legislativo  do  Pará 
pelo  Dr.  Augusto  Montenegro ;  Revista  do  Archivo 
Publico  Mineiro  ;  Revista  do  Instituto  Histórico  de 
S.  Paulo.  vol.  5.',  1900. 

—  Em  Outubro  e  Novembro  : 

Boletim  do  Museu  Paraense,  vol.  3  •,  1901  ;  Calen- 
dário Perpetuo,  por  Adolpho  Amaral  Lisboa;  Um 
bloco  de  carvão  de  pedra  da  Bohemia  ;  Relatório  das 
secretarias  de  Agricultura  e  Fazenda  do  Estado  da 
Bahia,  em  1900;  A  Questão  das  Philippinas,  pelo  Dr. 
J.Branner;  A  Maçonaria  (Bahia)  anno  1.',  1901  ; 
Cartas  de  Pariz  pelo  Dr.  Manuel  Victorino,  Bahia, 
1901  ;  Álbum  das  aves  amasonicas,  organisado  pelo 
Dr.  E.  Goeldi,  director  do  Museu  do  Pará;  Relatório 
do  Intendente  Municipal  da  Bahia,  Dr.  José  Eduardo 
Freire  de  Carvalho,  em  1901  ;  Revista  Agricola, 
órgão  da  sociedade  de  Agricultura,  anno  1*,  1901; 
Boletim  da  Academia  Brazileira  de  Lettras,  1897 
a  1901. 

Pelo  sócio  Cons.  1.-  secretario,— Parecer  apre- 
sentado pelo  engenheiro  Miguel  Argollo  no  con- 
gresso de  engenharia  e  industria,  commemorativo 
do  4.*  centenário  ;  A  Giria  Portugueza  por  Alberto 
Bessa;  A  Giria  Brazlieira  por  J.  T.,    Bahia,  1899. 

Pelo  sócio  Dr.  Virgilio  Cardoso  de  Oliveira,  se- 
cretario do  Interior  do  Estado  do  Pará,  155  vols., 
entre  os  quaes  :  L'Etat  du  Pará,  Explorações  pelo 


163 


engenheiro  Henrique  Coudreau,  As  Regiões  Àma- 
zonicas,  A  Escola  ( Revista  OfBcial  do  Ensino )  , 
Motins  Politicos  do  Dr  Rayol,  Album  do  Pará, 
Pará  e  Amazonas  (  questão  de  limites ) ,  Relató- 
rios e  Mensagens. 

•  -Em  Dezembro : 

O  Tupy  na  Geographia  Nacional,  pelo  Dr.  Theo- 
doro  Sampaio ;  Uma  pelle  de  veado  branco  encon- 
trado nas  mattas  da  Villa  de  Jequié  (Bahia);  Mo- 
nographias  sobre  a  herva  matte,  o  café,  a  cultura 
das  plantas  textis,  a  industria  pastoril,  o  aperfei- 
çoamento da  canna  de  assucar,  pela  Directoria 
da  Sociedade  Nacional  de  Agricultura  ;  João  Ca- 
boto e  a  descoberta  da  Terra  Nova ;  Revista  do 
Grémio   Litterario  da  Bahia,  vol.   1.-. 

Pelo  Dr.  José  Félix  da  Cunha  Menezes,  duas  moe- 
das antigas  gregas. 

Pelo  sócio  Cons.  Manoel  da  Cunha  Lopes  e  Vas- 
concellos, — Um  estadista  no  Império  ( Nabuco  de 
Araújo,  e  sua  época  )  3  vols. 

Pelo  litterato  bahiano  Xavier  Marques,  os  seus 
romances  JannaeJael  (Praieiros)  ,  Boto  &  Comp., 
Holocausto  e  Insulares,  e  vários  manuscriptos,  có- 
pia de  diversas  poesias  do  iilustre  latinista  ba- 
hiano Professor  Guilherme  Baldoino  Embirussú 
Camacan. 


NECROLOGIA 

Viscofliie  de  Parãyuassfi 

O  decano  dos  jornalistas  brazileiros 

Falleceu  no  dia  25  de  Junho  ultimo, em  Hamburgo, 
onde  residia  ha  longos  annos,  o  venerando  brazileiro, 
cujo    nome  encima  estas  linhas. 

Não  nos  sendo  possível,  numa  simples  noticia 
necrologica,  dizer  minuciosamente  quem  foi  o  vis- 
conde de  Paraguassú,  limitar-nos-emos  a  traçar- 
Ihe  a  summula  biographica,  salientando  os  princi- 
paes  feitos  que  lhe  hão  de  valorisar  para  sempre 
a  benemérita  memoria. 

O  Dr.  Francisco  Moniz  Barretto  de  Aragão  Me- 
nezes, visconde  de  Paraguassú,  nasceu  neste  Es- 
tado a  11  de  Agosto  de  1813. 

Era  filho  do  commendador  Salvador  Moniz  Bar- 
retto de  Aragão  Menezes,  barão  de  Paraguassú,  e 
de  sua  mulher  D.  Thereza  Clara  Vianna  Muniz  de 
Aragão,  baroneza  do  mesmo  titulo,  filha  do  Dr. 
Francisco  Vicente  Vianna,  barão  do  Rio  de  Contas, 
primeiro  presidente,  na  ordem  chronologica,  da 
então  provincia  da  Bahia. 

Seus  avós  paternos  foram :  o  capitão  mór  Antó- 
nio Moniz  B.  de  Aragão  e  Menezes  e  D.  Luiza 
Zeferina  Coelho  Ferreira,  filha  do  famoso  Mestre 
de  Campo  Luiz  Coelho  Ferreira,  da  illustre  Casa 
de  Balsemão  e  um  dos  homens  mais  conceituados 
e  esmoleres  da  Bahia,  no  século  XVIII. 


166 


Na  longa  lista  dos  seus  antepassados,  pertencen- 
tes á  mais  antiga  nobreza  de  Portugal  e  Hespanha, 
constituida  no  fragor  das  batalhas  e  nas  vicissitudes 
heróicas  dos  grandes  descobrimentos,  salientare- 
mos de  passagem  : 

Dom  Egas  Muniz  o  symboio  da  Honra,  celebri- 
sado  pelo  rei  dos  poetas  portuguezes  nos  Luziadas; 
Dom  Jayme  Moniz,  que,  postado  em  uma  das  portas 
de  Lisboa,  impediu  sosinho  a  entrada  das  tropas 
inimigas  ;  Dom  Balthazar  de  Aragão,  Alcaide  Mór 
da  Bahia,  que,  ás  suas  custas,  construiu,  armou  e 
equipou  galeões  de  guerra  para  varrer  dos  mares 
brazileiros  a  armada  hoUandeza,  desapparecendo 
mysteriosamente  no  alto  mar  ;  Almirante  Salvador 
Correia  de  Sá  e  Benevides,  3  vezes  governador  do 
Rio  de  Janeiro,  um  dos  vultos  legendários  da  His- 
toria Pátria,  terror  das  caravellas  de  Hollanda  e 
um  dos  restauradores  da  Cidade  da  Bahia  em  1625  ; 
Dom  Francisco  Barretto  de  Menezes,  governador 
geral  do  Brazil,  o  inolvidável  heroe  das  batalhas 
dos   Guararapes. 

Descendente  d'aquelles  que  não  sabiam  regatear 
o  imposto  do  sangue  nos  campos  de  batalha  e 
cuja  fortuna  e  haveres  foram  a  todo  instante  sa- 
crificados em  prol  da  Pátria,  que  collocavam  acima 
de  tudo  e  de  todos,  o  Visconde  de  Paraguassú 
procurou  sempre  durante  a  sua  longa  e  benéfica 
existência  honrar  ciosamente  tão  nobilitantes  tra- 
dições. 

Educado  na  Allemanha,  onde  ouviu  os  mais  ce- 
lebres Mestres,  recebeu,  em  1836,  na  Universidade 
de  Heidelbrg  o  grau  de  Doutor  em  Sciencias 
Jurídicas  e  Sociaes,  merecendo  ser  approvado,  em 
these,  com  a  nota  de  distincção  e  louvor. 

Regressando  ao  Brazil,  tentou,  com  os   mais  ar- 


167 


duos  esforços,  dignos  de  melhor  sorte,  moder- 
nisar  os  processos  da  lavoura  de  canna  e  da  in- 
dustria assucareira. 

Desanimado,  porém,  pela  incurável  apathia  dos 
seus  patricios  que  o  alcunhavam  de  utopista,  vol- 
tou para  a  Allemanha,  depois  de  publicar  uma 
interessante  obra  :  «Manual  do  Fabricante  de  As- 
sucar»,  offerecido  aos  proprietários  de  Engenhos 
e  aos  mestres  de  assucar  da  Bahia. 

Esta  obra.  f^  primeira  no  género,  publicada  em 
lingua  portugueza,  foi  impressa  em  Pariz  natypo- 
graphia  de  W.  Remquet  &  Comp. 

Distribuida  gratuitamente,  em  ampla  copia  de 
exemplares,  trazia  31  lithographias  de  apparelhose 
machinas  destinadas  á  industria  assucareira. 

«Feliz  de  mim,  se  algum  dia  se  podesse  dizer 
que  cooperei  para  o  melhoramento  da  industria  do 
meu  paiz  e  que  nào  passei  sobre  esta  terra,  sem 
pagar  o  meu  tributo  á  sociedade»,  escrevia  elle  no 
prefacio. 

Foi  o  Visconde  de  Paraguassú,  não  ha  negal-o, 
o  iniciador  da  moderna  industria  assucareira  no 
Brazil. 

Aos  seus  conselhos,  a  antiga  casa  allemã  F. 
Hallstroem  de  Nienburg  construiu  não  só  os  pri- 
meiros apparelhos  modernos  para  a  fabricação  e 
refinação  do  assucar,  como  mandou  imprimir*  e 
distribuir  gratuitamente  um  tratado  sobre  os  pro- 
cessos dessi  industria,  dedicando-o,  a  pedido  do 
mesmo  Visconde,  ao  a  Centro  da  Industria  e  Com- 
mercio  de  assucar  no  Rio  de  Janeiro  »  . 

Convém  mais  assignalar  que  a  primeira  turbina 
e  o  primeiro  vácuo  montados  no  Brazil  o  foram  a 
esforços  do  Visconde  de  Paraguassú,  ainda  exis- 
tindo essas  reliquias  do  trabalho  no  Engenho    Vi- 


168 


ctoria  Paraguassú,  naquella  época  propriedade  do 
Comm.  Egas  Muniz  B.  de  Aragão,  irmão  do  fal- 
lecido. 

Além  da  interessante  monographia  acima  citada 
escreveu  e  publicou  :  «  Informações  sobre  a  posi- 
ção commercial  dos  productos  do  Brazil  em  Ham- 
burgo; Navegação  e  Commercio  entre  o  Brazil  e 
Hamburgo». 

Foi  um  dos  fundadores  da  Escola  Agrícola  da 
Bahia  e  um  dos  mais  assiduos  collaboradores  d'0 
Século,  orgam  liberal  que  se  editou  nesta  Capital, 
no  meiado  do  século  passado. 

Os  seus  numerosos  artigos  denotavam  a  mais 
solida  erudição  e  o  mais  extrenuo  patriotismo.  Fos- 
sem elles  cí^lleccionados  e  dariam  volumes,  onde 
se  encontrariam  copiosas  licçôes  de  educação  ci- 
vica,  hoje  quasi  olvidada. 

O  visconde  de  Paraguassú  era  por  consequência 
o  glorioso  decano  dos  jornalistas  brazileiros,  que 
nelle  perdem  um  dos  mais  bellos  padrões  de  ci- 
vismo e  de  illustração. 

Collaborou  em  diversos  jornaes  allemães,  sempre 
defendendo  o  Brazil  contra  os  ataques  de  certos 
jornalistas  e  diplomatas  mal  informados. 

Mal  surdia  uma  noticia,  um  artigo,  um  telegram- 
ma  que  lhe  parecia  melindrar  o  brio  dos  brazilei- 
ros, pegava  logo  da  penna  e,  na  própria  lir.gua  dos 
atacantes,  que  manejava  com  mão  do  mestre,  fazia- 
os  calar,  ora  com  a  lógica  de  factos  positivos,  ora 
com  a  armado  ridículo,  attrahindo  desfarte sobre 
os  articulistas  contrários  a  gargalhada  do  publico. 

Serviços  desta  ordem  são  bem  raros  e  louváveis, 
maxime  quando  o  brazileiro  que  vae  á  Europa,  em 
geral,  cuida  mais  em  divertir-se  do  que  em  ser  útil 
á  sua  pátria,  alcançando  por  isso  as  honras  do  palco 
das  revistas,  sob  a  figura  grotesca  do  rastaquoére. 


169 


Nomeado  pelo  governo  imperial  para  o  espinhoso 
cargo  de  cônsul  geral  do  Brazil  em  Hamburgo, 
soube  honral-o  dur3nte  cerca  de  40  annos  de  ines- 
timáveis serviços,  merecendo  as  commendas  da 
Ordem  da  Rosa,  de  Christo  e  os  titulos  de  barão 
e  visconde  de  Parat^uassú. 

Tão  criteriosa  e  benéfica  foi  a  sua  attitude  nas 
relações  entre  os  governos  allemão  e  brazileiro  que, 
por  intermédio  do  imperador  Guilherme  I,  foi  agra- 
ciado com  a  commenda  da  Ordem  badense  do  Leão 
de  Zachringue  e  outras  mais. 

Gosava  na  corte  imperial  allemã  de  tal  conceito, 
que,  por  occasião  de  ser  inaugurado  o  Canal  de 
Kiel,  o  actual  imperador  o  coliocou  á  sua  direita 
indicando-lhe  um  dos  logares  de  honra,  durante  o 
grande  banquete  en^ào  realisado  em  Hamburgo. 

Essa  distincção  foi  tanto  mais  sensivel  ao  velho 
brazileiro  quanto  já  não  occupava  nenhum  cargo 
ofiicial. 

Quando  se  fez  a  proclamação  da  Republica  em 
15  de  Novembro  de  1889,  o  visconde  de  Paraguassú 
foi  o  um  dos  raros  que  tiveram  vergonha  de  adherir 
com  desembaraço  e  rapidez  açodados  com  que 
muita  gente  se  atropeilou,  agarrando-se  á  Repu- 
blica nascente,  como  se  agarraria  â  qualquer  cousa 
que  apparecesse  e,  que  soubesse,  vencer  ». 

Dois  dias  depois,  mandava  pedir  por  telegramma 
a  sua  exoneração  do  cargo  de  cônsul  geral,  que 
lhe  foi  logo  concedida,  sendo  então  aposentado, 
depois  de  perto  de  40  annos  de  serviço,  com  a 
quantia  de  cem  mil  réis  mensaes! 

Costumava  referir-se  ás  vezes,  na  intimidade,  a 
essa  munificência  do  novo  governo  com  a  seguinte 
phrase  :  «  Si  eu  não  houvesse  herdado  alguma 
cousa,  estaria  hoje,  em  avançada  idade,   e    depois 


170 


de  tantos  annós  de  serviço  á   Patríji,  era  bem  frios 
lençoes  »  I 

E  acrescentava  com  resignação  evangélica:  «Não 
me  queixo,  mas  acho  singular  que  outros  muito 
mais  moços  e  com  menos  serviços  do  que  eu,  per- 
cebendo pingues  ordenados,  bradem  tanto  contra 
a  sorte.  Si  males  alheios  podem  consolar,  deve- 
riam olhar  para  as  condições  em  que  fiquei  collo- 
cado» 

Que  luminoso  contraste  com  alguns  dos  nossos 
funccionarios  públicos  contemporâneos,  enricados 
da  noite  para  o  dia,  á  custa  do  erário  da  Nação, 
tão  mysteriosamente  canalisado  para  as  famélicas 
algibeiras,  aos  olhos  esbugalhados  do  Povo  que 
paga  tudo  e  se  cala. 

De  hábitos  excessivamente  modestos,  a  sua  resi- 
dência, á  rua  Innocentiastrasse  em  Hamburgo,  rea- 
lisava  a  mais  decente  simplicidade. 

O  homem  que  mandava  reproduzir  por  pintores 
notáveis  os  retratos  de  D.  Francisco  Barreto  de 
Menezes  e  do  almirante  Correia  de  Sá  e  Benevides; 
o  homem  que  pagava  a  riquíssima  tela  represen- 
tando Cathaiina  Paraguassú,  e  ofiFerecia  depois 
estes  quadros  á  Camará  Municipal  da  Bahia,  onde 
hoje  se  encontram;  o  homem  que  tantas  dadivas 
valiosas  enviou  á  Escola  Agricola  deste  Estado  ; 
esse  homem  dormia  numa  alcova,  ao  lado  da  qual 
a  cella  mais  austera  de  um  monge  nada  tinha  a 
desejar. 

De  uma  generosidade  fidalga,  nunca  negou  a  sua 
bolsa  e  os  seus  conselhos  a  todos  os  brazileiros 
que  visitavam  Hamburgo,  onde  constituia  uma  das 
figuras  mais  queridas,  não  só  da  alta  sociedade, 
como  do  povo,  que  se  descobria  quando  o  via  pas- 
sar, como  si  avistasse  a  encarnação  da  Honra,  do 
Dever  e  da  Caridade. 


171 


As  suas  idéas,  quer  politicas,  quer  .económicas 
foram  sempre  do    mais  criterioso  liberalismo. 

Richard  Cobden,  John  Roussel  e  Gladstone  en- 
contraram no  benemérito  brazileiro  um  fervoroso 
discipulo  que,  apezar  de  nobre,  sempre  se  conser- 
vou separado  por  um  abysmo  dos  innumeros  pseu- 
do democratas  aurifamintos  e  cynicos — principaes 
factores  da  infelicidade  deste  bello  paiz. 

Apesar  da  sua  avançada  edade,  conservou  até  os 
últimos  dias  o  perfeito  equilibrio  das  faculdades  men- 
taes,  como  o  demonstram  as  suas  cartas,  cuja  ul- 
tima, escripta  em  maio  próximo,  èum  poema  de  dor 
e  desespero  em  face  do  lastimável  estado  actual  da 
pátria  brazileira  que  tão  ardentemente  idolatrava. 

Terminando  esta  incompleta  noticia,  enviamos  as 
nossas  condolências  á  Pátria,  ao  jornalismo  brazi- 
leiro, e  á  illustre  familia  do  benemérito  Visconde 
de  Paraguassú,  representada  neste  Estado  nas  pes- 
soas do  Dr.  Francisco  Moniz  B.  de  Aragão,  Barão 
de  Mataripe,  Dr.  Egas  Moniz  B.  de  Aragão,  En- 
genheiro Francisco  Moniz  B.  de  Aragão  Júnior,  e 
Dr.  Guilherme  Moniz  B.  de  Aragão,  pela  grande 
perda  que  acabam  do  soffrer,  e  apontamos  ás  ge- 
rações brazileiras  presentes  e  futuras  a  elevada  per- 
sonalidade do  grande  bahiano,  com  o  imperecivel 
exemplo  do  mais  nobre  e  verdadeiro  civismo  e  da 
mais  inflexivel  coherencia  politica  de  todas  as  épo- 
cas da  nossa  vida  nacional. 
(  Extr.  d'A  Bahia,  ) 


NOTAS  E  INFORMAÇÕES 

Com  o  titulo  Instituto  Histórico  escreveu  o  illus- 
tre  jornalista  Henrique  Cancio,  no  Diano  da  Bahia, 
o  artigo  que  se  segue,  a  propósito  de  um  benefi- 
cio promovido  pela  Mesa  Administrativa. 

Instituto   Histórico 

c(  Um  bello  dia,  homens  illustres  pelo  saber  e 
virtudes  civicas  resolveram  construir  uma  arca  sa- 
grada, onde  se  guardassem  as  taboas  da  lei,  das 
tradições,  a  chronica  e  a  legenda  do  passado  da 
Bahia. 

E  se  ergueu  de  novo,  da  minaria  augusta  de 
quasi  meio  século,  em  cujas  muralhas  partidas  e 
derrocadas  fulgiam  os  nomes  de  D.  Romualdo  e 
de  frei  Carneiro,  o  actual  Instituto  Histórico  e 
Geographico  Bahiano, 

E'  um  archivo  venerável,  onde  mãos  sagradas  e 
bemditas  têm  procurado  armazenar  documentos 
que  relembram  façanhas  altas,  o  fulgor  mental,  a 
structura  spartana  desta  terra. 

Esta  obra,  em  cuja  paciente  e  benemérita  edifi- 
cação empenham-se  o  amor  da  tradição,  o  culto 
dos  grandes  nomes  e  dos  grandes  feitos  desta  por- 
ção da  pátria,  merece  o  apoio,  o  applauso,  a  effe- 
ctividade  do  concurso  de  todos  os  bahianos,  de 
todos  os  brazileiros,  emfim. 

Existisse  o  Instituto,  na  época  em  que  presidia 
a  província,  sob  o  segundo  reinado,  o  sr.  marquez 
do  Paranaguá,  e  a  Bahia  não  seria  despojada  do 
melhor,  do  mais  precioso  de  seus  archivos. 

Despojaram-n'a,  para  uma  exposição  de  historia 


173 


egeographia  com  que  o  imperador  procurou  doirar 
a  sua  passagem  no  throno. 

Alfaias  e  maau?cn|»t«>s,  tudo  que  positivasse  uma 
época,  tudo  porque  se  podesse  aferir  o  esplendor  do 
passado,  foi  trancado  na  Bibliotheca  Nacional  ;  e 
egotistas  houve  que,  para  a  sua  riqueza  pessoal 
bibliographica  e  de  autographos,  guardaram,  indi- 
gnamente furtados,  documenios  como  a  Ode  de 
José  Bonifácio,  pelo  seu  próprio  punho,  agradecendo 
a  Bahia  o  consolo  que  lhe  levou  no  exilio,  elegendo-o 
seu  representante  no  parlamento. 

Pois  bem,  sob  a  Republica,  ao  impulso  da  bôa 
vontade  e  da  nobreza  de  sentimentos  de  eminentes 
patriotas,  fundou-se  o  Instituto  que,  Deus  louva- 
do, dia  a  dia  se  vae  tornando  um  repositório  ri- 
quíssimo do  passado  deste  pedaço  de  continente, 
de  onde  irradiaram  as  bandeiras  da  conquista,  os 
apóstolos  da  catechese,  deste  trecho  da  America 
que  é  o  berço  e  a  mesquita  sagrada  da  familia 
brazileira. 

O  que  é  preciso,  o  que  urge  é  que  todos  ampa- 
rem e  protejam  esse  grande  commettimento.  » 


(  Henrique  Cancio.  ) 


BRAZIL  PREHISTORICO 

MEMORIAL  ENCYCLOCRAPHICO 

Muito  curioso  o  livro  que  o  Sr.  Cónego  Ulysses 
de  Pennafort,  do  Ceará,  acaba  de  publicar  e  que 
teve  a  bondade  de  oíferecer  ao  Instituto  um  vo- 
lume, pedindo  que  lhe  fosse  remettido  o  numero 
da  Revista  em  que  déssemos  noticia  do  seu  rece- 
bimento. 

O  autor  é  um  sacerdote,  e,  como  tal,  sectário 
convicto  da  origem  monogenista  do  homem  segundo 
a  Biblia,  cujas  asseverações— desde  os  dias  da 
creação,  paraiso  terreal,  quedado  primeiro  homem 
até  a  confusão  das  linguas  em  Babel  sustenta  com 
ardor. 

Mas  não  é  somente  isso  que  torna  curioso  o  Me- 
morial Encyclographico:  équeo  seu  autor,  mostran- 
do conhecer  a  moderna  theorii  scientiflca  sobre  a 
origem  da  terra  e  do  homem,  mostrando  conhecer 
Lamark,  Darwin  e  Huxley,  harmonisa-a  com  a 
narração  biblica  e  nos  apresenta  a  civilisação  egy- 
pcia  irmã  de  uma  outra  que  existiu  na  America, 
cujo  solo  regorgita  de  monumentos  imponentes 
que  aattestam;  oriundas  as  duas  da  elevada  cultura 
dos  povos  da  Atlântida  que  fundaram  e  povoaram 
o  Egypto,  como  povoaram  a  America  continental  II 

Essas  civilisações,  continua  o  ethnologo  cea- 
rense, extinguiram-se  com  o  cataclysma  que  ex- 
tinguiu a  Atlântida  e  então,  uma  outra,  a  phenicia- 
carthaginesa  atravessa  o  Atlântico  e  recivilisa  a 
America,  onde  «levanta  soberbos  monumentos  cujas 


175 


minas  vão  se  descobrindo  paulatinamente,  exis- 
tindo aqiii  traços  inextinctos  de  mongoes,  celtas, 
judeus  e  púnicos  o  1  1 

Considera  ainda  o  autor  do  Eneyclographico  a 
lingua  tupi  como  a  lingua  primitiva  da  humanidade 
e,  singularidade  notável,  em  nota  á  pagina  6  apre- 
senta-nos  essa  lingua  prímitwa — oriunda  do  hebrai- 
co e  affim  do  sanskrito  e  do  grego  I 

O  Sr.  de  Pennafort  falia,  portanto,  ex-cathedra 
em  seu  livro  de  tudo  isso  ;  e,  sobre  as  intricadas 
questões  da  origem  do  homem,  raças,  civilisações 
etc,  etc,  não  tem  mais  duvida  alguma,  resoive-as 
com  as  doutrinas  e  conclusões  q  ue  acabamos  de 
summariar. 

E',  portanto,  curiosissimo  o  livro  que  nos  veio 
do  Ceará  e  cuja  remessa  agradecemos  ao  seu  eru- 
dito autor. 


IMPORTANTE  DOCUiVlENTO 

«Dá-nos  a  Republica,  da  Fortaleza,  noticia  de 
que  na  ultima  sessão  da  Academia  Cearense  o  Sr. 
barão  de  Studart  communicou  a  acquisição  feita 
pelo  conhecido  livreiro  inglez  Bernard  Quaritch 
(Julho  de  1901  )  de  um  documento  de  verdadeiro 
valor  principalmente  para  os  estudiosos  da  histo- 
ria do  dominio  holandez  no  Brazil. 

Trata-se  de  um  manuscripto  de  Hessel  Gerritsz, 
e  com  desenhos,  contendo  extractos  de  jornaes 
inéditos  e  perdidos  de  viagens  emprehendidas  ao 
Brazil  por  Jan  Baptiste  Syens  (1600),  Claes  Adrian- 
sen  Cluyt  (1610),  Rincke  Pieters  (1626),  Dirk  Sy- 
monsen  e  outros. 


176 


Com  relação  ao  Ceará  ha  muito  que  aproveitar 
no  precioso  manuscripto,  porquanto  elle  encerra 
também  noticias  e  informações  colhidas  por  Kilian 
Van  Rensselaer  da  booca  de  naturaes  do  Brazil, 
como,  por  exemplo,  Gaspar  Paraupaba  e  André 
Francisc(s  que  Hessel  Gerritsz  diz  serem  ca/i  Siara 
e  que  figuram  ao  lado  de  outros  indigenas  como 
Pedro  Poti  (da  Bahia  da  Traição),  António  Quixa- 
vassana,  António  Francisco,  ele. 

O  livreiro  londrino  pede  pele»  documento  42  li- 
bras que  equivalem  hoje  a  cerca  de  um  conto  de 
réis. 

Noticiando  essa  nova  acquisição,  que  por  certo 
virá  aclarar  pontos  obscuros  da  nossa  historia,  o 
Sr.  barão  de  Sludart  chamou  a  attenção  dos  seus 
confrades  para  a  maneira  como  graphava  Gerritsz 
em  1627—  29  a  palavra  Siara,  assumpto  sobre  que 
estão  escrevendo  no  momento  presente  vários  dos 
nossos  homens  de  lettras.» 

(Extr.  do  Diário  do  Rio  Grande  de  Outubro  de 
1901.) 


Os  Carbooatos  nas  Lavras  Oiamaotioas 

Em  1895,  publiquei  no  Correio  de  Noticias,  uma 
ligeira  descripçâo  sobre  o  grande  carbonato  appa- 
recido  na  2.*  companhia  de  Mineração  das  Lavras 
Diamantinas,  no  Brejo  da  Lama  ;  descripçâo  que 
tive  a  felicidade  de  ver  aproveitada  na  nossa  Re- 
vista do  Instituto  Geographico  e  em  um  dos  jor- 
naes  de  Pariz. 

Não  ha  muito,  lendo  o  primoroso  trabalho  do 
Deputado  Federal— Dr.  Aristides  Milton— Epheme- 
rides  Cachoeiranas  »,  vi  cora  admiração  e  prazer  as 


177 


referencias  sobre  factos  das  Lavras  Diamantinas 
desde  a  sua  feliz  descoberta  até  a  noticia  do  grande 
carbonato  a  que  me  referi  e  que  encheu  de  admira- 
ção aos  habitantes  das  Lavras,  á  toda  esta  cidade 
e  até  á  Europa,  conforme  se  vê  na  Reoue  des  Be- 
Dues  do  mesmo  anno. 

N'esta  capital  esteve  elle  exposto  por  longos  dias 
na  joalheria  dos  Srs  Kahn  &  C,  onde  foi  apre- 
ciado a  ponto  de  inieressar-se  um  distincto  cida- 
dão pelo  seu  formato  em  prata  massiça,  obra  de 
lavor  vinda  de  Pariz,  e  offerecida  ao  Instituto  por 
sua  digna  esposa,  já  quando  elle  houvera  sido  ines- 
peradamente roubado  do  seio  dos  vivos  e  á  sua 
pátria  que  muito  perdera  com  o  seu  desappare- 
cimento. 

Lá  no  museu  do  Instituto  está  esta  preciosidade, 
para  attestar  a  riqueza  e  superioridade  de  nossas 
minas  e  o  incitamento  aos  nossos  ousados  minei- 
ros, para  as  constantes  tentativas  contra  antigas 
montureiras  e  areiaes  desprezados,  onde  jazem  im- 
inensas  riquezas  e  que  só  com  muita  coragem  e 
grandes  capitães,  poder-se-hia  conseguil-as. 

Já  57  annos  são  passados,  e  os  nossos  proces- 
sos de  trabalho  de  mineração  são  quasi  os  mes- 
mos com  pequena  modificação;  entretanto  as  Lavras 
lêm  sido  visitadas  sempre  por  grande  numero  de 
estrangeiros,  alguns  dos  quaes  lôm-se  fanatisado 
por  ellas.  Engenheiros  de  alto  valor  scientifico, 
vindos  expressamente  vèl-as,  ali  estudaram  os  ter- 
renos e  suas  conformações,  a  possança  das  jazidas 
e  escreveram  relatórios  que  correm  mundo,  nos 
quaes  proclamam  a  superioridade  de  nossas  mi- 
nas, principalmente  pela  abundância  do  carbonato, 
salientando  sempre  que  os    nossos    processos    são 

todos  primitivos. 
R.  23 


178 


Levados  por  esso  fanatismo,  os  Srs.  Jacob  e 
Chatrian,  cidadãos  francezes,  escreveram  bella  mo- 
nographia  sobre  o  diamante,  que  muito  vale  para 
os  créditos  das  nossas  Lavras. 

Ainda  ha  pouco,  tivemos  a  felicidade  de  vêr  ali 
engenheiro  habilitado,  que  pretende  formar  um  bom 
syndicato  para  explorar  as  riquezas  do  Mar  de  Hes- 
panha,  e  oxalá  que  elle  em  breve  tempo  esteja  des- 
viando as  aguas  do  Paraguassú,  para  extrahir  as 
tão  proclamadas  riquezas  ali  existentes  I 

Filho  d*aquella  terra,  encho-me  de  orgulho  quan- 
do vejo  commettimentos  d'essa  ordem,  que  virão 
trazer  para  aquellas  paragens  riquezas  e  progresso. 

Pudessam  os  habitantes  das  Lavras  gosar  de  fa- 
cilidade de  transporte  e  de  communicação  fácil  para 
o  seu  commercio;dispuzessem  de  machinismos  apro- 
priados para  os  misteres  de  suas  lavras  e  muito  se 
poderia  esperar  d'aquella  prospera  terra,  onde  for- 
tunas tôm-se  levantado  de  um  dia  para  outro,  e 
também  desapparecido  nas  mesmas  circumstancias. 

Não  é  raro,  vôrem-se  rochas  engastadas  de  pedras 
a  modo  de  amendoim»conhecidas  nd^giria  por  pedras 
em  rochas  de  mundubi,  nas  quaes  devem  existir 
diamantes  e  carbonatos,  tal  qual  se  encontra  o 
ouro  nos  cristaes  ou  em  pedras  outras  como  acon- 
tece em  Minas  Geraes. 

A  prova  é  que,  agora  mesmo,  acabamos  de  presen- 
ciar uma  originalidade,  digna  de  ser  apreciada  por 
quantos  têm  amor  ao  estudo  doesse  ramo  de  ser- 
viço. 

Nas  proximidades  dos  Lençoes,  na  Serra  da  Es- 
trella  do  Céo,  caminho  do  Capão  Grande,  acaba 
de  ser  encontrado  um  carbonato  engastado  n'uma 
d'essas  rochas  mundubis»  que  deve  pesar  mais  ou 
menos  15  kilates,  e  com  muita  habilidade  apanhado 


179 


com  parte  da  pedra,  o  que  lhe  dá  immeiíso  valor, 
sendo  comprado  pelo  capitalista  coronel  Francisco 
de  Mello  por  1:500$000  e  por  elle  remeltido  para 
Pariz,  sem  que  fosse  tal  preciosidade  apreciada 
por  entendidos  e  colleccionadores  d'essas  raridades. 
Era  meu  desej  :>  que  essa  pedra  fosse  desenhada 
tal  qual  continha  o  carbonato,  salientando-se  o 
seu  formato,  afim  de  figurar  como  mais  uma  das 
raridades  das  Lavras  Diamantinas  em  nosso  Insti- 
tuto ;  rnas,  quando  me  decidi  a  falar  com  o  nego- 
ciante, já  era  tarde,  pois  elle  havia-o  remettido 
para  Pariz  e  assim  passou  despercebida  essa  bel- 
leza  para  os  qu*3  apreciam-na,  e  que  muito  converia 
figurar  nos  nossos  museos.  Uma  coasa,  porém, 
aproveitou-se  ! — d'ora  em  diante  os  nossos  ousados 
garimpeiros  não  respeitarão  mais  as  rochas  mun- 
dttbis.  Serviu-lhes  a  lição. 
Bahia,  Maio  de  1901. 

G.  Athayde  Pereira. 


à descoberta  da  America  pelos  chlnezes 

Lemos  o  seguinte  em  uma  correspondência  de 
Pariz  : 

«Os  chinezes,  antes  de  se  immobilisarem  por 
detraz  da  muralha  celebre  e  antes  de  se  terem 
mandarinisado,  em  bocaes  de  porcellana,  foram 
grandes  navegadores  e  descobridores  de  paizes 
distantes,  como  os  portuguezes  do  século  XV. 

Sabe-se  hoje  que  os  chinezes  estiveram  nas 
ilhas  da  Malásia,  nas  margens  do  oceano  indico  e 
em  todo  o  golpho  pérsico.  E  ainda  mais,  os  chi- 
nezes, que  descobriram  a  bússola  e  o  compasso, 
visitaram  a  Europa  cinco  séculos  antes  de  Jesus 
Christo^  e  parece    (segundo  um    documeuto  agora 


180 


descoberto  em  Pekin)  que  por  essa  mesma  época 
tinham  andado  pelas  Antilhas  e  abordado  muitos* 
logares  da  America  do  Norte  e  do  Sul. 

Ha  muito  tempo  que  se  desconfiava  isso  mesmo, 
porque  os  hábitos  e  costumes  dos  mexicanos  tôm 
similhanças  extraordinárias  com  os  dos  campo- 
nezes  da  China.  Os  Índios  do  centro  do  México 
construem  as  suas  casas  da  mesma  maneira  que 
os  chinezes  das  regiões  das  montanhas. 

E  as  lettras  ou  hieroglyphicos  dos  Índios  Yu- 
catan  do  México  são  completamente  idênticos  aos 
caracteres  figurados  da  escripta  chineza.  Ha  mesmo 
tribus  de  indios  no  interior  do  México  que  possuem 
um  idioma  monosyllabico  similhante  á  lingua 
chineza.  Um  naturalista  americano,  o  Dr.  Saville, 
descobriu  na  Re[)ublica  de  Honduras  taboas  de 
pedra  com  inscripções  e  caracteres  mongólicos. 

No  fundo  das  ruinas  do  palácio  de  Montezuma, 
na  capital  do  México,  ehcontraram-se  pedaços  de 
jaspe  das  montanhas  do  Thibet.  O  celebre  pro- 
fessor francoz  e  archeologo  notável  o  sr.  Henry 
provou  que  ha  grandes  relações  entre  os  naturaes 
de  varias  regiões  da  America  e  os  chinezes.  Os 
habitantes  do  Celeste  Império  seguiram  a  corrente 
maritima  do  Oceano  Pacifico  e  visitaram,  durante 
longas  épocas,  a  Columbia  britannica,a  Calilornia, 
o  México  e  muitas  republicas  da  America  Central 
e  do  Sul. 

Teriam  os  chinezes  descoberto  o  Brazil  antes  dos 
portuguezes?  Eis  uma  questão  a  debater  entre  os 
americanistas. 

Quando,  ha  dois  mezes,  as  tropas  internacionaes 
entraram  em  Pekin  dois  officiaes  francezes  desco- 
briram na  bibliotheca  do  palácio  imperial  o  doeu- 


181 


mento  completo  e  comprovativo  4^s  relações  dos 
chinezes  no  nnno  458  cora  os  povos  do  México,  a 
que  os  sábios  mandarins  chamavam  Fou-Sang. 

O  fac-simile  da  historia  chineza  da  descoberta 
da  America  vae  ser  enviado  para  a  bibliotheca 
publica  de  Pariz. 

Ficou  comprovado  definitivamente  que  foi,  graças 
ao  desenvolvimento  da  civilisação  chineza,  que  as 
civilisações  dos  aztecas  e  dos  inças  chegaram  ao 
apogeu,  quem  sabe,  antes  do  estabelecimento  dos 
hespanhoes  nas  regiões  da  America  latina. 

Quem  sabe  si  no  local  em  que  hoj^  se  encontra 
a  rua  Moreira  César  não  andaram  de  longo  rabicho, 
ha  dois  mil  annos,  milhares  de  chinezes  de  olhos 
recurvos  ? 

Pedro  Alvares  Cabral  posto  no  segundo  plano 
por  qualquer  mandarim  desconhecido  I  Que  de 
mysterios  ainda  a  desvendar  para  o  futuro  I  » 

Porto  da  Bahia 

o  sr.  capitão  de  fragata  CoUatino  Marques  de 
Souza  escreveu  a  seguinte  carta  ao  Jornal  do 
Commercio  : 

«Não  existe  porto  algum  no  mundo  que  possa 
comparar-se,  quer  em  vastidão,  quer  em  segurança, 
quer  finalmente  na  profusão  de  ancoradouros,  cada 
qual  mais  vasto  e  inestimável,  ao  da  Bahia  de 
Todos  08  Santos,  capaz  de  admittir  sem  hyperbole 
simultaneamente  todas  as  esquadras  do  mundo  e 
lodos  os  respectivos  navios  de  suas  marinhas 
mercantes. 

Nem  mesmo  se  lhe  pode  comparar  o  vasto  e 
segurissimo  porto  do  Rio  de  Janeiro,  porque  este 
dispõe  de  uma  área  que  é  pelo  menos  a  metade  da 


182 


daquelle  outro,  e  essa  míismo  tem  dous  terços,  da 
sua  capacidade  empachados  de  bancos  de  aréa, 
que  são  outros  tantos  terrenos  em  formação  em 
consequência  dos  detritos  derivados  da  desaggre- 
gação  das  rochas  circumvisinhas,  e  como  um 
exemplo  ahi  está  a  Bahia  de  Botafogo,  que  tende 
a  desapparecer,  ao  passo  que  áquelle  outro  não 
succede  a  mesma  cousa. 

Em  seu  perimetro  de  mais  de  90  milhas  (ou  em 
números  redondos,  180.000  kilometros)  desaguão 
diversos  rios,  dos  quaes  o  mais  importante  é  o 
Paraguassú,  que  teift  mais  de  600  kilometros  de 
curso,  pois  que  nasce  nas  serras  do  Sincorá  e  das 
Lavras  Diamantinas,  no  Alio  Sertão  da  Bahia,  e 
cujo  estuário,  que  chega  até  a  cidade  de  Mara- 
gogipe  e  a  povoação  de  Igumpe  pode  admittir 
grande  profusão  de  navios  como  se  fora  uma  doca. 

A  extensão  Norte-Sul  desta  bahia  é  de  cerca  de 
35  milhas  ou  quasi  70  kilometros,  desde  a  Ponta 
Garcez  no  continente  e  na  Barra  Falsa,  formada 
por  ella,  e  a  Ponta  de  Cçiixa  Pregos,  no  extremo 
Sul  da  Ilha  de  Itaparica,  tendo  a  distancia  de 
cioco  milhas,  empachadas  por  bancos  de  arèa  que 
offerecem  canaes  de  10  a  12  metros  de  profundi- 
dade, e  a  extensão  Noroéste-Suéste  desde  a  Ponta 
de  Santo  António,  na  Barra  da  Bahia,  atè  a  en- 
trada do  Estuário  do  rio  Paraguassú,  sendo  também 
de  30  milhas,  mais  ou  menos,  ou  60  kilometros, 
pode  calcular-se  por  isso  em  500  milhas  quadradas 
a  extensão  coberta  pelas  aguas  nesta  immensa  e 
profunda  bahia,  e  toda  ella  quasi  totalmente 
accessivel  aos  navios  dos  maiores  calados  de  agua. 

Além  do  vasto  e  seguro  porto  commercial  da 
cidade  ou  de  barlavento,  existe  ainda  alli  o  grande 
e  bello  porio  de  Itopagipe,  propriamente  dito,  para 


188 


cujo  accesso  somente  precisa-se  dragar  ura  pequeno 
trecho  do  canal,  quasi  ao  chegar  ao  porto,  e  ainda 
o  vastíssimo  ancoradouro  da  ilha  de  Itaparica. 
além  da  Ponta  do  Manguinho,  podendo  os  maiores 
navios  atracarão  respectivo  cães,  e  principalmente 
para  a  instituição  de  um  grande  e  inexpugnável 
Arsenal  de  Marinha,  verdadeiro  Sebastopol  Bra- 
zileiro,  o  esplendoroso  porto  da  Bahia  do  Araíã 
a  Leste. 

Ora,  na  costa  da  Bahia  as  tempestades  do  Sul 
são  raras.  Apenas  temos  conhecimento  da  que 
teve  logar  a  19  de  março  de  1817,  que  soprou  coro 
tanta  violência,  que  causou  muitos  desastres  na 
cidade  baixa. 

Entretanto,  quando  sopra  o  vento  Sul  na  quadra 
do  inverno,  ficam  ás  vezes  cortadas  as  communi- 
cações  com  a  terra  e  impedidas  assim  as  cargas 
e  as  descargas,  porque  os  navios  alli  não  atracam 
ás  docas,  por  não  existirem  estas  para  tal  fim. 

Ora,  o  porto  da  Bahia,  si  passasse  pelos  me- 
lhoramentos que  planejamos,  não  só  poderia  asse- 
gurar sempre  iodas  as  transacções  commerciaes, 
e  a  sua  fiscalisação,  como  poderia  melhorar  muito 
a  área  da  parte  plana  do  Norte,  com  o  accrescido 
que  projectamos,  tanto  alli  como  no  extremo  opposto 
e,  o  que  é  mais,  tornar-se-hia  assim  um  porto 
altamente  estratégico,  porque  toda  a  costa  da  ilha 
de  Itaparica,  fronteira  á  cidade,  bem  como  aquella 
que  segue  barra  fora,  são  guarnecidas  de  temerosos 
recifes  de  pedras  calcareas,  cujo  accesso  é  peri- 
gosissimo,  quer  fora  do.  porto,  quer  dentro  da 
barra. 

Pela  disposição  da  ilha  de  Itaparica,  de  cerca 
de  21  milhas  de  extensão  Norte-Sul  sobre  5  a  6 
de  largura,  vô-se  que  a  sua  ponta  Sul  chamada 
CaixaPregos,  e  que,  simulando  a  Poata  de    Santo 


184 


António  da  Barra  da  Bahia,  deu  logar  a  chamar-se 
de  Barra  Falsa,  o  que  não  é  mais  do  que  a  barra 
do  rio  Jaguaripe  prolongada  até  o  mar,  e  contor- 
nando a  parle  sul  da  referida  ilha,  reconheceram 
os  technicos  ser  esse  canal  intrincado  e  profundo 
da  Barra  Falsa  de  10  a  12  melros  de  profundidade, 
como  ficou  dito,  um  poderoso  recurso  estratégico 
para  os  submarinos  e  as  torpedeiras  collocarem 
em  cheque  ou  mesmo  destruirem  os  navios  ini- 
migos, quando  porventura  conseguirem  estes  li- 
vrar-se  do  recife  das  Cramuães  que  fica  a  5  milhas 
de  distancia  da  costa,  na  derrota  do  Morro  de  S. 
Paulo  para  a  Barra  da  Bahia,  ao  longo  da  costa 
da  Ilha  de  Itaparica,  por  occasião  do  tempo 
chuvoso,  sem  marcações  seguras  para  guiar  a  na- 
vegação, ou  pela  inclemência  de  sondagem  desde 
o  inicio  da  derrota. 

Ora,  é  justamente  a  um  porto  desta  ordem,  sem 
rival  no  mundo,  onde  não  se  vè  hoje  em  dia  um  só 
navio  de  guerra  brazileiro,  e  cujo  arsenal  de  ma- 
rinha foi  extincto,  mas  cuja  historia  gloriosa  se 
conta,  aliás,  por  innumeras  construcções  navaes 
alli  feitas  outr'ora,  taes  como,  entre  outros,  a 
fragata  Paraguassú,  as  corvetas  Dous  de  JunhOy 
rf.  Francisca,  d,  Januaria,  Isabel  e  outras  !  » 


SUMMARIO  DO  N.  27 


Paginas 

O  Tupi  na  Geographia  Nacional,  pelo  Dr. 
Theodoro    Sampaio 3 

Riqueza  mineral  do  estado  da  bahia— 
Phenomenos  geológicos  e  mineralógicos, 
especialmente  na  zona  de  Santo  Amaro, 
por  Henrique  Praguer 19   ^ 

Francisco  Telles  de  Menezes  (Alcaide 
Mór),  século  XVII.  pelo  Dr.  Innocencio 
Góes 31 

Ephemerides  Caclioeiranas,  Mez  de  De- 
zembro, pelo  Dr.  Aristides  Milton  .     .  41 

Actas  das  sessões  e  offertas— (Março 
a  Setembro    de   1901) 83 

SessAo  magna  commemorativá—  Discurso 

do  Presidente  Cons.  Salvador  Pires    .  97 

Relatório  do  Cons.  1*    Secretario   .     .     .  103 

Discurso  do  Dr.  Silio  Boccauera  .     .     .  líl 

Idem  do  Sr.  Damasceno  Vieira.     .     .     .  119 
Idem  do  Dr.  Braz  do  Amaral,  orador  do 

Instituto 123 

Necrologia— Visconde  de  Paraguassú,  o 
decano  dos  jornalistas  brazileiros   .     .  165 

Notas    e  informções  --  Brazil    Pre-his- 

torico 174 

Importante  documento 175 

Os  carbonatos  nas  Lavras  Diamantinas.  176 

A  descoberta  da  America  pelos  Chinezes  179 

O  Porto  da  Bahia 181 


REVISTA 


LO 


e 


DA  BAHIA 

FUNDADO  EM    1894,    RECONHECIDO    DE   UTILIDADE   PUDLICA 
LELA   LEI   N      110  DE    13    DE   AGOSTO    DE    1895 

Máxima  sunt  (locuiuenta  iMiuideiii  ren  teiiipori»  adi 
lu  praísena,  validusquo  iu  venieu»  stimulus. 


ANNO  IX 


1902 

VOL.  IX 


N.  28 


fj;^>^ 


LTIIO-IYI'.    E    ENCAUEUNA<;ÃO  1>E  HEIS    i    C. 

Kod  Conselheiro  Dante:,  n.  33 

IWÔ 


REVISTA 


LO 


Instituto  GeograpliiGO  e  Histórico 

DA  BAHIA 

FUNDADO  EM    1894,    RECONHECIDO    DE   UTILIDADE   PUDLICA 
LELA   LBI  N     110  DE    13    DE  AGOSTO   DE    1895 


Máxima  euiit  documenta  equidcra  res  tempori»  acti 
In  prooseus,  validusque  in  venieus  slimuiuR. 


ANNO  IX 


1902 

VOL.  IX 


N.  28 


LTIIO-IY!*.    E    ENCADERNAÇÃO  DE  KEIS    i    C. 
Baa  Coniclhetro  Oantai,  n.  22 

15)03 


REVISTA 

no 

icõ  e 


Anno  IX 


1902 


Num.  28 


Innoeeneio  Munõz 


^ODOs  os  que  na  Bahia  sentem  sympathias 
pelo  que  é  delicado  e  nobre  lamentam 
'com  o  Instituto  a  perda  imprehenchivel 
que  a  sociedade  bahiana,  as  lettras  e  es- 
pecialmente a  bibliographia  pátria  acabam  de  sof- 
frerna  pessoa  doDr.  Innoeeneio  Munõz  de  Araújo 
Góes,  morto  aos  34  annos  de  edade,  ao  entrar  por- 
tanto no  cyclo  vigoroso  da   sua  vida  de  homem. 

Quando  elle  appareceo  aqui,  ha  cerca  de  12 
annos,  com  a  sua  formosa  edistincta  figura  de  pla- 
tino, todos  logo  o  estimaram  e  muitos  o  admira- 
vam e  queriam  sem  que  ainda  o  conhecessem. 

Foram  muito  alto  estas  preferencias  que  elle 
admiravelmente  merecia,  porque  raras  vezes  tanta 
generosidade,  cordura,  bondade  d'alma,  Ihanesa  de 
maneiras,  fina  e  delicada  organisação  de  intelle- 
ctuai  se  enquadraram  em  physionomia  mais  bella 
eattrahente.' 


Tornou-se  em  breve  conhecido  e  amado  não 
só  pela  sua  família  respeitável  e  relacionada,  como 
pelos  seiís  próprios  méritos  e  qualidades  de  «gen- 
tleman». 

Filho  de  um  brasileiro,  e  homem  intelligentís- 
simo,  o  Dr.  Francisco  Marques  de  Araújo  Góes  e 
de  uma  oriental,  D.  Elmira  Munõz  y  Mainz  Góes, 
elle  descendia  portanto  pelo  ramo  paterno  do  barão 
de  Araújo  Góes  e  D.  Maria  Francisca  Calmon  e 
Abreo,  cujas  ascendências  são,  como  se  sabe,  das 
antigas  familias  portuguezas  Calmon,  Góese  Aragão 
as  primeiras  de  origem  franceza  e  a  de  Aragão  de 
origem  castelhana.  E  pelo  ramo  materno  era  neto 
do  celebre  general  argentino  Don  José  Casemiro 
Rondeau,  o  mesmo  que  foi  uma  das  figuras  mais 
salientes  do  Prata  nos  tempos  das  campanhas  pela 
independência  e  que  figurou  na  guerra  da  Cispla- 
tina  com  tão  bellafama  e  que  foi,  apesar  de  estran- 
geiro, nomeado  governador  e  capitão  general  da 
Banda  Oriental  do  Uruguay,  quando  em  1828  se 
celebrou  entre  o  Brasil  e  a  Argentina  o  tratado  que 
fixara  a  independência  d^aquella  republica,  após  os 
nossos  desastres  na  campanha  feita  n'aquelle  terri- 
tório, quasi  ao  terminar  o  reinado  de  Pedro   i.** 

Tinha  nascido  em  Montevideo,  em  5  de  Março 
de  1868,  sob  aquclle  tecto  delicioso  que  é  o  céo  da 
Cisplatina,  do  tempo  do  nosso  i."  império. 

O  pae,  porém,  não  levou  o  nascimento  do  filho 
ao  registro  da  republica  do  Uruguay  e  trouxe-o 
para  o  Brasil  onde  adoptou  a  nacionalidade  pa- 
terna. 

Kducou-se  no  Rio  de  Janeiro  no  meio  de  gente 
culta  e  n'esse  convívio  de  refinados  adquirioagraca 
brilhante,  as  reservas  delicadas  e  o  perfume  áe 
distincção  que  n'elle  imprimiram  até  o  fim  aquelle 
cunho  de  superioridade  elegante  e  correcção  es- 
merada. 


Fez  a  sua  instrucção  no  antigo  collegío  Pedro  2.% 
onde  seu  pae  era  lente.  Ahi  cursou  até  o  penúltimo 
anno,  não  recebendo  o  gráo  de  bacharel  em  lettras 
por  causa  de  circumstancias  muito  especiaes  que 
foram  as  seguintes: 

Havia  a  creança  desde  muito  cedo  revelado 
certos  symptomas  que  não  podiam  deixar  de  alar- 
mar o  pae,  medico  distincto,  de  modo  que  foi  elle 
mesmo  quem  fez  o  diagnostico  de  uma  anomalia 
grave  no  coração  do  filho,  «permanência  do  buraco 
de  Botai». 

Quando  Innocencio  Munõz  estava  a  ponto  de 
terminar  seu  curso  de  bacharelado,  com  as  mu- 
danças que  traz  a  adolescência  ao  organismo,  accen- 
tuaram-se  com  tanta  severidade  alguns  symptomas 
da  anomalia  que  forçoso  foi  suspender  todos  os 
trabalhos  intellectuaes  e  fazel-o  vir  para  a  Bahia,  de 
cujo  clima  mais  ameno  do  que  o  do  Rio,  espera- 
vam os  médicos  consultados  senão  muito  bom 
êxito  pelo  menos  mais  serena  e  duradoura  a  vida 
do  moço. 

Melhorando  muito  aqui  estudou  Direito  e  for- 
mou-se  em  sciencias  jurídicas  e  sociaes  em  1896. 

Não  consta  porém  só  a  existência  da  necessi- 
dade material  e  satisfeita  e  doestas  victorias  que  se 
alcançam  pela  intelligencia  e  o  esforço. 

Não  era  feliz  e  sem  querer  tocar  em  coisas  par- 
ticulares diante  das  quaes  pára  o  biographo  que  as 
respeita,  pode-se  dizer  que  era  um  d'esses  entes 
aos  quaes,  quer  os  encontremos  com  uma  ruga  de 
dòr  na  fronte,  quer  com  um  sorriso  na  bocca,  de- 
vemos chamar  os  diariamente  martyrisados  na  vida. 

Não  aproveitara  a  sua  profissão  trabalhando  no 
foro,  porq^ue  lhe  repugnavam  as  cousas  positivas 
e  interesseiras.  A  sua  vocação  era  toda  para  a  car- 
reira diplomática. 


Em  muitos  pontos  parecia  mais  um  cavalheiro 
de  outras  eras,  transplantado  para  este  paiz  e  para 
este  tempo,  tão  pouco  harmonisados  com  a  herál- 
dica e  o  romanesco  medievaes. 

Tinha  grande  pendor  para  os  estudos  de  biblio- 
graphia,  numismática  e  cerâmica  de  modo  que  se 
tornou  um  dos  mais  hábeis  e  competentes  auxilia- 
res do  Dr.  Vicente  Vianna,  quando  este  fundou  o 
Archivo  Publico,  sob  a  administração  do  Dr. 
Manoel  Victorino.  Foi  por  estes  bons  serviços  no- 
meado para  o  Archivo  ao  qual  sérvio  até  a  sua 
exoneração  por  incompatibilidade  em  1902. 

Foi  um  dos  enthusiastas  mais  úteis  e  laboriosos 
na  organisacão  doeste  Instituto,  ao  qual  sempre 
muito  se  dedicou,  sendo  um  dos  sócios  de  espirito 
mais  productivo,  collaborando  n'esta  Revista  da 
qual  foi  um  dos  redactores,  tomando  parte  em  di- 
versos trabalhos  de  investigação,  alguns  arriscados, 
pois  se  deleitava  em  arrostar  com  todas  as  difíi- 
culdades  que  dependiam  de  arrojo  e  coragem  e 
onde  havia  um  perigo  ou  uma  cousa  ignota  e  fora 
do  commum. 

Em  12  de  Novembro  de  1899  tinha  sido  eleito 
membro  do  Conselho  Municipal  doesta  capital, 
cargo  que  exerceu  até  a  morte. 

Deu  ahi  provas  repetidas  de  competência  e  leal- 
dade e  conseguio  ser  estimado  tanto  pelos  amigos 
como  pelos  adversários  politicos. 

Em  Julho  de  1902  tinha  sido  nomeado  cônsul 
do  Uruguay,  n^este  Estado,  e  no  exercício  doesta 
funcção  tão  importante  e  nobre,  tão  adequada  ao 
seu  gosto  pela  diplomacia  morreu  de  asystolia,  na 
tarde  de  28  de  Dezembro. 

E'  bem  fora  de  duvida  que  certos  factos  que 
lhe  torturavam  a  existência,  concorreram  para  este 
tão  rápido  e  trágico  desfecho. 


E  tanto  quanto  é  dado  ao  homem  ser  grande, 
doce,  abnegado,  generoso  e  heróico  n^este  doloroso 
e  terrível  transe,  elle  o  foi  no  meio  de  circumstan- 
cias  tão  especialmente  pungentes,  que  nunca  mais 
se  apagarão  da  memoria  dos  que  os  presencearam. 

Gostava  muito  de  genealogia  e  tinha  feito  com 
muito  cuidado  não  só  a  de  sua  familia  brasileira 
de  Góes,  Calmon,  Abreo  e  Aragão,  como  a  de  sua 
familia  argentina. 

Era  um  coUeccionador  infatigável  de  antigui- 
dades e  todas  as  cousas  de  outro  tempo  o  apaixo- 
navam ;  armas,  movtfis,  papeis,  vasos,  etc. 

Possuia  muitos  e  bons  autographos,  e  alguns  da 
republica  do  Uruguay  são  valiosíssimos,  não  ha- 
vendo talvez  no  Brasil  muito  quem  os  possua  me- 
lhores, porque  são  dos  homens  mais  notáveis  do 
império,  do  Uruguay  e  Argentina,  especialmente 
do  período  da  independência  da  Cisplatina. 

Dos  seus  trabalhos,  alj^uns  ha  publicados  n'esta 
Revista  e  nos  órgãos  da  imprensa  diária,  na  qual 
collaborou;  outros,  pela  maior  parte,  inéditos; 
alguns  não  acabados. 

Entre  os  primeiros  occorre-nos  citar  os  seguin- 
tes: «O  Bangala,  Um  Prior  do  Crato,  O  Cofre,  Nós 
éramos  três,  Cândia,  Francisco  Gil  de  Araújo,  Pêro 
de  Góes  da  Silveira,  O  P^orte  do  Barbalho,  Alcaides 
Mores  da  Bahia». 

Inéditos  tinha:  «  Uma  cadeira  de  Paleographia 
no  Archivo  Publico,  Doação  da  Capitania  da  Bahia, 
El-Mirah,  O  Crucifixo,  Cem  annos  atraz,  Memo- 
rias do  General  Rondeau,  Fundação  da  Cidade  do 
Salvador,  O  Marquez  de  Abrantes,  Damião  de 
Góes,  Subsidios  para  a  historia  da  Diplomacia  Bra- 
sileira, A  Descoberta  da  America,  1840,  O  Archivo 
Publico  da  Bahia  (em  parte  publicado),  A  Restau- 
ração da  Cidade  do  Salvador,  Um  morgado  no  sé- 
culo i3,  Uma  Lenda  Itaparicana». 


Havia  confeccionado  com  o  signatário  doestas 
linhas  o  relatório  apresentado  ao  Instituto  sobre 
o  subterrâneo  de  Santa  Thereza  e  tinha  se  encar- 
regado de  elaborar  outro  sobre  o  do  Taboão,  tam- 
bém explorado  por  ambos.  Ultimamente  prendia- 
Ihe  a  attenção  um  trabalho  importante  e  de  grande 
utilidade  para  o  ensino  publico,  «  Mappas  históri- 
cos »,  do  qual  a  i  /  parte,  Mappa  histórico  da  Bahia, 
ia  em  caminho. 

Possuia  também  dados  sobre  a  guerra  de  «  Ca- 
nudos» que  tencionava  completar  e  estudar  em 
todas  as  particularidades;  assim  como  outro  inti- 
tulado ((Notas  sobre  o  império».  E  foi  assim  em 
pleno  labor,  que  a  morte  ceifou  vida  tão  preciosa ! 

13.  do  ^p^mciral. 


Os  indígenas  da  Bahia 

—Aíemoiia  lida  a  3  de  Maio  de  1.900 
na  sessão  solemne  do  ^Instituto  Geogra- 
phico  e  Histórico  da  Bahia»,  em  comme- 
moração  do  4,^  centenário  da  descoberta 
do  Brasil, pelo  professor  António  Alexandre 
Borges  dos  Beis,  sócio  fundador  do  mestno 
^  Instituto  È.-- 

I 

O  homem  americano 


INTERESSANTE  qucstão  do  homem  americano, 
considerada  a  par  de  outras  não  menos  serias 
da  Paleoethnologia  ou  Archeologia  Prehistorica, 
ha  preoccupado  bastante  a  vários  scientistas  no  sé- 
culo que  expira. 

Para  uns,  comoLubbock  (i),  a  ultima  palavra 
não  foi  ainda  pronunciada  sobre  o  momentoso  as- 
sumpto. 

Para  outros,  no  terreno  desbravado  já  alguns 
marcos  assignalam  conquistas  positivas. 

Entretanto,  a  partir  do  principio  inconteste  da 
unidade  das  espécies,  não  desenvolvidas  em  um 
ponto  único  da  terra,   mas  produzidas  por  trans- 
ai) LTlomoie  rróliistorique. 


In 


formações  naturaes  e  successivas  em  varias  regiões 
d'ella,  (verdadeiros  reinos  de  creação,  na  phrase  de 
Agassiz,  ou  reinos  de  apparição,  como  os  deno- 
minou Rialle)  não  podemos  deixar  de  admittir  o 

autoctonismo  de  raças  americanas. 
> 

Combatem  esta  opinião,  no  paiz  e  no  estrangeiro 
— Barbosa  Rodrigues,  Warnagen,  Couto  de  Maga- 
lhães, Brasseur,  Fischer  e  outros;  sustentam-n'a^ 
porém,  Morton,  Gliddon,  Meyer,  Lu  nd,  d'Orbigny, 
Trajano  de  Moura,  José  Veríssimo,  Silvio  Romcro 
e  mais  alguns. 

Entretanto,  quaesquer  que  sejam  as  controvérsias 
das  escolas  monogenista  e  polygenista  em  face  de 
tão  transcendente  questão,  o.  que  se  não  contesta  é 
que  o  homem  viveu  no  continente  americano  na 
época  quaternária,  de  promiscuidade  com  mammi- 
feros  gigantescos,  taes  como  o  «mastodonte»,  o 
«megatherium»,  o  «mylodon»,  o  «jaguar»  e  tantas 
outras  espécies,  hoje  extinctase  que  viveram  n'uma 
era  assignalada  por  grandes  cataclysmos,  entre  os 
quaes  o  período  glacial,  perfeitamente  caracterisado 
em  diversos  pontos  da  America  do  Norte. 

Da  alta  antiguidade  do  homem  americano  cons- 
tituem, entre  outras,  prova  irrefragavel  as  notá- 
veis descobertas  do  Dr.  Abott,  no  valle  de  Dela- 
ware,  a  de  Agassiz,  na  Florida,  e  no  que  diz  res- 
peito ao  Brasil  o  resultado  admirável  das  pacientes 
investigações  do  sábio  dinamarqucz  Pieter  Lund. 

O  eminente  naturalista,  a  quem  tanto  devem  o 
Brasil  e  a  sciencia,  demonstrou-a  após  as  escava- 


u. 


ções  praticadas  em  mais  de  800  cavernas  de  Minas- 
Geraes,  mormente  na  do  «Sumidouro»,  ondepoude 
reconhecer  a  contemporaneidade  do  homem  e  de 
grandes  mammiferos  quaternários   (2);    demons- 
trou-a  apreciando  em  desenvolvido  estudo  a  for- 
mação geológica  do  planalto  Central  do  Brasil  e 
provando  ter  este  existido  elevado  sobre  o  nivel  do 
mar,  quando  as  outras  partes  do  mundo  ainda  se 
achavam  submersas  ou  surgiam  apenas  como  ilhas 
insignificantes;  demonstrou-a  na    bella  synthese 
comparativa  entre  as  raças  «mongolica»  e  «ameri- 
cana»,  deduzindo  caber  a  esta  a  anterioridade,  na 
hypothese  de  communidade  de  origem,   visto  os 
caracteres   differenciaes  que    apresentam  darem- 
Ihe  o  local  inferior  na  escala; — laudo  esse  accorde 
com  a  marcha  da  natureza,   que  procede  sempre 
do  simples  para  o  composto,  do  imperfeito  para 
o  perfeito. 

A  hypothese  de  «Marcius»,  em  seu  apreciado 
trabalho — «Sobre  o  modo  de  escrevera  historia  do 
Brasil» — de  ser  o  povo  encontrado  por  Cabral  resto 
cie  uma  grande  raça,  que,  de  um  estado  florescente, 
decahira  no  de  degradação  tal  qual  se  apresentara 
QO  europeu  em  sua  formula  mais  brutal — a  antro- 
pophagia — a  ser  admittida,  constituirá  mais  uma 
demonstração  da  nossa  these  sobre  o  autoctonismo, 
por  isso  que  esse  processo  de  degeneração,  exigindo 
períodos  èxtensissimos  em  produzir-se,  tenderia 

(2)  Lund,  com  a  pnideiicia  que  lhe  era  peculiar,  não  considerou  a 
inncipio  como  provada  essacoratemporuneidadc,  udmittindo-a  soraent*? 
depois  de  acuradas  obsorvaçõeí».  .  , 


12 


apenas  a  demonstrar  a  remotíssima  antiguidade  do 
selvicola  brasileiro. 

Couto  de  Magalhães,  em  seu  mui  discutido  tra- 
balho— «Região  e  Raças  Selvagens  do  Brasil», — 
affirmando  que  o  homem  americano  «apparecera» 
nos  altos  plateaux  andinos,  d'ondc  emigrara  para 
as  planicies; — que  era  grande  a  sua  antiguidade 
visto  preceder  ás  primeiras  migrações  dos  aryas  na 
Europa; — que  constituirá  o  tronco  vermelho  cru- 
zando-se  mais  tarde  com  raças  brancas  do  leste  e 
do  oeste, — destroe  todas  essas  affirmativas,  quando, 
baseando-se  no  frágil  argumento  da  ausência  de 
utensis  de  pedra  lascada  em  nossos  depósitos  fosseis, 
assevera  que  o  Brasil  «recebera»  seus  povoadores 
por  immigração,  havendo  elles  transposto  em  outra 
«parte  de  mundo»  o  período  paleolíthico,  primeiro 
estádio  percorrido  pela  humanidade! ! 

Essa  contradicção  exclue,  a  nosso  ver,  dos  con- 
ceitos do  illuçtre  ethnologo  o  cunho  de  veracidade 
que  nos  parecia  dever  existir  em  suas  obras,  em 
face  do  conhecimento  que  demonstra  ter  da  lingua 
tupy  e  das  importantes  viagens  e  explorações  que 
emprehendeu  pelos  araxas  de  Goyaz  e  de  Matto 
Grosso. 

E  bastaria  notar  a  exiguidade  relativa  das  inves- 
tigações archeologicas  e  geológicas  no  continente 
americano,  mormente  em  a  peninsula  Meridional, 
para  não  podermos  acceitar  como  decisivo  o  laudo 
do  illustre  viajante,  si  os  trabalhos  de  von  Kossç- 


13 


ritz  e  outros  exploradores  nos  Estados  do  extremo 
sul  do  paiz  não  nos  tivessem  conduzido  já  á  pre- 
sença de  instrumentos  de  pedra  lascada,  de  envolta 
com  evidentes  restos  do  homem  prehistorico,  en- 
contrados nos  sambaquis  do  littoral,  além  do  grande 
numero  de  specimens  d'aquelles  instrumentos,  exis- 
tentes no  Museu  Nacional  e  que  foram  descobertos 
em  vários  pontos  do  paiz. 


Ao  passo,  pois,  que  monogenistas  e  asiatistas 
como  «Fischer»  produzem,  para  justificar  suas  theo- 
rias,  argumentos  como  os  da  (cnephrite»  eda  «jadei- 
te»  tão  completamente  refutados  por  Meyer,  illustre 
professor  em  Dresde; — emquanto  que  outros,  como 
Brasseur,  firmam  seus  assertos  nas  lendas  da  cere- 
brina  ponte  «Aleutica»  ou  na  «Atlântida»  de  Platão; 
—os  polygenistas  demonstram,  baseados  em  factos 
positivos, — estudos  craneometricos,  investigações 
linguisticas,  observações  geológicas,  etc.  —  que  o 
homem,  «sujeito  ás  mesmas  condições  de  cultura, 
produz  por  toda  a  parte  os  mesmos  resultados»  ; — 
que  não  é  necessária  «uma  só  origem  ancestral  pri- 
mitiva» para  explicar'^ todas  essas  normalidades  ;  e, 
ajuntamos  nós, — as  pretendidas  raizes  com  que  se 
procura  provar  o  parentesco  de  linguas  faladas  por 
povos  tão  dessemelhantes  em  qualidades  anatómi- 
cas, psychologicas  e  physiologicas  não  passam  de 
piatrizes  onomatopaicas, — imitação  dos  ruidos  da 


14 


natureza  —  primeira  e  rudimentar  associação  de 
idêas  que  feriu  o  cérebro  rudo  do  selvagem. 

I 

Parece-nos,  portanto,  justificada  a  nossa  opinião 
— o  autoctonismo  do  homem  americano; — isto  é, 
do  homem  produzido  no  próprio  continente,  em 
uma  ou  em  varias  regiões  d'elle,(«reinosdecreação 
ou  de  apparição»)  proliferando,  grupando-se,  con- 
stituindo nações,  passando  do  periodo  paleolithico 
ao  neolithico,  cruzando-se  mesmo  com  immigra- 
çÕes  de  varias  procedências  (3)  subjugando-as  ou 
sendo  por  ellas  subjugados,  ate  o  momento  em  que 
a  civilisação  européa  o  veiu  surprehender,  condu- 
zida aqui  pelas  caravellas  de  Cabral,  na  expansibi- 
lidade do  génio  aventureiro  e  emprehendedor  do 

portuguez. 

II 

Os  indígenas 

Os  VELHOS  CHRONISTAS  E  AS   POSTERIORES 
INVESTIGAÇÕES 

|iFFiciLiMO  é  respigar  a  verdade  em  as  fas- 
tidiosas, e,  por  vezes,  incongruentes  narra- 
tivas, que  nos  legaram  os  velhos  chronistas,  a  res- 
peito do  povo  indigena  do  Brasil. 

('ò)  Não  contestamos,  como  se  vê,  a  possibilidade  de  iramigrrações 
a8iati(*as  a  Oeste,  admissíveis  em  faee  da.s  eivilisavõese  tradii»ôe8  tol- 
tekus  e  azteka^,  e  das  europeas  a  Leste,  estas  já  em  tempos  historicoa, 
— (visitas  seandinavas);  mas  iie«j:ar,  perante  as  conquistas  positivas  «ia 
sciencia,  ao  continente  americano  a  faculdade  de  produ/.it  o  hunoiem  é 
o  «jue  nos  parece  sobre»tiodo  ubsurdu- 


u 


Da  extensa  bibliographia  produzida  pelos  reli- 
giosos jesuitas,  exploradores  portuguezes  e  aventu- 
reiros de  outros  paizes,  que  se  relacionaram  com 
os  indigenas,  os  trabalhos  de  Gandavo  e  Gabriel 
Soares  são  os  únicos  que  parecem  se  approximar 
da  verdade,  revelando  o  consciencioso  julgar  de 
seus  autores ;  mas,  ainda  assim,  é  tal  a  sua  deficiên- 
cia, que  subsidio  algum  encontra  n'elles  o  estu- 
dioso, sobre  as  interessantes  questões  da  origem  e 
da  theogonia  dos  Íncolas  seus  contemporâneos, 
com  os  quaes  conviveram,  e  a  quem  tanto  tempo 
tiveram  para  investigar  e  estudar. 

Para  uns,  era  o  caboclo  uma  alma  a  converter 
para  o  christianismo,  uma  ovelha  para  o  aprisco, 
cujos  mythos,  em  sua  rudimentar  expressão,  eram 
forçadamente  interpretados  ao  sabor  das  idéas  ca- 
tholicas; — para  outros,  era  apenas  uma  alimária 
de  trabalho; — para  nenhum,  porém,  um  ser  hu- 
mano, cuja  procedência,  civilisação,  arte,  cultura, 
merecessem  estudo. 

Selvagens,  brutos,  irracionaes  quasi,  eis  em 
geral  a  adjectivação  com  que  os  qualificavam. 

O  Dr.  Paulo  Ehrenreich,  em  seu  criterioso 
estudo  sobre  a  divisão  e  distribuição  das  tribus 
do  Brasil,  traduzido  por  Capistrano  de  Abreu 
e  inserto  na  (cRevista  da  Sociedade  Geographica  do 
Rio  de  Janeiro»,  acccntúa  em  brilhante  synthese 
esse  desamor  pelas  tribus  indigenas  do  Brasil, 
que  nem  siquer  despertaram  na  alma  fria  dos 
conquistadores  sentimentos  de  piedade. 


ítí 


Alludindo  a  tão  criminosa  indiíFerença,  escre- 
veu o  illustre  companheiro  de  Von  den  Stein; 

«Logo  no  principio  do  Século  XVI,  começaram 
as  correrias  dos  paulistas.  Bandos  de  audazes  aven- 
tureiros partiram  da  capitania  de  S.  Vicente,  em 
diversas  direcções,  internando-se  pelo  sertão. 

A'  procura  de  ouro  e  á  cata  de  escravos,  perlus- 
traram,  entre  trabalhos  e  difficuldades  indizíveis, 
os  territórios  imniensos  do  interior  além  do  alto 
Paraguay,  até  as  cabeceiras  do  Madeira,  a  oeste,  e 
para  o  norte  até  a  foz  do  Amazonas. 

A  cupidez  e  a  crueldade  destes  incendiários 
anniquilaram  grande  parte  da  população  primitiva. 
O  que  não  poude  refugiar-se  em  brenhas  invias 
succumbiu  á  espada  ou  á  escravidão.  » 

Proscguindo  nesta  analyse,  accrescenta  o  emi- 
nente observador:  «Assim,  muitíssimo  pouco  se 
ficou  sabendo  das  innumeras  hordas  do  sertão — os 
tapuyas — como  os  chamavam  os  indígenas  do 
littoral. )) 

Apenas  sob  um  ponto, a  linguagem,  nos  deixa- 
ram trabalhos  de  algum  valor  Anchieta,  Montoya, 

ReSTIVO  e   F^IGUEIRA. 

Fazendo-lhes,  porém,  esta  justiça,  reconhe- 
cendo o  importante  serviço  que  prestaram,  nesse 
particular,  á  civilisação  dos  íncolas  e  aos  poste- 
riores estudos  ethnographicos,  a  par  de  outros  não 
menos  valiosos,  na  phase  da  colonisaçãó  em  prol 


17 


da  liberdade  dos  indígenas,  não  podemos  deixar, 
entretanto,  de  lamentar  que  tão  intelligentes  espí- 
ritos se  tivessem  descuidado  das  interessantes 
questões  a  que  acima  nos  referimos. 

Foi  necessário  que  surgissem,  muitos  annos 
depois,  espíritos  investigadores  c  esclarecidos,  que 
percorrendo  o  nosso  extenso  território,  explo- 
rando os  sambaquis  do  líttoral,  as  cavernas  do 
interior,  estudando  a  craneologia  fóssil,  as  camadas 
geológicas  correspondentes,  as  línguas,  a  cerâmica 
exhumada,  os  utensís  encontrados,  procurassem 
reconstruir  o  passado  indígena,  approxímando  os 
typos,  grupando-os,  confrontando-os,  até  lançar  os 
fundamentos  de  um  estudo  consciencioso  sobre  a 
ethnographía  e  a  sociologia  dos  nossos  aborígenes. 

Louváveis, nunca  por  demais  encarecidos,  foram 
os  esforços  empenhados  na  investigação  desses 
assumptos  de  alta  transcendência,  mas  não  se  pode 
affirmar  com  justiça  que  elles  já  nos  tenham  levado 
á  solução  completa  do  assumpto. 

Si  os  estudos  linguísticos  contaram  afervorados 
cultores,  que  nos  legaram  os  fructos  preciosos  de 
suas  investigações,  não  se  pode  tornar  extensivo 
esse  juizo  aos  estudos  archeologícos,  sendo  que, 
mesmo  no  ponto  de  vista  ethnographico,  a  maioria 
dos  trabalhos  conhecidos  deve,  em  grande  parte, 
ser  considerada  apenas  rudimentos,  aos  quaesurge 
addrtar  novos  subsídios. 
I 


18 


As  observações  do  Príncipe  de  Wied,  tão 
encarecidas  pelo  Dr.  Ehrenreich,  são  realmente 
dignas  de  nota,  quer  pelo  mérito  de  quem  as  subs- 
creve, quer  pelo  estado  da  ethnographia  naquella 
época;  porém  não  podem  ser  consideradas  como 
um  estudo  completo  da  matéria, pois  o  sábio  inves- 
tigador restringiu-se  a  simples  descripções  ethno- 
graphicas  das  tribus  que  visitou,  dentre  asquaes 
avultam,  como  menos  incompletas,  as  que  se 
referem  aos  aymorés  do  sul  da  Bahia. 

Os  caracteres  anthropologicos  desses  indigenas 
lhe  foram  fornecidos  pelo  celebre  «  Blumcnback,  » 
consoante  o  methodo  descriptivo  então  em  voga, 
pelo  estudo  apparente  de  um  craneo,  que  o  sábio 
excursionista  levara  da  Bahia;  porém  não  ha  nas 
paginas  do  seu  celebre  livro  «Voyage  au  Brésil » 
estudo  circumstanciado  e  rigorosamente  scientiíico 
sobre  aquella  c  outras  tribus  indigenas,  tal  como 
se  encontra,  sob  certos  aspectos,  no  trabalho  admi- 
rável de  d^ORBiGNY,  relativamente  á  chamada  raça 
ando-peruana. 

As  investigações  realisadas  posteriormente  par- 
ticipam das  mesmas  faltas,  aliás  desculpáveis, 
destacando-se,  entretanto,  como  preciosas  as  que 
foram  levadas  a  eífeito  por  Martius,  que  reuniu 
a  maior  somma  de  material  então  conhecido,  e,  em 
período  mais  recente,  as  emprehendidas  pelo  sábio 
e  cauteloso  observador  Dr.  Pip:tp:r  Lund. 

Aoeminentedinamarquez,que  soube identificar- 
se  intimamente  com  o  nosso  meio,  cabe  a  gloria  de 


19 


ter  enveredado  por  um  caminho  novo  no  estudo 
da  ethnographia  brasileira. 

Suas  explorações  nas  cavernas  da  « Lagoa 
Santa,))  mormente  na  do  «Sumidouro,»  onde 
poude  colher  o  material  necessário  para  o  estudo 
comparativo  das  espécies  extinctas  com  as  espé- 
cies actuaes,  elaborando  diversas  monographias, 
algumas  das  quaes  ficaram  infelizmente  incom- 
pletas; o  precioso  achado  de  craneos  c  esqueletos 
prehistoricos  de  promiscuidade  com  os  restos  fossi- 
lisadosde  mammiferos quaternários,  quelhe  forne- 
ceram elementos  para  algumas  deducções,  reve- 
laram no  venerando  solitário  um  investigador  capaz 
de  illuminar  todo  o  passado  dos  primitivos  habi- 
tantes do  nosso  continente. 

Tentativas  desse  género,  posto  que  em  esphera 
mais  restricta,  foram  realisadas,  por  iniciativa  do 
Museu  Nacional,  na  ilha  de  Marajó,  que  merecera 
antigamente  acurado  estudo  do  sábio  naturalista 
bahiano  Dr.  Alexandre  Rodrigues  Ferreira; 
obtendo-se,  nas  excavações  alli  realisadas,  grande 
numero  de  productos  cerâmicos,  estudados  profi- 
cientemente por  Hart,  Ferreira  Penna  e  outros. 

Não  ha  contestar  que  o  valioso  achado  archeo- 
logico,  com  o  qual  foram  encontrados  restos  hu- 
manos, trouxe  precioso  subsidio  ao  estudo  das  raças 
que  primitivamente  habitaram  nosso  território, 
facilitando  deducções  lógicas  sobre  a  origem  e 
costumes  das  tribus  sobreviventes. 


aa 


*  Mas, a  anthropólógia, que poderiafacilitar  novas 
conquistas  á  ethnographia,  tem-sc  mantido,  entre 
nós,  em  sua  forma  embryonaria,  máo  grado  o  ar- 
rojo de  alguns  exaggeros,  que  tem  pretendido,  com 
o  auxilio  de  meros  ensaios  empiricos,  sem  cunho 
scientilico,  sem  methodo,  sem  material  sufíiciente, 
lançar  proposições  que,  a  serem  exactas,  poderiam 
resolver,  em  grande  parte,  o  magno  problema 
posto  cm  equação. 

Os  estudos  anthropologicos  de  maior  nota  «ntre 
nós  são  precisamente  os  que  se  filiam  á  anthropo- 
logia  criminal,  que  não  guarda  relação  próxima 
oU  remota  com  a  matéria  que  nos  occupa,  sendo 
apenas  dignos  de  referencia,  quanto  á  anthropo- 
logia  geral,  os  ensaios  do  Dr.  Rodrigues  Peixoto, 
insertos  nos  Archivos  do  Museu  Nacional,  e  os 
estudos  craneometricos  do  fallecido  Dr.  Sa'  e 
Oliveira,  realisados  no  gabinete  de  medicina  legal 
da  nossa  Faculdade,  os  quaes,  si  peccam  por  defi- 
ciência do  material,  foram,  no  entretanto,  prati- 
cados de  accordo  com  as  regras  estatuídas  pelos 
próceres  da  anthropologia. 

Salientando,  pois,  os  serviços  inestimáveis  de 
Martius,  Lund,  Hart,  Ferreira  Penna,  dos  di- 
versos linguistas  que  mencionamos,  aos  quaes  se 
deve  reunir  Baptista  Caetano,  manda  a  justiça 
que  signifiquemos  toda  a  nossa  admiração  pelo 
sábio  VoN  DEN  Stein  e  seus  continuadores,  que 
começaram  a  imprimir  a  ethnographia  brasileira 
uma  feição  nova  e  mais  scientifica,  á  custa  de  per- 


sa 


severantes  laboreis,  de  fadigas  e  sacrificias,  fiás  suas 
excursões  ao  Xingu. 

Capistrano  de  Abreu,  Couto  de  Magalhães, 
Barbosa  Rodrigues  e  outros  não  podem  ser  olvi- 
dados d'entre  os  cultores  da  ethnographia  brasi- 
leira, á  qual  se  abrem  novos  horisontes,  graças  á» 
orientação  scientifica  do  eminente  ethnographo 
allemão,  a  que  por  ultimo  nos  referimos. 

III 

Classiíicaçôes  dos  indígenas, 

classificações  antigas 

leitura  dos  chronistas  contemporâneos  dos 
^  exploradores  e  primeiros  povoadores  eu- 
ropeus do  Brasil  ensina-nos  apenas  que  este  paiz  era, 
n^aquella  época,  habitado  por  um  povo  selvagem,  de 
corem  geral  acobreada  escura,  cabellos  pretos  e 
corredios,  malar  e  orbitas  pouco  salientes,  variando 
entre  a  media  e  a  baixa  estatura,  falando  linguas 
desconhecidas,  apresentando-se  nus,  ornados  algu- 
mas vezes  de  pennas,  armados  de  arco  e  flexas, 
espadas  ou  clavas  de  madeira  rija,  habitando  pro- 
miscuamente,uns  em  casas  de  barro,  longas  eôcas, 
com  duas  aberturas  apenas,  outros  sob  arvores 
ou  em  covas,  possuindo  utensis  de  pedra  polida, 
divididos  em  lutas  intestinas,  ferozes,  epilogadas 
quasi  sempre  por  festas  cannibalescas,  em  que  eram 
passivos  figurantes  os  vencidos,  ou  aprisionados. 


22 


E*  esta  a  synthese  da  noticia  que  nos  deixaram 
os  velhos  chronistas  sobre  a  população  indígena  do 
paiz,que  os  ventos  e  as  correntes  maritimas fizeram 
as  caravellas  de  Cabral,  desviadas  de  sua  rota,  en- 
contrar a  22  de  Abril  de  i5oo,  da  era  christã. 

Designada  pela  classificação  geral  de  «tupis» 
e  «tapuias»,  dividia-se  essa  população  em  tribus  ou 
hordas,  cada  qual  com  sua  denominação  particular. 

As  hordas  «tupis»  occupavam  quasi  todo  o  lit- 
toral  e  raros  pontos  do  interior;  as  «tapuias»  quasi 
todo  o  interior  e  alguns  pontos  do  littoral. 

Modernas  investigações  parecem,  porém,  de- 
monstrar— ter  sido  a  nação  «tupi»  um  povo  invasor, 
que  vencera  e  recalcara  para  o  centro  a  nação  «ta- 
puia», estabelecida  primitivamente  na  costa. 

A  hy  pothese  mais  razoável  sobre  o  processo  dessa 
invasão  é  que — o  povo  tupi,  descendo  do  norte,  do 
Amazonas  talvez,  ou  até  mesmo  da  America  Central, 
possuindo  cultura  relativa  mais  adeantada  que  as 
hordas  tapuias,  pudera  vencel-as,  expulsal-as  das 
praias  e  nestas  estabelecer-se ; — que  essa  invasão  se 
etfectuara  em  levas  e  em  períodos  sucessivos,  acon- 
tecendo muitas  vezes  (eahi  a  principal  origem  das 
luctas  que  as  dividiam)  não  respeitarem  as  levas 
subsequentes  os  direitos  de  irmãos  já  estabelecidos, 
ou  não  serem  bem  recebidos  por  estes ; — que,  por 
sua  vez,  algumas  hordas  tapuias,  recalcadas  para  o 
interior,  tendo  haurido  novos  alentos  nas  florestas 
onde  se  acoutaram,  poderam  romper  a  linha  tupi 
do  littoral,  mercê  mesmo  das  desavenças  que  enfra- 


23 


queciam  seus  vencedores,  e  nelle  íixar-se  nova- 
mente, 

E  a  situação  dos  nossos  selvicolas,  em  i5oo, 
parece  confirmar  essa  hypothese. 

Estendendo-se  pelo  littoral,  de  norte  a   sul, 
encontraram  os  exploradores  portuguezes: 

Os  «  potiguaras  »,  entre  o  Jaguaribe )  tupis 

e  o  Parahyba  do  Norte  S  " 

Os    « tabajaras  »   e   os    «  cahetés, »  \ 

entre  o  Parahyba  do  Norte  e  o '  tupis 

S.  Francisco  ) 


Os  «tupinambás, »  de  S.  Francisco/ 
até  Camaraú  ] 


tupis 


Os  «tupiniquins, »  de  Camamú  aO)  tunis 

Cricaré                                         )  P 

Os  «  goyatacazes, »  do  Cricaré  ao)  ♦ot^ii^-^o 

cabodeS.Thomé                       )  ^^P^'^^ 

Os  « tamoios,  »  do  cabo  S.  Thoméi  tnníc 

até  Angra  dos  Reis                     (  ^^P^^ 

Os  «guayanazes,»  de  Angra   dos(  tannia^ 

Reis  até  Cananéa                        (  ^^P^'^^ 

Os    «carijós»    entre  Cananéa  e  a)  . 

lagoa  dos  Patos                           )  ^^P^^ 

Pelo  interior  estanciavam   numerosas  hordas 

tapuias,  com  as  quaes  só  mais  tarde  se  encontra- 
ram os  portuguezes,  distinguindo-se: 

Os  «  maracás  » 
Os  «  mariquitós )) 


24 


Os  «aymorés» 
Os  «  guerens  » 
Os  «  patachos  r> 
Os((aturaris  » 
Os  ft  puris )) 

Os  «ubirajaras,  »  senhores  dos  pausou  homens 
que  combatiam  com  paus;  e  por  entre  essas — as 
tribus  tupis  dos  «tupinaés, »  «cahetés»  e  aamoi- 
pirás, ))  que,  pelas  circumstancias  já  apontadas, 
tiveram  de  abandonar  o  littoral. 

Foi  sem  duvida  a  identidade  de  linguagem  entre 
as  tribus  tupis  o  seguro  critério  que  induziu  os 
ethnographos  a  consideral-as  uma  nação. 

Esse  conceito  sobre  a  linguagem  como  sobre  a 
identidade  de  seus  costumes  e  de  suas  instituições 
induziu  ainda  alguns  ethnographistas  a  ess'outra 
conclusão — o  parentesco  dos  «  tupis  »  com  os 
« carahybas »  das  Antilhas  e  os  «  galibis  »  das 
Guyanas. 

E,  de  facto,  aapproximação  do  «tamoio  »  como 
typo — dos  «oyampis»  de  Cayennae  dos  «  galibis  » 
das  Guyanas  parece-nos  irrecusável,  o  que  aliás 
accorda-se  com  a  tradição,  porquanto  o  tamoio  se 
considerava  o  mais  antigo  entre  os  de  sua  raça  ;  e, 
em  linguagem  tupi,  a  palavra  tamoio  significa  avô, 
assim  como  tupiniquim  neto,  e  tabajara  cuuhado. 
O  parentesco,  porém,  dos  «carahybas  »  e  «tupis  »  é 
contestado  por  von  den  Stein. 


25 


CLASSIFICAÇÕES    MODERNAS 

Modernamente,  mais  de  uma  classificação  tem 
sido  feita  dos  aborígenes  americanos. 

Martius  divide-os  em  8  linguas  ou  povos. 

«  Tupis  » 

«  Gês  ou  Krans  » 

ft  Goyatacazes  » 

«Crens»  ou  «Querens» 

«Gucks»  ou  «Cocos» 

«  Parexis  »  ou  «  Parecis  » 

w  Guaycurús  »  ou  Lengoas  » 

(í  Aruaks » 

Esta  classificação,  inspirada  aliás  em  apreciações 
historicase  averiguações  linguisticas, peca  por  dema- 
siado extensa,  ep  virtude  de  ter  o  auctor  se  baseado 
em  vocabulários  incompletos. 

Subdivide  ainda  Martius  os  tupis  em  5  grupos : 

Os  do  norte 

Os  do  sul 

Os  do  centro 

Os  do  leste 

Os  do  oeste. 

* 

#    • 

Tratando,  em  substanciosa  synthcse,  das  inves- 
tigações ethnographicas  de  seus  predecessores,  o 
Dr.  Paulo  Ehrenreich  não  se  exime  de  tributar  o 
testemunho  de  sua  admiração  á  grande  obra  de 
Martius  que,  no  seu  entender,  lançou  o  alicerce 
firme  para  a  construcção  de  umá  ethnographiado 
Brasil. 

4 


26 


As  faltas  de  que  pode  ser  increpada  sua  con- 
cepção, modificada  em  parte  pelos  estudos  de  von 
den  Stein,  resultam,  no  conceito  do  cscriptor  refe- 
rido, do  facto  de  não  ter  Martius  conhecido  pes- 
soalmente tribus  completamente  alheias  ao  influxo 

da  civilisacão. 
> 

Das  tribus  que  observou,  umas  já  se  achavam 
sob  a  acção  da  catechese,  e  outras,  como  os  c(  mi- 
ranhas  »,  no  Japurá,  já  haviam  sotfrido  a  influencia 
do  contacto  prolongado  com  os  brancos  e  se  acha- 
vam desmoralisadas,  quer  por  esse  commercio, 
quer  pelo  trafico  de  escravos. 

Como  outro  factor,  entra  o  que  o  Dr.  Ehrkn- 
RKicH  denomina  « tupimania  »  e  sobre  a  qual  mani- 
festa-se  nos  seguintes  termos : 

((  Kxaggcra  a  extensão  e  importância  do  povo 
« tupi  »;  concorre  para  novas  confusões,  repetindo 
o  velho  erro  de  d^Orbigny,  a  respeito  do  próximo 
parentesco  entre  os  carahybas  e  tupis ;  reúne  incer- 
tamente tribus  de  todo  separadas,  sob  o  ponto  de 
vista  ethnologico,  na  chamada  familia  «  Guck.  » 


Alcidks    i)"Orhi(;nv  classifica   deste    modo    os 
aborigencs  da  America  do  Sul : 

Ando-peruanos 

Pampeanos 

Brasileo-Guaranys,   abrangendo    estes   os    in- 
digenas  do  Brasil, 


2? 


Quando  a  d'Orbigny,  oillustreescríptor,  a  quem 
alludimos,  o  Dr.  Paulo  Ehrenreich,  evidçncia  que 
ninguém  soffreu  mais  os  effeitos  das  generalisações 
relativas  aos  tupis  e  attinentes  a  consideralT-os  como 
os  typos  caracteristicos  dos  indigenas  brasriléiros,  c 
sua  lingua  como  lingua  geral,  da  qual  derivam 
todas  as  outras.  Accentuando  esse  facto,  que  resalta 
em  sua  inteireza  da  classificação  de  <(  brasileo-gua- 
ranys  »  não  nega,  entretanto,  o  mérito  inherente  á 
descripção  magistral  dos  caracteres  anatómicos  dos 
« ando-peruvianos  e  «  pampeanos  feita  por  aquelle 

notável  naturalista. 

* 

VoN  DEN  Stein  que,  em  sua  expedição  ao  Xingu 
em  1884,  abriu  novo  periodo  á  ethnographia,  ad- 
mitte  provisoriamente  a  seguinte  classificação  : 

«  Tupis  » 

«  Gés  » 

«  Goitacá  »  ( Waitaka ) 

« Carahybas  » 

(í  Nu-aruak  »  ou  «  Maipurc  » 

((  Pano  » 

(( Miranha  » 

«  Guaycurú  » ( waikuru  ). 

Os  postulados  que  serviram  de  base  ao  eminente 
ethnologo  allemãopara  estabelecer  os  grupamentos 
das  diversas  tribus  e  formular  nova  hypothese  sobre 
as  suas  migrações  foram  os  seguintes : 

!.**)((  Os  «  carahybas  »  devem  de  todo  separar-se 
dos  «  tupis  )),  ethnologica  e  linguisticamente. 


â8 


2.**)  Legitimas  tribus  « carahybas »  (os  «ba- 
cahiris )  ainda  se  conservam  no  centro  da  America 
do  Sul,  de  onde  outr'ora  seus  ancestraes  avançaram 
gradualmente  até  a  Guyana/ — resultado  a  que 
já  LuciAN  Adam  chegara  independentemente,  fun- 
dado em  seus  estudos  theorico  —  linguisticos. 

3.")  Afamilia«guck)),  apresentada  porMARTius, 
é  como  tal  insustentável,  pois  abarca  elementos  he- 
terogéneos. Alguns  delles  provaram  claramente  ser 
«carahybas»,  a  maioria,  porém,  pertence  ao  grupo 
«Maipure»  de  Gn.Lí  e  Adam,  para  o  qual  propõe 
a  designação  de  «  nu-aruak» ;  «  nu »,  por  causa 
do  prefixo  pronominal  tão  característico  de  suas 
linguas; — «arualc»,  por  ter  sido  esta  a  primeira 
lingua  conhecida  da  parentella.  » 

VoN  DEN  Stein  dividiu  ainda  os  «tupis»  em  duas 
grandes  categorias,  em  dois  grupos  perfeitamente 
caracterisados : — um  que  guarda  a  lingua  tupi 
suficientemente  pura,  outro,  cujos  idiomas  sof- 
freram  tantas  variações,  que  seu  parentesco  com  a 
familia  «  tupi »  chega  a  ser  negado  por  alguns  es- 
criptores,  entre  os  quaes  se  deve  mencionar  Lucian 
Adam. 

A  doutrina  instituida  pelo  illustrado  chefe  da  i ." 
commissão  do  Xingu  confirma  a  situação  dos 
((tupis»,  que  geralmente  bellicosos,  guerreiros  por 
excellencia,  occupavam,  ao  tempo  da  descoberta, 
quasi  todo  o  littoral  do  Brasil,  dilatando  sua  es- 
phera  de  acção  até  a  embocadura  do  rio  Negro,  no 


á9 


baixo  Amazonas,  dividindo-se  cm  (í  tamoios,  tupi- 
nambás,  tupiniquins  »,  etc,  como  dissemos  acima. 
Apezar  das  grandes  perseguições  de  que  foram 
victimas,  ante  a  crueldade  dos  conquistadores, 
existem  ainda  tupis  entre  os  habitantes  da  região 
costeira,  do  Espirito-Santo,  Bahia,  Pernambuco  e 
Pará. 

Na  população  civilisada  do  baixo  Amazonas 
encontram-se  ainda  vestigios  da  familia  tupi,  cuja 
linguagem  os  missionários  jesuitas,  induzidos  pelo 
proselytismo  religioso,  vulgarisaram  pelas  margens 
do  rio  Negro. 

Dos  cc  tupis ))  do  sul  ou  «  guaranys  )>  de  S.  Paulo, 
Rio-Grande  do  Sul  e  Uruguay  restam  ligeiros  ves- 
tigios; mas  no  Paraguay  e  nas  provincias  argentinas 
de  Entre-Rios  e  Santa-Fé  e  nas  Missões  formam  a 
densidade  da  população. 

Na  opinião  do  Dr.  Paulo  Ehrenreich,  cujas 
observações  vimos  por  ultimo  analysando,  exis- 
tem ainda  no  extremo  NO  da  Republica,  até  o  sul 
de  Matto-Grosso,  como  representantes  dos  «  tupis» 
além  de  outros — os  «  cainguas»  e  «  caiovas  ». 

No  Pará  é  ainda  considerável  o  numero  de  tupis 
selvagens,  occupando  os  «  tembés  »  a  parte  leste  no 
alto  Acará  e  rio  Capim,  existindo  também  á  margem 
esquerda  do  Tocantins,  provavelmente  a  oeste  do 
salto  de  Itaboca — os  «pacajás,  jacundás»  c  u  antas» 
ou  ((tapirauás. » 

Como  « tupis  puros  »,  ainda  são  mencionados  os 
«mauhés»,naregiãodobaixoTapajós,os((oyampis», 


âo 


AO  norte  do  baixo  Amazonas,  nos  limites  com  á 
Guyana  Franceza. 

Dos  «tupis  do  centro»  podem  ser  apontados 
— os  «apiacás»  no  alto  Tapajós,  os  «camayúras», 
descobertos  pela  expedição  voN  denStkin,  no  Xingu, 
os  <(  tapirapés  »,  na  bacia  do  Araguaya  e  os  «  guaja- 
jaras  »,  no  Tocantins. 

Poderíamos  alongar  nossas  considerações  sobre 
a  concepção  de  von  den  Stein,  quer  no  que  diz  res- 
peito á  classificação  dos  indígenas  do  Brasil,  quer 
no  que  se  refere  ás  suas  migrações,  mas  nos  exi- 
mimos dessa  tarefa,  para  dar  logar  ao  assumpto 
principal  de  nossa  dissertação. 

08  indígenas  da  Bahia 

IV 

Resava  a  tradição,  que  nos  foi  transmittida  por 
alguns chronistas, — terem  sido  os  «tapuias»  os  pri- 
meiros habitantes  do  littoral  da  Bahia,  denominan- 
do-se«Maracásosque  occupavam  o  actual  sitio  da 
capital  e seu  recôncavo; — que  os  «tupinaés»  tribu 
tupi,sedusidospelafertilidade  do  mencionado  terre- 
no, os  expulsaram  das  praias,  após  sangrentas  luctas 
easoccuparam,  refugiando-se  os  vencidos  no  inte- 
rior, onde  enfrentaram  comos  caupinambás»  ao 
norte  eoestc  e  continuaram  a  ser  perseguidos  pelos 
«tupinaés»  a  leste; — que  por  sua  vez  foram  os 
«tupinaés»  desalojados  das  posições  que  occupa- 
ram,  pelos   «tupinambás»,   seus  visinhos,  sendo 


31 


forçados  a  seguir  a  mesma  rota  que  haviam  feito 
tomar  seus  antecessores,  ficando  de  tal  sorte  aper- 
tados entre  os  velhos  e  os  novos  inimigos  que,  em 
i58o,  estavam  reduzidos  a  um  pequeno  numero, 
sendo  afinal  assimilados. 

Ayres  de  Casal  affirma  terem  sido  os  «quini- 
muras»  os  primitivos  habitantes  dos  terrenos 
ribeirinhos  á  bahia  Todos  os  Santos,  sendo  que  o 
autor  da  chronica — «Jacaré» — «Quassú» — estabe- 
lece a  seguinte  ordem  chronologica  dos  povoadores 
dos  mencionados  terrenos — <(  quinimuras  » — « tupi- 
nacs »  e  « tupinambás  » . 


Foram,  portanto,  os  «tupinambás»  o  povo  que 
os  portuguezes  encontraram  occupando  todo  o 
littoral  do  S.  Francisco  até  Camamú,  e,  do  gentio 
da  costa,  era  um  dos  mais  importantes,  pelo  seu 
numero  e  valor. 

Segundo  Gabriel  Soares,  sem  duvida  o  mais 
consciencioso  dos  velhos  chronistas,  eram  esses 
gentios  de  media  estatura,  de  còr  muito  baça, 
fortes,  bem  feitos,  sadios,  de  alegre  e  bôa  appa- 
rencia,  trazendo  os  cabellos  da  cabeça,  únicos  que 
permittiam  no  corpo,  sempre  bem  aparados,  em 
excesso  lisongeiros,  refalsados,  valentes,  vivendo 
da  caça,  pesca  e  lavoura. 


32 


Espalhados  pelo  littoral  da  Bahia  em  aldeias 
distanciadas,  por  causa  das  inimizades  que  os 
dividiam,  era  sua  situação  normal  a  guerra  intes- 
tina, ora  devorando  os  vencidos,  ora  consefvando-os 
em  captiveiro. 

Os  que  demoravam  no  sitio  occupado  hoje  pela 
capital  tornaram-se  inimigos  dos  irmãos  residentes 
na  costa  fronteira,  entre  o  Paraguassú  e  e  Serezipc, 
travando  sangrentas  batalhas  navaes,  em  grandes 
«igaras»  ou  canoas,  na  bacia  que  se  lhes  inter- 
punha, e  por  entre  as  ilhas  das  enseadas. 

Veio  acirrar  esse  ódio  uma  questão  particular 
que  surgira  entre  os  próprios  indigenas  do  sitio  em 
que  depois  edificou-se  a  cidade;  questão  originada 
pelo  rapto  de  uma  donzella. 

A  familia  desta  não  a  tendo  podido  rehaver  do 
seu  raptor,  apartou-sc  da  aldeia,  passou-se  á  ilha 
de  Taparica,  e,  como  se  constituia  de  indigenas 
principaes,  grande  foi  a  clientella  que  a  seguio. 

Esses  immigrados  alliaram-se  aos  Íncolas  do 
rio  Paraguassú,  seus  antigos  inimigos,  e  crude- 
lissima  irrompeu  a  lucta,  agora  alimcntadapor  mais 
esse  ódio  de  familia. 

Emboscadas,  ciladas,  ardis  de  toda  a  sorte,  con- 
serva a  tradição  dessa  tremenda  guerra,  e  a  ilha  do 
«  Medo  »,  que  demora  entre  a  foz  do  Paraguassú  e  a 
ilha  de  Taparica,  recorda  ainda,  em  sua  significa- 
tiva denominação,  esse  triste  momento  das  luctas 
fratricidas  dos  nossos  aborígenes. 


33 


Estendeu-se  a  alliança  de  Taparica  ás  terras  ri- 
beirinhas do  Jaguaripe,  Jequiriçá,  Tinharé  e  outras 
até  a  costa  dos  Ilhéus. 

Assevera  ainda  Gabriel  Soares  perdurar  até 
aquella  época  (i582)  tão  intenso  o  ódio  entre  os 
adversários,  que  esse  sentimento  não  se  detinha 
mesmo  ante  os  túmulos.  Estes  eram  escavados  para 
o  espedaçamento  das  caveiras,  e  o  consciencioso 
chronista  ingenuamente  nos  relata  que  os  colonos 
acoroçoavam  esse  sacrílego  proceder. . .  para  ainda 
mais  dividir  os  selvagens ! .  . . 

E'  também  de  Soares  a  affirmativa  de  não  haver 
mais  diíferença  entre  a  linguagem  dos  «tupinambás» 
ea  dos  a  tupinaés  »,  que  a  fallada  entre  os  moradores 
de  Lisboa  e  os  de  Entre  Douro  e  Minho. 

Essacircumstancia,  o  aspecto  physico,  osusos  e 
costumes  dos  «tupinaés »  corroborando  a  tradição, 
levaram  egualmente  o  mencionado  escriptor  a  con- 
sideral-os  irmãos  dos  «tupinambás». 

E  a  observação  feita,  egualmente,  pelo  referido 
chronista — «  de  ser  um  pouco  mais  rude  a  linguagem 
daquelles,  como  ainda  mais  selvagens  os  seus  costu- 
mes, induz-nos  a  consideral-os  uma  antiga  familia 
«tupinambá»  que,  em  contacto  mais  immediato 
com  os  (( tapuias  »,  a  quem  vencera  e  substituirá  no 
referido  território,  sotfrera  destes  a  influencia  dege- 
neradòra. 

•    » 

Uma  outra  familia  c(  tupinambá  »  que,  em  perse- 
guição aos  « tapuias »,  se  internara  mais  pelo  sertão. 


34 


foi  cortada  pelos  «tupinacs»  quando  expulsos  das 
praias,  e  de  tal  sorte  vio-se  perseguida  por  estes  e 
por  aquelles  a  quem  atacara,  que  obrigada  foi 
a  transpor  o  S.  Francisco,  por  elles  denominado 
«  Pará)),estabelecendo-se  em  sua  margem  esquerda. 

Essa  familia  constituio  a  tribu  dos  «amoipiràs», 
por  ser  esse  o  nome  do  seu  maioral. 


Seguiam-se  pela  costa  sul, — de  Camamu'  ao 
Cricaré  —  os  «  tupiniquins  ». 

Ignacio  Accioli  de  Cerqueira  e  Silva  em  sua 
Memoria  sobre  os  aborígenes  da  Bahia,  publicada 
em  1848,  diz,  sem  duvida  baseado  em  velhas  chro- 
nicas,  que  os  «  tupiniquins  »  estendiam-sepor  toda 
a  costa  que  alonga-se  da  bahia  de  Camamú,  aos 
i3%53/5\  até  Caravellas,  possuindo  suas  princi- 
pães  aldeias  no  território  de  Porto-Seguro. 

Foram  os  «tupiniquins»  que  assistiram  a  missa 
de  frei  Henrique  de  Coimbra,  perpetuada  na  tela 
immortal  de  Victor  Meirellcs,  c  pertenciam  a  essa 
tribu  os  três  indígenas  que  João  Lopes  Bixorda, 
segundo  refere  Damião  de  (jocs,  apresentou  cm 
i5i5  a  D.  Manoel,  rei  de  Portugal. 

Gabriel  Soares  assevera  ainda  pertencerem  esses 
indígenas  ao  mesmo  tronco  de  seus  visinhos,  pela 
identidade  de  linguagem,  usos  e  costumes,  se  bem 
que  entre  aquelles  e  estes  fosse  constante  a  inimi- 
zade; facto  entretanto  pouco  admirável,  por  isso  que 


35 


vimos  essa  mesma  rivalidade  dividir  tão  profunda- 
mente a  própria  tribu  «tupinambá». 

Mais  domesticáveis  e  mais  sinceros  que  seus 
visinhos  do  norte,  como  assevera  ainda  o  referido 
chronista,  foram  os  «tupiniquins»  os  primeiros 
Íncolas  que  se  relacionaram  com  os  portuguezes. 


A  carta  de  Pêro  Vaz  de  Caminha,  escripta  da 
bahia  Cabralia  a  el-rei  D.  Manoel  em  i.^de  Maio 
de  I  Soo,  documento  em  que,  a  par  da  sinceridade 
do  epistolographo,  transpira  a  nobreza  de  senti- 
mentos do  espirito  que  a  redigio ;  acta  veneranda 
do  primeiro  encontro  da  civilisação  européa  com  a 
rudeza  selvagem  dos  Íncolas  brasileiros,  nol-os 
descreve — como  typos  bem  feitos  e  formosos,  dóceis, 
innocentes,  honestos,  prestáveis,  se  bem  que  alguma 
vez  esquivos  e  desconfiados,  condição  natural  no 
selvagem. 

A  pincturesca  descripção  do  primeiro  encontro 
com  os  Íncolas  e  das  subsequentes  relações  que,  no 
littoral  da  bahia  Cabralia,  tiveram  com  elles  os 
portuguezes,  é  feita  pelo  intelligente  escrivão  da 
feitoria  de  Calicut,  com  aquella  sinceridade  de 
apreciação  e  justeza  deconceitos,  bem  justificada  em 
sua  phrase  —  «  bem  certo  crea  Sr.  que  para  afor- 
mosentear  nem  afear  —  haja  de  poer  aqui  mais  do 
que  vi  eme  pareceu». 

O  proceder  dos  «tupiniquins»  já  na  foz  do  rio 
Cahy,  vindo  rijos  para  o  batel  de  Nicolau  Coelho, 


3() 


mas  accedcndo  promptamente  ao  aceno  deste  em 
deporemos  arcos,  permutando  seus  artefactos  com 
o  sombreiro  e  o  barrete  de  navegante ;  —  já  na  bahia 
Cabralia,  deixando-se  levar  sem  resistência  á  nau 
capitanea,  quando  tomados  em  uma  almadia  por 
Affonso  Lopes; — a  sua  indifferença  ante  o  apparato 
com  que  Cabral  e  seus  capitães  os  receberam; — a 
confiança  que  demonstraram  em  seguida,  deitando- 
see  adormecendo  descuidados  na  alcatifa  do  salão 
onde  essa  singular  scena  se  passava; — a  docilidade 
com  que  nos  dias  seguintes  depunham  os  arcos  aos 
acenos  dos portuguezes que  para  terra  se  dirigiam; 
—  a  bòa  vontade  com  que  prestavam-se  a  ajudal-os 
na  provisão  de  agua  e  lenha; — aattitude  que  obser- 
varamduranteasmissaseporoccasiãodetransporte 
dacruz; — o  prazercom  que  afinal  se  misturaram  com 
os  portuguezes,  com  estes  dançando  e  folgando; — a 
honestidade  com  que  fizeram  restituirão  degradado 
Affonso  Ribeiro  os  objectos  que  um  dos  Íncolas  lhe 
havia  tomado; — finalmente, acompletaausenciade 
hostilidades  contra  o  povo  extranho  que  a  suas 
plagas  aportara,  não  somente  contra  os  que  deti- 
veram-se  no  littoral,  como  ainda  contra  os  que 
internaram-seatéa  aldeia,  a  i  1/2  léguas  da  costa; 
provam  suíiicientemente  a  bondade  de  seus  senti- 
mentos, a  generosidade  de  seu  proceder,  a  sua  rela- 
tiva cultura  moral,  tãodiversamentedescriptas  mais 
tarde  e  tão  mal  recompensadas  depois. 


ri 


Rezam  as  chronicas  que,  no  momento  da  coloni- 
saçâo  das  capitanias  de  Ilhéus,  Porto-Seguro  e 
Espirito-Santo, «  muitos  géneros  de  trabalhos  »  tive- 
ram com  esse  gentio  os  povoadores,  mas  que  feitas 
as  pazes,  muito  lieis  e  verdadeiros  foram  ostupini- 
quins  aos  colonos. 


Pela  orla  do  littoral  que  se  prolonga  de  Pernam- 
buco a  S.  Vicente  começou  e  desenvolveu-se  a 
colonisação. 

Das  principaes  tribus  que  a  occupavam — te  tupi- 
nambás,  tupiniquins  e  tamoios »  só  nos  resta  hoje  a 
memoria  do  seu  sacrifício  e  da  sua  rude  energia. 

Não  é  por  certo  uma  das  mais  bellasapaginade 
nossa  historia  que  relata  a  perseguição  levada  a 
esses  indigenas,  por  accordo  e  ordem  dos  dous 
governadores  Luiz  de  Britto  e  António  Salema,  e 
de  que  foram  máximos  executores  (jarcia  d'Avila  e 
Christovam  de  Barros. 

Depois  de  haverem  defendido  tenazmente  os 
lares  e  a  liberdade,  viram-se  obrigados  a  abandonar 
aquelles  e  a  salvar  esta  nas  densas  florestas  do  norte, 
á  margem  do  mediterrâneo  brasileiro,  que  lhes  fora 
alvez  originário  berço. 

Diz-nos  a  historia  que,  dirigidos  pelo  morubi- 
xaba «Japiassú»,  tomaram  o  caminho  do  norte,  e 
estanciaram  afinal  ás  margens  do  Amazonas. 


\ 


»8 


Ainda  hoje  a  grande  ilha  «Tupinambaranas» 
lhes  attcsta  o  nome  e  recorda  talvez  a  estancia 
ultima,  a  guarida  final  do  seu  existir. 


Os  tapuias,  primitivos  habitantes  do  littoral, 
occupavam  por  occasião  da  conquista  portugueza 
quasi  todo  o  interior  ou,  pelo  menos,  a  parte  inter- 
média entre  o  littoral  e  o  sertão. 

E'  ainda  no  substancioso  Roteiro  da  Costa  do 
Brasil  que  encontramos  a  melhor  noticia  sobre  esse 
povo,  naquella  época. 

Cumpre  entretanto  notar  que  a  denominação  — 
«tapuia»  não  significa  nome  de  raça:  —  os  tupis 
davam-na  a  todos  os  seus  contrários  e  como  o  eram 
as  hordas  do  interior  que  fallavam  linguas  diversas, 
adoptaram-na  os  portuguezes,  applicando-a  exclu- 
sivamente ás  ditas  tribus. 

Destas  as  mais  conhecidas  foram : 

—  Os  (( maracás  »  grande  cantores  e  eximios  fle- 
xeiros,  que  occupavam  provavelmente  a  região 
onde  demora  hoje  a  villa  que  lhes  conserva  o 
nome,  no  médio  sertão  do  Estado. 

Destinguiam-sc  pelo  falar  tremido,  semelhante 
ao  soido  do  maracá,  instrumento  de  uso  quasi  geral 
entre  elles,  e  pela  singularidade  de  não  serem  antro- 
pophagos. 

—  Os  «aymorés»  que  occupavam  a  serra  assim 
denominada,  desenvolvimento  da  cordileira  marí- 
tima nos  Estados  da  Bahia  e  Espirito-Santo. 


39 


Foi,  talvez,  das  tribus  tapuias  a  primeira  que 
se  embateu  com  os  portuguezes. 

Habitantes  das  florestas  eram  mais  alvos,  mais 
altos  e  também  mais  ferozes  que  os  tupis. 

Tinham  uma  linguagem  rude,  gutural,  não  com- 
prehendida  por  nenhuma  outra  tribu. 

Não  possuíam  tabas,  nem  casas;  viviam  sob 
arvores,  faziam  a  guerra  de  emboscada  e  admittiam 
as  mulheres  a  pelejar,  ao  inverso  das  demais 
tribus. 

Assolaram  por  vezes  as  capitanias  de  Ilhéus, 
Porto-Seguro  e  Espirito-Santo. 


Tractando  dos  «ay mores»,  escreveu  em  1848 
Ignacio  Accioli,  o  illustre  chronista  bahiano. 

«E'  esta  a  única  nação  antiga  de  aborígenes  que 
ainda  se  conserva  poderosa  e  pela  maior  parte 
selvagem,  conhecida  agora  geralmente  pela  deno- 
minação de  «Botocudos»  que  lhes  deram  os  portu- 
guezes, em  virtude  do  cylindro  de  madeira  ou 
botoque  que  trazem  por  enfeite  nas  orelhas  e  no 
lábio  inferior. 

Ha  mais  de  duzentos  annos  que  occupam  as 
adjacências  do  rio  Pardo  e  estendem-se  até  ás 
vertentes  do  Belmonte  ou  Jequitinhonha,  Mucury  e 
território  da  provincia  do  Espirito-Santo,  vagueando 
pelo  interior  das  mattasque  bordam  o  rio  Doce.  A 
exemplo  das  demais  raças  aborigenesdistinguem-se 


40 


entre  si  por  diversas  denominações:  são  estas  — 
Engerecmung,  Inos,  Arary,  Naknanuks,  que  signi- 
fica habitantes  da  serra,  (nome  que  se  dão  aos  que 
occupam  as  serranias  que  ficam  entre  o  Jequiti- 
nhonha eoMucuryiCrecmnú  e  Pejarurú,  adoptado 
por  alguns  que  habitam  as  adjacências  do  rio  Doce 
e  do  mesmo  Jequitinhonha». 

Alguns  escriptores  estrangeiros  taes  como 
Blumenbach,Mawe,Chabert  e  outros  referiram-se 
aos  ttaymorés»  ou  *  botocudos,  nenhum  porem 
excede  em  detalhes  ao  illustre  excursionista,  o  sábio 
principedeWiED-NEuwiED,  que  percorreu  extensa 
zona  do  nosso  território,  durante  o^:  annos  de  1 8 1 5  a 
1817. 

A  zona  de  distribuição  dessa  numerosa  tribufoi 
traçada  pelo  eminente  naturalista  —  desde  a  cesta 
oriental  até  as  montanhas  de  Minas-Geraes,  na  vasta 
extensão  de  florestas  comprehendida  entre  o  Rio  de 
Janeiro  e  a  Bahia  de  Todos  os  Santos,  ou  entre  i3 
e  os  23  graus  de  latitude  austral. 

Na  época  em  qucoprincipe  de  Wied  osobser- 
vou,  os  botocudos  dizimados  por  crudelissimas 
perseguições,  a  qu2  alludcm  Southey  e  Ayres  do 
Casal,  occupavam  o  espaço  comprehendido  en  tre  o 
rioPardoeorioDoce,  e  entretinham  communicacão 
de  um  desses  rios  ao  outro,  ao  longo  dos  limites  de 
Minas-Geraes,  achando-se  mais  perto  das  costas 
os  (c patachos»  e  os  u  machacalis». 

Apezar  das  perseguições  a  que  acima  alludi- 
mos,  Maximiliano  encontrou  hordas  de  botocudos 


41 


vivendo  tranquillamente  ás  margens  do  rio  Grande 
de  Belmonte  até  Minas  Novas. 

O  notável  decrescimento  dessa  valorosa  nação 
foi  determinado  quer  pelas  luctas  cruentissimas 
feridas  com  as  tribusvisinhas,  quer  pela  sanha. dos 
primitivos  colonisadores,  que  nunca  trepidaram 
em  dar-lhe  caça,  em  armar-lhe  emboscadas, 
excedendo-os  em  ferocidade,  quando  apparen- 
tavam  agir  em  nome  da  civilisação. 

Já  na  época  em  que  Maximhjano  os  visitou 
havia  a  antropophagia  desapparecido  dentre  os 
botocudos  que  habitavam  o  sul  da  Bahia,  mormente 
nas  regiões  em  que  elles  placidamente  viviam  ao 
lado  dos  europeus,  sendo  que  os  de  Belmonte 
repelliam  indignados  a  censura  irrogada  aos  de  sua 
horda,  de  comerem  carne  humana. 

Esse  factoattesta,de  modo  efficicnte,  a  possibili- 
dade por  parte  dos  europeus  de  os  assimillar, 
trazendo-os  ao  regimen  da  civilisação,  a  que  facil- 
mentese  adaptariam,  dotando  o  Brasil  de  elementos 
ethnicos  muito  mais  vigorosos  do  que  aquelles  que 
resultaram  de  outros  crusamentos. 

Em  1892  foram  encontrados  diversos  botocudos 
á  margem  esquerda  do  rio  Doce,  no  Estado  do 
Espirito-Santo,  acima  do  antigo  aldeiamento  do 
«Mutun»,  já  completamente  abandonado. 

Tractava-se  de  indigcnas  da  tribu  «  Naknanuk», 
reunidos  á  alguns  da  aCh()ps-ch()ps»,que  havia  sido 
dizimada    por  indígenas   do  alto  rio  Doce,    em 

Minas. 

e 


42 


Dirigidos  por  um  chefe  naknanuk,  cego  e 
alquebrado,  ao  qual,  no  entanto,  prestavam  com- 
pleta obediência,  viviam  da  caça  e  da  pesca  sem 
incommodar  os  poucos  habitantes  civilisados  do 
logar,  que  não  raro  os  convidavam  ao  trabalho  e 
aos  folguedos. 

Os  «machacalis)),  os  «patachos»,  os  «mucurysi) 
e  os  «puris)>,  muito  semelhantes  no  physico, 
porem  não  na  linguagem,  construiam  cabanas  de 
ramos  de  arvores  que  entrciaçavam  curvando-os. 

Os  «  patachos  »  e  os  «  machacalis »  habitavam  em 
1 8 1 5  as  florestas  das  margens  do  Alcobaça  ( Itanhem 
na  lingua  indigena). 

Pensa  Accioli  que  faziam  parte  dessa  nação  os 
«macaxans,  minochós,  macunis,  bacomins,  mala- 
bis,  mangalos  e  os  manhos»,  que  infestaram  por 
algum  tempo  a  villa  do  Prado,  concentrando-se 
mais  tarde  na  zona  comprehendida  entre  aquella 
villa  e  a  de  S.  Matheus. 

Alem  das  tribus  mencionadas,  merece  citação 
especial  a  dos  «mongoiós»  ou  «camacans»  que 
occupavao  território  comprehcndido  entre  os  rios 
de  Contas  c  Pardo. 

Esses  indigenasquc  mereceram  modernamente 
ser  estudados  pelo  illustrc  Dr.  Sá  e  Oliveira,  hoje 
cxtincto,  eram  de  Índole  bellicosa,  insubmissos  a 
qualquer  ideia  de  domínio,  ati  que  foram  derro- 
tados em  i8o6  pelas  forças  ao  mando  do  Capitão 
João  Gonçalves  da  Costa,  no  logar  onde  fundou-se 
o  arraial  da  Conquista. 


43 


A  diversidade  de  línguas  entre  os  tapuias  emba- 
raça certamente  o  estudo  que  se  possa  fazer  sobre  a 
sua  origem,  afastando  ao  mesmo  tempo  a  possibili- 
dade deconsideral-os  ethnicamente  uma  nação. 

Parece-nos,  entretanto,  que  essa  diversidade  de 
linguas,  certas  differenças  de  costumes,  o  elevado 
numero  de  hordas  disseminadas  pelo  vasto  sertão, 
a  ausência  de  habitações  e  de  outras  relativas  com- 
modidadesdo existir, sua  mui  baixa  selvageria  justi- 
ficam a  hypothese  de  serem  elles  os  descendentes 
directos  dos  autóctones  das  regiões  que  habitavam 
—  o  producto  do  solo:  — c  a  observação  de  Lund, 
considerando  o  homem  da  Lagoa  Santa- cuja  remota 
antiguidade  demonstrou  —  da  mesma  raça  dos 
actuaes  representantes  tapuias  da  localidade — , 
parece  trazer  a  essa  hypothese  o  cunho  de  verdade 

histórica. 

« 

Emquanto  á  theogonia  dos  indigenas  muito  se 
tem  escripto  e  conclusões  positivas  ainda  não  se 
puderam  tirar. 

Julgamos,  entretanto,  com  Romkro — que  o  in- 
dígena brasileiro  não  passara  ainda,  na  época  do 
descobrimento,  muito  alem  do  puro  naturalismo. 

O  Dr.  Amedée  Moura,  que  occupou-se  com  pro- 
ficiência dos  indígenas  de  Matto-Grosso,  exprimio- 
se  nos  seguintes  termos  sobre  o  facto  em  questão: 

«  Pour  ce  quí  regarde  les  manifestations  de  Tàme 
et  Fcxpression  des  croyances  religicuses  les  Indiens 


44 


nV)nt  pas  de  culte,  parce  que  les  lumieres  de  la  foi 
n'ont  pas  encore  éclairé  leur  ignorance». 

ExHKWEGK  affirma  que  os  «guaycurús»  têm 
religião  e  o  mesmo  se  pode  inferir  dos  conceitos  do 
príncipe  de  Wied,  com  respeito  aos  «botocudos», 
que  chegam  a  ter  opiniões  originaes  sobre  os  maus 
espiritos. 

A  lua  ( tarú )  c  para  elles  objecto  da  maior 
veneração ;  e,  consoante  sua  theogonia,  é  causa 
determinadora  de  diversos  phenomenos  da  natu- 
reza, sendo  que  o  sol,  o  trovão,  o  relâmpago  são 
venerados  entre  elles. 

No  que  diz  respeito  a  religião  dos  «  camacans  », 
conhecemos  a  relação  mandada  ao  cónego  Benigno 
José  de  Carvalho  e  Cunha  pelo  missionário  barba- 
dinho  Frei  Ludovico,  cujo  original  se  acha  incluído 
nospreciosos  manuscriptosda  BibliothecaNacional. 

Assim  se  exprime  o  venerando  missionário: 

«Os  selvagens  camacães  moradores  nas  mattas 
do  districto  de  Ilhéus,  a  vista  dos  Astros  luminosos 
do  Firmamento,  reconhecem  que  ha  um  ser  inyi- 
sivel,  que  preside  a  elles,  que  governa  seus  giros  e 
periódicos  movimentos  o  qual  ser  é  chamado  em 
lingua  delles  — Qucggeahorá  e  vem  a  serem  nosso 
idioma  -  -  Knte  Supremo. 

O  embrutecido  entendimento  delles  não  lhes  dá 
logar  a  discorrer,  a  descobrir  neste  Ente  Supremo 
aitributos,  que  o  façam  digno  de  adoração,  e  disto 
segue-se  que  não  se  acha  entre  elles  nem  Culto  nem 
vestigio  de  Religião. 


45 


Sabem  também  que  existe  em  ver  os  fenómenos 
mais  sensivèis  e  este  conhecimento  se  reduz  a  uma 
ideia  confuza  que,  despida  de  raciocinio  produz  no 
seu  inculto  espirito  um  sentimento  material  de 
momentânea  admiração  e  nada  mais. 

Admittem  a  immortalidade  da  alma  e  imaginam 
que  sendo  esta  separada  do  corpo  não  se  afasta  delle, 
emquanto  não  é  completamente  corrupto  e  putre- 
facto; julgãoque  as  almas  livresdo corpo  percorrem 
as  mattas,  que  assistem  ás  suas  conversas,  ás  suas 
dansas,  e  são  testemunhas  das  suas  acções:  que 
voam  pela  atmosfera  ou  pelo  espaço  que  ha  entre  a 
terra  e  Lua,  que  a  considerão  como  a  morada 
exclusiva  das  almas  dos  seus  defuntos  e  lugar  de 
seu  descanco. 

Tomão  o  eclipse  da  Lua  como  um  signal  certo 

da  indignação  das  mesmas  almas  causado  de  algum 

crime  que  elles  fizerão  e  emquanto  o  planeta  não 

clareou  totalmente  se  escondem  ese  acautelão,  por 

não  serem  oífendidos  dos  bichos  ferozes  dirigidos, 

dizem  elles,  por  uma  das  almas,  que  entra  no  corpo 

dos  mesmos  bichos  para  com  mordeduras,  ou  com 

estragos  vingar-se  da  respectiva  offensa».  ( i ) 


Quanto  á  arte,  as  investigações  archeologicas 
tios  tem  apenas  habilitado  a  julgar  pela  cerâmica 
^xhumada,  as  armas  e  os  instrumentos  de  pedra. 

( 1  )  Conservamos  a  ortographia  e  a  f»yntaxe  do  original. 


46 


Umas  e  outras  provam  que  arte,  propriamente 
dieta,  não  possuiam  os  nossos  indigenas,  sendo  que 
na  fabricação  dos  utensis  necessários,  indispen- 
sáveis á  sua  vida  primitiva,  a  perfeição  cabe  sempre 
as  tribus  tupis  e  dentre  essas  ás  que  habitavam  o 
deita  do  Amazonas;  assim  nol-o  demonstram  os 
espécimens  encontrados  na  colina  de  Pacoval,  na 
ilha  Marajó. 

E  esta  demonstração  constitue  rpais  um  asserto 
em  favor  das  ideias  que  despretenciosame.nte  aqui 
acabamos  de  externar. 


  íéb  Caplla  dos  Jesnltas 

NA  BAHIA  (*) 

\1SK  TESAR  de  estar  longe  ainda  o  dia  em  que  o 
^&^  homem  de  lettras  e  o  que  se  dedica  a  certos 
trabalhos  da  intelligencia  possa  viver  só  com  isto 
entre  nós,  por  ser  ainda,  o  que  se  chama  a  erudição, 
a  illustração,  no  sentido  lato  do  vocábulo,  não  uma 
profissão,  mas  uma  cousa  apenas  boni  ia,  que  começa 
a  agradar  mas  inteiramente  platónica,  como  uma 
jóia  que  nem  todos  possuem  mas  que  não  tem  valor 
positivo  e  real,  parece  comtudo  que  não  se  devem 
desprezar  alguns  assumptos  que  em  futuro,  talvez 
não  muito  remoto,  venham  a  alcançar  a  impor- 
tância e  o  valor  que  merecem. 

E  como  estamos  no  Instituto  Histórico,  enten- 
demos não  fazer  obra  imprópria,  apresentando 
hoje  este  despretencioso  e  modesto  trabalho. 

A  descripção  dos  nossos  monumentos,  a  exhu- 
mação  da  viaa  do  nosso  passado  estão  neste  caso. 

Um  delles  é  o  Collegio  dos  jesuitas,  fundado  e 
edificado  nesta  mesma  praça  onde  estamos,  ha 
35 1  annos,  isto  é,  desde  o  primeiro  século  da 
colónia,  49  annos  depois  da  descoberta  do  Brasil, 
ao  mesmo  tempo  que  se  fundou  a  cidade  da  Bahia 
para  capital  da  nova  terra,  estabelecendo-se  nella 
o  primeiro  governo  geral  instituido  pelos  portu- 
guezes  aqui. 

Com  o  inicio  da  vida  administrativa  no  Brasil 
regularisa-se  também  a  catechese;  e  a  ordem  dos 
jesuitas,  cujos  serviços  á  civilisação  da  nossa  pátria 
não  se  podem  negar,  iniciava  também  os  seus 
grandes  e  penosos  trabalhos. 

(*)  Memoria  lida  na  set-sâo  de  3  de  Maio  de  1902  pelo  sócio  Dr, 
Braz  do  Amaral. 


48 


Os  primeiros  padres  construíram  uma  capella 
de  taipa  coberta  de  palha  e  nesta  obra  trabalharam 
com  as  suas  mãos,  amassando  barro,  conduzindo 
materiaes,  o  grande  Manoel  da  Nóbrega,  assim 
como  os  seus  companheiros,  com  aquellas  mesmas 
mãos  gloriosas  que  levantaram  o  crucifixo  aos 
olhos  dos  indigenas  e  que  prepararam  assim  os 
elementos  de  paz,  de  ordem,  de  moralidade,  de 
liberdade,  pelos  quaes  tanto  combateram  muitos 
dos  seus  irmãos  da  companhia  e  que  tanto  deviam 
servir  para  a  constituição  de  uma  nacionalidade 
três  séculos  depois. . . 

Foi  em  i55i(?)  que  começaram  os  padres  a 
obra  do  seu  magestoso  templo,  o  chamado  CoUegio 
de  Jesus,  que  ali  se  vê  com  as  suas  dependências, 
e  que  forma  hoje  a  cathedral  com  a  sua  bella 
sachristia  e  accessorios,  os  commodos  da  antiga 
Bibliotheca  Publica  e  todo  o  edifício  onde  funccio- 
nou  n\)utro  tempo  o  Hospital  da  Misericórdia,  até 
1889,  quando  foi  transferido  para  Nazareth,  assim 
como  a  Faculdade  de  ^Medicina,  que  do  velho 
collegio  dos  jesuitas  já  quasi  nada  tem,  por  haver 
sido  inteiramente  reformada  a  construcção  no 
fundo  e  na  forma. 

Só  aqui  e  ali  se  encontrará  no  meio  dos  mate- 
riaes alguma  pedra,  uma  porta  entalhada  á  antiga, 
um  azulejo  esquecido,  que  indicarão  ao  entendido  o 
collegio  dos  padres  dos  tempos  da  colónia. 

A  grande  peça  subterrânea  abobadada  queservia 
ainda  ha  poucos  annos  de  deposito  d'agua,  num 
dos  pateos  centraes,  e  que  a  tradição  popular 
assevera  ter  sido  o  ponto  de  partida  de  um  dos 
grandes  caminhos  subterrâneos  construidos  pelos 
padres,  foi  entulhada  ultimamente. 

O  saguão  antigo  com  as  suas  lages  quadradas  foi 
inteiramente  transformado,  e  só  algumas  delias 
aproveitadas  na  architectura  dos  arcos  romanos 
que  hoje  ostentam  o  i.*"  andar. 


49. 


Ainda  não  ha  muito  se  descobriu  casualmente  a 
antiga  fossa  que  servia  para  o  convento  e  que  com- 
municava  provavelmente  com  o  grande  conductor 
de  alvenaria  que  pelo  dorso  da  montanha  ia  vasar 
os  detrictos  e  aguas  servidas  no  mar,  pouco  mais 
ou  menos  no  logar  chamado  ainda  Gumdastc  dos 
Padres. 

Foi  um  mestre  de  obras  quem  encontrou  esta 
fossa,  sob  um  assoalho  uue  tinha  recebido  uma 
camada  de  cimento,  e  ella  se  acha  actualmente 
por  baixo  de  uma  parte  do  gabinete  de  chimica 
analytica. 

A  velha  cryptados  jesuitas  está  ainda  lá  muito 
ignorada  e  abafada  no  meio  de  uma  multidão  de 
entulhos  ignóbeis;  os  seus  sepulchros  rasos,  os 
carneiros,  como  leitos  feitos  no  muro,  e  o  seu  tecto 
de  estuque  já  muito  maltratado,  mas  onde  num 
canto  se  percebem  ainda  vestigios  de  uma  pintura, 
lá  existe  em  baixo  da  antiga  bibliothcca,  logo  ao 
nivel  da  terra,  em  frente  do  moderno  pavilhão  de 
anatomia  da  Faculdade  e  por  detraz  da  sala 
de  direcção  que  fica  a  cavalleiro  da  montanha 
da  Faculdade  e  por  detraz  da  sala  e  das  obras  do 
Plano  Gonçalves. 

Lá  descemos,  Munhoz  (íóes  e  eu,  quando  pro- 
curámos um  dos  subterrâneos  que  a  tradição  diz 
existirem  na  cathedral,  trabalho  em  que  perdemos 
infructiferamente  até  agora  tempo  e  esforços. 

E'  a  Bahia  histórica,  do  tempo  dos  vice-reis 
com  as  suas  intrigas  de  que  se  queixam  tantas 
cartas  ao  rei  e  os  seus  cuidados  pelo  desbravamento 
e  pela  defeza  da  terra. 

A  cella  de  Vieira  também  alli  se  vê  ainda  ao 
lado  do  grande  corredor  que  leva  á  sachristia  e  por 
cima  da  crypta ;  destas  peças  é  a  mais  conhecida 
pela  vulgarisação  que  este  Instituto  deu  ao  celebre 
padre  quando  promoveu  as  festas  commemora- 
tivas  do  seu  centenário. 

7 


50 


Pretendemos  hoje,  o  nosso  consócio  Munhoz 
Góes  e  eu,  nos  occupar  da  capella,  que  é  uma  jóia 
architectonica  internamente. 

Era  a  capella  particular  dos  padres  e  parece 

aue  foi  construida  com  o  collegio  de  i55i  em 
iante. 

Ku  ainda  conheci  o  primitivo  corredor  e  penso 
que  a  soleira  de  pedra  escura,  tirada  daqui,  da 
costa,  cavada  pelo  attrito  dos  pés,  é  a  primitiva  e  a 
mesma  que  foi  pisada  pelos  luminares  da  ordem  no 
Brasil. 

Ainda  ha  pouco  tempo  alli  se  achava  a  grande  c 
esplendida  cadeira  de  jacarandá,  a  cadeira  do 
Padre  Vieira,  que  se  encontra  hoje  no  seminário  de 
Santa  Thereza  para  onde  foi  transferida. 

A  capella  está  encravada  nas  construcções  da 
Faculdade,  e  quem  sobe  a  escada  de  mármore  em 
curva  que  hoje  dá  accesso  ao  i ."  andar  passa  ao 
lado  delia. 

Uma  porta  antiga  de  almofadas  com  3  metros  e 
3o  centimetros  de  altura  e  i  metro  e  90  centimetros 
de  largura  otierece  ingresso  ao  visitante. 

A  peça  toda  tem  da  soleira  até  a  maior  rein- 
irancia  do  altar  que  lhe  íica  em  frente  1 8  metros  e  na 
largura  mede  8  metros  e  2  centimetros.  As  paredes 
têm,  tanto  de  um  lado  como  de  outro,  2  metros  de 
espessura. 

Deve-se  addicionar  ao  cumprimento  mais  2 
metros  e  95  centimetros  que  é  o  que  corresponde  ao 
altar. 

Toda  a  peça  é  assoalhada. 

A  capella  tem  cm  lorno,  desde  o  rodapé  até  i 
metro  e  23  centimetros  de  altura,  uma  faixa  de 
azulejos  representando  uma  série  de  escudos,  todos 
de  assumptos  religiosos,  cxtrahidos  do  Evangelho. 
O  i.^^á  esquerda  do  altar  representa  o  Agnusoccisus; 
o  2.\  Quasi  plantalia  rosa*;  o  3."  Puteus  aquarum; 
04."  TurrisDavid;  o  5."  Speculum  sine  macula;  o 
6."Stellamaris;  o  7."  Electa  ut  sol; o 8/  Pulçha  ut 


51 


luna;  o  9/  Quasi  palma;  o  10,  Quasi  oliva;  o  i  í, 
Fons  signatus;  o  í2,  Templum  dei;  o  i3,  Ortus 
conclusus;o  14,  Aperti  sunt  oculi. 

Fntre  es  estudos,  os  desenhos  dos  azulejos 
representam  o  seguinte:  o  i.",  restos  de  um  arco 
romano;  o  2.%  um  viajante  apoiado  em  iim  bordão, 
tendo  diante  desi  um  poço ;  o  3.",  um  homem  andra- 
joso com  um  cão;  o  4/',  uma  mulher  numa  estrada 
também  apoiada  em  um  cajado;  o  5/,  um  velho 
sentado  em  uma  pedra;  o  6.%  um  moço  seguido 
por  um  cão  enorme;  o  7/  representa  o  Lazaro;  o 
8.%  um  homem  com  um  púcaro;  o  9."  representa 
iim  mutilado ;  o  1 0°,  uma  torre  diante  da  qual  passam 
navios;  o  i  r  é  um  menino  acompanhado  por  um 
homem  com  um  volume  nas  costas  subindo  uma 
ladeira;  12",  um  rio  no  qual  passam  escaleres  e  ao 
fundo  veem-se  edifícios  grandiosos. 

Acima  da  faixa  de  azulejos  entre  estes  e  a  cornija 
dourada  segue-se  um  espaço  de  parede  caiada  que 
mede  2  meiros  e  40  centimetros  de  alto;  no  meio 
desta  parede  abrem-se  3  janellas  de  cada  lado,  todas 
eguaes,  tendo  2  metros  e  i  decimetro  de  altura  e  de 
largura   i  metro  e  94  centimetros. 

De  cada  lado  da  porta  acham-se  duas  pias  de 
pedra  vermelha  arredondadas  e  muito  elegantes, 
tendo  45  centimetros  no  maior  diâmetro  e  3o  no 
menor.  Foram  feitas  com  a  mesma  pedra  vermelha 
das  pias  da  cathedral,  sendo  para  notar  que  esta 
pedra  vermelha  que  se  encontra  em  alguns  edifícios 
dos  séculos  16  e  17  aqui,  parecem  ter  sido  tiradas 
de  Valença  e  proximidades  onde  aífirma  pessoa  de 
credito  haver  quantidade  d'ella,  que  era  cxtrahida 
e  trabalhada  nos  tempos  coloniaes. 

\o  alto  da  parede  corre  uma  larga  cornija  dou- 
rada em  alto  relevo,  formando  arabescos,  susten- 
tada por  10  cabeças  de  anjos,  cinco  de  cada  lado. 
Faltam  aitida  as  duas  da  cornija  do  altar. 

O  tecto  é  uma  belleza ;  grandes  quadrados  pinta- 
dos de  cores  fínas  em  que  predominam  o  castanho,  o 


52 


preto  sobre  um  fundo  branco  dão-lhe  muita  riqueza 
e  valor;  é  pena  que  este  tecto  já  esteja  estragado;  é 
mesmo  a  parte  mais  estragada  da  capella.  A  viveza 
porém  das  tintas,  a  sobriedade  e  perfeição  do 
desenho,  a  boa  qualidade  do  óleo  empregado, 
talvez  o  de  nozes,  tornam  muito  interessante  este 
trabalho  de  arte  não  só  pelo  que  foi  esculpido  na 
madeira  propriamente  dita,  e  que  é  provavelmente 
cedro,  como  pelo  valor  da  pintura.  Estes  quadrados 
estão  dispostos  em  3  filas;  o  revestimento  de 
madeira  que  os  separa  é  todo  esculpido  em  baixos 
relevos  representando  cachos  de  uvas,  volutas 
entrelaçadas,  etc. ;  nas  pontas  de  juncção  dos  qua- 
drados, ha  maçanetas  pintadas  e  douradas,  entre 
elles  correm  linhas  dentadas  esculpidas  na  madeira, 
pintadas  de  branco,  ladeadas  por  frisos  dourados. 

Nos  intervallos  deixados  entre  os  quadrados  e 
as  duas  cornijas  formaram-se  grandes  triângulos, 
em  que  se  levantam  florões  em  alto  relevo  doura- 
dos, sobre  fundo  branco,  alternando  com  outros 
triângulos  em  que  se  levantam  também  em  relevo, 
ainda  mais  elevado,  grandes  ornamentos  dourados, 
á  semelhança  de  capiteis,  sendo  oito  de  cada  lado 
e  quatro  nofundo. 

Abaixo  desta  cornija  ha  uma  outra  também 
toda  dourada.  Alguns  podem  consideral-as  como 
uma  só  peça  architectonica. 

Nós  as  consideramos  separadas  para  facilitar  o 
trabalho  e  tornal-o  mais  methodico. 

Ha  ainda  outro  motivo.  Entre  as  duas  fizeram 
uma  serie  de  telas,  ao  lodo  20:  8  de  cada  lado  e  4 
no  alto  da  parede  da  entrada,  onde  foi  praticada  a 
porta;  os  painéis  que  são  todos  bons,  se  bem  que 
não  tão  finos  como  os  que  adornam  a  magnifica 
sachristia  dacathedral,  estão  entre  estas  duas  faixas 
de  altos  relevos  de  magníficos  arabescos  dourados 
em  que  a  pintura  foi  combinada  com  muito  gosto, 
porque  tanto  as  telas  como  os  arabescos,  apezar  do 


53 


seu  excesso  de  ouro,  destacam-se  sobre  o  fundo 
branco. 

No  fundo  esta  o  altar;  altar  mór,  não  sei  se 
deva  chamar  porque  é  o  único  da  capella. 

Elie  é  constituído  por  duas  fileiras  de  columnas 
lisas  cobertas  de  arabescos  com  relevos  altos,  dou- 
rados cujos  pedestaes  têm  de  largura  7  decimetros 
e  de  altura  8.  São  6  columnas,  3  de  cada  lado,  que 
avançam  formando  o  espaço  onde  se  acha  o  altar 
com  a  largura  de  67  centimetros.  As  bases  destas 
columnas  avançam  sobre  a  plataforma  do  altar  60 
centimetros.  Elías  medem  2  metros  e  7  decimetros 
de  altura  e  são  todas  de  cedro  dourado. 

No  meio,  sobre  a  plataforma  do  altar,  mais 
levantado,  fizeram  um  nicho  com  2  metros  e  4 
decimetros  de  altura,  e  por  sobre  este  um  outro 
menor  sustentado  por  4  columnatas  terminadas 
por  maçanetas  grandes  douradas. 

Destas  4  columnatas  duas  são  mais  salientes  e 
duas  mais  reintrantes;  entre  ellas  quatro  cabeças 
de  anjos  esculpidas  na  madeira  e  pmtadas. 

Por  cima  das  columnas  grandes  que  ladeiam  os 
nichos  ha  dous  anjos  de  cada  lado  sustentando 
arabescos. 

O  vértice  do  altar,  no  alto,  sobre  o  nicho  menor 
ha  grande  ornamento  todo.  dourado  ao  qual  entre- 
tece e  de  onde  escapa  uma  grande  fita  de  ouro. 

No  nicho  superior  encontra-se  ainda  uma 
imagem  de  cerca  de  i  metro  e  60  centimetros  de 
altura,  talvez  S.  Ignacio  de  Loyola  com  os  para- 
mentos sagrados,  tendo  na  mão  um  livro  aoerto 
onde  se  lê  escripta  em  grandes  caracteres  a  divisa 
da  ordem  —  «  Ad  majorem  Dei  gloriam  » .  Este  livro 
repousa  sobre  um  capitel  formado  pela  cabeça  de 
um  anjo  e  terminado  inferiormente  por  um  plano 
inclinado  de  escamas  douradas. 

O  nicho  grande,  que  fica  por  baixo  do  de  S. 
Ignacio,  é  dedicado  á  Virgem. 


54 


Na  cornija  que  separa  os  dous  nichos,  no  ponto 
correspondente  ao  alto  do  nicho  da  Virgem,  ha  um 
escudo  azul  e  ouro  com  a  seguinte  ifiscripção  — 
«Maria  Assumpta  estin  coelum». 

Mais  abaixo  no  retábulo  que  forma  a  base  do 
altar  ha  dous  escudos  pintados  de  escuro  sobre 
fundo  branco  com  a  incripção  -  « Reliquiaj  san- 
ctorum». 

Aqui  ha  poucos  arabescos. 
Sobre  elle,  porém,  o  sacrário  é  todo  de  ouro  e 
ornamento;  elle  tem  i  metro  e  35  centimetros  de 
altura. 

O  crucifixo  de  madeira  tem  i  metro  e  4  deci- 
me tros. 

O  nicho  em  que  está  a  imagem  da  Virgem,  todo 
de  cedro  douraclo,  tem   90  centimetros  de  fundo. 
O  Santo  Ignacio  tem  i  metro  e  45  centimetros  e 
o  nicho  em  que  elle  se  acha  1  metro  e  70. 

Nos  outros  dois  nichos  contiguos  ha  também 
duas  imagens  de  santos;  o  da  esquerda  com  j5 
centimetros  de  altura;  e  o  da  direita  com  95 ;  os 
dois  outros  nichos  externos  (  pois  são  5  ao  todo ) 
estão  vasios. 

Suppõe-se  que  nesta  capei  la  existem  os  ossos 
do  grande  Anchieta, pois  se  sabe  que  tendoo  illustre 
jesuita  fallecido  no  Espirito-Santo  foram  os  seus 
restos  trasladados  para  a  Bahia,  não  se  sabendo  ao 
certo  onde  param.  Parece  que  em  Roma  mesmo, 
os  que  dirigem  a  ordem  acreditaram  até  ha  bem 
pouco  tempo  que  na  Capella  do  CoUegio  estivessem 
os  ossos  de  José  de  Anchieta,  pois  o  padre  Tadei 
recebeu  ordem  do  geral  da  Companhia  para  vir 
explorar  as  paredes  da  Capella  do  lado  do  Evan- 
gelho. Entendeu-se  aquelle  padre  com  o  director 
da  Faculdade  e  foram  levantados  alguns  dos  azu- 
lejos da  parede  do  lado  esquerdo  sem  resultado 
algum. 

Quando  andamos  estudando  a  Capella,  Munhoz 
e  eu  sondamos  todas  as  paredes  sem  que  o  som 


oo 


revelasse  haver  n'algum  ponto  o  esconderijo  procu- 
rado, porque,  sendo  muito  antiga  a  ligação  dos 
azulejos  ao  muro,  a  argamassa  muito  secca  dá  por 
toda  a  parte  a  mesma  sonoridade  de  parede  oca 
sem  que  o  esteja  realmente. 

E'  crivei  que  aquelles  preciosos  restos  se  achem 
em  uma  das  Capellas  da  Cathcdral,  talvez  na 
parede  ao  lado  esquerdo  da  própria  Capeiia  mór. 


^r.   Srcz  do  Amaral. 


COLONOS  indígenas  E  ESCRAVOS 
Os  jesuítas  a  ca.techese 

HISTORIA  DO  BRASIL  (*) 


[sTUDANDo  a  incipiente  sociedade  brasileira 
'  no  primeiro  período  da  colonisação  em  seus 
elementos  constitutivos,  vemos  que  estes  se  distri- 
buiam  em  três  classes: — fidalgos,  peões,  gentios 
e  escravos. 

A  primeira  comprehendia  os  donatários  ou  capi- 
tães mores,  verdadeiros  suzeranos  em  seus  feudos, 
devendo  obediência  somente  ao  Rei,  e  grande  parte 
dos  sesmeiros,  uns  de  caracter  e  costumes  mansos, 
outros  completos  aventureiros,  que  buscavam  em  a 
nascente  colónia  pasto  abundante  ao  exercicio  dos 
vicios  que  as  leis  da  metrópole  não  toleravam. 

A  segunda  era  constituída  pelos  colonos  pro- 
priamente ditos  —  agricultores,  criadores  e  mestei- 
raes,  incontestavelmente  a  melhor  provida  de 
elementos  conservadores,  mas  ainda  assim  não 
extreme  da  lia  que  as  justiças  portuguezas  para  aqui 
exilavam,  com  o  ferrete  da  ignominia  que  a  lei 
lhes  impunha. 

A  terceira  abrangia  os  indígenas  livres,  appa- 
rentemente,  e  os  escravos  quer  indígenas,  quer 
africanos. 

Estas  classes,  podendo  ser  assim  delimitadas, 
não  se  isolavam,  não  faziam  vida  á  parte  como  no 
feudalismoeuropeu:misturavam-se,almagavam-se, 

Memoria  lida  na  sessão  de  3  de  Maio  de  1902  pelo  sócio  fundador 
Profe88or  António  Alexandre  Borges  dos  Reis, 
8 


58 


confundiam-se  pelo  choque,  pela  exploração,  pela 
nota  da  cupidez  e  do  sensualismo,  que  era  a  moral 
dominante  de  tão  encontrados  e  heterogéneos 
elementos  a  proliferarem  entre  a  pujança  desta 
natureza  tropical. 

Em  breve  trecho,  pois,  a  mistiçagem  avolumou- 
se:  surge  o  mameluco,  producto  cio  crusamento  do 
portuguez  com  a  indigena,  sempre  activo  e  irre- 
quieto, mas  nem  sempre  benévolo  e  humano:  se 
na  fundação  do  arraial  de  S.  Paulo  vemol-o 
enfrentar  até  os  jesuitas,  o  encontramos  mais  tarde 
como  o  mais  ferrenho  perseguidor  da  raça  materna, 
no  typo  odioso  de  caçador  de  indios:  junta-se-lhe 
o  cunboca,  crusamento  do  ne^ro  com  a  indigena, 
e  o  mulato,  resultado  idêntico  da  negra  com  o 
branco. 

Ethnicamente,  pois,  era  essa  a  sociedade;  poli- 
tica e  juridicamente  a  feição  da  colónia  na  primeira 
phase  de  sua  historia  pôde  ser  synthetisada  nas 
seguintes  palavras:-  o  portuguez  explorando  o 
solo  pelo  trabalho  do  negro  e  exterminando  o 
indigena  por  não  se  prestar  este  ao  mesmo  regimen, 
por  vir  perturbai  o  naquella  tarefa;  situação  domi- 
nada pelos  princípios  os  mais  absolutos  e  intole- 
lerantes  e  sempre  intranquilla,  já  pelas  luctas 
intestinas  que  a  própria  cobiça  accendia,  já  pela 
repulsa  e  aggressão  do  íncola,  já,  finalmente,  pelos 
ataques  e  assaltos  de  inimigos  externos — francezes, 
hespanhoes,  hollandezes,  inglezes,  a  disputarem  a 
jóia  rica  que  a  sancção  papal  houvera  doado  e 
confirmado  ás  lusas  quinas. 

Destaca-se,  portanto,  neste  primeiro  período 
de  nossa  historia,  disposticoe  soberano,  o  elemento 
portuguez;  porquanto  o  indigena  6  sempre  afinal 
um  vencido  e  rechassado,  e  o  negro  é  o  animal 
domestico  que  trabalha  e  chora. 

Estudando,  agora,  separadamente  as  três  raças 
que  foram  outros   tantos   elementos  ethnicos   a 


59 


constituir  o  povo  brasileiro,  já  em  suas  descen- 
dências directas,  já  pela  constituição  do  novo  typo, 
o  mestiço,  e  apreciando  a  sua  influencia  em  a 
nossa  evolução  social,  vemos  que,  —  de  fidalgos 
aventureiros  e  dissolutos,  degradados,  soldados, 
marujos  e,  de  envolta,  alguns  homens  bons,  consti- 
tuiram-se  os  colonisadores  portugueses,  isto  é,  a 
primeira  camada  do  elemento  europeu  que  veio  a 
ser  o  nosso  primeiro  factor  ethnico,  juntando-se-lhe 
mais  tarde  elementos  da  mesma  procedência, 
porém  moralmente  mais  sãos,  quando,  com  o 
estabelecimento  de  um  governo  geral  no  paiz, 
regulou-se  a  distribuição  da  justiça,  garanliu-se  a 
propriedade,  e  firmoií-se  o  dominio  do  direito  e 
da  lei. 

Soífrendo  a  influencia  e  a  modificação  do  meio 
physico,  a  alteração  produzida  pelo  contacto  imme- 
diato  de  duas  cívilisaçòes  inferiores,  cujos  repre- 
sentantes tinha  de  \nsncer,  subjugar,  disciplinar,  o 
elemento  portuguez  nacionalisou-se,  e  entrou  como 
o  factor  mais  preponderante  na  constituição  da 

[)atria  nova,  pelo  seu  caracter  em  extremo  assimi- 
ador,  pela  ascendência   li^itima  da   familia,    da 
cultura  intellectual,  da  posição  social  e  politica. 

Sua  descendência  directa,  alimentando-se  sem- 
pre na  primitiva  fonte,  dirigindo  os  descendentes 
das  outras  duas  raças,  também  pelo  mesmo  pro- 
cesso alimentados,  e  o  typo  intermédio,  que 
crearam,  atravessa  a  nossa  historia  illuminando-a 
de  esplendores  épicos  na  integração  e  na  defezado 
pátrio  solo,  na  vingança  da  honra  nacional  ul- 
trajada, e  nas  conquistas  luminosas  da  paz  e  do 
trabalho. 

E  prepara,  pela  absorpção,  pela  remodelação 
final,  a  raça  forte  que  ha  de  firmar  a  hegemonia  de 
nossa  pátria  na  America  latina. 

Emquanto  á  raça  indigena  vemos  que  ella  foi 


(» 


na  primeira  phase  do  povoamento,  como  em  todo 
o  periodo  colonial  —  alliada,  inimiga  ou  escrava. 

Quando  alliada,  prestava  valiosos  serviços  ao 
colonisador,  combatendo  a  tribu  adversa,  ensi- 
nando áquelle  os  ardis,  os  caminhos,  a  estratégia 
Íncola,  dominada  pelo  espirito  guerreiro  que  lhe 
constituia  a  feição  principal  do  caracter. 

Quando  inimiga,  investia  bravamente  contra  o 
portuguez  que  a  perseguia  e  expoliava,  ou  alliava-se 
ao  francez  que  fazia  ácjuelle  intelligente  concurren- 
cia,  inspirada  no  sentimento  da  vingança,  instincto 
natural  no  selvagem,  saciada  muita  vez  na  devas- 
tação das  fazendas  e  no  morticínio  do  colono. 

Quando  escrava,  mostrava-se  fraca  e  indolente 
oara  o  trabalho,  insubmissa  ao  eito,  sempre  dis- 
posta  a   ganhar   a    selva    próxima,    guarida    da 
iberdade  que  se  lhe  arrancava  eonde  podia  conti- 
nuar a  vida  da  natureza,  indolente  e  ociosa. 

Vencido,  perseguido,  somente  utilisado  para  a 
guerra,  destaca-se,  entretanto,  neste  particular, 
heróico  e  intemerato,  o  elemento  indígena;  e  os 
seus  serviços,  no  prélio  ingente  travado  com  os 
batavos  pela  intejíridadc  do  território  nacional, 
foram  inestimáveis.  Fora  isso,  somente,  como 
elemento  passivo  releva-se  cm  o  nosso  progredir. 

Entretanto,  os  seus  descendentes  mais  immc- 
diatos,  os  bellos  caboclos  do  norte,  os  sertanistas 
do  oeste  e  do  sul  em  demonstrações  de  civismo 
honram  bem  alto  as  virtudes  guerreiras  de  seus 
ayós. 

Kmquanto  ao  elemenío  africano  introduzido  no 
Brasil  desde  o  inicio  de  sua  colonisação,  como 
escravo  e  instrumento  de  trabalho,  vcnios  que  era 
oriundo  da  Guiné  principalmente,  e  da  região  do 
littoral  quedahi  se  estende  até  Moçambique.  Pro- 
cedia, portanto,  dos  berberes,  jalofos,  mandingas, 
telupos  ou  congos,  angohis,  benguelas,  a  que  mais 


61 


tarde  juntaram-se  os  minas,  únicos  esses  que  guar- 
daram mais  zelosamente  as  tradições,  usos  e 
costumes  de  sua  pátria. 

Arrancados  violentamente  do  pátrio  solo,  e 
transportados,  qual  mercadoria,  em  mfectos  porões 
de  navios,  para  extranha  região  onde  a  vida  lhes 
vinha  decorrer  bem  outra,  jungidos  ao  eito,  sob  o 
azorrague  do  feitor,  constituíram,  entretanto,  esses 
infelizes  representantes  da  raça  negra  um  factor 
poderoso  da  nossa  nacionalidade,  pelo  seu  nu- 
mero, pela  feição  aífectiva  de  seu  caracter,  pela 
sua  intensa  proliferação. 

Raça  igualmente  vencida  e  subjugada,  mas 
trabalhadora,  valente  e  forte,  prestou  também  á 
integração  da  pátria  nova  os  mais  valiosos  serviços. 

Sua  porcentagem  na  constituição  do  povo 
brasileiro  é  superior  á  da  raça  indigena,  e  a  sua 
influencia  em  a  nossa  evolução  social  é,  principal- 
mente pelos  seus  descendentes  crusados,  bastante 
accentuada. 

Para  a  raça  forte  a  que  alludimos,  para  o  typo 
brasileiro  do  futuro,  que  se  remodela,  ella  levará 
as  virtudes  primitivas  das  raças  puras  e  sans. 


Os  jesuítas  foram  verdadeiros  bemfeitores  da 
humanidade  na  primeira  phase  da  colonisação  do 
Brasil. 

Aportando  a  estas  plagas  com  o  primeiro  gover- 
nador geral  em  numero  de  6,  dirigidos  pelo  bene- 
mérito Manoel  da  Nóbrega,  e  augmentados  sempre 
em  consequentes  remessas,  foram  os  jesuítas  a 
legião  que  se  constituiu  a  ante-mural  do  indigena, 
defendendo-lhe  quasi  sempre  com  efficacia  a  vida 
e  a  liberdade. 


fi2 


Graças  a  elles  a  nossa  historia  não  apresenta 
as  lúgubres  paginas  das  conquistas  do  México  e 
do  Peru. 

Graças  a  elles,  a  civilisação  poude  firmar-se 
mais  humanamente  nesta  parte  da  America,  e  o 
povo  portuguez,  pequeno  e  pobre,  poude  asse- 
nhorear-se  do  território  descoberto,  donde  seria 
fatalmente  expellido  pela  bravura  do  gentio,  unida 
á  concurrencia  do  francez. 

Graças  a  elles,  poude  a  raça  aborigene,  com- 
batida em  sua  fereza  pela  catechese  christã  e  mais 
por  este  processo  de  que  pelas  armas,  em  parte, 
submettida,  escapar  de  completo  exterminio. 

A  Historia,  guardando  o  nome  dos  6  primeiros 
apóstolos  do  bem  nesta  virgem  terra  da  America, 
—  Nóbrega,  Aspicuela  Navarro,  António  Pires, 
Leonardo  Nunes,  Vicente  Rodrigues,  e  Diogo 
Jacome  e  dos  principaes  continuadores  de  sua 
obra,  —  Anchieta,  Luiz  da  Gran,  Vieira  e  tantos 
outros,  presta  a  homenagem  devida  aos  espirites 
mais  cultos  e  aos  caracteres  mais  nobres,  que  a 
civilisação  occidental  da  FXiropa  enviou  a  estas 
regiões. 

Apropriando-se  da  linguagem  dos  íncolas,  apre- 
sentando-se-lhes  simples,  modestos,  resignados, 
humildes,  estóicos,  dando-lhes  o  exemplo  ae  todas 
as  virtudes  moraes,  puderam  os  jesuitas  ganhar  o 
animo  dos  selvagens,  iniciar  e  desenvolver  a  obra 
de  sua  civilisação. 

Empregaram  para  isso  os  meios  mais  intelli- 
gentes  e  eííicazcs,  como  a  musica,  as  procissões 
apparatosas,  as  novenas,  as  predicas  suggestivas, 
todas  as  outras  manifestações  do  culto  externo; 
consiituindo-se  principalmente  seus  defensores 
estrénuos,  batendo-se  até  pela  liberdade  dos  que 
eram  caçados  nas  selvas  como  animaes  bravios, 
conseguindo  muita  vez  arrancal-os  á  ganância  do 


63 


colono;  fazendo-os  abandonar  costumes  selvagens 
e  grosseiros,  arregimentado-os  em  aldeias  a  que 
chamavam  (emissões»,  instruindo-os  na  moral  do 
evangelho  e  na  religião  do  trabalho. 

Nessa  primeira  phase,  pois,  da  nossa  Historia, 
a  acção  dos  jesuitas  foi  benéfica,  salutar,  huma- 
nissima: 

Foram  elles  além  disso  os  representantes  da 
cultura  intellectual  da  época:  foram  elles  os  pri- 
meiros professores  deste  paiz. 

Se  bem  que  saturadas  do  espirito  de  seita,  são 
as  suas  chronicas,  os  seus  escriptos,  as  suas  annuas, 
os  documentos  por  onde  pudemos  conhecer  a  vida 
da  colónia  brasilea,  de  cujos  albores  na  historia 
foram    elles  os  intelligentes  paranymphos. 


o  eulto  dos  Heróes  ^*^ 


Íma  nação  que  não  cura  das  suas  tradições  c 
^uma    nação  morta»  escreveu  um  dia  W. 

Scherer  na  sua  tamosa  «Geschichte  der  deutschen 

Literatur». 

A  tradição  é  o  botaréo  da  F^é  e  a  Fé  —  o  arca- 
bouço intimo  de  todo  o  edifício  social. 
* 

A  coincidência  notável  entre  os  eclypses  da 
Fce  as  catastrophes  politicas,  a  periodicidade  fatal 
das  grandes  crises  históricas  e  a  isodynamica 
insophismavel  do  seu  modo  de  acção  por  intermé- 
dio das  quaes  se  manifesta  a  omnijpresença  de  uma 
intelligencia  hyperhumana,  sollicitaram  sempre  a 
attenção  dos  philosophos  de  todas  as  épocas. 

Não  se  abafa  impunemente  o  sentimento  reli- 
gioso que  a  Cultura  contemporânea  assignala  como 
a  antithese  ridicula  do  Livre  pensamento. 

Ninçuem  demonstra,  de  modo  mais  irrefutável, 
a  nihihdade  scientifica  dessa  concepção,  do  que 
o  autor  de  <í  Sartor  Rasartus»  —  o  maior  gcnio 
que  tem  apparecido  na  Inglaterra  depois  de 
tt  Shakespeare». 

Toda  a  «psyché»  religiosa  comprchendc  a 
explicação  do  Cosmos  e  uma  taboa  de  valores 
moraes,  ou  por  outras  palavras,  uma  Lógica  e 
uma  Ethica  de  um  parallelismo  constante  e  har- 
mónico. 

E  é  na  alma  do  Povo,  o  inimigo  irreductivel 
da  Fraude  em  todas  as  suas  modalidades,  que  se 


(*)  Discurso  proferido   pelo  sócio  Dr.   Egas  Moiii/.    Barretto  do 
Arafrãr».  na  sosbíIo  nnnivorsnrin  do  'A  il?  Mnio  <!.•  ^0;'l. 

a 


í)6 


delineam  as  bases  dessa  Lógica  e  os  preceitos  dessa 
Ethica,  promanadas  ambas  da  Lei  Natural  que 
acompanha  a  Humanidade  como  a  sombra  ao 
corpo, na  phrasedograndephiIosopho((FeuerbachD. 

Não  sei  se  em  tempo  algum  foram  essas  leis, 
que  devem  ser  outros  tantos  pharóes  para  a  Civi- 
lisação,  mais  cynicamente  violadas  do  que  nos 
tempos  modernos. 

Borrascoso  e  triste  foi  o  crepuscular  do  sé- 
culo XX. 

.  A  alma  da  velha  Europa  nega  Deus  e  negar 
Deus  é  estabelecer  o  império  do  Chãos,  é  quebrar 
o  equilibrio  moral  inclispensavel  ao  funcciona- 
mento  da  Sociedade,  c  alcandorar  o  «antipsy- 
chismo»  á  altura  de  um  imperativo  kantiano,  é 
solapar  toda  a  magestosa  architectura  da  Civili- 
sação  hodierna. 

O  severo  estudo  da  pathologia  social  aponta-nos 
uma  terrivel  verdade. 

Após  19  séculos  de  progresso,  em  pleno  apogeu 
de  Cultura,  quando  a  Sciencia,  máo  grado  a  voz 
agoureira  de  « Brunnetiére»  crea  as  maravilhas 
das  maravilhas :  fortalezas  de  aço  e  bronze  cru- 
zando os  oceanos,  transatlânticos  de  20000  cavallos; 
correntes  «  polyphaseadas  »  distribuindo  a  energia 
eléctrica  que  se  transforma  á  vontade  em  luz, 
calor  c  força ;  telegraphos  sem  fios,  de  «  Marconi »  ; 
raios  sem  luz,  de  « Roentgen»,  photographias  do 
pensamento  conseguidas  pelo  filho  de  ((Edison», 
motores  de  ar  liquido,  aeroplanos  quasi  dirigíveis 
e  outros  mil  prodigiosi .  .  .  após  este  soberbo  cyclo 
de  triumphos  eis  reconhecem  aquelles  que  mar- 
cham na  vanguarda  da  Intelligencia  que  ainda 
permanecemos  chumbados  ao  primitivo  «avatar» 
moral. 

O  ódio,  o  insuperável  ódio  atávico  que,  já  nas 
cavernas  prehistoricas,  açulava  o  homem  contra  o 


()7 


homem,  ainda  hoje  perdura  iterativo,  omnipo- 
tente, a  explodir  na  ponta  da  faca  de  Caserio,  a 
gritar  no  coração  lobrego  das  «i^reves»,  «a  ulular 
nas  paginas  apocalypticas   da  Bete    Humainel» 

A  revolução  franceza  de  c)3  derrocou  a  Bastilha 
do  Feudalismo  e  sobre  as  suas  ruinas  fumegantes 
ergueram  uma  outra  bastilha— a  do  Cesarismo. 

«Washington»  despedaçou  os  grilhc3es  da  xMetro- 
pole  e  o  ajingoismo»  ofíicia  hoje  nos  altares  da 
Plutocracia,  assanhando  o  ódio  de  raça. 

A  rebellião  de  1 5  de  Novembro  d':;  i  S89  destruiu 
othrono  mais  democrático  que  c:  .ciu  e  em  seu 
lugar  levantaram  um  edifício  qae  de  modo  algum 
merece  o  nome  de  Republica. 

Vemos  a  França,  que  se  considera  o  cérebro  do 
Munio,  o  (cpalladium»  da  Civilisação  occidental, 
o  (( Paracleto  dos  Direitos  do  Homem  »  e  crucifica, 
aos  berros  da  canalha,  um  innocente;  faz  reviver 
na  «Ilha  do  Diabo»  as  torturas  diabólicas  da 
Inquisição  e,  numa  estúpida  ressaca  de  lama  e 
ignominia,  apredeja  a  Verdade,  na  pessoa  de 
Emile  Zola,  matando  de  nojo  e  desespero  a  alma 
intemerata  de  «Scheurer-Kestner». 

Vemos  a  Rússia,  que  pela  bocca  do  Czar, 
aconselha  magnanimamente  o  desarmamento  uni- 
versal e  massacra  como  um  bando  de  cães  damna- 
dos  o  povo  finlandez  que  pedia  justiça;  e  expulsa 
de  seu  território,  como  se  fosse  um  leproso,  o 
Apostolo  do  Amor  o  amigo  dos  «Mujiks»,  o  Sósia 
de  Christo  —  «  Leon  Tolstoi  »  I 

Vemos  a  Inglaterra,  o  berço  das  Liberdades 
modernas,  armar  3()o.ooo  soldados  para  o  assas- 
sinato de  25.000  cidadãos  de  uma  republica  consti- 
tuida  que,  por  desgraça,  tem  encravadas  no  seu 
território  algumas  minas  de  ouro;  vemos  a  Ingla- 
terra, pátria  do  «  Habeas-Corpus  »  no  humbral  do 
século    XX,    tolerar,    em   todo    o   « Hinterland» 


()8 


Occidental  da  Africa,  numerosas  agencias  inglezas, 

Eara  o  infame  trafico  dos  escravos,  escândalo  ha 
em  pouco  tempo  denunciado  pela  «Contempo- 
rary  Review  ». 

E,  ao  rebentar  das  bombas  anarchistas,  ao 
marulho  ameaçador  de  milhões  de  proletários  que 
pedem  pão  e' trabalho  e  os  governos  mandam 
fuzilar,  ao  esfusíar  das  gargalhadas  oKscenas  dos 
Philisteus  da  Cultura  que  pregam  a  victoria  do 
Egoismo  e  a  bancarrota  da  Moral,  cambaleia  o 
madeiro,  onde  ha  vinte  séculos,  está  pregado  o 
cadáver  do  Homem-Deus,  do  Messias  do  Amor, 
do  Demiurgo  supremo  ! . . . 

A  Humanidade  lembra,  nos  tempos  actuaes, 
uma  cathedral  gigantesca  sem  Deus  e  sem  altares, 
estalando  do  alicerce  ao  coruchéu,  em  cima  de 
um  vulcão. 

O  pêndulo  da  Razão  oscilla,  entre  um  orgulho 
satânico,  provocado  pelo  progresso  scientifico  e 
uma  covardia  vesanica  alimentada  pelo  nihilismo 
moral. 

Estaremos  sobre  a  rocha  aTarpea^^  ou  no 
pincaro  de  um  Thabor. 

Será  o  crepúsculo  de  uma  noite  definitiva  ou 
o  prenuncio  de  um  formoso  dia? 


Ha  na  antiquíssima  biblia  scandinava,  arran- 
cada das  patas  dos  iconoclastas,  pela  piedade  de 
«  SoL-mund  ))  e  «Snoro  Sturleson  »;  ha  nas  paginas 
sclvagemente  épicas  dos  wh^ddas»  um  metho 
sublime- -o  «  Ragnarooiky  »  que,  na  mythologia 
germânica,  tornou  o  nome  de  (((jrx^tterdoemmrung» 
—  o  crepúsculo  dos  deuses. 

Eil-a  a  concepção  genial  e  profunda  desse 
mytho : 


69 


Os  «Joetuns»,  as  temíveis  potencias  do  Mal, 
depois  de  mil  escaramuças  com  as  divinas  poten- 
cias do  Bem  resolvem  finalmente  travar  um  com- 
bate supremo. 

Na  Serpente  da  Treva  investe  contra  o  gigante 
«Thor»  — o  deus  do  raio.  Rancor  contra  Rancor, 
Poder  contra  Poder,  Forca  contra  Forca  I 

Estala  a  metralha  dos  trovões,  ziguezagueia  a 
espada  dos  relâmpagos,  entrechocam-se  o  escudo 
de  bronze  e  as  escamas  do  monstro,  desembestam 
as  Walkyrias  desgrenhadas,  ao  compasso  em  três 
tempos  de  um  galope  phantastico  e  um  crepúsculo 
ensanguentado  desce  pouco  a  pouco  sobre  o 
« Wnallala »  que  se  despenha  tragicamente  no 
abysmo. . . 

O  velho  Mundo  e  os  antigos  Deuses,  arrastados 
n'aquella  queda  formidável,  desapparecem  no 
chãos. 

Não  tardará  porém  uma  ressurreição  porque  a 
Vida  é  a  filha  da  Morte. 

Das  tenebras  insondáveis  do  abysmo  ha  de 
surdir  um  novo  Ceu  e  uma  nova  Terra. . .  no  Ceu 
habitará  um  Deus  mais  divino  e  uma  Justiça  mais 
justa  imperará  na  terra. 

Eil-o  o  mytho  da  velha  biblia  scandinava. 


Pois  bem :  todos  os  grandes  pensadores  moder- 
nos, de  Goethe  a  Emerson,  de  Hugo  a  Barni, 
de  Uhithman  a  Nietzsche — todos  os  grandes 
optimistas  melancólicos  acreditam  na  realisação 
dessa  prophecia. .  . 

Façamos  como  Elles;  não  desanimemos. 

Ergamos  bem  alto  a  fronte  e  os  corações. . . 


70 


Trabalhemos  e  esperemos. 

E  em  que  consistirá  esse  trabalho  ? 

No  culto  acrysolado  dos  grandes  vultos  da 
Pátria  e  da  Humanidade  que,  na  opinião  de 
((Carlylc)),  ha  de  substituir  um  dia  todas  as  velhas 
religiões;  nesse  culto  mais  acceitavel  do  que  o 
culto  da  Humanidade  anonyma. 

E'  esta  a  base  fundamental  da  Educação 
civica-relumbrante  zaimph  sem  a  investidura  da 
qual  uma  nação  se  esphacéla  e  morre. 

Abramos,  de  par  em  par,  ao  Povo,  a  biblia  da 
Historia  pátria  e  seremos  beneméritos,  porque, 
para  Elle  e  para  Ella,  trabalharemos,  não  como 
aquelles  antigos  sábios  egoistas  que  procuravam 
improvisar  um  systema  metaphysico  de  casuali- 
dades, em  lugar  de  argamassar  para  o  futuro  os 
elementos  de  uma  tinalidade  victoriosa  e  fecunda. 

Isto  aqui.  Senhores,  é  um  templo  e  ao  mesmo 
tempo  uma  arena  de  combate. 

«  Luthero  »  —  na  Allemanha,  cf  Knox »  na  Ingla- 
terra, «Renan»  em  França,  «Ardido»  na  Itália 
esborcinaram  o  idolo  do  Phariseismo  antigo ; 
desmoronemos  egualmente  o  idolo  da  Oligarchia 
moral  que,  pela  tuba  do  Jacobinismo  Brasileiro, 
procura  nivelar  Christo  e  Tibério,  Dante  e  Aretino, 
Shakpeare  e  Cecil  Rhodes,  Pedro  II  e  Marcellino 
Bispo. . . 

Já  o  disse  outKora  a  voz  isaiaca  que  syllabou 
a  «Legenda  do  Século»: 

« Por  mais  que  façam  aquelles  que  reinam 
interiormente  pelo  suborno  e  exteriormente  pela 
ameaça,  por  mais  que  façam  auuelles  que  julgam 
pilotear  os  povos  e  não  passam  ac  perversos  anar- 
chisadores,  por  mais  que  façam,  a  phalange 
sagrada  da  verdade  ha  de  encontrar  sempre  um 
meio  de  cumprir  o  seu  dever  até  o  tim. 


71 


A  omnipotência  do  Mal  só  pode  alcançar  resul- 
tados negativos. 

O  pensamento  escapa  fatalmente  a  quem  tenta 
jugulal-o. 

E'  como  o  ar,  rebelde  á  compressão. 

Maravilhoso  proteu  —  refugia-se  em  formas 
diversas. 

O  facho  irradia. . .  se  o  apagam,  se  o  atiram  á 
treva,  o  facho  transforma-se  numa  voz  e  não  ha 
noite  que  esconda  a  Palavra  I 

Se  amarram  á  bocca  que  falia  uma  mordaça, 
a  Palavra  transfigura-se  em  luz  e  não  se  amor- 
daça a  luz ! 

Ninguém  pode  domar  a  Consciência  do 
Homem,  porque  a  Consciência  do  homem  c  o 
reflexo  do  pensamento  de  Deus»! 


Em  meu  nome  e  em  nome  da  revista  <(  Brasil- 
Portugal»  e  de  «Deutsche-Zeitung»,  saúdo  o 
« Instituto  Geographico  e  Histórico  da  Bahia  »,  pela 
fausta  data  em  que  celebra  o  7."  anniversario  de 
uma  gloriosa  existência. 

AoaInstitutoGeoçraphicoeHistoricoda  Bahia», 
essa  benéfica  associação  que  é  a  salvaguarda 
heróica  das  nossas  tradições,  que  pontihca,  na 
apotheosede  um  altar,  a  relipãodos  nosos  grandes 
homens,  que  procura  reanimar  piedosamente  a 
pyra  quasi  extincta  do  amor  da  Pátria,  transmitto, 
do  alto  desta  tribuna,  os  applausos  sinceros, 
enthusiasticos  e  unanimes  da  imprensa  portugueza 
e  teuto-brasileira. 


(^\(/a3  Ml^cniz. 


HM-CIHIPUS-EstadodeSi 

PREFACIO  AO  DISCURSO  DO  Dr.  RuY  BaRBOSA,  PROFE- 
RIDO NA  SESSÃO  DO  Supremo  Tribunal  Federal, 
DE  26  de  Março  de  1898  (*) 

(Ao  Sr.  Rogociano  Teixeira) 

'm  profunda  vacilação  se  me  debateu,  por 
\  lonço  tempo,  o  espirito,  antes  de  acceder  eu 
ao  honrosissimo  pedido,  com  que  aprouve  distin- 
guir-me  o  meu  illustre  co-estadano  e  amigo. 

Escrever  algumas  palavras,  como  preparo  ao 
leitor,  para  que  melhor  possa  apreciar  o  erudito 
discurso  que  lhe  vae  ser  posto  aiante  dos  olhos, 
nada  menos  é  — do  que  erigir  um  pórtico  para  o 
monumento,  cuja  maravilhosa  estructura  se  lhe 
annuncia  com  inteira  verdade,  e  merecida  justiça. 

Para  não  infringir,  entretanto,  as  regras  da 
architectura,  que  prevalecem  também  nas  obras  de 
litteratura,  pois  o  gosto  deve  ser  inseparável  de 
todas  ellas,  muito  importa  —  que  as  differentes 
peças  do  edifício  obedeçam  ao  mesmo  estilo, 
guardem  as  necessárias  proporções  entre  si,  não 
pequem  por  contraste  de  linhas,  nem  desmereçam 
pelos  erros  de  symetria. 

Sendo  assim,  comprehender-se-á  facilmente  o 
embaraço  em  que  agora  me  encontro  para  corres- 
ponder á  solicitação,  gentil  mente  expressa  por  meu 
velho  amigo. 

Trata-se  de  uma  substanciosa  oração,  por  onde 
filtra  a  eloquência  arrebatadora  de  uma  das  pala- 

(*)  o  Autogrftpho  pertence  ao  Instituto  Histórico  da  Bahia, 
offerecirlo  pelo  «ócio  Coronel  Rogociano  Pires  Teiseira. 


74 


vras  mais  autorisadas  da  America  latina,  e  de  um 
producto  sazonado  da  maior  mentalidade  de  que 
presentemente  o  meu  paiz  se  envaidece,.    ^ 

Na  elevação  dos  conceitos  que  emitte,  na 
importância  cias  questões  que  suscita,  na  cópia  de 
illustração  que  revela,  no  emprego  da  linguagem 
de  que  se  serve;  sob  todos  os  aspectos  por  onde  se 
o  encare,  por  qualquer  padrão  que  se  lhe  ajuste, 
seja  qual  íor  o  crysol  preferido  para  apural-o;  é 
força  reconhecer  —  que  esse  discurso  basta  para 
íirrnar  a  reputação  de  um  jurisconsulto,  a  fama 
de  um  advogado,  a  superiodade  de  um  publicista/ 

A  mime  que  falta — por  meu  mal  —  a  expressão 
própria  para  qualificar  tão  bem  acabado  producto 
da  arte  de  falar;  a  necessária  autoridade  para 
recommendar  a  leitura  meditada  desse  relevante, 
trabalho  da  sciencia  do  direito;  Que  as  jóias  de 
um  tal  escrínio,  formado  carinhosamente  para 
opulentar  o  património  litterario  da  pátria,  e  as 
harmonias  de  um  tal  cântico,  entoado  em  honra 
da  lei,  são  tantas  e  tamanhas,  que  se  torna  difficil 
decidir  —  qual  daquellas  a  mais  tentadora  e  qual 
destas  a  mais  doce  e  penetrante. 

A  verdade,  porém,  é  que  —  umas  e  outras 
concorrem  vantajosamente  para  engrandecer  e 
idealisar  o  culto  á  liberdade. 

E  não  é  isto  só.  No  alvitre,  tomado  pelo  illustre 
senador  bahiano,  de  ir  expontaneamente  ao  Su- 
premo tribunal  pleitear  as  garantias  constitucionaes 
de  adversários  políticos,  senão  de  inimigos  pessoaes 
seus,  eu  descubro  uma  delicadeza  subtil  ae  senti- 
mentos, que  arranca  de  todos  nós  os  mais  sinceros 
applausos.  E  descubro  mais  ainda :  uma  rijeza 
adamantina  de  caracter,  que  poderá  servir  —  em 
todas  as  épocas  —  de  lição  e  cie  exemplo. 

E  porque  se  inspirasse,  como  elle  próprio  o 
confessa,  nas  tradições  gloriosas  da  prohssão,'cu}o^ 


i 

I 


7Õ 


ministério  exerce,  e  que  aliás,  desde  os  tempos 
memoráveis  da  Grécia  e  de  Roma,  é  a  sócia  inse- 
parável das  reivindicações  liberaes;  o  eminente 
patrono  perlustrou  assim,  o  mesmo  caminho  que, 
com  a  maior  abnegação,  souberam  trilhar — mais 
modernamente^— os  Martignac,  òs  Sauzet,  os 
Berryer,  e  outros  luzeiros  da  advocacia  franceza. 

E  ninguém,  por  certo,  ha  de  recusar  seu  preito 
de  admiração  á  nobilitante  attitude,  assumida 
pelos  intemeratos  juristas,  que  recalcam  seus  senti- 
mentos pessoaes  para  servir  desinteressadamente  á 
causa  da  justiça,  que  elles  reputam  em  perigo,  da 
defeza  social,  que  julgam  compromettida,  e  dos 
principios,  que  consideram  prejudicados. 

Mas,  a  magnanimidade  de  tão  louvável  proce- 
dimento depara  com  um  relevo  precioso  no  modo 
grandíloquo,  e  na  competência  mdiscutivcl,  com 
que  o  orador  trata  a  these  constitucional,  que  se 
propoz  defender. 

Me  abalanço  até  a  dizer — que  o  assumpto 
ficou,  magistralmente,  esgotado. 

E,  circumstancia  relevante  com  certeza,  o  meio 
que  Ruy  Barbosa  escolheu  para  levantar  de  novo 
a  questão,  de  ha  muito  já  discutida  entre  os  consti- 
tucionalistas, foi  seguramente  dos  maisopportunos 
e  felizes;  como  assas  apropriado  e  propicio  foi  o 
ensejo  para  explanar  elle  suas  opiniões  e  doctrinas. 

E'  exacto  —  que  o  paiz,  então,  se  achava  empol- 
gado pela  impressão  de  magua  e  de  terror,  que 
havia  deixado  n'alma  nacional  um  gravissimo 
acontecimento,  cuja  lembrança  ainda  agora  nos 
enche  —  a  todos* — de  dor  e  de  saudades.  Nos 
momentos  difficeis,  porém,  é  que  o  civismo  deixa 
de  ser  um  sentimento  para  se  crystallisar  num 
facto,  e  a  coragem,  que  alguém  accaso  ostente, 
lutando  contra  a  opinião  publica,  por  amor  apenas 
,dQ  direito  e  da  uberdade,  não  fica  sonienos  á 


7rt 


coragem  do  soldado,  que  enfrenta  ás  balas  do 
inimigo,  por  effeito  da  simples  comprehensão  do 
seu  dever. 

Conseguintemente,  o  papel  que  o  orador  assu- 
miu, mais  digno,  maior,  mais  significativo  ainda 
se  tornou. 

Batendo-se  pela  causa,  que  com  raro  cavalhei- 
rismo  perfilhava,  Ruy  Barbosa  visou  —  primeiro 
que  tudo  —  provar  o  accordo  perfeito,  que  existe 
entre  seu  senso  politico  e  sua  intuição  jurídica. 

E  eis  ahi,  sem  duvida,  escopo  assas  elevado  e 
aspiração  bem  legitima;  pois,  como  o  próprio 
orador  pondera,  o  «de  que  mais  se  deve  temer 
neste  mundo,  o  homem  politico  —  é  dos  maus 
precedentes,  dos  arestos  illegaes,  das  jurispru- 
dências liberticidas». 

Eu  quizera  —  que  os  publicistas,  os  magistra- 
dos, os  professores,  a  mocidade  que  vem  surgindo 
e  quer  aprender,  todos  emfim  gravassem  profun- 
damente no  espirito  o  alto  critério  e  a  profundeza 
de  vistas,  com  que  Ruy  Barbosa  encarece  a  impor- 
tância do  «habeas-corpus»,  n'uma  analyse  rigoro- 
samente scientifica,  e  scientificamente  bella. 

Porquanto,  é  nesse  instituto,  votado  pelo  parla- 
mento inglez  sob  Carlos  II,  que  os  ciaadãos 
encontram  a  égide  para  amparal-os  contra  o 
arbítrio,  sempre  funesto,  e  os  povos  a  cavilha  capaz 
de  manter-lhes  a  liberdade,  divina  sempre. 

Que  nobres  ensinamentos  côam  pelo  verbo  tor- 
rencial do  nosso  patrício  preclaro!  Como  borda-os 
esse  insigne  buriíador  da  phrasel 

Nem  sei  que  se  possa  acrescentar  algo  de  tole- 
rável ao  elogio  eloquente  e  meditado,  proferido 
pelo  orador,  em  homenagem  ao  recurso,  ha  222 
annos  posto  ao  serviço  da  rasão  e  do  direito. 

De  muito,  sabemos  nós,  que  o  «habeas-corpusn 
é  a  clava  irresistível,  destinada  a  esmagar  todas 


T7 


as  oj^pressões  e  tyrannias.  E  sabemos  também 
que,  graças  a  esse  remédio  fornecido  pela  lei 
mesma,  o  mais  humilde  cidadão  pode  zombar  da 
prepotência  do  mais  alto  funccionario.  Sabemos, 
finalmente,  que  o  «chabeas-corpus»  é,  a  um  só 
tempo,  comporta  de  demasias,  amuleto  venerando, 
e  couraça  impenetrável,  ao  alcance  de  todos, 
indistinctamente. 

E  por  isso  me  parece,  que  seelle  fosse  praticado 
lealmente  na  França  a  própria  revolução  de  8g, 
guando  não  conjurada,  perderia  pelo  menos  o 
movei,  que  melhor  a  justifica  perante  a  Historia. 

Pois  bem.  Calcule-se  que  o  orador,  nessa 
soberba  peça  a  aue  vou  alludindo,  se  propoz 
explanar  quasi  todos  aquellés  conceitos,  mas  com 
a  illustração  vasta  de  que  sóe  dar  provas  irrecu- 
sáveis e  repetidas;  e  servindo-se  da  linguagem 
castiça,  que  sabe  primorosamente  manejar. 

E  então  diga  alguém  —  se  ha  falta  comparável 
á  irreverência  de  não  percorrer  de  um  só  fôlego 
tantas  paginas  brilhantes,  onde  o  illetrado  encontra 
muito  que  aprender,  e  o  litterato  bastante  que 
admirar. 

Poucas  homenagens,  rendidas  ao  direito,  se 
conhece  tão  enthusiasticas  e  suggestivas,  como  a 
desse  discurso  monumental.  Ouvil-o,  foi  banhar- 
mo-nòs  em  grosso  jacto  de  luz  boreal. 

E  a  doce  sensação  de  certo  perdura,  pois  ainda 
hoje  —  e  já  são  passados  três  annos  —  me  parece 
gue  vibram  aos  meus  ouvidos  os  echos  de  tão 
inflammado  verbo,  com  a  mesma  imponência,  a 
mesma  energia,  e  o  mesmo  calor  que  o  envolveram 
no  recinto  ao  tribunal. 

De  resto,  a  ninguém  pode  ser  indiíferente  o 
modo   cuidado,    com    que   o  orador    tratou  da 

Suestão  principal,  submettida  então  ao  julgamento 
os  magistrados. 


78 


.  A  these  sustentada  é  de  uma  relevância  capital, 
mas  o  seu  desenvolvimento  nada  deixou  a  desejar, 
cumpre  confessal-o.  Tanto  assim  que  os  juizes 
diviairam-se,  quasi  por  metade,  na  occasião  de 
interpretar  o  artigo  constitucional  em  litigio. 

E  quando  o  notável  advogado  cessou  de  falar, 
pelo  auditório  inteiro  perpassou  um  frémito  de 
applauso  convencido,  apenas  abafado  pela  consi- 
deração do  respeito,  devido  ao  illustre  areópago. 

Quanto  a  mim,  posso  muito  á  vontade  falar 
da  opinião,  defendida  pelo  nosso  operoso  condis- 
cípulo, que  foi  também  um  dos  mais  esforçados 
collaboradores  da  lei  fundamental  da  republica. 

Em  um  modesto  livro  que  publiquei,  commen- 
tando  «A  Constituição»,  de  24 'de  Fevereiro, 
lancei  estas  duas  linhas:  «Sabe-se  que  algumas 
das  medidas,  tomadas  pelo  Governo  clurante  certo 
estado  de  sitio,  continuaram  a  subsistir,  ainda 
mesmo  depois  da  amnistia  concedida  pelo  Con- 
gresso. Por  exemplo,  a  demissão  de  lente  cathe- 
dratico  das  F^aculdades  officiaes.  Não  me  pareceu, 
entretanto,  regular  esse  alvitre,  tanto  mais  grave, 
quanto  a  demissão  mesma  fora  já  um  excesso 
condemnavel,  que  ninguém  poderia  justificar  com 
o  nosso  Estatuto  fundamental,  bastante  claro  na 
restricção,  que  impõe  no  )$  2.'*  deste  Art.  80;' sem 
falar  mesmo  no  que  determina  pelo  Art.  74  já 
commentado». 

Matenho,  ainda,  a  minha  opinião. 

Primeiramente,  nunca  pude  entender  por  outro 
modo  as  palavras  «durante  o  estado  de  sitio»,  de 
que  usa  o  legislador  no  referido  Art.  80,  5$  2.** 
Depois,  não  sei  porque,  na  hypothese  figurada, 
se  ha  de  contrariar  o  apophtegma  que  diz :  Cessada 
a  causa,  cessa  o  etfeito. 

Muito  ao  envez  disso,  tudo  aconselha  a  que 
elle  encontre  aqui  a  consagração  .mais  solemne.  ^ 


70 


'  ' Dêsappafécida,  cjiie  seja,  a  <( causa»  determi- 
nante de  uma  medida,  excepcional  ao  ponto  de 
autorisar  a  suspensão  das  garantias  constitucio- 
naes,  eu  não  sei  porque  se  ha  de  pretender  pro- 
longar-lhe  os  eífeitos,  irritantes,  especiaes,  extra- 
ordiarios. 

Imagine-se,  comtudo,   a  satisfação  que  senti, 

por  ver  —  quanto  o  meu  pensamento  se  ajustara 

«lo  do   eminente  bahiano;  acrescendo  a  circum- 

>^tancia  de  ter  elle  sido  desdobrado  como  brilhan- 

tiismo  e  a  elevação,  que  S.  Ex."  costuma  emprestar 

ei  todos  os  assumptos  de  que  se  occupa. 

Entretanto,  está  se  vendo  —  que  não  obedeço 
iRgora  simplesmente  a  uma  suggestão,  nem  me 
<zieixo  fascmar  por  impressões  de  momento,  ainda 
4que  felizes  e  gratas  me  tenham  sido  ellas. 

Desde  muito,  eu  me  hgvia  pronunciado  em 
í^avor  da  idéa,  que  constitue  o  eixo,  em  torno  do 
^-^qual  gyra  a  magestosa  oração  de  Ruy  Barbosa. 

E,  portanto,  certa  parte  dos  applausos  que  lhe 
"^  ributo,  e  da  justa  admiração  que  me  arranca,  se 
^Sxplica  também  pela  conformidade  de  sentir,  que 
^^^ntre  mim  e  o  orador  existe  no  tocante  á  questão 
^Xfc,'entilada,  uma  vez  que  é  naturalíssimo  se  com- 
iorazer  nosso  espirito  com  a  afíinidade  de  outros 
^tsspiritos  mais  cultos  e  disciplinados. 

Verdade  é — que  os  julgadores  a  principio  rcpcl- 
J^  iram  a  intelligencia  liberal,  que  nós  outros  sempre 
^demos  ao  dispositivo  constitucional  já  citado.  E 
^decorreu  d'ahi — que  Ruy  Barbosa  não  logrou  ver 
^::oroados  —  desde  logo  —  os  esforços,  que  tão  gene- 
rosamente empregara  na  audiência  de  26  de  Marco 
^e  98. 

Mas,  passados  poucos  dias,  o  Supremo  Tri- 
bunal Federal  cantava  a  palinodia,  reconhecendo 
—  que    claudicara,    quando    havia  divergido  da 


V 


80 


doctrina,  cujo  palladíno  estrénuo  fora  o  senador 
bahiano. 

De  facto.  Naquella  data,  o  coUendo  Tribunal 
decidira  que  «os  eífeitos  do  estado  de  sitio  não 
cessavam,  com  relação  ás  pessoas  por  elle  attin- 
gidas,  senão  depois  ae  haver  o  Congresso  tomado 
conhecimento  aos  actos  praticados  pelo  presidentp 
da  Republica». 

Entretanto,  vinte  e  um  dias  depois,  a  i6  de 
Abril,  o  mesmo  Tribunal  sentenciava  que  «com  a 
cessação  do  estado  de  sitio  cessam  todas  as  medidas 
de  repressão,  durante  elle  tomadas  pelo  Poder  - 
executivo,  se  revigorando  e  restabelecendo  todas 
as  garantias  individuaes  pela  cessação  daquelle 
estado  excepcional  e  transitório. 

Alguns  outros  «  accordãos  »,  como  por  exemplo 
o  de  20  de  Abril  também,  vieram  confirmar  a 
boa  orientação,  que  o  Tribunal  tomou. 

Para  que,  porém,  maior  fosse  a  gloria  de  Ruy 
Barbosa,  o  Tribunal  acabou  por  apoiar-se  na 
própria  opinião  do  illustre  advogado  e  parlamen- 
tar; chegando  a  inserir  no  corpo  de  um  desses 
c(  accordãos »  palavras  textuaes  de  um  traba- 
lho seu. 

Não  concebo  eu  que  mais  esplendido  triumpho 
podesse  obter  o  valente  campeão,  tanto  em  pro- 
veito de  seus  créditos  prohssionacs,  como  da 
justiça  mesma,  cujos  interesses  tão  altivamente 
pleiteou. 

Muito  bem! 

Que  a  consciência  de  Ruy  Barbosa  se  rejubile 
diante  do  resultado,  que  seu  talento,  seu  civismo  e 
sua  alta  isenção  conquistaram. 

Esse  novo  serviço,  prestado  á  causa  sacrosanta 
do  direito^  recommenda  seu  nome  ás  bênçãos  do 
presente  e  a  gratidão  do  porvir. 


81 


Que  todo  brasileiro,  pois,  conheça  e  decore  p 
discurso,  que  ahi  vae  mais  adiante,  e  onde  as 
scintillaçõesda  eloquência  se  aviventam,  mercê  da 
attitude  arrojada,  que  o  orador  assumiu. 

Que  não  sejam  jamais  esquecidos  os  grandes 
ensinamentos,  que  tão  preciosos  documentos 
encerram. 

Que  fructifique  o  exemplo,  dado  pelo  notável 
cidadão,  quando  acodiu  pressuroso  a  defender  as 
íórmas  tutelares  do  direito,  sem  cogitar  de  inno- 
centes,  ou  culpados,  uma  vez  que  ellas  a  todos 
Pí^omiscuamente  amparam. 

Quanto  á  reconsideração,  que  de  sua  primitiva 
doctrina  fez  o  Supremo  Tribunal,  só  posso  me 
referir  com  os  mais  acalorados  louvores.  O  Tribu- 
^^U  assim  procedendo,  se  mostrou  digno  de  sua 
elevada  missão,  consciente  de  sua  enorme  respon- 
^^abilidade. 

Peço  licença  para  terminar  aqui. 

Conta  Ariosto  a  historia  de  uma  bella  fada, 
4^^  por  lei  do  destino  estava  condemnada  a  appa- 
^^crer,  de  vez  em  quando,  transformada  em  vene- 
"^^^^  serpente. 

Quantos  aultrajavam  nessa  triste  metamorj^hose 

^'"^m  privados  para  sempre  de  seus  benehcios, 

"^^^   a  quem  a  tratava  com  piedade  e  carinho, 

^PeíHar  ae  seu  aspecto  hediondo,   cila  apparecia 

^^is  tarde,  sob  a  forma  de  anjo  que  lhe  era  natural, 

P^^í:^  lhe  seguir  todos    os  passos,   lhe  augmeniar 

^^os  as  riquezas  e  venturas,  e  lhe  conceder  quer 

^^      nobres   tropheus    da    guerra,    quer  as   lindas 

Palmas  de  amor.  A  fada  que  Ariosto  assim  exal- 

^"^"o,  bem  se  advinha,  c  a  liberdade. 

,        Kão  maltratemos  nunca  a  liberdade.  E'  nosso 

^Ver,  e  será  tc.mbem  nossa  gloria. 

Continue  a  dispor  do  coestadano  e  amigo. 

Aristides  >^  DyCillon, 

Hio  de  Janeiro,  12  de  Dezembro  de  1901. 
11 


1840 

Manuel  dos  Santos  Martins  Vallasques,  Senador 
do  Império  pela  Bahia  em  i835,  em  sua  correspon- 
dência com  Manuel  Ignacio  da  Cunha  e  Menezes, 
Visconde  do  Rio  Vermelho  e  como  elle  Senador 
por  esta  então  província  em  1827,  relata,  na  inti- 
midade de  longa  e  affcctuosa  amisade,  os  factos 
capitães  na  politica  perturbada  daquella  phase  de 
nossa  vida  nacional. 

O  periodo  transitório  das  regências  como  que 

f precipitara  o  paiz  em  um  cháos  medonho;  ás 
uctas  dos  partidos  na  capital  do  Império  respon- 
diam as  revoltas  continuadamente  debelladas  nas 
províncias,  ora  do  norte,  ora  do  sul  do  Brasil. 

O  exercito  convertido  em  facção  politica 
imperava,  consciente  da  força  que  lhe  deram  as 
victorias  facilmente  obtidas  em  1821  e  em  i83i, 
e  estendera  sua  influencia  té  enfrentar-se  com  a 
indomável  energia  de  Feijó,  Ministro  da  Justiça 
do  Gabinete  de  16  de  Julho  de  i83i. 

Si  na  Constituinte  brasileira,  onde  a  Bahia  era 
representada  pelos  vultos  illustres  de  Silva  Lisboa, 
Carvalho  e  Mello,  Montezuma,  Costa  Carvalho, 
Galvão,  Araújo  Guimarães,  Carneiro  de  Campos, 
Ferreira  França,  Miguel  Calmon,  Brant  Pontes  e 
Couto  Ferraz,  os  partidos  não  se  degladiavam, 
porque  um  único  pensamento  dirigia  então  a  repre- 
sentação nacional,  não  deu-se  o  mesmo  nas  succes- 
sivas  assembléas  em  cujo  seio  vemos  a  discórdia 
surgir  entre  os  membros  dos  partidos  políticos. 
Kssas  luctas  travadas  no  Parlamento  repercutiam 
no  espirito  publico,  e  a  imprensa,  obediente  a  este 
ou  áquelle  grupo,  dirigia  a  opinião,  fomentava 
paixões  e  provocava  distúrbios. 


84 


N'((A  Nova  Luz  Brasileira»  no  «Exaltado»  e 
no  «Jurujuba»,  o  partido  liberal  exigia  reformas 
continuas  que  tivessem  cunho  verdadeiramente 
democrático  proclamadas  pelo  povo,  sciente  do 
direito  que  lhe  dera  a  revolução;  o  partido  mode- 
rado, porém,  batia-se,  na  a  Aurora»,  a  cuja  frente 
estava  a  penna  incomparável  de  Kvaristoda  Veiga, 
no  (( Independente  »  e  na  «  Astréa »,  pela  victoria  da 
lei,  conferindo  a  uma  constituinte  o  direito  de 
reformar  a  constituialo  do  império. 

Iam  além  as  conspirações  e  as  luctas  politicas; 
sociedades  secretas,  centros  perigosos  de  aiscussões 
e  de  não  veladas  ambições,  organisaram-se  na 
capital  e  somente  á  energia,  á  actividade,  á  largueza 
de  vistas  de  Feijó,  cadimo  na  arte  de  governar  os 
homens,  se  deve  o  triumpho  constante  e  inaba- 
lável da  lei,  do  direito,  e  da  autoridade  suprema 
do  Governo. 

Causas  múltiplas,  desafeições  creadas  pelos 
governos  regenciaes,  motivadas  na  sua  maioria 
pela  politica  enérgica  e  intransigente  de  Feijó, 
deram  com  seu  governo  em  terra  e  Pedro  de 
Araújo  Lima,  depois  Marque/  de  Olinda,  substi- 
tuiu-o  n*aquelle  posto  que  pouco  deveria  occupar. 
A  nação  estava  cançada  das  regências. 

As  luctas  renovavam-s2  em  varias  Provincias; 
o  Rio  Grande  do  Sul  tentava  sacudir  o  jugo, 
tornando-se  republica  independente;  o  Pará  via-se 
dilacerado  por  commoções  intestinas,  e  na  Bahia, 
claramente,  firmemente,  a  revolução  de  iSSy 
estampa  em  seu  Programma  a  independência  da 
provincia  emquanto  durasse  a  minoridade  do 
imperador. 

Todos  esses  factos,  todos  os  descontentamentos, 
todas  as  ambições  impellem  S.  Paulo,  ou  antes 
os  seus  illustres  Andradas  a  levantar  no  parlamento 
a  questão  que,  vencedora,  seria  a  gloria  e  o  poder 


85 


para  uns,  e  o  anniquillamento  para  muitos. 
Debaixo  desse  aspecto  doloroso  surgiu  o  anno  de 
1840. 

Em  3  de  Maio  a  representação  nacional  reunida 
no  senado  ouviu  a  fala  do  throno;  a  resposta  da 
Gamara  foi  o  primeiro  passo  para  a  lucta.  Um 
período,  novidade  nos  estylos  parlamentares, 
prendeu  a  attenção  dopaiz;  a  Gamara  promettia 
occupar-se  de  vários  assumptos,  c(  vendo  com 
prazer approximar-se a maioriaadedo  Imperador». 

E  dias  depois  com  a  conni vencia  de  D.  Pedro  II, 
íi  proposta  que  devia  declaral-o  maior  era  apresen- 
tada no  Senado  pelo  Sr.  Hollanda  Gavalcanti. 

E'  a  este  facto  de  tão  grande  importância  de 
nossa  historia  politica  que  se  refere  o  Senador 
Tallasques  na  carta  que  transcrevo: 

Exm."  Am.^  e  Gollega  Sr.  Visconde. 

Pelo  Hollanda  foi  no  Senado  apresentado  um 
projecto  declarando  maior  o  Imperador:  hoje 
entrou  em  i.'  discussão4  e  porque  ninguém  falasse, 
largou  a  Presidência  o  Sr.  de  Paranaguá  e  falou  a 
íavor;  ninguém  mais  pediu  a  palavra;  posto  a 
^•otos  cahiu  o  projecto  por  mais  dois  votos;  eis  os 
votantes: 

Pró:  M.  de  Paranaguá,  M.  da  Palma,  Vergueiro, 

Hollanda,    M.   Gaetano,    Paula   e   Albuquerque, 

Lima  e  Silva,  Saturnino,  Gonde  de  Lages,  Alencar, 

Jardim,  Ferreira  de  Mello,  Manuel  Ignacio  Souza, 

Costa  Ferreira,  Paes  de  Andrade  e  Francisco   de 

Paula  Gavalcanti. 

Gontra:  Oliveira,  Vallasques,  Paraizo,  V.  da 
Pedra  Branca,  Gassiano,  Alves  Branco,  Gama, 
Kvangelista,  M.  de  xMaricá,  V.  de  Gongonhas. 
Marcos  António,  Rodrigues  de  Andrade,  António 
Augusto,  Araújo  Vianna,  Patrício,  Gunha  Vascon- 
cellos,  Gameiro  de  Gampos  e  Nabuco. 


v 


8<; 


Dos  jornaes  saberá  das  noticias  do  sul,  que  são 
favoráveis  ú  causa  Imperial;  mesmo  na  campanha 
ou  Campos  do  Rio  Grande  já  andam  guerrilhas 
ou  bandos  de  tropas  contra  os  rebeldes;  é  ver- 
dade que  os  rebeldes  tomarão  outra  vez  a  compa- 
nhia, porém  tiveram  perda. 

Do  amigo  obrigado. — Vallasql-es. 

Rio,  20  de  Maio  de  1840. 

Essa  questão,  porém,  concretisava  uma  bem 
grande  aspiração  para  fenecer  logo  ao  primeiro 
embate. 

António  Carlos  Ribeiro  de  And  rada  Machado 
e  Silva,  a  figura  mais  valente  e  o  talento  mais 
tempestuoso  dessa  phase  de  nossa  historia  parla- 
mentar, na  sessão  de  21  de  Julho,  na  Camará, 
apresenta  idêntico  projecto  e  provoca  renhido 
debate  terminado  pela  concessão  da  urgência 
psdida  para  a  sua  discussão. 

Nesse  Ínterim  a  regência,  assignando  o  decreto 
de  adiamento  das  Camarás,  rompeu  o  dique  que 
ainda  continha  as  paixões  e  as  ambições  das 
minorias  das  duas  casas  do  parlamento. 

Alvares  xMachado,  António  Carlos,  Martim 
Francisco  e  outros  deputados  no  auge  do  espanto 
e  da  indignação,  prorompem  em  vehem^ntes 
insultos  contra  a  regência  inconstitucional ;  António 
Carlos  pronuncia  a  celebre  phrase  que  deveria 
dar-lhe  o  ministério  pouco  depois:  (cQuem  é 
patriola  e  brasileiro  saia  commigo  para  o  senado, 
abandonemos  essa  camará  prostituída»! 

No  Senado,  deputados  e  povo,  convidam  ao 
illustre  Marquez  de  Paranaguá  a  assumir  a  presi- 
dência d^ssa  sessão  única  em  nossa  historia. 

Uma  commissão,  composta  de  António  Carlos, 
Vergueiro,  Marquez  de  Lages,  Alencar,  HoUanda 
Cavalcanti,  Martim   Francisco  e    Montezuma,   é 


/ 


87 


^'i>»-iadaa  S.  Christovão  ao  jovcn  Imperador  para 

«J^ici  sem  demora  empunhe  as  rédeas  do  governo. 

^  -  •  >  ncordou  D.  Pedro  II  e  no  dia  23  o  Marquez  de 

í  ^^11  ranaguá,   de  pé,   acclamado   pelos  deputados, 

•*^^-^  n  adores  e  povo,  pronuncia  as  palavras   seguin- 

^^-^><  :  ft  Ku,  como  orgam  da  representação  nacional, 

^  *^^    assembléa  geral,  declaro  desde  já  maior  á  S. 

-^'^  -    Imperial  o  Sr.  D.  Pedro  II,  e  no  pleno  exer- 

^  '  ^:'  io  dos  seus  direitos  constitucionaes». 

A's  3  e  meia  horas  desse  dia  de  incomparável 
^ ''^'í=i  dição,  o  Imperador  comparecia  no  seio  do 
F^  ^"^  í^la mento  e  prestava  o  juramento  que  determi- 
'"^  '^^  ^a  a  Constituição. 

K  terminou  assim  a  lucta  mais  notável  que  tem 
*^  ^^  "V- ido  no  parlamento  brasileiro. 


    ^Lh\ 


OCÒ\ 


Exploração  do  Mucury  e  Geqoitiohooha 

(COMARCAS  DECARAVELLAS  E  PORTO  SEGURO) 


lAJANDo  pelos  sertões  entre  as  duas  ultimas 
Comarcas  do  Sul  desta  Província  e  o  Norte 
da  de  Minas  Geraes  com  o  fim  de  colher  dados  que 
ponhão  o  Governo  ao  alcance  de  mais  conveniente- 
mente curar  dos  interesses  materiaes  das  mesmas 
Comarcas,  muito  árdua  teria  sido  a  minha  com- 
missão,  se  se  tratasse  de  uma  região  povoada,  onde 
a  civilisação  tivesse  estreitado  o  circulo,  dentro 
do  qual  pôde  uma  intelligencia  mediocre  propor 
melhoramentos.  Em  um  paiz  sem  população 
ainda,  cheio  de  recursos  naturaes,  onde  apparecem 
apenas  signaes  de  vida  em  alguns  pontos  desta- 
cados, a  missão  do  administrador  se  limita  ao 
estudo  das  posições  relativas  doestes  diversos 
pontos,  d'esses  mesmos  recursos  naturaes,  e  a 
d'elles  tirar  partido  para  pôr  em  relação  entre  si 
esses  germens  de  vida,  ae  modo  que  esta  se  vá 
propagando  pouco  e  pouco  pelos  intervallos,  e 
assim  se  vão  estabelecendo  as  grandes  artérias, 
d^onde  naturalmente  partem  depois  as  ramifi- 
cações que  formão  o  detalhe  da  economia  de  um 
paiz  em  prosperidade.  He  aqui  que  comecão  os 
empenhos  da  arte  apurada,  os  recursos  das  sciencias 
do  engenheiro  e  do  administrador  são  então  postos 
á  prova  para  o  engrandecimento  e  aperfeiçoamento 
da  civilisação  do  paiz. 

As  povoações  das  Comarcas  do  Sul  da  Pro- 
víncia aefinháo ;  a  falta  de  uma  policia  que  garanta 
a  segurança  individual,  e  que  tome  contas  a 
centenares  de  indivíduos  do  máo  emprego  que 

ÍZ 


90 


fazem  do  seu  tempo,  a  corrupção  dos  costumes  de 
que  he  mãi  fecunda  a  pratica  do  processo  das 
eleições,  darão  cabo  d'ellas,  se  o  Governo,  empe- 
nhando-se  em  reprimir  os  abusos  que  as  flagellão, 
ao  mesmo  tempo  não  se  apressa  em  pôl-as  em 
relação  com  a  populosa  Provincia  de  Minas,  de 
que  estão  separadas  por  uma  extensa  banda  de 
terreno  admiravelmente  susceptivel  de  proveitosa 
cultura,  e  abundante  de  productos  naturaes  de 
fácil  exploração,  mas  inteiramente  abandonado  a 
meia  dúzia  de  tribus  mingoadas  de  botocudos,  que 
fazem  guerra  de  extcrminio  ao  ousado  industrioso 

ãue  se  aventura  a  entranhar-se  um  pouco,  tanto 
a  parte  da  Provincia  de  Minas,  como  da  nossa, 
em  busca  de  tirar  partido  do  que  tão  abundante- 
mente alli  offerece  a  natureza. 

Proponho-mepois,  n'esta  breve  memoria  expli- 
cativa dos  mappas  que  fazem  o  objecto  dos 
trabalhos  da  Commissão  que  tive  a  honra  de 
dirigir:  i."  dar  idéa  do  estado  material  das  nossas 
povoações  das  Comarcas  de  Caravellas  e  Porto 
Seguro,  assim  como  da  parte  da  Provincia  de 
Minas  que  percorri  e  que  corresponde  ao  centro 
das  mesmas  Comarcas:  2." comparar  a  navegabili- 
dade do  Mucury  com  a  do  (Jequitinhonha :  3.** 
propor  o  que  mais  urgente  me  parece  no  intuito 
de  estabelecer  e  facilitar  communicações  entre  as 
povoações  da  costa  e  a  industriosa  e  populosa 
Provincia  de  Minas. 

\a  intima  convicção  de  que  a  primeira  necessi- 
dade material  das  nossas  povoações  em  decadência 
he  estabelecer  relações  com  um  centro  já  povoado 
por  meio  de  vias  de  communicação,  não  direi,  que 
encurtem  as  distancias,  mas  queponhão  um  termo 
ao  infinito  que  as  separa,  tirando  partido  do  que 
nos  otferece  a  pura  natureza,  e  mesmo  estabele- 
cendo algumas  picadas  pouco  dispendiosas  por 
onde  os  emprehendedorcs  mais  ousados  possão 


91 


conduzir  seus  géneros  á  costa  e  assim  animem  os 
mais  tímidos,  não  tenho  a  vaidade  de  acreditar 
que  proponho  o  que  ha  de  melhor;  pelo  contrario 
estou  persuadido  que  uma  viagem  de  exploração 
de  quatro  mezes,  luctando  com  mnumeras  difficul- 
dades,  muito  deixa  a  desejar,  além  de  que  é  claro 
que,  para  o  traçamento  de  cada  uma  das  vias  de 
communicação  propostas,  são  indispensáveis  explo- 
rações especiaes,  que  muito  podem  concorrer  para 
alteração  de  um  plano  geral  concebido  cm  vista 
de  um  conjuncto,  cujo  detalhe  se  não  conhece 
ainda  bem. 

Entreosparallelosde  15/40'  e  18."  7',  mais  ou 

rnenos,  as  Comarcas  de  Caravellas  e  Porto  Seguro 

não  são  as  únicas  que  constituem  o  que  se   pôde 

chamar  Comarcas  do  Sul  da  Provincia;  portanto 

Os  trabalhos,  que  ora  tenho  a  honra  de  apresentar 

a    V.    Ex.,  comprehendendo  unicamente  a  topo- 

f^raphia  d^estas  Comarcas  e  de  parte  da  Comarca 

cio  Gequitinhonha,  na  Provincia  de  Minas  Geraes, 

não  poderão   plenamente   satisfazer  as  vistas  de 

V.  Ex.,  quando  em  suas  instrucções  ordena  uma 

v-iagem  ás  Comarcas  do  Sul,  no  intuito  de  infor- 

rnal-o  sobre  as  suas  mais  urgentes  necessidades 

tnateriaes.  V.  Ex.  porém  comprehende  a  impos- 

2?^ibilidade  de  {percorrer  maior  extensão  com  pro- 

Ar-eito,  sem  um  intcrvallo  de  repouzo,  que  permitta, 

rião    somente    reganhar    as    forças    perdidas    em 

jornadas  de  tantos  solfrimentos,  senão  também  a 

ciigestão  de    notas   que,    com    o   tempo,    se  vão 

upagando  e  perdendo.  V.  Ex.  sabe  também  que  a 

lacuna  considerável  que  se  encontra  no   mappa 

f»eral  da  exploração,  em  não  ter  sido  estudado  o 

liio  Pardo,  que  talvez  possa  ser  aproveitado  em 

meio  de  communicação  com  a  Provincia  de  Minas, 

foi  devida  á  grande  enfermidade  de  que  foi  victima 

o  meu  companheiro  de  Commissão;  desgraça  que 

me  reteve  quasi  dous  mezes  na  Comarca  de  Porto 


92 


Seguro  sem  que  me  fosse  possível  fazer  longa 
ausência,  qual  a  que  demandaria  o  exame  do 
mesmo  Rio  Pardo. 

Tendo  assim  traçado  os  limites  topographicos 
das  informações  que  tenho  de  submetter  á  consi- 
deração de  V.  Ex.,  vou  dizer  o  que  sei  a  respeito 
da  região  percorrida,  referindo-me  aos  mapças 
topographicos  que,  com  esta  memoria  ou  relatório, 
serão  presentes  a  V.  Ex. 

He  facto  attestado  pela  experiência  que,  para 
que  as  povoações  de  uma  costa  qualquer  cheguem 
a  estado  de  prosperidade,  he  indispensável,  pelo 
menos,  uma  doestas  duas  condições:  i.*  um  centro 
povoado  a  cujos  productos  sirvão  de  entreposto; 
2/  um  certo  gráo  de  desenvolvimento  na  inaustria 
manufactureira  própria  que  por  si  só  possa  fazer  o 
objecto  de  uma  considerável  exportação.  Ora  a 
ultima  destas  condições  suppõe  um  gráo  de  civili- 
sacão,  de  que  infelizmente  estamos  ainda  muito 
longe;  entretanto  que  não  se  pode  duvidar  que 
a  industria  agricola  he  de  facil  estabelecimento 
mesmo  nos  paizes  novos,  mormente  quando,  como 
entre  nós  acontece,  a  natureza  do  terreno  nada 
deixa  a  desejar  para  o  seo  rápido  progresso. 

Parece  que  a  natureza  destinou  as  costas  exclu- 
sivamente para  lugares  de  depósitos  onde  se 
eífectuem  as  permutas  entre  os  diversos  paizes:  os 
seos  habitantes,  fiados  no  peixe  que  lhes  fornece 
o  mar,  habituados  a  vida  do  mar,  tem  muito  pouca 
coragem  para  se  entranharem  pelo  centro  e  culti- 
varem as  terras.  Sem  o  movimento  de  uma  marinha 
commercial  que  os  occupe  e  empregue,  única 
industria  para  que  elles  têm  suas  faculdades  apura- 
das, definhão,  longe  de  prosperarem.  Na  grande 
extensão  que  percorri  no  terrirorio  do  Pará,  o 
estado  selvagem  me  parece  menos  bruto  e  desgra- 
çado, a  medida  que  me  afastava  das  margens  dos 


i)3 


rios  piscosos,  e  dos  lugares  abundantes  de  caça; 
esse  tal  ou  qual  bem  estar  do  selvagem  me  pare- 
ceo    menos   miserável  nas  cabeceiras   dos    Rios 
Surumú,  e  Coatin,  dous  elementos  insignificantes 
do   Rio   Branco.    AUi   encontrei  uma  população 
numerosa,  algumas  plantações  regulares  de  canna, 
milho,  mandioca  e  outros  legumes,  e  até  algumas 
flores  de  nossos  jardins  plantadas  na  frente  de  uma 
choupana !  Pode-se  talvez  estabelecer  que  a  popu- 
lação do  centro  he  o  mais  justo  thermometro  da 
prosperidade  da  costa  que  lhe  serve  de  deposito 
commercial. 

Estes    princípios   explicão    satisfactoriamente, 
com  a  diminuição  dos  braços  escravos,  a  deca- 
dência em  que  vão  algumas  das  povoações  das 
C^omarcas  de  Caravellas  e  Porto  Seguro,  e  o  estado 
c^stacionario  em  que  vegetão  outras.  Exceptuando 
^3k  cultura  do  café  teita  por  mais  de  dous  mil  captivos 
cdos  fazendeiros  estrangeiros  que,  ha  poucos  annos, 
2^e   têm   estabelecido,    com    o    titulo  de    Colónia 
Leopoldina,   nas  margens  do  rio  Peruhipe,   bem 
poucas  c  limitadas  são  as  plantações  das  margens 
cdos  rios  d'aquellas  Comarcas.  Passarei  em  revista 
X-ima  por  uma  as  suas  povoações,   afim    de  vêr 
se  mais   me   aproximo  de    uma   idéa   justa  que 
possa  a  V.  Ex.  cabalmente  inteirar  do  sco  estado 
material. 


COMARCA  DE  CARAVELLAS 


«Villa  de  São  José  de  Porto  Alegre».  Situada 
^  niargem  esquerda  do  Rio  Mucury,  junto  de  sua 


!l4 


fóz,  no  pararellode  18/  6/  43.",  (1)  está  esta  viUa 
reduzida  a  quarenta  ranchos  de  palha  mal  arran- 
jados e  cinco  ou  seis  cobertos  de  telha,  e  uma  igreja 
em  construcção,  cujo  aspecto  se  confunde  um 
pouco  com  o  de  um  edifício  em  ruina,  e  por  isso 
muito  em  harmonia  com  o  restante  da  povoação. 
A  população  de  todo  o  seo  districto  não  chegará  a 
25o  almas,  depois  da  dissolução  da  Colónia,  que 
alli  fazia  a  sua  residência.  Duas  causas  concor- 
rem simultaneamente  contra  a  prosperidade  do 
Mucury.  A  indolência  e  hábitos  de  vida  que 
desvião  seos  habitantes  de  um  trabalho  regular,  e 
a  imprevidência  no  consumo  da  pouca  provisão 

(I)  Âs  latitudes  são  aqui  delcrmioadas  por  series  de  alturas  do 
Sol  tomadas  de  manhã,  quanto  foi  possível,  junto  do  primeiro  verti- 
cal, combinadas  com  outras  tantas  series  lomuda^  depois  da  passagem, 
tão  perto  do  meridiano  quanto  pcrmillia  o  instrumento,  que  foi 
sempre  um  Si^xlante;  com  excepção  das  alturas  tomadas  na  villa 
de  S.  José  de  Porto  Alegre,  em  que  me  servi  de  um  Tbeodolito,  quo 
me  não  dava  segundos.  Por  aqui  se  vi>  que,  sendo  o  tempo  appa  • 
rente  das  alturas  que  entrão  no  calculo  da  lalitude,  delerm*uado, 
como  já  disse  em  outra  parte,  por  essas  mesmas  alturas,  o  resul- 
tado das  minhas  ol  serva(;r)es  deve  e^fnr  aíTeclado  dos  defeitos  que 
podem  vir  da  impropriedade  do  momento  em  que  he  determinado  o 
tempo  verdadeno  da  segunda  observação.  Mas  esses  defeitos, 
quaesquer  que  elles  sojào,  são  muito  menos  sensíveis  que  os  que 
vém  dl  susceplibilidade  do  relógio  em  variar  de  marcha  segundo  as 
differentes  posiyOos  em  que  pode  ser  transportado  ou  estar  coilo- 
cado,  e  segundo  o  estado  Thermomctrico  da  alhmosphera.  Oquasi 
accordo  entre  as  minhas  latitudes  com  as  do  Barão  de  Jloussjn, 
desde  que  tive  occasiâode  observar  em  pontos  por  elle  determinados, 
me  segura  nesta  persuasão. 

As  series  tomaJas  em  Porto  Alegre  em  8  e  15  de  Maio  de  1849 
me  derâo  os  seguintes  elementos  para  os  cálculos  de  latitude,  que 
fornecerão  a  media  que  se  acha  no  texto: 

8  de  Maio  —  Theodolilo  —  Barómetro  —  Tbermometro. 

Manhfi  8  •'  17."'  20.",  40.  l.  v. . .  Dist.  zenilh.  corr,  GS."  G.'  24",  2\ . 
Tarde  13.    7     25,   65.  t.  v. . .      •         «         »  —38.  58.  35,  60. 

15  de  Maio  —  Theodolilo  —  Barómetro  —  Tbermometro. 
Manhã  8  "35.'"  1.%  52.  l.  v. . .  Dist.  zenith.  corr.  62."  27.'  40",  82. 
Tarde  13.  24,    48,  81.  t.  v...     »         »         «      42.   29.  45,   82. 
A  media  afa.sta-.se  das  latitudes  calculdas  de  O**, 9. 


95 


que  lhes  vêm  de  sua  mescjuinha  lavoura,  os  fazem 
persuadir-se  que  lhes  he  impossível  viver  com  os 
únicos  productos  da  terra,  isto  he,  sem  peixe; 
daqui  o  receio  de  se  afastarem  do  mar.  Por  outra 
parte,  a  barbaridade  do  gentio  que  frecjuenta  as 
margens  do  Mucury  faria  recuar  o  mais  ousado 
que  tentasse  internar-se  um  pouco.  Estão  bem 
presentes  os  horrores  commettidos  por  estes  brutos 
com  a  família  do  fallecido  Violas,  que  muitas 
vezes  os  alimentava,  as  perseguições  feitas  a  muitos 
outros,  e  o  facto  recentíssimo  do  joven  Vital, 
Secretario  da  Gamara  de  Porto  Alegre,  que  se 
suppõe  ter  sido  devorado. 

Houve  um  tempo  cm  que  alguma  exportação 
SC  fazia  no  Mucury,  seo  porto  era  frequentado  por 
uma  ou  outra  embarcação  de  pequeno  porte; 
porém  hoje  he  impossível  arranjar-se  alli  carrega- 
mento para  uma  lancha.  Durante  a  minha  demora 
n^aquelle  distrícto  procurei  mostrar  aosseos  habi- 
tantes a  possibilidade  de,  por  meio  de  associações 
entre  os  pequenos  plantadores,  completar-se  o 
carregamento  de  uma  ou  duas  lanchas  por  anno; 
baldados  porém  forão  os  meos  esforços:  os  que 
parecião  comprehender-me  oppunhão  como  diffi- 
culdade  o  habito  commum  e  pernicioso  que  tem 
muita  d'essa  gente  de  pouco  se  importar  com  o 
cumprimento  de  seos  tratos;  outros  ouvião-me 
com  tanta  índííFerença  que  algumas  vezes  cheguei 
a  persuadir-me  que  lhes  estava  dizendo  alguma 
heresia. 

Hoje  toda  industria  do  Mucury  está  reduzida 
á  fabricação  de  uma  ou  duas  canoas  por  anno,  por 
algum  especulador  de  fora,  que  n^aquelle  trabalho 
emprega  os  habitantes  do  lugar,  pagando-lhes  em 
géneros  que  leva  comsigo.  Por  aqui  pôde  V'.  Ex. 
ajuisar  do  estado  de  miséria  a  que  está  redusído 
aquelle  distrícto. 


s 


9Í) 


«Villas  de  Viçosa  e  Caravcllas».  As  condições 
topographicas  doestas  povoações  me  não  permittem 
separal-as.  A  primeira  situada  á  margem  direita 
do  Peruhipe,  a  meia  legoa  de  sua  fóz,  gozaria  das 
vantagens  de  entreposto  dos  productos  que  pelo 
seo   no  descem  da  Colónia  Leopoldina,   se  não 
estivesse  em  relação  com  sua  poderosa  rival,  Cara- 
vcllas, por  um  excellente  canal  natural  de  quatro 
legoas,  mais  ou  menos,  por  onde  descem  muitas 
embarcações  do   Peruhipe,  a  fazerem  sua  sabida 
ao  mar  pela  sua  barra,  que  he  superior  a  de  Viçosa, 
mormente  quando  o  destino  das  embarcações  he 
para  portos  ao  Norte  da  Comarca.  Por  outra  parte, 
os  fazendeiros  do  Peruhipe,  recebendo  directa- 
mente do  Rio  de  Janeiro  ou  da  Bahia  os  géneros 
do  seo  consumo  e  de  suas  fazendas,  em  troca  de 
seos  productos  de  exportação  que  também  envião 
directamente,  ou  abastecendo-se  de  suas  necessi- 
dades mais  urgentes,  em  caso  de  demora  de  suas 
receitas,  na  viíla  de  Caravellas  por  ser  mercado 
mais  abundante.  Viçosa  fica  redusida  a  percepção 
dos  impostos  em  favor  do  fisco,  e  por  esta  forma 
nenhum  impulso  recebe  dos  opulentos  habitantes 
do  seo  pequeno  sertão  para  o  movimento  commer- 
cial  que,  no  caso  contrario,  produsiria  o  augmento 
do  material  da  povoação.  Assim  o  estado  da  Villa 
Viçosa  não  he  prospero,  pareceo-me  estacionário, 
e  o  será  em  quanto  as  circumstancias  concorrerem 
da  forma  por  que  acabo  de  expor.  A  sua  população 
chegará  proximamente  a   i3(X)  almas,  e  a  planta 
respectiva   dará  a    V.  Ex.    idéa   do    seo   estado 
material, 

Caravellas  não  tem  sertão:  tanto  vale  a  falta  de 
um  rio  que  afastando-se  da  costa  ponha  seos 
mingoados  plantadores  ao  alcance  das  terras 
virgens  do  centro,  únicas  cultiváveis  no  estado 
actual  da  industria  agricola  no  nosso  paiz.  Seo  rio, 
distante   de   cuja  fóz   está   situada,    na  margem 


í 


97 


esquerda,  no  paralello  de  17,"  40/  Si"  (i),  não 
passa  de  um  bello  canal  de  esgoto,  em  que  se 
escoão  as  agoasdas  baixas  que,  em  pouca  distancia 
para  o  centro,  se  notão  entre  os  rios  Peruhipe  e 
Itahen  ou  Alcobaça,  como  se  pôde  vêr  no  mappa 
especial  da  Comarca;  por  isso  as  suas  agoas  nunca 
deixão  de  ser  extremamente  salgadas. 

Sem  sertão,  como  acabo  de  dizer,  sem  industria 
alguma  manufactureira,  apesar  de  sua  excellente 
barra,  não  teria  sustentado  o  gráo  de  importância, 

aue  a  colloca  acima  de   todas  as  povoações  das 
uas  ultimas  Comarcas  do  Sul,  se   não  fosse  o 
canal  de  Viçosa.  Entretanto,  sem  considerar  trez 
ou  quatro  edifícios  novos,  construidos  em  melhor 
gosto   do  que   o    restante  da    povoação   que    he 
bastante  antiga,  não  poderei  assegurar  que  a  Villa 
de  Caravellas  tenha  progredido  no  seo  material, 
em  vista  do  quadro  comparativo  da  exportação 
feita  por  sua   barra  durante   os  annos  de   1845, 
1846,  1847  ^  Í848,  que  tenho  a  honra  de  submetter 
é  consideração  de  V.  F^x.  Vê-se  ahi  que  o  movi- 
mento commercial  do  seo  porto  não  seguio  uma 
marcha  progressiva  nos  4  annos  contemplados; 


(I)  Tendo-me  sido  difficil  voltar  a  Caravellas  dopois  que  recebi 
ordem  de  seguir  para  Minas,  apenas  tive.  para  calcular  a  latitude 
daquelle  ponlo,  as  series  de  aUuras  necessárias  para  um  só  calculo, 
que  tomei  por  occasiâo  de  uma  chegada  que  alli  dei  para  expedir 
ao  Governo  o  resultado  dos  trabalho^  da  Commissílo  sobre  a  exlincta 
Colónia  do  Mucury.  A  esperança  de  ainda  voUar  áquella  povoação 
c  a  escacez  com  que  se  deixava  ver  o  Sol,  no  dia  que  destinei  ás 
observações,  fizerão  com  que  eu  não  rep(»tisse  as  minhas  series 
da<juelle  dia.  Comtudo  não  deixa  de  me  merecer  confiança  esta 
latitude,  em  vista  do  acrordo  que  ella  me  apresentou  com  o  detalhe 
da  Topographia  feito  a  bússola  e  referido  ã  um  ponto  visinho  e 
conhecido. 

Caravellas  (junto  ã  igreja)  30  de  Abril  de  1849— Sextante. 

Manhã  S^  4-."  11/  45.  t.  v. . .  Dist.  zenilh.  corr.  66.  36.  12,  80. 
Tarde  14.  50.  9.   00.  t  v,..     »  .         »      53.    4.  25,  «. 

X3 


98 


devendo  notar-se  cjue,  de  toda  esta  exportação, 
apenas  alguma  farinha  e  coco  he  producção  do 
districto  de  Caravellas.  Estimo  a  sua  população 
em  2.600  almas,  e  a  planta  respectiva  mostrará  a 
V.  Ex.  a  extensão  do  seo  material. 

Doesta  idéa  approximada  das  Villas  de  Cara- 
vellas e  Viçosa,  cujo  complemento  se  encontrará 
nos  mappas  especiaes,  se  vê  que  esta  ultima 
povoação,  apezar  de  ter  u  m  pequeno  sertão  povoado 
de  cerca  de  2.000  almas  empregadas  na  lavoura, 
produsindo  60.000  arrobas  de  café,  além  de  outros 
géneros  de  importância  secundaria,  conserva-se 
em  estado  estacionário,  e  que  Caravellas,  usur- 
pando lhe  quasi  todas  as  vantagens  de  entreposto, 
por  causa  da  melhoria  de  sua  terra,  nem  por  isso 
tem  progredido.  Demoremo-nos  um  pouco  na 
apreciação  das  causas  que  para  estes  phenomenos 
concorrem,  afim  de  que  não  pareça  compromettido 
o  principio  que  acima  estabelecemos,  isto  he,  que 
os  pontos  do  littoral  de  qualquer  paiz  só  podem 
prosperar,  ou  por  grande  desenvolvimento  de 
industria  manufactureira,  ou  pela  circumstancia  de 
servir  de  entreposto  aos  productos  de  um  centro 
populoso. 

A  importação  directa  que  fazem  os  fazendeiros 
do  Peruhipc  dos  géneros  do  seo  consumo,  a  con- 
veniência de  fazerem  subir  as  embarcações  até  o 
ultimo  ponto  (  S.  José  )  onde  o  rio  permitte,  para  o 
carregamento  do  café,  o  melhor  pé  de  mercado  de 
Caravellas,  e  a  commodidade  de  sua  barra,  são 
circumstancias,  que  concorrem  simultaneamente 
para  o  isolamento  e  falta  de  progresso  de  Viçosa. 

A  mesma  importação  directa  para  a  Colónia 
Leopoldina,  dV)nde  resulta  que  he  extremamente 
insignificante  e  casual  o  provimento  feito  no  mer- 
cado de  Caravellas  por  aquelles  fazendeiros,  o 
decrescimento  da  agricultura  no  districto  e  mesmo 
no  de  Viçosa,  d'onde  em  grande  porção  concorrião 


99 


os  productos  para  Caravellas,  já  por  grande  dimi- 
nuição nos  braços  productivos,  que  são  quasi  exclu- 
sivamente os  escravos,  já  porque  a  escacez  das 
terras  tem  afastado  muitos  plantadores  para  os 
sertões  de  Alcobaça,  são  causas  do  pouco  ou 
nenhum  progresso  cie  Caravellas. 

Mas,   convindo    remover  estes  obstáculos  ao 
progresso  material  doestas  duas  j:^ovoações,  seria 
de  equidade  constranger  os  fazendeiros  do  Peruhipe 
a  se  proverem  das  necessidades  de  seo  consumo 
nos  mercados  de  Caravellas  e  Viçosa,  contra  a 
vantagem  de  suas  posições  respectivas,  e  de  suas 
relações  intimas  que  lhes  permittem  associarem-se 
para  se  fornecerem  mais  a  seo  gosto  nos  grandes 
mercados  do  Rio  e  da  Bahia  ?  Não  por  certo ;  porque 
Qs  suas  necessidades  estão  acima  do  sortimento, 
oue  pode  ter  qualquer  casa  de  commercio  d'aquellas 
duas  povoações,  e  se  tornaria  isto  um  verdadeiro 
"vexame  contra   aquelles  proprietários.    Seria  de 
proveito  e  justiça  que  se  impedisse  a  subida  das 
embarcações  até  São  José,  a  tazer  alli  seo  carrega- 
mento, como  houve  quem  o  pensasse  ?  Não,  porque 
seria  isto  augmentar  o  risco  do  commercio  e  por 
consequência   pòr    entraves    ao    seo    desenvolvi- 
mento. O  fazendeiro,  que  tivesse  de  descer  com 
suas  canoas  carregadas  de  S.  José  ao  Porto  de 
Viçosa,  teria  de  percorrer  o  caminho  de  i6  milhas 
mais   ou   menos,    necessitaria  de  maior  pessoal, 
mais  tempo,  e  não  conseguiria  evitar  o  augmento 
de  probabilidade  de  accidentes.  Os  justos  deveres 
da  authoridade  publica  não  lhe  permittem  tolher 
o  desenvolvimento  de  qualquer  ramo  de  riqueza 
no  intuito  de  fazer  progredir  artificialmente  uma 
povoação,  que  não  preenche  as  condições  reque- 
ridas  por  e   para  esse  mesmo  desenvolvimento, 
suas  vistas  e  seos  empenhos  se  devem  limitar,  em 
matéria  de  industria,  a  comprchender  as  tendên- 
cias e  facilitar  sua   realisação,  e  quando  muito 
proteger  aquellas  indicações  que  evidentemente  se 


itío 


coadunão  com  os  interesses  dá  mesma  industria,  e 
cjue  só  pelo  seo  atrazo  se  não  tenhão  ainda  mani- 
testado. 

Em  quanto  a  exportação  do  districto  se  limitava 
aos  productos  dos  pequenos  cultivadores  das  visi- 
nhanças  da  costa,  Viçosa  era  o  deposito  mais 
conveniente  para  o  carregamento  das  embarcações; 
mas  hoje  que  o  rio  Peruhipe  reúne  em  estreito 
limite  uma  massa  de  cultivadores  produzindo 
sufíicientemente  para  occupar  algumas  embar- 
cações no  seo  commercio,  Viçosa  perdeo  toda  a  sua 
propriedade  de  deposito  para  este  eífeito. 

As  necessidades  commerciaes  indicão  hoje  S. 
José  como  ponto  mais  conveniente ;  convém  pois 
que  o  Governo,  longe  de  embaraçar,  proteja  o 
estabelecimento  d'aquella  povoação. 

Vemos  pois  que  Viçosa  e  Caravellas,  tendo  por 
única  fonte  importante  de  riqueza,  que  as  alimenta, 
por  assim  dizer,  os  fazendeiros  do  Peruhipe,  não 
são  susceptíveis  de  progresso  senão  tanto  quanto 
crescer  o  numero  destes  povoadores  do  rio.  Ora, 
hoje  não  he  permittido  duvidar  do  quanto  he 
precária  a  um  paiz  a  riqueza  produzida  pela 
escravatura,  mormente  quando  se  trata  de  pôr 
termo  a  este  infame  commercio.  A  escravatura 
inutilisa  os  braços  livres,  já  creando  e  sustentando 
os  prejuisos  sob  que  diíinha  a  nossa  população 
livre,  já  afastando-a  de  muitos  misteres  epor  esta 
forma  reduzindo  os  seos  recursos  para  a  existência, 
circumstancia  única  que  explica  a  falta  de  progresso 
de  nossa  população.  Não  preciso  sair  dos  mesmos 
districtos  de  Caravellas  e  Viçosa  para  mostrar  um 
exemplo.  Com  eífeito,  he  aos  productos  da  escra- 
vatura que  devem  estas  povoações  o  pé  de  prospe- 
ridade material  a  que  chegarão ;  depois  da  abolição, 
esta  tal  ou  qual  diíiiculdadcque  forão  encontrando 
os  plantadores  em  substituírem  os  braços  inutili- 
sados  ou  perdidos,  foi  os  desanimando  e  atrazando, 


101 


ã  piònto  de  que  não  he  hoje  possível  ás  mesmas 
povoações  conservarem  a  cathegoria  a  que  che- 
garão, apezar  da  exportação  de  60.000  arrobas  de 
café  que  faz  pelos  seos  portos  a  chamada  Colónia 
Leopoldina,  com  seos  2.000  captivos. 

E  pois,  se  passa  a  ser  uma  realidade,  como  eu 
acredito,  a  supressão  da  escravatura,  não  sei  qual 
será  a  sorte  a  estas  povoações,  se  o  Governo  não 
adoptar  medidas  que  as  ponhão  em  relação  com  o 
centro  populoso  de  Minas  Geraes,  de  modo  que 
esta  gente  industriosa  venha  descendo  a  povoar 
os  nossos  sertões,  onde  de  certo  achará  terras  mais 
vantajosas  para  a  agricultura,  do  que  a  que  por 
aquelía  parte  da  Província  se  encontra,  e  onde  não 
lhe  faltarão  excellentes  portos  para  a  exportação 
de  seos  productos,  do  que  está  actualmente 
privada. 

«  Villa  d^Alcobaça».  He  a  terceira  povoação  da 
Comarca,  a  contarão  Sul,  cinco  legoas  ao  Norte  de 
Caravellas,  com  i.5oo  almas  proximamente  em 
todo  o  seo  districto.  A  sua  planta,  bem  que  reduzida 
a  escala  do  plano  especial  da  Comarca,  serve  com 
tudo  para  dar  uma  idéa  approximada  da  impor- 
tância do  seo  material.  Situada  á  margem  esquerda 
do  rio  Itahen,  junto  de  sua  foz,  he,  nas  actuaes 
circumstancias,  o  justo  entreposto  dos  productos 
das  fertilissimas  margens  do  seo  rio,  cuja  expor- 
tação, pela  maior  parte  feita  por  braços  captivos, 
deVe  algum  desenvolvimento  a  emigração  dos 
antigos  plantadores  do  districto  de  Caravelías,  que, 
por  falta  de  terras  cultiváveis,  d'alli  se  retirarão. 

O  quadro  comparativo  de  sua  exportação 
durante  os  annos  cie  1845,  1846,  1847  ^  ^^48  não 
attestão  uma  marcha  progressiva  na  sua  riqueza,  e 
nada  vejo  que  possa  fazer  esperar  melhoramento 
algum,  a  não  serem  as  relações  que,  com  o  centro, 
possa  o  Governo  estabelecer  por  meio  de  commu- 
nicações  com  a  Província  de  Minas;  pelo  contrario. 


U)2 


sendo  os  productos  devidos,  pela  maior  parte,  á 
escravatura,  naturalmente  tendem  a  diminuir  com 
o  fallecimento  dos  braços  productores.  A  lotação 
das  embarcações  que  fazem  a  sua  exportação  darão 
a  V.  Ex.  idéa  das  vantagens  de  sua  barra,  que  sem 
duvida  não  he  das  peiores. 

«  Villa  do  Prado».  He  a  ultima  povoação  da 
Comarca  digna  de  nota.  Sua  população  montará  a 
Soo  ou  35o  almas,  e  o  quadro  comparativo  de  sua 
exportação,  durante  os  4  annos  de  1845,  1846, 
1847  ^  ^^4^  completa  a  idéa  que  eu  poderia  dar  a 
V.  Ex.  do  seo  progresso  material.  Os  seos  cultiva- 
dores também  têm  sido  victimas  das  incursões  dos 
selvagens,  e  por  isso,  como  os  habitantes  do 
Mucury,  não  se  alongão  muito  da  costa.  Também 
não  são  livres  em  geral  os  braços  empregados  na 
lavoura. 

Eis  o  que  posso  informar  a  V.  Ex.  a  respeito  do 
material  da  Comarca  de  Caravellas,  acrescentando 

3ue  todas  as  vias  de  communicação,  entre  as 
i versas  povoações,  se  limitão  as  que  oííerece  a 
costa  na  baixa  mar,  e  á  alguns  trilhos  em  zig-zag 
que  obrigão  o  individuo  a  andar  o  dobro  do  caminho 
que  precisa  fazer. 

COMARCA  DE   PORTO  SEGURO 

Não  são  menos  sensiveis  os  cffcitos  da  falta  de 
uma  população  central  e  da  diminuição  dos  braços 
escravos  a  esta  Comarca.  A  escravatura,  ao  passo 
que  alguma  cousa  produzio  para  elevar  as  suas 
povoações  a  certo  gráode  prosperidade,  inutilisou 
de  tal  maneira  os  braços  livres  que  hoje  vão  em 
sensível  decadência  com  a  falta  de  captivos. 

((Villa  de  Porto  Seguro».  A  sua  povoação  mais 
importante,  a  Villa  de  Porto  Seguro,  está  hoje 
reduzida  ao  commercio  que  pôde  alimentar  a  pesca 
das  garòpas,  em  que  tem  empregadas  cincoenta  e 


103 


tantas  lanchas,  e  a  construcção  de  uma  ou  duas 
embarcações  pequenas  por  anno;  por  isso  já  quasi 
toda  ella  se  está  mudando  para  o  lugar  denomi- 
nado «Pontinha»,  junto  de  sua  barra.  A  lavoura 
do  seo  districto,  cuja  população  se  pôde  estimar 
em  2. Soo  almas,  não  produz  a  farinha  necessária 
para  o  seo  sustento.  A  sua  barra,  uma  das  melhores 
da  costa  da  Comarca,  tem  perdido  e  tende  a  perder 
completamente  o  seo  fundo  pela  indifferença  com 
que  se  consentem  que  particulares  vão  tirar  no 
recifç,  que,  a  semelnança  de  Pernambuco,  forma 
o  porto,  as  pedras  que  necessitão  para  suas 
construcções.  Grande  parte  das  agoas  do  fluxo  e 
refluxo  fazendo  sua  entrada  por  brexas  assim 
abertas  na  muralha  natural  do  porto,  o  movimento 
no  canal  da  entrada  das  embarcações  torna-se 
menos  activo,  e  d'ahi  o  alteamento  do  seo  fundo 
até  completa  obstrucção,  se  se  continuar  a  facilitar 
o  movimento  das  agoas  por  outras  partes. 

Não  deixarei  a  Villa  de  Porto  Seguro  sem 
chamar  a  attenção  de  V.  Ex.  sobre  a  necessidade 
de  fazer  reparar  o  edifício  que  alli  serve  de  cadeia 
e  camará  municipal.  Com  a  despesa  de  dous  a  trez 
contos  de  réis  poderá  elle  ser  completamente 
restaurado,  entretanto  que  se,  d'aqui  a  alguns 
annos,  quando  elle  tiver  cohido  cm  ruina  total,  e 
o  Governo  tiver  de  fazer  outro,  não  o  conseguirá, 
igual  ao  actual,  com  a  despesa  de  seis  a  oito  contos 
de  réis;  não  tanto  pela  natureza  da  construcção, 
como  pela  singular  anomalia,  que  alli  se  nota  nos 
trabalhos  públicos,  como  já  tive  a  honra  de  explicar 
á  Presidência,  informando  um  requerimento  da 
Camará  Municipal  de  Belmonte,  que  pedia  o  ajuste 
de  contas  com  a  Ihesouraria  Provincial,  e 
augmento  de  consignação  para  a  conclusão  do 
edifício  da  cadeia  da  VÍlla.  V.  Ex.  me  permittirá 
transcrever  aqui  este  mesmo  documento,  que  me 
dispensará  também  de  fallar  n'este  edifício  publico, 


104 


quando  tiver  de  passar  em  revista  o  material  da 
Viila  de  Belmonte. 

Illm.  e  Exm,  Sr.  —  V.  Ex.  me  ordena  que 
informe  o  que  me  occorrer  e  poder  servir  de  escla- 
recimento ás  contas  apresentadas  á  Thesouraria 
pela  camará  Municipal  de  Belmonte,  afim  de  lhe 
ser  por  ella  abonado  o  conto  de  réis  que  esta 
despendeo  na  parte,  que  está  construida,  do  edifício 
que  deve  servir  para  prisão,  e  casa  de  suas  sessões 
e  das  do  Jury.  Empregarei  todo  o  empenho  em 
esclarecer  alguma  cousa;  porém  desde  já  devo 
dizer  que,  não  tendo  jamais  entrado  no  exame  da 
maneira  porque  os  ditierentes  depositários  d'aquella 
quantia  gerião  a  sua  distribuição,  não  me  he 
possivel  dar  informação  alguma,  que  tenda  a  fazer 
aesapparecer  as  justas  irregularidades  que  autho- 
risão  a  Thesouraria  a  recusal-as.  Mas  as  contas 
irregulares,  como  estão,  denuncião  irregularidades 
ou  extravios  dos  dinheiros  confiados  áquella  corpo- 
ração? Eis  a  questão  a  que  parece  estar  reduzido 
todo  este  negocio,  a  vista  da  declaração  que  faz  a 
Gamara  da  impossibilidade  em  que  se  acha  de 
fornecer  mais  esclarecimento  algum,  e  eis  sobre 
que  eu  poderei  talvez  adiantar  alguma  idéa. 

A  Gamara  Municipal  de  Belmonte,  declarando 
que  lhe  era  impossivel  regularisar  mais  as  suas 
contas,  disse  uma  verdade  aue  eu  acho  natural, 
depois  que  vi  quão  poucos  individuos  se  encontrão 
por  esses  lugarejos  que  facão  idéa  do  que  seja  uma 
conta  regular,  e  menos  ainda  que  estejão  em 
circumstancias  de  a  organisar.  Por  outra  parte  não 
só  não  ouvi  fallar,  durante  o  tempo  que  me  demorei 
na  Gomarca  de  Porto  Seguro,   de  máo  emprego 

aue  a  Gamara  de  Belmonte  tivesse  feito  dos 
inheirosque  lhe  forão  confiados,  como  também, 
a  vista  da  necessidade  que  ella  tem  do  edificio,  do 
empenho  que  manisfestavão  todos  os  seos  membros 
de  o  vçrçrn  çoncluido,  não  posso  deixar  de  suppôr 


106 


que  a  sua  irregularidade  não  passa  além  de  suas 
contas.  Ha  porém  um  facto  a  notar-se,  que  poderia 
comprometter  apparentemente  á  Gamara,  junto 
de  quem  ignorasse  certas  circumstancias  locaes.  He 
facto  que,  a  obra,  que  está  feita  em  Belmonte,  não 
vale  o  dinheiro  que  n'ella  se  despendeo,  e  que,  se 
ella  tivesse  sido  feita  por  um  particular,  ter-lhe-hia 
custado  talvez  menos  de  metade  do  que  ella  custou 
á  Provincia;  porém  a  vista  da  mesma  obra  não 
posso  dizer  que  houve  desperdicio  da  parte  dos 
seos  directores.  Primeiramente  nós  sabemos  que, 
o  interesse  de  um  administrador  de  obras  publicas, 
pela  obra  que  administra,  não  o  faz  descer  muitas 
vezes  a  certos  detalhes  c  particulares,  que  muito 
concorrem  para  diminuir  as  despesas  daquella,  que 
he  administrada  por  seo  próprio  dono.  Além  disto, 
he  tal  a  irregularidade  que  se  nota  em  todas  as 
relações  commerciaes  n'esses  miseráveis  lugarejos, 

3ue  se  dá  em  qualquer  d^elles  um  phenomeno,  que 
esmenteria  uma  das  leis  mais  positivas  da  Eco- 
nomia Politica,  se  não  fosse  elle  mesmo  a  expli- 
cação do  estado  excepcional  e  desgraçado  em  que 
vivem  os  nossos  compatriotas  das  Comarcas  de 
Caravellas  e  Porto  Seguro.  Nestas  Comarcas, 
cjuem  paga  o  dinheiro  a  vista  he  obrigado  a  pagar 
mais  do  que  aquelle  que  paga  a  géneros.  O  dinheiro 
^lii  não  passa  de  uma  unidade  imaginaria  pela  qual 
se  regulão  os  valores  dos  objectos  e  serviços  pres- 
tados: o  pagamento  he  sempre  feito  a  géneros.  Os 
índios,  como  chamão  os  especuladores  ou  regatões 
cjue  por  lá  apparecem,  pedem  pelo  jornal  de  seo 
t  rabalho  um  preço  exorbitante  expresso  em  unidade 
cia  moeda  do  paiz,  o  regatão  que  só  paga  em 
géneros  de  consumo,  como  he  senhor  de  pôr  o 
preço  a  sua  fazenda,  muito  pouco  se  importa  com 
essa  exorbitância,  porque  está  sempre  no  poder  de 
não  pagar  mais  do  que  aquillo  que  lhe  convém : 
em  proporção  faz-lhes  a  conta  dos  géneros  que  lhes 
adianta  ou  lhes  dá  em  pagamento.  D'aqui  vém  o 

14 


106 


habito  em  que  estão  os  naturaes  de  exagerarem  os 
seos  preços,  exageração  que  se  torna  muito  real  e 
positiva  para  os  que  tem  de  pagar  a  dinheiro.  Eis  o 
caso  em  que  estava  a  Camará,  cujo  agente  natural- 
mente entendeo  não  dever  reduzir  a  consignação 
a  géneros  para  alcançar  a  vantagem  de  que  gosão 
os  seos  próprios  membros  nas  suas  transações 
particulares  com  os  naturaes  do  lugar.  Deos  Guarde 
a  V.  Ex.  Bahia  6  de  Setembro  de  i85o.  —  Illm.  e 
Exm.  Sr.  Dr.  Vice-Presidente  da  Província, — 
I.  V.  Perderneiras  Capitão  d'Engenheiros,  Chefe 
da  Commissão  de  exploração  do  Mucury  e 
Gcquitinhonha. 

«Villa  Verde  c  Nossa  Senhora  d' Ajuda.»  Na 
margem  esquerda  do  rio  de  Porto  Seguro,  a  quatro 
ou  cinco  legoas  da  costa,  está  situada  uma  aldeia 
com  o  titulo  de  Villa  Verde  e  honras  de  município 
independente.  Sua  população  chegará  apenas  a  i5o 
ou  200  almas  e  o  aspecto  de  sua  povoação  mostra 
decadência.  Os  moradores  do  districto  nada  ex- 
portão,  a  não  ser  alguma  madeira  que  fazem  descer 
para  os  pequenos  estaleiros  de  Porto  Seguro. 

Junto  a  costa  e  a  mesma  margem  está  também 
a  muito  antiga  povoação  de  Nossa  Senhora  d' Ajuda, 
que  nenhuma  razão  tem  para  prosperar.  Sua  popu- 
lação chegará  a  1 5o  almas. 

«Villa  de  Trancozo.»  A  trez  legoas  ao  Sul  de 
Porto  Seguro  está  a  povoação  de  Trancozo  com  1 5o 
a  200  almas.  Não  tem  exportação  alguma,  mas 
fornece  grande  parte  da  farinha  do  consumo  de 
Porto  Seguro. 

((Villa  de  Santa  Cruz».  A*  igual  distancia  para 
o  norte  de  Porto  Seguro  está  a  Villa  de  Santa  Cruz. 
Não  he  mais  feliz  do  que  as  outras  povoações  da 
Comarca,  e  até  mesmo  a  gloria  de  haver  dado  nome 
ao  Império  parece  fenecer  com  ella.  Possueno  seo 
porto  apenas  trez  ou  quatro  garôpeiras,  que,  conio 
as  de  Porto  Seguro,  se  empregão  exclusivamente 


107 


na  pesca.  Sua  população  andará  por  5oo  almas  e 
os  edifícios  mais  importantes,  jácahindoem  ruinas, 
attestão  a  sua  decadência. 

«Villas  de  Belmonte  eCannavieiras.»  São  as  duas 
povoações  que  mais  proporções  reúnem  para  um 
futuro  engradecimento  logo  que  as  duas  provincias 
de  Minas  e  Bahia,  tomando  em  consideração  os  seos 
verdadeiros  interesses,  se  dccidão  a  tirar  partido 
de  navegabilidade  do  rio  Gequitinhonha.  Esta 
mesma  circumstancia  torna  mais  lamentável  a  sorte 
doestas  duas  povoações.  Belmonte  he  por  assim 
dizera  mesmaaldeiade  ha  3o  annos,  e  Cannavieiras 
algum  fraco  impulso  tem  recebido  dos  exforços  e 
actividade  doactual  Juiz  Municipal  dosdous  termos 
reunidos,  o  qual  alli  faz  sua  residência.  A  população 
de  Belmonte  andará  por  1.200  almas,  sendo  a  de 
Cannavieiras  pouco  menor.  Exporta  Belmonte  al- 
guma madeira  de  construcção,  e  importa  annual- 
mente  20.000  alqueires  de  sal  para  o  commercio 
de  Minas  pelo  Gequitinhonha;  he  em  que  se  em- 
pregão  sete  pequenas  embarcações  que  tem  no  seo 
porto,  e  o  que  tem  sustentado  a  \  illa  no  pé  em 
que  se  acha. 

Cannavieiras  também  envia  ao  Gequitinhonha 
algum  sal  pelo  rio  da  Salsa  e  canal  Poassii,  mas  o 
seo  principal  commercio  consiste  na  exportação  de 
algum  jacarandá,  e  outras  madeiras  de  construcção, 
coco  e  algum  arroz. 

«Una.»  He  a  ultima  povoação  ao  norte  da 
Comarca,  como  se  pode  ver  no  mappa  geral  e  no 
especial  da  Comarca  de  Porto  Seguro.  Constará  de 
1 5o  habitantes,  e  exporta  directamente  pela  barra 
do  rio  do  mesmo  nome  alguma  madeira  e  coco. 

Não  terminarei  esta  revista  das  povoações  das 
Comarcas  de  Caravcllas  e  Porto  Seguro  sem 
declarar  a  V.  Ex.  que,  a  excepção  do  que  diz  res- 
peito á  insignificante  povoação  de  Comoxatiba  em 
Caravellas,  e  a  villa  de  Trancozo  em  Porto  Seguro, 


1(>8 


todas  as  informações  torão  colhidas  por  mim 
pessoalmente  nos  próprios  lugares,  e  as  notas 
topographicas  tomadas  á  bússola. 

CENTRO  DAS  COMARCAS  DE  CARAVELLAS  E  PORTO 
SEGURO.  COMARCA  DO  OEQUITINHONHA 

Depois  de  ter  dado  alguma  idéa  do  que  são  as 
nossas  duas  ultimas  Comarcas  do  Sul  na  costa, 
convém  que  percorramos  um  pouco  a  região  que 
lhes  serve  de  centro,  tanto  a  porção  que  taz  parte 
das  mesmas,  como  a  que,  pertencendo  a  Provmcia 
visinha,  com  ellas  contesta  pela  parte  de  Oeste. 

Em  trez  zonas  bem  distinctas  se  divide  a  região 
comprehendida  entre  Mucury  e  o  Gequitinhonha. 

Uma  estreita  banda  de  terreno  baixo,  de  for- 
mação recente,  justamente  o  que  os  geólogos 
chamão  «cordão  littoral»,  guarnece  a  costa.  For- 
mada em  geral  pelas  alluviões  transportadas  pelas 
agoas  do  centro,  ella  se  alarga  mais  ou  menos  nas 
visinhanças  das  embocaduras  dos  grandes  rios;  e 
assim  he  que  ella  se  estreita  a  ponto  de  desapparecer 
completamente  quando  seapproxima  de  Trancoso 
e  de  Porto  Seguro,  onde  falhão  os  rios  de  alguma 
importância.  A  excepção  das  Villas  de  Porto 
Seguro,  Verde,  Trancozo  e  Santa  Cruz,  todas  as 
mais  povoações  da  costa  são  assentes  no  cordão 
littoral.  FYaco,  c  por  isso  não  se  prestando  a  muitos 
géneros  de  cultura,  este  terreno  he  com  tudo  o 
mais  próprio  para  plantação  da  palmeira  vulgar- 
mente conhecida  pelo  nome  de  coqueiro,  e  he 
também  aproveitado  na  cultura  da  mandioca,  bem 
que  não  com  muita  vantagem.  No  mappa  geral 
das  Comarcas  V.  Ex.  achará  marcados  os  limites 
do  cordão  littoral  pelas  linhas  de  nivelamento  que 
indicão  o  começo  das  alturas. 

Estas  mesmas  linhas,  e  a  linha  mais  ou  menos 
sinuosa,  que  liga  ás  duas  primeiras  cachoeiras  do 


109 


Mucury  e  Gequitinhonha,  formão  os  limites  L.  O. 
da  segunda  zona.  Vinte  a  trinta  braças  acima  do 
mar,  sulcada  por  innumeraveis  ribeiros  que  vão 
desaguar  nos  rios  principaes  de  toda  esta  região, 
que  são,  além  do  Mucury  e  Gequitinhonha,  o 
Peruhype,  o  de  Alcobaça,  o  do  Prado  e  o  de  Porto 
Seguro,  esta  zona,  formando  uma  superfície  ou 
antes  chapada  quasi  regular,  he  o  terreno  mais 
productivo  d'aquellas  Comarcas.  As  magestosas 
florestas  que  o  cobrem  o  attestão.  He  alli  que  se 
encontrão  as  arvores  seculares  que  fornece  as 
melhores  peças  de  madeira  de  construccão,  tanto 
náutica,  como  civil,  masque  são  mesquinha  e  es- 
tragadamente  explotadas ;  he  n'este  terreno  que  as 
destruidoras  derrubadas  abrem  campo  para  as 
plantações  mais  rendosas  da  nossa  agricultura;  he 
em  uma  fracção  imperceptivel  doesto  chapada  que 
os  fazendeiros  do  Peruhype  colhem  as  suas  60.000 
arrobas  de  café  annualmente,  além  da  farinha  e 
mais  producto  do  consumo  de  suas  fazendas. 

Segue-se  a  terceira  zona  que  começa  onde  prin- 
cipião  a  sobresahir  as  primeiras  intumecencias  do 
contraforte  da  grande  serra,  cujo  espinhaço  separa 
asagoasdoalto-Mucurydasdoalto-Gequitinhonha. 
Não  faltão  aqui  os  terrenos  agricultáveis;  mas 
começando  a  ser  a  superfície  occupada  por  mon- 
tanhas do  terreno  primitivo,  os  limites  doestas  terras 
se  vão  estreitando  á  medida  que  se  avança  para  as 
cabeceiras  do  Mucury,  onde  já  não  são  somente 
picos  de  granito  que  apontão  na  superfície,  porém 
grandes  serranias  que  apenas  deixão  a  forte  vege- 
tação aos  seos  grandes  valles.  Menos  productivo 
porém  se  torna  o  aspecto  do  terreno  logo  que  se 
atravessa  o  espinhaço,  de  cerca  de  Soo  braças  acima 
do  mar,  onde  começam  as  vertentes  do  Arassuahy. 
Alluvião  quasi  exclusivamente  composta  de  cas- 
calho, apenas  servem  as  terras  altas  d*esta  parte  da 
Comarca  do  Gequitinhonha  para  a  vegetação  de 
um  capim  amesquinhado  pela  innumeraveí  vari- 


110 


edade  de  arbustos  inúteis,  alli  conhecidos  com  o 
nome  «catingas  e  carrascos.»  Não  pôde  ser  muito 
proveitosa  a  creação  do  gado  n'estes  campos,  e  o 
preço  porque  se  vende  alli  uma  rez  bem  prova  a  sua 
não*  mui  grande  abundância.  A  mesma  vegetação 
dosValles  he  bastante  fraca,  ou  ao  menos  não  se 
encontrão  n^elles  grandes  arvoredos  que  possão 
fornecer  peças  importantes  de  madeira  para  a 
construcção.*  Entretanto  parece  que  esta  terra  hea 
mais  própria  para  a  cultura  do  milho  que  forma  a 
base  fundamental  de  todo  o  sustento  n'aquella 
Provincia.  Com  etFeito  omilhohc  o  pão  do  Mineiro, 
o  milho  he  o  creador  da  grande  quantidade  de 
toucinho  e  carne  de  porco  que  alli  se  consome, 
finalmente  o  milho  sustenta,  pela  maior  parte,  a 
numerosa  quantidade  de  animaes  alli  empregados 
nos  transportes. 

Mas  se  a  fraqueza  da  vegetação  na  Comarca  do 
Gequitinhonha  tormaum  perfeito  contraste  com  a 
robustez  da  dos  nossos  sertões,  parecerá  contra 
natural  a  muita  gente,  que  a  civilisação  Mineira 
avantage  tanto  sobre  a  de  nossas  costas;  entretanto 
sua  população  crescida,  a  abundância  em  que  vivem 
seos  habitantes  a  respeito  dos  géneros  de  primeira 
necessidade,  e  sobre  tudo  o  mesmo  vigor  individual 
annunciãoum  bem  estar,  de  que  estão  longe  de  gosar 
os  nossos  compatriotas  da  costa.  Nunca  encontrei 
em  Minas  os  embaraços  com  que  luctei  na  costa 
para  achar  alimento,  apesar  da  amabilidade  com 
que  seos  habitantes  mais  notáveis  se  empenhavão 
em  facilitar-me  tudo,  e   mesmo  em  obsequiar-me. 

A  explotação  do  ouro,  do  diamante  e  das  cry- 
solitas  trouxerão  os  primeiros  habitantes  para 
aquelles  sertões,  e  como  alli  não  havia  mar  que  lhes 
promettesse  peixe,  nem  vastas  florestas  que  lhes 
facilitassem  a  caça,  a  necessidade  lhes  foi  fazendo 
vêr  a  conveniência  de  empregar  grande  parte  desuas 
forças  na  cultura  das  provisões  indispensáveis  para 


111 


seo  sustento,  em  quanto  a  outra  parte  se  occupava 
da  mineração.  Qualquer  conceberá  o  cuidado  com 

3ue  se  devião  empenhar  os  primeiros  habitantes 
'aquelles  sertões  em  tirar  da  terra  os  recursos  cjue 
a  natureza  lhes  negava  promptos,  e  á  cuja  im- 
portação se  oppunha  a  grande  barreira  da  falta  de 
communicação.  D'aqui  o  habito  de  um  trabalho 
regular,  e  a  previsão  com  que  se  procura  produzir 
mais  do  que  urgem  as  necessidades  do  anno,  afim 
de  evitar  as  privações  dos  annos  pouco  rendosos; 
d'aqui  a  abundância  em  que  vivem  os  Mineiros,  e 
o  progresso  de  sua  população. 

He  porém  forçoso  reconhecer  que  este  progresso 
hoje  se  echa  em  frente  de  um  forte  obstáculo,  mas 
que  um  simples  accordo  entre  as  duas  Provincias 
limitrophes  poderá  remover.  Sendo  as  pedras  pre- 
ciosas quasi  o  único  objecto  de  exportação  que 
sustenta  a  Comarca  do  Gequitinhonha,  e  talvez  as 
do  Serro  e  São  Francisco,  em  consequência  da 
diíRculdade  de  communicações,  por  onde  facão 
sahir  quaesquer  géneros  volumosos  da  industria 
agricola  aos  mercados  mais  convenientes,  o  paiz 
progredio  rapidamente  em  quanto  a  raridade  das 
mesmas  pedras  na  Europa  lhes  conservou  preço 
vantajoso  n'aquelle  mercado;  porém  hoje  que  este 
ramo  de  commercio  tem  perdido  muito  de  sua 
importância,  vão  aquellas  Comarcas  ficando  re- 
duzidas a  buscar  recursos  ás  suas  necessidades  em 
outra  qualquer  industria  de  pouca  vantagem,  com 
tanto  que  seos  productos  sejão  de  fácil  transporte, 
cm  vista  da  quasi  absoluta  privação,  em  que  se 
achão,  de  vias  de  communicação.  A  creação  do  gado 
por  exemplo,  não  he  a  industria  mais  fácil  c  con- 
veniente aos  habitantes  do  Gequitinhonha,  entre- 
tanto fazem  descer  uma  ou  duas  boiadas  annual- 
ipcnte  a  costa  por  péssimos  caminhos,  por  isso 
mesmo  que  he  mercadoria  de  fácil  transporte. 

He  portanto  evidente  que  os  géneros  de  expor- 
tação irão  apparecendo  á  medida  que  as  com  mu- 


112 


nicações  se  forem  abrindo  e  melhorando,  mormente 
quando  se  estima  a  importação  annual  das  duas 
Comarcas  (Serro  e  Gequitinhonha)  no  valor  de 
4.000:0008000  quasi  tudo  género  de  producção 
estrangeira.  Ora  eu  creio  que  ninguém  sustentará 

3ue  a  exportação  de  pedras  e  mineraes  preciosos 
'aquellas  duas  Comarcas  possa  chegar  actualmente 
a  este  valor ;  e  por  aqui  julgue-se  da  necessidade 
aue  tem  aquella  parte  da  Provincia  de  outros  pro- 
ductos,  que  exportando,  possão  vir  em  soccorro  aos 
diamantes,  ao  ouro  e  as  crysolitas,  para  a  susten- 
tação da  sua  importação.  Tratando-se  de  um  povo 
industrioso,  como  o  Mineiro,  está  nas  mãos  do 
Governo  a  creação  d'estes  productos;  basta  faci- 
litar-lhes  as  vias  de  communicação.  Reviveria  a 
cultura  do  algodão,  que  encontraria  nas  fabricas  de 
fiar  da  Bahia  prompto  consumo;  o  mesmo  milho, 
o  feijão,  a  carne,  tanto  de  vacca  como  de  porco,  o 
toucinho,  emfim  muitos  outros  productos  ap- 
pareceria  que,  ainda  não  sendo  abundantes,  con- 
correrião  para  completar  o  valor  dos  géneros  da 
importação  estrangeira  necessária  áquellas  popu- 
losas Comarcas. 

Admittindo  mesmo  que  as  pedras  preciosas 
chegassem  para  a  indemnisação  da  importação  das 
Comarcas  do  Gequitinhonha,  do  Serro  e  de  São 
Francisco,  bastaria  a  difficuldade  com  que  lucta  a 
mesma  importação  para  chamar  continuadamente 
a  attenção  do  Governo  sobre  as  necessidades  mate- 
riaes  d'aquelle  lado  da  Provincia.  Os  Srs.  Ottonis, 
na  sua  exposição  sobre  a  conveniência  de  explotar 
a  navegação  do  Mucury,  estimão  a  despesa  de 
transporte  das  mercadorias  de  consumo  das  duas 
Comarcas,  Serro  e  Gequitinhonha,  para  as  fazendas 
em  4  por  7o,  1 5  por "/«  para  as  drogas,  40  por  7o  P^ra 
a  louça  e  70  70  para  os  molhados:  he  bem  des- 
graçada a  condição  dos  Mineiros  do  Norte,  e  muito 
têm  elles  que  esperar  do  Governo  n'este  ramo  da 
publica  administração! 


113 


Entretanto  estas  mesmas  Comarcas  vcem-se 
cobertasde  um  tecido  de  ribeiros,  riachos  e  rios,  que, 
^issociando-se  mesmo  no  seo  território,  vão  mais 
cr>u  menos  magestosos  levar  o  tributo  das  agoas  de 
55;ua  superfície  ao  oceano;  rios  hoje  mais  ou  menos 
c::onhecidos,  dos  quaes  são,  pelo  lado  mais  próximo 
<do  mar,  o  Mucury,  o  Gequitinhonha  e  o  Rio  Pardo 
<  >s  mais  importantes.  Ora,  sendo  positivo  que  as  vias 
^Je  communicação  por  agoa  sãoas  mais  convenientes 
^AO  commercio,    não  nos  será  permittido   utilisar 
.silguns  destes  grandes  vehiculos  naturaes,  afim  de 
melhorarmos  a  sorte   dos   habitantes  industriosos 
<lo  Norte  de  Minas,  cujas   necessidades  reclamão 
^urgentemente  caminho,  pelo  qual  facão  descer  seos 
productos  a  lugar  ondppossão  encontrar  em  troca 
os  que  lhes  faltão  para  seo  consumo,  e  ao  mesmo 
tempo  melhores  condições  para   sua    actual   im- 
portação ?    Não    poderemos     nós  utilisar    alguns 
<i'estes  rios,  em  beneficio  das  nossas  povoações  das 
Comarcas  do  Sul  da  Bahia,  que  suspirão  com  razão 
pela  descida  dos  Mineiros  e  de  seos  productos  aos 
seos  portos  como  único  remédio  á  sua  decadência? 
A  estas  questões  se  encontrará  talvez  solução  na 
seguinte  parte  do  meo  trabalho,  em  que  me  esfor- 
çarei por  dar  uma  idéa  exacta  da  navegabilidade  dos 
fios  Mucury  e  Gequitinhonha;  restando-me  o  pesar 
de  nada  poder  dizer  a  respeito  do  Rio  Pardo,  por 
isso  que,  como  já  fiz  vèr  aV.  Ex.,  foi-me  impossível 
cxploral-o. 

MUCURY   E  GEQUniNHONHA 

SUA     NAVEGABILIDADE 

Naõ  conheço  trabalho  algum  especial  e  regular 
sobre  cada  um  destes  dous  rios,  por  isso,  e  por 
naõ  desejar  ser  longo  n'esta  pequena  memoria, 
me  abstenho  de  procurar  exammar  o  que  até 
aqui  se  tem  avançado  sob  o  ponto  de  vista  de 


114 


sua  navegabilidade.  V.  Ex.  ha  de  porém  permit- 
tir  que  eu  considere  um  pouco  uma  exposição 
feita  á  Presidência  de  Minas  em  iSBy,  por  um 
individuo  estrangeiro  que  se  assigna  encarregado 
da  expedição  do  Mucnry^  aqui  publicada  pelos  jor- 
naes  em  1846. 

Esta  peça  official  só  he  notável  pelo  mal  que 
produzio,  já  illudindo  a  boa  fé  e  patriotismo  dos 
lUustrados  Srs.  Ottonis,  já  desviando  a  attençaõ 
do  Governo  do  rio  Gequitinhonha,  como  meio 
de  communicação  d'aquella  parte  da  Provincia 
com  a  costa.  N'esta  exposição  de  cousas  triviaes 
que,  pela  maior  parte,  podião  ser  ditas  por  cjuem 
nunca  tivesse  ido  ao  Mucury,  balda  de  idéas 
^rofissionaes  e  recheada  de  simplicidades  do  char- 
atanismo  ignorante,  toma  o  seo  author  por  muito 
barato  calumniar  a  navegabilidade  do  Gequi- 
tinhonha, ao  passo  que  confessa  que,  apenas 
viajou  por  parte  da  estrada  que  acompanha 
aquelle  rio:  justamente  com  a  mesma  candidez 
com  que  dá  por  doutrina  muito  corrente  que,  o 
gentio  que  no  Mucury  encontrou  i^eio  em  numero 
iinmenso  da  Azia  pel)Cslreilo  Uering  ha  50  annos; 
diz  que  procurou  informar-se  dos  mais  velhos  de 
como  tinhí.o  vindo;  affirma  que  as  frechas  do  gen- 
tio eraõ  /tervadas  com  nrvcú;  finalmente  mil  ou- 
tras simplesas  que  denunciaõ  bem  o  estado  mise- 
rável a  que  está  ainda  reduzida  no  nosso  paiz  a 
classe  da  engenharia,  esta  especialidade  taõ  impor- 
tante de  todo  o  systcma  de  administração  publica. 

Parece  impossível  que  só  a  profissão  do  en- 
genheiro esteja  ainda  debaixo  do  dominio  do 
charlatanismo  em  um  paiz,  onde,  em  troca  do 
titulo  d^engenheiro,  se  exige  de  um  pobre  moço 
sete  annos  de  estudos  especiaes,  além  do  tempo 
e  despesas  consumidas  em  humanidades  prepa- 
ratórias! Ao  medico,  tanto  nacional  como  estran- 
geiro, para  se  occupar  das  funcções  desta  pro- 
fissão,  ao  jurisperito  para  çijtrar  na  classe  4ps 


115 


magistrados,  he  preciso  munir-se  de  um  diploma; 
ao  engenheiro,  para  dispor  dos  dinheiros  dos 
contribuintes,  basta  um  nome  estrangeiro,  pre- 
tenções  de  profissional  e  sobre  tudo  muito  cnar- 
latanismo,  ficando  só  aos  nacionaes  a  rigorosa 
obrigação  de  apresentar  títulos.  Ou  a  eschola  dos 
engenheiros  no  Brasil  he  uma  pura  decepção 
que  inutilisa  a  mocidade,  condemnando-a  a  sete 
annos  de  estudos  sem  fructo,  e  entaõ  precisa 
urgentemente  ser  reorganisada,  ou  os  seos  filhos 
não  devem  ser  equiparados,  perante  a  authoridadc, 
a  qualquer  charlatão  estrangeiro  que  se  apre- 
sente com  pretenções  sem  titulo  algum. 

Desculpe-me  V.  Ex.  este  pequeno  desvio  a 
que  me  levou  o  justo  resentimento  pela  injustiça, 
com  que,  na  pratica  do  serviço  público,  se  me- 
nospresaõ  e  postergaõ  os  direitos  da  classe  do 
nosso  paiz,  que  a  maiores  sacrifícios  he  sujeita 
para  alcançar  um  titulo  scientifico.  Volto  ao  meo 
propósito. 

Mucun/.  O  mappa  geral  das  Comarcas  do  Sul, 
os  perfis  dos  rios  Mucury  e  Gequitinhonha  que 
\.  Èx.  encontrará  no  alto  do  mesmo  mappa,  e  o 
que  eu  já  disse  da  regiaõ  comprehendida  e  ba- 
nhada pelos  mesmos  rios,  me  aispensaõ  de  uma 
longa  descripçaõ. 

O  rio  Mucury  se  pôde  dividir  em  duas  partes, 
considerado   debaixo  do  ponto  de  vista  de  sua 
navegabilidade  :  aquella  em  que  seo  leito  percor- 
rendo os  valles  de  ruptunt  das  differentes  rami- 
licações  do  contraforte  da  Serra,  he  a  cada  passo 
desviado  e  interrompido  por  largos  travessões  de 
granito,  formando  de  quando   em  quando  pan- 
cadas de  IO,  20,  3o,  e  40  palmos  de  alto ;  e  a  outra 
em  que   suas  agoas,  desprendidas   dos    tropeços 
atrapalhadores  de  sua  marcha  se  vaõ  deslisando 
rápida,    porém     mansamente,    em    sinuosíssimo 
leito,  dentro  de  um  largo  valle  de    erosão  aberto 
sem  duvida  por  antigas  inundações  mais  abu,n- 


116 


jdantes,  na  chapada  alta  de  alluvião  (dilltwium) 

âue  sustenta  as  nossas  mais  bellas  florestas 
'aquella  parte,  até  chegarem  ao  oceano,  A  esta 
parte  chamaõ  vulgarmente  rio  de  areia ;  sendo  a 
outra  denominada  rio  de  pedras. 

O  rio  d^areia  do  Mucury  só  tem  contra  si  o 
ser  muito  sinuoso  e  correr  com  a  velocidade 
media  de  duas  milhas  por  hora.  São  tantas  as 
voltas  que  elle  dá  que  para  avançar  i5  legoas  no 
seo  rumo  geral  (N.  O.)  serpentea  o  cammho  de 
24  legoas.  Em  uma  canoa  guarnecida  de  5  ho- 
mens, dos  quaes4empurravaõ  á  varas,  não  pude 
chegar  de  Porto  Alegre  a  sua  primeira  cachoeira, 
Santa  Clara^  com  menos  de  39.*'  e  i5  minutos, 
estando  o  rio  quasi  nas  suas  minimas  agoas,  o 
que  equivale  a  5  dias  de  viagem  puchada  com 
carga.  Comparando  a  subida  e  descida  que  eu  já 
havia  feito  até  a  metade  de  sua  extensão  pouco 
mais  ou  menos  achei  esta  relação  2,475,  que 
nos  mostra  que  o  tempo  necessário  para  descer 
da  Cachoeira  de  Santa  Clara  á  Villa  se  reduz 
proximamente  a  16  horas,  isto  he,  dous  dias 
rnuito  aproveitados. 

A  mesma  difficuldade  da  subida  explica  a  fa- 
cilidade da  descida,  e  as  indicações  barometricas, 
dando-me  3i  braças  (3)  para  â  altura  de  Santa 

(3)  O  nivelamento  baromctrico  perde  muito  de  sua  precisão, 
desde  que  se  naõ  dá  uma  tal  ou  qual  simultaneidade  nas  oiíser- 
vaçOes  dos  dous  pontos  cuja  altura  relativa  se  quer  determinar, 
e  ao  mesmo  tempo  a  distancia  que  os  separa  não  lie  tal  que  o 
estado  da  atlimospjiora  fique  muito  proximamente  igual  em  um 
e  outro  ponto,  afora  as  ditTerenças  que  podem  vir  das  posiçOes 
do  instrumento  no  sentido  da  vertical.  A'  nenhuma  d'eslas  con- 
dições satisfazem  as  observações  em  que  fundo  os  nivelamentos 
que  fiz  dos  dous  rios  Mucury  e  Gequitínlionha,  por  isso  não  tenho 
preterições  an  menor  rigor  mitliematico.  Devo,  porém,  advertir  que 
procurei,  sem | ire  que  me  foi  possível,  comparar  as  observações 
de  dias  cujo  estado  athmospherico  me  pareceo  idêntico  ;  e  que 
08  resultados  nunca  desmentirão  o  juizb  que  eu  liia  fazendo  pelas 
dilliculdades  que  ia  encontrando  na  navegação.    Convém  ainda 


117 


Çlaxa  sobre  o  mar,  vaõ  perfei  Lamente,  de  accordo 
com  estas  circumstancias.  Não  sei  se  naõ  será  á 
sua  longa  sinuosidade  que  deve  o    rio   de  areia 
do  Mucury  um  canal  sempre  franco  á  navegação, 
ainda    mesmo  nas  grandes  seccas;   estou  porém 
persuadido  que  uma  embarcação  de  vapor,  que 
naõ  demandasse   mais  de   5  pés  d'agoa,    nunca 
seria  interrompida  na  sua  marcha  por  falta  doesta. 
He  inútil   repetir   que  as   altas   margens    do 
grande  valle  do  rio  de  areia  do  Mucury  saõ  po- 
voadas das  nossas  mais  bellas  florestas. 

A  latitude  da  fóz  do  Mucury  sendo  18/6/43/' 
e  a  de  Santa  Clara  17/47/15/'  (4)  este  rio  vem  a 
avançar  para  o  Norte  19/28/'  até  o  começo  do 
rio  de  pedras,  de  que  passarei  a  me  occupar. 

A  segunda  parte  em  que  dividi  o  rio  Mucury, 
o  rio  de  pedras,  avança  proximamente  18  legoas 
no  mesmo  rumo  geral  que  o  rio  d'areia,  até  a 
confluência  do  Rio  Preto,  que  n'elle  entra  pela 
margem  esquerda.  As  suas  sinuosidades  obrigão 
suas  agoas  a  percorrerem  o  caminho  de  29  legoas 

dizer  que  ao  voltar  a  costa  adiei  uma  pequena  alteração  na  al- 
tura da  colamna  de  mercúrio  do  Barómetro  psra  menos ;  mas 
Como,  segundo  todaâ  as  probabilidades,  estn  alteração  veio  do 
tran:?porte  do  instrumento  por  terra,  que  foi  no  intcrvallo  dos 
dous  nivelamentos  não  pôde  sor  muito  sensivcl  o  seo  eíTcito. 

Foi  a  Ta  boa  de  OItmanns  que  empreguei  neste  calculo  cujos 
elementos  são  os  seguintes: 

pol.  inff.  cr.  ff. 

Mar B.  =30,  55— T.  ==24,50-1  =^:5.50. 

S.    Clara -.B'.=30.  25-r.=  l8,00--.t:=-l9,00. 

O  Raromelro  estava  duas  braças  acima  do  mar,  e  uma  sobre 
o  nível  d*agoa  de  Santa  Clara  : 

(4)  Caclioeini  Santii  Clara  ^principio  do  rio  de  pedras  do  Mu- 
curv)  ém  23  dd  Setembro  de  i849. 

Manhã  7.»»  22.»  53.»,  65.  t.  v.  Dist.zenith  corr.  70.^  16.'  56.",  47. 
Tardeis    38.     39.     27.  t.  v.      .       .  29 .    58.     9.     88. 

Manha  7.»»5S  m  24.»,  25.  t  v.  Dist.  zenith  corr.  61 .«  54.'  56.".  19. 
Tardeis.  33.      6      44.  t,  v.      .       »    ,    «    28.    52.    í2,     3S. 

Uia  e  moio  que  me  demorei  neste  ponlo,  o  tempo  coiiservou-se 
extremamente  desfavorável  para  observações:  o  sol  se  mostniva 
apenas  por  inst.intes,  c  o  único  lugar  que  encontrei  para  estabc- 


118 


em  lugar  de  18,  e  se  levássemos  em  Gonta  o 
accrescimo  que  viria  do  desenvolvimento  do  seo 
perfil,  teríamos  de  augmentar  este  caminho  de  142 
braças  (5)  proximamente,  pois  a  tanto  está  eleva- 
do sobre  Santa  Clara  o  porto  de  Santa  Cruz,  des- 
tacamento Mineiro  situado  na  margem  direitado 
rio  Preto,  pouco  mais  de  duas  legoas  acima  de 
sua  confluência.  Pode-se  julgar  sem  mais  detalhes 
das  difficuldades  com  que  teve  de  luctar  quem 
para  avançar  18  legoas  no  rio  de  pedras  do  Mu- 
cury,  com  5  canoas  carregadas  ,de  mantimentos, 
subm  140  braças!  Cento  e  dezoito  vezes  pucha- 
mos  as  canoas  carregadas,  quasi  sempre  com 
toda  a  gente  n'agoa,  e  algumas  vezes  ajudando-se 
reciprocamente  as  guarnições  das  diíFerentes  ca- 
noas; dez  vezes  nos  foi  preciso  alliviar  a  carga 
para  este  etFeito;  vinte  e  seis  vezes  tivemos  de 
descarregar  completamente:  onze  vezes  foi-nos 
forçoso  varar  por  terra  com  as  mesmas  canoas 
difficuldades,  que  nem  a  approximação  doestas 
permittião  sem  o  perigo  de  as  vermos  postas 
em  fragmentos.  Eis  o  tormento  em  que  empre- 
gamos  mais  de  3o  dias. 

Cumpre  porém  declarar  em  abono  do  Mucurv 

3ue,  não  lanço  somente  á  conta  da  diflficuídade 
e  sua  navegação  os  3o  dias  consumidos;  devo-os 

Icccr  o  mco  observatório,  sendo  um  lagedo  de  granilo  cercado  de 
mato,  onde  a  ineqor  aragem  nau  vinha  mitigar  os  ardores  de  u  a 
extraordinário  mormaço  exagerado  pelo  calor  da  reflexão  e  irra- 
diação da  roclia  primitiva,  era  o  mais  contrario  a  inalterabilidade 
dos  instrumentos,  principalmente  do  relógio  que  accusou  alli  o 
alrazo  espantoso  de  11.*  proximamente  por  hora.  A  discordância 
entre  os  resultados  das  series  que  calculei  confírma  esta  idéa,  po*s 
que  sendo  as  que  aqui  apresento  as  mais  accordes,  dào  comtudo 
uma  media  que  se  afasta  mais  ou  menos  15.*  das  latitudes  cal- 
culadas. 

pol.  inir.  R.  g. 

(5)   Santa  Clara-B.  «30,  55 -T,  =18,00— t.  =-49,00. 
Sania  Cruz-U.W29,  22— T '=-20,00— l.' —21,00. 
O  Barómetro  estava  proximamente  4  brrças  acima  da  super- 
fície d'agoa. 


119 


cm  grande  parte  ás  circumstancias  de  se  ter  con- 
servado o  no  sempre  secco  em  maior  gríio  do  que 
aquelle  que  convém  para  facilitar  a  sua  navegação, 
a^  necessidade  que  tinha  de  distrahir  alguns*  in- 
divíduos do  serviço  de  canoas  para,  com  os  en- 
fermos, comporem  a  linha  de  sentinellas  que 
guardava  os  trabalhadores  de  alguma  surprezã  de 
gentio,  e  sobre  tudo  á  falta  de  um  guia  que, 
conhecendo  os  canaes  mais  convenientes,  nos 
dispensasse  do  estudo  preliminar  a  que  éramos 
forçados  a  cada  passo;  convindo  a  tudo  isto 
ajuntar  o  pouco  habito  de  serviço  prolongado 
(]ue  tem  em  geral  a  nossa  gente  da  costa,  o  qual 
taz  com  que  elles  tendão  a  consumir  o  tempo 
sem  nada  fazer.  Acredito  que  com  trabalhadores 
activos  e  práticos  muito  se  poderá  diminuir  o 
tempo  necessário  á  subida  do  rio  de  pedras  do 
Mucury  com  canoas  carregadas  e  bem  guarne- 
cidas, talvez  mesmo  a    i5  dias. 

O  Rio  Mucury  de  tão  diíficil  navegação  na 
sua  parte  superior,  como  acabamos  de  ver,  não 
será  suscepiivel  de  algum  melhoramento  no  seo 
leito^  de  modo  a  diminuir  os  perigos  e  emba- 
raços de  sua  navegação?  He  a  primeira  questão 
que  se  apresenta  a  qualquer.  Não  ponho  duvida 
alguma  em  responder  afirmativamente  a  este 
respeito,  mas  esta  questão  he  subordinada  a  es- 
toutra:—  Devendo  os  empenhos  do  Governo  em 
abrir  communicações  que  ponhão  o  Norte  de 
Minas  em  relação  com  à  costa,  ser  dirigidos 
para  o  lado  que  menos  embaraços  apresente  e 
mais  promptas  vantagens  otfereça  em  compen- 
sação dos  sacriíicios  feitos,  será  o  Mucury  o 
ponto  mais  próprio  para  satisfazer  a  estas  condi- 
ções? He  o  que  resta  provar.  E  como  cu  pretendo 
sustentar  a  negativa  a  esta  proprosição  não  entra- 
rei em  desenvolviniento  algum  â  rcvspeito  da 
primeira. 


120 


Do  primeiro  destacamento  Mineiro  que  fica 
no  parallelo  de  i6.*'5o/47."  (6)  situado  como  já 
disse,  na  margem  direita  do  rio  Preto,  mais  ou 
menos  duas  legoas  acima  da  confluência,  fiz  voltar 
quasi  toda  a  gente  do  Mucury  que  me  tinha, 
acompanhado;  e  soube,  depois  de  minha  volta 
a  esta  cidade,  que  aquelles  companheiros  de  sof- 
frimentos  forão  muito  felizes  na  aescida,  chegando 
á  Villa  no  fim  de  lo  dias  de  viagem  com  duas 
canoas  vazias. 

Não  me  demorarei  em  fallar  dos  incommodos 
e  difficuldades  que  encontramos  em  vencer  o 
caminho  de  40  legoas,  pouco  mais  ou  menos, 
que  nos  separava  de  Minas  Novas,  por  terreno 
extremamente  montanhoso,  pela  maior  parte 
coberto  de  matas  de  espinhos  e  carrascos;  mas 
devo  dizer  que  n'estes  trabalhos,  agravados  pela 
estação  invernosa,  consumimos  quasi  todo  o  mez 
de  Novembro,  e  que  sem  a  prestimosa  coope- 
ração do  Sr.  Coronel  Honório  Esteves  Ottoni,  em 
extremo  teria  sido  dura  a  nossa  sorte.  Estedistincto 
e  honrado  Mineiro,  estabelecido  junto  do  ribeirão 
de  Saõ  Miguel,  confluente  do  Gravata,  no  para- 
lello  de  ló.^^iS.^ig.''  (7),  nove  legoas  a  E.  de  Minas 
Novas,  foi  quem  nos  soccorreo  com  mantimentos 
e  meios  de  transporte,  desde  a  meia  distancia  entre 


(6)  Santa    Cruz    (deslacamenlo  Mineiro  na  margem  direita 
lio  Hio  Prelo)  em  29  de  Outubro  de  1849 

xManhâ  S^  43.-  13.*  99.  l.  v. . .  Dist.  zcnilh  corr.  47.«  ^S.'  8'\08. 
Tarde  14.  47.      6,    98.  t.  v. . .     »        »  »      40.  22.  10,  79. 

Manhã  S.*"  48."  30,    62.  l.  v. . .  Dist.  zenitii.  corr.  4(5  <>  12.'30'',54. 
Tarde  14   53.    45.   30,  t.  v...    »         .  .41     51.21,   97, 

  medida  differe  das  latitudes  calculadas  de  2'\57. 

(7)  Ribeirão  de  S.  Miguel  (fazenda  do  Coronel  Honório)  23 
de  Novembro  de  1849. 

Manhã  7.'*  15.»  35'    62.  t.  v.  Dist.  zenith.  corr.  60.*  49.'  3o  \42. 
Tar.le  14.  30.       5.   48.    t.  v.     .         »  »      35.    53.  59,  86. 

Hanhã  7.'»  23."  29.'  06.   l.  v.  Dist.  Ecnith.  corr.  65.«  0.,  26'\57. 
Tarde  14.  35.    21,  90.   t.  v     h         »  •      36.   48.    5,  42. 

A  media  differe  de  O*', 87  das  duas  latitudes  calculadas. 


121 


O  quartel  de  Santa  Cruz  e  a  sua  fazenda,  sem  con- 
sentir em   indemnisação  alguma;   obrigando-nos 
pelo  contrario  a  aceitar  os  mesmos  serviços,  não 
só  na  chegada  que  demos  a  Minas  Novas  senão 
também  na  nossa  retirada  para  o  Calháo,  primeiro 
porto  onde  começa  a  actual  navegação  do  Gequi- 
tinhonha.   Ao  mesmo   Senhor   Coronel  Honório 
devo  muitas  informações  a  respeito  d^aquella  parte 
cia  Província;  sendo  os  detalhes  topographicosdas 
margens  do  Arrassuhy  entre  Minas  e  Calháo  devi- 
dos   a  informações   prestadas   pelo   Sr.  Tenente 
Fagundes,    homem    encanecido    no  serviço   das 
matas  entre  as  cabeceiras  do  Mucury  e  Gequiti- 
nhonha,   e  por  isso  insigne  pratico,  de  quem  o 
<jOverno  de  Minas  tem  ainda  muito  a  esperar 
<j^uando  se  tenha  de  occupar  dos  interesses  mate- 
naes   d'aquella    parte  da   Província.    Apezar   de 
^icos  serviços  quasi   proverbiaes   na    comarca    do 
<jequítinhonha  está    hoje  este  oíiicíal  reduzido  a 
commandar  um   insignificante    destacamento   do 
riacho  de  Saõ  Miguel,  na  qualidade  de  Sargento, 
tendo  já  commandado  outros  com  a  graduação 
c  vantagens  de  Tenente! 

Gequitmhonha.  Não  entrarei  no  exame  da  na- 
vegabilidade do  Gequitinhonha  sem  primeiro  dar 
uma   idéa  das  duas  povoações  Mineiras,  Minas 
Novas  e  Calháo,  que  visitei  antes  de  começar  a 
navegar  por  este  no. 

Como  os  habitantes  de  nossas  costas,  que  se 
mudaõ  facilmente  para  onde  lhes  consta  que  ha 
mais  peixe  e  caça,  assim  os  Mineiros  deixaõ  as 
suas  povoações  facilmente  por  lugares  onde  lhes 
consta  que  a  mineração  está  dando  mais.  Saõ 
factos  comprehendidôs  na  regra  bem  positiva  em 
virtude  da  qual  procura  cada  um  tirar  maior  par- 
tido de  sua  industria ;  mas  he  evidente  que  qual- 
quer doestas  duas  espécies  de  industria  he  bem 
precária,  e  que  desgraçado  he  o  paiz  q^ue  n'ellas 
cifra  a  sua  riqueza.  Minas  Novas  fQÍ  victima  doesta 


132 


condição  a  que  estaõ  reduzidos  a  maior  parte  dos 
Mineiros  por  falta  de  vias  de  communicaçaõ  que 
lhes  facilitem  outros  ramos  de  industria.  Situada 
a  17. •9/24/'  (8)  de  latitude  Sul,  na  confluência  do 
ribeiro  Bom  Successo  com  o  rio  Fanado,  que 
pouco  adiante  desagua  no  Arassuahy,  foi  o  ponto 
para  onde  se  concentrarão  a  maior  parte  dos 
primeiros  bandeiristas  que  por  aquelle  lado  da 
Provi ncia  andarão  a  cata  do  ouro  e  das  crysolitas, 
por  isso  mesmo  que  aquelle  metal  precioso  se 
mostrou  alli  de  proveitosa  exploração.  Prosperou 
algum  tempo  ate  chegar  a  cathegoria  de  cidade 
de  que  gosa,  mas  as  descobertas  dos  diamantes 
do  Sincorá  e  o  já  pouco  successo  talvez  que  offe- 
rccião  as  exhauridas  minas  do  Fanado  são  causas 
da  decadência  que  denuncia  o  seo  estado  actual. 
A  sua  população  intra-muros  apenas  tocará  9 
3.000  almas,  isto  he,  menor  do  que  a  que  pôde 

(8)  Tenho  visto  em  vários  escriptos  que  a  luliludc  de  Minas 
iNovas  he  17.»37.'30.'';  mas  ainda  naO  encontrei  ([ucm  nos  mos- 
trasse a  origem  de  semelhante  latitude.  Entretaúto  nao  sei  que 
confiança  possa  merecer  o  resultado  de  observações,  a  par  do 
qual  nâo  figura  nem  ao  menos  o  nome  do  observador,  se  ellc 
he  tal  que  por  si  só  offereça  alguma  garantia.  He  porém  ainda 
mais  curioso  que  esta  latitude  diffira  37/30"  (para  mais)  da  que 
o  author  das  Memorias  Históricas  do  Rio  de  Janeiro  attiíbuc  ás 
observações  do  Padre  Chapaci.  que  com  Domingos  Soares,  lambem 
religioso,  foi  nomeado  por  D.  João  5.°  para  mappcar  as  terras 
do  Brasil. 

A  vi-ta  desta  divergência  não  achniraque  as  longitudes  achadas 
no  mesmo  ponto  por  Arrow  Smilh  e  lichwcge  diffiraõ  de  1/40** 
entre  ti  ! 

Nâo  sei  até  que  gráo  chega  a  exactidão  da  latitude  do  Padre 
Ohapaci,  mas  ella  tem  razaõ  para  merecer  mais  fé  do  que  a  que 
se  apre.ienia  anonyma,  e  bastanle  pesar  tenho  de  que  as  minhas 
observações  me  não  dessem  um   resultado  mais  pro.ximo  do  seo. 

Minas  Novas  (iunto  da  Matriz)  aos  29  de  Novembro  de  1849. 
Manha  7.»»  24.-  11/,  30.  t.  v.  Disl.  zenith.  corr.  6*.'»  41/  32'',  18. 
Tarde  U.  22.    55.  88.  t.  v.    -  »  )>     33.    55.   25.    21. 

Manhã  7  "  36."  34.*,  04.  t  v.  Disl  zenith  corr.  61. «  50.*  59".  91. 
Tarde  14.  38.    20,    60.  l.  v.    »        »  »     37.    30.    26,    37. 

A  ipedia  faz  com  as  latitudes  calculadas  a  differença  de  2/\8|, 


123 


comportar  o  numero  de  seos  edifícios;  o  (juè  hé 
sem  duvida  uma  justa  expressão  do  decrescimento 
do  seo  commercio.  Pouco  tem  que  fazer  o  cam- 
ponez  em  uma  povoação  onde  não  encontra  mer- 
cado para  os  productas  de  sua  lavoura;  e  não 
mais  numerosos  são  os  mercadores  que  queirão 
aceitar,  em  troca  de  suas  fazendas,  objectos  que 
ellcs  não  podem  transportar  aos  seos  credores 
em  satisfação  dos  seos  compromissos. 

Ha  entre  iMinas  Novas  e  o  Calháo,  não  longe 
das  margens  do  Arassuahy,  outras  povoações  de 
pouca  importância,  como  são  os  arraiaes  da  Cha- 
pada, Sucuriú,  Agoa  Suja,  Ikc. ;  ma?,  como  Minas 
Novas,  não  são  elles  próprios  para  mostrarem  a 
população  da  Comarca.  Vivendo  os  Mineiros  hoje, 
em    grande  parte,  immediatamente  do   producto 
de  sua  lavoura  e  de  seos    próprios  teares,   estes 
grandes  centros,    onde    se    reúnem  os    habitan- 
tes de  um  paiz  para  melhor  facilitarem-se   suas 
transacções,  tornão-se  quasi  inúteis;  a  população 
se  espalha  em  grande  superfície,  esó  tenderá  a  con- 
centrar-se  onde  o  commercio,  otFerecendo  alguma 
estabilidade,  lhe  garanta  o  supprimento,  ao  menos 
de  suas    necessidades    mais  urgentes,   já    consu- 
mindo alguns  de  seos  productos,  já  fornecendo-lhes 
em  troca  os  necessários  ao  seo  consumo.  A  nave- 
gação   do  Gequitinhonha  calumniada,   e  indevi- 
damente abandonada  pelos   Governos    das   duas 
Províncias  limitrophes,    he  hoje  o  recurso  mais 
estável  do  pequeno  commercio  que  se  faz  n'aquella 
Comarca,  afora  o  que  diz  respeito  ao  ouro  e  as 
pedras  preciosas.  Assim  heque  se  vê  uma  povoação 
nascente,   o   Calháo,  fazer  passos  de  gigante  no 
augmento  do  seo  material  durante  os  trez  ou  quatro 
últimos  annos:   já  conta    no  casas,   pela    maior 
parle  novas,  além  de  outras  em  activa  construcção, 
e  nos  dias  de  festa  chega  a  reunir  para  cima  de 
2:000  almas,  o  que  denota  grande  população  nas 


124 


visinhanças.  No  paralello  de  ly.^o/i/-,  (9)  e  a  60 
legoas  mais  ou  menos  da  costa,  esta  povoação  está 
assentada  na  margem  direita  do  Arassuany,  pro- 
ximamente duas  legoas  acima  de  sua  afluência 
com  o  Gequitinhonha.  Não  me  parece  a  situação 
mais  conveniente  debaixo  do  ponto  de  vista  de 
sua  hygiene:  o  seo  solo  baixo  muito  terá  de  soífrer 
das  grandes  inundações  do  Arassuahy,  além  decjue, 
segundo  me  informarão,  aquelle  não  he  o  ultimo 
ponto  da  navegabilidade  do  rio. 

Passarei  ao  estudo  especial  do  Gequitinhonha. 

Descer  um  rio  no  seo  quarto  de  enchente, 
dirigido  por  práticos,  he  certamente  vel-o  pelo 
lado  mais  bello;  e  não  se  pode  dissimular  a  in- 
fluencia doesta  circumstancia  sobre  o  espirito 
d'aquelle  cjue  tivesse  de  julgar  da  navegabilidade 
de  dous  rios  pelas  difficuldades  ^ue  n'elles  en- 
controu. N'este  caso  aquelle  que  tivesse  subido  o 
Gequitinhonha  nas  condições  em  que  subimoso  Mu- 
cury,  e  que  depois  descemos  o  Gequitinhonha, 
não  teria  duvida  em  concluir  que  mais  commoda 
hea  navegação  d'aquelle  rio.  Felizmente  possuímos 
meios  mais  positivos  de  resolver  esta  questão,  e 
o  principal  d'elle  he  a  comparação  dos  perfis  dos 
dous  rios  què  V.  Ex.  encontrará  no  mappa  geral 
das  duas  Comarcas.  As  indicações  barometricas 
vêem  em  soccorro  do  parecer  de  algumas  pessoas 
que  têm  navegado  por  um  e  outro  em  ambos  os 
sentidos,  entre  os  quaes  figura  o  Sr.  Tenente 
Fagundes,  e  por  consequência  muito  competente. 

Como  o  Mucury  o  Gequitinhonha  he  natural- 
mente dividido  em  duas  partes:  — Rio  de  pedras 

(9)  Calhao  (povoação  à  margem  direita  do  Arassuahy  junto  a 
fôz  do  ribeiro  (ialliáo)  aos  22  de  Dezembro  de  1849. 
Míinbã  6.»'  55."  45  %  53.  t.  v.  Disl.  zenilh.  corr.  TO.»  52/  12",  05. 
Tarde  \L    4.   48,    23.  l.  v.    *         »  »      29.  54.  53,    GO. 

Manhã  7."  O.""  27/,  08.  l.  v.  Disl.  zenilh.  cor.  69.»  48.'  43".    63. 
Tarde  14.  13.    0.     12.  l.  v.     .        •  -     31.     48.    27.    10. 

A  differença  entre  a  media  e  as  latitudes  caleuladas  he  O", 07. 


125 


e  rio  d'areia.  O  rio  de  pedras  se  pôde  sub-dividir 
em  trez  secções,  distinctas  principalmente  por 
serem  as  suas  extremidades  occupadas  por  po- 
voações . 

A  parte  comprehendida    entre  o    Calháo  e  o 

arraial  de  S.  Miguel  he  de  dezoito  legoas  e  meia 

em  linha  recta,  porém    n  ella  o  rio  serpentêa  no 

craminho  de  mais  de  28  legoas,  descendo  47  braças 

(^lo).  Já  se  vê  que   não  podem  ser  muitas  as   ca- 

^^hoeiras  d"esta  parte  do   rio,  e  com  effcito  creio 

^ue  além  do  lugar  denominado  labyrinlho  perto 

<de  S.  Miguel,  e  do  Irovcssõo  no  começo  do  Aras- 

isuahy,  todas  as    mais  difíiciildades  se  reduzem 

"Sa  correntezas  fortes  alli  designadas  com  o  nome 

<:de  corridas. 

De    Saõ  Miguel  ao  Snlto-grande   vaõ    pouco 
imais  de  21  legoas  em    linha  recta,  27  em  desen- 
^volvimento,  e  3i    braças  (11)  em    descida.    Ex- 
<:eptuando   a  cachoeira  do  iiiferno,   pouco  acima 
tío  Salto,  a  qual  he  uma  verdadeira  difficuldade 
<^ue  obriga  ao  descarrego  tanto  na  subida  como 
xia    descida,    os   embaraços  da  navegação   desta 
parte  do  rio  saõ  antes    effeito  da  granáe  quanti- 
dade   de    pedras    que    atrapalhaõ  a  marcha   de 
suas  agoas,  do  que  devidas  á   differençade  nivel. 
He  na  extremiclade   inferior  d'esta  parte  do  rio 
de  pedras  que  se  acha  a  celebre  cachoeira  deno- 
"minada  o    Sallo-grande^    d'onde  tira  o  nome    a 
povoação  que   lhe   fica    junto.   No   caminho   de 
cerca  de  uma    milha  o   rio  Gequitinhonha    con- 

pol.     iuff.  g.  g. 

(10)  S.    Miguel  — B  =59,42-T.=24,()0~t.^25,00. 
Calháo B/=-'29,lO-Y/^20,25-l.Wál,00. 

No  Calháo  o  Baromelro  eslava   a  2  bra(;as  e  em  S.  Miguel 
^  O  braças  acima  da  suporfíciu  do  rio. 

pol.    ing.  p.  ft. 

(11)  Salto B.  =.29,05 -T.  =24,50— t. =25,50. 

S.    Miguel— B\=29,42—T\=-24,00-r=25,00. 

O  Barómetro  eslava  dd  Salloa  8  braças  sobre  a  agr^a- 


126 


some  alli  a  altura  de  21  a  22  braças  (12)  em  favor 
de  sua  navegabilidade,  a  qual  por  certo  seria 
menos  felÍ2  sem  esta  circumstancia.  Não  he  uma 
enorme  mole  d'agoa  cahindo  de  altura  maravi- 
lhosa, cujos  borrifos  produzem  um  espesso  ne- 
voeiro, e  cujo  fracasso  se  faz  ouvir  desde  a  distancia 
de  trez  legoas,  como  exageradamente  se  escreveo  : 
da  povoação  que  lhe  íica  a  pouco  mais  de  200 
braças  nunca  vi  nevoeiros  e  nem  ouvi  bem  dis- 
tinctamente  o  seo  ruido.  Com  tudo  naõ  deixa  de 
ser  medonho  o  aspecto  deste  ponto  do -rio:  saõ 
muitas  as  pancadas,  porém  succedem-se  trez  de 
35  a  40  palmos  cada  uma,  as  quacs  supponho 
que,  mesmo  descendo,  um  peixe  naõ  atravessará 
com  vida.  As  canoas  descarregaõ  no  porto  da 
povoação,  e,  ou  passa-se  a  carga  para  outras  ca- 
noas do  porto  de  baixo,  ou  saõ  ellas  mesmas 
arrastadas  vasias  ao  mesmo  porto.  Este  vara- 
douro tem  proximamente  900  braças,  e  a  sua 
estrada  he  susceptível  de  muitos  melhoramentos. 

Segue-se  a  terceira  subdivisão  do  rio  de  pedra.^ 
que  começa  do  porto  de  baixo  do  Salto,  onde 
se  diz  ser  a  extrema  desta  Província,  até  a  po- 
voação da  Cachoeirmha  onde  principia  o  rio 
dareia.  He  a  mais  curta  e  ao  mesmo  tempo 
aquella  que  mais  difficuldades  oppõe  á  navegação. 
Com    efíeito  em  9  legoas    em  linha  recta  o    rio 


(12)  A  ilifferença  de  altura  entro  o  pirto  de  baixo  e  o  porto  ile 
cima  do  Salto  foi  tomada  com  um  nivel  que  mandei  fazer  aqui 
antes  da  minha  pirtída  para  fom.  o  qual  consiste  em  uma  regoa 
com  um  furo  no  s(Mitido  longitudinal  e  suspensa  cm  dous  cordéis  de 
modo  a  conservar  quanto  sor  possa,  a  sua  liorisonialidade.  Costu- 
nío  empregar  este  grosseiro  instrumento  nos  nivelamentos  de  re- 
conhecimento, quando  se  trata  somente  de  achai  a  differenya  entre 
dous  pontos  dislanles  um  do  outro  de  900  braças  proximamente 
como  já  disse,  e  só  tenho  a  fidicilar-me  do  resultado  que  alcancei, 
pois  apenas  differe  de  mais  ou  monos  meia  braça  do  que  achou 
o  Sr.  Przwodowski,  (|ueofez  cuidadosamente  com  instrumentos  dos 
mais  perfeitos,  segundo  este  Sr.  me  fez  u  honra  de  coramunicar. 


127 


desce  n'aquella  parte  22  braças  (i3),  e  he  ca- 
minho que  se  faz  em  quatro  horas  c  meia  na 
descida;  obrigando  a  trez  ou  mais  descarregos  na 
subida,  em  que  se  emprcgaõ  dous  dias. 

O  rio  de  pedras  do  Gequitinhonha  conta  cinco 
povoações   em  suas    margens,   as    quaes   saò,  a 
contar  de  cima:  i.**  um  arraial  que  se  está   esta- 
belecendo no   pontal  d'Òeste  da  confluência    do 
Arassuahy  com  o  Gequitinhonha;  2.0  a  povoação 
da  Itinga,  7  legoas  abaixo  da  mesma  confluência, 
na  margem  esquerda,  junto  do  riacho  do  mesmo 
nome;   3/ o  arraial   de  São  Miguel  que  occupa  a 
extremidade  da  primeira  subdivisão  que  fiz  do 
rio  de  pedras,    situado  na  margem  direita,  junto 
do  ribeiro  do   mesmo  nome  e  a  i6%35/35."  /14) 
cie  latitude  Sul;  4.**  a  povoação  do  Salto,  também 
na  margem  direita,  a  i6/3/'35/'  (i5)  de  latitude 
Sul;5/  finalmente  a  muito  insignificante  povoação 
da  Cachoeirinha  collocada  igualmente  na  margem 
direita, no  ponto  onde  se  acaba  o  rio   de  pedras,  a 
16.00/37/'  (16)  de  latitude. 

Todas  estas  povoações  negaõ  ares  de  prospe- 
x^idade,   com   excepção   da   primeira,   que  vai-se 

M.  ing.  g.  g. 

(13)  Cachoeirinha  —B,=  29,99  -T.=23,50—t.— 24,50. 

Salto B.'=29,65  -T.'=24,50-l.'«25,50. 

O  Barromctro  eslava  na  Cachoeirinha  a  5  braças  acima  d*agoa 

(14)  Arraial  de  S.  Miguel  em  4  de  Janeiro  de  1850. 
Alanhã  O."»  47.»  3.V,  94.  l.  v.  Disl.  zenilh.  corr.  72.»  59.'  9**  84. 
"Tarde  13.  59.     26,  47.  t.  v.     ,,        „         .,        28.  43.  39,  87. 
Alanhâ  Q^  59  "  2»,  09.  r.  v.  Dist.  zenilh.  corr.  70.«  23.*  ACy'\  T2. 
*Jarde  14.    4.     11,  27.  l.  v.      ,.        ,,         ,.        29.  48.  54,  80. 

A  media  faz  com  as  latitudes  calculadas  a  differença  de  9",  10. 

(15)  Salto  (povoação)  cm  10  de  Janeiro  de  1850. 
Manhã  7.»'   2."  47%  29.  l.  v....  Dist.  ZíMiit  corr.  69  «  50.*  42",  86. 
Tarde  13.  59      12,  21,  t.  v ,       ,,         ,,      28.44.    5,    12. 

(16    Cochínirinha  (povoação)  em  15 de  Janeiro  de  1850. 
ilariha  7." 40."  52*,  60.  i,  v...  Disl.  ziTiilh.  corr.  Cl."  13.'  i:;",  88. 

T^ardelB.  58.    58,  35    t.  v „         „      28.37.37,    71. 

IManha  1  .^  47.»  4.8«.«  t.  v Disl.  zenilh.  corr.  50.o  47.'  5'',  88. 

Tarde  14.     3.  4l,M.l.  v , 29.42.20,17. 

A  mcJia  hc  uuicaoienlc  de  0/'07  differeules  das  latitudes  cakula^iad, 


12« 


formando  com  prejuiso  de  algumas  visinhas,  prin- 
cipalmente da  Itinga.  Esta  mesma  muito  breve 
fará  sua  parada  como  as  outras,  inclusive  o 
Calháo,  se  se  naõ  tratar  cjuanto  antes  de  melho- 
rar a  navegação  do  Gequitinhonha,  a  qual,  como 
adiante  mostraremos,  naõ  lucta  tanto  com  os 
embaraços  naturaes  e  inherentes  á  sua  navegabili- 
dade, como  com  os  que  vém  do  abandono  em 
que  se  acha. 

O  rio  d'areia  do  Gequitinhonha  avança  quinze 
legoas  e  meia  para  a  costa  em  linha  recta,  vmte  e 
meia  em  desenvolvimento,  e  desce  apenas  cento  e 
vinte  palmos  (ly^i.  Esta  pouca  inclinação  de  seo 
leito,  a  qual  diminuindo  a  sua  correnteza  facilita 
sua  navegação  a  ponto  de  poder  uma  canoa,  carre- 
gada e  guarnecida  de  3  homens  somente,  subir  até 
a  Cachoeirinha  em  trez  dias,  isto  he,  pouco  mais 
ou  menos  a  mesma  distancia  que  no  Mucury  uma 
canoa  nas  mesmas  condições  e  guarnecida  de  5 
homens  só  vence  em  5  dias,  hc  infelizmente  causa 
das  muitas  coroas  e  baixos  que  frequentemente 
atrapalhaõ  a  sua  navegação  aos  inexperientes, 
assim  como  das  difticuldades  da  sua  barra. 

Com  elíeito  sem  um  declive  forte  que,  apres- 
sando o  movimento  de  suas  agoas,  lhes  dè  força 
para  o  transporte  das  areias  do  seo  leito,  este 
tende  a  obstruir-se  e  por  consequência  a  diminuir 
de  capacidade,  e  como  o  volume  das  agoas  se 
conserva  sensivelmente  o  mesmo,  segue-se  maior 
acção  doesta  sobre  as  margens,  cujaargilla  se  dilue 
e  he  facihnente  transportada,  e  cuja  areia,  não 
obedecendo  á  fraca  acção  mecânica  das  agoas,  vai 
augmcntar  a  grande  massa  d^este  obstruente  do 
leito.  D^aqui  vem  a  largura  extraordinária  que  nos 
apresenta  o  Gequitinhonha  n^esta  parte,  quasi  toda 

(17)  Belinonlc  B.— 30,12 -T.--5G, 75— l.^tiT^^õ. 

Ciuliocirinliii-B'--20,OÍ)-T.-23,r)0— l.^24.b0. 
n  Daromclro  em  Djlnionie  eslava  iluus  brayaá  acima  do  mar. 


129 


occupadapor  vastíssimas  coroas  de  areia  e  nume- 
rosos baixos,  em  que  a  cada  passo  se  encalhão  as 
canoas  quando  os  seos  conductores  não  são  muito 
práticos  em  reconhecer  os  canaes. 

Não  sei  se  outras  causas  concorrem  com  esta 
para  nos  mostrar  como  he  que  a  barra  do 
Gequitinhonha,  rio  de  primeira  ordem,  apenas 
oíferece  um  canal  estreito,  inconstante  e  de  pouco 
fundo,  a  ponto  de  nunca  permittir  entrada  senão 
a  pequenos  hiates  ou  lanchas;  mas  he  evidente 
que,  se  as  agoas  do  rio  fossem  tocadas  de  maior 
velocidade,  não  só  se  naõ  alargaria  tanto  a  sua 
fóz,  circumstancia  que  muito  se  oppõe  a  activi- 
dade das  correntes  nos  canaes,  senão  também 
muito  ajudariaõ  ellas  o  movimento  da  maré  no 
seo  trabalho  de  escavação. 

Agora  que  temos  uma  idéa  approximada  dos 

rios  Mucury  e  Gequitinhonha  quanto  ao  essencial, 

senão  quanto  atoaos  os  detalhes  importantes  que 

podem  concorrer  para  o  seo  cabal  conhecimento, 

convém    chegar-nos  a  questão   acima   proposta, 

isto  he: — Devendo  os  empenhos  do  Governo  em 

abrir   communicações  .que  ppnhaõ    o   Norte  de 

Minas    em  relação  com    a    costa,    ser  dirigidos 

para  o  lado  que  menos  embaraços  apresente  e 

mais  promf>tas  vantagens  oíFereça  em  compensação 

dos  sacrifícios  feitos,  será  o  Mucury  o  ponto  mais 

próprio  para  satisfazer  a  estas  condições  ?    Um 

resumo  comparativo  das  vantagens  que  òfFerecem 

os  rios  Mucury  e  Gequitinhonha  como  meios  de 

communicação,    bastará   para    a    solução    doesta 

questão. 

Vimos  que  para  subir  o  rio  d^areia  do  Mucury 
nas  condições  mais  favoráveis  saõ  precisos  pelo 
menos  cinco  dias  de  marcha  forçada,  e  quç,  faci- 
litando muito  o  rio  de  pedras,  não  podemos  con- 
ceder menos  de  1 5  dias  para  a  mesma  operação ; 
aqui  temos  pois  20  dias  para  vencermos  3o  legoas 
na  direcção  de  Minas  Novas  até  a  confluência  do 


130 


Rio  Preto.  DVste  ponto  ha  proximamente  igual 
distancia  áquella  cidade  em  linha  recta ;  mas  como 
o  terreno  he  extremamente  montanhoso  devemos 
suppòr  que  naõ  nos  será  possível  fazer  uma 
estrada  commoda  sem  augmentarmos  pouco  mais 
ou  menos  de  um  terço  esta  distancia.  Teremos 
pois  40  legoas  que  uma  tropa  não  poderá  vencer 
em  menos  de  i5  dias,  contando  com  o  tempo 
necessário  aos  preparativos  no  porto  para  se  por 
em  caminho. 

Suppondo  agora  que  se  possa  descer  o  rio  de 
pedras  em  8  dias  e  o  de  areia  em  2,  concluiremos 

âue,  da  fóz  do  Mucury  até  Minas  Novas,  o  minimo 
aviagemvémaserde35dias,sendoodavoltade25. 
Vejamos  agora  o  que  acontece  a  respeito  do 
Gequitinhonha. 

Desci  todo  este  rio  em  68  horas  tendo  apenas 
dous  fracos  remadores  além  do  popeiro:  ora 
admittindo  que  este  seja  o  minimo  tempo  que  se 
possa  empregar  n'esta  viagem,  e  dando  dous  dias 
para  alguns  descarregos  que  se  tenha  de  fazer  n"este 
trajecto,  segue-se  que  se  pode  vir  do  Calháo  a 
Belmonte  (18)  em  10  dias. 


(18)  Belmonte  (Villa)  em  2S  de  Janeiro  de  1850. 

Manha  7.ii  52."'  2.-,  52  l.  v.     Disl.  zenit.  corr.  59  •  2.'  A'\  60. 

Tarde  14.   J4.22.     38 1.  v.       »         u        »    32.    0.50',  91. 

Manha  7.^  58."  41,  21.  l.  V.    Dií^t.  zenit.  corr.  57.o28.'l5'\  04. 

Tarde  M.  J9.   28,  .r5.t.  v.       »         .       •      X\.  22.  37.  23. 

A  media  que  he  15,'  51.'  24.''  afasta-sc  de  0'\83  dasjalitudes 
calculadas. 

Este  he  um  dos  pontos  determinados  pelo  Barão  de  Koussin, 
o  qual  lho  assigna  o  parallelo  de  15.*'51.'4.";  donde  se  vô  que 
a  minha  latitude  differe  20"  da  que  achou  aquelle  insigne  obser- 
vador. Ksta  differenya,  com  quanto  pequena,  me  desanimaria  se 
naõ  fosse  o  facto,  muito  conhecido  em  Belmonte,  de  que  o  rio 
na  sua  foz  tem  avançado  para  o  Sul,  o  por  consequência  hoje 
occupanaõ  pequena  parte  da  antiga  povoação,  onde  naturalmente 
Roussin  a^sentou  o  seo  observatório,  por  si  r  a  que  ficava  entaõ  na 
margem  do  rio.  lia  alli  um  lugar,  naõ  longe  do  pontal  do  Norte, 
que  conserva  o  nome  de  barra  velha,  por  onde  affirma  a  tradicçaO 
que  passava  o  rio. 


131 


Cita-se  no  Calháo  o  exemplo  de  uma  canoa  que 
d'alli  desceo,  e  no  fim  de  i6  dias  se  achou  de  volta 
com  uma  carga  de  sal  tomada  no  Salto  ;  lanço  isto 
no  rol  das  cousas  raras,  e  considerarei  o  que 
acontece  mais  frequentemente,  isto  he,  que  uma 
canoa  faz  esta  viagem  em  20  dias.  Ora  suppondo 
que  estas  canoas  empreguem  na  descida  o  mesmo 
tempo  que  empreguei,  que  foi  44  horas,  isto  he, 
5  dias  e  dando  meio  dia  para  o  seo  carregamento 
no  Salto,  teremos  que  a  subida  d'aquelle  ponto 
ao  Calháo  se  pode  fazer  em  14  dias  e  meio. 
-Admittamos  i5  dias.  Já  dissemos  que  o  rio  de  areia 
se  sobe  em  3  dias,  e  que  em  2  se  pôde  chegar  da 
Cachoeirinha  ao  Salto.  Reunindo  pois  estas  dilfe- 
rentes  parcellas,  e  ajuntando-lhes  mais  um  dia  para 
ser  consumido  no  varadouro  do  Salto,  vemos  que 
se  pode  ir  de  Belmonte  ao  Calháo  com  uma  canoa 
carregada  em  21  dias. 

Notar-se-ha  aqui  que  eu  comparo  a  viagem 
desde  a  costa,  pelo  Mucury,  até  Minas  Novas, 
com  a  que  se  faz  de  Belmonte  ao  Calháo;  mas 
cu  ja  fiz  sentir  em  outra  parte  que  Minas  Novas 
não  he  o  ponto  mais  conveniente  para  servir  de 
grande  centro  ao  commercio  d'aquella  Comarca, 
e  se  o  hc  ajuntem-se  5  dias  ás  viagens  do  Gequi- 
tinhonha,  pois  tanto  gasta  uma  tropa  a  chegar 
do  Calháo  a  Minas  Novas. 

Vemos  portanto  que  uma  viagem  redonda  de 
Minas  Novas  á  costa  pelo  xMucury  não  se  pôde 
fazer  em  menos  de  60  dias,  e  que  pelo  Gequiti- 
nhonha  ella  se  faz  em  3i  dias,  apezar  do  aban- 
dono da  actual  navegação  d^este  no. 

O  nivelamento  barometrico  que  fiz  dos  dous 
rios  confirma  estas  circumstancias :  vê-se  por  elle 
que  o  rio  de  pedras  do  Mucury,  em  todo  o  seo 
desenvolvimento  de  3o  legoa»,  comprehendida  a 
parte  do  Rio  Preto  desde  a  confluência  até  o 
quartel  de  Santa  Cruz  (proximamente  4  legoas 
desenvolvidas),  sobe  142  braças;  e  a  parte  correspoa- 


132 


dente  do  Gequitinhonha,  com  65  legoas  de  desen- 
volvimento, apenas  sobe  122  das  quaes  devemos 
descontar  22  que  são  consumidas  em  um  só  ponto, 
o  Salto.  Não  se  pôde  otferecer  uma  medida  mais 
justa  de  quanto  a  navegabilidade  do  Gequitinhonha 
he  superior  a  do  Mucury ;  e  se  a  tudo  isto  ajun- 
tarmos, a  circumstancia  de  se  achar  a  navegação 
do  Gequitinhonha  um  pouco  encaminhada,  e  já 
possuirem  as  suas  margens  alguns  germens  ae 
população,  nada  mais  precisaremos  para  concluir 
que  o  Governo,  no  empenho  de  dar  porto  aos 
Mineiros  do  Norte,  e  melhorar  a  sua  sorte,  deve 
forçosamente  pensar  antes  de  tudo  no  Gequi- 
tinhonha. 

necessidadp:s  mais  urgentes 

das  comarcas  de   caravellas  e 

porto  seguro 

Vimos  que  a  communicaçaõ  de  nossas  povoa- 
ções da  costa  com  o  centro,  de  modo  a  facilitar 
a  descida  de  productos  para  seos  portos  e  pro- 
ductores  para  suas  terras,  he  questão  de  vida  e 
de  morte  para  as  mesmas  povoações,  e  que  esta 
necessidade  torna-se  tanto  mais  urgente  quanto 
a  diminuição  da  escravatura  as  vai  privando  dos 
seos  únicos  meios  de  produzir.  Lance-se  a  vista 
sobre  o  quadro  das  embarcações  que  deixão  seos 
portos  para  irem  mendigar  cargas  nos  portos 
visinhos,  e  ver-se-ha  uma  prova  de  quanto  a 
marinha  de  nossa  cabotagem  do  sul  vai  ficando 
superior  á  producção  que  cm  outros  tempos  expor- 
tavão  seos  pequenos  portos,  por  consequência 
mas  um  documento  de  sua  decadência. 

Também  vimos  que  não  menos  vital  he  para 
os  Mineiros  visinhos  a  questão  de  communicações 
que  lhes  abrão  portos  para  seos  mercados  e  ao 
mesmo  tempo  facilitem  melhores  terras  para  sua 
agricultura;  questão  tanto  mais  importante  quanto 


I3â 


o  ramo  único  de  producção  que  sustenta  sua 
importação — a  exportação  do  ouro  e  das  pedras 
preciosas  —  vai  descabido  consideravelmente. 

Procurei  igualmente  mostrar  que  a  satisfação 
doesta  necessidade  commum  ás  duas  Províncias, 
vital  e  urgente,  he  favorecida  pelas  circumstancias 
hydrographicas  dos  dous  paizes,  e  que  o  Gequi- 
tinhonha  he  por  se  só  um  grande  passo  dado 
pela  natureza  n'este  sentido,  o  qual  ao  mesmo 
tempo  facilita  os  que  immediatamente  tem  de  dar 
os  aous  Governos  no  empenho  de  melhorar  a 
sorte  desta  parte  do  Império. 

Convém  agora  que  eu  ensaie  a  indicação  das 
providencias  que  a  mesma  necessidade  reclama. 

Custa  a  comprehender  que  o  rio  Gequitinhonha, 
navegável  no  seo  desenvolvimento  de  90  legoas 
proximamente,  muito  navegado  em  outro  tempo, 
tenha  cahido  em  perfeito  abandono  com  prejuizo, 
tanto  dos  Mineiros  que  fazem  a  sua  importação 
do  Rio  de  Janeiro  com  enormes  despesas,  como 
em  detrimento  da  Provincia  da  Bahia  a  quem  a 
natureza  concedeo  o  direito  quasi  exclusivo,  não 
só  de  lhe  fornecer  os  géneros  de  seo  consumo, 
como  de  encarregar-se  dos  de  sua  exportação  ! 
A  importação  de  quatro  mil  contos  annuaesque 
fazem  as  comarcas  do  Serro  e  Gequitinhonha  he 
usurpada  pelo  Rio  de  Janeiro  aos  portos  da  Bahia, 
e  os  Mineiros  d'aquella  parte  estão  condemnàdos 
a  um  acréscimo  de  despesa  de  transporte  perfei- 
tamente inútil!  He  por  certo  isto  uma  das  muitas 
anomalias  que  soem  apparecer  nos  paizes  onde 
o  interesse  das  intrigas  politicas  absorve  exclu- 
sivamente todas  as  attenções,  e  onde  não  só  os 
primeiros  agentes  do  poder  executivo,  como  toda 
a  porçaõ  mais  importante  do  pessoal  da  publica 
administração  se  succedem  rapidamente,  como 
entre  nós  acontece.  Em  taes  condições  não  ha 
projecto  de  longa  execução  possivel,  toda  a  admi- 
nistração pubhcase  reduz  ao — Eu  e  meo  visinho — ; 


134 


.0  empenho  em  que  se  acha  o  Governo  de  segurar- 
se  no  seo  posto  e  a  incerteza  de  sua  estabilidade 
apenas  lhe  permittem  olhar  para  o  (jue  tem  de- 
baixo dos  olhos;  he  logo  surprehendido  pelo  seo 
successor  que  ordinariamente  abandona,  se  naõ 
desfaz,  o  que  achou  feito;  porque  emíim  outros 
saõ  os  interesses,  outras  são  as  vistas. 

He  verdade  que,  sendo  o  único  objecto  de 
exportação  dos  Mineiros  o  ouro  e  as  pedras  pre- 
ciosas, he  natural  qucelles,  achando  mais  prompta 
venda,  e  mesmo  mais  vantajosa  na  praça  do  Rio 
de  Janeiro,  por  ser  mercado  mais  activo  do  que 
o  da  Bahia,  procurem  aquelle  em  perferencia  ; 
mas  se  se  considerar  a  facilidade  de  communi- 
cações  entre  estas  duas  Capitães,  e  a  grande  eco- 
nomia que  se  faz  no  transporte  dos  géneros  de 
consumo  de  Minas  pelo  Gequitinhonha,  esta  pe- 

âuena  vantagem  fica  a  perder  de  vista  ;  e  isto  além 
a  faculdade  de  exportar  outros  géneros,  que  naõ 
somente  o  ouro  e  as  pedras  preciosas. 

Um  animal  de  transporte  do  Rio  de  Janeiro 
a  Minas  Novas  carrega  oito  arrobas,  recebe  60S000 
rs.  de  frete,  e  leva  pelo  menos  60  dias  de  viagem. 
Uma  canoa  sobe  de  Belmonte  ao  Calháo  em  21 
dias,  como  já  vimos,  carrega  52  arrobas  e  recebe 
de  frete  120  a  i3oSooo  rs.  Vemos  por  aqui  que, 
alem  de  fazer  a  viagem  em  menos  de  metade  do 
tempo,  a  carga  que  custa  60S000  rs.,  do  Rio  a 
Minas,  vem  a  custar,  de  Belmonte  ao  Calháo, 
i6S23o  rs.  proximamente,  concedendo  o  estado 
desgraçado  em  que  se  acha  a  navegação  d'aquelle 
rio.  A^ora  se  ao  tempo  ajuntarmos  os  5  dias  ne- 
cessários á  viagem  do  Calháo  a  Minas  Novas,  e 
ás  despesas  os  4S000  rs.  que  paga  cada  carga  de 
um  d^estes  pontos  ao  outro,  teremos  que  o  tempo 
não  subirá  ainda  a  metade,  e  as  despesas  ficaráõ 
em  23833o  rs.  em  lugar  de  608000  rs. 

Mas  o  porto  de  Belmonte  não  he  mercado 
consumidor  e  fornecedor,  he  preciso  metter  em 


135 


conta  as  despesas  e  riscos  do  transporte  de  uma 
das  Capitães  mais  visinhas  e  de  forte  mercado, 
Bahia  ou  Rio  de  Janeiro. 

Naõ  creio,  nem  he  possivel,  que  a  civilisação 
Mineira  naõ  possa  ser  í?em  supprida  em  todas  as 
suas  necessidades  pela  praça  da  Bahia;  portanto 
he  d'aqui  que  devemos  considerar  os  fretes  para 
Belmonte,  por  isso  que  he  a  mais  visinha  d'a- 
quelle  porto.  O  que  poderá  custar  o  transporte  de 
8  arrobas  por  mar  em  uma  viagem  de  ^o  horas 
em  tempo  favorável?  Suppondo  um  consumo 
regular,  muito  pouco  nodem  augmentar  de  preço 
as  mercadorias  enviadas  a  Belmonte  por  uma  ou 
maÍ5  casas  fortes  d'esta  praça,  principalmente  se 
alli  se  quizer  estabelecer  um  ou  mais  depósitos 
como  naturalmente  ha  de  vir  a  acontecer. 

Se  pois  todas  as  vantagens  saõ  em  favor  do 
commercio  do  Norte  de  Minas  pelo  Gequitinho- 
nha,  se  he  lei  invariável  e  rigorosa  que  o  com- 
mercio naõ  deixa  o  melhor  caminho  para  seguir 
o  que  se  oppõe  evidentemente  aos  seos  interes- 
ses, como  he  que  este  se  tem  todo  encaminhado 
para  o  Rio  de  Janeiro,  deixando  ao  Gequiti- 
nhonha  somente  a  importação  do  sal,  que  he 
género  de  insignificante  valor?  Les  entraves,  diz 
Baptista  Say,  compriynent  lessor  de  la  production; 
le  defaut  súreté  la  supprime  tout  à  fait  A  falta 
de  segurança  da  pessoa  e  da  propriedade  he  a 
única  causa  que  explica  o  desvio  para  o  Rio  de 
Janeiro  de  todo  o  commercio  que  naturalmente 
pertence  ao  Gequitinhonha.  Esta  falta  de  segu- 
rança vem  I."  de  embaraços  naturaes  inherentes 
ao  leito  do  rio  e  de  sua  barra;  2.'*  de  naõ  haver 
uma  lei  ou  regulamento  que  determine  bem  cla- 
ramente os  direitos  dos  canoeiros,  assim  como  os 
dos  donos  ou  conductores  de  carga ;  3."  da  impu- 
nidade absoluta  de  todos  os  crimes  alli  commet- 
thlos  por  falta  de  uma  força  que  auxilie  as  auç- 


136 


thoridades,   já   na  repressão  dos  mesmos  crimes, 
já  na  protecção  dos  direitos  de  propriedade. 

O  rio  de  pedras  do  Gequitinhonha  muito  na- 
vegável como  vimos  oppõe  com  tudo  algumas 
ditficuldades;  grandes  despezas  demandaria  o 
melhoramento  que  o  tornasse  inteiramente  com- 
modo  como  o  rio  d"areia;  mas  felizmente  o  perigo 
de  sua  navegação  vém  pela  maior  parte  de  em- 
baraços de  fácil  remoção.  Naõ  he  na  cachoeira 
do  inferno,  nem  em  outras  pequenas  pancadas 
que  obrigaõ  ao  descarrego  c(uq  se  podem  perder 
canoas  carregadas ;  estas  difficuldades  saõ  intei- 
ramente annuladas  com  uma  pequena  despeza  de 
tempo :  as  pedras  isoladas,  muitas  vezes  soltas, 
que,  occupando  o  alveo  de  um  canal,  obrigão  as 
canoas,  tocadas  de  forte  correntesa,  isto  he,  no 
momento  em  q^ue  o  seo  governo  he  mais  difficil, 
a  fazer  um  rápido  desvio,  saõ  os  escolhos  onde 
quasi  sempre  estas  naufragaõ.  A  celebre  pedra 
alli  conhecida  com  o  nome  de  Marahú  onde  se 
contaõ  perdidas  onze  canoas,  está  n'este  caso*. 

Remover  ou  destruir  estas  pedras  e.  outras  que 
muitas  vezes  obstruem  completamente  um  excel- 
lente  canal ;  determinar  os  canaes  mais  commo- 
dos  tanto  para  a  subida  como  para  a  descida, 
nos  differentes  estados  das  agoas  do  rio;  melho- 
rar os  varadouros,  principalmente  o  do  Salto, 
cuja  estrada  hoje  praticada  poranimaes  de  car- 
ga hc  susceptível  de  se  tornar  praticável  por  carros; 
são  os  objectos  que  têm  de  occupar  primeiro  que 
tudo  a  attenção  do  Governo  no  que  diz  respeito 
ao  melhoramento  do  leito  do  Rio  Gequiti- 
nhonha. 

A  barra  de  Belmonte,  já  o  dissemos,  he  um 
dos  maiores  embaraços  da  navegação  d'aquelle 
rio,  e  justamente  um  d'aquelles  que  o  Governo 
pode,  naõ  direi  fazer  desapparecer  de  todo,  porém 
minorar  consideravelmente.   Quem  naõ   vê  que 


U\'i 


um  bom  pratico  convenientemente  pago  e  muni- 
do dos  necessários  meios,  como  por  exemplo, 
uma  atalaia  d'onde  possa  fazer  signal  ás  embar- 
cações da  direcção  actual  do  canal,  e  mesmo  uma 
pequena  lancha  onde  possa  sair  a  tomar  fora  as 
embarcações  quando  as  difíiculdades  da  occasião 
o  exigirem,  tornará  quasi  insensivel  este  obstá- 
culo para  o  commercio? 

Mas  naõ  parão  aqui  os  recursos  que  flcaõ  a 
uma  administração  que  deseje  cuidar  dos  verda- 
deiros interesses  materiaes  d^aquella  parte  do  Sul 
da  Província:  a  própria  natureza  os  facilita.  A 
distancia  que  separa  as  agoas  de  Belmonte  das 
do  Rio  Pardo  naõ  chega  a  uma  legoa,  como  V. 
Ex.  verá  do  mappa  especial  daquella  parte  (linha 
encarnada):  um  canal  não,  um  simples  rego 
aberto  n'este  terreno  baixo  e  arenoso  bastaria 
para  pôl-as  em  relação  de  communicaçaõ.  A 
própria  maré  se  encarregaria  de  o  alimentar  e 
entreter,  e  a  despeza  não  subiria  a  dez  contos 
de  réis.  Doesta  sorte  as  barras  de  Canavieiras  e 
de  Patype  pertencerão  igualmente  a  Belmonte, 
e  a  povoação  de  Canavieiras  participará  do  com- 
mercio de  Gequitinhonha. 

Ainda  mais  nos  otferece  a  natureza.  As  agoas 
de  Patype  separaõ-se  das  de  Poxim  pela  distancia 
insignificante  de  90  a  100  braças  no  lugar  deno- 
minado Porto  do  Mato  (linha  encarnada),  ou  1,160 
braças  junto  da  costa. 

Com  estas  simplices  aberturas  a  povoação  c 
lodo  o  Rio  Belmonte  ou  Gequitinhonha,  Canavi- 
eiras e  todo  o  Rio  Pardo,  ficarão  gosando  de  seis 
barras,  que  saõ,  a  contar  do  Sul :  1 ."  a  de  Bel- 
monte que  naõ  he  bòa ;  2."  a  do  Pezo  que  he 
insignificante  e  apenas  dá  entrada  a  canoas;  3.*  a 
de  Canavieiras  que  passa  por  muito  bòa;  4."  a  de 
Patype  que  lhe  he  inferior;   5."   a   dè  Poxlm  que 

18 


i:í« 


naõ  he  má;  6/  a  de  Comandatuba   que  gosa  de 
bòa  reputação. 

A  remoção  da  segunda  origem  dos  vexames 
do  commercio  do  Gequitinhonha  está  inteiramente 
nas  mãos  do  Governo.  As  relações  entre  canoeiros 
e  patrões  ou  donos  de  cargas  saõ  um  complexo 
de  desmanchos  cada  qual  mais  extravagante. 
Principia  pelo  propósito  constante  em  que  vivem 
de  se  enganar  uns  aos  outros:  o  regataõ  ou  con- 
ductor  de  carga  avança  géneros  em  conta  de  valor 
exorbitante,  o  canoeiro  obrigado  pela  necessidade 
os  aceita,  e  em  represália  exagera  inutilmente  as 
condições  de  seo  serviço :  e,  o  que  hè  peior,  como 
a  responsabilidade  he  nenhuma,  pouco  lhes  custa 
por  vmgança  alagar  uma  canoa.  Naõ  ha  canoeiro 
que  naõ  deva  aos  patrões  cem,  duzentos  e  até 
quatrocentos  mil  rs.  Naõ  ha  para  esta  gente  res- 
peito nem  aos  tratos  nem  as  pessoas:  uma  canoa 
só  sabe  quaes  saõ  os  individuos  que  compõe  a 
sua  guarnição  depois  que  se  põe  em  marcha; 
ainda  assim  naõ  he  seguro,  porque  nada  custa  a 
um  individuo  doestes  abandonar  urna  canoa  em 
viagem  por  qualquer  divertimento  que  encontre 
em  alguma  povoação  ou  sitio  do  caminho,  ou 
mesmo  porque  algum  outro  regataõ  lhe  ofFereça 
maior  vantagem. 

O  patraõ  ou  dono  de  carga  naõ  tem  voz  activa 
na  viagem ;  a  certeza  do  que  lhe  podem  fazer 
impunemente  á  sua  pessoa  e  a  sua  pequena  pro- 
priedade, torna-o  um  humilde  espectador  dos 
desregramentos  dos  canoeiros.  Estes,  quando 
lhes  parece,  falhaõ  um  dia,  porque  emfim  estão 
com  pouca  disposição  para  o  trabalho ;  deixão  a 
carga  descoberta  ao  tempo,  e  muitissimas  vezes, 
só  para  evitar  a  pena  do  descarrego,  mettem  uma 
cariòa  carregada  em  alguma  das  pancadas  que 
naõ  dispensaõ  esta  operação;  d'onde  véjp  frç- 
quentes  perdas. 


m 


Um  regulamento  que  determine  os  canaes  mais 
convenientes  por  onde  devem  seguir  as  canoas, 
e  os  pontos  de  descarrego  forçado,  tudo  segundo 
as  diíferentes  condições  d'agoas  em  que  se  ache 
o  rio;  que  marque  as  obrigações  dos  canoeiros 
para  com  seos  patrões,  e  vice-versa,  &c.  ;  he  uma 
das  necessidades  mais  urgentes  à  navegação  do 
Cíequitinhonha. 

Este  regulamento  porém  se  tornará  inteira- 
mente sem  etfeito,  se  o  Governo,  principalmente, 
o  de  Minas,  naõ  tratar  antes  de  tudo  ae  destruir 
a  terceira  fonte  de  embaraços  auealli  vexão  tanto 
o  commercio  como  a  população.  Nas  povoa- 
ções do  Gequitinhonha,  principalmente  no  Salto 
e  em  São  Miguel,  a  segurança  mdividual  está  so- 
mente ou  na  força  physica  do  individuo,  ou  na 
agilidade  com  que  sabe  manejar  seo  bacamarte  e 
evitar  o  do  adversário,  ou  finalmente  na  humil- 
dade com  que  se  dispõe  a  soffrer  toda  a  sorte 
de  violências  dos  malfeitores.  O  bacamarte  e  a 
faca  são  aqui  o  distinctivo  do  homem  respeitável; 
naõ  se  põe  pé  fora  da  porta  de  noite,  que  não 
seja  armado  de  ambos  estes  instrumentos.  Dão-se 
tiros  e  facadas,  viola-se  o  asylo  do  cidadão,  insul- 
ta-se  o  mais  sagrado  das  familias,  e  os  crimino- 
sos folgaõ  e  passeiaõ  impunes  diante  das  autho- 
ridades  a  quem  falta  a  força  com  que  se  façaõ 
respeitar,  soífrendo  aquelles*  unicamente  a  priva- 
ção de  descerem  até  Belmonte,  onde  encontrão 
um  Delegado  e  um  Subdelegado  que  os  vaõ  re- 
crutando como  único  recurso  em  desagravo  ás 
leis.  Com  etfeito,  sem  a  energia  dos  Srs.  Dr. 
António  Gomes  Villaça  e  Cândido  José  de  Souza, 
Delegado  e  Subdelegado  de  policia  de  Belmonte, 
os  quaes  com  a  pequena  força  de  que  dispõe  naõ 
poupaõ  os  que,  recommendados  pelas  authori- 
dades  de  Mmas,  se  descuidão  em  descer  até  alli, 
não  sei  se  a  anarchia  dos  canoeiros   do  Gequiti- 


140 


nhonha  não  chegaria  até  o  exterminio  da. popu- 
lação I 

'  A  estrada  lateral  do  Gequitinhonha  continuada 
do  Salto  a  Belmonte  seria  um  poderoso  auxilio 
ao  commercio  do  rio,  principalmente  durante  o 
tempo  das  cheias,  em  que  a  navegação  para  cima 
fica  inteiramente  parada;  mas  não  he  negocio  de 
primeira  urgência. 

Até  aqui  as  necessidades  urgentes  do  Gequiti- 
nhonha como  principal  via  de  communicação 
entre  as  duas  Provi ncias ;  vejamos  agora  o  que  pre- 
cisamos para  o  melhoramento  das  nossas  povoa- 
ções mais  ao  Sul.  Ainda  aqui  vem  em  nosso  soc- 
corro  o  Gequitinhonha.  Um  núcleo  de  povoação 
no  ponto  mais  alto  da  parte  navegável  do  Rio  de 
Alcobaça;  uma  estrada  ligando  este  ponto  a  São 
Miguel,  e  ramificações  partidas  d'elle  aos  pontos 
superiores  da  navegabilidade  dos  rios  Peruhipe, 
do  Prado,  c  de  Porto  Seguro;  um  canal  de  fácil 
execução,  communicando  as  agoas  do  rio  de  Al- 
cobaça com  as  do  rio  da  Serraria  de  Caravellas; 
formão  o  segundo  passo  importante  que,  a  meo 
ver,  pode  dar  uma  administração  em  favor  das 
nossas  povoações  do  Sul. 

Quanto  aos  meios  de  execução  muito  se  pôde 
discutir  antes  de  chegar  ao  melhor  accordo;  mas 
um  forte  destacamento  composto  de  gente  do 
^centro  habituada  ao  trabalho,  e  não  de  vadios  das 
cidades  e  pescadores  da  costa,  como  a  que  com- 
punha a  celebre  colónia  do  Mucury,  pode  formar 
o  seo  estabelecimento  no  ponto  central  que  mar- 
quei no  rio  de  Alcobaça,  com  o  fim  de  fundar  o 
núcleo  de  uma  Colónia,  occupando-se  parte  na 
cultura  das  provisões  a  consumir,  parte  em  abrir 
a  estrada  principal  ao  arraial  de  S.  Miguel  e  as 
ramificações  indicadas,  e  na  policia  das  mesmas 
estradas  *  contra  os  attaqucs  dos  selvagens.  Um 
outro  destacamento  importante  na  Cachoeirinha 
com  o  mesmo  fim  de  formar  o  principio  de  uma 


\4l 


colónia,  abrir  a  estrada  laicral  do  Salto  a  Bel- 
monte, trabalhar  no  melhoramento  do  leito  do 
rio  de  pedras  e  fazer  a  policia  entre  o  Salto  e 
Belmonte.  Quanto  á  Província  de  Minas  torna- 
se  mais  urgente  um  ijjual  destacamento  collocado 
em  S.  Miguel  com  o  hm  de  fornecer  trabalhado- 
res para  o  melhoramento  do  rio,  fazer  a  policia 
entre  o  Salto  e  o  Calháo,  e  ajudar  a  da  estrada 
de  Alcobaça,  assim  como  ao  mesmo  trabalho  da 
abertura  ;  sendo  ao  mesmo  tempo  um  meio  de 
animar  c  fazer  progredir  o  commercio  e  popu- 
lação d'aquelle  arraial. 

Eis  em  resumo  o  que  me  parcceo  mais  sim- 
ples e  ao  mesmo  tempo  mais  profícuo  no  intuito 
de  melhorar  a  sorte  futura  de  nossas  povoações 
do  Sul.  V.  Ex.  concebe  que  cada  uma  doestas 
indicações  he  susceptivel  de  muito  desenvolvi- 
mento; mas,  não  tendo  ellas  por  fim  senão  faze- 
rem o  complemento  ás  minhas  informações,  ajun- 
tando-lhes  alguma  claresa,  julguei  que  serião  aqui 
mal  cabidos  quaesquer  pormenores;  muito  mais 
quando  estou  persuadido  que  á  illustração  d'aquel- 
les  que  têm  de  providenciar  sobre  os  interesses 
materiaes  da  Província,  só  faltão  os  dados  do 
problema  dos  melhoramentos  a  se  fazerem,  para 
chegar  á  sua  justa  solução. 

Deus  guarde  a  V.  Ex. 

Bahia,    i o  de  Fevereiro  de  i85i. 

111."'^  e  Ex.""*  Sr.  Conselheiro  Presidente  da 
Província. 

Innoccncio  Velloso  Pederneiras^ 

Capitão  do  I.  C.  de  Engenheiros,  Chefe  da 
Commissão  de  Exploração  do  Mucury  e  Gequi- 
tinhonha. 


A  egreja  da  Ajuda 


Foi  esta  a  primeira  egreja  edificada  na  cidade. 

O  chronista  Simão  de  Vasconcellos,  no  seu 
primeiro  livro  da  chronica  da  Companhia  de 
Jesus,  pagina  22,  ?i  46  conta  que  no  mez  de  Abril 
de  1549,  o  governador,  que  então  era  Thomc  de 
Souza,  mudou-se  para  o  sitio  que  tinha  demar- 
cado e  que  distava  mais  ou  menos  meia  légua  da 
ViUa  Velha. 

Ahi  fundou  a  cidade  do  Salvador  e  foi  forca 
viudarem-se  também  os  religiosos  c  no  mesmo  tempo 
em  que  os  moradores  edificavam  casas,  fazer  as 
^uas  e  egreja,  no  togar  ofide  hoje  se  vê  a  de  Nossd 
Senhora  da  Àjiida,  invocação  que  então  lhe  puzc- 
ram  e  foi  a  primeira  que  no  Brazil  teve  a  Cojn- 
pankia. 

Sem  outros  recursos  mais  do  que  os  próprios- 
construiram  elles  as  casas  e  o  templo  com  as  pró- 
prias mãos,  pois  ainda  que  quizessem  os  morado- 
res ajudal-os  não  podiam  pela  obrigação  em  quj 
estavam  não  só  de  construírem  as  casas,  alinha- 
rem as  ruas,  como  também  de  cercarem  a  cidade 
para  a  defeza  contra  o  gentio. 

As  casas  e  o  templo  primitivo  eram  de  taipa, 
cobertos  de  palha,  por  isso  iam  elles  ao  mato  que 
lhes  ficava  perto,  cortavam  madeiras  e  condu- 
ziam-n'as  ás  costas;  cavavam  o  barro  para  as 
paredes,  e  como  não  tinham  meios  para  o  sus- 
tento da  vida  eram  forçados  a  pedir  de  porta  em 
porta  o  que  haviam   de  comer  e   tiravam  muito 


144 


pouco  por  causa  da  grande  escassez  que  então 
havia. 

A  lenha  para  o  fogo  e  a  agua  para  as  neces- 
sidades da  vida  iam  elles  mesmos  buscal-as  para 
o  que  andavam  á  ligeira  em  corpo;  que  não  havia 
entre  tanta  pobreza  tratar  de  veste  ou  maniéo;  e 
talvez  nem  sapatos  nem  cafnisa. 

Feitas  as  casas  c  o  templo,  principiaram  os 
exercicios  espirituaes  até  que,  chegando  no  dia  i." 
de  Janeiro  de  1 552  o  Bispo  D.  Pedro  Fernandes 
Sardinha  com  o  seu  cabido,  lhe  entregaram  as 
casas  e  a  egreja  de  Nossa  Senhora  da  Ajuda,  que 
com  tantas  fadigas  tinham  construido  e  foram 
assentar  nova  habitação  fora  da  cidade  sobre  um 
monte  que  era  appellidado  Mo7ile  Calcário,  onde 
hoje  se  vê  a  egreja  e  convento  do  Carmo. 

Ahi  construiram  osjesuitas  um  pequeno  hos- 
picio  (diz  Accioli)  junto  á  pequena  ermida  que 
já  existia  sob  a  invocação  ae  Nossa  Senhora  da 
Penha. 

O  receio  continuo  de  serem  atacados  pelos 
Índios  os  obrigou  a  se  conservarem  dentro  dos 
muros  da  cidade;  edificando  outro  hospicio  no 
mesmo  sitio  onde  mais  tarde  levantaram  o  sum- 
ptuoso templo  e  o  grande  Collegio  da  Companhia 
de  Jesus  em  frente  á  esplanada  que  se  ficou 
chamando  Terreiro  de  Jems^  e  onde  se  acha 
actualmente  a   Sé  Archicpiscopal. 

Convém  notar  aqui  que  a  nomeação  e  confir- 
mação do  Bispo  preceaeu  de  quatro  annos  a 
creação  do  bispado  I 

D.  Pedro  Fernandes  Sardinha,  sendo  confir- 
mado Bispo  em  i55i,  tomou  posse  no  anno 
seguinte,  e  a  bulia — Super  spccula  vnUtavtis  Eccle- 
site  —  do  pontifice  Júlio  III,  creando,  a  instancias 
de  el-rei  D.  João  III,  o  primeiro  bispado  do 
Brazil  —  só  foi  expedida  em  i555. 

Sem  embargo,  esta  c  a  verdade  deste  facto 
e  suas  circumstancias,    diz   monsenhor  Pizarro, 


14Õ 


em  suas    memorias,  que   nunca    poude  obter  a 
menor  noticia  que  destruisse  as  suas  conjecturas. 

Mas  voltemos  á  egreja  de  Nossa  Senhora  da 
Ajuda. 

Gabriel  Soares  em  seu  «  Roteiro  do  Brazil  » 
(i57i  —  iSyS)  publicado  pelo  «Instituto  Histórico», 
tomo  XV  da  Revista,  pagina  122,  capitulo  XI,  diz 
fallando  da  cidade  do  Salvador. 

crTornados  á  praça,  pondo  o  rosto  no  sul, 
corre  outra  rua  muito  povoada  de  moradores, 
no  cabo  da  qual  está  uma  ermida  de  Santa  Luzia, 
onde  está  uma  estancia  com  artilharia.  E  ao 
longo  desta  rua  lhe  fica  outra  muito  bem  assen- 
tada também  toda  povoada  de  lojas,  e  no  topo 
d'ella  está  uma  formosa  egreja  de  Nossa  Senhora 
da  Ajuda  com  sua  capella  de  abobada;  no  qual 
siiio,  no  principio  desta  cidade  esteve  a  Sé.» 

D^ahi  se  conclue  que  cm  breve  tempo  o  Bispo 
eos  moradores  construíram  um  templo  de  pedra 
e  cal  no  mesmo  logar  e  com  a  mesma  forma  que 
o  primitivo  templo  de  palha  e  taipa. 

Faz-se  necessária  a^ui  uma  pequena  expli- 
cação. 

A  ermida  de  Santa  Luzia,  diz  Mello  Moraes 
na  sua  chronica  Geral  do  Brazil,  foi  construída 
nos  primeiros  tempos  da  fundação  da  cidade  da 
Bahia  e  achava-se  no  logar  do  actual  theatro  S.  João. 

Por  alvará  de  14  de  Janeiro  1807  foi  incor- 
porada a  egreja  da  Ajuda  aos  próprios  nacionaes 
e  por  decreto  de  10  de  Fevereiro  de  1827  foi 
doada  á  irmandade  do  Senhor  dos  Passos,  doação 
confirmada  pela  resolução  da  Assemblea  Geral 
Legislativa  n.  5 19  de  12  de  Fevereiro  do  mesmo 
anno,  e  Carta  Imperial  de  20  de  Fevereiro  de 
i85o. 

EXTERIOR 

O  templo  tem  a  forma  triangular  e  acha-se 
entre  as  ruas:  do  Collegio,  de  S.  Francisco,  (esta 

19 


146 


rua  foi  chamada  do  Padre  Gonçalo  e  depois    do 
Pão  de  Lot)  ea  praça  da  Ajuda. 

E'  uma  egreja  de  gosto  antigo  com  porta 
principal  e  duas  lateraes,  (antigamente  eram  duas 
janellas  guarnecidas  de  balaustres  de  ferro)  três 
janellas  envidraçadas  no  coro  e  uma  guarnição 
em  forma  de  S  *S  itálicos  que  de  cada  lado  cami- 
nham para  cima  da  soleira  do  telhado  até  pren- 
derem a  cruz. 

Ao  lado  esquerdo   existe  a  pequena  torre  for- 
mada por   uma   grossa    parede  onde   estão  dois 
sinos,    com   um   frontispício    ornado    com  dois 
iS  S  itálicos  prendendo  um.^  cruz. 

Em  continuação  á  parede  exterior  está  a  casa 
do  fiel  com  porta  de  entrada  e  janella  com  grade 
de  ferro  e  mais  duas  correspondentes  no  pavi- 
mento superior,  que  se  communica  com  o  coro. 

A  face  do  templo  que  dá  para  a  rua  de  S. 
Francisco  tem  seis  óculos  que  correspondem  a 
outras  tantas  janellas  envidraçadas  do  pavimento 
superior ;  do  lado  da  rua  ao  Collegio  existem 
três  janellas  envidraçadas,  duas  pequenas  com 
varões  de  ferro,  uma' alta  porta  com  arco  e  uma 
janella  com  varões  de  ferro. 

INTERIOR 

Tem  a  egreja  da  Ajuda  no  seu  interior  uma 
capella,  funda,  do  lado  esquerdo  de  quem  entra, 
onde  está  a  Imagem   do  Senhor  dos  Passos. 

Esta  imagem  á  uma  obra  prima,  de  tamanho 
natural  e  perfeitissima,  ricamente  ornada,  e  o 
andor  é  todo  chapeado  de  prata. 

Dizem  que  antigamente  pertencia  esta  imagem 
ao  Convento  dos  Religiosos  do  Carmo,  a  qual 
fora  depositada  na  egreja  da  Ajuda  em  conse- 
quência dos  concertos  que  estavam  fazendo  na- 
quelle  Convento, 


147 


Não  querendo  a  irmandade  dos  Passos  restí- 
tuil-a  houve  renhidas  contendas  e  demanda  entre 
os  religiosos  e  a  dita  irmandade. 

E'  tradição  antiga  que,  querendo  uma  vez  os 
frades  do  Carmo  apoaerar-se  da  imagem  quando 
a  procissão  passava  pela  Baixa  dos  Sapateiros, 
apparecera  uma  nuvem  tão  serrada  de  mosquitos 
entre  a  procissão  e  os  frades  que  estes,  reconhe- 
cendo o  milagre,  desistiram  da  empreza  e  deixa- 
ram a  procissão  seguir. 

Perto  da  sagrada  imagem  existe  um  cravo,  que 
dizem  veio  de  Roma,  com  o  mesmo  tamanho  e 
forma  dos  que  os  Phariseus  cravaram  nas  mãos  e 
pés  do  Redemptor. 

Em  seguida  está  o  púlpito,  porém  não  é  o 
mesmo  onde  o  grande  padre  António  Vieira  pre- 
gou o  inimitável  sermão  contra  as  armas  da 
Hollanda. 

Junto  ao  arco  do  cruzeiro  existem  dois  alta- 
res que  antigamente  não  estavam  nos  cantos, 
mas  sim  ao  lado. 

No  altar  do  lado  esquerdo  está  a  imagem  do 
Senhor  da  Redempção.  Esta  imagem  é  antiga  e 
do  primitivo  templo!  Embaixo  e  dentro  do  nicho 
se  venera  a  imagem  de  Nossa  Senhora  da  Boa 
Nova. 

O  altar  do  lado  direito  pertence  ao  Senhor 
Bom  Jesus  dos  Milagres. 

Esteve  esta  imagem  sempre  na  egreja  da  Ajuda 
e  em  1824  foi  entregue  á  irmandade  do  Senhor 
dos  Passos. 

Em  1842,  tendo  sido  reformado  o  compro- 
misso d'esta  irmandade,  ficou  ella  na  obrigação 
de  velar  na  conservação  das  imagens,  fazer  inven- 
tariar suas  alfaias,  finalmente  tomar  conhecimento 
de  todas  as  esmolas. 

A  imagem  do  Senhor  dos  Milagres  era  uma 
das  collocadas  na  egreja  da  Ajuda,  que  não  tinha 
confraria,  e,  sendo  o  Tenente-Coronel  José  Pereira 


148 


de  Castro  ó  devoto  que  guardava  as  alfaias  doesta 
imagem,  a  irmandade  houve  de  exigir  que  elle 
desse  a  inventario  as  jóias  e  alfaias  do  Senhor 
dos  Milagres,  ainda  que  de  novo  as  levasse  em 
guarda. 

Não  c^uiz  o  tenente-coronel  prestar-se  a  fazer 
inventario,  indispoz-se  com  a  irmandade  e  desde 
então  concedeu  o  projecto  de  privar  a  egreja  da 
Ajuda  da  dita  imagem. 

N'este  entretanto  succedeu  que  a  irmandade 
mandasse  fazer  de  novo  os  altares  lateraes,  em 
um  dos  quaes  achava-se  a  imagem  do  Senhor 
dos  Milagres,  e  portanto  foi  preciso  retiral-a. 
Aproveitando-se  a  esta  occurrencia,  o  tenente- 
coronel  pediu  em  confiança  a  imagem  a  pretexto 
de  mandal-a  incarnar;  e  o  procurador,  não  obs- 
tante a  repugnância  da  mesa,  lh'a  confiou  sob 
palavra  de  qbe,  concluida  a  obra,  regressaria  para 
o  seu  antigo  altar. 

Recebeu  elle  a  imagem ;  mas,  acabada  a  obra, 
rogado  e  instado  para  restituil-a,  com  abuso  da 
boa  fé  e  confiança  do  procurador,  negou-se  ab- 
solutamente á  restituição,  que  veio  a  ter  logar 
Guando  o  chefe  de  p:)íicia,  por  queixa  da  irman- 
dade e  mais  ainda  pelo  alvoroço  dos  devotos  e 
clamor  publico,  ordenou  que  restituisse  a  ima- 
gem, o  que  fez  o  tenente  coronel,  porém  guar- 
dando as  alfaias  e  entregando  a  imagem  comple- 
tamente nua. 

No  altar-mór  está  coUocada  a  imagem  de 
Nossa  Senhora  da  Ajuda,  que  é  a  do  prinieiro 
templo:  em  um  nicho  ao  lado  direito  está  a  ima- 
gem de   Santo  António  e  a  esquerda  S.  Gonçalo. 

Por  baixo  do  altar-mór  está  a  imagem  do  Se- 
nhor Morto,  de  estatura  maior  que  a  do  homem 
c  de  rara  perfeição. 

Existem  oito  tribunas,  sendo  seis  no  corpo 
da  egreja  e  duas  no  altar-mór. 


149 


O  interior  do  templo  está  todo  reformado;  da 
antiga  Sé  existem  os  azulejos,  a  porta  da  frente, 
a  do  presbyterio,  os  dois  contissionarios,  a  lâm- 
pada de  prata  e  a  pia  ;  acima  doesta  encontra-se 
a  seguinte  inscripção : 


J    H  S 

1579 


que   quer  dizer  —  Jesus  Homlnis  Salvator  —  dis- 
tinctivoou  brasão  d'armas  dos  jesuitas. 

Por  baixo  do  ladrilho  existem  varias  sepultu- 
ras, porém  achamos  poucas  inscripções;  a  mais 
notável  é  a  que  se  acha  na  capella-mór,  onde 
se  lê  : 

Sepultura  do  Coronel  Domingos  José  de  Carvalho 
e  seus  parentes  que  esta  irmandade  lhe  designou 
pelos  muitos  benefícios  que  sempre  lhe  fez  seu  bem- 
f citar y  actual  anno  de  1196, 

Os  quadros  que  representam  a  paixão  de 
Jesus  Christo  e  que  adornam  as  paredes  da  egreja 
são  do  pintor  J.  Rodrigues  Neves  (i855);  os  do 
primitivo  templo  estragaram-se  completamente. 

O  corredor  e  o  forro  da  sacristia  são  os  mes- 
mos do  templo  primitivo ;  os  ornamentos  d'esta 
parte  da  egreja  foram  feitos  com  as  taboas  do 
forro  da  egreja. 

O  lavatório,  obra  prima  de  mármore,  é  antigo 
e  pertenceu  ao  templo  primitivo. 

Nada  mais  encontramos  digno  de  menção 
sobre  esta  egreja  que  muitos  annos  serviu  de 
matriz. 


A.  I.  DE  Oliveira  Rocha. 


As  abelhas  soeiaes  iDdigp.nas  do  Brazíl 

Illm.  e  Exm.  Snr.  Presidente  do  Instituto 
Geographico  e  Histórico  da  Bahia. 

Venho  de  concluir  um  estudo  que  comecei, 
ha  22  annos,  no  Rio  Grande  do  Sul,  sobre  a 
biologia  das  abelhas  da  familia  das  meliponidas, 
assumpto  até  agora  insufficientemente  conhecido, 

Os  meus  estudos  se  referem,  especialmente, 
ás  espécies  do  estado  de  S.  Paulo,  e  o  fim  destas 
poucas  linhas  é  ver  si,  por  intermédio  do  «Instituto 
Geographico  e  Histórico  da  Bahia»,  consigo  arran- 
jar um  ou  outro  coilaborador,  no  interior  deste 
e  de  outros  estados,  afim  de  completar  as  minhas 
investigações. 

O  motivo  deste  meu  proceder  é  especialmente 
o  facto  de  ter  sido  publicado  um  excellente  artigo, 
sobre  as  abelhas  do  Rio  de  Janeiro,  pelo  incan- 
sável naturalista,  o  sábio  Dr.  Theodoro  Peckolt 
artigo  que,  entretanto,  necessita  modificações,  na 
parte  systematica,  isto  é,  na  determinação  das 
espécies  classificadas. 

Não  obstante  a  competência  do  Sr.  F.  Smith,  a 
quem  o  Sr.  Dr.  Peckolt  mandou  as  abelhas  cor- 
rigidas, deram-se  numerosos  enganos,  de  modo 
que  a  abelha  que  Peckolt  denominou — jatahy — , 
cm  verdade,  é  a  mandasaia,  e  vice-versa. 

Já  comecei  a  estudar  as  abelhas  do  estado  do 
Rio  de  Janeiro,  mandando  o  naturalista  viajante 
deste  museu,  Sr.  Ernesto  Garbe,  a  Petrópolis, 
onde,  auxiliado  pelo  illustre  entomologista  Sr. 
Joseph  G.  Foetterle,  conseguiu  reunir  singular 
collecção  de  abelhas,  trazendo  vivos  diversos 
ninhos. 

Sendo  grande,  entretanto,  o  numero  das  espé- 
cies que  não  conheço,  preciso  começar  novamente 
com  o  assumpto,  o*  que  será  possível  somente  por 


152 


intermédio  de  pessoas  que  liguem  interesse  á  na- 
tureza do  paiz  e  que  não  só  me  forneçam  as 
abelhas,  mas  também  informações  sobre  o  seu 
modo  de  viver  e  os  nomes  triviaes  sob  os  quaes 
sejam  conhecidas. 

Desejo  de  cada  espécie  5o  ou  6o  abelhas,  con- 
servadas em  um  vidro  com  álcool,  como  também 
a  porta  do  ninho  ou  o  pedaço  do  tronco  da  arvore 
que  o  contiver.  Só  os  ninhos  construidos  livres, 
como  os  de  Iraxim,  Irapuã,  Cupira,  etc,  é  ne- 
cessário mandal-os  completos,  guardando-os  num 
sacco  acondicionado  em  um  caixão. 

Excusado  será  dizer  que  me  otfereço  a  res- 
tituir as  respectivas  despezas  de  transporte,   etc. 

Estas  abelhas  pertencem  a  dois  géneros.  O  pri- 
meiro delles,  Meljpona,  encerra  as  espécies  maio- 
res e  mais  bonitas,  as  que  são  de  maior  utilidade 
e  mansas.  As  azas  têm  o  comprimento  do  abdó- 
men; a  entrada  do  ninho  é  feita  de  barro,  como 
também  o  batumen,  o  septo,  que  forma  em  baixo 
e  cm  cima  o  limite  do  ninho,  separando-o  do 
resto  da  cavidade  da  arvore. 

Pertencem  a  este  género  as  abelhas  denomina- 
das mandasaia,  gurupii,  mandorim,  tujuva,  urussú 
e  outras. 

Quanto  ao  segundo  género,  denominado  Tri- 
gona,  contrasta  singularmente  com  os  precedentes, 
pela  grande  variabilidade  dos  seus  costumes  c 
ninhos. 

Certo  numero  de  espécies  constróem  os  seus 
ninhos  ao  ar  livre,  como  já  anteriormente  tenho 
explicado,  sendo,  entretanto,  as  respectivas  es- 
pécies do  Rio  de  Janeiro,  Bahia  e  outros  estados 
pouco  conhecidas,  como  por  exemplo:  as  que  são 
denominadas — xupc  ou  jatahy,  bocca  de  sapo  e 
a   tubi,  ou  jatahy  da  terra. 

Parece-mc  que  ha  algumas  espécies,  entre  as 
que  constróem  os  ninhos  no  chão,  que  fazem  a 
casca  do  ninho  de  barro,  como  a  —  cupira  e  a 
mombuca  —  mirim. 


153 


Do  ninho  desta  ultima,  diz  Peckolt,  que  das 
bolas  de  argilla  que  tem  lateralmente  a  sua  entrada 
se  acham,  ás  vezes,  três  ou  quatro,  uma  em  baixo 
da  outra,  sendo  provável  que  cada  uma  represente 
uma  colónia  independente  e  munida  de  ramha,  ou 
abelha  mestra.  Seria-me  summamente  interes- 
sante examinar  estes  ninhos,  devendo  para  fins 
de  remessa  cada  bola  ser  embrulhada  separada- 
mente. 

O  Dr.  Peckolt  publica  ainda  os  seguintes  no- 
mes de  abelhas,  que  não  conseguiu  obter :  mar- 
melada branca — ,  póra — ,  mondaquin, — sete  por- 
tas— ,  iratin — ,  cabiguará — ,  preguiçosa — ,  bate 
chapéo — ,  bejui  ou  migui, — tubi  bravo  ou  bocca 
rasa — ,  bocca  de  barro — ,  atakira — ,  oariti — , 
coniára  e  abelha  de  cachorro. 

E'  provável,  entretanto,  que  entre  as  abelhas 
examinadas  por  Peckolt  haja  varias,  que  não  se- 
jam exactamente  denominadas;  assim  por  exemplo, 
julgo  singular  que  a  abelha  tatuira  seja  mansa, 
quando  o  nome-  mel  de  fogo  — faz  suppor  que  a 
abelha  seja  a  me:ima  que  geralmente  é  conhecida 
sob  o  nome  de  caga-fogo. 

Um  grupo  interessante  de  abelhas  é  o  das  que 
assaltam  outros  ninhos,  matando  as  abelhas  e  rou- 
bando o  mel. 

No  estado  de  S.  Paulo  conheço  até  agora 
destas  abelhas  h'tndidas  as  seguintes  :  tujumirim 
(Trigona  dorsalis)  que  constróe  na  porta  um  funil 
largo  de  cera  molle;  tubuna  (Trigona  bipunctata) 
cujo  tubo  de  entrada,  em  forma  de  funil,  feito 
de  massa  dura  e  escura,  attinge  o  comprimento 
de  i5  a  20  centim.;  abelha  limão  (Trigona  limas) 
cujo  tubo  colossal  é  por  fora  munido  de  numero- 
sas e  pequenas  protuberâncias. 

Tenho  guardado  no  museu  um  destes  tubos 
de  tujumirim,  que  c  collocado  em  cima  da  porta 
caracteristica  de  uma   mandasaia,  prova  de  que 


1Õ4 


esta  abelha  matou  a  mandasaia  e  tomou  conta  da 
sua  casa. 

Outro  facto  singular,  por  mim  observado,  é 
que  a  Trigona  fulviventris,  denominada  aqui — 
mel  de  cachorro,  vive  em  uma  singular  symbiose 
com  Termitidas,  sendo  o  ninho  da  abelha  por  fora 
coberto  de  cupim. 

Provavelmente  o  mesmo  facto  sedará  também 
no  estado  da  Bahia.  Observo,  entretanto,  que  não 
conheço  o  nome  indígena  desta  abelha,  que,  al- 
gum tempo,  suppuz  ser  o  de — cupira. 

Mais  tarde  verifiquei  que  a  cupira  em  S.  Paulo 
constróe  o  seu  ninho  em  arbustos,  sendo  elle  no- 
tável pela  larga  abertura  de  entrada,  feita  de  barro, 
em  forma  de  uma  bocca  aberta.  Estes  ninhos 
assemelham-se  aos  cupins,  o  que  justifica  perfei- 
tamente o  nome  indígena  de  cupira,  ou  mel  de 
cupim. 

Falta-me  aqui  mais  minuciosidades,  mas  não 
posso  deixar  de  mencionar,  a  descoberta  de 
que  as  rainhas  só  no  género  Trigona  nascem  em 
cellulas  reaes,  grandes  como  as  do  género  Apis, 
quando  no  género  Melipona  se  desenvolvem  em 
cellulas  ordinárias,  de  modo  que  a  rainha  nova  é 
do  mesmo  tamanho  ou  até  um  pouco  menor  que 
a  obreira. 

Este  facto  é  tão  pouco  esperado  que  já  causou 
graves  erros,  induzmdo,  por  exemplo,  o  grande 
mestre  da  investigação  biológica,  Fritz  MuUer,  a 
suppòr  que  essas  rainhas  novas  sejam  abelhas 
parasitas. 

Desejo  mencionar,  afinal,  que  um  pequeno 
grupo  de  espécies  de  Trigona  (mosquito  jatahy, 
etc.  )  constroem  á  porta  um  pequeno  tubo  de 
cera  branca,  que  de  noite  fecham. 

Não  duvido  que  muito  vale  estender  estes  es- 
tudos também  sobre  outros  estados  do  Brasil,  não 
só  porque  serão  descobertos  muitos  factos  novos, 
mas   também    porque  será    possível    successiva- 


155 


mente  reunir  pequenos  grupos  concordantes  em 
sua  biologia,  afim  de  dar  uma  base  solida  á  dis- 
posição systematica  das  numerosas  espécies  em 
parte  muito  semelhantes  entre  si. 

E'  esta  a  razão  por  que  os  numerosos  dados 
constantes  da  literatura  não  têm  valor,  sendo  este 
o  motivo  por  que,  por  minha  parte,  desejo  todas 
as  informações,  acompanhadas  das  abelhas  a  que 
se  referirem. 

Deixando  de  tratar  nesta  occasião  de  minhas 
experiências  na  apicultura  das  meliponidas,  es- 
pero que  me  será  dado  voltar  novamente  ao  assum- 
pto, esclarecendo-o  por  meio  de  novas  e  interes- 
santes observações. 

Quanto  ás  espécies  da  Bahia,  já  varias  vezes 
algumas  delias  foram  remettidas  á  Europa.  Era 
especialmente  um  apicultor  intelligente,  francez, 
Sr.  Drory,  em  Bordeaux,  que,  por  algum  tempo, 
creou  algumas  espécies  delias,  especialmente  a 
urussú,  e  publicou  diversas  noticias  sobre  as  suas 
observações.  Estas,  entretanto,  precisam  de  novo 
exame  visto  que  as  espécies  observadas  em  parte 
não  foram  exactamente  classificadas. 

Seria,  nestas  condições,  muito  conveniente 
examinar  de  novo  e  de  modo  mais  completo,  as 
abelhas  sociaes  do  estado  da  Bahia,  sempre  com 
referencia  aos  seus  nomes  indígenas  e  ao  seu  valor 
económico. 

S.  Paulo,  8-9-902. 

H.  VON  IHERING. 


i  Batia  ia  Saiala  do  Iiprio 


^cb  o  titulo  «A  Bahia  no  Senado  do  Império» 
o  nosso  digno  consócio  o  Exm.  Sr.  Barão 
de  S.  Francisco,  enviou  para  o  Diário  da  Bahia 
minuciosa  noticia,  que  pedimos  vénia  para  trans- 
crever, julgando-a  de  mteresse  histórico. 


Illustre  sr.  dr.  redactor — Apropinquando-se 
as  eleições  de  um  senador  e  22  deputados  federaes, 
as  quaes  se  vão  proceder  no  dia  28  de  dezembro 
próximo;  e  a  do  terço  do  Senado,  —  e  dos  42 
deputados  estaduaes,'  que  se  deverá  realisar  na 
I'  dominga  de  novembro,  parece-me  de  oppor- 
tunidade  relembrar  á  Bahia,  os  nomes  illuslres 
dos  que  muito  dignamente  a  representaram  no 
Senado  do  Império  desde  sua  primeira  organi- 
sação  que  foi  vasada  no  decreto  do  Senhor  D. 
Pedro  1,  de  22  de  Janeiro  de  1826. 

Nessa  quadra  inolvidável,  foram  eleitos  e 
escolhidos  Bahianos,  que,  se  pôde  afíirmar,  figu- 
raram com  o  maior  lustre  no  seio  da  nascente 
corporação,   que  constituio-se  com  5o  pares,  e  a 

a  uai  mereceu  ser  denominada  areópago  politico 
o  Brasil. 
Como  se  fez  na  terceira  Republica  Francesa 
em  i885,  erga-se  entre  nós  um  Pantheon  consa- 
grado ao  culto  dos  beneméritos  da  Pátria,  que 
por  seu  notável  civismo,  e  pelos  bons  princípios 
em  que  se  inspiraram,  souberam,  nas  ditferentes 
crises  por  que  passámos,  assignalar-se  gloriosa- 
mente, assim  na  imprensa,  como,  e  especialmente, 
na  tribuna  do  que  nos  dão  hoje  fiel  testemunho 


158 


os  preciosos  annaes  do  ex-parlamento  brasileiro, 
que  tanto  praz  compulsar  aos  que  comprehendem 
a  importância  e  a  necessidade  do  conhecimento 
da  historia  nacional. 

Rogo,  pois,  á  illustre  redacção  do  Diário  a 
inserção  em  suas  columnas  das*  notas  aue,  com 
indisivel  prazer,  lhe  envio.  — Bahia,  20  ae  setem- 
bro de  iqo2.  —  Barão  de  S.  Francisco. 


A    BAHIA   NO    SENADO  DO   IMPÉRIO 

Tendo-se,  nas  varias  provincias  do  ex-Imperio, 
feito  as  eleições  senatorias  conjunctamente  para 
todas  as  cadeiras  que,  segundo  o  numero  de 
seus  deputados,  a  cada  uma  delias  tocaria  na 
futura  corporação  vitalícia,  e,  na  forma  da  Consti- 
tuição de  25  de  março  de  1823,  por  listas  de  3 
nomes  sobre  cada  logar,  por  decreto  de  22  de 
janeiro  de  1826,  o  senhor  d.  Pedro  I  fez  a  esco- 
lha dos  que  deveriam  definitivamente  formar  o 
Senado. 

Pela  antiga  Província  hoje  Estado  da  Bahia, 
foram  nomeados  dentre  os  18  nomes  apresentados 
á  escolha  imperial  os  seguintes: 

Francisco  Carneiro  de  Campos,  José  Joaquim 
Carneiro  de  Campos  (depois  ^Marquez  de  Cara- 
vellas),  Luiz  José  de  Carvalho  e  Mello  (depois 
visconde  da  Cachoeira),  José  da  Silva  Lisboa 
(depois  visconde  de  Cayrú),  Domingos  Borges 
de  Barros  (depois  visconde  da  Pedra  Branca)  e 
Clemente  Ferreira  França  (depois  marquez  de  Na- 
zareth);  os  outros  doze  cidadãos,  cujos  nomes 
entraram  na  lista  para  perfazer  o  total  dos  dezoi- 
to eleitos  foram:  o  marquez  de  Santo  Amaro, 
Manoel  Ferreira  da  Camará  Bittencourt  Sá,  Dr. 
António  Ferreira  França,  dezembargadpr  António 
Augusto  da  Silva,  Alexandre  Gomes  Ferrão, 
capitão-mór  Joaquim  Ignacio  de  Siqueira  Bulcão 


159 


(depois  I**  barão  de  S.  Francisco),  dezembargador 
António  da  Silva  Telles,  padre  Francisco  Agos- 
tinho Gomes,  commendador  Pedro  Rodrigues 
Bandeira,  brigadeiro  Domingos  Alves  Branco 
Moniz  Barretto,  Pedro  Marcos  António  de  Souza 
(depois  bispo  do  Maranhão)  e  cónego  José  Ribeiro 
Soares  da  Rocha. 

Por  essa  occasião,  succedendo  que  diversos 
cidadãos,  que  entraram  na  lista  da  Bahia,  fossem 
também  contemplados  nas  de  outras  Provincias, 
foram  escolhidos  por  Pernambuco  o  marquez  de 
Inhambupe,  António  Luiz  Pereira  da  Cunha; 
por  Alagoas,  o  marquez  de  Barbacena,  que  era 
filho  de  Minas  Geraes,  Felisberto  Caldeira  Brant 
Pontes;  por  Pernambuco  o  magistrado  António 
José  Duarte  de  Araújo  Gondim ;  e  pelo  Pará  o 
barão  de  Itapoan — José  Joaquim  Nabuco  de  Araújo. 

Dos  escolhidos  da  Bahia,  o  primeiro  que  fal- 
leceu  foi  o  visconde  de  Cachoeira — Luiz  José  de 
Carvalho  e  Mello,  á  6  de  junho  do  mesmo  anno, 
não  tendo  mesmo  chegado  a  tomar  assento  no 
Senado. 

Segui ram-se-lhe  no  tumulo,  o  marquez  de 
Kazareth,  em  ii  de  março  de  1827.  O  visconde 
de  Cayrú  em  20  de  agosto  de  i835.  O  marquez 
de  Caravellas  em  8  de  setembro  de  i836,  Fran- 
cisco Carneiro  de  Campos,  em  8  de  dezembro 
<le  1842.  O  visconde  da  Pedra  Branca,  que  fal- 
leceu  em  20  de  março  de  i855,  foi  o  ultimo  dos 
senadores  bahianos  da  primitiva  organisação  do 
Senado. 


A  primeira  cadeira,  a  do  marquez  de  Cara- 
A^ellas,  teve  apenas  dois  successores:  Manoel  Alves 
Branco,  depois  visconde  de  Caravellas,  nomeado 
em  i3  de  junho  de  iSSy  e  fallecido  cm  i3  de 
julho  de  i855;  e  João  Maurício  Wanderley, 
depois  barão  de  Cotegipe,   nomeado   em    1°   de 


160 


maio  de  i856  e  fallecido  em  i3  de  Fevereiro 
de    1887. 

A  segunda  cadeira,  a  do  visconde  da  Cachoeira, 
que,  como  dissemos,  não  foi  por  elle  occupada, 
teve  por  successor  o  magistrado  Luiz  Joaquim 
duque  Estrada  Furtado  de  Mendonça,  nomeado 
em  II  de  maio  de  1827  e  fallecido  em  28  de 
novembro  de  1834;  por  Manoel  dos  Santos  Mar- 
tins Vallasques,  desde  18  de  agosto  de  i835  a 
21  de  novembro  de  1862;  por  Zacharias  de  Góes 
e  Vasconcellos,  de  10  de  fevereiro  de  1864  ^  28 
de  dezembro  de  1877;  por  Manoel  Pinto  de  Souza 
Dantas,  nomeado  em  19  de  outubro  de  1878  e 
fallecido  em  29  de  janeiro  de  1894. 

A  terceira  cadeira,  a  do  marquez  de  Nazareth, 
vaga  em  1829,  foi  occupada  pelo  visconde  do  Rio 
Vermelho,  de  3  de  novembro  de  1827  a  i3  de 
janeiro  de  i85o;  pelo  visconde  de  S.  Lourenço, 
de  i"  de  maio  de  i85i  a  10  de  setembro  de  1872; 
por  João  José  de  Oliveira  Junqueira,  de  i**  de 
março  de  1873  a  8  de  novembro  de  1887;  linal- 
mente  pelo  barão  de  Pereira  Franco  que,  tendo 
sido  nomeado  a  3o  de  abril  de  1888,  foi  seu 
proprietário  até  a  queda  do  Império,  fallecendo 
a  20  de  janeiro  do  corrente  anno  de  1902. 

A  quarta  cadeira,  a  do  visconde  di  Cayrii, 
fallecido  em  i835,  tem  os  seguintes  occupadores: 
Cassiano  Ksperidião  de  Mello  e  Mattos,  de  23 
de  maio  de  i836  a  5  de  julho  de  1857;  José 
Thomaz  Nabuco  de  Araújo,  de  2:5  dj  maio  de 
i858  a  19  de  março  de  1878;  e  Pedro  Leão 
Velloso,  nomeado  em  19  de  outubro  de  1878, 
ao  qual  pertenceu  até  a  queda  do  Império. 

Falleceu  este  senador  em  2  de  Março  do 
corrente  anno. 

Para  a  quinta  cadeira,  a  do  Visconde  da  Pedra 
Branca,  fallecido  em  i855,  foram  nomeados:  em 
r  de  Maio  de  i85(5  Angelo  Moniz  da  Silva  Ferraz, 
Barão  de  Uruguayana,  fallecido  em  19  de  Janeiro 


161 


de  1867;  e  José  António  Saraiva,  em  12  de  Ou- 
tubro ae  1867.  E^^^  4^^  sobreviveu  ao  império, 
falleceu  a  21  de  Julho  de  1895. 

A  sexta  cadeira,  a  de  P>ancisco  Carneiro  de 
Campos,  fallecido  em  1842,  sucessivamente  foi 
occupada  por  José  Carlos  Pereira  de  Almeida 
Torres,  Visconde  de  Macahé,  de  14  de  Junho  de 
1843  a  25  de  Abril  de  i85o;  por  Francisco  Gê 
Açayaba  de  Montesuma,  depois  Visconde  de 
Gequitinhonha,  nomeado  em  1**  de  Maio  de  i85i 
e  fallecido  em  i3  de  Fevereiro  de  1870,  e  por 
Joaquim  Jeronymo  Fernandes  da  Cunha,  no- 
meado em  4  de  Abril   de    1871. 

A  sétima  cadeira  nova,  creada  em  Abril  de 
1837  foi  para  ella  nomeado  senador  por  carta 
imperial  de  1 3  de  Junho  do  mesmo  anno  o  ma- 
gistrado Francisco  de  Souza  Paraizo,  que  a  occu- 
pou  a  12  de  Maio  de  1843;  por  Manoel  António 
Galvão,  desde  22  de  Fevereiro  de  1844  até  24 
de  Março  de  1859  ;  e,  desde  i^  de  Maio  de  i85i, 
pelo  Marquez  de  Muritiba. 

Este,  que  ainda  vivia  quando  se  acabou  o 
período  imperial,   falleceu  em  22   de    Fevereiro 

de  1896. 

* 

Recapitulemos  : 

Foram  senadores  pela  Bahia  os  Srs. :  i^  Vis- 
conde da  Cachoeira,  2"*  Marquez  de  Nazarelh,  3" 
Luiz  Joaquim  Duque  Estrada  Furtado  de  Men- 
donça, 40  Visconde  de  Cayrú,  y  Marquez  de 
Caravellas,  6"  Francisco  Carneiro  de  Campos,  7- 
Francisco  de  Souza  Paraizo,  8*  Visconde  do  Ilio 
Vermelho,  gVVlanoel  António  Galvão,  10  Visconde 
de  xMacahé,  11  Visconde  da  Pedra  Branca,  12 
Manoel  Alves.  Branco,  i3  Cassiano  Ivsperidião  de 
Mello  Mattos,  14  Manoel  dos  Santos  Martins  Val- 
lasques,  i5  Barão  de  Uruguayana,  16  Visconde 
de  S.  Lourenço,  17  Barão  de  Cotcgipe,  18  Vis- 
conde de  Gequitinhonha,  19  Marquez  de  Muritiba, 

21 


162 


2o  José  Thomaz  Nabuco  de  Araújo,  21  Zacharias 
de  Góes  e  Vasconcellos,  22  José  António  Saraiva, 
23  Manoel  Pinto  de  Souza  Dantas,  24  Pedro  Leão 
VcUoso,  25  João  José  de  Oliveira  Junqueira,  26 
Barão  de  Pereira  Franco. 

Os  últimos  occupantes  dascadeiras  do  Senado, 
os  que  sobrevieram  ao  Império,  foram  pela  ordem 
delias  da  2%  Manoel  Pinto  de  Souza  Dantas,  da 
3%  Barão  de  Pereira  Franco,  da  4",  Pedro  Leão 
Velloso,  da  5**,  José  António  Saraiva,  da  6" , 
Joaquim  Fernandes  da  Cunha,  da  7',  Marquez 
de  Muritiba. 

Por  occasião  da  queda  do  Império  achava-se 
eleito  e  escolhido  pela  coroa  o  que  deveria  na  i" 
cadeira  succeder  ao  Barão  de  Cotegipe,  mas  não 
tinha  ainda  sido  reconhecido  —  pelo  Senado. 

* 

Dos  senadores  bahianos  trezcollaboraram  na 
Constituição  Politica  de  25  de  Março,  taes  foram 
os  Snrs.  Visconde  da  Cachoeira  e  Marquezes  de 
Nazareth  e  de  Caravellas. —  A  respeito  deste  emi- 
nente collaborador  da  Constituição  do  Império, 
não  posso  deixar  de  transcrever  —  aaui  as  se- 
guintes palavras  do  Dr.  J.  M.  de  Macedo  em  seu 
Anno  Diographico  Brazileiro  : 

«Homem  de  idéas  moderadas,  liberal  de 
principios,  mas  sem  ligações  de  partidos,  foi 
Carneiro  de  Campos —  um  dos  10  conselheiros 
nomeados  para  redigir  a  Constituição  Politica  do 
Império  c  o  principal  inspirador  dos  principios 
liberaes  que  ella  íirmou.» 

Do  Conselho  de  Estado  creado  pela  lei  de  2  3 
de  Novembro  de  1841  lizcram  parte  os  Snrs. 
Alves  Branco,  Visconde  de  Caravellas  e  os  Vis- 
condes de  Macahé  e  Gequitinhonha,  Marquez  de 
Muritiba,  Galvão,  Barão  de  Uruguayana,  Nabuco 
de  Araújo,  Souza  Dantas  e  Leão  Velloso. 


163 


Os  Snrs.  Zacharias,  Cotegipe  e  Fernandes  da 
Cunha  recusam  a  nomeação  com  que  foram  para 
taes  cargos  agraciados. 

Organisaram  ministérios  como  presidentes  de 
Conselho,  que  é  instituição  de  1847,  ^^  Snrs. 
Viscondes  de  Caravellas  ê  de  Macahé,  Barão  de 
Uruguayana,  Zacharias  de  Góes  (3  gabinetes). 
Saraiva  (2  gabinetes),  Dantas  e  Cotegipe. 

Com  excepção  dos  senadores  Martins  Val- 
lasques,  Rio-Vermelho,  Cassiano,  Pedra  Branca 
e  Souza  Paraizo,  todos  entraram  em  composições 
ministeriaes. 

Além  destes,  teria  sido  Ministro  o  Snr.  Fer- 
nandes da  Cunha  se  por  mais  de  uma  vez  não  se 
tivesse  recusado  a  acceitar  os  convites  que  lhe 
foram  dirigidos. 

O  Marquez  de  Caravellas  fez  parte  da  regência 
provisória  eleita  em  7  de  Abril  de  i83i. 

Dos  senadores  oahianos  somente  entraram 
em  mais  de  uma  lista  os  seguintes:  Cassiano, 
Galvão,  Gequitinhonha,  Zacharias,  Saraiva  e 
Franco. 

Todos  os  mais  foram  escolhidos  na  i"  lista, 
em  que  foram  apresentados  á  Coroa. 

*  * 

Dos  eleitos  pela  Bahia  para  membros  do 
Senado  brazileiro  o  que  por  mais  tempo  occupou 
sua  cadeira  foi  o  M.  de  Muritiba,  que  nella  se 
sentou  trinta  e  oito  annos.  Seguiu-se-lhe  o  Barão 
de  Cotegipe,  que  occupou  a  sua  por  33  annos. 

A  propósito  dessas  durações  excepcionaes  do 
mandato  senatorial,  que  não  se  podia  obter  antes 
dos  quarenta  annos,  passo  a  fazer  uma  ligeira 
digressão  indicando  aquelles  senadores  que,  por 
mais  extenso  período,  occuparam  suas  cadeiras. 

O  que  morreu  tendo  sido  senador  por  mais 
tempo  toi  o  Visconde  de  Suassuna,  por  Pernam- 


164 


buco.  Nomeado  em  29  de  Setembro  de  iSSg  só 
falleceu  em  28  de  Janeiro  de  1880 —  quasi  41  annos 
depois! 

O  Snr.  senador  Souza  Queiroz,  por  S.  Paulo 
— também  logrou  os  41  ! 

E  o  Snr.  Silveira  da  Mota  chegou  a  comple- 
tar 36. 

Seguem-se  o  Visconde  de  Abaete  com  35 
e  10  mezes  ;  Marquez  de  Sapucahy,  com  35  e  3 
mezes ;  Duque  de  Caxias  com  34  annos  e  8 
mezes ;  Marquez  de  Olinda  com  33  ;  António  da 
Cunha  Vasconcellos  com  32  annos  e  5  níezes  ; 
Barão  de  Pirapama;  Marquez  de  Valença;  Nicolau 
P.  de  Campos  Vergueiro ;  Joaquim  Francisco 
Vianna  com  mais  de  3i ;  Visconde  do  Rio-Grande, 
e  Francisco  de  Paula  Pessoa  com  mais  de  3o 
annos. 

Por  tanto  tempo  como  muitos  de  seus  pares 
não  logrou  occupar  a  cadeira  de  senador,  Miguel 
Calmon,  depois  Visconde  e  Marquez  de  Abrantes, 
que  dizia: 

E'  tão  bòa  a  senatoria,  que  cada  um  de  nós 
—  deve  fazer  os  maiores  esforços  por  conservar 
a  vida  afim  de  gosar  por  mais  tempo  das  regalias 
e  proventos  da  privilegiada  posição. 

Fez  parte  em  iSíy  da  lista  tríplice  pela  Bahia 
e  foi  nomeado  por  carta  imperial  de  20  de  Julho 
de  1840;  senador  pelo  Ceará,  falleceu  ern  5  de 
Outubro  de  1863,  tendo  occupado  sua  cadeira  por 
mais  de  25  annos. 

Se  tivermos  tempo  occupar-nos-hemos, 
n^outra  occasião  dos  importantes  serviços  pres- 
tados pela  maior  parte  dos  nossos  senadores,  em 
quasi  sua  totalidade  homens  conspicuos  e  alguns 
muito  notáveis. 

Passamos  agora  a  mencionar  os  cidadãos,  que 
tendo  entrado  nas  listas  tríplices  ou  sextuplas  — 


165 


pela  Bahia  enviadas  á  escolha  imperial,  não  con- 
seguiram ser  preferidos  aos  seus  concurrentes. 
Vão  enumerados  na  ordem  alphabetica: 
Álvaro  Tibério  de  Moncorvo  e  Lima,  António 
Ladislau  de  Figueiredo  Rocha,  António  Joaquim 
Alvares  do  Amaral,  António  de  Souza  Espínola, 
Barão  de  Guahy,  Caetano  Silvestre  da  Silva, 
Casemiro  de  Sena  Madureira,  Eustáquio  Adolpho 
deMello  Mattos,  Francisco  José  Coelho  Netto, 
Frederico  Augusto  de  Almeida,  Innocencio  Mar- 
ques de  Araújo  Góes,  Joaquim  José  Pinheiro  de 
Vasconcellos,  João  Joaquim  da  Silva,  José  Au- 
gusto Chaves,  João  Ferreira  de  Moura,  Salustiano 
Ferreira  Souto,  António  Carneiro  da  Rocha:  este 
eleito  em  lista  tríplice  foi  escolhido  no  ultimo  mi- 
nistério, que  foi  o  do  Visconde  de  Ouro  Preto  e 
teve  a  Carta  Imperial  que  foi  á  Commissão  de 
Verificação  de  Poderes  —  sem  eífeito,  —  porque 
neste  Ínterim  foi  extincto  com  o  Império  —  o  seu 
Senado. 

Bahia,  20  de  Setembro  de  1902. 

Barão  de  S.  Francisco. 


POETAS  BAHIANOS 


Século  XVIII 


VII 


Luiz  Paulino  de  Oliveira  Pinto  da  Franca 


|os  poetas  bahianos  que  succederam  á  Escola 
'  Mineira  e  floresceram  no  ultimo  quartel  do 
Século  XVIII,  occupao  primeiro  lugar,  pela  ordem 
chronologica  de  seu  nascimento,  Luiz  Paulino  de 
Oliveira  Pinto  da  França. 

Nasceu  este  poeta,  na  cidade  da  Bahia,  a  3o  de 
Junho  de  1761,  segundo  Pereira  da  Silva,  ou  de 
1771,  segundo  o  Cónego  Pinheiro,  ou  Sacramento 
Blacke. 

A  sua  decidida  vocação  para  a  vida  militar,  fel  o 
abraçar  a  carreira  das  armas,  na  qual  muito  se 
distinguio,  sobretudo  na  guerra  peninsular  onde 
foi  condecorado  com  a  medalha  de  ouro  da  refe- 
rida guerra. 

Diz  o  seu  distincto  biographo  Innocencio  da 
Silva  que  Pinto  da  França  valorosamente  se  bateu 
com  os  francezes,  chegando  á  elevada  patente  de 
marechal  de  campo  e  tendo,  assento  como  deputado 
nas  cortes  geracs  da  constituinte  portugueza  em 
1821,  juntando  a  todas  estas  honras  a  de  primeiro 
senhor  do  morgado  de  Fonte  Nova  e  as  com- 
mendas  das  ordens  de  Christo  e  da  Conceição  de 
Villa  Viçosa,  cavalleiro  de  S.  Thiago  da  Torre 
c  Fspada. 

A  ydeSetembro  de  1822,  embarcou  em  Lisboa, 
Pinto  da  França,  no  brigue  Treze  de  Maio,  em 
demanda  á  barra  do  Rio  de  Janeiro,  incumbido  de 


168 


uma  missão  diplomática  de  D.  João  VI  para  o  ge- 
neral lusitano  Ignacio  Luiz  Madeira  de  Mello,  que 
não  se  realisou,  e.  em  20  de  Janeiro  de  1824,  fal- 
leceu  tendo-se  mallogrado  a  sua  missão. 

Pereira  da  Silva,  porém,  em  sua  obra  Varões 
illiLstres  do  Brazil  Nos  Tempos  Coloniaes  assevera 
que  Pinto  da  França  falleceu  em  Lisboa,  no 
anno  de  1826. 

Pinto  da  França  foi  considerado  em  seu  tempo 
um  distincto  poeta;  pena  é  que  a  maioria  de  suas 
poesias  ficasse  inédita  e  se  perdesse. 

Como  sonetista,  porém,  por  duas  obras  primas 

que  d'elle  possuimos,  não  duvidamos  collocal-o 

ao  lado  de  Camões  e  Bocage  e  nem  julgamos  que 

.  Cláudio  Manuel  da  Costa  hesitasse  subscrevel-os. 

Pensamos  como  Pinheiro  e  Pereira  da  Silva  a 
este  respeito,  e  o  próprio  Sylvio  Romero,  que  o 
considera  poeta  de  pouca  nomeada,  reconhece  a 
superioridade  dos  dous  sonetos. 

O  primeiro  foi  recitado  pelo  auctor  em  1808 
sobre  o  tumulo  de  D.  Affonso  Henrique,  na  Egreja 
de  Santa  Cruz,  em  Coimbra,  onde  se  procedeu, 
por  ordem  de  Junot,  ao  desarmamento  dos  regi- 
mentos de  cavallaria  de  Chaves  e  Almeida,  occu- 
pando  n'este  ultimo  o  distincto  pocta-guerreiro  o 
posto  de  capitão. 

Ao  protesto  do  soldado  indignado,  ao  grito  de 
indignação  do  patriota,  junta-se  a  belleza  e  cor- 
recção dos  versos,  sahindo  do  conjuncto  um  dos 
melhores  sonetos  escriptos  em  lingua  portugueza. 

Se  no  primeiro  soneto  sobresahe  a  indignação 
do  guerreiro,  no  segundo  sente-se  a  resignação 
philosophica  do  christão  no  ultimo  transe  de  sua 
perigrinação  por  este  valle  de  lagrimas. 

Duas  horas  antes  de  succumbir  o  desditoso 
poeta,  escreveu-o. 


169 


O  canto  de  cysne, —  Ultimo  Adem^ — do  poeta 
marechal  é  tão  digno  de  nota  quanto  o  soneto 
feito  em  idênticas  circumstancias  por  Bocage; 
nota-se,  porém,  que  Bocage,  qUe  era  impio,  tem 
palavras  de  arrependimento  reconciliando-se  com 
Deus,  Pinto  da  França,  que  em  sua  longa  existência 
não  tem  um  só  acto  que  desabone  a  sua  crença, 
é  Gstoico  como  Zenon  no  seu  ultimo  threno. 

Além  de  sonetista  era  Pinto  da  França  poeta 
lyrico  e  suas  poesias  eróticas,  se  não  tinham  o 
mimo  e  a  belleza  das  Lyras  de  Gonzaga  e  dos 
Rondou  de  Alvarenga,  nem  por  isso  deixavam 
de  primar  pelo  seu  lyrismo  puro  c  natural. 

De  Pinto  da  França  conhecemos  as  seguintes 
composições : 

Sonetos  (quatro) — publicados:  o  i.",  em  1808, 
sobre  o  tumulo  de  D.  Aífonso  Henriaues,  no 
Jornal  de  Coimtjra^  n.  22,  de  Outubro  de  181 3; 
o  2."  e  o  3.0  glosados  aos  mottes :  De  Jano  as  portas 
por  desij raça  abertas  q  Entre  os  horrores  da  malvada 
guerra^  no  dito  jornal  n.  41,  parte  2.";  o  ultimo, 
escripto  duas  horas  antes  de  expirar,  no  Parnaso 
Brasileiro  de  Pereira  da  Silva,  tomo  2.0,  pag.  179 
c  no  Almanach  do  Bio-Grande  do  Sul,  para  1901, 
organisado  por  Alfredo  Ferreira  Rodrigues, 
pag.   202. 

— O  Naufrágio:  poesia — no  Parnaso  Brasileiro 
de  Pereira  da  Silva,  pags.   176  a  177. 

-  -Commodidades  que  o  marechal  de  campo 
graduado,  etc,  olferecc  de  uma  feira  nas  terras  de 
seu  engenho,  denominado  Aramaris  e  a  que  se 
refere  o  decreto  de  9  de  Agosto  de  18 19.  Rio  de 
Janeiro,  1819,  6  pags.  in  folio. 

Occuparam-se  com  este  poeta:  Pereira  da 
Silva,  Cónego  Pinheiro,  Innocencio  da  Silva, 
Mello  Moraes  Filho,  Januário  Barbosa,  Varnhagen, 
e  muitos  outros. 


22 


170 
VIU 

Maouel  Ferreira  de  Iraujo  Guimarães 

Xão  será  a  primeira  vez  que  figura  entre 
os  litteratos  de  um  paiz  o  nome  de  um  ho- 
mem que  só  produziu  uma  obra:  Heredia  fez 
um  livro  de  sonetos  c  entrou  na  Academia,  Lapa 
Pinto  escreveu  o  Festim  de  Balthnzar  e  tem  o  seu 
nome  na  Litteratura  Brasileira  de  Silvio  Romero. 

Podiamos  citar  como  estes  muitos  outros 
exemplos  para  justificar  a  entrada  em  nosso 
trabalho  do  nome  do  poeta  que  emcima  estas 
linhas. 

xManuel  Ferreira  de  Araújo  Guimarães  era 
filho  legitimo  do  negociante  Manuel  Ferreira  de 
Araújo  e  D.  xMaria  do  Coração  de  Jesus. 

Nasceu  a  5  de  Março  de  1777,  ^^  cidade  da 
Bahia,  onde  estudou  primeiras  lettras  e  latim, 
indo  completar  o  curso  de  humanidades  com 
grande  louvor  cm  Lisboa. 

Por  falta  de  meios  pecuniários  não  entrou  para 
a  Universidade  de  Coimbra  e  em  1798  matri- 
culou-sc  no  I."  anno  da  Academia  Real  de  Ma- 
rinha apresentando  no  anno  seguinte  ao  ministro 
da  marinha  a  traducção  de  parte  do  curso  de 
mathematicas  do  abbade  Marie  que  trata  da  arith- 
mctica  e  princípios  de  álgebra,  trabalho  que 
examinado  pela  Academia  mereceu  applausos. 

F^oi  premiado  no  exame  final  e  no  anno  se- 
guinte despachado  aspirante  de  piloto. 

Não  podendo  por  pobreza  continuar  os  estudos, 
obteve,  em  1799,  do  governo,  uma  pensão  de 
cincoenta  mil  réis  annuaes. 


171 


Concluido  o  curso,  foi  nomeado  lente  substi- 
tuto da  Academia  Real  de  Marinha  e  teve  a  patente 
de  2.'*  tenente  da  armada  sete  annos  e  meio  depois. 

Manuel  Ferreira  leccionou  as  aulas  do  2.'*  e  3/ 
annos,  foi  membro  da  Sociedade  Militar,  traduziu 
e  publicou  a  Analyse  de  Cousiii^  mas  sempre  por 
falta  de  meios  não  podia  voltar  á  terra  natal, 
obtendo  para  isto,  a  muito  custo,  uma  licença, 
até  que,  com  a  transmissão  da  familia  real  para  o 
Brazil,  graças  a  protecção  do  Conde  de  Linhares, 
melhorou  de  sorte. 

Foi  nomeado  capitão  do  corpo  de  engenheiros 
no  Rio  de  Janeiro  e  incumbido  de  traduzir  a  geo- 
metria de  Legendre  para  a  Academia  Militar. 

Em  181 3  foi  promovido  a  Sargento-mór 
effectivo  e  começou  a  redigir  a  Gazeta  do  Rio  de 
Janeiro  e  o  Patriota. 

Em  1821,  já  coronel  graduado,  jubilou-se  na 
Academia  Militar  e  deixou  a  redacção  da  Gazela 
tomando  conta  da  do  Espelhe^  que  pregava  e  ani- 
mava a  resistência  ás  tropas  luzitanas. 

Foi  por  este  tempo  que  publicou  o  avulso — 
Um  cidadão  do  Rio  de  Janeiro  d  dioisão  auxiliadora 
éuzilana. 

Em  1823  foi  deputado  á  Constituinte  pela 
Tiahia,  membro  da  com  missão  de  marinha  c 
guerra  e  deputado  da  junta  de  direcção  da  Aca- 
demia xMilitar. 

Em  1824  foi  deputado  da  junta  de  inspecção 
<la  Typographia  Nacional. 

Em  1826  entrou  de  novo  para  a  Gazela  do  Rri 
de  Janeiro  cuja  redacção  deixou  em  Abril  de  i83o. 

Chegou  a  brigadeiro  graduado  do  corpo  de 
engenheiros  com  permissão  de  residir  em  sua 
provincia  onde  reformou-se  em  Janeiro  de  i83i. 

Era  cavalleiro  da  Ordem  Imperial  do  Cruzeiro 
e  commendador  da  de  S.   Bento  de  Aviz. 

Em  4  de  Março  de  1834  foi  nomeado  professor 
de  fíccmelria  c  mechanica  applicada  ás  artes  do 


172 


Arsenal  de  Marinha  da  Bahia,  para  o  que  traduziu 
a  Geometria  e  Mec/ianica  applicada  (is  artes  do  Barão 
Dupin. 

Foi  membro  distincto  da  primeira  assembléa 
provincial  da  Bahia. 

Estava,  porém,  reservado  o  mais  cruel  dos 
golpes  para  o  ultimo  quartel  de  sua  vida. 

Quando  a  7  de  Novembro  de  iSSy  rebentou 
na  Bahia  a  revolta  republicana  que  foi  esmagada 
cm  Março  de  i838,  Innocencio  Eustáquio  de 
Araújo  Guimarães,  filho  do  nosso  poeta,  envol- 
vcndo-se  no  movimento  revoltoso  e  como  militar 
teve  em  23  de  Junho  de  i838  de  responder  a 
conselho  de  guerra. 

Manuel  Ferreira  foi  defender  seu  filho  e, 
apezar  do  seu  eloquentíssimo  discurso  que  ar- 
rancou lagrimas  dos  próprios  juizes,  o  major 
Innocencio  foi  condemnado. 

O  brigadeiro  Manuel  F^erreira  morreu  de  des- 
gosto a  24  de  Outubro  deste  mesmo  anno  de  i838. 

Como  poeta,  Manuel  Ferreira,  em  1812,  n'um 
elogio  que  fez  ao  seu  fallecido  protector  e  amigo 
o  Conde  de  Linhares,  compoz  um  epicedio  que 
correu  impresso  com  muito  louvor. 


IX 

Dominps  Borps  de  Barros 

(visconde   dapedra    branca) 

Divergem  as  opiniões  sobre  a  data  do  nasci- 
mento doeste  poeta. 

Macedo  diz  que  elle  nasceu  a  10  de  Outubro 
de  1780;  Pereira  da  Silva  marca  para  seu  nasci- 


173 


mento  o  anno  de  1783,   Sylvio  Romero  e  o  Barão 
de  Loreto  asseveram  que  foi  em   1779. 

O  que  não  resta  duvida  é  que  Borges  de 
Barros  é  natural  do  Engenho  de  S.  Pedro,  termo 
de  Santo  Amaro  da  Purificação,  provincia  da 
Bahia,  e  filho  legitimo  e  segundo  de  Francisco 
Borges  de  Barros,  sargento-mór  do  regimento  de 
milícias,  e  de  D.  Luiza  Clara  de  Santa  Ritta, 
ambos  parentes  consaguineos. 

Era  parente  de  João  Borges  de  Barros,  de  seu 
filho  José  Borges  de  Barros,  poeta  por  nós  estu- 
dado no  século  17/,  e  de  outro  poeta  João  Borges 
de  Barros,  formado  em  cânones  e  deão  da  Sé. 

Rico  da  grande  fortuna  que  possuiam  seus 
pães  e  do  invejável  talento  com  que  o  dotara  a 
natureza,  partiu  Borges  de  Barros  para  Coimbra 
cm  cuja  universidade  foi  um  estudante  distincto, 
formando-se  em  pouco  tempo  em  jurisprudência. 

Em  Lisboa  patenteando  desde  logo  seu  génio 
pela  poesia,  metteu-se  na  plêiade  mais  brilhante 
d'aquelle  tempo  e  fez  de  Filinto  Elysio,  Bocage, 
Xicoláo  Tolentino  e  Agostinho  de  Macedo  seus 
Íntimos. 

Depois  de  formado  empregou  o  incansável 
poeta  seu  tempo  em  estudar  poesia,  philosophia, 
botânica  e  agricultura. 

A  sua  primeira  viagem  a  Paris  foi  feita  em 
1806. 

Em  181 1,  de  volta  a  Bahia,  foi  preso  e  remet- 
tido  para  o   Rio  de  Janeiro. 

Dão  como  causa  da  sua  prisão  o  ardor  que 
nutria  pelas  idéas  liberaes,  e  por  ser  amigo  de 
Filinto  Elysio  e  de  Hyppolíto,  redactor  do  Correio 
líraziliense. 

Em  1820  rebentou  a  revolução  em  F^ortugal  e 
em  1821,  installadas  as  cortes*  constituintes  em 
Lisboa,  Borges  de  Barros,  deputado  pela  Bahia, 
advogou  a  liberdade  politica  das  mulheres,  sendo 


1T4 


vencido  pela  maioria,  e  retirou-se  por  não  querer 
jurar  a  constituição  votada. 

«Ergueu,  diz  6  Barão  de  Loreto,  a  potente  voz 
contra  as  tentativas  de  recolonisação  do  Brazil. 
Mostrou-se  n^aquelle  congresso  um' dos  acérrimos 
defensores  dos  direitos  e  foros  do  reino  ameri- 
cano, bem  como  iniciou  reformas  tendentes  a 
prosperal-o,  sugerindo,  além  de  outras  medidas, 
a  extinção  do  trafico  dos  africanos  c  a  emanci- 
pação gradual  dos  escravos.» 

Saindo  da  constituinte  portugueza,  foi  o  poeta 
para  Paris  como  representante  do  Brazil  indepen- 
dente na  França,  com  a  alta  missão  diplomática 
de  conseguir  de  Carlos  V,  rei  de  F" rança,  o  reco- 
nhecimento do  novo  império.  E  soube  captar  a 
adhesão  do  monarcha  francez  á  causa  da  Inde- 
pendência do  Brazil. 

Durante  este  tempo  publicou,  em  Paris,  seu 
primeiro  livro  de  versos,  em  dois  volumes,  com 
o  titulo:  Poe.^ias  offerecidas  ds  senhoras  brasilei- 
ras por  lun  hahiano. 

((Parlamentar  já  provecto,  diz  o  Barão  de 
Loreto,  foi,  pelos  votos  reteirados  de  sua  pro- 
vinda natal,  enviado  ás  duas  Gamaras  quando  se 
constituiu  a  Assembléa  Geral  Legislativa;  e,  sob 
o  império,  investido  no  cargo  de  senador,  figu- 
rou em  successos  transcendentes  do  primeiro 
periodo  regencial. 

A  attitude  politica  de  Borges  de  Barros,  depois 
d^aquella  missão  diplomática,  durante  o  império 
não  é  bem  conhecida. 

Em  cartas  cscriptas  a  Menezes  Drummond, 
em  1824,  José  Bonifácio  queixava-s2  amarga- 
mente de  Pedra  Branca,  chamando-o  por  ironia 
Pedra  Parda  porque  o  considerava  mestiço  dis- 
farçado. 

Eleito  c  escolhido,  contra  vontade,  senador, 
cm  1825,  só  duas  vezes  aprescntou-se  na  Gamara 
vitalicia. 


175 


Já  era  barão  da  Pedra  Branca,  cjuando,  por 
ajustar  o  casamento  da  princeza  Amélia  deLeuch- 
temberg  com  o  imperador  D.  Pedro  I,  recebeu 
a  gran  cruz  da  Imperial  Ordem  de  Christo,  a 
grande  dignataria  da  Imperial  Ordem  da  Rosa 
e  a  elevação  titular  de  barão  para  visconde  da 
Pedra  Branca. 

O  novel  visconde  passou  em  seu  tempo  por 
um  emérito  galanteador  e  irresistivel  conquista- 
dor do  bello  sexo,  qualidades  essas  que  muito  o 
distinguiram  no  paço  das  diversas  cortes  euro- 
péas  que  frequentou  até  a  velhice,  voltando  então 
á  pátria,  onde  dedicou-se  ainda  á  poesia  c  á 
agricultura. 

Incansável  trabalhador,  Pedra  Branca  ainda 
escreveu  as  suas  Novas  Poesias  e  o  poema  ele- 
giaco  Os  Túmulos,  foi  membro  de  diversas  socie- 
dades scientificas  e  litterarias  da  Europa,  e  do 
Instituto  Histórico  e  Geographico  Brasileiro. 

O  visconde  da  Pedra  Branca  falleceu  na  Bahia, 
a  21  de  Marco  de  i855,  ou  segundo  Sacramento 
Blake,  a  20  do  mesmo  mez  e  do  mesmo  anno. 

Este  poeta  cultivou  quatro  géneros  de  poesia: 
o  didáctico,  o  satyrico,  o  elegiaco  e  o  lyrico 
subjeetivista. 

Silvio  considera-o  mediocre  nos  dois  primei- 
ros;  límpido,  sonoro  e  forte  nos  dois  últimos. 

Pereira  da  Silva  acha  que  no  lyrico  elle  foi 
um  dos  mais  suaves  poetas   portuguezes. 

A  nota  predominante  de  sua  poesia  é,  porém, 
o  lyrismo. 

Dr.  Manuel  Brito. 


íúú  das  Sessjies  e  Diferias 

90/  SESSÃO  EM  23  DE  FEVEREIRO  DE  1902 
Presidência  do  Exmo.  Snr.  Cons.  Salvador  Pires 

Aos  vinte  e  três  dias  do  mez  de  Fevereiro  de 
1902,  nesta  cidade  da  Bahia,  no  salão  do  Instituto, 
á  I  hora  da  tarde,  presentes  os  sócios  Cons. 
Drs.  Salvador  Pires  de  Carvalho  e  Albuquerque  e 
João  Nepomuceno  Torres,  o  primeiro,  Presiclente 
e  o  segundo,  i.**  Secretario,  o  Capitão  Francisco 
Gomes  Ferreira  Braga,  Thesoureiro,  Drs.  Braz 
Hermenegildo  do  Amaral,  Orador,  Innocencio 
Mufioz  de  Araújo  Góes  e  José  Júlio  de  Calasans, 
Padre  Luiz  da  França  dos  Santos,  Commendador 
Salvador  Pires  de  Carvalho  e  Albuquerque,  Eloy 
de  Oliveira  Guimarães,  Professor  João  Joaquim 
dos  Santos  Sá,  Henrique  Praguer,  Coronel  Gonçalo 
de  Athayde  Pereira,  Alfredo  Octaviano  Soledade 
e  Pharmaceutico  Alfredo  Accioly,  foi  aberta  a 
sessão,  servindo  de  2.'*  Secretario  o  Dr.  Innocencio 
Munoz  de  Araújo  Góes  na  ausência  do  effectivo. 

É  lida  e  approvada,  sem  debate,  a  acta  da 
sessão  anterior. 

O  expediente  constou  do  seguinte: 

Officios:  do  Snr.  Cons.  Salvador  Pires,  datado 
de  12  de  Novembro  do  anno  passado,  passando 
o  exercício  do  cargo  de  Presidente  ao  1  .**  Secre- 
tario, na  ausência  do  i."  e  2."*  Vice-Presidentes, 
por  ter  de  afastar-se  temporariamente  da  capital 
por  incommodo  de  pessoa  de  sua  familia;  do  Dr. 
Secretario  do  Tribunal  de  Conflictos  e  Adminis- 
trativo solicitando  a  remessa  áquella  Secretaria, 
de  um  exemplar  dos  Estatutos ;  do  Presidente  da 
Sociedade  Nacional  de  Agriaãlura,  enviando  a  lif  ta 
23 


178 


dos  nomes  dos  sócios  eleitos  para  a  nova  Dire- 
ctoria, do  Secretario  da  Real  Sociedade  Portugtieza 
de  liene/ícencia  Dezcí^seis  de  Setembro,  enviando  a 
relação  dos  novos  funccionarios  da  Directoria. 

Cartas:  doDr.  J.C.  Branner,  accusando  o  rece- 
bimento da  noticia  de  haver  sido  escolhido;  sócio 
correspondente  do  «Instituto»,  agradecendo  essa 
honrosa  escolha  c  promettendo  enviar  em  breve, 
((peq[uena  contribuição  sobre  a  geologia  do 
Brasil  »  ;  do  Provedor  interino  da  Casa  Pia  c  Col- 
legio  dos  Orphãos  de  S.  Joaquim,  communicando 
que  vae  ser  estabelecida  alli  uma  bibliotheca 
infantil  e  solicitando  a  remessa  de  livros,  brochuras 
e  jornaes;  do  Snr.  M.  Marris,  Secretario  geral 
honorário  da  Sociedade  de  (icographia  Commercial 
de  Bordeaux,  communicando  que  a  seu  pedido  fora 
exonerado  do  logar  de  Secretario  geral  que  exercia, 
havia  muitos  annos,  sendo  eleito  para  substituil-o 
o  Dr.  Lassene,  acompanhada  de  uma  outra  deste 
cavalheiro,  communicando. por  sua  vez  que  fora 
eleito  em  substituição  d^aquelle  e  pedindo  que, 
para  o  bom  dcscMiipenho  do  seu  cargo,  seja-lhe 
dispensada  a  mesma  coadjuvação  que  ao  seu 
antecessor;  um  cartão  da  Sociedade  Nacional  de 
Agriciillura  dei."  de  Janeiro  do  corrente  anno,  sau- 
dando o  Instituto  no  novoanno;  um  aviso  circular 
subscripto  peio  Governador  e  Secretario  do  Estado 
do  Parei,  contendo  o  theor  do  Dec.  n.  933  de  3i 
de  Dezembro  de  1900  pelo  qual  foi  conferido  ao 
«Museu  Paraense»  a  denominação  de  «Museu 
(joeldi »  em  attenção  aos  relevantes  serviços  pres- 
tados pelo  Dr.  Emilio  Augusto  Goeldi,  Director 
do  mesmo  Museu,  no  período  de  sua  organisação; 
um  cartão-convite  do  Grémio  Litterario  para  o 
Instituto  assistir  a  4."  conferencia  a  ser  realisada 
em  24  do  corrente  mez,  ás  7  horas  da  noite;  carta 
do  sócio  Xavier  Marques,  enviando  exemplares 
de  alguns  trabalhos  do  Professor  Guilherme 
Baldomo  l^mbirussii  Cnmacan;  finalmente,  carta 


179 


do  sócio  Major  Roj^ociano  Teixciraj  enviando  o 
livro  que  contém  discursos,  manifestos,  etc.  do 
Cons.  Dr.  Ruy  Barbosa,  cartas  estas,  cujo  theor  é 
o  sejguinte  aqui  transcripto,  segundo  deliberação 
dos  Snrs.  sócios : 

De  Xavier.  Marques  dirigida  ao  Cons.  João 
Torres,  i."  Secretario: 

«  Com  exemplares  de  alguns  trabalhos  meus 
que  tenho  a  honra  de  otferecer  a  bibliotheca  desse 
(( Instituto  í>,  envio,  para  a  respectiva  secção  de 
manuscriptos,  cópia  de  diversas  producções 
poéticas  do  illustre  bahiano.  Professor  Guilherme 
Baldoino  Embirussú  Camacan.  Estas  cópias  feitas 
por  mão  de  meu  saudoso  mestre  e  irmão  do  poeta, 
o  Professor  Genuino  da  Silva  Rosa  hlmbirussú 
Camacan,  me  foram  confiadas,  ha  annos,  para  o 
fim  de  escrever  um  ligeiro  estudo  acerca  do 
Professor  Baldoino,  estudo  que  se  acha  publicado 
na  Revista  O  Palheon  que  se  editou  n^sta  capital. 
Era  tudo  o  que  restava  do  espolio  litterario  de  tão 
fecundo  espirito  e  que  hoje  entrego,  por  seu  inter- 
médio, aos  archivos  dessa  benemérita  associação. 

E'  justo  seja  ella  a  depositaria  destes  manus- 
criptos,  legado  daquelle  a  quem  o  antigo  a  Insti- 
tuto Histórico^»  rendeu  homenagem,  approvando 
em  sessão  de  4  de  Setembro  de  i(S59  o  requeri- 
mento do  Dr.  Alvares  da  Silva,  para  que  cá 
memoria  de  Junqueira  Freire  se  unisse  a  necro- 
logia do  Sr.  Guilherme  Baldoino.  como  um  dos 
nossos  homens  de  lettras».  Do  sócio  Rogociano, 
dirigida  ao  mesmo  Conselheiro,  i.-  Secretario, 
em  7  de  Janeiro  do  corrente  anno  : 

a  Tive  a  felicidade  de  ouvir  na  larde  do  dia  26 
de  Março  de  1898,  no  Supremo 'Iribunal  Federal, 
o  nosso*  glorioso  patrício,  Dr.  Ruy  Barbosa,  ler  o 
seu  monumental  discurso  impetrando,  perante 
aquelle  IVibunal,  Itabeaf^-corpus  a  favor  dos  impli- 
cados nos  lamentáveis  successos  do  dia  3  de  No- 


180 


vembro  de  1897;  ^9  '^8^  ^P^*"  ^  leitura,  pedi-lhe 
o  precioso  aulographo  com  o  intento  de  envial-o 
ao  archivo  do  nosso  «Instituto»,  pedido  que  foi 
logo  attendido  pelo  eminente  brasileiro. 

Não  o  enviei  ha  mais  tempo  porq^ue  desejafva 
fazel-o  depois  que  algum  outro  bahiano  illustre 
fizesse,  sobre  o  mérito  doesse  discurso,  uma  apre- 
ciação, o  que  somente  agora  obtive  do  illustre 
jurisconsulto  e  digno  deputado  federal,  pelo  nosso 
Estado,  Dr.  Aristides  Augusto  Milton  aue,  devo 
confessal-o,  accedeu  immediatamente  e  aa  melhor 
boa  vontade  ao  meu  pedido ;  pelo  que  lhe  sou 
muito  grato. 

Embora  a  minha  nenhuma  competência  sobre 
o  assumpto,  todavia,  V.,  que  é  mestre  de  direito, 
verá  que  o  trabalho  do  Dr.  A.  Milton  está  na 
altura  do  seu  saber  e  que,  mais  uma  vez,  assim 
firmou  o  seu  credito  de  jurisconsulto  emérito. 

Para  melhor  conservação  dos  autographos 
mandei  encadernal-os  em*  um  livro,  juntando 
um  exemplar  da  «Revista  de  Jurisprudência»,  que 
aqui  se  edita,  em  que  estão  publicados,  não  só 
aquelle  discurso  como  egualmente  a  petição  c 
a  lecção  dos  dois  Accordãos,  trabalhos  do  Dr. 
Ruy  Barbosa  e  todos  referentes  ao  mesmo  habeas- 
corpus. 

Envio,  também, ao « Instituto  » um  livro  conten- 
do diversos  outros  trabalhos  do  Dr.  Ruy  Barbosa, 
como  sejam  :  «  discursos,  artigos  e  manifestos  ». 

O  «Instituto  »,  por  seus  sócios  presentes,  man- 
dou responder  e  agradecer. 

As  oftertas  constam   do  appendice. 

Pelo  Sr.  Presidente  foi  communicado  o  falle- 
cimento  dos  seguintes  sócios:  Barão  de  Pereira 
Franco,  na  capital  Federal,  a  20  de  Janeiro;  do 
cónego  João  Paranhos  da  Silva,  na  villa  de  Agua- 
Quente,  a  3o  do  mesmo  mez,  sócios  correspon- 
dentes; e  do  Pharmaccutico  Éadoxio  Pereira  da 


181 


Costa,  sócio  effectivo,  n'esta  capital,  a  5  de  Feve- 
reiro, tudo  no  corrente  anno,  salientando  os 
serviços  prestados  ao  paiz  e  ao  «  Instituto  »,  pro- 
pondo, o  que  foi  approvado,  que  se  inferisse 
na  acta  um  voto  de  pezar. 

O  thesoureiro.  Capitão  Ferreira  Braga,  na 
forma  dos  Estatutos,  apresentou  e  leu  o  oalan- 
cete  da  Receita e  Despeza  do  «Instituto», durante 
o  anno  de  1901,  o  qual  é  remettido  á  commissão 
de  fazenda  e  orçamento  para  os  fins  convenientes. 

Foram  votadas,  em  escrutínio  secreto,  as  propôs* 
tas  de  admissão  de  sócios,  sobre  que  havia  parecer 
da  commissão,  sendo  approvados  e  proclamados 
sócios  effectivos:  a  Exma.  Sra.  D.  Maria  Elisa 
Valente  Muniz  de  Aragão,  Drs.  João  Gualberto 
Nogueira,  António  Ferrão  Muniz  de  Aragão  e 
Joaquim  Augusto  Tanajura,  e  correspondentes: 
Arthur  Vianna  e  António  Lobo,  directores  das 
bibliothecas  publicas  do  Pará  e  do  Maranhão  e 
Franco  Pacheco,  escriptor  portuguez,  residente 
em  S.  Luiz  do  Maranhão. 

Foram  lidas  3  propostas  para  admissão  de 
sócios  e  remettidas  á  respectiva  commissão. 

Nada  mais  havendo  a  tratar  foi  encerrada  a 
sessão. 

Approvada  em  sessão  de  20  de  Abril  de  1902. 
—  Snlvador  Pires  de  Carvalho  e  Albuquerque. — 
João Nepomuceno  Torres. — Alfredo  Accioli  do  Prado, 
secretario  interino. 


91.'  SESSÃO  EM  20  DE  ABRIL  DE  1902 

Presidência  do  Cons.  Salvador  Pires 

Aos  vinte  dias  do  mez  de  Abril  de  1902, 
presentes  os  sócios,  Conselheiros  Drs,  Salvador 
Pires  de  Carvalho  e  Albuquerque,  presidente,  e 


1S2 


João  Nepomuceno  lorres,  i.-  secretario,  Drs. 
Alfredo  Cabussú,  Braz  do  Amaral,  Joaquim  Pires 
Muniz  de  Carvalho,  Pedro  Muniz  l.eão  Velloso, 
Júlio  de  Calasans,  Cónego  Manfredo  de  Lima, 
Eloy  Guimarães,  Capitão  Francisco  Gomes  Fer- 
reira Braga,  thesoureiro,  António  José  Gonçalves 
Neves,  Commendador  Salvador  Pires,  Coronel 
Gonçalo  de  Athayde  Pereira,  professor  João  Joa- 
quim dos  Santos  Sá,  Alfredo  Soledade,  pharma- 
ccutico  Alfredo  Accioli,  foi  aberta  a  sessão,  ser- 
vindo como  2."  secretario  este  ultimo  sócio,  na 
ausência  do  effectivo  que  mais  tarde  compareceu, 
sendo  lida  e  approvada  sem  discussão  a  acta  da 
sessão  anterior. 

O  expediente  constou  do  seguinte: 
Communicação  feita  ao  Instituto  pelo  deputado 
federal  José  Boiteux  de  que  havia  apresentado 
um  projecto,  concedendo  franquia  postal  à  cor- 
respondência e  revistas  dos  cli versos  Institutos 
Históricos  do  Brasil ;  carta  convite  para  a  ^olem- 
nidade  da  collação  do  grau  aos  doutorandos  de 
medicina;  carta  convite  do  Instituto  Agronómico 
da  Bahia  para  a  inauguração,  hoje,  do  I.yccu 
Polytechnico  da  Bahia;  oflicio  do  presidente  da- 
Associação  Commercial,  enviando  a  relação  da 
directoria  eleita  e  empossada  a  27  de  Fevereiro 
ultimo;  do  director  do  Instituto  Vaccinico,  Dr. 
António  Monteiro  de  Carvalho,  communicando 
sua  posse  nesse  cargo,  para  que  fora  nomeado, 
em  i3  de  Março;  carta  do  sócio  Dr.  Joaquim 
Tanajura,  declarando  acceitar  a  sua  escolha  para 
sócio  effectivo;  carta  do  sócio  António  Lobo, 
director  da  Bibliotheca  Publica  do  Maranhão, 
dando  as  razc3es  porque  não  podia,  presentemente, 
acceitar  o  cargo  de  sócio  correspondente. 

Pelo  Presidente  foi  nomeada  uma  com  missão 
para  assistir  a  solemnidade  da  collação  do  grau 
aos  doutorandos,  composta  do  Dr.  Braz  do  Amaral 
c    Pharmaceuticos    Diniz    Gonçalves    e    Accioli, 


183 


O  Conselheino  i.-  secretario,  deu  noticia  das 
se^^uintes  valiosas  oífertas:  Da  Exma.  Viscondessa 
de  Cavalcanti,  nossa  consócia,  de  72  volumes  de 
obras,  inclusive  clássicos  latinos,  offerta  cujo 
valor  está  nas  edições,  acompanhada  de  uma 
carta;  do  Dr.  Anisio  Circundes  de  Carvalho, 
professor  cathedratico  da  Faculdade  de  Medicina 
desta  cidade,  de  um  arco  artisticamente  traba- 
lhado e  de  uma  collecção  de.  frechas  de  varias 
espécies,  obtidos  dos  (í Bororós  Coroados»  de 
Matto-Grosso,  e  do  sócio  Dr.  Miguel  de  Teive  e 
Argollo  de  um  catalogo  movei  de  classificação 
decimal,  e  index  de  Devey. 

Em  seguida  o  sócio  coronel  Gonçalo  de  Athayde, 
communicou  que  o  sócio  commendador  Santa 
Anna    não  comparecera  por  motivo  de  moléstia. 

E'  lido  o  parecer  da  commissão  de  orçamento 
c  Fazenda  sobre  as  contas  do  Sr.  thesoureiro, 
duranteo  anno  findo,  o  qual,  submettido  a  votação, 
é  approvado. 

O  parecer  é  do  theor  seguinte : 

A  Commissão  de  «Fundos  e  Orçamento»  do 

Instituto  Geographico  e  Histórico  da  Bahia,  tendo 

devidamente  examinado  o  relatório  e  as  contas 

'do   Sr.   thesoureiro    Francisco    Gomes   Ferreira 

Braga,    é  de    parecer    que    sejam    approvados. 

Bahia  e  sala  das  sessões  do  Instituto,  20  de 
Abril  de  1902. — A  commissão  —  Salvador  Pires 
de  Carvalho  e  Albuquerque.  — A.  Cabtissú. 

O  balancete  da  Receita  e  Despeza  é  este : 

RECEITA 

Saldo  do  anno  de  1900 84S652 

Subvenção  estadual 5oo$ooo 

.  Idem  municipal  por  7 5oo$ooo 

Idem  federal  até  Setembro  de  1901.  3:7498998 

Mensalidades  de  sócios 1 17488000 

Jóias  de  sócios 45o$ooo 

Assignatura   da   Revista 488000 

7:0808650 


184 


DESPEZA 


Ordenados  dos  empregados  e  com- 

missão  ao  cobrador 2:4698744 

Despezas  geraes,  inclusive  as  da  se- 
cretaria   458S330 

Diversas  contas  paeas i:35o$5io 

Ao  Banco  Auxiliar  das  Classes,  amor- 

tisação  da  lettra SrySoSiõó 

Seguro  do  prédio 11  SSSoo 

8:1448950 

Deficit    para  o  exercício  seguinte:   i:o63$95o. 

Assignado  pelo  Guarda-livros  João  José  dos 
Santos  Sá  e  pelo  Thesoureiro  Francisco  Gomes 
Ferreira  Braga,  em  23  de  Fevereiro  de  1902. 

O  Dr.  Alfredo  Gabussú  pedio  a  palavra  e 
em  nome  da  commissão  leu  o  projecto  de  Orça- 
mento para  o  corrente  exercicio  o  qual  ficou 
sobre  a  mesa  para  ser  votado  na  sessão  seguinte, 
dando  as  explicações  que  julgou  necessárias  para 
justificar  a  diminuição  de  algumas  verbas. 

São  igualmente  lidos  vários  pareceres  da  com- 
missão de  admissão  de  sócios,  cuja  votação  é 
adiada  por  falta  de  numero  legal. 

E'  lida  e  remettida  á  mesma  commissão  uma 
proposta  para  admissão  do  litterato  e  historio- 
grapho  José  Ribeiro  do  Amaral,  residente  em 
São   Luiz  do  Maranhão. 

Sob  proposta  do  Conselheiro  presidente  resol- 
veu o  Instituto  que  no  dia  3  de  Maio  seja  com- 
memorado  o  8.*  anniversario  do  ((Instituto»  com 
uma  sessão  litteraria,  sem  convites  especiaes, 
sendo  publica  a  mesma  sessão. 

Nada  mais  havendo  a  tratar-se,  foi  levantada 
a   sessão. 

Approvada  em  sessão  de  18  de  Maio  de 
1 902 .  —  João  Nepomuceno  Torres.  — \ Gonçalo  de 
Athayde  Pereira. — Guilherme  CéOnceição  Fwppel. 


185 


92/  SESSÃO  EM  3  DE  MAIO  DE  1902 

SESSÃO     MAGNA,     COMMEMORATIVA     DO    ANNIVERSARIO 
DA    INSTALLAÇÃO    DO    INSTITUTO 

Presidência  do  Exm.  S)n\  Cons.  João  Torres 

Aos  tres  dias  do  mez  de  Maio  de  1902,  no 
salão  do  «  Instituto»,  á  i  hora  da  tarde,  presente 
grande  numero  de  sócios  e  muitos  cidadãos,  repre- 
sentando todas  as  classes,  a  saber:  Conselheiros 
Drs.  João  Torres,  i."  Secretario,  Filinto  Bastos, 
orador  adjuncto,  c  Joaquim  António  de  Souza 
Spinola,  Presidente  do  Tribunal  de  Appellação 
e  Revista  do  fi^stado,  o  Capitão  Francisco  Braga, 
Thesoureiro,  Isaias  de  Carvalho  Santos,  2.'  Secre- 
tario, os  Drs.  Braz  do  Amaral,  orador,  Guilherme 
Foeppel,  Ernesto  Carneiro  Ribeiro,  Manoel  Pedro 
de  Rezende,  Presidente  do  Tribunal  de  Conflictos 
e  Administrativo,  Aurélio  Pires  de  C.  e  Albuquer- 
que, Egas  Muniz  Barrctto  de  Aragão,  Júlio  de 
Calasans,  José  Francisco  da  Silva  Lima,  Inno- 
cencio  Munoz,  Capitão  de  mar  e  guerra  Alves 
Gamara,  Coronel  Gonçalo  de  Athayde,  Engenheiro 
Sampaio  Neves,  Professor  Elias  Nazareth,  Padre 
Luiz  da  França,  Dezembargador  Licinio  Alfredo 
da  Silva,  Dr.  Reis  Magalhães,  cónego  I^^lpidio 
Tapiranga,  Cons.  Dr.  Rozcndo  Guimarães,  Co- 
ronel Saturnino  Ribeiro  da  Costa,  Damasceno 
Vieira,  Drs.  João  Cerqueira  Pinto,  João  P>an- 
gelista  de  Castro  Cerqueira,  Américo  Velloso,  Ju- 
venal Silva,  Júlio  Barbuda,  Luiz  Anselmo  da  Fon- 
seca, Celso  Spinola,  Bernardo  Jambeiro,  Tiburcio 
Suzano  de  Araújo,  Silio  Boccanera,  Barão  de 
São  PYancisco,  José  Claudino  Dias,  luigenheiro 
Aloysio  Accioli,  Professor  Prisciliano  José  Leal, 
Herculano  Cunha,  Professor  António  Alexandre 
Borges  dos  Reis,  Acácio  Manoel  de  Jesus,  Pedro 
Bastos  de  Seixas,  Theodulo  Prazeres,  Laudelino 

24 


18G 


Barros^  Ilaul  Costa,  Cândido  Carneiro,  Joaquim 
Barretto  de  Araújo,  Francisco  Xavier  da  Silva 
Pimentel,  representando  a  Bibliotheca  Publica  da 
Feira  de  Sant^Anna,  João  Gonçalves  do  Couto, 
Raul  Boccanera  e  Henrique  Canelo,  representando 
o  Diário  da  Bahia ^  assumio  a  cadeira  da  presi- 
dência o  Snr.  Cons.  Dr.  João  Torres,  i.**  Secre- 
tario, na  ausência  do  Presidente  effectivo  e  dos 
vice-Presidentes,  servindo  de  i.'*  Secretario  o  2.* 
e  de  J."  o  Dr.  Reis  Magalhães,  por  convite  do 
Snr.  Cons.  Presidente,  que  declarou  aberta  a 
sessão,  referindo  em  breves  palavras  os  motivos 
da  solemnidade  que  todos  iam  presenciar  e  em 
seguida  deu  a  palavra  ao  Dr.  Pedro  Júlio  Barbuda, 
Professor  do  instituto  Normal,  o  qual  leu  extenso 
e  erudito  estudo  sobre  a  «  Evolução  litteraria  da 
lingua  portugueza  no  Brazil.  » 

Segui ram-se-lhe  com  a  palavra  oDr.  Braz  Her- 
menegildo do  Amaral,  professor  da  Faculdade  de 
Medicina  e  do  Gymnasio  e  orador  do  «  Instituto  », 
fa/eodo  a  leitura  do  trabalho  que,  em  commum 
com  o  sócio  Dr.  Innocencio  Góes,  levou  a  effeito, 
trabalho  descriptivo  dos  exames  e  investigações 
realisadas,  no  intuito  de  descobrirem  a  verdade, 
quanto  a  versão  corrente,  de  que  os  Jesuitas  dei- 
xaram alfaias  e  riquezas  em  algum  esconde- 
rijo do  antigo  Collcgio  ;  e  o  Professor  António 
Alexandre  Borges  dos  Reis,  que  leu  importante 
estudo  sob  o  titulo — (^Colonos  indigenase  escravos. 
((  Os  Jesuitas  e  a  Catechese.   c(  Historia  do  Brazil  ». 

Por  ultimo  falou  o  sócio  Damasceno  Vieira, 
lendo  patriótico  discurso,  sendo  cm  seguida  encer- 
rada a  sessão. 

Approvada  cm  sessão  de  25  de  Maio  de  1902. 
—  Sati/ro  i)ííl.s\  — tfaào  Ncpomurcno  Torres. — 
AloiiMd  de  Carvalho. 


1X7 

Dincurso  do  Sr.  Damasceno  Vieira 

Sr,  Presidente. 
Srs.  Consócios. 
Meiís  Srs, 

Como  membro  do  «Instituto  Histórico eGeo- 
graphico  doBrazil  »,  membro  doeste  «Instituto»  e 
representante  da  gazeta  A  Bahia^  cumpro  o  dever 
de  trazer  a  esta  illustrc  associação  congratulações 
sinceras  pela  festa  que  hoje  realiza,  commcmo- 
rando  o  8.*  anniversario  de  sua  existência. 

.Oito  annos  de  continuas  luctas,  de  sacrifícios 
heróicos,  para  manter  de  pé  uma  instituição 
honrosa,  tanto  para  a  Bahia  como  para  as  lettras 
l^atrias,  uma  instituição  benemérita  que  tem  por 
íim  especial  investigar  e  propagar  conhecimentos 
históricos,  reunir  documentos  que  colloquem  em 
relevo  òs  feitos  de  nossos  antepassados  como 
dignos  de  transmissão  ú  historia  geral  de  todos 
os  povos  cuhos,  como  paginas  frementes  de  civismo 
ede  amor  por  todas  as  manifestações  da  liberdade! 

Apezar  das  mil  contrariedades  oppostas  á 
rnarcna  doeste  «  Instituto»,  elle deve  proseguirer- 
guido  sobre  os  nossos  hombros,  como  aquella  arca 
daalliançaemquese  guardavam  as  leis  fundamcn- 
taes  de  uma  religião!  E  é  uma  religião,  Srs.,  o 
saber  manter  uma  instituição  desta  ordem,  alheia 
completamente  ao  turbilhonar  das  paixões  poli- 
ticas, e  consagrada  a  investigações  superiores, 
que  dizem  respeito  ao  desenvolvimento  intelle- 
ctual  do  paiz ! 

Elle  deve  proseguir,  e  vencer  como  desassom- 
bro os  óbices  erguidos  em  sua  perigrinação  de 
apostolo,  fortalecido,  illu minado  pela  estrella  que 
lhe  encima  o  glorioso  escudo,  destinada  a  espalhar, 
urbi  et  orbi,  a  luz  da  scicncia  geographica  c  da 
sciencia  histórica,  como  demonstrações  eloquentes 
c  perduravei,^  do  vigor  mental  desta  terra ! 


188 


Ha  46  annos,  Srs.,  a  3  de  Maio  de  i856,  uma 
illustração  do  clero  brazileiro,  fundador  e  presi- 
dente dó  antigo  «Instituto  Histórico  da  Bahia»,  o 
eminente  arcebispo  bahianoD.Romualdo  António 
de  Seixas,  compenetrado  do  elevado  alcance  da 
corporação  que  dirigia,  estimulava  os  seus  con- 
sócios, exclamando,  com  o  brilhantismo  de  seu 
estylo  elegantemente  litterario : 

«Que  relevante  serviço  não  deverá  prestar  o 
Instituto  ás  lettras  eá  sociedade,  investigando  os 
antigos  monumentos  c  recolhendo  os  materiaes 
dispersos  nos  archivos  publico-  ou  no  fundo  das 
bibliothccas  particulares,  e  alguns  já  quasi  apaga- 
dos, afim  de  coordenar  a  historia  completa  de 
uma  provincia  tão  insigne  por  sua  cathegoria, 
riqueza  e  população,  e  onde  se  passaram  tantos 
feitos  altamente  épicos  e  gloriosos?» 

Outra  voz  auctorizada  e  egualmente  emmude- 
cida  pela  morte  —  sombra  augusta  que  em  pleno 
vigor  da  mocidade  deixou  em  sua  passagem 
n"este«Instituto»  inapagaveis  vesiigios,  um  de  seus 
esforçados  presidentes,  o  Dr.  Tranquillino  Torres, 
cuja  acenurada  dedicação  e  cultivado  talento 
eram  columnas  desta  corporação,  dizia,  com  a 
previsão  de  propheta  : 

c(N()s,  que  nos  reunimos  38  annos  depois  d'a- 
quella   phalange  de   heróes,    homens  de  estudo, 

embalados  no  bcrco  da  civilisacão,  e  constituímos 

.  *  •*  • 

esta  outra  agremiação  com  um  programma  muito 
mais  amplo ;  nós  sobre  cujos  hombros  pesam 
encargos  muito  mais  penosos,  temos  o  dever  de, 
com  a  licção  severissima  do  passado,  empregar 
todas  as  energias  na  defeza  dos  compromissos 
que  todos  abraçamos.» 

Assim  se  exprimiram  duas  queridas  mentali- 
dades do  antigo  e  do  novo  «  Instituto  >>. 

Si  cada  vez  se  accentiia  mais  a  verdade  de  q^ue 
os  vivos  sãogoverniidos  pelos  mortos;  si  os  dcse)Os 


189 


c  as  aspirações  vehementes  dos  que  foram  ca- 
minho da  eternidade  são  para  nós  legados  pre- 
ciosos que  devemos  cumprir:  sigamos  os  dictames 
de   nossos    illustres    predecessores ;    unamos    os 
nossos  esforços  para  imprimirão  «  Instituto  »  o  flo- 
rescimento de  que  é  digno;  mantenhamos  a  publi- 
cação de  sua  utilíssima  Revista    Trimensal;   des- 
obriguemo-nos    do  ónus  que    nos    pesa  com    a 
aquisição  d'este  bello  edifício  ;  contribuamos  para 
que  o  «Instituto  ))gosevidaindependente  e  gloriosa, 
compatível  com  a  magnitude  de  seu  programma. 
Só  assim,  senhores,  terá  o  «Instituto  Geogra- 
phicoe  Histórico  da  Bahia»,  satisfeitoao  seu  grande 
ideal,   e  o  nosso  desvanecimento  será  completo 
porque  a  elle  se  associará  de  certo  o  illuminado 
espirito  d'aquelle  emérito  bahiano  que  fundou  os 
dois  Institutos  e  que  em  sua  irradiante  jornada 
pela  terra  se  impoz  a  respeitos  e  applausos,  sob  o 
i^ome  de  frei  Francisco  da  Nativiclade  Carneiro 
cia  Cunha.)) 


<rp:>J-í^lH>— 


SUMMARIO  DO  N.  28 


PAfiS. 

Innocencio  Munõz 3 

Os  Indígenas  da  Bahia,  pelo  Professor  Borges  dos  Reis.  y 

A  antiga   capella    dos  Jesuítas  na    Bahia,  pelo   Dr.  Braz 

do  Amara] 47 

Colonos  Indigenas  c  Escravos.  Os  Jesuitas  c  a  catechese. 

Historia  do  Brasil,  pelo  Professor   Borges  dos  Reis.  57 

O  culto    dos  herocs,  pelo  Dr.   Kgas  Moniz G5 

Habeas-Corpus  —  Estado  de  Sitio  —  Prefacio  ao  Discurso 

do  Dr.  Ruy   Barbosa,   pelo  Dr.  Aristides  Milton  .     .  73 
Revolta  parlamentar  de   1840,  pelo  Dr.  Innocencio  Coes.  83 
Exploração  do  Mucury  e  Jequitinhonha,  pelo  coronel  Inno- 
cencio Vclloso  Pederneiras 89   - 

A  Egreja  da  Ajuda 14^ 

As  abelhas   sociaes  indigenas  do  Brasil,  pelo  Dr.  H.  Von 

Ihcring ifn 

A  Bahia  no  Senado  do  Império,  pelo  Barão  de  S.  Francisco.  i  by 

Poetas  Bahianos,  pelo   Dr.  Manoel    Brito 167 

Actas  das  Sessões  e   Ofíertas 177 


REVISTA 


DO 


Instituto  (leopaplico  e  Histórico 

DA    BAHIA 


FUNDADO   EM    1894,   RECONHECIDO   DE  UTILIDADE   PUBLICA 
PELA  LEI  N.    110  DE  13  DE  AGOSTO  DE   1895      . 


Máxima  sunt  documenta  equidem  res  temporis  acii 
In  proesens,  validusque  in  veniens  stimulus. 


ANNO  X 


1903 


VOL.  X 


N.  29 


LITHO-TYP.  E  KNC.  RKIS  Ã:  C. 
Rm  Dr.  Manoel  VMorino.  23  o  2^ 

\  í K)  '1 


REVISTA 


DO 


liislilnli)  Gtomliito  c  IIíéiím  k  Balia' 


Anno  X 


1003 


11.29 


MEMORIA  HISTÓRICA 

Sobre  os  acoateciiiieotos  de  24  de  Novembro  de  1891 

j\jA  B/\Hi/\  n 


||v.3^ENDO  o  Paiz  publicado  alguns  artigos 
ll^-^C  ha  cerca  de  dous  annos,  sob  o  titulo 
^  '^  Evangelho  da  Republica  e  ultimamente 
transcriptos  no  Diário  de  Noticias  daqui, 
nos  quaes  são  contados,  com  certas  lacunas  e 
enganos,  os  factos  referentes  ao  24  de  novembro 
de  1891  e  que  pertencem  á  historia  da  Bahia, 
entendi  dever  fazer  uma  rectificação  sobre  estes 
pontos;  n'isto,  porém,  não  vae  desejo  de  depreciar, 
de  qualquer  modo  o  trabalho  em  questão,  escripto 
por  penna  hábil  e  instruida,  orientada  por  cscla- 
reciao  espirito  de  critica  e  traçado  com  vigor  e 
franqueza .  que  fazem  honra  ao*  seu  author;  tra- 
balho útil  que  descreve  os  factos  mais  notáveis  de 
uma  cpocha,  desvendando  á  sciencia  e  ao  povo 


(*)  Memoria  lida  na  sessão  magna  do 
190^,.  pelo  orador  Dr.  Braz  H.  do  Amaral. 


Instituto  de  3  de  Maio  de 


brazíleiro  muitos  acontecimentos  importantes  de 
sua  vida  politica. 

São  os  seguintes  os  pontos  da  contestação: 

— Em  primeiro  logar  o  sr.  Zama  não  depoz 
o  dr.  Manoel  Victorino  á  frente  de  lim  grupo 
de  assallariados. 

Em  outro  dia  será  a  verdade  doeste  caso  resta- 
belecida completamente. 

Quanto  ao  24  de  novembro  convém  ficar  bem 
claro  que  não  tinha  o  sr.  José  Gonçalves  grande 
popularidade. 

« Que  não  foi  o  que  se  deu  com  o  Sr.  José 
Gonçalves  o  que  se  passou  com  o  dr.  Manoel 
Victorino  e  o   marechal  Hermes. 

Que  não  foi  acclamada  junta  provisória  com- 
posta de  Tude,  Freitas  e  Couto. 

Que  não  foi,  depois  delia  constituida,  enviada 
intimação  ao  governador. 

Que  não  houve  na  véspera  reunião  dos  chefes 
politicos,  em  que  José  Gonçalves  quiz  passar  o 
governo  ao  sr.  Luiz  Vianna. 

Que  o  sr.  Zama  não  agiu  por  saber  que  por 
dctraz  d'elle  estava  o  chefe  militar  da  guarnição 
c  sim  apenas  dois  coronéis. 

Que  á  noite  magotes  de  populares  e  soldados 
não  espingardcaram  a  torto  e  a  direito. 

Que  não  chegara  a  palácio,  ao  mesmo  tempo 
a  noticia  de  que  milhares  de  boletins,  espalhados 
pela  cidade,  annunciavam  que  o  commandante  do 
districto  se  vira  na  contingência  deassumir  o  poder. 

Que  a  guarnição  não  se  manifestou  protestando 
logo  no  dia  seguinte. 

Que  o  general  Tude  além  do  dr.  Satyro  Dias 
não  pretendeu  que  outro  deputado,  ou  senador 
assumisse  a  administração. 


Que  não  foi  pela  recusa  dos  magistrados  locaes 
que  exerceu  o  cargo  de  chefe  de  policia  o  co- 
ronel Moreira  César. 

Que  não  promoveu  o  coronel  Abreu  e  Lima 
uma  reunião  de  políticos  de  ambas  as  parciali- 
dades, accordando  todos  em  que  José  Gonçalves 
reassumisse  o  cargo  para  renuncial-o  depois. 

Mais  do  que  uma  rectificação  este  estudo  tem 
por  fim  provocar  provas  e  estudos,  exhibição  de 
documentos  e  de  detalhes  que  servirão  para  o 
historiador  futuro. 

Se  conseguir  isto  nutro  a  convicção  de  que 
terei  prestado  um  serviço  a  minha  pátria. 

O  sr.  José  Gonçalves  da  Silva,  o  primeiro 
governador  constitucional  do  Estado  da  Bahia, 
não  foi  apresentado  a  este  alto  posto,  quando  o 
exerceu  interinamente,  pela  sua  parte  na  propa- 
ganda republicana,  nem  pelas  suas  qualidades  de 
politico,  nem  popularidade  propriamente,  ou  ele- 
mentos de  capacidade,  talentos  e  pratica  da  admi- 
nistração que  o  recommendassem  a  todo  o  Estado 
ou  á  capital,  pelo  menos. 

Tendo  manifestado  sua  adhesão  á  Republica, 
após  o  i5  de  novembro,  ficara  indicado  por  isto 
como  influencia  dedicada  ao  novo  regimen  na 
zona  sertaneja,  onde  tem  suas  fazendas  de  gado. 

Foi  o  dr.  Virgilio  Damásio  quem  apresentou 
o  seu  nome  para  substituil-o  ao  general  Deodoro, 
e  isto  affirmo  por  m'o  ter  elle  dito. 

Dotado  de  muita  honra  como  homem  parti- 
cular faltava  ao  novo  governador  a  somma  de 
instrucção  e  tolerância  politica,  de  conhecimentos 
em  direito  administrativo  de  qu.e  precisava,  assim 
como  a  intuição  delicada  e  fina  das  mil  outras 
comprehensões,  sem  as  quaes  não  é  possível  nos 
nossos  tempos  governar. 


Não  era  um  espirito  liberal,  nem  tinha  o  pre- 
paro republicano  sufficiente  para  chefe  de  um 
Estado  constituído  nos  moldes  mais  adiantados 
da  livre  America  do  Norte. 

Homem  de  bòa  fé  e  lealdade  para  com  os 
seus  amidos,  não  tinha  a  agudeza  indispensável 
aos  políticos,  nem  a  reflexão  cautelosa  de  que 
tanto  carecem  os  que  dirigem. 

Um  episodio  cfeu-me  muito  cedo,  ainda  no 
tempo  do  systema  provisório  no  Estado,  idéa  dos 
elementos  de  que  dispunha  o  espirito  do  go- 
vernador.   . 

Em  uma  simples  visita  de  cortezia  cahiu  a  con- 
versa sobre  a  instrucção  e  em  duas  ou  três  expan- 
sões a  suprema  autoridade  do  Estado  revelou  tão 
completa  falta  da  mais  curial  leitura  sobre  este 
importante  assumpto,  que  eu  fiquei  atterrado. 

E  fallava  com  tanta  firmesa,  tão  sorridente 
e  seguro,  que  não  me  ficou  a  menor  duvida  de  que 
estava  ali  uma  alma,  que  ingenuamente  se  abria, 
como  a  de  David,  sem  a  comprehcnsão  da  sua 
insuíficiente  cultura  ou  o  receio  sequer  de  que 
estivesse  dando  razões  para  que  fizessem  um  juízo 
desvantajoso  da  sua  capacidade. 

Entretanto  o  governador  fazia  numerosos  ami- 
gos políticos,  e  se  chegou  assim  ao  termo  dos  tra- 
balhos da  constituinte. 

A  eleição  do  sr.  José  Gonçalves  foi,  como  a  sua 
nomeação,  uma  surpròsci  c  o  resultado  de  um 
golpe  audacioso. 

l)esejava-se  no  Rio  de  Janeiro,  queria  o  barão 
de  Lucena  e  queria  o  marechal  Deodoro  que  o 
governador  do  novo  Estado  a  se  constituir  fosse 
o  sr.  Aftonso  dqi  Carvalho,  velho  jurisconsulto, 
então  ministro  da  justiça  do  governo  federal. 

Éra  incontestavelmente  pelo  lado  da  intelli- 
gencia,    da   autoridade   politica   e  jurídica,  pela 


edade,  energia  e  prudência,  uma  boa  escolha; 
mas  aos  constituintes  da  Bahia,  aos  próceres  do 
partido,  pareceu  humilhante  sujeitarem-se  a  uma 
estréa  tão  pouco  a  seu  gosto  das  liberdades  e  pre- 
rogativas  constitucionaes,  de  que  ainda  iam  gosar. 

Sob  o  ponto  de  vista  politico  era  um  mal  de 
incommensuravfel  alcance  para  o  partido  federa- 
lista deixar  escapar  a  occasião  de  ter  um  homem 
de  sua  confiança  e  acceitar  um  outro  oue  não 
tinha  com  esse  partido  obrigações  e  que  aaria  ao 
seu  governo  um  outro  rumo. 

Havia  a  assembléa  constituinte  do  Estado  resol- 
vido adiantar  seus  trabalhos  para  promulgar  a 
constituição,  que  cila  elaborara,  no  dia  2  de  Julho. 

Resolvera  também  que,  feita  a  promulgação, 
se  procedesse  a  eleição  do  i  .**  governador,  con- 
firmando nesse  cargo  o  provisório  dr.  José  Gon- 
çalves da  Silva. 

Promulgada  a  constituição  no  dia  2,  no  dia 
seguinte  se  faria  a  eleição  do  governador  e  três 
dias  depois  seriam  elfectuados  o  juramento  e 
posse,  porque  neste  intervallo  se  preparariam 
festas  que  os  amigos  do  congresso  desejavam  fazer. 

No  dia  i."*  de  Julho,  porém,  ás  10  horas  da 
noite,  o  coronel  Innocencio  Galvão  de  Queiroz, 
commandante  do  districto,  recebeu  do  marechal 
Deodoro  um  telegramma  concebido  nos  seguintes 
termos  —  Quero  Affonso  eleito. 

De  posse. deste  telegramma  procurou  o  coro- 
nel Innocencio  o  dr.  José  Gonçalves  e  deu-lhe 
conhecimento  de  tudo,  tentanao  chegar  a  um 
accordo. 

O  sr.  José  Gonçalves,  á  meia  noite,  mandou 
o  sr.  Manoel  da  Costa  Vianna  á  casa  do  dr.  Luiz 
Vianna,  presidente  do  congresso,  entregar-lhe  copia 
do  telegramma  e  as  particularidades  que,  sobre  o 


assumpto,  se  tinham  passado  com  o  comman- 
dantc  do  districto. 

O  dr.  Luiz  Vianna  recebendo  o  mensageiro 
mandou-lhe  que  voltasse  para  prevenir  ao  Sr.  José 
Gonçalves  que  no  dia  seguinte,  ao  meio-dia,  esti- 
vesse preparado  para  tomar  posge  do  cargo  de 
governador. 

Logo  pela  manhã  foram  dadas  certas  provi- 
dencias e  ao  meio-dia  abriu-se  a  sessão,  tendo  a 
palavra  o  i."  vice-presidente,  dr.  Satyro  Dias, 
para  ler  o  artigo  da  constituição  referente  aos 
direitos  e  garantias  dos  cidadãos,  depois  do  que  o 
presidente  promulgou  a  constituição  e  annunciou 
que,  em  virtude  de  disposição  constitucional,  se 
ia  proceder  immediatamente  á  eleição  do  gòvcr- 
naaor. 

Feita  esta  eleição  o  dr.  José  (íonçalvcs  obteve 
5o  votos  contra  ii,  quê  foram  dados  pelos  depu- 
tados da  opposição,  ao  velho  e  respeitável  repu- 
blicano dos  tempos  do  império  Luiz  António  Bar- 
bosa de  Almeida;  proclamado  o  resultado,  decla- 
rou o  dr.  Luiz  Vianna  que  ia  mandar  oíficiar  ao 
governador  eleito  para  tomar  posse  immediata- 
mente c  prestar  juramento,  nomeando  uma  com- 
missão  composta  dos  srs.  Innoccncio  Galvão, 
(íeremoabo  e  Satyro  Dias,  para  ir  buscal-o  á 
Victoria. 

Tanto  era  uma  surprcza  que  o  próprio  barão 
de  (Íeremoabo,  intimo  do  dr.  José  (joncalves,  se 
dirigiu  ao  sr.  Luiz  Vianna  rcclamancío  contra 
aquelle  empossamento  precipitado,  em  opposição 
ao  que  estava  combinado  c  mostrando-se    ma- 


goado. 


Quando,  portanto,  chegou  ao  Rio,  na  tarde 
deste  dia,  a  noticia  da  promulgação  da  constitui- 
ção bahiana,  chegou  também  a  noticia  da  elei- 
ção e  posse  do  governador. 


9 


Este  acto  cortava  todas  as  pretensões  e  o 
coronel  Galvão  transmittiu  ao  general  Deodoro 
um  despacho,  pouco  mais  ou  menos,  concebido 
nestes  termos : 

^Congresso  hoje  promulgou  constituição,  elegeu 
José  Gonçalves  governador,  empossou-o.  Impossivel 
qualquer  providencia  eleição  Affonso,  a  não  haver 
grandes  violências,  derramamento  sangue.  Preferi 
evitar.» 

O  novo  governador  administrou  dessa  data 
em  diante,  senão  com  a  larga  orientação  de  que 
. o  Estado  precisava,  para  alcançar  os  melhoramen- 
tos e  prosperidades  que  tinha  o  direito  de  esperar 
do  novo  regimen,  então  constituidoe  livre  de  peias, 
e  que  não  chegaram  a  se  executar  até  agora,  pelo 
menos  com  honestidade  e  economia. 

Assim  passaram-se  quatro  mezes. 

A  3  de  Novembro  de  1901  soube-sede  repente 
que  o  general  Deodoro  dissolvera  o  congresso,  ras- 
gando assim  de  alto  a  baixo  a  carta  constitucional, 
que  havia  jurado  em  24  de  Fevereiro. 

Cosme  de  Salles  no  Evangelho  da  Republica^ 
não  poude  saber  o  que  se  passou  na  Bahia  ;  se  é 
verdade  que  muita  gente  calou  a  sua  indignação, 
e  escondeu  o  seu  terror,  por  medo,  para  não  se 
compromctter,  por  não  ter  coragem  de  dizer  como 
pensava,  felizmente,  tanto  na  Camará  como  no 
Senado  da  Bahia,  duas  vozes  não  foram  abafadas 
pelo  vento  da  subserviência  que  no  Itamaraty 
.  soprara  tão  rijo  que,  no  palacete  da  Victoria,  se 
sentia  os  eíFeitos  e  fazia  tudo  curvar. 

Destas  duas  vozes,  uma  a  de  um  republicano 
da  propaganda,  de  um  dos  caracteres  mais  nobres 
e  mais  altivos  que  tenho  conhecido,  vibrava  n'uma 
independência  temerária  e  angustiada,  quasi  como 
quando  um   soluço   interrompe  um  apostrophc  : 


10 


era  a  de  Cosme  Moreira;  a  outra,  de  um  juris- 
consulto, mais  ponderada  e  calma,  em  que  a  ma- 
neira diplomática  pesa  o  valor  dos  termos,  mais 
cabeça  que  falia  do  que  coração  que  sente ;  era 
a  do  Dr.  Eduardo  Ftamos. 

Dizia  Cosme  Moreira  na   Gamara  na  sessão 
memorável  do  dia  5. 

«  O  Sr.  Cosme  Moreira  (pela  ordem  e  fazendo- 
.  se  silencio ) :  Sr.  Presidente,  vae  para  dous  annos 
que  entre  os  meus  sonhos  de  moço,  entre  as 
minhas  esperanças  de  republicano,*  despontava 
glorioso  um  dia  que  parecia  ser  o  inicio  do  pro- 
gresso da  minha  pátria  !  Dia  grande,  auspicioso, 
triumphante  para  os  grandes  factores  do  immortal 
movimento  de  i5  de  Novembro  I 

E  eu  enchia-me  de  verdadeiro  jubilo! 

A  minh'alma  inundava-se  de  verdadeira  ale- 
gria. . .  Depois  as  esperanças  foram-se  dissipando 
como  nuvens  batidas  por  fortes  ventos ;  o  céo  da 
pátria  foi  se  mostrando  mais  carregado!  E  aquelles 
aue  seguiam  com  o  coração  e  a  intelligencia  os 
destinos  d'ella  foram  descortinando  as  nuvens 
prenhes  de  grande  tempestade  [muito  bem).  E 
parece  aue  ella  acaba  de  estalar !  O  homem  que 
foi  escolhido  pelo  destino  para  occupar  a  eleva- 
dissima  posição  de  chefe  de  uma  nação  livre, 
deixou-se  obumbrar,  fascinar  pelas  victorias  al- 
cançadas; deixou-se  inebriar  em  doces  miragens 
que' para  elle,  sr.  presidente,  hão  de  transformar- 
se  em  um  quadro  bastante  triste,  se  a  consciência 
de  todo  ainda  não  se  lhe  apagou,  porque  acaba 
de  dar  o  ultimo  passo  na  estrada  perigosa,  para 
o  abysmo  do  crime!  [Apoiados^  muito  bemjj>. 

E  referindo-se  a  um  discurso  de  Silva  Jardim 
nacommemoraçãode  Tiradentes,  cuja  explendida 
peroração  reproduziu,  terminou  dizendo: 


Jl 


«A  minha  voz  não  foi  sagrada  pelas  acclama- 
ções  populares,  não  despertou  osomno  das  turbas 
para  ouvir  as  suas  desgraças,  não  tem  por  si  auto- 
ridade alguma,  mas  exprime  uma  grande  convic- 
ção I  Silva  Jardim  não  está  mais  vivo  para  ir  frente 
íi  frente  ao  grande  déspota  dizer-lhe :  rasgaste  a 
constituição  promulgada  que  juraste ;  dividistes 
a  tua  pátria  em  vencedores  e  vencidos:  e  eu 
ainda  que  muito  longe  do  dictador  mas  com  a 
minha  consciência  de  homem  livre,  que  não  se 
escravisa,  digo:  general,  a  imagem  de  Tiradentes 
terrível,  como  o  remorso  que  te  rasgará  o  coração 
condcmna-te  para  todo  o  sempre ;  general,  tu  não 
foste  forte  porque  foste  covarde,  logo  não  foste 
governo;  general,  tu  não  foste  bom,  foste  máo; 
tu  não  foste  povo,  destruíste  a  tua  pátria !  » 

Sr.  presidente  dà  camará  dos  deputados  do 
estado  da  Bahia: — Os  últimos  actos  emanados 
do  poder  executivo,  actos  altamente  attentatorios 
á  nossa  constituição  federal,  jurada  solemnemente 
e  promettida  manter  pelo  presidente  da  repu- 
blica, actos  que  não  se  justificam,  nem  como 
ultima  ratio  da  salvação  publica,  da  pátria  re- 
publicana em  perigo,  pois  o  congresso  nacional 
dissolvido  não  pôde  de  modo  algum  ser  suspeitado 
de  conspirar  para  a  restauração  do  regimen  mo- 
narchico,  obrigam-me  a  depor  em  vossas  mãos  o 
mandato  de  deputado  pelo  Estado  da  Bahia. 

Republicano  sinto  n'alma  todas  as  grandes 
dores  de  patriota,  não  desilludido,  mas  avassa- 
lado por  um  desanimo  moral  tão  grande  que  im- 
pede-me,  n^este  momento,  o  exercício  autónomo 
de  minhas  faculdades  moraes  e  intellectuaes. 
Joguete  como  sou,  batido  por  choques  tão  desen- 
contrados e  oppostos,  não  me  julgo  capaz  de  con- 
tinuar a  legislar  conscienciosa  e  livremente  pela 
felicidade  do  meu  Estado. 


12 


Suspensas  as  garantias  individuaes,  íjuero  ni- 
velar-me  com  o  ultimo  dos  meus  concidadãos  e 
com  elles  cahir  sob  a  alçada  da  lei  que  sum- 
marissimamente  tiver  de  julgar  os  inimigos  da 
republica  ». 

Foi  ás  dez  da  noite  do  dia  3  de  Novembro  que 
o  governador  José  Gonçalves  recebeu  o  tele- 
gramma  do  governo  communicando  a  dissolução 
ao  congresso. 

Immediatamente  convocou  clle  o  Sr.  Luiz 
Vianna  e  o  Dr.  Satyro  Dias  para  irem  a  uma  con- 
ferencia no  dia  4,  ás  7  horas  da  manhã. 

Surpresos  pela  hora  lá  se  acharam  e  depois  de 
conhecerem  o  assumpto  combinaram  responder 
ao  marechal  Deodoro  nos  seguintes  termos : 

aSciente.  Governo  se  esforçará  manter  ordem^s^. 

Esta  resposta  lacónica  tinha  tudo  o  que  era  pre- 
ciso sem  estabelecer  o  mínimo  compromisso. 

Na  camará  já  sabemos  como  a  alma  intemerata 
de  Cosme  Moreira  se  levantou  contra  a  violação 
da  lei  fundamental  da  republica. 

No  senado,  a  pérola  da  sessão  foi  o  discurso 
repassado  de  patriotismo,  illuminado  pelo  fulgor 
do  talento  e  pela  superioridade  que  dá  a  emoção 
da  liberdade  unida  a  erudição  juridica,  com  que 
o  Dr.  Eduardo  Ramos  profíigou  o  attentado,  aca- 
bando por  enviar  uma  moção  de  completa  repro- 
vação ao  mesmo. 

K  esta  a  moção. 

(( O  senado  bahiano  profundamente  sensibili- 
sado  pelo  recente  acto  do  governo  da  União  dis- 
solvendo o  congresso  federal,  confia  em  que  o 
f>ovo  deste  Estado,  mantendo-se  em  attitude  abso- 
utamente  pacifica,  aguarde  o  restabelecimento, 
que  é  para  desejar,  da  ordem  e  do  direito  consti- 
tucional ;  e  passa  á  ordem  do  dia.  — (  Assignado) 
— Eduardo  Ramos, 


1t> 
o 


Depois  o  coronel  Galvão  e  o  barão  de  Gerc- 
moabo  fallaram  sobre  o  assumpto  e  o  discurso 
justificativo  e  quasi  congratulatoriò  deste  ultimo, 
assim  como  a  moção  que  apresentou,  são,  no 
género,  das  manifestações  mais  extravagante- 
mente curiosas  e  anti-rcpublicanas  que  se  pôde 
encontrar. 

Foi  a  seguinte  a  moção  do  sr.  barão  de  Gere- 
moabo : 

((  O  senado,  sciente  do  recente  acto  do  governo 
da  União,  dissolvendo  o  congresso  federal,  confia 
no  patriotismo  do  povo  bahiano  e  do  governo, 
aguardando  os  acontecimentos  com  toda  mode- 
ração e  passa  á  ordem  do  dia.  —  S.  R. — Bahia, 
5  díe  novembro  de  1891. — (icremoabo.  » 

Nesta  emergência  o  Dr.  Luiz  Vianna  chamou 
o  Dr.  Manoel  Victorino  e  fazendo-lhe  ver  a  gra- 
vidade da  situação,  ponderando  que,  tendo  o 
partido  amigos  c  representantes  no  Rio  de  Janeiro, 
cuja  attitude  não  se  sabia  qual  seria,  qualquer 
resolução  que  se  tomasse  seria  prematura,  pelo 
que  combinaram  na  seguinte  moção  de  espe- 
ctativa  no  sentido  do  telegramma  enviado  a  Deo- 
doro  e  que  collocava  a  questão  aqui  sob  a  lealdade 
que  o  governador  devia  á  constituição  do  Estado 
e  á  da  União  : 

MOÇÃO 

«  O  senado  confia  na  lealdade  e  patriotismo 
do  povo  bahiano,  ria  honra  e  civismo  do  gover- 
nador do  Estado;  presta-lhe  todo  o  seu  apoio  para 
que  seja  mantida  a  ordem  e  respeitadas  as  con- 
stituições da  União  e  do  Estado  e  passa  á  ordem 
do  dia. — S.  R. — Bahia,  5  de  novembro  de  1891. 
— M.    Victorino  » . 

Foi  esta  a  moção  approvada,  mas  o  senador 
Dr.  Horácio  César,  nobre  c  digno  espirito  inde- 


14 


pendente,  levantou-se  e  pediu  que  se  declarasse 
na  acta  ter  votado  á  favor  da  apresentada  pelo 
sr.  Eduardo  Ramos. 

Quando  pela  imprensa  da  tarde,  já  de  torna- 
viagem,  souberam  os  bahianos  do  segundo  tele- 
gramma  do  sr.  José  Gonçalves  manifestando 
franca  e  completa  adhesão  ao  golpe  d'Estado,  os 
politicos  se  espantaram  e  o  sr.  Luiz  Vianna,  per- 
guntando ao  governador  se  era  verdadeira  a 
noticia,  da  qual  duvidava,  elle  que  nada  até  então 
dissera  aos  seus  amigos,  respondeu  que  de  facto, 
enthusiasmado  com  a  leitura  do  manifesto  sobre 
a  dissolução,  cuja  integra  recebera  na  noite  de  4 
por  telegramma,  não  se  poderá  conter  e  mandara 
o  tal  compromisso  exposto  nos  seguintes  termos: 

«Generalíssimo — Acabo  de  lêr  o  vosso  mani- 
festo a  Nação  e  podeis  contar  com  a  minha  leal 
collaboraçáo  para  o  desempenho  dos  compro- 
missos de  honra  que  galhardamente  tomastes  para 
com  o  nosso  paiz  e  o  mundo». 

Não  foi  só,  como  bem  diz  o  Evangelho  da 
Republica,  grande  o  erro  dos  constitumtes  co- 
piando a  nossa  lei  fundamental  da  de  um  povo 
adiantado  e  capaz  de  comprehender  e  pôr  em 
pratica  as  suas  liberdades;  erro  maior  amda  foi 
não  terem  os  constituintes  calculado  também  que 
se  ia  entregar  este  machinismo  delicado  e  difhcil 
de  manejar,  que  acabavam  de  construir,  a  estan- 
cieiros  e  sargentões,  o  que  equivalia  a  entregar 
uma  machina  finissima  a  operários  inhabeis,  dos 
que  têm  apenas  tinturas  do  otficio. 

Não  é  o  nosso  código  explicito,  na  penalidade, 
como  devia,  sobre  os  crimes  poliiicos  da  ordem 
do  commettido  pelo  general  Dcodoro,  e  ainda 
menos  sobre  os  seus  co-reus  e  cúmplices. 

Nos  arts.  109  a  114  diz,  porém,  quaes  os 
commettidos  contra  o  livre  exercício  dos  poderes 


15 


políticos,  c  que  são  os  capitulados  pelos  juristas 
allemães  e  inglezes  crimes  de  alta  traição. 

Pela  altitude  que  àssumio  o  governador,  não 
foi,  segundo  o  nosso  código,  um  co-author  do  facto 
delictuoso;  foi  um  connivente  moralmente  res- 
ponsável pela  violação  da  lei  magna  que  applaudiu 
e  cuja  completa  execução  ajudou. 

Os  processos  que  sé  encontram  na  historia  de 
muitos  povos  sobre  crimes  desta  natureza  são 
variadissimos  e  ditficeis  ás  vezes  de  classificar 
perante  as  regras  normaes  do  direito. 

Este  crime  de  alta  traição  tem  feito  cahir 
cabeças  muito  illustres,  não  só  dos  authores,  como 
dos  cúmplices,  conniventes  e  outros  co-réus, 
sendo  muitas  vezes  encarada  a  culpa  de  modo 
diverso  daquella  pela  qual  devia  ser  julgada,  ou 
exagerada  pela  paixão  politica. 

Quando  por  exemplo  o  sangue  de  Thomaz 
Wenthworth,  conde  de  StraíFord,  tingiu  o  cada- 
falso inglez,  se  bem  que  elle  soffresse  o  supplicio 
por  ter  auxiliado  o  seu  rei  a  falsear  e  destruir 
a  constituição  daquelle  paiz,  que  estabelece,  o 
governo  exercido  por  um  rei  e  duas  camarás,  não 
o  soíFreu  justamente,  porque,  a  maioria  dos  actos 
criminosos  attribuidos  a  StratFord,  fizera-os  elle, 
por  ordem  de  seu  senhor  e  de  tal  modo  fora  evi- 
dente a  sua  defesa  que  necessário  se  tornou, 
adoptando  a  mais  monstruosa  tyrannia,  que  regis- 
tram os  annaes  politicos  do  mundo,  que  o  longo 
parlamento  pelo  celebre  bill  de  attainder,  condem- 
nado  por  todos  os  jurisconsultos  da  epocha,  o 
tivesse  decretado  criminoso  no  processo  em  que  se 
devia  apurar  a  culpa  de  que  era  accusado^  ao  passo 
que  o  governador  de  cá,  acceitando  a  destruição 
da  constituição,  applaudindo-a  e  alinhando-se  ao 
lado  do  falséador,  e  ipso-facto  violando  também  a 
do  Estado,  subsistente  em  consequência  daquella. 


ií; 


o  que  íizera  muiio  por  sua  vontade,  sem  ouvir 
sequer  os  chefes  mais  conspicuos  do  partido,  teve 
a  mais  positiva  connivencia  com  o  acto  crimi- 
noso e,  portanto,  é  por  elle  moralmente  respon- 
sável. 

Foi,  voltando  de  S.  Christovão,  com  oDr.  Ber- 
nardino de  Campos,  depois  de  ouvirem  do  coronel 
que  commandava  aquelle  posto,  que  empregaria 
a  força,  dado  o  caso  que  teimassem  em  penetrar 
Os  representantes  no  recinto  de  suas  sessões,  que 
resolveram  estes  dirigir  um  manifesto  á  nação ;  mas, 
como  o  estado  de  sitio  pesava  sobre  a  capital,  não 
foi  possivel  publical-o  no  districto  federal,  razão 
pela  qual  só  poude  ser  impresso,  depois,  em 
S.  Paulo. 

Combinaram  também  muitos  delles,  entre  os 
quaes  Zama,  Custodio  e  outros,  se  dirigirem  ao 
general  Floriano,  aue  tendo  declarado  primeiro 
ser  o  carneiro  do  oatalhão,  com  sinceridade  ou 
sem  ella,  como  prova  de  acquiescencia  ao  acto  de 
Deodoro,  acabou  por  ceder  ás  razões  dos  outros, 
promettendo  auxilio  e  pòr-se  á  frente  do  movi- 
mento que  devia  restabelecer  a  lei. 

Dias  depois  o  deputado  Custodio  de  Mello  en- 
controu o  deputado  César  Zama,  seu  patrício,  na 
rua  do  Ouvidor,  que  ia  em  companhia  do  senador 
Almeida  Pernambuco,  e  declarou-lhe  que  tinha 
assumpto  muito  grave  a  tratar. 

Entraram  os  três  n'um  café  e  ahi  Custodio 
revelou  ^jue  se  preparava  um  movimento  militar 
para  o  dia  27  de  Novembro,  do  qual  Floriano, 
Vice-Presidente  da  Republica,  era  o  cabeça,  pelo 
que  mandava  este  dizer  ao  deputado  Zama,  ser 
urgente  a  sua  partida  para  a  Bahia,  porque  apezar 
de  serem  boas  as  probabilidades  de  victoria  não 
se  poderia  prever  a  resistência  que  opporia  o 
governo ;  n'esta  hypothese  o  que  estava  assentado 


17 


era  retirar-sc  o  Vicc-Prcsidentc  para  um  ponto  do 
território,  que  nío  podia  deixar  de  ser  a  Bahia, 
com  os  senadores  e  deputados  que  pudesse  reunir 
e  as  forças  de  que  pudesse  dispor,  para  ahi  es- 
tabelecer o  governo  legal  e  começar  a  guerra 
contra  a  dictadura. 

Era  pois  a  guerra  chilena  que  o  Marechal  pre- 
tendia reproduzir  e  pensava  muito  acertadamente. 

Ora,  n'estas  condições,  forçoso  era  possuir  a 
Bahia  sem  o  governo  do  sr.  José  Gonçalves,  cujo 
applauso  ao  golpe  de  Kstado  revelava  para  o  que 
podia  elle  servir. 

A  missão  do  sr.  Zama  era,  portanto,  partir 
immediatamentc  para  aqui,  entender-se  com  o 
Coronel  iMoreira  César,  commandante  de  um  dos 
batalhões  da  guarnição  e  homem  de  energia  c 
vigor,  e  com  outros  oíficiaes  também  já  prevenidos 
para  derrubar  o  governo  existente,  na  Bahia,  e 
preparar  o  Kstado,  para  o  caso  de  ser  o  centro  da 
resistência  e  da  ordem  constitucional ;  se  fosse 
necessário  o  movimento  tinha  alguns  navios  já 
seguros  e  um  destes  viria  a  Bahia  por-se  ao  serviço 
da  causa. 

Foi  nestas  idéas  que  o  sr.  Zama  e  o  Coronel 
Moreira  César  trataram  e  nestas  disposições  foi 
convocada  uma  reunião  para  a  noite  de  23,  em 
casa  do  dr.  Almeida  Couto,  a  mesma  de  que  falla- 
remos  em  outro  logar. 

A  descoberta,  porem,  da  conspiração  no  Rio  de 
Janeiro,  e  as  medidas  do  governo  precipitaram  o 
movimento  que  rompeu  na  Bahia  Guanabara,  pelo 
pronunciamento  do  Biachndo,  sob  a  direcção  de 
Custodio  de  Mello,  de  modo  que  no  mesmo  dia  23 
chegava  a  noticia  telegraphica  da  resignação  do 
General  Deodoro. 

Já  ha  dias,  reuniam-se  no  quarto  n.  i8  do 
hotel  Pariz  no  aposento  do  Coronel  Moreira  César, 

3 


IS 


que  chegara  de  Sergipe,  os  srs.  Jaymc  Villas- 
bòas,  Cruz  Rios,  Júlio  César,  deputados  estadoaes, 
e  Augusto  de  Freitas,  deputado  federal;  tratavam 
elles  todos  patrioticaniente  de  agir  contra  o  golpe 
de  Estado;  a  todos  illuminava  com  o  brilho  e  com- 
petência de  sua  cultura  e  o  vigor  de  sua  palavra 
o  deputado  Augusto  Freitas;  entre  elle  e  o  Coro- 
nel Moreira  César  estabeleeera-^se  mesmo  uma 
corrente  poderosa  de  sympathia  e  de  alfecto. 

Estes  homens  por  seu  turno  ligaram-se  ao 
sr.  Conselheiro  Almeida  Couto,  chefe  do  partido 
Nacional,  porque  bem  comprehendiam  todos  que 
a  reacção  aevia  ser  popular  e  não  apenas  militar; 
pelo  que  era  necessário  que  fosse  apoiada  por  um 
partido. 

Na  persuasão  que  a  revolução  no  Rio  fosse  a 
27  já  se  tinha  convocado  para  a  noite  de  23  uma 
reunião  em  casa  do  chefe,  o  Conselheiro  Almeida 
Couto,  quando  se  soube  no  meiado  desse  dia  os 
acontecimentos  do  Rio. 

A  bem  entender  as  cousas,  não  havia  mais  razão 
de  ser  para  a  revolução  da  Bahia,  porque  a  resi- 
gnação do  iMarechal  Deodoro  uUrapassara  os  pro- 
jectos a  um  tempo  sensatos  e  estratégicos  de  Flo- 
riano,  mas  os  conjurados  entenderam  apesar  de 
tudo  fazcl-a. 

E  comprehende-se  porque.  Ao  interesse  legi- 
timo de  servir  tão  nobre  causa  juntava-se  agora  o 
de  não  perder  a  occasião,  para  se  apossarem  desta 
autoridade,  de  que  andavam  desalojados  ha  muito 
tempo.  Punham-se  fora  da  lei  os  que  pretendiam 
apoderar-se  da  administração  publica,  pelo  meio 
violento  da  revolta,  pois,  acabada  a  dictadura, 
deixara  logicamente  de  ser  delia  agente  osr.  José 
Gonçalves. 

A'  essa  reunião  em  casa  do  Conselheiro  Almeida 
Couto  em  que  foi  tratada  e  definitivamente  assçn- 


11» 


tada  a  conspiração,  compareceram  os  srs.  Zama, 
Cincinato,  Freitas,  Coronéis  xMoreira  Cezar  e  Sa- 
turnino, drs.  Rocha  Leal,  Rios,  Jayme,  Capitão 
Júlio  César,  dr.  Landulpho  Medrado  e  outras 
pessoas,  cerca  de  40,  que  não  tiveram  no  mo- 
vimento grande  papel. 

Nella  ticou  assentado  parte  do  plano  do  que 
se  devia  fazer  no  dia  seguinte. 

Foi  no  meio  desta  reunião  que  compareceu  o 
dr.  Paula  Guimarães,  deputado  federal,  conhe- 
cido pela  sua  opposicão  ao  golpe  de  Estado,  que, 
chegando  do  Rio,  dissera  sincera  e  singelamente 
ao  sr.  José  Gonçalves,  que  o  poder  dictatorial 
devia  cahir  e  que  elle  não  tinha  caminho  decente 
e  honesto,  senão  a  resignação  do  cargo. 

Pediu  que  não  fizessem  uma  deposição  vio- 
lenta, declarou  que  sabia  estar  o  sr.  José  Gon- 
çalves disposto  a  resignar  e,  diante  das  negativas 
dos  conjurados,  solicitou-lhes  que  ao  menos  espe- 
rassem, antes  de  resolver,  que  elle  se  entendesse 
com  o  General  Tude. 

Foi  ao  quartel-general  e  respondeu  cerca  de 
meia  hora  depois  que  nada  pudera  obter. 

São  passados  apenas  onze  annos  e  sobre  muitos 
pontos  encontrei  eu  duas  ou  três  versões,  e  o  que 
mais  é,  entre  os  próprios  actores  da  tragedia. 

Neste  caso  está  a  constituição  da  Junta. 

Devia  compòr-se  dos  srs.  Couto,  Augusto  de 
Freitas  e  Tude,  dizem  os  artigos  dos  jornaes  Ja 
epocha  e  o  dr.  Severino  Vieira. 

Devia  ser  composta  dos  srs.  Couto,  Freitas 
e  Freire  de  Carvalho,  opina  o  sr.  Conselheiro 
Luiz  Vianna. 

Não  entravao  General  Tude,  affirma o  dr.  César 
Zama,  e  sim  o  dr.  Virgilio  Damásio,  e  o  mesmo 
affirmam  o  dr.  Rocha  Leal,  o  dr.  Landulpho 
c  outros  que  conheciam  os  negócios  projectados. 


20 


O  sr.  Araújo  Pinho  não  acccitara. 

Na  manhã  de  24,  boatos  de  tumulto  e  de  depo- 
sição corriam  pela  cidade  e  pelas  g  horas  o  sr. 
César  Zama,  cuja  popularidade  devia  ser  natural- 
mente o  brandão  do  movimento  revolucionário, 
appareceu  na  Praça  de  Palácio  e  foi  depois  a  cidade 
baixa  pedir  que  fechassem  os  negociantes  as  portas; 
como  sempre,  as  classes  conservadoras  tiveram 
medo  e  fecharam  logo. 

O  sr.  César  Zama  voliou  á  Praça  cerca  de  10 
horas;  jí'i  o  acompanhava  uma  certa  porção  de 
gente;  cahia  por  intervallos  uma  chuva  miúda, 
que  fazia  dispersar  os  que  se  agrupavam  de  novo, 
passada  ella,  para  ouvir  o  tribuno,  querido  do 
povo. 

Ali,  sobre  o  passeio  da  camará  municipal  teve 
clle  uma  violenta  discussão  com  o  sr.  Severino 
\'ieira,  deputado  federal,  que  chegara  na  véspera 
do  Rio  de  Janeiro. 

Inimigo  do  golpe  de  Estado,  este  dizia  entender 
que  o  Governador  se  achava  incompativel,  mas 
que  estava  a  seu  lado  para  impedir  a  violência 
de  uma  deposição. 

Responsabilisava  em  altas  vozes  o  tribuno,  no 
meio  do  povo  que  o  cercava,  e  bradou-lhe  aíinal 
que  não  conseguiria   o  que  desejava  fazer. 

O  poderoso  chefe  popular  era  um  dos  vultos 
mais  sympathicos  do  antigo  partido  liberal. 

Por  muito  tempo  elle  só,  ou  quasi  só,  encarnara 
a  opposição  legal  e  por  vezes  muito  brilhante  do 
seu  partido. 

Cíímbatente  sempre  disposto  e  bravo,  discípulo 
da  escola  liberal  que  respeitando  os  princípios 
inglczcs,  detesta  qualquer  tyrannia,  parta  do  povo, 
ou  parta  do  governo,  profligou  elle  com  vigor  a 
perseguição  e  as  sevícias  feitas  pclaplebe  ao  Coronel 
Frias-Viilar,  desarmado  e  só. 


21 


Tendo  concorrido  para  a  resignação  do  dr. 
Manoel  Victorino  clle  soube  niosirar  depois  que 
não  se  sujeitava  ás  tristes  e  ignóbeis  misérias  que  a 
Bahia  soíiVeu  na  quadra  politica  que  succedeu 
áquella  administração. 

Deputado  á  Constituinte  bateu-se  pela  repu- 
blica parlamentar  e  pelos  verdadeiros  principies, 
em  que  se  estribam  as  liberdades  publicas;  inimigo 
do  golpe  de  ICstado  elle  veio  atacar  aqui  o  Gover- 
nador que  a  elle  adherira,  mas  commetteu  o  erro 
gravissimo  para  sua  terra  e  s(u  povo  de  empenhar 
sua  popularidade  numa  revolução,  cuja  opportu- 
nidade  já  tinha  passado  e  para  o  partido  o  de 
não  ter  percebido  a  sua  sagacidade  que  o  governo 
nas  mãos  do  general  Tude  era  a  perda  da  batalha 
que  emprchendera. 

Tinha  o  sr.  José  Gonçalves  sempre  agradado 
aos  militares,  e  commettera  a  falta  de  entregar  a 
força  do  Kstado  a  officiaes  de  linha,  de  modo  que 
estando  a  funccionar  no  Congresso  o  sr.  Júlio 
César  Gomes  da  Silva,  Capitão  de  infanteria  e 
Commandante  do  Corpo  de  Policia,  e  que  foi  um 
dos  filiados  ao  movimento,  estava  commandando 
a  policia  um  sargento  de  linha,  Juvencio  Rebello; 
como  se  isto  não  bastasse,  na  sua  identificação 
com  o  golpe  de  Estado,  tinha  cabido  na  ingenui- 
dade de  entregar  o  commando  da  força  policial  ao 
General  Tude,  o  que  lhe  custou  muito  caro,  como 
vamos  ver. 

Na  manhã  d\^  24,  quando  o  sr.  José  Gonçalves 
precisou  do  batalhão  e  o  Chefe  de  Policia  dr.  Pedro 
Mariani  ordenou  a  vinda  de  uma  força,  não  foi 
obedecido. 

Não  tinham,  porém,  sido  os  soldados  os  ganhos 
pela  sedição  contra  o  Governo  que  serviam,  nem 
foi  por  covardia  que  o  batalhão  não  sahiu;  pois 
não  só  a  guarda  da  Secretaria  e  a  que  tinha  subido 


á2 


do  commercio,  commandada  pelo  Tenente  Ma- 
chado, atiraram  até  esgotar  toda  munição,  defen- 
dendo a  chefatura  de  policia,  como  ainda  mais 
tarde,  quando  o  Tenente  Machado  foi  perseguido 
e  correu  o  boato  de  que  clle  estava  a  ser  feito  cm 
pedaços  pelo  povo,  e  quando  um  piquete  do  9/ 
foi  garanti r-lhe  a  vida,  os  soldados  de  policia  qui- 
zeram  sahir  do  quartel  para  defender  ou  vingar 
os  camaradas. 

Já  em  alaridos  elles  se  reúnem;  já  os  sabres 
sahem  a  meio  das  bainhas,  quando  o  Comman- 
dante  Rebello  acode,  impedindo-os  de  sahir,  tran- 
cando as  carabinas  nas  arrecadações,  gritando-lhes 
que  o  seu  armamento  é  inferior  e  que  serão  infal- 
livelmente  esmagados  pela  linha,  porque  o  General 
Tude  não  quer,  etc. 

E  realmente,  se  na  hora  em  que  o  tumulto  era 
mais  intenso  na  Piedade  o  sr.  José  Gonçalves  não 
foi  defendido  como  devia  ser,  isso  se  deu  pelo 
seguinte: 

Ou  porque  viesse  ordem  do  Chefe  e  o  Com- 
mandante  não  pudesse  desobedecer  a  ella  aberta- 
mente, ou  porque  aos  oíiiciaes  c  soldados  pesasse 
deixarem  abandonado  aos  seus  inimigos  o  Governo 
a  que  serviam,  uma  torça  considerável  desceu  a 
rampa  do  quartel  que  era  naquelle  tempo,  como 
se  sabe,  defronte  do  Quartel  General. 

Mas  quando  esta  tropa  punha  o  pé  na  rua, 
caminho  do  dever,  um  braço  vestido  em  punhos 
bordados  a  ouro  cstendcu-se  da  janella  do  i.** 
andar  do  Quartel  General  e  a  fez  voltar. 

E,  á  voz  de  esquerda  rodar  dada  pelo  official 
que  commandava  a  força,  esta  tornou  a  subir  a 
rampa. 

Se,  entretanto,  houvesse  tido  o  sr.  José  Gon- 
çalves 3o  praças  de  cavallaria  ou  100  de  infanteria 
na  Praça,  beni  commandadas,  dirigidas  por  um 


23 


Chefe  de  Policia  prudente  e  enérgico,  ali  entre  a 
sua  força  e  a  revolução,  esta  não  se  teria  realisado. 
c  isto  sem  uma  cspaldeirada,  nem  um  tiro  sequer; 
não  porque  o  sr.  Zama  deixasse  de  fallar  ( todos 
na  Bahia  conhecem  o  seu  arrojo  e  bravura  em  taes 
occasiões,  bem  provadas  no  tempo  do  governo  do 
General  Hermes),  mas  porque  ninguém  o  acom- 
panharia. 

Entretanto  desde  pela  manhã,  sabendo  pelo 
dr.  Paula  Guimarães,  que  não  podia  haver  duvida 
sobre  a  revolução  e  os  magniíicos  elementos  de 
que  ella  dispunha,  instaram  alguns  amigos  do 
sr.  José  Gonçalves  para  que  elle  fosse  ao  Quartel 
(íeneral,  porque  conhecedores  do  caracter  do 
General  Tude,  homem  fraco  e  timido,  mas  arbitro 
da  situação,  pela  força  que  chefiava,  esperavam 
que  interpellado  frente  á  frente,  e  com  energia, 
ou  se  retirasse  prudentemente,  ou  pelo  menos 
tomassem  as  coisas  nova  face. 

O  Governador,  porém,  ou  porque  não  com- 
prehendesse  a  importância  e  o  alcance  de  um  acto 
destes,  realisado  com  diplomacia  e  vigor  ou  por 
outro  motivo,  acastellou-se  em  recusa  systematica. 

Debalde  íhe  mostravam  as  vantagens  pelo 
menos  de  convidar  o  General  Tude  para  uma 
conferencia,  mas  sempre  como  resposta  obtiveram 
a  mesma  recusa. 

Acabou,  porém,  fazendo  tarde  o  que  teria  im- 
pedido provavelmente  a  revolução  se  fosse  feito 
cedo,  pois  a  requisiçf.o  da  força  federal,  com  toda 
regularidade  constitucional,  collocaria  o  seu  chefe 
na  posição  difíicilima  de  manter  a  ordem,  com  a 
vigência  das  autoridades  constituidas,  ou  de  faltar 
a  uma  obrigação  restricta,  c  não  era  um  homem 
fraco,  como  o  General  Tude,  que  faria  isso;  pondo- 
se  abertamente,  portanto,  á  frente  da  revolta,  com 


24 


a  qual  aliás  nada  sympathisava  e  que  promcttia 
impedir  ainda  na  tarde  de  23. 

Deixamos  o  dr.  Zama  fallando  ao  povo  que  se 
apinhava  na  Praça  de  Palácio,  de  onde  partiu  uma 
commissfio  indicada  por  elle,  composta  dos  srs. 
Cincinato  Pinto  da  Silva,  deputados  Cruz  Rios  e 
Jayme  Villas-Bôas,  para  intimar  ao  Sr.  José  Gon- 
çalves a  deposição. 

Incidiam  todos  no  crime  de  sedição  (Art.  1 15, 
g  4.%  e  ns.  3.^  e  5.*»  do  Art.  1 18  do  Código). 

Não  o  podiam  ignorar,  nem  também  desco- 
nheciam que  a  revolução  nobre,  a  revolução 
patriótica  contra  o  co-réo  no  golpe  de  Estado  não 
tinha  mais  razão  de  ser,  porque  a  constituição 
imperava  outra  vez,  o  congresso  nacional  ia  ser 
convocado  e  o  Governador  da  Bahia,  pelo  orgam 
competente  de  seu  amigo,  o  dr.  Paula  Guimarães, 
desde  a  véspera  á  noite  tinham  elles  toda  certesa 
de  que  se  ia  demittir. 

E  o  que  é  mais:  arrastavam  com  a  palavra 
e  o  exemplo  as  turbas  inexpertas  e  ignorantes  de 
todas  estas  particularidades  á  rebeldia  e  á  morte. 

Devolta,  esta  commissão  trouxe  a  noticia  de 
que  o  sr.  José  Gonçalves  estava  rodeado  de  seus 
amigos  politicos,  na  Secretaria  do  Governo,  á 
Piedade,  e  que  declarara  não  ceder. 

E  realmente  não  devia  cederá  violência. 

Então  pronunciou  o  sr.  César  Zama  pouco 
mais  ou  menos  as  seguintes  palavras  « — Meus 
concidadãos,  pois  que  o  Governador  não  quer 
resignar,  vamos  nós  depòl-o.» 

E  foram.  A  turba  engrossada  então,  consti- 
tuindouma  massaenorme,  dirigiu-separaa  Piedade 
em  ordem,  mas  ameaçadora  pela  imponência  do 
numero  c  pelas  disposições. 

Na  rua  de  S.  Pedro  armaram-se  muitos  com  a 
lenha  de  umas  carroças  que  descarregavam  á  porta 


25* 


de  uma  padaria  e  chegando  á  Piedade  o  povo 
derramou-se  pelo  jardim  e  ruas  que  o  ladeiam, 
mais  curioso  que  irritado. 

O  sr.  César  Zama  subiu  e  falou  ao  sr.  José 
Gonçalves  intimando-o  outra  vez  a  deixara  admi- 
nistração  do  Estado.  Esta  conferencia  foi  delicada 
e  quasi  alegre.  Mas  o  sr.  José  Gonçalves  resistia 
do  mesmo  modo. 

Neste  Ínterim,  chegou  o  capitão  de  infanteria 
Júlio  César  Gomes  da  Silva,  deputado,  que  tra/ia 
da  parte  do  General  Tude,  um  convite  para  o  sr. 
César  Zama  afim  de  que  fosse  ao  Quartel-General. 

Ali  chegando,  o  General  declarou  ao  chefe 
ostensivo  da  revolução,  que  sabia  tratar-se  da 
organisação  de  uma' junta  que  devia  assumir  o 
Governo  do  qual  ia  ser  deposto  o  sr.  José  Gon- 
çalves, assim  como  da  resistência  deste  em  aban- 
donar o  cargo  e  pediu  um  meio  de  accommodação; 
sendo-lhe  respondido  que  não  havia,  declarou 
então  que  acabava  de  receber  uma  carta  em  que 
lhe  era  affirmado  que  se  elle.  General  Tude,.  fosse 
quem  assumisse  o  Governo,  não  só  a  população 
receberia  bem  o  facto  como  o  sr.  José  Gonçalves 
cederia,  ao  que  o  sr.  Zama  respondeu  — Pois  sim, 
Generjal,  vá  fardar-se  e  vamos. 

Ao  sahir  o  sr.  Zama,  tinha  o  Governador 
officiado  ao  General  Tude  requisitando  a  manu- 
tenção da  ordem,  recebendo  resposta  negativa,  que 
lhe  foi  levada  pelo  Tenente-Coronel  Luiz  Soares 
Wolff,  secretario  do  Com  mando  do  Districto, 
verbalmente;. 

Continuando  o  tumulto,  o  dr.  Paula  (íuimarães 
foi  ao  Quartel-íieneral  c  parece  ter  sido  elle  quem* 
aconselhou  ao  General  Tude  que  fosse  á  secretaria, 
e  provavelmente  também  quem  lhe  insinuou  que 
assumisse  o  Governo  para  impedir  a  formação  da 
junta  em  que  se  falia va. 


26 


Chegando  o  General  Tude,  depois  de  trocar 
algumas  palavras  com  o  Governador,  disse-lhe 
que  a  solução  era  passar-lhe  o  Governo  ò  sr.  José 
óonçalves. 

Então  o  Governador  quiz  entregar  a  *adminis- 
tração  ao  sr.  Luiz  Vianna,  presidente  do  senado, 
ao  aual  deu  o  officio  respectivo. 

O  hábil  senador,  porém,  recusou  a  terrível 
investidura  que  lhe  era  conferida  tão  tarde,  dizendo 
não  ter  tempo  pára  reunir  os  elementos  de  resis- 
tência necessários  para  manter  a  dignidade  do 
carço,  pelo  que  entendia  que  só  a  autoridade 
militar  podia  assumir  a  responsabilidade  daquella 
situação,  até  que  se  achasse  uma  solução  raseavel 
para  o  casp. 

O  sr.    José   Gonçalves    que    n'esta    occasião 

{)rocedeubemem  tudo,  procurou  o  outro  substituto 
egal,  dr.  Satyro  Dias. 

Este  tinha  querido  ir  presidir,  como  era  do  seu 
dever,  a  sessão  tumultuosa  da  camará  que  se 
celebrou  neste  dia  e  voltando  não  poude  penetrar 
na  secretaria. 

Repellido  grosseiramente,  maltratado,  esca- 
pando dez  vezes  de  ser  assassinado  em  alguns 
minutos,  perseguido  até  á  altura  da  casa  do  sr. 
Lacerda, além  do  jardim,  deveu  a  salvação  a  alguns 
amigos  que  accorreram  e  o  escoltaram  até  a  sua 
casa. 

Foi  só  então  que  o  General  Tude  assumiu  a 
autoridade. 

Entretanto  os  srs.  Couto  e  Freitas  -esperavam 
impacientes  em  casa  do  primeiro,  ao  Caquende, 
que  fossem  chamados,  conforme  se  combinara  na 
véspera. 

Cansados  de  esperar  a  massa  acclamantc  que 
os  devia  ir  buscar,  vieram  os  srs.  Couto  c  Freitas 
até  á  Praça,  cercade  duas  horas,  e  ahi  o  sr.  Almeida 


2V 


Couto  fez  ainda  um  discurso  da  janella  da  casa 
em  que  funccionava  a  inspectoria  de  Terras  e  onde 
hoje  é  o  consulado  americano.  Acompanharam-o 
os  srs.  Virgílio  Damásio  e  F^reitas,  quj  também 
fallou,  as.úm  como  outros  cidadãos  depois. 

Mas  a  gente  que  ali  estava  não  era  a  gente  de 
acção  que  tinha  feito  o  motim  e  sim  curiosos  em 
sua  maioria,  que  vinham  tomar  o  ar  dos  aconteci- 
mentos, saber  e  contar  as  novidades. 

Aonde  elles  deviam  ter  ido  era  á  Piedade,  onde 
se  dava  o  combate  e  onde,  se  tivessem  apparecido 
opportunamente,  teriam  encontrado  o  que  pro- 
curavam ;  a  acclamação. 

Aqui  cabem  ponderações  de  valor. 

Si  o  sr.  Zama  fazia  parte  de  uma  conspiração 
que  tinha  por  fim  entregar  o  poder  a  uma  junta, 
como  concordou,  consentiu,  não  se  oppoz  a  que 
um  só  homem  e  o  mais  poderoso,  assumisse  só 
toda  a  auctoridade  publica  o  que  foi  causa  de 
abortar,  detornar-se  quasi  umcodilho  a  revolução, 
pois  se  mudou  apenas  o  sr.  José  Gonçalves? 

E  como  secomprehendeque  os  chefes  ijidicados 
para  a  juntafossemparaa  Praça  de  Palácio,  auando 
era  para  a  Piedade  que  deviapi  se  ter  dirigido,  por 
ser  alli  que  se  travava  a  luta,  e  que  se  devia  resol- 
ver ella? 

E  não  teria  o  sr.  Zama  censentido  naquillo  por 
se  ter  visto  só,  por  entender  que  os  seus  com- 
panheiros de  conspiração  sabendo  das  resistên- 
cias e  incidentes  que  haviam  surgido  deviam  ter 
vihdo  para  o  seu  lado,  compartilhar  das  difficul- 
dades,  perigos  e  responsabilidades  daquellas  horas 
diíííceis? 

Elle  não  diz,  mas  sente-se  que  devia  ser  assim. 

Questão  muito  importante  constitucionalmente 
é  a  da  intervenção  da  força  federal,  para  garantir  as 
autoridades  constituídas  nos  Estados  e  neste  ponto 


28 


O  manifesto  das  camarás  da  Bahia  ataca  energica- 
mente o  Getleral  Tude. 

Não  existe,  porém,  na  secretaria  o  otficio,  como 
devia  ser,  do  Governador  requisitando  a  força  ao 
Commandante  do  Districto. 

O  que  o  General  Tude  recebeu,  conforme 
consta,  porque  não  existe  copia  noarchivo.  foi  um 
officio  convidando-o  a  comparecer  na  secretaria, 
para  manter  a  ordem,  já  quando  o  tumulto  estava 
no  seu  maior  auge,  officio  que  lhe  foi  levado  pelo 
sr.  Duarte  de  Oliveira. 

Foi  após  isto  que  o  General  se  dirigiu  para  a 
secretaria  e  que  o  9."  batalhão  occupou  a  praça. 

Affirma  pessoa  que  acompanhou  o  General 
Tude  nesta  quadra  toda,  que  elle  mandou  dizer 
para  os  conjurados  reunidos  em  casa  do  Cons. 
•  Couto  na  noite  de  23,  que  não  contassem  com  elle 
para  a  formação  da  junta,  que  foi  o  dr.  Paula 
Guimarães  quem  lhe  apresentou  a  idéa  de  assumir 
elle,  autori(Jade  militar,  a  administração  tem- 
porária para  manter  a  ordem,  o  que  impediu  a 
organisação  da  junta;  e  que  foi  ainda  este,  assim 
como  o  (ir.  Amphilophio,  os  que  influiram  sobre 
elle,  desde  logo,  para  que  tentasse  investir  no 
Governo  os  substitutos  legaes  do  dr.  José  Gon- 
çalves, o  que  explica  o  chamado  ao  Quartel-General 
do  dr.  Satyro  Dias,  no  dia  25,  e  o  que  se  passou 
cntreestee  o  General  sobre  tão  delicado  assumpto, 
por  ter  declarado  o  dr.  Satyro  Dias,  assim  como 
já  o  fizera  o  sr.  Luiz  Vianna,  que  só  assumiria  a 
administração  se  contasse  com  a  força,  ao  que 
aliás  não  accedeu  o  Commandante  do  Districto. 

Estes  conselhos  c  a  poderosa  ascendência  que 
sobre  o  General  exercia  outra  pessoa,  sua  esposa, 
atemorisada  pelos  perigos  presentes  e  futuros, 
actuaram  na  tarde  de  24  e  explicam  ainda  o 
seguinte. 


29 


Tinha  sido  expedida  ordem  para  a  secretaria 
do  interior  afim  de  ser  remettido  papel  timbrado 
e  tudo  mais  que  fosse  necessário  para  o  expediente 
logo  na  manhan  de  25,  assim  como  um  empregado 
para  esse  trabalho  de  gabinete. 

Quando,  porém,  este  empregado,  que  ainda 
existe  na  secretaria  do  interior,  Rodolpho  Américo 
de  Souza,  apresentou-se  ao  General  Tude,  recebeu 
ordem  de  voltar  para  a  repartição  com  os  papeis, 
porque  ellc  não  despacharia  expediente  algum. 

De  modo  que  só  um  acto  de  Governo  consta 
ter  sido  praticado  pelo  (ieneral  Tude,  e  este  mesmo 

não  teve  execução. 

> 

Foi  a  nomeação  do  dr.  Cândido  César  da  Silva 
Leão,  para  Chefe  de  Policia,  acto  que  foi  lavrado, 
mas  não  foi  entregue  ao  nomeado,  porque  pessoa 
influente  no  partido  federalista  dingiu-se  ao 
Coronel  Moreira  César,  fazendo  ponderações  sobre 
aquelle  magistrado,  que  parece  tereni  sido  os 
motivos  da  permanência  daquelle  militar  na 
chefatura  de  Policia,  até  a  solução  da  crise. 

O  sentido  da  demonstração  tinha  sido  a  mani- 
festação do  receio  de  que  sendo  aquelle  magistrado 
parente  do  dr.  César  Zama,  naquella  melindrosa 
quadra,  podesse  trazer  isto  alguma  coacção  a  certas 
pessoas. 

A  partir  da  tarde  de  24  a  revolução  segue  uma 
marcha  vacillante  e  retrograda. 

O  poderdo  General  Tude  que  não  era  de  direito 
também  não  o  foi  de  facto,  porque  elle  não  assignou 
um  só  documento  em  todo  o  decurso  de  vinte  c 
tantos  dias. 

Também  para  manter  a  ordem  não  era  ellc 
preciso,  porque  o  homem  que  fizera  o  24,  a  maior 
popularidade  da  Bahia,  assignava  com  o  General 
c  o  sr.  Moreira  César  a  ordem  de  não  haver  viva 
alma  nas  ruas  depois  das  9  horas  da  noite. 


30 


Refere  o  escriplor  fluminense  terem  havido 
distúrbios  e  correrias  á  noite  feitas  por  soldados 
de  linha  e  após  os  quaes  o  sr.  José  Gonçalves 
passou  o  Governo  ao  General  Tude  Neiva.' 

Não  foi  assim  que  se  deram  os  factos. 

Naquella  noite  tempestuosa,  cortada  pelas 
rajadas  de  um  vento  áspero,  neera  e  sinistra,  diçna 
noite  de  um  dia  em  que  se  tmham  commettido 
tantas  mortes  de  innocentes,  não  bulio  um  cão 
com  a  cauda,  politicamente  fallando,  aqui  nas 
ruas  da  Bahia. 

A  passagem  do  Governo,  para  as  mãos  da 
auctoridade  militar,  deu-se  durante  a  estada  do 
sr.  José  Gonçalves,  na  secretaria  do  Governo. 

Quando  este  se  retirou  para  casa  de  um  amigo, 
o  negociante  Manoel  da  Costa  Rodrigues  Vianna, 
ao  largo  Castro  Alves,  seriam  cerca  de  4  horas  da 
tarde. 

Durante  o  dia,  até  antes  das  5  horas,  foi  que  se 
deram  os  tiroteios  e  que  as  victimas  cahiram. 

N'uma  cidade  de  que  Moreira  César  era  o  chefe 
de  Policia  não  podia  haver  correrias,  salvo  se  elle 
as  mandasse  fazer;  desde  que  parecia  estar  no  fundo 
victoriosa  a  revolução,  exercia  o  supremo  mando 
a  autoridade  militar  e  elle  respondia  pela  policia. 

O  que  se  deu  foi  o  seguinte: 

O  chamado  do  General  Tude  foi  uma  diversão 
para  a  revolta,  como  se  diz  na  guerra! 

O  sr.  Zama,  sahindo  da  Piedade  deixara  ali  o 
povo  entregue  a  si  mesmo,  sem  chefe;  e  factos 
isolados  vieram,  como  tantas  vezes  acontece  nas 
revoluções,  tomar  o  logar  dos  principaes,  ou 
desviar  o  curso  dos  mais  importantes. 

Quando  voltou  o  sr.  César  Zama  do  Quartel- 
General,  veio  presenciar  o  resto  de  factos  muito 
graves,  que  se  tinham  passado  cm  sua  ausência. 

A  guarda  da  Secretaria  da  Policia,  que  fica  a 
um  dos  lados  da  praça  da  Piedade  e  á  direita  da 


31 


Secretaria  do  Governo,  onde  se  achava  o  sr.  José 
Gonçalves,  fora  reforçada  pela  vinda  da  Guarda 
do  Commercio,  Commandada  pelo  Tenente  An- 
tónio Machado. 

O  povoléo  que  cercava  o  edifício  vociferava  e 
insultava  os  soldados;  e  n'aquelledia  em  que  tinha, 
segundo  se  dizia,  as  costas  quentes  pela  protecção 
da  linha,  a  rixa  velha  da  plebe  com  a  policia  achava 
pretexto  para  se  expandir. 

Em  breve  alguns  populares  mais  arrojados 
cortaram  o  fio  telephonico  da  delegacia,  que  era 
em  baixo,  noandar  térreo  da  secretaria-;  os  soldados 
oppuzeram-se  naturalmente  mas  o  fio  foi  cortado, 
quando,  porém,  deitaram  escadas  á  parede  para 
cortar  o  da  chefatura,  no  i.**  andar,  a  tropa  tomou 
attitude  enérgica;  d'ahi  ás  injurias  e  ás  pedradas 
não  houve  muita  demora. 

Ha  quem  diga  que  um  tiro  ou  alguns  tiros  de 
revolver  foram  disparados  contra  o  edificio,  as 
portas  e  as  janellas  baixas  da  secretaria,  onde 
estava  a  guarda. 

Esta  respondeu  então  com  fogo  de  carabina. 

Houve  ordem?  Quem  a  deu? 

O  Chefe  de  Policia,  dr.  Pedro  xMariani  estava 
com  o  Governador;  restam  o  dr.  Adalberto 
Guimarães,  que,  segundo  algumas  versões^  estava 
também  na  secretaria  do  Governo,  o  Capitão 
António  Braga,  o  Tenente  Machado  ou  simples-' 
mente  o  sargento  Angelo  Francisco  da  Silva. 

Como  em  muitos  outros  casos  idênticos 
ninguém  sabe. 

O  aue  é  certo  é  que  a  policia  foi  atirando  e  ás 
pedradas  respondeu  com  as  balas,  emquanto  a 
munição  durou. 

Ahi  foram  feitas  as  primeiras  victimas. 

Quando  a  munição  se  acabou,  o  que  foi  logo 
verificado  pela  gente  que  cercava  o  edificio,  as 
pedradas,  os  tiros,  as  cacetadas  recrudesceram  e 


32 


começaram  a  gritar  que  o  verdadeiro  seria  deitar 
fogo  á  casa. 

Chegavam  já  lenha  c  fachinas,  já  appareciam 
chammas  quando  o  dr.  César  Zamà  voltava  do 
Quartel-General ;  a  revolução  abandonada,  como 
tantas  vezes  acontece,  tinha  degenerado  em 
anarchia. 

O  Chefe  tenta  reassumir  o  seu  poder,  pre- 
cipita-se  para  o  incêndio  e  o  faz  extinguir,  mas 
muitos  homens  do  povo,*  irritados  pelas  mortes, 
escandecidos  pela  cólera,  invectivam  o  tribuno. 

A  secretarra  fora  invadida  e  vasculhada,  o 
archivo  destruido,  aguarda  fugira,  as  autoridades 
também,  e  o  illustre  deputado  via  como  de  uma 
manifestação  pacifica  se  forma  um  enorme  e 
sangrento  tumulto. 

Cornetas  annunciaram  a  chegada  de  uma  força. 
Era  o  9.-  batalhão  de  infanteria  que  avançava 
pela  rua  da  Lapa  em  ordem  de  batalha. 

A  frente  o  Coronel  Moreira  César,  no  centro  a 
musica  e  a  bandeira  com  o  seu  pelotão  dobrado; 
os  soldados  traziam  as  patronas  cheias  de  cartu- 
chos, os  fechos  das  carabinas  sem  o  envolucro  de 
couro,  prompto  todo  o  batalhão  para  se  abrir  em 
linha  de  atiradores  em  combate,  ou  se  fechar  num 
quadrado  erriçado  de  baionetas. 

Quando  fez  alto,  em  frente á secretaria,  piquetes 
tomaram  as  boccas  das  ruas. 

O  sr.  1  ude  recebeu  o  Governo  da  Bahia  e  o 
sr.  José  Gonçalves  relirou-se  para  a  casa  do  sr.  com- 
mendadorRodriguesVianna,  ao  largo  Castro  Alves. 

Ainda  na  porta  o  General  1  ude  falou  em  segu- 
rança da  sua  pessoa,  mas  o  sr.  José  Gonçalves 
respondeu  sobranceiramente  que  não  precisava  de 
garantias,  cercado  como  estava,  pelos  amigos  que 
o  acompanhavam. 


33 


Ainda  assim  o  General  Tude  acompanhou  a 
cavalloo  grupo,  á  distancia,  até  o  alto  de  S.  Bento. 

O  homem  que  não  tinha  sabido  manter  a 
dignidade  do  Estado  que  representava,  acudindo 
á  aquiescência  do  crime  constitucional  de  3  de 
Novembro,  soube  pelo  menos  manter  a  própria 
diante  das  intimações  e  das  vociferações  da  plebe 
e  não  se  mostrando  cobarde  ou  medroso  diante 
da  força. 

Pouco  depois  o  9."  batalhão  retirou-se  e  tudo 
parecia  ter  voltado  á  ordem,  mas  certos  indiví- 
duos procuravam  os  policiaes,  que  tinham  atirado 
da  secretaria,  agora  fugitivos. 

O  ódio  era  sobre  tudo  intenso  contra  o  Tenente 
Machado,  commandante  do  destacamento,  que 
subira  do  commercio  e  que  o  povo  accusava  de 
ter  dirigido  o  fogo. 

Correu  como  um  raio  a  noticia  de  que  estava 
homisiado  em  uma  casa  á  rua  Pedro  Jacome  e  de 
toda  parte  corre  gente,  que  tenta  assaltar  a  casa 
para  espedaçar  o  refugiado. 

A  gente  que  mata  os  desarmados  e  que  nos 
dias  de  revolução  brota  das  calçadas  e  dos  cantos 
ignorados  das  cidades  atira-se  furiosa,  e  com 
muito  custo  se  aguenta  a  familia,  até  que  chega 
o  piquete,  que  devia  conduzir  o  fugitivo. 

A'  noticia  de  que  continuavam  as  tropelias 
começadas  com  o  fio  de  telephone,  ordens  foram 
expedidas  pelo  coronel  Moreira  César,  investido 
do  cargo  de  chefe  de  policia. 

Diversos  piquetes  municiados  sahiram  do  seu 
quartel;  um,  com  mandado  pelo  Tenente  João 
Paulo,  recolheu,  pelas  ruas  do  Fogo,  Faisca  e 
largo  2  de  Julho,  praças  de  policia  por  ali  re- 
fugiadas; um  outro,  commandado  pelo  Alferes 
Francisco  Josç  Patricio,  sabendo  que  o  tcnentç 


34 


Machado  se  achava  homisiado  na  casa  da  família 
Barros,  ali  recebeu  o  oíiicial  perseguido. 

A  este  piquete,  que  se  lómna  logo  em  qua- 
drado, se  recolhe  o  Tenente  Machado,  mas  por 
cima  dos  soldados  tenta  a  turba  feril-o. 

Debalde  o  commandante  grita  que  não  se 
adiantem,  que  se  retirem;  debalde  ainda  c 
uma  descarga,  fogo  de  alegria,  dada  para  o  ar; 
voltando  a  si  do  susto,  a  plebe  que  tinha  a  pro- 
messa de  que  a  linha  não  atiraria  sobre  ella,  pois 
estava  do  seu  lado,  se  lança  de  novo  sobre  o  per- 
seguido e  uma  cacetada  o  alcança. 

Então  o  Alferes  Patricio  orâena  o  fogo  e  uma 
descarga  de  pelotão  em  quadrado  cahe  sobre  a 
massa  prostrando  muita  gente. 

Um  outro  piquete,  commandado  pelo  Alferes 
Elesbão  José  de  Souza,  que  tinha  subido  pela  rua 
Carlos  Gomes,  ouvindo  os  tiros,  desde  a  rua  do 
Cabeça,  avançou  d'ahi  cm  diante  a  marchc-marche 
atirando  e  entrou  na  Piedade,  onde  juntou-se  a 
força  do  Alferes  Patricio. 

Continuando  a  sotlVer  pedradas,  o  quadrado 
augmentado,  tendo  no  centro  o  Tenente  Machado, 
atirou  outra  vez. 

Ao  ganhara  esquina  da  praça,  antes  de  entrar 
na  rua  estreita,  outra  descarga  partiu  e  ainda  na 
encrusilhada  que  íica  em  frente  á  casa  que  é  hoje 
Faculdade  de  Direito,  os  soldados  se  voltavam 
para  traz  e  atiravam  na  direcção  da  rua  do 
Senado. 

Os  últimos  tiros  foram  dados  na  rua  da  Lapa, 
na  altura  da  travessa  dos  Barbeiros. 

Seriam  4  horas  da  tarde. 

A  tropa  tinha  dado  talvez  umas  dez  descargas. 

Foram  estes  tiros  da  tropa  de  linha  que  mata- 
ram muitos  do  povo,  descargas  cerradas  de  pelotão 
atirando  sobre  a   massa  que  estava  nas  ruas  da 


Sf) 


praça  c  dentro  do  jardim,  dessa  mesma  tropa  de 
linha  que  se  tinha  aftirmado  ao  povo,  que  não 
atiraria  sobre  elle,  porque  estava  do  seu  lado. 

Se  realmente  aquella  promessa  foi  feita  na  vés- 
pera á  noite,  em  casa  do  conselheiro  Couto,  pelos 
militares  ahi  reunidos,  ella  não  foi  cumprida  c  o 
Coronel  Moreira  César,  Chefe  de  Policia,  resta- 
beleceu a  ordem  com  a  fusilaria  dos  seus  soldados. 

Nunca  se  fez  a  cstatistica  dos  que  morreram 
neste  dia  terrivel  e,  o  que  é  ainda  mais  digno  de 
reparo,  não  consta  nos  cemitérios  da  Capital  os 
que  foram  enterrados. 

E  não  é  porque  não  se  fizessem  enterramentos, 
mas  porque  houve  propósito  em  esconder  para 
todo  sempre  a  verdade  sobre  o  numero  das  vi- 
ctimas. 

Na  Santa  Casa  de  Misericórdia  não  consta 
sequer  o  enterro  do  negociante  de  Nazareth  Pedr  o 
Marques  de  Jesus,  que  cahiu  varado  por  uma  bala 
na  Piedade;  verificada  a  sua  identidade,  logo 
quando  cahiu,  elle  foi  depois  envolvido  na  turba 
dos  anonymos,  que  foram  transportados  em  car- 
roças e  entregues  a  terra  por  ordem  do  Coronel 
Moreira  César;  consta  ainda  que  o  capellão  de 
um  dos  cemitérios  se  oppoz  áquellas  inhumações 
sem  guia,  mas,  diante  da  vontade  imperiosa  do 
sr.  Moreira  César,  a  terra  tragou  as  victimas  sem 
deixar  vcstigios. 

Dos  feridos,  que  não  podia  ser  menos  de  trinta, 
uns  foram  para  as  suas  casas,  outros  para  o  Hos- 
pital de  Caridade  e  outros  que  não  se  podiam 
levantar,  recolhidos  ao  hospital  militar,  segundo 
dizem. 

Provas,  documentos,  não  ha. 

Correram  tão  poucos  annos  e  com  os  mortos 
desappareceram  as  provas  destes  factos  lutuosos. 


3(i 


O  dr.  Daltro,  auditor  de  guerra,  que  passou 
pela  Piedade  e  Lapa  pouco  depois  das  descargas 
da  linha,  calcula  em  trinta  os  mortos  que  viu; 
o  sr.  Luiz  Vianna  teve  nota  de  quatorze  e  o 
sr.  César  Zama  foi  informado  de  terem  sido  cerca 
de  sessenta. 

Acredito  serem  as  notas  do  sr.  Luiz  Vianna  as 
que  mais  se  àpproximam  da  exactidão.  Já  pelas 
cinco  horas  da  tarde  quem  passasse  pelas  visi- 
nhanças  do  quartel  general  cm  toda  a  extensão  da 
rua  da  Lapa  até  a  esquina  da  Rua  Nova,  pouco 
mais  ou  menos,  veria  vedetas  de  infanteria,  sen- 
tinellas  perdidas,  com  a  carabina  carregada  e  a 
baioneta  calada,  tal  qual  como  nos  arredores  de 
um  campo  fortificado. 

E  pelas  seis  horas,  até  o  serviço  dos  bondes  da 
linha  de  Nazarcth  se  suspendia  ;*já  pouco  depois 
das  descargas  a  que  deve  a  vida  o  Tenente  Ma- 
chado, o  próprio  Coronel  Moreira  César,  acompa- 
nhado do  Capitão  Júlio  César  e  duas  ordenanças, 
todos  a  cavallo,  paravam  pelas  esquinas  das  ruas 
do  Rosário  c  adjacentes,  onde  faziam  pregar  o 
seguinte  boletim : 

AO  POVO 

«Os  abaixo  assignados,  responsáveis  pela  ma- 
nutenção da  ordem  publica,  pedem  ao  povo  que 
continue  nos  seus  labores  ordinários,  pois  a 
autoridade  não  pôde  de  modo  algum  consentir  nem 
de  leve  na  perturbação.  Hoje  ás  nove  horas,  todos 
estarão  em  suas  casas.  Confiamos  nopovobahiano. 
General  Tude  Neiva,  Governador;  Tenente- 
Coronel  Moreira  César,  Chefe  de  Policia;  César 
Zama». 

A  manifestação  popular  dirigida  pelo  sr.  César 
Zama  tinha  alcançado,  pois,  um  dos  objectivos  do 


:M 


movimento ;  havia  derrubado  o  sr.  José  Gonçalves 
ou  antes  expulsara-o  do  seu  palácio,  mas  não  se 
comprehende  que  homens  lieis  a  um  partido 
limitassem  a  isto  os  seus  esforços. 

Elles  não  podiam  contentar-se  com  este  resul- 
tado pessoal  e  platónico  e  sim  pretender  substituir 
o  seu  partido  cio  outro. 

Entretanto,  parece  que  não  puderam  ou  não 
souberam  trabalhar,  julgando  a  campanha  perdida, 
porque  na  batalha  não  assumira  a  junta  politica  o 
Governo,  e  sim  o  sr.  General  Tude,  ou  porque 
fundas  dissidências  e  dissabores  impedissem  uma 
acção  enérgica  e  combinada.  • 

\o  Estado  da  Bahia  e  no  Pequeno  Jorna/ fez-se 
uma  guerra  frouxa,  ao  passo  que  do  lado  opposto 
os  elementos  se  congregaram  hábil  e  fortemente. 

Logo  nos  dias  seguintes,  os  srs.  Paula  Gui- 
marães e  Severino  Vieira  publicaram  manifestos 
profligando  o  golpe  de  Estado,  mas  estabelecendo 
a  questão  da  Bahia  em  outro  pé,  no  termo  da 
legalidade  constitucional,  e.  embora  censurando 
logicamente  o  Governador  sem  exercicio,  punham- 
se  ao  lado  delle  para  defeza  das  leis  estaduaes,  que 
estabelecem  o  modo  de  substituição  dos  Gover- 
nadores. 

E  junto  ao  Marechal  Floriano,  pelos  srs.  Ruy 
Barbosa,  Marcolino  Moura  e  Dyonisio  de  Cer- 
queira foi  a  questão  apresentada  sob  esta  luz  nova. 

O  deputado  Amphilophio  Botelho  Freire  de 
Carvalho,  que  possuia  ascendente  sobre  o  sr.  Cus- 
todio de  Mello,  influia  com  toda  a  força  sobre  elle, 
contrabalançando  com  vantagem  a  importância  do 
sr.  Augusto  de  Freitas,  também  amigo  do  Minis- 
tro da  marinha. 

O  sr.  Arthur  Rios  foi  enviado  pelo  partido  ao 
Rio  de  Janeiro,  para  ser  o  interprete  sagaz  e  activo 


;}s 


entre  os  homens  da  Bahia  c  os  srs.  Ruy,  Dyonisio 
e  Floriano. 

O  corpo  legislativo  do  Estado,  também  publicou 
um  manifesto  e  esse  trabalho,  devido  aos  srs,  Sa- 
tyro  Dias  e  Eduardo  Ramos,  tem  entre  outras  coi- 
sas importantes  a  declaração  de  que  o  governador 
não  se  esquivaria  de  adoptar,  após  o  restabeleci- 
mento -do  regimen  constitucional,  a  solução  mais 
consoante  á  dignidade  e  decoro  do  seu  alto  cargo ; 
assim  como  responsabilisa  fortemente  o  General 
Tude  pela  não  intervenção  da  força  federal  para 
manter  a  ordem,  de  accordo  com  o  n.  3,  art.  6." 
da  Constituição  da  Republica  e  o  art.  3.**  do  De- 
creto de  2  de  Julho  de  i8qi. 

A  habilidade  reservada  è  fria  do  Marechal  Flo- 
riano, a  (juem  talvez,  já  vinte  e  quatro  horas  depois 
da  victoria  fácil  do  23  deNovembro,  pesasse  o  papel 
impetuoso  e  vehemente,  demasiado  poderoso  c  ab- 
sorvente do  ministro  da  marinha,  estudava  e  cal- 
culava sem  se  pronunciar,  abalado  ao  ouvir  a 
palavra  —  legalidade,  e  principalmente  ao  rcllectir 
cjue  não  seria  acertado  deixar  cm  um  Estado  tão 
importante  a  autoridade  nas  mãos  de  pessoas  que 
a  deveriam  áquelle  ministro. 

Isto  é  o  que  explica  o  ssu  duplo  jogo. 

E  mandou  á  Bahia,  não  só  um,  mais  dois  emis- 
sários, talvez  por  uma  daquellas  inclinações  à 
dualidade  que  foi  em  tudo  a  norma  politica  do 
homem  que  tinha  por  divisa  confiar  desconfiando. 

Um  foi  o  Capitão  Servilio  Gonçalves;  sobre  a 
missão  que  trazia  c  o  que  foi  encarregado  de  fazer 
pouco  se  sabe;  auanto  ao  outro,  eis  aqui  como  o 
Tenente-Coronel  Moreira  César  annunciava  a  sua 
vinda  ao  sr.  Conselheiro  Couto,  no  dia  3o,  sete 
dias,  portanto,  depois  da  revolução  de  24. 

«  Sr.  dr.  Almeida  Couto.  A  pessoa  que  tem  de 
resolver  é  de  minha  inteira  coníianca. 


30 


O  Floriano  Peixoto,  General  Simeão  c  Cus- 
todio de  Mello  são  seus  amigos  íntimos. 

Por  tudo  isto  creio  que  será  conveniente  rece- 
bermos friamente,  para  que  não  digam  que  veio 
elle  consignado  a  nós  e  para  que  tenha  mais  mere- 
cimento a  sua  resolução. 

Estou  certo  que  a  Bahia  licará  satisfeita. 

Quando  elle  nos  procure  será  então  conve- 
niente mostrar  a  carta  do  sr.  Saraiva,  para  que  fique 
convencido  que  não  é  questão  de  monarchismo. 

Adeus.  Seu  admirador,  amigo,  creado,  obri- 
gado.—-4  n/on/o  Moreira  César. 

Bahia,  3o — 1 1 — 91.  » 

Os  primeiros  passos  do  sr.  Abreu  Lima,  foram 
criteriosos. 

Quiz  logo  ouvir  o  sr.  Saraiva,  nome  tão  ve- 
nerando nos  últimos  annos  do  império. 

Mas  a  edadc  e  os  soífrimentos  abatem  os  orga- 
nismos mais  robustos  e  a  posição  do  Conselheiro 
Saraiva  não  foi  nesta  occasião  tal  como  o  impu- 
nham a  capacidade  de  seu  çspirito  e  a  honra  de 
seu   nome. 

Parece  que  o  estadista  dos  tempos  da  guerra 
para^uaya  e  o  autor  da  melhor  lei  eleitoral  que  o 
Brazil  tem  tido,  não  era  o  mesmo  que  se  assen- 
tara na  Constituinte,  sem  nella  impor  a  influencia 
bemfaseja  do  seu  alto  espirito  pratico,  liberal  e  sen- 
sato, nem  aquelle  a  quem  o  sr.  Abreu  Lima  se 
dirigia  para  ouvir,  como  a  um  oráculo,  digno  de 
toda  a  attenção  e  respeito. 

O  que  o  velho  liberal  sentia  era  nobre  indigna- 
ção pela  adhesão  ao  crime  de  3  de  Novembro, 
feito,  não  por  um  ministro  como  Straííbrd  ou  outro 
dependente  de  um  rei  ou  de  um  governo,  mas 
pelo  chefe  de  um  Estado  republicano  e  autónomo. 

Além  d'este  lampejo,   porém,  nada  mais  pro- 


40 


duziu  de  útil;  as   suas  respostas  n'esta  occasião 
foram  evasivas  e  incertas. 

Por  outro  lado  os  amigos  do  sr.  José  Gonçalves 
receberam  o  emissário  do  Vice-Presidente  da 
Republica  com  as  apparencias  de  uma  espécie  de 
cenáculo. 

Tinha-se  feito  a  sala  e  ella  produziu  impressão 
como  todas  as  cousas  bem  preparadas. 

O  General  Floriano  era  mformado  de  tudo  e 
reflectia  sempre  reservado. 

Esta  interessante  campanha  politica,  entre- 
meiada  de  intrigas,  de  discussões  eruditas,  sobre 
questões  de  direito,  de  manobras  para  alcançar 
influencia  sobre  a  opinião  publica  e  sobre  os 
homens  do  contra-golpe  no  governo,  foi  dirigida 
com  muita  energia,  tenacidade  e  prudência  pelas 
duas  cabeças  mais  sagazes  e  politicas  do  partido, 
os  srs.  Luiz  Vianna  e  Severino  Vieira,  admiravel- 
mente auxiliados  pelos  srs.  Paula,  Arthur  Rios, 
Amphilophio,  Dyonisio,  Ruy  Barbosa,  etc. 

A  grande  habilidade  da  g^nte  que  constituia  o 
partido  consistia  em  procurar  logo  fazer  uma 
opinião  c  de  posse  dos  meios  de  conseguil-o  inver- 
teram geitosamente  as  coisas. 

Deixaram  de  lado  a  questão  primordial,  isto  é, 
o  facto  delictuoso,  para  só  apresentar  a  Bahia 
offendida,  ameaçada  na  sua  constituição,  nas  suas 
liberdades,  na  sua  dignidade  e  renome;  e  mano- 
brando com  este  glorioso  escudo  faziam  chover 
sobre  Floriano,  que  não  tinha  mais  na  revolução 
o  interesse  militar  e  politico  do  principio,  sobre  a 
imprensa  daqui  com  toda  facilidade,  c  a  de  fora 
por  múltiplos  caminhos,  estas  idcas  que  incutiram 
em  tudo  e  em  todos. 

I^  logicamente,  por  tal  ordem  de  plano,  aguen- 
taram a  ligara  do  sr.  José  Gonçalves  e  chegaram 
a  fazel-a  grande  e  quasi  heróica. 


41 


Múltiplos  indivíduos,  nomes  de  guerra — João 
da  Luz,  Acácio  Prisco,  Viriato  d"Assumpção,  Sca- 
ramuzzi,  Frei  Talião,  enchiam  as  columnas  dos 
jornaes  e  o  epigramma  mesmo  em  prosa  ou  em 
verso  era  jogado,  ás  vezes  com  felicidade. 

Gastava-se  talento  e  naturalmente  também 
dinheiro. 

A  imprensa,  que  aliás  tivera  redactores  entre  os 
oradores  do  povo  no  dia  24,  desfraldara  a  mesma 
bandeira  do  tabernáculo  constitucional  e  cada  vez 
mais  francamente  á  proporção  que  ella  avançava 
para  a  victoria. 

Pelos  talentos  do  sr.  Severino  Vieira,  pelos 
homens  que  escreviatti  parece  ter  sido  elle  quem 
exclusivamente  ou  quasi  exclusivamente  tomou  a 
si  esta  parte  delicada  e  importante  da  campanha. 

Também  isto  não  se  fazia  só  pela  Bahia,  e  muito 
menos  pelo  sr.  José  Gonçalves,  mas  principal- 
mente pelo  interesse  do  partido  cuja  perseverança, 
energia  e  geiío,  repararam  não  só  os  erros  do 
Governador,  tanto  quanto  foi  possivel  reparar, 
como  também  os  dos, seus  próprios  membros, 
commettidos  nas  primeiras  horas  e  que  não  foram 
poucos,  aproveitando-se  da  desunião,  da  falta  de 
ordem  e  plano  dos  adversários,  da  sua  irresolução 
e  modos  da  sua  inércia  depois  da  acção,  tão  incom- 
prehensiveis  como  absurdos  e  incongruentes. 

Promoviam-se  por  todos  os  modos  manifes- 
tações ao  sr.  José  Gonçalves,  cujas  qualidades 
communs  de  honestidade  eram  exaggeradas. 

E  uma  vez  dado  o  impulso  com  a  publicação 
das  primeiras  visitas,  que  não  tinham  perigo  nem 
compromettiam  a  pessoa  alguma,  fácil  foi  o  resto. 

Tornou-se  moda  passar  pela  casa  do  sr.  com- 
mendador  Rodrigues  Vianna  e  conversar  na  sala 
em  que  o  sr.  José  Gonçalves  contava  o  que  tinha 
feito  no  dia  24  e  falava  com.  calor  da  resistência 

6 


42 


no  seu  posto,  que  realmente  tinha  sido  nobre  e 
digna  de  elogios. 

Pouco  importava  que  houvesse  relação  com 
o  grave  caso  politico  que  se  discutia  e  com  a 
verdadeira  questão,  que  era  afinal  açora  a  luta 
pelo  poder  de  dois  partidos :  tudo  servia  para  avo- 
lumar pelo  numero  aqui  e  no  resto  do  paiz,  e  como 
o  acontecimento  dava  aos  visitantes  a  gloria  de 
ter  os  nomes  estampados,  no  dia  segumte,  na 
rima  e  prosa,  local  c  até  mais  longe,  compareceu 
muita  gente. 

Foi  assim  que  desde  as  associações  de  com- 
mercio  até  as  sociedades  mais  extranhas  ás  questões 
politicas,  e  que  nada  tinham  que  ver  com  o  caso, 
vieram  manifestar-sc. 

Passavam  centenas  de  pessoas  e  foram  referidas 
pelo  Diário dist  liahia^  como  visitas  que  exprimiam 
o  interesse  que  taesassociações  e  indivíduos  tinham 
pela  integridade  das  leis  da  Bahia. 

E  como  em  todas  as  cousas  neste  mundo  entra 
sua  parte  de  ridículo,  até  umas  senhoras  que  repre- 
sentavam certa  irmandade  de  Santa  festejada  em 
uma  das  capellas  desta  cidade  também  enten- 
deram ir  agitar  seus  leques  e  fazer  farfalhar  as 
saias  naquella  sala  politica,  em  que  a  irmandade 
não  tinha  íitas  a  distribuir  nem  vestidos  da  Santa 
a  bordar. 

Fora  estes  exaggeros,  os  bons  cidadãos,  os 
amigos  da  constituição,  das  leis  c  da  ordem,  não 
queriam,  após  o  primeiro  susto,  que  viesse  a  do- 
minar no  Kstado  um  regimen  militar  imposto. 

Não  havia  governo  algum;  era  a  acephalia  da 
administração  publica;  não  havia  expediente  nas 
repartiçvõese  no  principio  de  Dezembro  os  funccio- 
narios  da  Secretaria  do  Interior  assignaram  as 
folhas  do  seu  propri  opagamento. 

O  General  Tude  continuava  a  não  ser,  depois 


43 


de  ter  querido  ser  Governador  e  de  ter  assumido 
esse  cargo. 

Nomeara  o  dr.  Cândido  Leão,  mas  a  nomeação 
nunca  foi  levada  a  etteito,  nem  o  Juiz  de  Direito 
referido  empossado  neste  cargo,  que  o  sr.  Moreira 
César  occupava. 

Questões  de  direito  surgiam  levantadas  pelos 
homens  do  sr.  José  Gonçalves. 

Tinham  estabelecido  a  questão  da  incompe- 
tência do  General  Tude  e  sustentavam  agora  que 
o  sr.  José  Gonçalves  passara  a  este  apenas  a  auto- 
ridade para  manter  a  ordem  e  não  de  outro  modo. 
pois,  os  casos  da  transmissão  da  administração  se 
achavam  especificados  na  Constituição  Estadual. 

Mas,  apezar  desta  argumentação  e  de  não  oc- 
cupar  o  cargo  o  sr.  Tude,  o  sr.  José  Gonçalves 
também  não  reassumia. 

Contava-se  que  depois  da  chegada  do  16."  ba- 
talhão, que  viera  do  sul,  cujo  commandantc  era 
um  dos  maiores  amigos  do  sr.  José  Gonçalves  e 
cujos  oíficiaes  diziam  que  o  Marechal  Floriano 
lhes  declarara  não  vjuerer  que  fosse  de  qualquer 
modo  lesada  a  constituição  estadual,  este  batalhão 
levaria  um  dia  o  sr.  José  Gonçalves  á  sua  secre- 
taria, e  diz-se  que  o  sr.  Luiz  Vianna  aconselhou  ao 
governador  que  o  fizesse. 

Era  inconsequente  a  argumentação  comparada 
com  a  attitude  do  sr.  José  Gonçalves,  porque  a 
ordem  estava  perfeitamente  restabelecida  desde 
as  5  horas  da  tarde  do  dia  24. 

Ataques  rompiam  na  imprensa  obedecendo  a 
palavra  de  ordem,  dada  pelo  manifesto  das  ca- 
marás contra  o  General  Tude,  porque  não  forne- 
cera a  força  federal  para  manter  a  ordem,  de 
accordo  com  a  Constituição  da  Republica. 

O  sr.  Abreu  Lima,  apontado  como  o  arbitro 
da  situação,  graças  á  sua  qualidade  de  emissário 


44' 


e  homem  de  confiança  de  Floriano,  era  intimo  de 
Moreira  César,  mas  parece  que  este  já  nãò  estava 
tão  bem  como  d'antes  com  seus  companheiros  de 
conspiração. 

Ou  que  a  attitude  do  Coronel  lhes  parecesse  pér- 
fida, por  ter  elle,  que  estava  compromettido  com 
os  chefes  do  partido  nacional  a  traoalhar  para  con- 
stituil-os  em  junta  governativa,  assumido  o  cargo 
de  chefe  de  policia,  ao  passo  que  o  General  se 
substituia  á  junta,  e  passavam-se  os  dias  sem  que 
ella  fosse  eonstituida,  ou  porque  houvessem  outros 
motivos  de  desconfiança,  a'  discórdia  não  tardou 
muito  a  lavrar  entre  elles. 

Sobre  o  sr.  Zama  incidiam  também  censuras 
semelhantes,  e  realmente  os  civis  que  deviam  con- 
stituir a  junta,  ficavam  bem  positivamente  cada 
dia  mais  longe  do  governo. 

Falava-se  no  presidente  do  Tribunal,  suspeito 
aliás  de  intimidade  com  o  sr.  conselheiro  Couto, 
pelo  que  os  adversários  apresentaram  logo  outra 
questão  de  direito,  a  saber;  que  não  se  podia 
entender  com  este  a  substituição  do  governadoi* 
em  3."  logar,  por  não  ser  elle  o  Presidente  do  Tri- 
bunal do  Estado,  em  virtude  de  não  ter  sido  ainda 
organisada  a  sua  magistratura  e  ser  esse  funccio- 
nario,  que  ainda  não  existia,  que  a  constituição 
estadual  se  referia. 

O  Coronel  de  engenheiros  Dyonisio  de  Cer- 
queira, deputado  federal,  era  um  dos  baluartes 
mais  activos  do  partido  federalista  no  Rio  e  amigo 
de  Floriano. 

O  Coronel  Abreu  Lima,  trabalhando  sem  du- 
vida pelo  sr.  Moreira  César,  resolveu. assumir  elle 
mesmo  o  governo. 

Fora,  entretanto,  o  mesmo  que  declarara  ao 
sr.  José  Gonçalves  e  aos  seus  amigos  que  elle  seria 
apenas   um  phonographo  que  o   Marechal   teria 


4Õ 


aqui  na  Bahia  e  que  ainda  depois,  provocado 
por  um  artigo  do  Diário  de  Noticias^  escrevera  á 
redacção  uma  carta  em  que  dizia  nãcíser  pretençâo 
sua  a*poderar-se  do  governo  do  Estad!^o,  o  que 
só  se  poderia  admittir  por  um  accidente  da  men- 
talidade. 

Na  situação  a  que  se  tinha  chegado  e  perante 
a  irresolução  do  General  Tude  insistiram  os 
Coronéis  Abreu  Lima  e  Moreira  César  para  que 
o  Commandante  do  Districto  resolvesse  a  crise  e 
esie,  ou  fatigado,  e  desejoso  de  se  ver  desprendido 
de  tão  grandes  responsabilidades,  ou  talvez,  acima 
de  tudo,  magoado  porque  o  Marechal  Floriano 
nunca  se  communicára  com  elle,  propoz  aos  dois 
passar  a  administração  do  Estado  ao  primeiro 
destes,  o  que  foi  immediatamente  acceito  por 
ambos;  e  ponderando  ainda  o  sr.  Abreu  Lima  que 
isto  não  se  podia  fazer  sem  que  também  o  General 
passasse  o  Commando  do  Districto,  elle  prom- 
ptilicou-se  a  entregar  esta  investidura,  da  qual  já 
pedira  demissão,  ao  Coronel  Frederico  Cavalcante 
de  Albuquerque,  inspector  do  Arsenal. 

Previu  logo,  porém,  o  General  que  Abreu  Lima 
não  seria  feliz,  por  causa  da  resistência  que  en- 
contraria na  guarnição. 

Com  eífeito,  esta  resolução  foi  um  ninho  de 
perigos. 

O  que  se  conclue  é  que  o  Coronel  Abreu  Lima, 
diante  desta  lucta  de  interesses  dos  dois  partidos, 
concebeu  a  idéa  de  ser  acclamado  Governador 
com  o  consentimento  de  ambos. 

Fez  então  um  manifesto  declarando  assumir  o 
Governo  e  nomeou  logo  um  secretario.  Este  acto, 
porém,  despertou  indignação  e  resistência  tenaz 
por  parte  do  partido  republicano  e  friesa  mesmo 
por  parte  de  muitos  membros  do  partido  nacional^ 


46 


que  linha  deste  modo  trabalhado  para  um  terceiro 
e  cxtranho. 

O  que  é  mais  digno  de  nota  é  que  a  guarnição 
federal  mostrou-se  descontente,  e  quasi  todos  os 
officiaes  de  infanteria  publicaram  um  protesto 
declarando  não  reconhecer  a  autoridade  estadual 
que  se  acabava  de  estabelecer,  o  que  é  uma  boa 
prova  tanto  da  desorientação  como  da  indisciplina 
e  desorganisação  a  que  tinha  chegado  o  exercito. 

Officiaes  federaes,  das  duas  parcialidades, 
tinham  em  mais  de  uma  occasião  se  manifestado 
por  este,  ou  por  aquelle,  mas  desta  vez  era  um 
pronunciamento  enérgico  e  decisivo. 

O  Major  e  outros  officiaes  do  batalhão,  com- 
mandado  pelo  Coronel  Moreira  César,  subscre- 
veram o  manifesto. 

E  o  único  documento  que  o  Archivo  Publico 
possue  assignado  pelo  sr.  Abreu  Lima  como 
Governadoréum  officio  ao  Coronel  Commandantc 
interino  doDistricto  remettendo-lhe  este  manifesto 
afim  de  que  fossem  tomadas  as  devidas  pro- 
videncias. 

A  imprensa  que,  á  excepção  de  dois  órgãos,  o 
Estado  da  bahia  e  o  Pequeno  Jornal^  combatia  pelo 
partido  federalista,  profligou  o  acto  do  Coronel  e 
atacou-o  com  vigor. 

Sabiam  todos  que  o  1 6  batalhão  era  a  guarda  do 
partido  e  que  além  disso  havia  gente  e  força  para 
tudo,  vinda  de  fora.  Procurou  então  o  Coronel 
Abreu  Lima  o  apoio  do  Governo  Federal. 

O  Marechal  Floriano,  porem,  respondeu- lhe 
evasivamente  dizendo  que  procedesse  de  accordo 
com  os  camaradas.  Era  contramarchar  manifesta- 
mente e  tendo,  ao  mesmo  tempo,  recebido  o 
Coronel  um  telegramma  irritado  e  enérgico  do 
General  Dyonisio  Cerqueira  accusando-o  aspera- 
mente e  que  terminava  pela  phrase  de  etfeito  — 


47 


respeitae  a  Bahia — ,dirigiu-se  ao  sr.  José  Gon- 
çalves para  procurarem  um  meio  de  se  chegar  a 
uma  solução  rasoavei. 

Foi  n'essa  occasião  que  se  aventou  até  a  idéa 
de  dissolver  o  congresso  estadual,  mas  o  Coronel 
Moreira. César  oppoz-se  a  isto,  dizendo  que, 
batendo-se  a  revolução  do  contra-golpe  de  Estado 
para  defender  a  autoridade  do  congresso  dissolvido 
não  se  podia  conceber  que  os  seus  partidários 
dissolvessem  o  congresso  estadual. 

Foram  então  entender-se  com  o  sr.  Abreu  Lima, 
os  srs.  Luiz  Vianna,  Geremoabo  e  Satyro  Dias, 
combinando-seumaconferencia  para  odia  seguinte. 
Na  previsão,  porém,  de  que  alguma  coisa  im- 
portante se  tivesse  passado,  aproveitaram  a  t^rde 
.>ara  se  entender  pelo  telegraphocom  o  sr.  Arthur 
/lios,  o  qual  respondeu,  autorisado  pelos  srs.  Ruy, 
^loriano  e  Custodio,  que  ficariam  todos  satisfeitos 
com  a  combinação  de  renunciar  o  sr.  José  Gon- 
çalves o  cargo  perante  o  congresso  que  seria  con- 
vocado, renunciar  o  sr.  Luiz  Vianna  perante  o 
senado  e  ser  eleito  em  seu  logarum  senador,  que 
assumiria  o  Governo  do  Estado,  conforme  a  con- 
stituição da  Bahia. 

Deprehende-se  de  uma  carta  dosr.  Luiz  Vianna, 
publicada  no  Diário  da  Bahia  e  que  não  foi  contes- 
tada ao  terminar  a  crise,  tersido  elle  quem  traçou 
o  plano  da  solução,  ou  deveu-se  ella  ao  próprio 
Marechal  Floriano  e  ao  Sr.  Ruy  Barbosa. 

A  perspicácia  dos  homens  do  partido  repu- 
blicano esteve  então  em  conseguir  a  acquiescencia 
do  contr"almirante  Custodio  de  Mello,  o  que 
obtiveram  propondo-lhe  o  sr.  Arthur  Rios  que 
exercesse  o  cprgo  de  Governador  da  Bahia  um 
oíficial  de  marinha,  o  que  foi  acceito,  rasão  pela 
qual  foi  apresentado  o  chefe  de  divisf.o  reformado 
Joaquim  Leal  Ferreira,  que  Floriano  lez  preferir 


48 


a  outro  que  Custodio  desejava  mais,  talvez  só  por 
isto. 

Tudo  foi  definitivamente  concordado,  pelos 
dois,  o  Vice-Presidente  e  o  Ministro. 

Quando  no  dia  seguinte  a  commissão  foi  ao 
Hotel  Paris.,  o  sr.  Abreu  Lima  declarando  que  a 
imprensa  e  o  partido  federalista  tinham  com- 
prehendido  mal  a  sua  attitude,  disse  que  recebera 
ordem  do  Marechal  Floriano  para  assumir  o 
Governo,  em  prova  de  que  mostrou  apartesuperior 
de  um  teíegramma  em  que  estava  escripto — «  Deve 
V.  assumir  Governo.  Não  tendo  sido  lido  o  resto  do 
teíegramma,  pediu  o  sr.  Luiz  Viannaque  lhe  fosse 
Ql\e.  emprestado  para  mostrar  aos  amigos,  ao  que 
se  furtou  o  Coronel  Abreu  Lima;  entretanto,  o 
sr.  Luiz  Vianna  tinha  de  relance  conseguido  ler 
as  palavras  seguintes  —  accordo  guarnição,  d'onde 
se  mferia  que  se  Abreu  Lima  fizera  a  proposta  de 
conchavo  ao  sr.  José  Gonçalves  era  porque  lhe 
faltava  o  apoio  da  tropa,  o  que  foi  horas  depois 
confirmado  pelo  Coronel  Santos  Dias,  de  modo 
que  era  evidente  fazer  o  Marechal  duplo  jogo.  pois, 
ao  mesmo  tempo  que  mandara  dizer  ao  sr.  Abreu 
Lima  —  Assuma  Governo  accordo  guarnição,  tele- 
graphava  ao  sr.  Santos  Dias — Mantenha  Governo 
Legal. 

Propoz  então  a  commissão  a  solução  das  duas 
resignações  sem  dizer  que  ella  já  tinha  o  beneplácito 
do  Marechal  Floriano. 

Declarouosr.  Abreu  Lima  queiriacommunicar 
ao  Governo  Federal,  cuja  resposta  foi  a  acceitação 
como  era  de  esperar. 

Neste  sentido  fez-se  uma  reunião  a  que  com- 
pareceram os  senhores  abaixo  mencionados  que 
combinaram  o  que  consta  da  seguinte  acta. 


4Í) 


Acta  da  sessão  celebrada  a  22  de  Dezembro  de 
1891,  nesta  cidade  da  Bahia,  para  a  solução  defi- 
nitiva da  crise  politica  em  que  se  tem  achado  este 
Estado. 

Aos  22  dias  do  mez  de  Dezembro  de  1 89 1 ,  nesta 
cidade  e  na  casa  em  que  reside  o  sr.  Tenente- 
Coronel  Abreu  Lima,  reunidos  os  srs.  Severino 
Vieira,  Augusto  Freitas,  Amphilophio  Botelho, 
Zama,  Leovigildo  Filgueiras,  Prisco  Paraizo, 
Paula  Guimarães,  deputados  federaes  e  Tenentes 
Coronéis  Abreu  IJma  e  Moreira  Gesar,  tendo  o 
sr.  Severino  Vieira,  por  parte  de  seus  amigos  c 
o  dr.  Zama,  por  parte  dos  seus,  se  comppomettido 
a  fielmente  cumprir  o  que  resolvido  fosse,  na 
presente  sessão,  assentou-se  no  seguinte : 

i."0  sr.  José  Gonçalves  da  Silva  renunciado 
cargo  de  Governador  da  Bahia. 

2."  E'  acceito  para  presidente  do  senado  o  chefe 
de  divisão  reformado  Leal  Ferreira,  renunciando 
o  seu  cargo  o  dr.  Luiz  Vianna. 

3."  O  dr.  Luiz  Vianna,  como  presidente  do 
senado,  em  vista  das  circumstancias  excepcionaes 
do  Estado  convocará  immediatamente  ocongresso. 

4.**  O  sr.  Abreu  Lima  entregará  o  Governo  de 
facto  ao  novo  eleito,  presidente  do  senado. 

E,  para  constar,  lavrou-se  a  presente  acta  que 
vae  assignada  por  todos. 

Bahia,  22  de  Dezembro  de  189 1.-  (Assignados) 
— drs.  ArL<itidesí  César  Spínola  Zama. — Severino 
Vieira.-  -  AiKjusto  Freitaf^, — l^risco  Paraizo, — Paula 
Guirnarãe-^,  —  Leovigildo  Filgueiras. — Abreu  Lima. 
-Moreira  César.— Ainphiloptiio  Freire  de  Carvalho, 
com  estas  restricções  i."  Não  reconhecendo  o 
(jOvernodoTcnentc-Coronel  Abreu  Lima,  acceito 
o  expediente  da  renuncia  do  sr.  José  Gonçalves, 
será  o  congresso  convocado  pelo  sr.  Luiz  Vianna, 
como  substituto  legal  do  Governador  resignatario. 


50 


— 2/  Acceito  p?ira  presidente  do  senado  qualquer 
dos  membros  d'essa  corporação,  uma  vez  eleito 
por  seus  pares. 

lím  cumprimento  doeste  conchavo  no  dia  2-3  de 
Dezembro  de  1891,  o  sr.  Luiz  Vianpa,  presidente 
do  senado,  no  exercicio  do  cargo  de  Governadcj-, 
convocou  o  congresso  ao  qual  tpi  presente  a 
renuncia  do  sr.  José  Gonçaíves  e  também  perante 
o  senado  renunciou  o  seu  logar  de  presidente, 
elegendo  este  corpo  o  chefe  de  divisão  reformado 
Leal  F^erreira. 

Deu  ainda  esta  acta  pretexto  a  um  tristíssimo 
incidente  que  poderia  trazer  funestíssimas  con- 
sequências. 

No  dia  em  que  o  sr.  Leal  Ferreira  tomou  posse 
dcT Governo  do  Estado  e  quando  se  encaminhava 
para  a  secretaria,  encontrou  ali  o  sr.  Abreu  Lima-, 
acompanhado  pelo  sr.  Moreira  César  e  outros 
offieiacs  que,  ou  por  não  pertencerem  ao  partido 
republicano,  ou  por  espirito  de  classe  o  acom- 
panharam e  quando  o  Coronel  tomou  a  acta  e  a 
leu,  levantaram-se  protestos  vehementes  da  parte 
dos.  membros  do  partido  federalista  que  acom- 
panhavam o  sr.  Leal  Ferreira,  e  o  que  é  mais 
grave,  uni  Capitão-Tenente  da  armada,  Almiro 
Leandro  da  Silva  Ribeiro,  da  parcialidade  do 
sr.  Josc  Gonçalves,  lançando  mão  do  papel  que  o 
seu  collega  do  exercito  tinha  na  mão,  arrancou-o 
violentamente,  o  que  motivou  grande  alarido   na 

sala  e  o  começo  de  um  tumulto. 

> 

Expressões  até  insultantes  e  indecorosas  foram 
proferidas  e  o  Coronel  Abreu  Lima  reiirou-se 
precipitadamente. 

Um  pouco  mais  tarde  doisofficiaesdeartilheria, 
os  srs.  Paes  Barretto  e  Sezefredo  de  Almeida, 
vieram   pedir    ao    sr.    Almiro    Ribeiro    o    papel 


õl 


arrebatado,  no  que  interveio  o  dr.  Severino  Vieira, 
entregando  o  sr.  Almirò  a  acta. 

Por  seu  turno,  na  rua,  o  Tenente  Alfredo  Leão 
da  Silva  Pedra,  do  16/  de  infanteria  qiie  com- 
mandava  uma  força,  que  o  Coronel  Santos  Dias  ali 
mandara  postar,  e  que  era  um  dos  mais  ardentes 
partidários  do  sr.  José  Gonçalves  e  do  seu  grupo, 
ao  ouvir  o  tumulto,  manda  preparar  as  armas 
e  dispunha-se  a  carregar,  o  que  daria  em  resultado 
mais  uma  vergonhosa  e  funestíssima  coUisão,  agora 
entre  os  militares  dos  dois  lados,  quando  o  sr.  Abreu 
Lima  sahiu. 

Parece  ter  sido  intuito  dos  homens  do  partido 
republicano  esconder  aquelle  parêntesis  na  vida 
constitucional  do  Estado,  que  se  acabava  de  fechar, 
ou  apagar  os  vestígios  do  accordo  que  terminara 
a  crise,  talvez  com  o  pensamento  de  aue  passasse 
tudo  isto  como  resultado  só  da  força  do  partido  e 
sem  intervenção  do  Governo  Federal. 

Tão  difficil  de  realisar  como  tentar  esconder  a 
verdade  c  a  luz  peccava  este  desejo,  porque  disse  o 
sr.  Abreu  Lima  ter  assim  procedido  authorisado 
por  pessoa  influente  no  partido  federalista,  um  dos 
signatários  da  acta  em  questão,  o  dr.  Amphilophio ; 
e  com  effeito  não  só  este  não  negou  o  facto  quando 
foi  interpellado  pelo  dr.  Augusto  de  Freitas,  na 
rua,  como  não  contestou,  ao  que  me  conste,  a 
narração  do  2."*  Tenente  Sezefredo  de  Almeida. 

Chegado,  senhores,  ao  termo  desta  árdua  tarefa 
de  escrever  uma  pagina  da  historia  contemporânea 
da  Bahia,  no  meio  de  difficuldades  bem  serias,  me 
anima  a  esperança  de  ter  deixado  um  pouco  mais 
desvendado  o  caminho  por  onde  o  historiador 
futuro  marchará,  facilitando  o  trabalho  da  critica 
que  restabelecerá  os  pontos,  porventura,  ainda 
obscuros  ou  errados. 


Kncontramo-nos  tristemente  diante  dos  eífeitos 
lógicos  de  certas  causas,  dos  quaes  e  das  quaes 
a  historia  é  o  registro  eterno. 

Nascida  da  agitação  sediciosa  das  armas,  a 
Republica  soítreu  aqui,  e  ainda  um  pouco  menos 
do  que  em  Pernambuco  e  no  Ceará,  a  pressão 
brutal  das  armas. 

E'  o  soldado  o  arbitro  de  todas  as  situações, 
porque  sem  elle  não  é  possivel  dominar. 

E'  o  braço  do  General  Tude  quem  faz  voltar 
a  policia,  quando  ella  marcha  para  fazer  respeitar 
o  Governo  constituido,  entregando-o assim  a  mercê 
dos  seus  inimigos ;  é  elle  quem  nega  o  apoio  da  força 
aos  substitutos  legaes  do  Governador  que  affirmara 
sustentar,  ainda  na  véspera  até  a  seus  subalternos. 

Mas  não  é  elle  também  quem  decide  as  coisas 
como  não  são  sempre  os  Coronéis  que  commandam 
n'estas  occasiões. 

Nas  anarchias  é  frequente  que  o  poder  não 
reside  nos  que  têm  as  apparencias  delle. 

São  os  subalternos  que  impõem  a  sua  vontade. 

Irresoluto  desde  o  dia  23,  quando  reconhecia  no 
sr.  José  Gonçalves  administrador  probo  e  em  cuja 
quedanãoconscntiria,  não  a  impede  no  dia  seguinte. 

Tendo  declarado  a  um  dos  seus  Coronéis, 
quando  se  lhe  apresentou,  o  sr.  Moreira  César,  que 
não  concorreria  para  a  deposição  e  tendo  altercado 
com  elle  no  mesmodia  24,  no  quartel  do  9.*^  batalhão, 
a  poucos  passos  da  tropa  formada,  assume  a 
administração  para  não  exercel-a  ao  primeiro 
conselho  avisado  que  lhe  dão,  joguete  dos  interesses 
dos  partidos  quem  não  foi  educado  na  alacrid-ide 
felina  delles. 

Entretanto,  por  causa  disto  se  matou,  se  feriu, 
íicou-se  um  mez  sem  Governo,  e  ainda  quem  não 
despachara,  porque  sabia  que  não  era  Governo, 
passou  este  (ioverno  a  um  outro. 


53 


E  são  os  batalhões  que  fazem  a  lei  realmente. 

Chega  o  i6.°  e  um  partido  sabe  que  vae  ganhar 
terreno. 

Oíticiaes  politicos,  protestam  contra  os  seus 
superiores  politicos. 

Inferiores  mandam  uma  carta  ameaçadora  ao 
presidente  de  um  tribunal  para  que  não  se  realise 
a  hypothese,  quando  foi  aventada,  de  assumir  elle 
a  administração  do  Estado,  entrando  assim  sar- 
gentos e  furriéis  na  hermenêutica  das  consti- 
tuições! 

Não  se  dissolve  o  Congresso  estadual,  porque 
um  Coronel  se  oppõe. 

Todos  são  os  instrumentos  dos  interesses  dos 
partidos,  mas  assim  se  dilacera  e  se  humilha  a 
dignidade  de  um  regimen  e  as  liberdades  de  um 
povo  I 

Quando  se  quer  fazer  uma  deposição  pro- 
cura-se  o  apoio  da  tropa  ou  a  promessa  de  sua 
desobediência  á  disciplina  e  ao  dever  que  lhe  é 
prescripto  pela  constituição  da  Republica. 

K  são  os  Tenentes  e  os  Alferes  que  fazem 
pender  a  balança  para  este  ou  para  aquelle. 

O  presidente  da  Republica  se  entende  com  os 
Coronéis,  e  o  Com  mandante  do  Districto,  ao 
demittir-se,  prevê  que  o  sr.  Abreu  Lima  não 
conseguirá  ser  acclamado,  porque  o  9.**  batalhão 
não  quer  e  o   16."  já  lhe  é  hostil. 

O  chefe  do  Estado  manda  que  as  guarnições 
arbitrem  sobre  a  legalidade. 

E'  o  Governo  Federal  quem  resolve  as  questões 
politicas  dos  Estados. 

Se  o  partido  chamado  da  legalidade  levou  a 
melhor,  isto  é,  se  manteve  as  posições  e  alijou 
delias  dcfmitivamente  o  adverso,  foi  porque 
Floriano  não  quiz  e  a  guarnição  federal  se  oppoz, 
sendo  isto  em  grande  parte  resultado  d^aquilio. 


Õ4 


Ou  porque  o  Marechal  não  fosse  adepto  da 
politica  das  deposições  que,  conforme  mandava 
ellé  dizer  ao  sr.  Zama  confidencialmente,  estava 
fazendo  máo  eífeito,  ou  porque  não  sorrisse  ao  seu 
espirito  prevenido  e  cauteloso,  ao  seu  senso  des- 
confiado, a  perspectiva  de  fazer  Custodio  muito 
poderoso  no  seu  Estado,  o  que  é  muito  plausivel, 
nunca  apoiou  a  Tude  quando  elle  assumiu  a 
administração,  nem  lhe  telegraphou  ou  escreveu  e 
quando  quiz  terminar  a  crise  dirigiu-se  ao  sr.  Zama 
e  pediu-lhe  que  não  se  oppozesse  á  solução  pro- 
jectada. 

Ao  envez  da  primeira  opinião  do  Marechal 
Floriano  Peixoto,  que  fora  no  sentido  de  vencer 
quem  tivesse  força  para  isso,  fechou-se  a  crise  por 
uma  transacção  entre  os  partidos  que  se  degla- 
diavam  no  Estado.  Eo  Governo  Federal  tornou-sc 
arbitro  da  situação,  solicitado  pelos  dous. 

De  modo  que  a  Bahia,  que  tinha  estreado  a 
sua  vida  constitucional  resistindo  a  uma  imposição 
politica  do  Governo  central,  submetteu-se  também 
ao  systema  hypocrita  e  immoral,  despótico  e 
detestável  dos  conchavos  entre  o  Governo  federal 
e  os  estaduaes,  que  hoje  domina  em  todo  o  Brazil, 
ignominioso  para  a  republica  e  as  leis  e  pelo 
qual  as  aspirações  nacionaes  se  abafam,  as  idéas 
e  os  homens  novos  e  capazes  não  logram  de  ordi- 
nário accesso  no  caminho  dos  cargos  e  das 
honras  publicas,  senão  pela  subserviência  ou  pela 
nullidade. 

O  erro  do  Governador,  a  sua  acquiescencia  ao 
absolutismo,  desnecessária  porque  não  se  fundava 
em  qualquer  conveniência  para  um  Estado  au- 
tónomo e  que  tanto  a  este  prejudicou,  os  discursos 
de  alguns  de  seus  amigos,  a  atiitude  passiva  do 
Congresso,  salvo  excepções  honrosas  c  raras,  bem 
mostram  como  andava*  desgraçadamente  a  Repu- 


5Ô 


blica,  apraveitando  os  homens  viciados,  sem 
capacidade  e  sem  cultura,  os  medalhões  do  im- 
pério, c  que  pela  adhesão  fácil  se  habilitaram  a 
occupar  os  logares,  a  gosar  dos  proventos  e  das 
posiçc3es,  sem  estudarem  mais  cousa  alguma,  sem 
comprehenderem  sequer  que  a  ordem  nova  das 
cousas  importava  idéas  mais  adiantadas  e  cultas, 
maneiras  e  processos  politicos  novos  e  mais 
delicados,  que  elles  não  conheciam,  ou  eram  in- 
competentes para  praticar. 

Os  interesses  dos  partidos  não  se  identificaram 
com  o  povo,  porque  foram  apenas  os  de  alguns 
homens,  que  se  juntaram  no  dia  seguinte,  rene- 
gando as  suas  bandeiras  com  toda  a  ligeireza. 

De  modo  que  o  povo  serviu  apenas  como  a 
carne  de  canhãoaoimpeto  do  celebre  conquistador 
para  obter  um  resultado  falho;  de  modo  que  do 
aborto  resultou  apenas  a  mudança  de  uma  figura 
mas  ficou  o  mesmo  partido,  os  seus  homens  e 
idéas,  com  as  mesmas  qualidades  c  defeitos  que 
já  tinha. 

Em  resultado,  após  este  desastre  que  o  collocou 
fora  do  poder,  quasi  sem  esperanças  de  voltar  a 
elle,  sem  este  incentivo  e  estimulo,  o  partido 
nacional  não  poude  mais  viver  propriamente. 

A  sua  vida  foi  d'ahi  em  diante  uma  agonia.  O 
que  tinha  sido  um  exercito  transformou-se  afinal 
n'um  grupo  e  debandou. 

E  como  pelo  systema  eleitoral  vigente  (*)  não  á 
possível  subir  pelas  urnas,  nunca  mais  houve  uma 

(*}  —  ÍMíi  no  tempo  da  aJministraçno  do  dr.  José  Gonçalves  que 
se  naúgurou  o  costume  de  mandar  o  Governo  furtar  votos,  alterar  o 
numero  de  eleitores,  etc,  por  meio  da  falsiticação  das  respectivas  actas, 
o  que  n  povo  conhece  sob  a  denominação  pittorcsca  de  «  ticorio  ». 

A  primeira  eleição,  após  a  Republica,  preparada  no  tempo  do. 
CleneiMi  Herm-js,  exprimiu  as  diversas  opiniões  existentes  no  Estado. 

As  eleições  preparadas  c  feitas  pelo  dr,  José  Gonçalves  iniciaram 
as  unanimidades  governamentaes  por  este  vicio  imprudente  de  falsificar 
os  votos,  que  tem  deshonrado  a  Republica. 

:\.  do  qA. 


06 


aggremiação  politica  capaz  de  se  oppôr  ás  demasias 
doeste  poderoso  partido  do  Governo,  que,  omni- 
potente, tendeu  naturalmente  á  tyrannia  como 
tendem  os  homens  e  os  partidos  em  taes  condições. 

E  aqui,  é  que  está,  n'uma  lei  má,  a  chave  da 
questão,  a  causa  real  do  movimento  de  24  de 
Novembro,  que  arrastou  homens  da  nobresa  de 
sentimentos  de  Almeida  Couto  c  muitos  dos  seus 
companheiros  pelo  caminho  torvo  da  revolta, 
como  arrastará  ainda  outros,  até  que  todos  os 
cidadãos  tenham  uma  só  crença  politica,  unanime, 
ou  até  que  todos  se  resignem  a  abandonar  os 
negócios  públicos  ou  a  se  bandear,  pois  é  bem 
lógico  que,  emquanto  não  forem  cumpridas  since- 
ramente as  promessas  theoricas  de  liberdade  e 
verdade  eleitoral,  se  debaterá  a  Republica  nas  in- 
trigas estéreis,  nas  illegalidades  e  nos  crimes 
políticos. 

Os  homens  que  pertenceram  aos  partidos 
mortos  têm  entrado  na  vida  do  partido  do  governo, 
mas  são  homens,  não  são  bandeiras,  não  são  idéas, 
nem  programmas  que  saiam  das  a^spirações  c 
necessidades  publicas. 

Corpos  que  se  fundem  não  possuem  mais  a 
vitalidade  primitiva. 

E^  um  mal  para  o  Estado  e  para  a  vida  normal 
da  Republica,  para  a  qual,  como  para  o  mar,  a 
estagnação  será  a  infecção;  que  não  pôde  viver  sem 
a  lucta  das  opiniões,  que  é  a  vida  dos  povos  livres 
e  até  para  este  mesmo  partido  que  se  dcsorganisa 
lenta  mas  seguramente  pelas  scisões  e  pelas  dila- 
cerações insultuosas  c  pessoaes;  e  porque  assim, 
andando  não  tem  elle  tempo,  nem  pode  attender 
para  as  grandes  cousas  que  são  os  alicerces  das 
prosperidades,  da  fortuna,  da  gloria  e  da  honra  do 
Estado. 


Oi 


Força  é  confessar  cjue  tanto  a  policia  como  a 
linha,  atirando  a  primeira  para  manter  as  commu- 
nicaçõcs  da  repartição  que  estava  encarreirada  de 
guardar,  e  defender  o  edifício  ameaçado  pelos 
agentes  de  uma  sedição  que  estava  agindo  para 
depor  o  governo  constituido,  assim  como  a  segunda, 
atirando  para  defender  ávida  de  um  homem  que 
lhe  estava  confiada,  cumpriram  o  seu  dever. 

A  responsabilidade  do  sangue  derramado  cae 
mais  alto,  logicamente. 

Senhores,  não  podemos  fazer  da  historia  uma 
mentira  convencional,  obediente  ás  nossas  relações 
de  amisade  ou  deferência. 

Devemos  a  verdade  aos  nossos  filhos  e  só  com 
ella  a  mestra  da  vida,  poderá  apontar  ao  espirito 
da  juventude  estes  principios  immortaesde  direito, 
de  moral  e  de  justiça  que  são  os  alimentos  da  juris- 
prudência e  das  liberdades  das  nações. 

Não  podemos,  nem  devemos  mentir  aos  vin- 
douros, porque  não  é  da  mentira  que  poderão  sair 
as  lições  de  experiência  e  de  civismo  que  farão 
no  futuro  a  grandeza  desta  pátria. 

E  pois  que,  como  disse  o  poeta — «Que  o  homi- 
cidio,  o  sangue  derramado  é  o  sangue  derramado  e 
que  aos  olhos  de  Deus  eterno,  não  se  muda  a  figura 
do  assassino  porque  em  vez  de  um  barrete  de 
forçado,  se  lhe  põe  na  cabeça  uma  coroa  de  impe- 
rador», força  é  dizer  como  sentimos,  pela  evi- 
dencia das  provas,  que  se  encontra  mais  alto  a 
responsabilidade  das  mortes  e  dos  ferimentos  que 
se  fizeram  na  Bahia,  neste  dia  24  de  Novembro 
de  1891. 

^r.   ^raz  do  Amaral. 


58 
APPENDICE 


Este  trabalho  motivou  uma  serie  de  artigos 
dados  á  estampa  no  Diário  de  Noticias  pelo  dr.  José 
Gonçalves  da  Silva. 

SÍisceptibilisado  porque  eu  em  alguns  pontos 
não  apresentara  o  seu  procedimento  e  qualidades 
sob  forma  agradável  e  elogiosa,  o  ijue  eu  não  podia 
fazer  por  convencido  de  terem  sido  as  deseraças 
occorridas  em  24  de  Novembro  resultado  da  sua 
incapacidade  para  o  alto  cargo  que  exerceu,  o  ex- 
governador  entendeu  fazer  o  que  se  chama  uma 
desaíFronta,  de  accordo  com  a  paixão,  a  que  aliás 
não  surprçhende  a  quem  conhece  um  pouco  as 
tendências  e  fraquezas  humanas. 

Infelizmente  pelo  azedume  e  violência  não  foi 
útil  como  poderia  tel-o  sido  o  trabalho  do  ex-go- 
vernador,  como  si  se  tivesse  limitado  a  esclarecer 
ou  contestar  seriamente  as  affirmações  graves  que 
eu  havia  feito  sobre  as  falsificações  eleitoraes  (bi- 
corio),  sobre  os  factos  que  precederam  immediata- 
mente  o  dia  24  de  Novembro,  incluindo  a  sua 
adhesão  ao  golpe  de  Estado,  assim  como  as  razões 
jurídicas  ou  politicas  que  a  tivessem  porventura 
justificado,  e  a  sua  attiiude  de  figura  dirigida  peles 
outros  no  período  que  se  seguiu  até  o  restabeleci- 
mento da  ordem  constitucional  e  legal  do  Estado. 

O  ex-governador  afastou-se  em  digressões  que 
tinham  por  fim  rebater  o  que  eu  não  havia  dito 
e  provar  uma  importância  politica  na  zona  ser- 
taneja de  Villa-Nova  a  que  eu  não  me  referira, 
por  ser  cousa  inopportuna  tratando-se  do  golpe 
de  Estado  de  3  de  Novembro. 

Fácil  seria,  citando  o  que  eu  escrevi  e  o  que 
escreveu  depois  odr.  José  Gonçalves,  deixar  exhu- 
berantemente  documentado  o  que  acabo  de 
accentuar. 


59 


Para  isto  porém  seria  preciso  não  só  dispor  de 
mais  espaço  n'esta  Revista^  como  ler  os  artigos  do 
ex-govcrnador  (]ue  são  longos,  muitos  d'elles  dit- 
fusos  e  acrimoniosos;  outros  inteiramente  fora  do 
ponto  em  discussão. 

E  para  esta  leitura  também  me  fallece  lazer. 

Separando  a  questão  do  interesse  calmo  e  se- 
reno da  historia  e  do  sincero  desejo  de  ensinar 
á  posteridade  a  verdade  dos  acontecimentos,  sem 
a  preoccupação  convencional  de  agradar  a  quem 
quer  que  seja,  não  vale  a  pena  gastar  palavras, 
perdendo  um  tempo  que  pode  ser  melhor  em- 
pregado. 

Foram  estes  artigos  do  dr.  José  Gonçalves  a 
que  me  refiro,  que  deram  causa  á  publicação  da 
parte  que  vae  sob  o  titulo  Appendíce, 


iè0r.  O^raz   do  Mniaral. 


CARTAS  DOS  DRS.   SATYRO  DIAS,  PAULA 
GUIMARÃES  E  FELIPPE  DALTRO 

((Meu  caro  dr.  Amaral.  —  Recebi  pelo  nosso 
amigo  Borges  dos  Reis  o  discurso  que  me  mandou. 
Sempre  obrigado. 

Remetto-lhe  a  nota  junta,  escripta  pelo  Paula 
Guimarães,  a  propósito  do  seu  questionário  sobre 
a  bernarda  de  24  de  Novembro,  na  Bahia. 

Como  verá,  é  um  esboço  rápido  mas  con- 
sciencioso e  verdadeiro,  do  que  se  passou  então. 
E'  pena  que  elle  o  traçasse  tão  á  voUd^oUeau. 

Sei  que  já  leu  no  nosso  Instituto  a  sua  Memoria 
a  respeito  desses  acontecimentos:  li  o  primeiro 
trecho  delia,  na  edição  de  8,  do  Diário  de  Noticias^ 
c  estou  ancioso  pela  outra.  A  nota  do  Paula  chega, 


«o 


portanto,  tarde;  mas  não  foi  possível  envial-a  a 
tempo.  Em  todo  caso  creio  que  lhe  aproveitará 
para  a  revisão  do  seu  trabalho,  ou  para  a  impressão 
delle  cm  folheto,  quando  nada  o  impede  de  fa- 
zer-lhe  as  modificações  que.  por  ventura,  lhe  sug- 
gira  o  estudo  da  referida  nota. 

Adeus,  até  breve,   pois  pretendo  ir  buscar  a 
familia,  nos  primeiros  dias  de  Junho  próximo. 

Sempre  com  muita  estima  e  grande  apreço. 

Do  collega  e  amigo  muito  aífectuoso.  —  Salyro 
Dias. 


O  dr.  Paula  Guimarães  prefacia  as  notas  com 
a  seguinte  : 

«  Meu  caro  dr.  Braz  do  Amaral.  — Já  lhe  enviei 
a  nota  sobre  os  acontecimentos  de  24  de  Novem- 
bro, na  Bahia,  que  me  pediu  por  intermédio  do 
dr.  Satyro. 

Demorada  por  múltiplos  affazeres,  deante  da 
insistência  do  nosso  rererido  amigo,  escrevi-a  ás 
pressas,  currente  calamo^  sem  mesmo  reler  o  que 
escrevi :  d'ahi  as  deficiências  e  omissões  que  não 
podem  deixar  de  existir,  por  me  terem  faltado 
tempo  e  lazer  necessários  para  avivar  a  memoria 
de  factos  occorridos  ha  doze  annos.  Do  que  verá, 
porém,  pôde  o  amigo  tirar  alguns  elementos  para 
a  Memoria  que  está  escrevendo  sobre  o  assumpto. 

Seja  sempre  feliz  e  disponha  dos  poucos  prés- 
timos do  velho  amigo  attectuoso  e  admirador. — 
Paula  Guimarães. 


a  Ao  voltar  do  Rio,   dissolvido   o  congresso 
nacional  pelo  golpe  de  Estado  de  3  de  Novembro, 


61 


abri  os  olhos  ao  Governador,  dr.  José  Gonçalves, 
meu  amigo,  sobre  osperigosda  situação,  dando  lhe 
a  entender  que  se  preparava  a  inevitável  reacção 
contra  o  acto  do  Marechal  Deodoro  e  aconse- 
Ihando-o  á  que  se  manifestasse  a  favor  dos  que 
tinham  assignado  o  manifesto,  de  que  lhe  dei 
conhecimento. 

Respondeu-me  o  dr.  José  Gonçalves  que  a 
dignidade  não  lhe  permittia  voltar  atraz,  embora 
visse  que  havia  sido  illudido. 

Dois  ou  três  dias  depois,  voltei  á  Secretaria 
do  Governo,  em  23  de  Novembro,  e  conversava 
com  o  Governador  sobre  o  assumpto  momentoso 

3ue  a  todos  preoccupava,  quando  chegou  o  chefe 
o  districto  telegrapnico  que  lhe  mostrou  o  des- 
pacho communicando  a  renuncia  do  ^Marechal 
Deodoro  e  haver  o  Marechal  Floriano  assumido 
o  governo;  o  sr.  José  Gonçalves,  ao  lel-o,  vol- 
tou-se  para  mim  e  disse:  uVou  renunciar  o  go- 
verno ». 

(í Sinto  muito,  mas  não  tem  outro  caminho  a 
seguir»,  respondi.  Sahi  logo  e  fui  ao  quartel  da 
Palma  prevenir  o  Coronel  Moreira  César  e  o 
dr.  Urbano  de  Gouveia,  então  em  serviço  na  Bahia, 
como  engenheiro  encarregado  das  obras  militares, 
os  quaes  preparavam  o  movimento  que  devia  re- 
bentar ahi  de  accordo  com  o  das  outras  guarnições 
contra  o  golpe  de  Estado,  movimento  que  no  Rio 
íòra  antecipado  por  circumstancias  especiaes. 

Dei-lhes  noticia  do  occorido,  recebida  com 
muita  satisfação,  ficando  logo  resolvido  que  o  mo- 
vimento milhar  não  tinha  mais  razão  de. ser  c 
por  consequência  sustada  a  deposição  do  dr.  José 
Gonçalves. 

Com  municado  o  facto  também  ao  Generallude, 
meu  amigo  particular,  ficou  este  satisfeito  e  tran- 
quillo,  porque  assim  evitara-se  a  desordem  que 


(52 


cllc  temia.  Fui  para  a  Calçada  onde  estava  hospe- 
dado com  minha  família  cá  noite  voltei  ao  Quartel 
General.  Ahi  encontrei  o  General  Tudeatflictoe 
me  communicou  que  os  Coronéis  Moreira  César  e 
Saturnino  Ribeiro  haviam  sahido  pouco  antes  e 
que  iam  reunir-^se,  em  casa  do  Conselheiro  Almeida 
Goiito,  aos  politicos  que  n'aquellà  mesma  noite 
iam  depor  o  dr.  José  Gonçalves.  Aconseihou-me 
o  General  Tude  que  eu  fosse  á  casa  do  Conselheiro 
Couto,  para  ver  se  impedia  o  que  se  projectava. 

Lá  fui  e  entrei  resolvido  a  arcar  contra  tal  pre- 
tenção. 

Devo  dizer  que  embora  fosse  eu  contra  o  golpe 
de  Estado,  estava  ao  lado  do  Governador,  nada 
tramando  com  os  politicos  da  opposição  chefiada 
pelos  drs.  Couto  e  Freitas. 

Em  casa  do  Conselheiro  Couto  encontrei  muita 
gente,  entre  civis  e  militares,  sendo  d'aquelles  os 
conhecidos  chefes  da  opposição  no  Estaclo  e  todos 
quantos  os  acompanharam  e  dos  militares  os  Co- 
ronéis. Moreira  César  e  Saturnino,  o  Capitão 
Caldas  e  muitos  outros. 

Pedindo  licença  ao  dr.  Almeida  Couto  para 
falar,  dirigi-me  ao  Coronel  xMoreira  César  evehe- 
mentemente  profliguei  quererem  os  militares,  que 
protestavam  contra  o  golpe  de  Estado,  fazel-o  na 
Bahia  acompanhando  os  que  á  hora  adiantada  da 
noite  pretendiam  expellir  o  governador  do  palácio, 
quando  elles  sabiam  e  eu  o  dizia  de  publico  ali, 
que  este  já  tinha  prompto  o  officio  de  renuncia, 

âue  no  dia  seguinte  ia  mandar  ao  senado.  Depois 
e  troca  um  tanto  excitada  de  palavras  entre  mim, 
os  Srs.  Cruz  Rios  e  Moreira  César,  depois  de 
ouvir  que  o  governo  iria  passar  ao  dr.  Luiz  Vianna, 
presidente  do  senado,  o  que  seria  pcior  (diziam) 
que  continuar  o  Sr.  José  Gonçalves,  consegui  cjue 
os  Coronéis  Moreira  César  eSaturnino,  Capitão 


63 


Caldas  c  outros  se  retirassem  commigo,  ficando 
assim  abortado  o  plano  da  deposição  n'aquella 
noite  de  23  de  Novembro. 

A  24,  quando  cheguei  á  cidade,  vindo  da  Cal- 
çada, foi  que  li  o  convite  do  dr.  Zama,  no  jornal 
Estado  da  Bahia,  para  o  meeting  da  Praça. 

Fui  ao  General  Tude,  a  quem  preveni  para 
manter  a  ordem,  e  dirigi-mc  á  Piedade,  onde  se 
achava  o  dr.  José  Gonçalves  na  secretaria  do 
governo,  ficando  ao  lado  doeste. 

Quando  chegou  a  com  missão  composta  dos 
drs.  Villasboas,  Cincinato  e  não  sei  qual  o  outro 
talvez  o  dr.  Cruz  Rios,  depois  que  esta  dirigiu  a 
intimação  ao  dr.  José  Gonçalves,  adiantei-me 
protestando  em  vibrante  allocução,  dizendo  que 
ate  na  véspera  eu  estava  prompto  a  um  movi- 
mento revolucionário  contra  o  golpe  de  Estado, 
e  que  iria  até  a  deposição  do  meu  amigo  governador 
da  Bahia,  mas  que  agora,  após  a  victoria  da  lega- 
lidade no  Rio,  quando  não  havia  perigo  nem  gloria, 
eu  me  oppunha  a  que  se  ferisse  a  constituição  do 
Pastado  com  uma  illegalidade  tão  grande  como  a 
que  se  tinha  feito  no  Rio,  sendo  a  mesma  questão 
de  princípios  e  não  de  homens. 

Depois  de  ter  eu  falado,  adeantou-se  o  dr. 
Amphilophio,  que  abundou  nas  considerações  já 
feitas  por  mim.  Emquanto  se  debatia,  o  dr.  José 
Gonçalves  declarou,  tendo  ao  lado  o  General 
Tude,  a  quem  eu  havia  chamado,  pulando  pela 
escada,  (  e  não  pela  janella  )  porque  o  povo  im- 
pedia a  quem  quer  que  fosse  de  sahir  da  Piedade 
(Secretaria),  declarou  o  dr.  José  Gonçalves  que 
não  acceitava  a  intimação  c  permaneceria  no  seu 
posto. 

Retirada  a  commissão,  voltou  o  General  Tude 
para  o  quartel-general,  ficando  muita  gente  com 
o  dr.  José  Gonçalves. 


64 


Foi  depois  disto  que  occorreu  o  incidente  com 
o  Tenente  Machado,  a  excitação  popular,  tenta- 
tiva de  ataque  e  incêndio  ao  Palácio  da  Piedade, 
recusa  do  com  mandante  da  policia  em  obedecer 
ao  dr.  José  Gonçalves,  indo  eu  novamente,  pas- 
sando pelo  meio  dos  exaltados,  chamar  o  General 
Tude  para  manterá  ordem. 

O  Governador  tentou  passar  a  administração 
ao  Presidente  do  Senado  e  ao  Presidente  da 
Gamara,  que  o  não  acceitaram,  por  lhes  faltarem 
as  garantias  da  força.  Em  vista  do  que  cedeu  elle 
o  governo  do  Estado  ao  General  Tude  apara 
manter  a  ordemt  e  retirou-se  para  a  casa  do  com- 
mendador  Manoel  Vianna,  ao  largo  do  Theatro. 

Influi  no  espirito  do  General  Tude  que,  como 
toda  a  família,  tinha  em  mim  grande  confiança 
como  medico  e  amigo,  para  que  não  fizesse  «  acto 
de  governo»  e  esperasse  que  se  normalisasse  a 
situação  mantendo  a  ordem  publica. 

De  accordo  com  isto,  no  dia  seguinte  cedo 
mandou  elle  chamar  o  dr.  Satyro  Dias,  Presidente 
da  Gamara,  com  o  qual  conversou.  Ao  chegar  ao 
Quartel-Gcneral,  sabendo  eu  do  que  havia,  propuz 
que  se  reunisse  o  Senado  e  tomasse  conhecimento 
da  renuncia  do  sr.  José  Gonçalves;  que  o  dr. 
Luiz  Vianna,  Presidente  do  Senado,  por  sua  vez 
resignasse,  sendo  eleito,  por  accordo,  para  a  pre- 
sidência um  Senador  que  inspirasse  confiança  a 
ambos  os  lados,  assumindo  o  Governo.  Indiquei 
um  nome,  o  do  dr.  Horácio  César.  A  isto  se  oppu- 
zeram  os  chefes  do  movimento  da  véspera,  di- 
zendo o  dr.  Cruz  Rios  que  a  revolução  estava 
triumphante  e  senhora  do  campo. 

Oppuz-me  tenazmente  a  que  o  General  Tude 
fizesse  acto  algum  de  governo,  tanto  que,  tendo 
elle  nomeado  Chefe  de  Policia  ao  Coronel  Mo- 
reira Cçsar,  poucos  dias  depois  (2  ou  3 )  soube  ao 


ÍJÍI 


chegar  cedo  á  sua  casa,  que  estava  lavrado  de- 
creto nomeando  o  dr.  Cândido  Leão;  ponderei- 
Ihe  quanto  de  irregular  havia  em  lai  acio  que 
ficou  sem  effeito. 

Ambas  as  parcialidades  procuraram  o  Mare- 
chal Floriano,  buscando  pòl-o  do  seu  lado.  No 
Rio,  trabalhavam  a  favor  do  dr.  José  Gonçalves, 
os  srs.  Ruy  Barbosa  e  Dyonisio  Cerqueira. 

O  Marechal  Floriano  resolveu  mandar  á  Bahia 
o  Coronel  Abreu  Lima  para  informal-o  da  situa- 
ção. Este  a  principio  parecendo  favorável  ao  dr. 
José  Gonçalves,  depois,  talvez  por  influencia  do 
Coronel  Moreira  César,  foi  pendendo  para  os 
adversários.  O  General  Tude,  assediado  por  todos 
os  lados  e  doente  não  poude  mais  e  passou  o 
bastão  ao  Coronel  Abreu  Lima,  o  qual  assumiu 
o  g3verno  do  Estado  da  Bahia.  Protestei  logo,  no 
mesmo  dia,  no  Jornal  de  Noticias,  fazendo  o  mesmo 
o  dr.  Amphilophio,  não  reconhecendo  no  Coronel 
Abreu  Lima  autoridade  de  Governador  da  Bahia. 

Passados  3o  dias  de  interregno,  hesitações, 
dubiedades,  etc,  etc,  afinal  resolveu  o  Marechal 
Floriano  que  se  fizesse  o  que  havia  eu  proposto  no 
dia  25.  Reunimo-nos, creio  que  no  «  Hotel  Paris», 
amigos  c  adversários  do  Governador  e  ali,  em  pre- 
sença do  (Coronel  Abreu  Lima,  licou  resolvido  que 
o  Senado  seria  convocado,  o  dr.  Luiz  Vianna  resi- 
gnaria a  presidência,  sendo  eleito  o  Chefe  de  Di- 
visão reformado  Leal  Ferreira,  que  assumiria  o 
Governo,  acceita  a  renuncia  do  dr.  José  Gon- 
çalves. Assignou-se  uma  acta  de  que  o  Coronel 
Abreu  Lima  disse  precisar  para  mandar  ao  Mare- 
chal Floriano,  acta  que  tem  os  nomes  dos  srs.  Se- 
verino, Freitas,  Paula,  F^ilgueiras,  Moreira  César 
e  outros. 

No  dia  seguinte,  após  a  posse  do  sr.  Leal  Fer- 
reira no  cargo  de  Presidente  do  Senado,  quando 


m 


na  Secretaria  do  Governo  ia  ellc  tomar  posse  da 
administração,  o  Coronel  Abreu  Uma  começou 
a  ler  a  tal  acta,  a  que  me  oppuz  em  vehemente 
protesto,  seguido  de  tumulto  e  vozeria,  sendo  o 
Coronel  Abreu  Lima  levado"  por  fim  pelo  braço 
do  dr.  Amphilophio.  Empossado  o  Chefe  cie 
Divisão  Leal  Ferreira,  entrou  tudo  nos  eixos,  não 
sendo  otfendida  a  Constituição  da  Bahia,  apezar 
de  um  eclipse  de  3o  dias. 

O  C()rí)nel  Moreira  César  aconselhou  o  (íe- 
neral  Tude  a  pender  para  o  lado  dos  srs.  Couto 
e  Freitas. 

Não  sei  que  parlamentassem  o  Coronel  Abreu 
Lima  e  o  dr.  Amphilophio,  sendo  que  este  agia  de 
accordo  com  os  seus  sentimentos  Íntimos  e  de  jus- 
tiça, sempre  commigo. 

Não  havia  quem  dirigisse  entre  os  srs.  Luiz 
Vianna,  Severino,  Amphilophio  e  eu. 

F2sperava-se  tudo  da  palavra  do  Marechal  Flo- 
riano,  dominador  absoluto  no  momento  e  a  quem 
a  força  obedecia. 

Creio  que  o  dr.  Vianna  conferenciou  com  o 
Coronel  Abreu  Lima  c  também  com  o  Coronel 
Moreira  Ccsar. 

Nada  sei,  porém,  ao  certo;  nem  eu  tinha,  então 
como  hoje,  outra  preoccupação  senão  a  de  prestar 
desinteressados  serviços  á  causa  da  ordem  e  da 
paz,  salvando  os  principios  e  a  dignidade  moral. 

O  dr.  José  Gonçalves  era  ouvido  com  as  de- 
vidas deferências,  mas  devido  a  naturalissima 
excitação  nervosa,  pouco  decidia,  nem  o  podia 
fazer  com  êxito,  em  vista  das  circumstanciasexce- 
pcionaes. 

Lu  era  ouvido  porque  não  se  duvidava  da  mi- 
nha lealdade,  embora  não  agradasse  muito  aos 
exaltados  gonçalvistas  a  minha  maneira  calma  e 
imparcial    de   ver   as    coisas,    minha    defeza   ao 


«7 


General   1'ude,    minha   opposição    ao  ^olpe    de 
Estado,  etc. 

Recebi,  entretanto,  sempre  provas  da  con- 
íiança  do  próprio  dr.  José  Gonçalves,  que  sempre 
me  estimou.  * 

A'  conferencia  a  que  acima  alludo  para  a  es- 
colha do  Chefe  de  Divisão  Leal  Ferreira  assisti- 
ram os  cavalheiros  acima  citados  o  dr.  Amphi- 
lophio,  e  também,  se  não  me  engano,  os  s.rs. 
Severino,  Leovigildo  Filgueiras  e  outros  de  que 
não  me  recordo. 

Nada  conheço  dâ  falada  missão  Servilio  Gon- 
çalves. No  livro  do  dr.  João  Tourinho  sobre  os 
factos  da  deposição  do  dr.  José  Gonçalves,  apa- 
nhado do  que  então  se  publicou  na  imprensa  da 
terra,  ha  artigos  meus,  sendo  que  o  ultimo  docu- 
mento, uma  carta  ao  Capitão  Caldas,  trata  de 
minha  visita  a  casa  do  conselheiro  Almeida  Couto, 
na  noite  de  23  de  Novembro. — Paula  Guimarães. 


Lendo  no  Diário  de  Noticias  a  «Memoria  His- 
tórica apresentada  pelo  dr.  Braz  do  Amaral  ao 
Instituto  Geographico  e  Histórico  da  Bahia  »  no 
trecho  «acontecimentos  de  24  de  Novembro  de 
1891  «  deparei  meu  nome  com  a  informação  que 
prestei  a  pedido  do  meu  collega  e  amigo  Conse- 
lheiro João  l'orres  sobre  o  morticínio  que  tivera 
logar  nesse  dia. 

K'  um  facto  histórico  e  como  tal  cabc-mc  de- 
clarar que  não  contei  os  cadáveres,  mas  não  é 
exagerado  o  numero  de  3o  entre  mortos  e  feridos  ; 
e  da  própria  nota  do  Conselheiro  Luiz  Vianna  se 
verifica  que  se  das  descargas  da  linha  deram-se 


6H 


14  mortes,  quantas  victimas  poderiam  dar-sedas 
descargas  da  policia  que,  entrincheirada  na  repar- 
tição central,  surprenendeu  o  povo  agglomerado 
cm  massa  na  praça  da  Piedade  ? 

Bahia,   27  de  Maio   de    1903. — F,  Dallro  de 
Castro  y>. 


LEVANTES  DE  PBETOS  NA  BAHIA  ('] 


^ J^  dc  longe  os  funestos  acontecimentos 

%mL^  de  frequentes  levantes  de  escravos  africanos 
na  Bahia. 
Referem  as  chronicas  que  nos  primeiros  annos 
do  século  XVI II  era  bem  reduzido  o  commercio 
de  escravos  da  Bahia  com  a  Costa  da  Mina,  pelas 
hostilidades  da  HoUanda  e  de  outras  nações  con- 

3uistadoras.  Nos  annos  de  lóSy  e  1642  os  hollan- 
ezes  tomaram  os  castellos  de  S.  Jorge  da  Mina 
c  de  Santo  António  de  Axim,  que  os  portuguezes, 
primeiros  descobridores  daquella  costa,  haviam 
nclla  erigido.  Com  as  fortificações  levantadas  por 
aquellas  nações  em  toda  a  extenção  da  costa, 
perderam  os  portuguezes  o  dominio  que  nella 
tinham  e  quasi  se  extingiu  o  commercio  que  faziam 
com  os  negros  da  Africa  Occidental. 

(jovcrnava  a  Bahia,  pelos  annos  de  1720  a 
1735,  Vasco  Fernandes  César  de  Menezes,  Conde 
de  Sabugosa.  Vendo  este  vice-rei  a  notável  deca- 
dência da  agricultura  bahiana,  pela  escassez  de 
braços  resolveuanimar  os  negociantes  a  renovarem 
o  commercio  de  escravos  com  a  Costa  da  Mina, 
c.  mandando  construir  24  navios,  os  repartiu  pelas 

(  *  )  Kxlrahidodo  uJornaldoComnicrcio»  do  Rio  de  Janeiro,  de  26  dc 
.\lai(>  de  ii>o3,  onde  foi  publicado  esse  interessante  trabalho  pelo  nosso 
iliííim  conterrâneo  e  consócio  Dr.  Eduardo  dc  Caldas  Britto. 

Damos  em  seguida  o  que  sobre  o  mesmo  assumpto  publicou  o 
tallccido  consócio  José  Carlos  Í'erreira  sob  o  titulo— «As  Insurreições 
<UiÁ  Africanos»,  e  documentos  conservados  no  Archivo  Publico  da  Bahia 
bubre  a  insurreição  dc  i83d. 

(  NuTA  DA  Redacção  ) 


70 


casas  mais  opulentas  da  praça  da  Bahia,  ordenando 
que  os  artilhassem  para  resistirem  aos  ataques  dos 
hollandezes.  Sendo,  porém,  pequenas  estas  embar- 
cações para  enfrentarem  os  navios  de  guerra  ini- 
migos,foram  inefficazesosdesejosdaquellevice-rei. 

Creada  a  mesa  da  inspecção,  em  i.**  de  Abril 
de  lySi,  o  commercio  de  escravos  com  aquella 
costa  começou  a  tomar  certo  incremento;  e  por 
esse  tempo  o  trafico  era  monopolisado  por  alguns 
negociantes  e  dos  mais  ricos  da  capitania. 

No  Governo  de  d.  Marcos  de  Noronha  e  Britto, 
6."*  conde  dos  Arcos  e  vice-rei  do  Brazil,  mandou 
d.  José  I,  em  virtude  da  resolução  de  6  de  Março 
de  1756  do  conselhode  Ultramar,  que  se  permitíisse 
a  todos  franca  liberdade  de  commercio  com  a 
Costa  da  Mina.  Pelas  circumstancias  espcciaes  cm 
que  se  achava  a  capitania  da  Bahia,  por  ser  a 
utiica  productora  de  tabaco  em  larga  escala,  tinha 
por  isso  mesmo  o  privilegio  do  commercio  com 
aquella  costa,  onde  viviam  as  tribus  mais  guerreiras 
de  leste  d'Africa:  aussás,  ou  ussás,  gcges,  nagòs,  etc. 

No  começo  do  século  passado  os  navios  ne- 
greiros alijavam  no  porto  da  Cidade  do  Salvador 
legiões  de  captivos  trazidos  da  Costa  da  Mina;  e 
nos  logradouros  públicos  essa  carne  humana  era 
legalmente  exposta,  examinada  e  vendida  a  preço 
vil:  cem  mil  réis  por  cabeça,  e  das  mais  validas  e 
das  mais  fortes.  Esses  negros  eram  a  partilha  ou 
antes  os  despojos  opimos  das  guerras  intestinas 
entre  as  tribus  atricanas,  espécie  de  mercadoria 
que  se  permutava,  nos  portos  dos  dominios  por- 
tuguezes,  por  géneros  levados  do  Brazil.  Kram  os 
braços  fortes  da  lavoura,  os  únicos,  no  dizer  dos 
administradores  coloniaes,  que  resistiam  ás  in- 
tempéries, úsardentias  do  sol  brasilico  caos  penosos 
e  rudes  trabalhos  do  bravio  campo.  1^  fora  essa 
a   nossa  colonisação. . .  que  os  braços    lusitanos 


71 


eram  escassos  para  o  manejo  das  armas  em  defesa 
do  solo  conquistado. 

Na  primeira  década  daquelle  scculo  contava 
a  Cidade  da  Bahia  pouco  mais  de  cincoenta  mil 
habitantes,  divididos  em  quatorze  mil  brancos, 
onze  mil  mestiços  e  vinte  cinco  mil  negros.  O 
trafico  era  o  maior  factor  do  augmento  de  sua 
população.  Só  no  anno  de  1807  entraram  na 
capitania  8.0'ij  escravos;  e  não  fora  menor  o 
numero  nos  annos  anteriores. 

Nessa  época,  dil-o  o  próprio  Governador  Conde 
da  Ponte,  consistia  a  escravidão,  na  Cidade,  em 
retribuirem  diariamente  os  escravos  aos  senhores 
com  oito  até  doze  vinténs,  procurando  livremente 
os  meios  de  os  haverem  ;  eaquellcs  que  os  senhores 
empregavam  em  seus  serviços,  domésticos  ou 
commerciaes,  tinham  á  noite  licença  para  se  divertir 
á  vontade.  Viviam  sem  sujeição  aíguma  (  1  ). 

De  dia  reuniam-se  em  grupos  nos  cantos  das 
ruas  de  mais  movimento,  mettidos  nas  calças  de 
algodão  grosso,  camisas  sem  mangas,  carapuças  de 
variadas  cores  á  cabeça,  ou  chapéos  de  palha  por 
clles  mesmos  tecidos,  nas  horas  de  ocio^  sentados 
em  tamboretes  ou  acocorados  ás  portas,  a  espera 
dos  carretos  ou  recados,  debaixo  da  direcção  de 
um  chefe,  ao  qual  chamavam  Capitão  e  a  quem 
obedeciam  cegamente.  As  pretas  percorriam  as 
ruas  mercadejando  as  quitandas  do  seu  exótico 
commercio,  braços  e  pescoço  ornados  de  figas  e 
missangas,  dependurados  os  tenros  filhinhos  aos 
quadris,  seguros  pelo  Panno  da  Cosia  atravessado 
á  cintura.  As  raparigas occupavam-se dos  trabalhos 
de  casa,  sob  a  guarda  das  familias,  cujo  luxo 
consistia  em  terem  ao  seu  serviço  domestico  grande 
quantidade  delias.  E  não  se  misturavam  as  diífe- 

(  I  )  Oflicio  de  iT)  de  Juniu»  de  i8o7  da  Correspondência  dos  Gover- 
nadores —  17S3  a   1S07,  do  Insiiiuto  líistorico  Gcographico   Brasilciri». 


72 


rentes  tribus.  De  dia  ou  de  noite  e  a  toda  hora  pretos 
c  pretas  juntavam-se  e  dançavam  e  tocavam  os 
seus  batuques  pela  Cidade  ou  nos  Casebres^  onde 
occultavam  as  escrava  novas,  que  os  Capitães 
gozavam  impunemente. 

Nos  domino;os  ou  dias  de  festas,  nas  ruas  e 
largos  da  Cidaae,  não  se  ouviam  sinão  os  toques 
desentoados  e  atroadores  de  seus  instrumentos,  de 
envolta  com  a  monotonia  de  seus  cantos  selvagens. 

Os  escravos  do  recôncavo,  os  da  lavoura,  eram 
alimárias  de  trabalho,  mal  alimentadas  e  muitos 
delles  tendo  apenas  a  tanga  por  vestimenta. 

Odiavam  os  senhores,  porque  estes  os  mal- 
tratavam pelos  mais  simples  delictos  c  as  vezes 
os  ameaçavam  com  a  morte. 

O  Conde  da  Ponte,  ao  assumir  o  Governo  en- 
controu a  Cidade  da  Bahia  cdm  estes  escandalosos 
costumes,  cercada  de  quilombos  por  toda  parte, 
deondesahiam  os  negros  para  roubar  os  vianaantes 
e  as  propriedades  dos  arrabaldes.  Tratou  de  tomar 
providencias  para  policiara  Cidade  e  evitar  suble- 
vações. 

> 

Encarregou,  em  Março  de  1807,  ao  Capitão- 
mór  Severino  da  Silva  Lessa  de  dar  cabo  dos 
quilombos.  No  dia  3o  do  mesmo  mez,  o  (^apitão- 
móre  mais  80  homensdc  tropa  de  linha, escolhidos 
e  bem  municiados,  com  o  auxilio  dos  otiiciacs  do 
matto  e  cabos  de  policia,  cercaram  varias  casas  e 
nos  arraiaes  de  Nossa  Senhora  dos  Mares  c  do 
Cabula  prenderam  78  pretos,  uns  escravos  e  outros 
forros,  destinando  todos  aos  serviços  das  fortalezas 
e  dos  melhoramentos  da  Cidade. 

Com  estas  medidas  de  garantias  os  senhores 
tornaram-se  mais  cruéis  e  os  escravos  irritaram-se. 
E  foi  este  o  motivo,  naquclle  anno,  de  um  levante 
contra  os  brancos,  concertado  pelos  negros  da 
raça  Aussa. 


73 


Incendido  o  ódio  implacável  no  peito  desses 
míseros  humanos,  pelos  bárbaros  castigos  e  mãos 
tratos  que  lhes  infligiam  os  senhores,  era  natural 
que  explodisse  uma  conspiração  infernal.  Orga- 
nisaram  alguns  desses  pretos*  debaixo  de  todo 
sigillo,  uma  confederação,  com  o  designio  de 
reunir  todos  de  mão  armada,  em  ajustados  logares, 
na  Capital  e  no  recôncavo,  deliberados  a  resistir 
e  guerrear  os  brancos,  si  lhes  fosse  obstada  a  fuga. 

A'  frente  da  insurreição  achavam-se  os  pretos 
António,  escolhido  para  embaixador,  e  Balthazar, 
que  commandaria  os  companheiros  na  Capital. 
O  primeiro  era  forro,  vivia  de  pequeno  com- 
mercio  entre  a  cidade  de  Santo  Amaro,  gosando 
de  certo  predomínio  entre  os  companheiros  e  da 
confiança  e  estima  do  commercio,  tanto  da  Bahia 
como  daquella  villa;  o  segundo  era  um  negro 
intelligente  insinuante,  o  capitão^  como  lh'o  cha- 
mavam os  primeiros,  escravo  do  serigueiro  Fran- 
cisco das  Chagas,  morador  no  Corpo  Santo.  E  era 
este  o  principal  cabeça,  quem  alliciava  os  com- 
panheiros para  se  juntarem  á  sublevação,  commu- 
nicando  ao  embaixador  as  disposições  da  empreza 
e  recebendo  deste  asinstrucçõesdos  confederados. 

Projectaram  apoderar-se  da  Casa  da  Pólvora 
e  das  Armas,  incendiar  a  Alfandega  e  a  capella 
do  arrabalde  de  Nazareth,  para  que,  desviada 
a  attenção  da  tropa  e  do  povo,  que  acudiriam 
a  esses  incêndios,  mais  facilmente  se  executasse 
o  plano  combinado  (2).  Intentaram  ainda  enve- 
nenar as  fontes,  matar  os  senhores  ;  e,  victoriosos, 
constituir  um  governo,  elegendo  um  rei,  e  se 
apossar  das  embarcações  surtas  no  porto,  que  os 
transportariam  a  pátria. 

Teve  o  Conde  da  Ponte  denuncia,  no  dia  27 
de  Maio  daquelle  anno,  de  que  no  dia  seguinte, 

(  2  )    Correspondência   do   Governo  da    Rahia,    Archivo    Publico 
Nacional. 
10 


pelas  7  horas  da  noite,  se  efíectuaria  o  levante. 
A'  vista  da  denuncia  c  verificados  os  indicios,  deu 
acertadas  providencias  para  obstar  o  movimento, 
que,  embora  sem  orientação  intelligente,  seria  de 
funestas  consequências  para  os  habitantes  da 
cidade. 

Depois  de  ter  em  uma  quinta-feira  acompa- 
nhado a  procissão  de  Corpus  Clirisli^  dirigiu  o 
Conde  da  Ponte  ordens,  do  seu  próprio  punho 
escriptas,  debaixo  de  toda  a  reserva,  a  cada  um 
dos  chefes  dos  corpos  da  guarnição  para  que  pu- 
zessem  de  promptidão  as  patrulhas;  eá  bocca  da 
noite,  sem  toque  de  tambores  esem  que  na  cidade 
soasse  o  menor  ruido,  achavam-se  tomadas  as 
sabidas  e  entradas  da  cidade,  distribuidos  os  offi- 
ciaes  do  matto  em  diligencia  pelos  caminhos.  En- 
carregou o  seu  ajudante  de  ordens.  Capitão  do 
I."  regimento.  João  de  Chastinet,  de  cercar  a  casa 
denunciada,  sita  á  rua  Direita  do  Corpo  Santo. 
Dando-se  busca  nesta  casa  foram  presos  i3  pretos, 
os  principaes  cabeças,  e  encontrados  chuços,  fle- 
xas,  facas,  pistolas,  tambores,  e  outros  apetrechos 
bellicos. 

Abriu-se  uma  devassa;  foram  ospresos  submet»- 
tidos  a  processo.  Os  dois  principaes  culpados,  An- 
tónio e  Balthazãr,  foram  condemnados  á  morte, 
e  os  demais  açoitados  na  praça  publica,  a  20  de 
Marco  Jc  iSoS. 


As  respressões  legaes,  em  vez  de  acalmarem  os 
ânimos  exaltados  dos  Aussas,  atemorisando-os, 
activaram  ainda  mais  os  rancores  que  nutriam 
contra  os  senhores. 

Tramaram  em  1809,  não  uma  sublevação,  que 
o  governo  e  os  próprios  senhores  os  vigiavam 
attentamente,   mas  uma  fuga.   Mancommunados 


irp 


com  os  pretos  gcges  e  nagòs,  planearam  abando- 
nar, em  determinado  dia,  as  casas  e  engenhos  e 
consiituirem-se  em  quilombos  nas  mattas  de  di- 
fticil  accesso. 

Na  tarde  do  dia  4  de  Janeiro  daquellc  anno 
fugiram  da  Capital  centenas  de  captivos,  que  se 
foram  refugiar  a  nove  léguas  de  distancia,  nas 
cercanias  da  estrada  de  Paripe,  próximo  ao  riacho 
da  Prata.  Na  passagem  pelos  engenhos,  povoações 
e  estradas  commetteram  toda  sorte  de  devastações 
e  atrocidades:  roubos,  incêndios,  ferimentos  e 
assassinatos. 

Conhecidas  do  Governador,  na  manhã  seguinte, 
essas  occurrencias,  que  alarmaram  a  população, 
fez  expedir  sem  demora  tropas  municiadas  no 
encalço  dos  fugitivos,  ordenando  que  fossem  vi- 
giadas as  sabidas  das  estradas  quj  iam  ter  ao 
recôncavo,  aíim  de  impedir  que  a  noticia  da  fuga 
chegasse  aos  engenhos  antes  da  prisão  dos  amo- 
tinados. 

Surprehendidos  os  pretos,  na  manhã  do  dia  ()• 
pelas  tropas,  em  um  matto  junto  ao  riacho  da 
Prata,  cercados  e  intimados  a  entregarem-se,  re- 
sistiram, atacando  as  tropas,  as  quaes  se  viram 
obrigadas  a  lançar  mão  das  armas  de  fogo,  ma- 
tando alguns,  ferindo  muitos  c  aprisionando  grande 
numero.  Durante  a  acção,  muitos  delles  evadi- 
ram-se.  Foram  afinal  conduzidos  para  as  cadeias 
da  Cidade  95  fugitivos,  sendo  83  negros  e  12 
negras. 

Por  essa  occasião  participava;  o  Ouvidor  inte- 
rino da  comarca  e  juiz  ordinário  da  villa  de  Jagua- 
ripe  o  levante  dos  negros  na  povoação  de  Nazareth 
no  dia  26  de  Setembro  do  anno  anterior,  sutfo- 
cado  graças  á  actividade  e  energia  daquelle  juiz, 
o  qual  expediu  ordens  para  dominar  os  insur- 
rectos, capturando-os  e  remettendo  dalli  os  prin- 


cipaes  cabeças,  23  amotinados.  Não  houve,  feliz- 
mente, desgraças  a  lamentar  em  'Nazareth. 

Próximas  á  povoação  de  Itapoan  havia,  a  duas 
léguas  de  distancia  cia  cidade,  as  armações  de 
Manuel  Ignacio  da  Cunha  e  Menezes,  depois  vis- 
conde do  Rio  Vermelho,  e  de  um  tal  Herculano, 
os  quaes  viviam  de  explorar  a  pesca  da  baleia  e 
possuíam  algumas  dezenas  de  escravos,  na  sua 
ma-ioria  aussás. 

No  anno  de  1814  estes  negros,  flagellados  pela 
fome,  em  consequência  da  escassez  da  pesca  nesse 
anno,  desesperados  pelo  excesso  de  trabalho  e 
pela  habitual  crueldade  dos  feitores  das  duas  pro- 
priedades (3)  rebellaram-sc,  a  28  de  Fevereiro  e, 
unidos  a  outros  companheiros  que  fugiram  da 
Capital  no  dia  anterior,  assaltaram,  armados,  c 
incendiaram,  pelas  4  horas  da  madrugada,  as 
casas  c  senzalas  daquellas  armações. 

Depois  de  matarem  o  feitor  e  a  familia  deste 
c  outros  brancos  que  ahi  se  achavam,  marcharam 
a  atacar  a  povoação  de  Itapoan,  onde  também 
incendiaram  algumas  casas  e,  reunidos  aos  pretos 
desta  localidade,  assassinaram  os  brancos  que 
tentaram  despersuadil-os  ou  lhes  resistir. 

Governava  então  a  Bahia  D.  Marcos  de  No- 
ronha e  Britto,  8.**  Conde  dos  Arcos,  uma  das 
figuras  mais  proeminentes  da  administração  co- 
lonial. 

Na  mesma  madrugada  este  Governador  en- 
enviou  ao  encontro  dos  rebeldes  um  destacamento 
de  3o  homens  de  cavallaria  c  alguns  soldados  do 
regimento  de  infanteria  de  caçadores,  comman- 
dad(\s  pelo  seu  ajudante  de  ordens  Coronel  José 
Thoma/  Boccaciâri.  Mandou  no  mesmo  dia  que 
se  aííixassem  editaes  convidando  as  pessoas  de 

(3)  Correspondência  do  Governo  da  Bahia,  Archivo  Publico 
Nacional, 


í  4 


cujo  poder  tivessem  dcsapparecido  escravos  no 
dia  anterior  a  comparecer  na  sala  de  palácio,  para 
declarar  o  numero,  nomes  e  confrontações  dos 
mesmos  escravos  fugidos.  E  pela  lista  que  sepoude 
apurar  haviam  dcsapparecido  apenas  26  negros  e 
quasi  todos  aussas. 

A  noticia  destes  successos  repercutiu  rapida- 
mente c  chegou  ao  conhecimento  de  diversas 
auctoridades  dosdistrictos.  O  Major  da  Legião  da 
Torre  Manuel  da  Rocha  Lima  partiu  sem  demora 
para  dominar  os  rebeldes,  defender  os  habitantes 
daquella  zona,  ameaçados  de  serem  trucidados, 
e  impedir  que  os  arnotinados  seguissem  para  o 
recôncavo,  onde  encontrariam  apoio  dos  compa- 
nheiros colligados. 

As  tropas  da  Legião  da  Torre  tiveram  no 
mesmo  dia  vários  encontros  com  os  rebeldes  junto 
a  Santo  Amaro  de  Ipitanga.  Os  pretos  investiram 
contra  ellas,  tão  desesperados  e  embravecidos  que 
só  cediam  na  lucta  quando  as  balas  os  prostavam 
em  terra  ;  c  durou  o  combate  algumas  horas,  fi- 
cando fora  da  acção  5()  negros,  mclusive  os  que 
fugiram  atirando-se  ao  rio  Joannes,  onde  perece- 
ram afogados,  e  três  que  preferiram  se  enforcar 
a  cahir  em  poder  das  tropas  legaes. 

lYezc  pessoas  brancas  foram  encontradas  assas- 
sinadas pelos  negros  em  Itapoan  e  na  armação  de 
Manuel  Ignacio,  além  de  oito  gravemente  feridas. 
Foram  presos,  algemados  e  conduzidos  para  as 
cadeias  da  cidade  trinta  e  tantos  negros,  que  se  en- 
volveram no  levante,  entre  osquaes  alguns  encon- 
trados extraviados  nas  circumvisinhanças  do  local 
dos  acontecimentos.  A's  6  horas  da  tarde  estava 
inteiramente  dominada  a  insurreição  e  restabele- 
cida a  ordem  publica.  O  ouvidor  do  crime,  ou 
intendente  geral  da  policia,  Dr.  António  Garcez 
Pinto  de  Madureira,  seguiu  para  aquelles  logares, 


•78 


afim  de  fazer  os  corpos  dé  delicto  e  abrir  as  de- 
vassas para  punição  dos  culpados. 

Accioli,  nas  suas  Memorias  Históricas  da  Bahia, 
refere  que,  embora  se  devesse  ás  providencias  do 
Major  Manuel  da  Rocha  Lima  uma  grande  parte 
da  salvação  publica,  o  Governo  increpou-o  de 
hacer  obrado  i>ein  ordeirt,  empregando  arma!<  contra 
uns  miseráveis. 

Crescia  dia  a  dia,  não  só  na  Capital,  como  no 
recôncavo,  o  receio  de  um  levante  geral  da  parte 
dos  Aussás  e  demais  escravos  africanos.  Murmu- 
ravam queixas  acerbas  contra  o  governo  da  Ca- 
pitania, pela  falta  de  providencias  enérgicas 
contra  os  Aussás,  que  desde  muito  eram  um  perigo 
para  os  senhores  e  uma  calamidade  para  a  popu- 
lação. Estas  murmurações  chegaram  aos  ouvidos 
do  Conde  dos  Arcos,  d  qual  rcferindo-se  ao  acon- 
tecimento de  28  de  Fevereiro,  escrevia  em  6  de 
Março  ao  governo:  «  Não  devo  esconder  a  v.  ex. 

3ue  alguns  empregados  públicos,  que  por  seus 
efeitos  não  têm  encontrado  acolhimento  neste 
governo,  tem  aproveitado  o  presente  estado  dos 
ânimos  para  invectivarem,  indisporem  o  povo 
contra  o  governo,  dirigindo  a  murmuração  de  tal 
maneira,  e  já  com  tal  publicidade  que  seria  obri- 
gado a  tomar  contra  algum  alguma  medida  fortis- 
sima.  para  evitar  consequências  que  podem  ser 
summamente  desagradáveis  c  funestas  ». 

Divulgada  na  Cidade  a  noticia  da  mortan- 
dade dos  brancos,  os  espíritos  imaginosos,  como 
sóe  acontecer  em  occasiGes  de  pânico,  augmen- 
taram  os  factos,  que  não  tardaram  a  ser  conhe- 
cidos em  toda  parte,  accrcscidos  do  boato  de  uma 
conflagração  geral  que  tramavam  os  pretos  para 
tirar  um  desforço. 

O  Juiz  de  fora  da  Cachoeira,  Francisco  José 
de  Freitas,  e  o  senado  da  camará,   representado 


7í) 


pelos  Vereadores  Simão  da  Rosa,  António  Teixeira 
de  Freitas  Barbosa  e  António  Alves  Basto,  offi- 
ciaram,  em  i6  de  Março,  ao  (Jovernador,  requi- 
sitando soccorrosde  armas  e  munições  e  ate  peças 
de  campanha,  para  a  guarnição  dos  regimentos 
auxiliares  de  inlantcria  e  cavallaria,  aíim  de  pre- 
venirem os  habitantes  contra  um  inesperado  ataque 
dos  Aussás,  que  abundavam  naquella  villa  e  nos 
engenhos  de  seus  districtos. 

Não  attendeu  o  Conde  dos  Arcos  a  este  pedido, 
convencido  de  que  os  negros  se  rebellavam  pelos 
duros  castigos  que  sottriam  dos  senhores,  como 
se  vê  de  suas  próprias  palavras,  relatando  aquelles 
acontecimentos:  «Ainda  não  tenho  informaç(5es 
miúdas  e  exactas,  porque  a  gente  da  Bahia,  celebre 
pelo  temor  que  tem  dos  negros,  a  quem  maltratam 
cruelmente,  esta  de  tal  sorte  espaventada  com  este 
successo  e  com  outros  muitos,  que  sua  imaginação 
lhe  representa  próximos  e  imminentes,  que  não  é 
prudente  acreditar  nada  do  que  por  ora  dizem.» 

Esses  rumores  de  futuros  levantes  que  se  pro- 
palavam, oriundos  do  terror  de  uns  e  por  outros 
forjados  com  lins  sinistros  para  amendrontar  a 
população,  eram  transmittidos  á  Corte,  revestidos 
das  mais  sombrias  cores,  nas  correspondências 
particulares  de  altos  funccionarios  públicos  e  de 
abastados  proprietários  do  recôncavo,  os  quaes 
attribuiam  a  fraqueza  do  Governador  as  hostili- 
dades dos  negros,  e  geitosamente  suggeriam  me- 
didas de  precaução  para  reprimir  novos  abusos. 

Dirigiu  o  Roverno  ao  Conde  dos  Arcos  o  aviso 
régio  de  i8  cie  Março,  lembrando  a  conveniência 
de  prohibir-se  terminantemente  os  batuques  dos 
negros  e  ordenando  que  se  dissolvessem  os  qui- 
lombos, de  onde  partia  o  açulamento  de  frequentes 
insurreições. 


80 


O  Gondc  dos  Arcos  tinha  posto  já  em  vigor, 
para  serenar  os  ânimos  sobresaltados  com  o  terror 
dos  actos  vandalicos  dos  pretos,  e  bem  a  contra- 
gosto seu,  as  ordens  do  seu  antecessor,  prohibindo 
aos  escravos  usarem  qualquer  arma,  reunirem-se 
mais  de  quatro,  salvo  quando  andassem  em  ser- 
viço na  companhia  dos  senhores  ou  de  seus  pre- 
postos,  e  sahirem  á  rua  á  noite  depois  do  toque 
de  recolher,   sem  uma   ordem  por  escripto   dos 
senhores.    E  o  escravo  que  infringisse  qualquer 
destas  ordens  seria  vergastado  com   i5o  açoites. 
Na  mesma  occasião  expediu  ordens  positivas  aos 
Capitães-móres,  afim  de  extinguirem  os  quilom- 
bos que  houvesse  em  seus  districtos,  ordenando 
aos  coronéis  de  milicias  que  a  elles  prestassem  os 
soccorros  necessários.  A  todos  os  commandantes 
de  corpos  e  das  fortalezas  mandou  que  vigorassem 
as  leis  de  repressão  do  seu  antecessor  o  Conde 
da  Ponte.  Baixou  a  portaria  de  lo  de  Abril,  pro- 
hibindo   as   dansas    que   os   negros  costumavam 
fazer,  ao  som  de  seus  instrumentos  estrepitosos, 
nas  ruas  c  largos  da   cidade,  só  permittindo  que 
se  juntassem  nos  largo  da  Graça  c  do  Barbalho, 
nos  domingos,  dias  santos  c  de  festas  reaes,  onde 
poderiam  dansar  até  o  toque  de  Ave  Maria,  hora 
em  que  deveriam  se  retirar  para  a  casa  de  seus 
senhores. 

Num  longo  relatório,  de  2  de  Maio,  em  res- 
posta áquclle  aviso  régio,  no  qual  o  Conde  dos 
Arcos  se  revela  notável  politico  e  contrario  ás 
idéas  escravistas,  dizia  porque  não  o  tinha  cum- 
prido litteralmente,  expondo  deste  modo  as  suas 
razões:  <(  Batuques  olhados  pelo  Governo  são  uma 
cousa,  c  olhados  pelos  Particulares  da  Bahia 
são  outra  differentissima.  listes  olham  para  os 
batuques  como  para  hum  Acto  olfensivo  dos  Di- 
reitos dominicaes,  huns  porque  querem  empregar 


81 


seus  Escravos  em  serviçoiítit  ao  Domingotão  bem, 
e   outros  porque   os  querem   ter  naqoelles  dias 
ociozos  á  sua  porta,  para  assim  fazer  parada  de' 
sua   riqueza.   O  Governo,  porém,  olha  para  os 
batuques  como    para   hum  acto  que  obriga  os 
Negros,  insensível,  e  macbtnalmente  de  oito  em 
oito  dias,  a  renovar  as   idéas  de  aversão  reci- 
proca que  lhes  eram  naturaes  desde  que  nasceram, 
e  que  todavia  se  vãò  apagando  pouco  a  pouco  com 
a  desgraça  commum;  idéas  que  podem  conside- 
rar-se  como  o  Garante  fnais  poderoso  da  segu- 
rança das  Grandes  cidades  do  Brasil,  pois  que  se 
uma  vez  diflerentes  Naçoens  da  Africa  se  esque- 
ceram totalmente  da  raiva  com  que  a   natureza 
as  desuniu,  e  então  os  de  Agomcs  vierem  a  ser 
Irmãos  com  os  Nagôs,  os  Gêges  com  os  Aussás, 
os  Tapas  com  os  Sentys,  e  assim  os  demais,  gran- 
díssimo e  inevitável  perigo  desde  então  assom- 
brará  e  desolará  o  Brasil.    E  quem  haverá  (jue 
duvide  que  a  desgraça  tem  poder  de  fraternisar 
os  desgraçados?  Ora,  pois,  prohibir  o  unicó  Acto 
de  desunião  entre  os  negros  vem  a  ser  o  mesmo 
que  promover  o  governo  indirectamente  a  união 
entre  eiles,  do  que  não  posso  ver  si  não  terríveis 
consequências. » 

Parecia  terem  íierenado  os  ânimos  com  as 
providencia»  postas  em  pratica  pelo  governador, 
quando  surgiram  novos  boatos  aterradores. 

Em  fins  de  Maio  do  mesmo  anno  o  advogado 
Lasso  denunciou  ao  governo  que  os  negros  Aussás 
preparavam  um  grande  levante,  que  irromperia 
em  a  noite  do  dia  23  de  Junho  e  nelle  tomariam 
porte,  além  dos  ganhadores  dos  cantos  do  cães 
da  Cachoeira,  cães  Dourado  e  cães  do  Corpo 
Santo,  os  princípaés  cabeças,  os  do  Terreiro  e 
do  Paço  do  Saldahha,  eque  alguns  pretos  de 
outras  raças  entravani  também  na  sedição,  forros 
e  captiyos,  tanto  dâ  cidade  como  do  recôncavo. 

11 


8:^ 


O  centro  desseí>  conluios  eram  uma  capoeira  que 
Ikava  pdos  fundos  das  roças  do  lado  direito  da 
capella  de  Nossa  Senhora  de  Nazareth,  uma  roça 
na  estrada  do  Matatii,  fronteira  á  Boa  Vista, 
Brotas  e  os  mattos  do  Sangradouro.  O  plano  com- 
binado era  romperem  desses  logares  na  véspera 
de  S.  João,  com  o  pretexto  do  barulho  de  seme- 
lhantes dias,  matarem  a  guarda  da  Casa  da  Pól- 
vora do  Matatú,  tirarem  a  pólvora  de  que  preci- 
sassem, molhando  o  resto;  e  quando  acudissem 
as  tropas  e  estivessem  entretidos  com.  aquelles 
sublevados,  sahiriani  os  cabeças  existentes  na 
cidade   e  degolariam  todos  os  brancos. 

Divergências  entre  esses  pretos,  querendo  uns 
que  a  insurreição  fosse  naquelle  dia  e  outros  no 
dia  IO  de  Julho,  levaram  um  delles,  de  home 
João  Aussá,  escravo  de  Manuel  José  Teixeira,  a 
trahir  os  companheiros.  Descoberto  assim  o  plano, 
occultaram  tudo  quanto  pudesse  denuncial-os, 
de  modo  que  dando-se  uma  batida  naquelle.^ 
logares  não  se  encontrou  vestigio  algum. 

Cornquanto  o  Conde  dos  Arcos  estivesse  con- 
vencido de  que  essas  denuncias  eram  a  trama  do 
despeito  de  desalíectos,  que  procuravam  desmó- 
ralisar  o  seu  governo,  baixou  no  dia  20  de  Junho 
uma  portaria  prohibindo  expressamente  o  diver- 
timento de  fogos  de  S.  João,  mormente  ôsbusca- 
pésy  rouqueiras  e  foguetes,  punindo  o  infractor 
desta  ordem,  qualquer  que  fosse  a  sua  cathegoria 
social.  E  para  que  ninguém  allegasse  ignorância 
publicou-a  ao  som  de  tambores  pelas  rua^  ímais 
publicas  da  cidade. 

Em  observância  da  carta  régia  de  18  de  Março 
foram  estes  processados ;  e  por  accordão  da  Re- 
lação, de  i5  de  Novembro,  condemnados  39  réos. 
Destes  morreram  12  nas  prisões;  4  escravos  de 
Manuel  Ignacio  foram  condemnados  á  morte 
natural  e  enforcados,  no  dia  18  do  mesmo  niez. 


83 


na  forca  que  se  levantou  na  praça  da  Piedade, 
com  assistência  de  toda  a  tropa  de  linha  da  guar- 
nição; e  os  demais  foram,  uns  açoitados  e  degre- 
dados para  os  presidiosde  Moçampiaue,  Benguelía 
e  Angola,  para  toda  a  vida,  outros,  aepois  de  açoi- 
tados no  logar  do  supplicio  dos  companheiros, 
entregues  aos  senhores. 

As  ordens  emanadas  do  governo  prohibindo 
com  severas  penas  os  batuques  dos  pretos  afri- 
canos, só  permittidos  em  aeterminados  logares 
e  até  certa  hora  do  dia,  única  diversão  que  lhes 
restava,  aos  domingos,  para  matar  as  saudades 
da  pátria  e  sacudir  o  torpor  das  fadigas  do  pesado 
labutar  do  campo,  horas  a  fio;  o  rude  trato  que 
lhes  dispensavam  os  senhores,  quer  pela  severi- 
dade de  bárbaros  castigos,  quer  pela  escassez,  da 
alimentação  que  lhes  era  dada,  a  ponto  de  caber 
a  cada  escravo,  dos    engenhos  á    beira  d'agua, 
como  alimento  diário,  um  carangueijo  e  um  pu- 
nhado de  farinha  e  três  quartos  de  libra  de  carne 
secca  para  dez  dias  aos  que  eram  de  engenhos  do 
interior ;  o  desrespeito  que  soífriam  de  senhores 
relapsos,  que,  além  de  Ines  negarem  o  pão,  lhes 
roubavam  a  honra;  e,  finalmente,  a  idéa  de  nunca 
mais  obterem  a  liberdade,  dominados  pelo  espan- 
talho do  tronco  e  do  relho  do  feitor,  produziram 
um  grande  levante  de  pretos,  creoulos  e  africanos, 
que  surgiu  no  recôncavo,  em  engenhos  da  Vi  lia 
de  S.  Francisco  da  Barra  de  Sergipe  do  Conde. 
Além    destas  causas   existia    uma   outra    impor- 
tantissima.  Rigoroso  e  duradouro  o  inverno  de 
i8i5,  houve  por  isso  uma  grande  mortandade  de 
gado  vaccum  e  cavallar  em  todos  os  engenhos,  a 
maior  até  então  conhecida  na  Bahia.  A  parte  do 
trabalho  que  pertencia  aos  animaes  sobrecarregou 
na  safra  daquelle  anno  a  escravatura,  o  que  causou 
o  desespero  dos  escravos. 

Ajustaram  muitos  escravos  dos  engenhos  da 


84 


Lagoa,  Crauassú,  Itatinga,  Guaiba  e  outros  utna 
insurreição,  eorganisaramneste  ultimo  um  grande 
batuque,  num  domingo,  de  onde,  reunidos  e  ar- 
mados, marchariam  a  atacar  e  incendiar  os  en- 
genhos mais  próximos. 

A'  uma  hora  da  madrugada  de  segunda-feira, 
!2  de  Fevereiro  de  1816,  após  terem  cfansado  toda 
a  noite  de  domingo,  paf  tiram  en^  magotes  ao  som 
de  trottibetas  e  atabaques,  armados  uns  de  arco  e 
flecha,  outros  de  facões  e  alguns  de  fuzis,  para  o 
engenho  Cassarangongo,  de  Salvador  Muniz.  Pro- 
curaram alliciar  os  escravos  deste  engenho;  e 
como  se  recusassem  a  acompanhal-os,  mataram 
alguns  e  feriram  muitos,  e  atearam  fogo  na  casa 
de  moradia  e  do  bagaço.  Seguiram  depois  para  o 
engenho  Quibaca,  do  Coronel  Jeronymo  Muni2 
Fiúza  Barreto,  ao  uual  também  lançaram  fogo, 
nas  duas  varandas  ua  casa  de  morada,  no  corpo 
do  engenho  e  em  algumas  caixas  de  assucar. 

Dormia  o  Coronel  Jeronymo  Muniz  çiuando 
foi  despertado  pelas  labaredas  d.o  incêndio,  que 
devorava  a  varanda  da  casa,  e  pela  fumaça  que 
sahia  debaixo  do  porão,  onde  se  costumava  guar- 
dar o  bagaço  da  canna  que  servia  de  combus- 
tível para  as  fornalhas. 

Comprehendendo  o  perigo  do  incêndio  e  as 
vozerias  dos  amotinados,  que  denunciavam  um 
levante,  teve  Jeronymo  Muniz  a  coragem  de  aban- 
donar a  esposa  em  desmaio  e  os  filhos  em  pranto 
para  sahir  ao  encontro  dos  pretos,  cujo  numero  se 
elevava  approximadamente  a  duzentos.  Unica- 
mente com  20  homens  bem  armados,  empregados, 
c  escravos  dos  mais  fieis,  dirigiu  o  ataque  de  tal 
modo,  que  os  rebeldes  se  atemorisaram  e  fugiram 
recolhendo-se  aos  mattos  próximos  do  engenho. 

O  Coronel  Bento  de  Araújo  Lopes  Villasboas, 
do  regimento  de  cavallaria  de  milicias,  tendo  aviso 
destes  factos  ás  nove  horas  da  manhã,  eachando-se 


85 


a  sete  léguas  de  distancia^  apresentou-se,  antes  do 
anoilecer  do  mesmo  dia,  com  o  seu  regimento 
rondando  as  estradas  e  acalmando  os  ânimos  dos 
senhores  de  engenho. 

No  mesmo  dia  do  levante  o  Capitão-mór  da 
villa  de  S.  Francisco,  Joaquim  ígnacio  de  Cerqueira 
Bulcão,  ofíiciou  ao  Governador  expondo  a  dolorosa 
situaçãoem  quese  achavam  os  moradores  daquella 
zona,'  relatando  òs  factos  nas  suas  minúcias.  No 
dia  i3  recebeu  o  Conde  dos  Arcos  este  ofíicio;  no- 
dia  seguinte  um  outro  do  juiz  de  fora  de  Santo 
Amaro,  Dr.  José  Bonifácio  de  Araújo  Azambuja, 
acompanhado  das  vistorias  edos  corpos  de  delictos 
procedidos  no  dia  i3.  Embora  procurasse  occultar 
as  noticias,  afim  de  não  amedrontar  os  habitantes, 
ellas  espalharam-se  céleres  por  toda  a  Cidade. 

O  Conde  dos  Arcos,  nas  melindrosas  circums- 
tancias  em  que  se  viu,  ordenou  rigorosas  medidas 
para  castigar  os  culpados  e  levar  a  tranquillidade 
ao  espirito  dos  apavorados  senhores  de  engenho, 
procurando  promptamente  restabelecer  a  ordem 
publica.  Remetteu  pólvora  e  bala  para  municiar 
os  regimentos  do  recôncavo,  e  mandou  que  ron- 
dassem as  estradas,  perseguindo  os  criminosos  ate 
prendel-os. 

Não  podendo  conhecer  das  medidas  necessárias 
para  restituir  de  prompto  a  plena  tranquillidade 
publica,  por  estar  longe  do  theatro  do  aconteci- 
mento, baixou  uma  portaria,  em  17  de  Fevereiro, 
ao  brigadeiro  Felisberto  Caldeira  Brànt  Pontes, 
ordenando-lhe  que  seguisse  para  a  villa  de  S. 
Francisco  e  avisasse  (embora  reconhecesse  ser  uma 
medida  irregular,  como  declarou  mais  tarde  ao 
próprio  Governo)  a  todos  os  officiaes  superiores 
de  todos  os  regimentos  de  milicias  dos  districtos 
paraalli  se  juntarem;  e,  reunidos  em  determinado 
dia,  antes  do  fim  do  mez,  convidasse  também  a 
outras  pessoas  intelligentesque}ulgasse  conveniente 


8(1' 


ouvir,  afim  de  se  discutir  e  combinar  as  provi- 
dencias para  garantir  as  propriedades  e  acalmar  os 
senhores  de  engenho. 

Na  mesma  occasião  baixou,  outra  portaria  ao 
intendente  geral  da  policia,  aconselhando  medidas 
de  ordem  publica  na  Cidade  e  mandou  publicar 
por  editaes  que  todo  o  individuo  que  denunciasse 
era  segredo  de  justiça  q^ualquer  commoção  de 
negros  receberia  um  premio  de  cem  mil  réis. 

Calmo  e  previdente,  já  havia,  no  dia  1 5,  recom- 
mendado  ao  juiz  de  fora  de  Santo  .Amaro  a 
maior  exacção  e  brevidade  nos  procedimentos 
ulteriores,  afim  de  que  sem  demora  fossem  punidos 
os  culpados. 

Abriu-se  a  devassa  no  dia  19. 


Entre  o  então  Bri^^adeiro  Felisberto  Caldeira 
Brant  Pontes,  dcpris  Marquez  de  Barbacena,  e  o 
Conde  dos  Arcos  existiam  certas  rivalidades  que 
traziam  asduas  auctoridades  em  dcsaccordo  quanto 
á  orientação  que  levava  o  Governo  da  Capitaniq, 

Aquelle  vmha  de  occupar  vários  cargos  em 
Angola  e  Portugal,  antes  de  assumir  a  inspcctoria 
das  tropas  na  Bahia.  Era  um  espirito  affeito  á  dis- 
ciplina militar,  educado  na  velha  escola  do  aucto- 
ritarismo,  austero  como  as  leis  de  seu  tempo, 
impassivel  no  perigo,  enérgico,  violento  ás  vezes, 
notável  por  seus  talentos,  fidalgo  de  linhagem  e 
mineiro  de  nascimento.  A  clle  deve  incontesta- 
velmente o  Brasil  serviços  de  grande  monta,  que 
o  historiador  desapaixonado  ha  de  um  dia,  firmado 
nos  documentos  meditos  dos  archivos,  inscrever 
nas  paginas  da  historia,  apenas  esboçada,  de  nossa 
emancipação  politica. 

O  Conde  dos  Arcos  tinha  sido  Governador  do 
Pará  e   vice-rei  do  Brasil    no  Rio    de  Janeiro, 


;87 


qiiando  tomou  posse  do  governo?da  Bahia.  Oriundo 
de  uma  nobre  família  portugueza,  que  contava 
em  cada  descendente  um  leal  servidor  da  pátria, 
trazia  a  longa  pratica  de  administrador  emerilo  e 
sagaz,  perscrutador  das  palpitantes  necessidades 
do  desenvolvimento  da  colónia,  alliando  a  um 
espirito  lúcido  e  culto,  embora  de  um  realismo 
a  outrancej  um  coraç£.o  magnânimo,  generoso. 
O  seu  grande  erro  na  rebellião  de  1817,  pelas 
circumstancias  da  investidura  do  cargo,  deve- 
Ihe  ser  perdoado,  pelos  muitos  beneíicios  que 
prestou  ao  Brasil;  Não  quií:  que  o  historiador  se 
encarregasse  de  lhe  enaltecer  os  feitos;  clle  pró- 
prio esculpiu  em  vida  o  seu  nome  em  monumentos 
perennes,  que  attestar^m  os  inolvidáveis  serviços 
de  sua  lummosa  passagem  na  administração  ba- 
hiana.  *  ; 

Um  e  outro  divergiam  no  modo  de  reagir  para 
o  inteiro  acabamento  dos  levantes  dos  pretos  afri- 
canos; e  fora  este  o  motivo  que  mais  accentuou  a 
desharmonia  que  os  separava. 

O  Brigadeiro  Felisberto  Caldeira  queria  que  se 
puzessem  em  execução  medidas  enérgicas,  que 
cortassem  o  mal  pela  raiz,  castigando- se  com  seve- 
ridade a  rebeldia  dos  pretos,  para  garantir-se  a 
propriedade  ameaçada  de  frequentes  assaltos. 

Não  podendo  entrar  em  lucta  franca  com  o 
Conde  dos  Arcos,  para  não  romper  a  disciplina,' 
ao  receber  as  ordens  terminantes  afim  de  seguir 
para  a  villa  de  S.  Francisco,  dirigiu  ao  Marquez 
de  Aguiar  o  officio  de  20  »Je  Fevereiro,  no  qual 
se  expressava  deste  modo  :  «Ninguém  melhor  do 
que  y.  Ex.  conhece  as  luzes,  virtudes  e  grandes 

aualidades  do  meu  Exmo.  General,  e  por  isso 
esnecessario  é  que  eu  me  demore  em  fazer  o  seu 
elogio.  Como,  porém,  ninguém  é  perfeito,  o  aíferro 
que  clle  tem  ás  suas  opiniões,  e  auc  em  geral,  e 
até  certo  ponto,    é   qualidade  indispensável   em 


88 


quem  governa,  concorre  no  caso  particular  dos 
negros  para  eclipsar  em  parte  tanto  merecimento. 
Longe  de  manifestar  a  sua  indignação  contra  a 
sublevação  dos  negros,  expediu  a  ordem  inclusa, 
que  remetto  a  V.  Kx. :  que  pode  resultar  de  seme- 
lhante conferencia  ?  O  meu  compròmettimento,  e 
mais  nada.  Homens  pela  maior  parte  ignorantes, 
e  todos  assustados  não  têm  discernimento,  ou  san- 
gue frio  para  discorrer  com  acerto.  Cada  um  que- 
rerá uma  guarda,  o  que  não  é  possivel,  serão 
tantos  os  votos  como  as  cabeças,  ^  o  resultado 
será  perda  de  tempo.  Dum  deliherant  res  perditur. 
Tudo  isto  representei  ao  nieu  general,  mas  de- 
balde, porque  manda  que  eu  vá  á  conferencia 
sabbado,  24  do  corrente  m, 

\o  dia  aprazado  teve  logar  a  reunião,  oa  villa 
de  S.  F^rancisco,  presidida  pelo  Brigadeiro  Felis- 
berto Caldeira,  á  qual  compareceram  quasi  todos 
os  oíficiaes  superiores  dos  regimentos  milicianos 
do  recôncavo,  em  geral  proprietários  e  dos  mais 
ricos  daquella  vilia,  de  Santo  Amaro,  Iguape, 
Pirajá,  Maragogipe,  Campos  da  Cachoeira,  Jagua- 
ripe  e  Nazareth. 

Ainda  muito  viva  a  recente  commoção  aue 
abalou  os  senhores  de  engenho  com  o  levante  aos 
pretos,  as  propostas  apresentadas  para  tranquilisar 
os  ânimos  dos  habitantes  foram,  na  sua  maioria, 
nessa  reurrião,  demasiado  violentas,  filhas  do  pâ- 
nico que  dominava  os  espíritos  amedrontados  e 
espavoridos.  A  primeira  delias  e  acceita  geral- 
mente com  calorosos  applausos  foi  a  mudança  do 
governador,  pelo  despeito  dos  proprietários,  por- 
que o  Conde  dos  Arcos  entendera  negar-lhes  am- 
plos poderes  para  a  carnificina  dos  miseros 
captivos.  Muitas  houve  singulares,  como  guardar 
cada  engenho  por  um  soldado,  prender  e  deportar 
todo  negro  suspeito,  enforcar  summariamente  o 
escravo  sublevado,  etc. 


89 


Quando  serenaram  os  ânimos  e  cessaram  as 
virulentas  e  apaixonadas  discussões  hessa  conie* 
rencia,  levantaram-se  as  vozes  liberaes  e  patrióticas 
dos  santamarenses  Bernardino  Borges  de  Barros 
e  Paulo  José  de  Mello  Azevedo  e  Brítto  para 
lembrar  medidas  como  a  abolição  inimediata  do 
commercio  da  escravatura  e  a  creação  de  um 
premio  para  a  importação  de  familias  européas, 
afim  de  excitar  nos  negociantes  do  trafico  a  cobiça 
de  transportar  em  seus  navios  o  braço  livre  com  o 
mesmo  furor  com  que  carregavam  a  mercadoria 
escrava. 

Dirigiram  os  conferentes,  naqucllc  mesmo  dia 
e  depois  de  agitadas  discussões,  ao  Conde  dos 
Arcos  uma  representação  subscripta  por  34  pro- 
prietários dos  mais  distinctos  dos  districtos  do 
recôncavo. 

As  medidas  suggeridas  nessa  representação 
eram  em  geral  repressivas,  de  policia,  calcadas  nos 
moldes  das  antigas  ordens  do  Conde  da  Ponte. 

Si  algumas,  indispensáveis  e  inspiradas  no  bem 
publico,  vinham  de  prompto  extirpar  os  quilombos 
e  refreiar  as  insurreições,  outras  eram  deste  feitio: 
nenhum  negro  poderia  estar  sentado  deante  de  um 
branco,  e  o  escravo  encontrado  sem  passaporte 
seria  preso  e  immediatamentc  entregue  ao  senhor, 
que  em  presença  da  familia  castigal-o-hia  com 
1 5o  açoites,  e  quando  não  o  fizesse  o  com  mandante 
do  districto  daria  parte  ao  chefe  da  cidade. 

Como  medida  complementar,  e  para  que  não 
transparecesse  a  raiva  que  os  dominava  contra  os 
escravos,  otlereceram  o  capital  necessário  para  a 
importação  de  cem  familias  brancas  européas, 
artistas  e  lavradores. 

Receiosos  os  conferentes  de  que  o  Conde  dos 
Arcos  não  as  puzesse  em  execução,  deliberaram 
enviar  um  emissário  á  corte,  afim  de  advogar  junto 


ÍK) 


ao  principe  regente  a  approyação  de  todas  as 
medidas,  recahindo  a  escolha  em  Alexandre  Gomes 
P^errão  Gastei  Branco. 

O  Brigadeiro  Felisberto  Caldeira,  de  volta  de 
S.  Francisco,  referindo-se  ao  Conde  dos  Arcos  e 
dando  parte  da  conferencia  ao  marquez  de  Aguiar, 
officiava  em  26  de  Fevereiro  nestes  termos: 

« F-m  consequência  da  promessa  de  V.  Kx. 
esperavam  todos  que  depois  daquella  conferencia 
prohibisse  pelo  menos  qualquer  ajuntamento  de 
pretos,  e  manifestasse  por  alguma  ordem  a  sua 
indignação  por  tantas  sublevações;  mas  escrever, 
ou  dizer  S.  Ex.  uma  syllaba  contra  pretos,  é  cousa 
impossivel,  e  sua  obstinação  a  este  respeito  não 
tem  outra  explicação,  senão  a  que  fazem  os 
médicos,  isto  é  que  desde  a  sua  grave  enfermidade 
licára  com  a  mania  parcial  substituindo  a  pre- 
dilecção dos  pretos  a  antiga  preoccupação  das 
constipações. » 

.  íc  Las  Casas  solicitando  aos  pés  do  throno  da 
Hespanha  a  piedade  Real  a  favor  dos  índios, 
Wilberforce  e  outros  advogando  no  Parlamento 
Inglez  a  extincção  da  escravatura,  sem  duvida  são 
bem  feitores  da  humanidade,  e  dignos  de  eterno 
louvor,  mas  aquella  mesma  linguagem  na  bocca  de 
u  m  Vice-Rei  do  México,  ou  Governador  da  Jamaica 
provocaria  o  assassinio  de  todos  os  Hespanhoes 
e  Inglezes,  c  causaria  a  execração  do  universo. 
Tal  é,  nem  mais  nem  menos,  a  nossa  situação ! » 

((  Aqui  são  os  negros  os  dilectos  filhos  do  Repre- 
sentante do  Soberano.  Não  é  pois  de  admirar  o 
atrevimento  dos  pretos,  nem  o  susto  e  confusão 
dos  brancos,  que  estão  entre  Sylla  e  Charibides.  » 

O  Conde  dos  Arcos  approvou  apenas  as  me- 
didas que  julgara  mais  convenientes  c  que  cabiam 
em  sua  alçada,  e  pòl-as  em  execução  por  por- 
taria de   27  de  Fevereiro.  Isso  desgostou  aos  pro- 


yi 


prieiarios  do  recôncavo,  f)rincipalmente  ao  Bri- 
gadeiro Felisberto  Caldeira,  que  verberou  o 
procedimento  do  Conde  dos  Arcos,  desenvol- 
vendo uma  guerra  desabrida  ao  seu  governo.  São 
bastante  acrimoniosas  as  referencias  que  o  Conde 
dos  Arcos  fez  áquelle  Brigadeiro  em  ofíicio  diri- 
gido ao  Marquez  de  Aguiar,  em  i."  de  Abril  do 
mesmo  anno. 

Apoiado  nos  proprietários  do  recôncavo,  par- 
tiu o  Brigadeiro  Felisberto  Caldeira,  em  fins  de 
Março,  para  a  corte,  e  conseguio,  por  aviso  ré- 
gio de  27  de  Julho,  a  approvação  de  todas  as 
medidas  da  representação.  Ao  regressar  á  Bahia, 
recebeu  do  Conde  dos  Arcos  ordem  de  prisão, 
que  foi  relaxada  á  vista  do  aviso  régio.  E  só  fize- 
ram as  pazes  os  dois  rivaes  quando  rebentou  a 
rebellião  de  18 17,  em  Pernambuco;  mas  os  resen- 
timcnios  de  ambos  não  arrefeceram  de  todo. 


No  levante  de  12  de  Fevereiro  foram  assassi- 
nadas pelos  pretos  seis  pessoas,  ficando  dez  gra- 
vemente feridas;  consta  apenas  das  partes  officiaes 
que  morreram  cinco  sublevados,  mas  a  mor- 
tandade devia  ser  maior. 

Cercados  os  amotinados  nas  mattas  de  Cabaxi 
c  Poucoponto,  no  dia  i5  daquelle  mez,  onde  se 
tinham  refugiado  após  os  delictos,  prcnderam-se 
apenas  oito  negros.  Cinco  foram  encontrados 
enforcados.  Arrccadando-se,  esparsos  pelos  ca- 
minhos, os  seus  instrumentos  de  guerra,  foram 
encontrados  tambores,  atabaques,  trombetas, 
arcos,  e  armas  de  fogo. 

Os  insurrectos,  repellidos  por  Jeronymo  Muniz, 
a  quem  os  senhores  chamavam    o   salvador   do 


H2 


recôncavo,  vendo  «jue  não  sortiam  o  effeito  os 
seus  planos,  aproveitaram-se  da  hora  e  voltaram, 
no  mesmo  dia  do  levante,  para  os  engenhos  os 
que  'puderam  se  escapar  e  outros  entregaram-se 
aos  seus  senhores. 

As  diversas  auctoridades  milicianas  do  re- 
côncavo organisaram  seus  regimentos,  que  mu- 
niciaram e  distribuíram  em  patrulhas  fjelas 
estradas  para  guardar  os  engenhos  e  reprimir 
novos  levantes. 

O  apparecimento  de  um  preto  que  atraves- 
sava a  estrada  ou  que  ia  a  serviço  dos  senhores 
ás  povoações  ou  a  outro  engenho  era,  certo,  uma 
presa  ambicionada  e  disputada  pelos  caçadores 
vigilantes,  qqe  a  varavam  á  bala  para  tripudio 
das  armas  íegaes  e  dos  senhores  covardemente 
apavorados. 

Flscrevia  O  Conde  dos  Arcos,  referindo-se  ao 
medo  dos  brancos  do  recôncavo,  para  demonstrar 
que  não  eram  tão  perigosos  os  escravos  :  «  Salvador 
Moniz  mandou  17  escravos  conduzir  telhas  para 
cobrir  as  senzalas  que  haviam  sido  queimadas, 
e  sendo  vistos  estes  Escravos,  fugiram  todos 
os  visinhos  gritando  que  estavam  levantados 
os  Escravos  do  Cassarangongo ;  e  entre  os  fu- 
gitivos estava  a  familia  do  Capitão-Mór  Bulcão 
embarcada  em  canoas:  e  porque  a  fuga  tinha 
sido  feita  com  a  mais  desacertada  precipitação, 
mandaram  depois  buscar  á  casa  artigos  de  que 
necessitavam  para  vestir,  comer,  etc. ;  e  tendo 
sahido  os  escravos  com  as  cargas  que  se  lhe  re- 
metiam de  casa  foram  vistos  do  engenho  vis:nho. 
que  pertencia  a  José  Diogo  Ferrão,  que  ainda 
não  havia  fugido;  eis  que  toca  o  sino  que  é  o 
signal  de  rebate,  segundo  as  ordens  do  ditoF^errão 
pegam  os  escravos  todos  em  armas,  marcham 
contra  os  de  Bulcão,  que  levavam  mansamente 


i)â 


as  cargas  para  sua'  Senhora;  entretanto  Bento 
Lopes,  Coronel  dá  Cavallaria  de  S.  Francisco, 
que  tivera  noticia  do  primeiro  pretendido  levante 
de  Cassarangongo,  vinha  marchando  com  parte 
de  um  esquadrão  junio  daquelíe  sitio,  onde  ouviu 
alguns  tiros  e  gritaria,  e  chegando  por  isso  ao 
lugar  donde  soava  aquelle  strepilo  felizmente 
apazigou  a  pendência  que  sem  a  sua  vinda 
haveria  sido  mui  sanguinolenta,  e  talvez  de  ter- 
riveis  consequências.»  1      ,. 

«  D.  Luiza,  Mulher  do  Brigadeiro  Pedro  Alexan- 
drino, formou  3o  Negros  em  linha,  no  pasto  de  seu 
Engenho;  poz  dous  Feitores  armaaos,  hum  á 
direita,  e  outro  á  esquerda;  e  assim  os  mandou  a 
Mataripe  buscar  formas  para  o  seu  Engenho,  com 
ordem  de  não  perder  aquella  formatura  nem  á 
hida,  nem  a  vinda,  pena  de  morte  segundo  dizem. 
Já  quando  este  Trosso  hia  chegando  a  Mataripe 
hum  dos  Negros,  que  hé  uma  espécie  de  caturra  da 
família,  tirou  a  tanga,  e  deu  hum  ai  mui  desentoado 
e  agudo;  fogem  immediatamente  os  Feitores 
gritando  que  os  Negros  cstavão  levantados,  foge 
toda  a  povoação  branca  de  Mataripe,  e  entretanto 
os  Negros  de  D.  Luiza  pegarão  nas  formas,  e 
retirarão-se  mui  .mansamente  com  ellas  para  o 
Engenho. » 

«Já  era  publico  o  fim  desta  historia  quando 
ainda  estavão  muitas  familias  fugidas  sem  haver 
forças  humanas  que  as  fizesse  voltar  para  suas 
casas,  huma  dasquaesfoi  a  do  Capitão-Mórignacio 
de  Mattos,  q[ue  vivia  a  bordo  de  um  barco  de 
Pedro  António  Cardoso  com  i5  filhos,  sotfrendo 
sol,  chuvas,  relento  e  privaçoens  de  tudo  que  hé 
commodo,  e  necessário  á  vida  humana.» 

As  familias  dos  soldados  milicianos  tiveram  de 
refugiar-se  nos  mattos  por  se  julgarem  indefesas 
nas  suas  casas,  mortas  de  fome  c  de  medo  dos 


94 


negros,  lamentando  a  sorte  dos  pães,  maridos, 
íilhos  e  irmãos  ao,  serviço  do  governo. 

Veio  a  fome  e  coiri  a  fome  a  miséria.  A  farinha 
escasseou,  qiiadruplicoii  de  preço.  Os  senhores  de 
engenho  ijue  dêlla  necessitavam  para  a  escravatura 
não  podiam  mandar  buscai»a,  temendo  que  os 
negro^lhè  fugissem,  indo  reunir-se  aos  levantados, 
ou  que  a$  patrulhas  lhe  os  matassem  nas  estradas, 
como  succedera  duas  ou  três  vezes. 

Em  fins  de  Março  tinha  voltado  a  paz  ao  recon- 
cayo,  e  as  famílias  foragidas  regressaram  a  seus 
lares,  e  os  engenhos  conunuaram  os  seus  trabalhos. 

Os  amotinados  foram  severamente  punidos. 

A  urdidura  criminosa  das  intrigas  politicas  e 
o  mexerico  da  época  obrigaram  a  coroa  a  afastar 
o  Conde  dos  Arcos  do  Governo  da  Bahia,  em 
mciadosde  1817. 

Foi  este  o  ultimo  levante  serio  de  pretos  na 
Bahia,  no  período  colonial. 

A's  sublevações  dos  negros  seguiram-se  as  re- 
belliões  dos  brancos. 

Eduardo  A.  de  Caldas  lirillo. 


isiflSDmJdiiiiiiloiiafricaioiiMBÉa 


•^^TNC ARRECADO  pclo  sF.  dv.  Dircctop  do  Archivo 
;j^J  Publico  da  reproducção  de  documentos 
*^^  achados  nas  mãos  dos  africanos  insurgidos 
nesta  Cidade  nps  três  primeiros  decennios  deste 
século,  para  serem  remettidos  á  Europa  e  ahi 
decifrados  {:>or  eruditos  especialistas,  já  que  isto 
não  foi  possivel  aqui,  tive  occasião  de  familiari- 
sar-me  com  os  documentos  da  historia  dessas 
revoltas,  e,  tendo  feito  um  quadro  com  fac  símiles 
desses  documentos  graphicos,  que  se  acha  exposto 
á  apreciação  do  publico,  merecendo  da  imprensa 
elogios  e  animação,  pareceu-me  conveniente  dar 
em  largos  traços  um  ligeiro  rascunho  histórico  • 
das  principaes  insurreições,  afim  de  que  melhor 
se  possa  comprehender  a  importância  daquelles 
documentos. 

De  todas  as  maiores  insurreições  de  africanos, 
foi  a  de  1798,  durante  o  governo  de  D.  Fernando 
José  de  Portugal,  a  de  que  temos  noticia.  Mas, 
como  a  seguinte,  do  anno  de  1807,  governando  o 
Conde  da  Ponte,  foi  nem  só  mais  violenta,  como 
a  que  mais  excitou  a  attenção  e  o  cuidado  do 
governo  colonial,  bom  será  apreciarmol-a  mais 
detidamente. 

Em  16  de  Junho  de  1807  escrevia  este  Gover- 
nador ao  Visconde  de  Anadia  dando  parte  dos 


9(J 


contínuos  levantes  dos  negros,  c  pedindo  as  pro- 
videncias necessárias  á  vigilância  em  que  devia 
manter-se  a  immensa  escravatura  nesta  cidade. 

Bem  previa  elle  que  o  proseguimento  de  tão 
escandalosos  factos  trariam  para  o  futuro  mais 
sérios  e  desagradáveis  acontecimentos. 

A  Bâhia^  florescente  pela' prodúcção  do  tabaco, 
tinha  privilegio  exclusivo  de  negociar  com  a  Costa 
da  Mina.  A  importação  de  escravos  succedia-se 
de  dia  a  dia  em  grande  escala,  e  só  no  anno  de 
1806  os  navios  empregados  neste  trafico  trans- 
portaram para  aqui  oito  mi4  e  trinta  e  sete  es- 
cravos (8,037),  e  assim  continuava,  com  pouca 
diíferença  de  numero,  nos  mais  annos  egual 
importação. 

A  maior  parte  destes  negros  ficava  nesta 
Capitania,  e  considerável  quantidade  na  capital, 
onde  proporcionavam  o  meio  dè  vida  com  que 
sesustinham  muitas  familias,  pelos  carretos,  ou 
officios  delles. 

O  mesmo  Conde  da  Ponte,  em  um  officio  ao 
ministro  Visconde  de  Anadia,  criticava  «  o  luxo 
mal  entendido  entre  os  habitantes  caprichosos, 
e  abonados  de  terem  ao  seu  serviço  domestico 
grande  numero  de  negros. 

Nesta  mesma  época  (.1807)  conforme  o  alis- 
tamento feito,  existiam  25,5o2  pretos  para  o  nu- 
mero de  brancos  não  excedente  a  14,260,  11. 35o 
pardos. 

Este  desequilibrio,  portanto,  das  raças  havia 
de  trazer,  sem  duvida,  anormaes  acontecimentos 
á  vida  da  colónia,  e  assim  sedava,  porque  os 
escravos,  na  phrase  do  Conde  da  Ponte,  não 
tinham  sujeição  alguma,  em  consequência  da  falta 
de  ordens  ou  providencias  por  parte  do  governo. 

Kra  notável  a  desenvoltura  com  que  se  por- 


taram  estes  negros,  na  maior  parte,  de  nações  as 
mais  guerreiras  da  costa  de  Leste. 

Ajuntavam-se  quando  e  aonde  queriam  e  em 
maior  liberdade  possivel ;  dansavam  e  tocavam 
dissonoros  e  estrondosos  batuques  por  toda  a 
cidade,  c  á  toda  a  hora. 

Nos  arraiaes  e  festas  eram  clles  sós  os  que  se 
assenhoreavam  do  terreno,  interrompendo  quaes- 
quer  outros  toques  ou  cantos. 

Kste  desenfreamento,  com  certeza,  nâo  tardou 
a  ter  funestas  consequências.  Das  praças,  dos 
batuques  passaram  a  ter  conferencias  em  logares 
occuhos,  onde  era  vedada  a  presença  de  qual- 
quer que  não  fosse  membro  destas  associações 
mysteriosas. 

Para  estas  reuniões  eram  convidados  escravas 
de  diversos  engenhos,  e  ahi  armavam-se  coronéis 
c  tenentes-coroneis,  com  festejos,  cantorias  e  uni- 
formes extravagantes. 

F^m  diversos  ofíicios  o  Conde  da  Ponte  já  lem- 
brava as  insurreições  do  anno  de  1798,  quando 
era  Governador  D.  Fernando  José  de  Portugal, 
pedindocautelosas  medidas  para  com  prudência 
dispersal-os  porserdifficultoso  fazel-os  recuar,  em 
um  momento,  todo  o  caminho  que  com  tanta 
indulgência  se  lhes  tolerou  fazerem. 

Estas  reuniões,  que  eram  feitas  em  logares 
que  se  chamavam  casebres^  tomavam  tal  incre- 
mento, excitavam  os  ânimos  dos  associados,  que 
foram  nomeados  capitães  por  elles  escolhidos, 
em  cada  bairro  da  cidade,  os  quaes  coadjuvavam 
a  fuga  da  maior  parte  delles,  tanto  nesta  capital 
como  nos  engenhos  do  recôncavo,  e  agenciavam 
armas  para,  no  momento  dado,  fazerem  a  guerra 
aos  brancos. 

Já  desassombradamente  tratavam  destes  le- 
vantes de  que  foi  sabedor,  por  denuncia  dada  na 

IH 


98 


noite  do  dia  22  de  Maio  de  1807,  o  Conde  da 
Ponte  que  tomou  toda  a  cautela,  encoberta  com  a 
prudência,  para  frustrar  tão  funesto  piano. 

iMicarregou  a  seu  ajudante  de  ordens  todas 
as  providencias,  e  assim  foi  que,  nos  dias  23,  24  e 
25,  jíi  eram  conhecidos  os  nomes  dos  chamados 
capitães,  e  sabido  o  sitio  dos  casebres  onde  se 
ajuntavam  ordinariamente. 

Era  o  dia  27  o  marcado  para  que  cada  um, 
com  as  armas  que  podesse  apromptar — ,  invadisse 
a  cidade. 

Depois  de  recolhida  a  procissão  de  Corpo  de 
Deus,  que  eífectuou-se  n^este  mesmo  dia,  e  a  que 
assistia  e  acompanhava  o  Conde  da  Ponte,  sem  que 
transpirasse,  nem  desse  a  conhecer  a  menor  sombra 
do  que  ideava,  dirigiu  a  cada  um  dos  chefes  dos 
corpos  de  infantaria  e  artilharia  ordens  escriptas 
por  sua  própria  mão  para  a  promptidão  das  pa- 
trulhas; e  pelas  6  horas  da  tarde,  sem  toques — 'de 
tambor,  sem  que  soasse  o  menor  ruido,  acnavam-se 
tomadas  as  sabidas  e  entradas  da  cidade,  os  offi- 
ciaes  do  matto  em  diligencia  pelos  caminhos,  e  a 
casa  denunciada  investida  e  cercada. 

Foram  presos  dentro  do  casebre  cercado  sete 
negros  e  acharam-se  perto  de  quatrocentas  flexas, 
um  molho  de  varas  para  arcos,  meadas  de  cordel, 
facas,  pistolas,  espingardas,  um  tambor  e  diversas 
composições  supersticiosas  a  que  chamam — man- 
dirtfjas. 

Este  nome  dado  a  diversos  objectos  de  formas 
exquisitas  e  originaes,  faz-nos  crer  que  tira  sua 
origem  do  nome  Mandingo. 

Esta  supposição  vem  corroborar  a  quasi  certeza 
que  temos  de  crer  que  os  levantes  que  successiva- 
mente  tiveram  logar  n^esta  cidade,  foram  sempre 
movidos  ou  tinham'  por  cabeças  chefes  malas. 


99 


Os  males  sem  duvida  alguma  mais  civilisados 
que  os  nagôs,  gêges,  etc,  habitavam  a  bacia  do 
uambia  e  eram  conhecidos  por  Mali'nkê,  que  quer 
dizer,  homens  do  Maly,  súbditos  do  império  do 
Mali  ou  Malê,  que  circumdava  a  alta  bacia  do 
Niger. 

Os  males  pertenciam  ao  povo  Mandingo^  guer- 
reiros destemidos,  que  conquistaram  a  maior  parte 
dos  paizes  do  Niger,  e  que  foram  desbaratados 
pelos  Soughai,  que  tinham  por  chefe  Askia. 

Os  documentos  achados  juntos  aos  processos 
escriptos  em  caracteres  arábicos,  com  provam  ainda 
uma  vez  que  eram  escriptos  por  males,  nação  que 
possuia  sentimentos  e  idéas  religiosas  mais  adian- 
tadas, e  tinha  escripta,  que  não  podia  ser  outra 
senão  a  dos  árabes,  povo  o  mais  civilisado  e 
civilisador  da  Africa  e  da  Ásia  Oriental  n^aquella 
época. 

•No  dia  seguinte,  28,  o  Conde  da  Ponte  fez 
publicar  um  bando  em  que  ordenava  que  todo 
escravo  que  fosse  encontrado  nas  ruas  doesta  cidade 
depois  das  9  horas  da  noite  sem  escripto  de  seu 
senhor,  ou  em  companhia  d^elle,  fosse  preso  e 
açoitado  nas  cadeias  publicas. 

Participando  ao  governo  todas  estas  medidas, 
dizia  o  mesmo  Conde,  que  «  este  passo  que  poderia 
ser  reparavel  em  outra  qualquer  occasião,  foi 
geralmente  approvado  por  todos  os  habitantes,  que 
não  podiam  por  si  sós  conter  a  liberdade  e  falta 
de  sujeição  de  seus  escravos. 

Esta  enérgica  medida  trouxe  por  certo  tempo 
alguma  tranquillidade,  apezar  de  que  nos  engenhos 
do  recôncavo  continuava  sempre  o  fermento  de 
rebellião  na  escravatura,  ora  abafado  pelos  movi- 
mentos que  se  seguiram  logo  nas  guerras  da 
independência,  e  ora  excitado  por  especulações 
politicas,  revolucionarias,  etc. 


100 


Não  tardou,  porem,  que  reapparecessc  nova 
insLirreiçSt)  noannode  1826. 

E  assim  foi  que,  na  madrugada  do  dia  \j  de 
Dezembro,  nas  immediaçoes  de  1'iraja,  termn 
d*esla  cidade,  o^i  negros  desenfreada  mente  com- 
metteram  as  maiores  e  mais  per\ersas  tropelias. 

A  tropa  que  tinha  marchado  doesta  cidade  para 
abafar  e  conter  os  rebeldes  insurgidos,  soube,  no 
lo^ar  chamado  Cabúliu,  que  os  nepros  estavam 
reunidos,  em  numero  maior  de  biK  em  um 
sitif»  denominado  Oruhn,  onde  existia  um  qui- 
lombo, no  qual  se  praticavam  extravagantes  sceiías 
de  feitiçaria. 

Nas  investidas  que  tazi^a  a  tropa,  encontrou  um 
capitão  de  assaltos  e  mais  dous  crioulos  gravemente 
feridos  pelos  negros  que  se  achavam  na  baixa  do 
Oriibu. 

Reonindo-se  esta  tropa  a  um  sargento  e  20 
soldados  do  regimenta)  de  Pirajá,  puzeram  e?;tes' 
cerco  ao  dito  quilombo,  onde  os  negros  entrin- 
cheirados por  detraz  de  um  carro  de  bois,  armados 
de  foices,  facões,  lazarinps,  lanças  e  outros  instru- 
mentos curtos,  aguardavam  o  ataque  com  deno- 
dada resolução. 

Intimados  a  que  se  rendessem,  lançaram-se 
furiosos  e  em  infernal  vozeria  aos  gritos  de  mata  ! 
mata!  vendo-se  a  tropa  na  contingência  forçada  de 
tazer  fogo,  com  o  qual  conseguiu  dispersal-os  e 
ertectuar  algumas  prisões. 

A  20  do  mesmo  mez,  o  então  Presidente  da 
Provincia,  Manoel  Ignacio  da  Cunha  Menezes, 
fazia  baixar  uma  portaria  ordenando  ao  desem- 
bargador ouvidor  geral  do  crime  que  procedesse 
immediatamente,  em  conformidade  das  leis,  contra 
os  réos  de  tão  pernicioso  crime,  e  que  procurasse 
conhecer  por  meio  de  perguntas  aos  ditos  réos  o 
fim  a  que  se  dirigia  tal  projecto. 


101 


Todos  os  inquéritos  e  subterfúgios  postos  cm 
acção  para  conseguir-sc  a  descoberta  do  movei,  ou 
o  lim  a  que  se  dirigiam  todas  estas  insurreições, 
foram  baldados. 

E  assim  vivia  sobresaltada  a  população  desta 
cidade,  esperando  e  temendo  sempre  ver  explodir 
a  qualquer  momento  novos  levantes. 

Nos  annos  seguintes  (ieram-se  pequenas  in- 
terrupções na  ordem  publica,  e  sempre  occasio- 
nadas  pelos  negros,  que,  depois  de  rebellarem-se 
contra  seus  senhores,  fugiam  para  as  mattas  que 
cercavam  esta  cidade. 

E  assim  pairavam  as  coisas  n'este  estado  de 
agitaçclo  e  temor,  quando  veio  augmentar  as 
inquietações  da  população  nova  insurreição,  que 
manifestou-se  pelas  7  horas  da  manhã  do  dia  i." 
de  Abril  do  anno  de  i83o. 

Um  troço  de  18  a  20  negros  fortes  e  resolutos 
aproveitando  a  horaem  que  o  movimento  nacidade 
baixa.era  pouco,  invadiram  uma  loja  de  ferragens 
á  rua  da  Fonte  dos  Padres  e,  á  força,  roubaram 
doze  espadas  de  copos  e  cinco  facas,  conhecidas 
então  por  parnahybas,  ferindo  n'este  assalto  ao 
dono  da  loja  e  aos  caixeiros,  continuando  assim  a 
roubar  armas  em  outras  lojas.  Assim  armados, 
seguiram  pela  rua  do  Julião,  commetendo  dis- 
túrbios e  ferimentos,  em  procura  do  armazém  de 
negros  novos,  onde  se  lhes  ajuntaram  cm  numero 
maior  de  cem  :  ferindo  n'esta  occasião  a  dezoito, 
que  não  quizeram  acompanhal-os,  e  com  outros 
ladinos  que  se  lhes  reuniram  foram  perpetrando  as 
maiores  atrocidades  e  ferimentos,  seguindo  para 
a  Soledade,  armados  de  páos  e  das  armas  que 
roubaram,  e  ahi  atacaram  a  guarda  policial,  com- 
posta de  sete  soldados  e  um  sargento. 

Quando  marchou  ao  encalço  d^estes  rebeldes 
um  piquete  do  batalhão  20,  composto  de  60  praças, 


lOU 


nâo  mais  os  achou  reunidos,  e,  sim,  dispersados 
na  mana  de  S,  Gonçalo,  onde  conseí^uiu  apenas 
capturar  41  dos  revíjliosos. 

Desde  a  ladeira  da  Soledade  foram  perseguidos 
píír  paisanos  milicianosealgunssoldadosdii  policia 
dispí:rsado^,  qm  lhes  mataram  seguramente  5o 
companheiros,  o  que  os  embaraçou  de  fazerem 
mais  hostilidades. 

Novas  p^squizas  e  buscas  cffjctuavam-se  nas 
casas  suspeitas,  conhecidas  por  casebres,  onde 
sempre  tinha  luí^ar  prisí3es,  aprehendiam-se  ob- 
jccios  origina  es  que  serviam  de  base  para  os 
processos  instauraaos^em  que  logo  a p pareciam  os 
senhores  reclamando  e  apresentando  provas  que 
comprovavam  a  não  culpabilidade  de  seus  escravos 
HO  agora  innocentes,  quando  debaixo  da  acção 
do  poder  judicial. 

Não  sei  se  contando  com  esta  protecção  da 
parte  de  seus  próprios  senhores,  que  não  os  queriam 
perder,  pois  que  d^elles  usufruíam  por  dia  oito  a 
doze  vinténs,  sem  se  importarem  como  elles  os 
ganhavam,  ou  esperançados  em  alcançarem  o  seu 
desideratum,  certo  é  que  não  descuravam  de 
reunir-se  sempre  e  tratarem  de  novas  insurreições, 
para  que  convidavam  os  pretos  novos,  persu- 
adindo-os  que  voltariam  para  sua  terra. 

N'este  encadeamento  continuo  de  levantes 
sediciosos  vivia  esta  cidade,  sem  que  os  poderes 
competentes  coabitassem  de  tomar  enérgicas  e 
etíicazes  medidas  que  puzessem  fim  por  uma  vez  a 
esses  desatinos,  que  ou  niscião  de  fins  políticos  ou 
tinham  sua  sede  em  superstições  religiosas  de  uma 
raça  dominada  pelo  fetichismo  . 

Não  finalisaram-se  ahi  as  insurreições  africa- 
nas; o  longo  espaòo  decorrido  em  socego  que 
parecia  ter  acalmado  os  ânimos  revolucionários 
desta  raça  captiva,  fomentava  e  animava  a  mais 


103 


notável  de  todas  ellas,  que  teve  lugar  na  madru- 
gada de  24  para  25  de  Janeiro  do  anno   de  i835. 

Apezar  das  medidas  preventivas  tomadas  a 
tempo,  ella  não  deixou  de  trazer  a  cidade  o  luto, 
enchendo  as  suas  praças  e  ruas  de  sangue  e  de 
cadáveres. 

Sendo  prevenido  o  presidente  da  provincia, 
Francisco  de  Souza  Martins,  de  que  ia  rebentar 
uma  revolução  de  negros,  preparada  para  aquella 
noite  ao  amanhecer,  officiou  logo  ao  Cheíe  de 
policia  Francisco  Gonsalves  iMartins  para  que  to- 
masse todas  as  medidas  que  cohibissem  similhante 
levantamento. 

Este,  depois  de  providenciar  para  que  ficassem 
os  postos  da  cidade  em  vigilância,  dirigiu-se  ao 
Bomfim,  onde  havia  festa  e  muita  gente  reunida, 
que  convinha  defender  e  livrar  de  qualquer  ataque 
por  parte  dos  insurgidos. 

Recommendou  também  o  presidente  ao  Juiz 
de  Paz  dô  primeiro  districto  e  ao  Commandante  de 
Policia  que  fizessem  vigiar  o  largo  de  Guadelupe, 
onde  suppunha  haver  um  casebre  dos  taes  negros 
que  pretendiam  atacar  a  cidade. 

Realmente,  á  uma  hora  da  noite,  pouco  mais 
ou  menos,  o  Juiz  de  Paz,  acompanhado  de  paisanos 
e  do  Alferes  Lazaro  Vieira  do  Amaral,  descon- 
fiaram de  certo  rumor  que  sahia  de  uma  casa  onde 
á  janella  estava  uma  mulher  de  còr  parda. 

Intimada  esta  a  que  abrisse  a  porta,  negou-se  a 
isto  com  evasiva  e  disfarces,  completando  assim 
as  suspeitas  que  tinham  nascido  no  animo  dos 
rondantes. 

Obrigada  a  que  abrisse  a  porta  em  nome  da 
lei,  romperam  então  muitos  tiros  em  descarga 
cerrada,  e  uma  multidão  de  negros  com  carapuças 
brancas  e  saiotes  da  mesma  còr,  por  cima  das 
calças,  armados  de  pistolas,  espadas  e  espingardas 


104 


atacaram  a  ronda  de  permanentes  e  cutilaram  o 
Alferes  Lazaro  Vieira  do  Amaral,  fazendo  os  outros 
fugirem  sem  demora. 

Dividi rani"se  em  dous  grupos,  um  dirigiu-se 
á  pntça  de  Palácio,  onds  atacando  a  guarda,  cu-- 
lilou  um  soldado  que  fazia  si!ntine!la  á  caJcia, 
f  nitro  tomou  adirecçãodoColle^io,  atacou  também 
a  guarda,  matou  uni  soldado  e  deixou  trez  crioulos 
mortos. 

Outro  grupo  mais  compacto  atacou  o  quartel 
de  permanentes  cm  S.  Bento  e  a  guarda,  que, 
depois  de  trocados  muitos  tiros,  ficou  desnorteada, 
vendo-se  obrigada  a  fechar  o  portão  para  livrar-se 
dos  invasores. 

Um  outro  vindo  da  Victoria  investiu  sobre  o 
quartel  do  Forte  do  S.  Pedro,  onde  travou-se  novo 
combate,  íicando  no  campo  um  guarda  nacional 
mutilado  e  muitos  negros  mortos.  O  quartel  de 
cavallaria  á  Agua  de  xMeninos  também  foi  atacado. 

O  Chefe  de  Policia,  que  se  achava  ahíde  volta 
do  Bomfim,  auxiliado  pelo  Capitão  Francisco 
Telles  Carvalhal,  que  commandava  alguns  sol- 
dados de  cavallaria,  conseguiu  oppor  seria  resis- 
tência. 

Então  travou-se  o  mais  terrível  combale:  os 
negros  lançavam-se  ao  mar,  outros  fugião  para 
os  mattos  da  encosta  da  montanha,  deixando  o 
campo  juncado  de  cadáveres. 

Os  que  lançavam-se  ao  mar,  procurando  por 
este  meio  evadir-se,  morreram  afogados  ou  forão 
mortos  a  tiros  por  marinheiros  de  um  escaler  da 
fragata  liahiana,  que  se  achava  alli  postado  por 
ordem  do  presidente  da  província. 

Pelas  ruas  da  cidade  negros  avulsos  commet- 
tiam  mil  desatinos,  levando  assim  o  terror  ao  seio 
das  famílias  que  mal  attingiam  a  gravidade  do  que 
se  tinha  passado  na  cidade. 


lOõ 


Ao  amanhecer  já  tinham  desapparecido  os 
i;rupos,  fugindo  ou  occultando-se  nos  mattos  ri- 
sinhos cm  suas  casas. 

Nas  buscas  feitas  pela  policia  acharam-se  muitos 
negros  escondidos,  uns  feridos  e  alguns  ainda 
ornamentados  com  insígnias  de  chefe. 

Nas  pesquizas  feitas  viu-se  que  pessoa  alguma 
de  consideração  tomara  parte  na  insurreição,  nem 
se  pode  negar  que  havia  um  fim  politico  nestes 
levantes,  pois  e]ue  não  commettiam  roubos,  nem 
matavam  seus  senhores  occultamente. 

Depois  de  quieta  a  cidade,  recomeçou-se  a  afa- 
nosa lida  de  buscas  e  apprehensões.  Nas  casas 
onde  morava  sempre  mais  de  um  negro  eram 
achados  objectos  das  maisexquisitas  formas;  abun- 
davam sempre  as  carapuças  brancas,  saiotes  enfei- 
tados de  pcnnas  c  guizos,  e  cm  algumas  casas 
guardaram,  com  certo  disvelò  c  cuidado,  alguma 
cousa  que  se  parecia  com  uma  coroa  ou  emblema 
qualquer  de  chefe.  As  taboas  onde  se  vião  inscri- 
pç(3cs  de  caracteres  arábicos  e  papeis  onde  também 
cscrevião  e  pintavam  eram  sempre  guardados, 
enrolados  em  muitos  envolucros  e  bem  escondidos 
em  latns  ou  arcas.  Quando  perguntados  sobre  estes 
cxquisitos  objectos,  negavam  sempre,  procurando 
desviar  as  perguntas  do  interrogador,  ou  fingiam 
não  comprehender. 

A  principio  cri  que  estas  inscripções  fossem 
somente  oraç(3es,  mas  hoje,  depois  de  apurado 
estudo,  convenci-me  de  que  n'ellas  ha  alguma  coisa 
de  correspondência  politica;  as  tentativas  que 
temos  empregado  com  o  fim  de  descobrir  o  movei 
que  impulsionava  estes  fanáticos  esbarram  ante  a 
superstição  c  a  desconfiança  que  ainda  tèm  os 
negros   que   lhes  possa   nascer  d'ahi  algum  mal. 

A  tudo  presidia  o  fetichismo. 

14 


106 


Xus  minhas  conversas  com  estes  nej^ros,  mos^ 
irando-Ihcs  que  conheço  alguma  coisa  de  seus 
cosiunies  lenho  obtido  explicações  bem  interes- 
santes. Assim  e  que  depois  de  escreverem  sobre 
laboas  ãdrede  preparadas  para  este  íim,  c  de  feita 
a  ceremonia  da  vcriíicação  pelo  maioral,  isto  e,  si 
a  oração  esc  ri  pt  a  é  a  verdadeira ,  a  ta  boa  é  lavada 
em  aguas  que  são  recebidas  com  carinho  e  fé,  e 
então  bebidas. 

Este  liquido  tem  para  clles  a  propriedade  de 
livral-os  de  todos  os  perigos  e  males  mundanos, 

O  certo  é  que  não  consiste  só  em  orações  a 
immensa  correspondência  que  possue  hoje  o  Ar- 
chivo  Pub)Ící>,  e  n\Tm  dos  processos  da  insurreição 
de  i835  deparamos  com  uma  traducção  a  única  que 
ha  nestes  autos  todos,  feita  por  um  negro  de  nação 
IMâ  perante  as  autoridades  que  presenciavam  a 
audiência,  que  assim  di/: 

eque  a  gente  havia  de  \'irda  Mctoria  tomando 
a  terra  e  matando  toda  a  gente  da  terra  de  branco, 
que  passaria  por  Agua  de  Meninos  até  se  ajuntarem 
todos  no  Caorito  atraz  de  Itapagipe,  para  o  que  as 
espingardas  não  haviam  de  fazer  mal.  » 

Ha  uma  outra  feita  pelo  mesmo  negro,  de  um 
bilhete  de  um  insurgido  a  outro  dizendo  que: 

«deviam  sahir  todos  das  duas  até  ás  quatro 
horas,  invisiveis,  e  que,  depois  de  fazerem  o  que 
podessem,  iriam  se  ajuntar  ao  Cabrito,  detraz  de 
Itapagipe,  em  um  buraco  grande  que  ahi  ha,  com 
a  gente  do  engenho  que  fica  atraz  e  junto,  porque 
esta  gente  já  tinha  feito  aviso,  e  quando  esta  não 
viesse,  elles  irião  juntar-sc  no  mesmo  engenho, 
tendo  muitocuidadode  fugirdos  corpos  das  guardas 
para  surprehendcl-as  até  elles  sahirem  logo  da 
cidade.  » 

Si  estes  apanhamentos  e  noticias  estão  longe 
do  fim  almejado  pelo  interesse  histórico,  com  toda 


107 


a  certeza  provam  a  grande  importância  dos  docu- 
mentos aliudidos  e  justificam  plenamente  os  es- 
forços empregados  pela  direcção  do  Archivo  para 
o  fim  de  serem  completamente  decifrados,  e  assim 
se  poder  comprehender  o  verdadeiro  movei  das 
insurreições  do  principio  deste  século  e  ficar  es- 
clarecida a  caracteristica  d'aquelles  tempos.  Por 
ser,  porém,  difficil  obtel-a  aqui,  estão  sendo  feitas 
fidelissimas  copias  dos  ditos  papeis  para  serem 
remettidos  a  sábios  investigadores  de  linguas  orien- 
taes  e  africanas,  luzeiros  das  faculdad-es  philoso- 
phicas  da  Allemanha. 

Pelo  espécimen  exposto  na  vitrine  do  estabele- 
cimento Schleier  e  pelos  esclarecimentos  que 
á  cerca  das  ditas  insurreições  me  esforcei  em  dar 
aqui,  comprehenderá  o  publico  o  subido  valor  da 
matéria  e  me  desculpará  certamente  o  mal  alinha- 
vado das  presentes  linhas,  tendo  somente  cm  vista 
a  importância  do  assumpto. 

Archivo  Publico,  26  de  Setembro  de  1890. — /. 
Carlos  Ferreira. 

OFFICIO  DO  CHEFE  DE  POLICIA  SOBRE 
A  INSURREIÇÃO  DE  i833  (*) 

«111.'"^  e  Ex.'"°  Snr.  Apezar  de  estar  V.  Ex." 
scientificadodos  acontecimentos  que  tiveram  logar 
nesta  Cidade,  da  noite  de  24  para  2?  do  corrente 
emdiante,cumpre-mecomtudo  fazer  umasuccinta 
exposição  do  que  tem  chegado  ao  meu  conheci- 
mento, para  que  em  um  só  ponto  de  vista  V.  Ex." 
possa  inteirar-se  das  providencias  que  cumpre 
adoptar  a  semelhante  respeito,  para  tranquilidade 
da  Provincia. 

Com  as  denuncias,  mil  vezes  felizes,  queV.  Ex." 

;*j  Archivo  Publico  da  Bahia. 


108 

recebeu  na  noite  de  24  do  corrente,  de  que  os 
Africanos,  particularmente  os  Nctgòs,  deviam  in- 
surgi r-sc  a*  Koque  de  alvorada,  lançando  ao  mesmo 
tempo  fofíu  a  diversos  sitiou  da  cidade,  e  atacando 
os  Corpos  de  (Juarda;  os  Juizes  de  Paz  se  puzeram 
na  rua,  c  convocaram  logo  os  cidadãos  para  a 
policiada  cidade;  e  os  Corpos,  e  (juardas  esti- 
veram inimcdialamente  debaixo  de  armas;  des- 
tacando o  Corpt)  dos  Pcrmancnics  para  diversos 
logarcs  i orças  capazes  de  rebater  qualq^uer  prin- 
cipio de  tentativa  da  parte  dos  ditos  Africanos. 

Tcnd(*  recebido  o  OfRcio  de  V.  Kx/  pelas  onze 
'horas  da  noite,  depois  de  haver  visitado  alguns 
pontos,  c  ter  dado  algumas  ordens,  dirigi-iiie  á 
Ladeira  da  Praça,  onde,  segundo  as  denuncias, 
deviam  estar  reunidos  em  alguns  casebres  grande 
parte  dos  insurgentes,  c  achei  ahl  os  Juizes  de  Paz 
dos  dous  Disírictos  da  Sc  com  alguns  cidadãos,  c 
Municipaes,  a  dar  busca  em  alguns  dosditos  logares- 

Então  em  cumprimento  das  ordens  de  V.  Ex." 
c  achando  cjue  nenhum  perigo  poderia  haver  no 
centro  da  cidade,  no  meio  dos  Quartéis,  e  Corpos 
de  Guarda,  e  principalmente  estando  todos  pre- 
venidos, e  o  alarme  dado; depois  de  fazeralgumas 
requisições  que  achei  importantes,  fui  em  direitura 
a  Cavaílaria,  que  achei  preparada,  e  dando  ordem 
para  que  um  Piquete  me  seguisse  para  o  Largo  do 
Bomnm,  immcdiatamente  corri  para  o  dito  logar 
emquanto  montava  o  Piquete,  por  temer  que 
qualquer  demora  podesse  ser  funesta  a  tantas 
familias  desarmadas,  e  collocadas  talvez  na  peior 
posição  para  um  semelhante  ataque,  pela  proxi- 
midade dos  Engenhos,  e  separação  da  grande  força 
da  Povoação.  Apenas  tinha  dado  algumas  ordens 
tendentes  a  acautelar  o  perigo,  que  veio  a  todo 
galope  uma  Patrulha  de  Cavaílaria  annunciar-me 


109 


que  os  Africanos  haviam  atacado  alguns  pontos  da 
cidade. 

Logo  que  recebi  esta  noticia,  dei  ordem  a  um 
Destacamento  Municipal  de  dezoito  homens,  cjue 
estava  no  Bomíim,  para  que,  em  cciso  de  perigo, 
fizesse  entrar  as  familias  para  a  Igreja,  e  alli  se 
encerrasse,  defendendo-se  de  qualquer  ataque,  até 
que  cu  os  podesse  soccorrer.  Voltando  a  Cavallaria 
pelas  3  horas  da  noite,  achei-a  em  alarme;  uma 
força  montada,  e  outra  a  pé  com  alguns  Guardas 
Nacionaes ;  e  recolhendo-se  logo  estes  no  mesmo 
Quartel  para  defender  a  porta,  e  fazer  sobre  os 
Africanos  fogo  pelas  janellas;  a  Cavallaria  esperou 
no  largo  para  os  atacar. 

Em  poucos  minutos  appareceram  com  eífeito 
em  numero  de  5o  a  6o,  armados  de  espadas,  lanças, 
e  mesmo  pistolas  e  outras  armas. 

Recebidos  a  tiros  de  pistolas  e  de  fuzil,  das 
janellas  do  Quartel,  avançaram  furiosos,  o  que 
deu  causa  a  Cavallaria  se  d!ebandar  em  seu  segui- 
mento, para  que  não  se  escapassem  pelo  caminho 
do  Noviciado. 

A  este  tempo  o  commandante  da  Cavallaria,  o 
Capitão  Carvalhal,  que  os  esperou  a  pé,  foi  ferido 
e  se  viu  forçado  a  recolher-se. 

Voltando  eu  com  alguns  cavallos  á  porta  do 
Quartel  a  carregar  sobre  os  Africanos,  que  ainda 
por  ali  estavão,  estes  se  debandaram  seguindo-os 
essa  porção  de  Cavallaria,  ao  passo  que  a  outra 
os  continuava  a  perseguir.  Entretanto  apparecendo 
ainda  alguns  Africanos,  e  auzente  o  resto  da 
Cavallaria,  entrei  para  o  Quartel,  donde  continuou 
o  fogo  por  espaço  de  um  quarto  de  hora,  até  que 
de  todo  succumbiram,  devendo-se  o  principal 
esforço  á  Cavallaria  montada  que  os  carregou  com 
valor',  forçando-os  a  se  lançarem  ao  mar,  ou  a  se 
esconderem  nos  visinhos  montes  cobertos  de  capo- 


nu 


eirasj  deixando  alguns  17  mortos,  outros  feridos, 
e  presos,  afora  muitos  que  se  afo^íaram,  ou  feridos 
Ibrão  perder  a  vida  entre  as  ondas;  tendo  me 
constado  que  têm  apparecido  alguns  em  diversos 
sitios. 

Dissipado  o  perigo,  receíando-se  alj;um  ataque 
no  logar  do  Bomíim ,  depois  de  saber  que  o  restante 
da  Cidade  estava  livre  do  ataque,  fui  com  a 
Cavai laria  a  Conceição  da  Praia,  t>nde  tomando 
uma  força  de  40  homens  marchei  pelo  Quartel  da 
Cavallaria,  e  ahi  deixando  alguns  (iuardas  Nacio- 
naes,  para  reforçar  o  mesmo,  fuicomaCavallaria, 
e  a  força  dita  já  então  unida  a  io  Nacionaes,  que 
V,  Kx.  me  havia  mandado  commandados  pelo 
Ajudante  Mondim,  ao  logar  do  Bomfim,  onde 
estive  até  que  soube  de  que  nos  engenhos  visinhos 
não  havia  movimento  algum.  Na  volta,  que  era  ja 
bastante  dia,  encontrei  no  Quartel  da  (^avaliaria 
40  homens  da  Fragata  que  V.  Ex.  mandava  por 
ás  minhas  ordens,  dos  quaes  mandei  que  ií>tV>ssem 
embarcados  para  o  sitio  de  Itapagipe,  e  ali  per- 
manecessem até  se  restabelecer  a  tranquilidade. 

Depois,  pelas  partes  recebidas,  soube  que  no 
acto  da  busca,  em  uma  casa  junto  de  Guadelupe, 
á  Ladeira  da  Praça,  por  denuncia  particular, 
querendo  entrar  o  Juiz  de  Paz,  não  lhe  quiz  abrir 
a  porta  uma  parda  dizendo  que  alli  não  havia 
pessoa  alguma;  e  como  se  dispozesse  o  Juiz  a 
arrombal-a,  abrio-a,  ao  passo  que  outra  se  fechou. 
Mas,  crescendo  a  desconfiança,  e  entrando  o 
Commandante  dos  Permanentes,  o  Tenente  I  .azaro 
Vieira  do  Amaral,  pelo  corredor  em  direitura  a 
porta  fechada,  repentinamente,  a  um  signal  dado, 
dizem  pela  referidaparda,  abrio-se  aporta,  sahindo 
de  dentro  um  tiro  de  bocamarte,  e  após  delle  um 
grupo  de  60  pretos,  pouco  mais  ou  menos,  armados 
de  diversas  armas,  principalmente  de  espadas,  os 


111 


quaes  dispersaram  a  pequena  força  surprchendida, 
ferindo  gravemente  ao  referido  Tenente  Lazaro,  e 
a  outros  que  forão  encontrando  em  sua  passagem. 

Este  grupo  se  dirigio  por Xossa  Senhora  d' Ajuda 
ao  Largo  do  Theatro,  onde  foi  recebido  com  uma 
descarga  dada  por  8  Guardas  Permanentes  com- 
mandados  pelo  Ajudante  do  mesmo  Corpo,  os 
quaes  foram  dispersados  pelos  Africanos,  depois 
de  ficarem  feridos  5.  Desse  logar  correram  em  altos 
gritos  pela  Rua  de  Baixo  matando  e  ferindo  os  que 
encontravam,  constando-me  terem  feito  duas 
mortes  em  dous  pardos,  e  foram  direitos  ao  Quartel 
de  Artilheria,  talvez  com  o  fim  de  fazerem  alguma 
junccão  da  parte  da  Victoria,  como  depois  se 
verificou. 

Próximos  ao  Quartel  mataram  um  Sargento 
Nacional  do  2."  Batalhão  chamado  Tito,  o  qual, 
indo  em  companhia  do  seu  Juiz  de  Paz,  quando 
este  procurou  o  amparo  da  F^ortaleza,  ficou  um 
pouco  atraz  para  lhes  dar  um  tiro. 

Receiando  atacar  a  Artilheria,  voltaram  pelo 
mesmo  caminho,  e  brevemente  fizeram  a  junccão 
com  outro  grupo  vindo  do  lado  da  Victoria,  e  que 
atravessou  a  estrada  nova  do  Forte,  não  obstante 
o  fogo  que  lhe  fizeram. 

Reunidos  foram  atacar  o  Quartel  dos  Per- 
manentes, onde  apenas  existião  22  soldados,  por 
lerem  sido  prestados  os  demais  á  diversas  requi- 
sições. 

> 

Ahi  depois  de  algum  fogo,  fechado  o  portão  do 
Quartel,  e  morrerem  2  soldados,  tendo  outros 
feiidos,  tomaram  pelo  lado  da  Barroquinha,  e 
vieram  sahir  segunda  vez  no  sitio  dAjuda,  d'onde 
seguiram  para  o  Collegio,  e  atacaram  a  Guarda,  a 
qual  Se  recolheo,  fazendo  fogo  sobre  o  grupo  um 
reforço  Permanente,  que  alli  se  achava. 


112 


X'csse  ]ogar  mataram  um  soldado  de  Artilhcna, 
que  vinha  buscar  o  Santo,  o  qual  antes  de  cahir 
ícrido  defendeO"Se  corajosamente,  e  matou  um 
com  uni  tiro,  te  rindo  a  outros  muitos. 

Na  descida  pela  Baixa  dos  Sapateiros  mataram 
um  pardo,  e  dÍ2em-me  que  ainda  ouiro^  seguindo 
depois  para  os  Coqueiros,  d^onde  sahiram  para 
atacar  o  Quartel  de  Cavai inri li,  como  já  referi  a 
V.  Ex\ 

Depois  do  destroço,  que  receberam  n'esta 
ultima  paragem,  único  que  tomou  a  ottensíva^ 
nunca  mais  se  reuniram. 

lísquecia-me  dizer  a  V.  Kx/  que  na  noite  da 
insurreição  se  me  apresentou  igual  mente  o 'lenen  te* 
Coronel  Manoel  Antonioda  Silva,  [nstructor Geral 
dos  Guardas  Nacionaes,  a  quem  encarreguei  al- 
gumas commisscjes:  bem  como  devo  communicar 
a  V.  Ex/  que  a  parda  da  casa  onde  se  achavam  os 
pretos,  c  seu  marido,  estão  presos  havendo  motivo 
para  os  suspeitar  conni^  entes  ou  sabedores. 

Desde  o  Quartel  da  Cavallaria  até  o  Forte  de 
São  Pedro  foram  achados  muitos  Africanos  mortos, 
ou  feridos,  e  poucos  presos  na  acto  do  ataque. 

Calculo  o  numero  dos  mortos  achados  em  todos 
os  logares,  e  mesmo  entre  as  ondas,  em  5o;  havendo 
porém  feridos,  que  de  certo  não  escaparão,  attento 
a  gravidade  dos  ferimentos,  e  o  tempo  decorrido, 
primeiro  que  fossem  tratados,  existindo  estes  no 
Hospital,  para  ondeos  mandei  conduzir,  e  os  outros 
na  Fortaleza  do  Mar. 

Pela  manhã  foram  achados  alguns  pelos  mattos 
visinhos  baleados,  ou  cutilados,  dos  quaes  alguns 
procuravam  escapar-se  com  disfarces.  A's  seis  para 
sete  da^m.-^mhan,  da  casa  de  João  Francisco  Ratis, 
sahiram  repentinamente  seis  pretos  seus,  arm.ados 
de  espadas,  pistolas  e  punhaes,  vestidos  em  trajes 
de  guerra,  á  maneira  sua;  e  depois  de  lançarem 


113 


foyo  a  casa  do  senhor,  correram  em  busca  d^Agoa 
de  Meninos,  sendo  logo  mortos  no  caminho. 

E'  de  presumir  que  estes  estivessem  no  plano; 
porém  ignorariam  o  resultado  da  madrugada,  pois 
Gue  foram  forçados  a  romper  antes  de  tempo  os  6o 
aa  casa  corrida  ao  Guadeluppe. 

Têm  sido  dadas  por  mim  as  providencias  neces- 
sárias para  serem  corridas  todas  as  casas  de  Afri- 
canos, sem  distincção  alguma,  e  o  resultado  será 
presente  a  V.  Kx."  em  tempo  competente;  podendo 
desde  já  asseverar  a  V.  Ex'.  que  a  insurreição 
estava  tramada  de  muito  tempo,  com  um  segredo 
inviolável,  e  debaixo  de  um  plano  superior 
ao  que  deviamos  esperar  de  sua  brutalidade,  e 
ignorância.  Em  geral  vão  quasi  todos  sabendo  ler, 
e  escrever  em  caracteres  desconhecidos,  que  se 
assemelham  ao  Árabe,  usado  entre  os  Ussás,  que 
figuram  terem  hoje  combinado  com  os  Nagòs. 

Esta  Nação  em  outro  tempo  foi  a  que  se  insur- 
giu nesta  Provincia  por  varias  vezes,  sendo  depois 
substituida  pelos  Nagòs.  Existem  mestres,  que 
dão  lições  e  tratavam  de  organisar  a  insurreição, 
na  qual  entravam  muitos  forros  Africanos,  e  até 
ricos. 

Têm  sido  encontrados  muitos  livros,  alguns  dos 

auaes,  diz-se,  serem  preceitos  religiosos  tirados 
e  misturas  de  seitas,  principalmente  do  Alcorão. 
O  certo  é  que  a  Religião  tinha  sua  parte  na 
sublevação,  e  os  chefes  faziam  persuadir  aos  mi- 
seráveis que  certos  papeis  os  livrariam  da  morte, 
donde  vêm  encontrar-se  nos  corpos  mortos  grande 
porção  dos  ditos,  e  nas  vestimentas  ricas  e  exqui- 
sitas,  que  figuram  pertencer  aos  chefes,  e  que 
foram  achadas  em  algumas  buscas.  Também  se 
notou  que  uma  quantidade  grande  de  insurgentes 
eram  escravos  dos  Inglezes,  e  estavam  melhor  ar- 
mados, devendo-se  attribuir  estas  circumstancias 


114 


a  menor  coacção  em  que  são  tidos  por  estes 
estrangeiros,  habituados  a  viver  com  homens, 
livres. 

Além  da  morte. do  Sargento  da  guarda  Nacional 
do  soldado  de  Artilheria,  de  quatro  pardos  e 
dous  Permanentes,  segundo  se  me  informa,  hou- 
veram muitos  outros  ferimentos,  e  alguns  graves. 

Certamente,  Ex*"^  Snr.,  se  as  denuncias  nos  não 
tivessem  previnido,  o  resultado  seria  afinal,  sem 
duvida,  o  mesmo;  porém  os  estragos  muito  supe- 
riores; pelo  que,  a  bem  da  segurança  nossa,  com- 
vinha  premiar  as  pretas  denunciantes,  dando-lhes 
a  liberdade,  se  ellas  a  não  tivessem,  ou  um  pre- 
mio rasoavel. 

As  providencias  continuão  a  ser  dadas  com 
calor,  e  por  todos  os  districtos  se  trata  de  um 
processo,  por  onde  se  possa  descobrir  os  cul- 
pados ainaa  existentes  para  em  suas  pessoas  dar 
um  exemplo  efficaz  a  esses  Africanos;  e  para 
melhor  o  conseguir,  tenho  procurado  encaminhar 
os  processos  de  uma  maneira  uniforme  c  regular. 
Depois  de  taes  successos,  é  bem  natural  que  hajão 
abusos,  e  estes  têm  existido  a  um  ponto  tal  que 
hoje  já  dão  motivos  sufficientes  a  queixas  bem 
fundadas,  pois  que  os  soldados  prendem,  es- 
pancão,  ferem,  e  mesmo  matão  aos  escravos, 
que  por  mandado  de  seus  senhores  vão  á  rua. 
Sobre  este  objecto  tenho  oíficiado  a  V.  Ex.,  e 
tenho  dado  as  providencias  a  meu  alcance. 

Presentemente  tudo  mais  está  tranquillo,  e 
teremos  tempo  de,  por  medidas  Legislativas  pro- 
vinciaes,  providenciar  de  maneira  que  não  seja 
segunda  vez  preciso  lutar  com  tal  gente,  e  muito 
menos  com  Africanos  forros,  que  quasi  todos, 
no  goso  de  liberdade,  trazem  o  tcrrctc  da  escra- 


115 


vidão,  e   não  utilisão  nada  o  Paiz  com  a  sua  es- 
tada. —  Deus  Guarde  a  V.  Ex. 

Bahia,  29  de  Janeiro  de  i835. 

Illm.  e  Exm  sr.  Presidente  da  Provincia. — 
(Assignado) — Francisco  Gonçalves  Martins^  Chefe 
de  Policia.» 


Docuiiieiilos  sobre  a  insurreição  f) 

alUm,  e  Exm.  Sr. — Exigindo  eu  hontem  da 
Gamara  Municipal  que  houvesse  de  nomear  hum 
ou  dous  peritos  para  examinar  o  estado  em  que  se 
achava  a  forca,  tive  em  resultado  a  informação 
inclusa,  á  vista  da  qual  V.  Ex.  terá  a  bondade  de 
dar  as  providencias  que  julgar  convenientes,  para 
com  a  brevidade  que  o  caso  requer  se  facão  nella 
as  execuções,  para  as  quaes  existem  já  extrahidas 
as  sentenças  que  passo  a  remettel-as  ao  Juiz  Mu- 
nicipal, para  dar  cumprimento  a  ellas  em  o  dia  que 
por  V.  Ex.  for  indicado. 

Deus  Guarde  a  V.  Ex. — Bahia,  6  de  Maio  de 
i835. — Illm.  e  Exm.  sr.  Vice-presidente  desta  pro- 
vincia.— (Assignado) — António  Simoens  da  Silva^ 
Juiz  de  direito  do  crime  e  chefe  de  policia  inte- 
rino. )) 


lnfor)nação — Nós  abaixo  assignados,  mestres 
do  officio  de  carpina,  attestamos  debaixo  de  jura- 
mento que  fomos  no  dia  de  hoje  chamados  pelo 
sr.  Inspector  das  Obras  da  Gamara  Manoel  Gon- 
çalves Dormund  para  hirmos  ao  Campo   da  Pol- 

(*)  ICxislenics  no  Archivu  Publico  lia  Bahia,  os  quacs  provam  que 
em  ii<^?  não  hovive  quem  se  prjstasjc  a  enforcar  us  africanos  con- 
demnados  a  nmriv*. 

Nota  (la    R. 


116 


vora  examinar  o  estado  cm  que  se  acha  a  forca 
onde  são  sentenciados  os  R.  R.  da  pena  ultima;  e 
com  et  feito  attestamos  que  ella  se  acha  podre  com 
todo  o  madeiramento  em  estado  de  não  poder 
servir. 

Bahia,  5  de  xMaiode  i835. — (Assignados) — Pedro 
Fernandes  e  Salurnino  Joaquim   de  Mattos. 


PARA  O  CHEFE  DE  POLICIA  INTERINO 

Em  vista  do  que  V.  S.  representou  cm  officio 
da  data  de  hontem,  tenho  ordenado  ao  tenente 
Paulo  Luiz  de  Menezes  que  mande  com  bre- 
vidade fazer  uma  nova  forca,  visto  achar-sc  a 
existente  em  estado  de  não  poder  servir. 

Deus  guarde  a  V.  mcc.  Palácio  do  Governo 
da  Bahia,  6  de  Maio  de  i835. — (Assignado)  — 
Manoel  A}itoni)    Galvão, 


Ulmo.  e  Exmo.  Snr.— Como  até  hontem  á 
noite  não  havia  individuo  algum  nas  prizoens 
para  servir  de  executor  da  justiça  c  convindo  que 
os  quatro  Rcos,  que  amanhã  vão  ser  executados, 
sotfram  a  pena  na  forca,  segundo  as  suaó  sentenças, 
lembro-mc  que,  se  se  ofterecesse  huma  quantia 
hum  pouco  avultada,  até  "2'),  ou  l^oSooo  se  acha- 
ria mesmo  iris  c.iJja>  hum  dos  prc>o^  prompto 
para  esc  tim;  levo  joiíanto  a  l(  n^idcicçío  de 
V.  cx.  para  que  no  caso  de  ser  da  sua  approvação, 
eu  communique  immedialamente  ao   carcereiro, 


117 


para  fazer  aos  presos  essa  proposição.  Deus  Guarde 
a  V.  Ex. 

Bahia,  i3  de  Maio  de  i835. — Ulmo.  e  Exmo. 
Sr.  Vice-Presidcnte  desta  Provincia. — (Assignado) 
— António  Simoens  da  Silva,  juiz  de  direito  do  crime 
e  chefe  de  policia  interino. 


PARA  O  CHEFE  INTERINO  DA  POLICIA 


Respondo  ao  officio  de  V.  iMce.  que  acabo  de 
receber  datado  de  hoje,  dizendo-lhe  que  approvo  o 
arbitrio  proposto  de  ser  offerecida  a  quantia  de 
vinte  ou  trinta  mil  réis  a  algum  dos  presos  que  se 
acham  na  cadeia  d'esta  Cidade,  afim  de  servir  de 
Executorda  Justiça,  para  que  os  4  réos  que  amanhã 
vão  ser  executados  soffram  na  forca  a.pena  segun- 
do as  suas  sentenças,  uma  vez  que  não  ha  indi- 
viduo algum  que  a  isso  se  queira  prestar,  con- 
forme V.  Mce.  representa  pelo  dito   officio. 


Deus  guarde  V. 


Mce. — Palácio  do  Governo  da 
Bahia,  i3  de  Maio  de  i835. — (Assignado) — Manoel 
António  Galvão. 


Ilbn.  Exnt,  Sr. — A\'ista  da  resposta  inclusa  do 
Carcereiro  das  Cadeias  da  Relação,  V.  Ex.  deter- 
minará o  que  for  servido. 

Deus  guarde  a  V.  Ex.— Bahia,  i3  de  Maio  de 
i835. — jilm.  e  Exm.  sr.  vice-presidente  doesta  Pro- 
vincia. -(Assignado) — Anlonio  Simoem  da  Silva^ 
Juiz  de  direito  do  crime  e  chefe  de  Policia  interino. 


118 

RESPOSTA  DO  CARCEREIRO 

Em  observância  a  portaria  de  V.  S,  passei 
a  proposta  aos  presos,  e  não  ha  quem  queira  acei- 
tar; eu  ja  fiz  o  mesmo  hoje  no  Barbalho,  e  na 
Ribeira  aos  Galés,  e  nenhum  quer  por  recompensa 
alguma,  e  nem  mesmo  outros  negros  querem  acei- 
tar, apesar  das  diligencias  que  lhes  tenho  feito  com 
grandes  promessas,  além  do  dinheiro. 

Deus  guarde  a  V.  S. — Cadeias,  i3  de  Maio  de 
i835 — (Assignado) — António  Pereira  de  Almeida j 
carcereiro. 

PARA  O  CHEF^E  INTERINO  DA  POLICIA 

Não  havendo,  segundo  V.  mcê.  me  participa 
em  seu  officio  d'esta  data,  quem  cjueira  servir  de 
executor  da  justiça  apesar  das  diligencias  que  se 
tem  feito,  ordenei  que  sejam  fusilados  os  africa- 
nos, que  têm  de  soffrer  amanhã  a  pena  de  morte, 
a  que  foram  condemnados;  o  que  participo  a 
Vmcê.  em  resposta  para  sua  intelligencia. 

Deus  guarde  a  v.  mcê. — Palácio  do  governo 
da  Bahia,  i3  de  Maio  de  i835. — (Assignado) 
-Manoel  António  Galvão. 


PARA  O  COMMANDANTE  GERAL 
DOS    PERMANENTES 

O  Vice-presidente  da  provincia  ordena  que  o 
sr.  commandante  geral  dos  permanentes  dê  as 
necessárias  ordens  para  que  sejam  fusilados 
amanhã  pelos  soldados  do  seu  corpo  os  africanos 
que  deviam  soffrer  na  forca  a  pena  de  morte  a 
que  foram  condemnados,  visto  não  haver  quem 


119 


queira  servir  de  executor  da  justiça,  apesar  das 
diligencias  que  se  tem  feito,  conforme  representa 
o  chefe   de  policia. 

Palácio    do  governo  da  Bahia,  i3  de  Maio  de 
i835. — (Assignado) — Manoel  Anloy^io  Galvão. 


Âclas  D  oMs  ein  1902 

93.-    SESSÃO    EM    18    DE    MAIO    DE    1902 

Presidência  do  Snr.  Cons,  Dr.  João  Torres 

[Continuação) 

Aos*  desoito  dias  do  mez  de  Maio  de  1902,  á 
I  hora  da  tarde,  presentes  os  sócios,  Cons."  Dr. 
João  Torres,  i"*  Secretario,  Isaias  de  Carvalho  San- 
tos, 2''  Secretario,  Capitão  Ferreira  Braga,  thesou- 
reiro,  Dr.  Alfredo  Cabussú,  Barão  de  São 
Francisco,  Professor  Elias  Nazareth,  Coronel 
Gonçalo  de  Athayde,  António  Gonçalves  Neves, 
Henrique  Praguer,  Engenheiro  Luiz  Imbassahy 
da  Silva,  Nicolau  Tolentino  Carneiro  da  Cunha, 
Comm.  Salvador  Pires,  Drs.  Guilherme  Foeppel, 
Braz  do  Amaral,  Comm.  Joaquim  Manoel  de 
Sant'Anna,  Damasceno  Vieira  e  Pharm.  Alfredo 
Accioli,  foi  declarada  aberta    a  sessão. 

F^oi  lido  o  expediente,  que  constou  do  seguinte: 
Cartão  do  Dr.  João  Evangelista  de  Castro  Cer- 
queira, enviando  cem  mil  réis  por  ordem  do  Ge- 
neral Dr.  Dionysio  Evangelista  de  Castro  Cer- 
queira para  auxilio  as  despezas  do  Instituto,  offerta 
que  é  recebida  com  especial  agrado,  e  mandou-se 
agradecer:  Carta  convite  dos  alumnos  da  5"  serie 
medica  para  o  «Instituto»  assistira  sessão  fúnebre, 
cm  homenagem  á  memoria  do  pranteado  pro- 
fessor cathedratico  da  «Faculdade  de  Medicma», 
Dr.  João  Agrippino  da  Costa  Dória,   declarando 

16 


122 


o  Snr.  presidente  que  havia  designado  o  socIo, 
pharmaceutico  Accioli  do  Prado,  para  representar 
o  «Institutos;  Carta  convite  do  Conselho  directório 
do  «Grémio  Liiterario»  para  o  oInstituU'n>  se  íiuer 
representar  no  dia  20  do  corrente,  as  lohorasda 
manhã,  na  soicmnidade  da  missa  e  benção  da  nova 
.bandeira  e  ás  8  horas  da  noite  na  sessúo  magna 
litteraria,  actos  estes  que  váo  ser  realisados  em 
commemoração  do  42."  anniversario  da  fundação 
dessa  instituição. 

Offlicios:  do  Presidente  da  Associação  Com- 
mercial  desta  cidade,  remettendo  um  exemplar 
do  relatório  dos  trabalhos  da  directoria  anterior; 
do  Snr.  Vice  Cônsul  da  Hespanha,  communicando 
que  fora  designado  o  dia  17  do  andante  para  ce- 
lebração da  festa  nacional  pela  maioriclade  de 
Kl-Rci  D.  Affí^nsoXlIi,  devendo,  por  isso,  ser 
içado  no  consulado  o  respectivo  pavilhão;  do  i**. 
Secretario  da  Rencticencia  Caixeira),  enviando  a 
relação  nominal  dos  novos  funccionarios  eleitos 
para  o  anno  social  de  1902;  do  sócio  Dr.  José 
António  Costa,  engenheiro  civil,  remettendo  uma 
caixinha  com  100  moedas  de  vários  paizes,  se- 
gundo a  relação  que  tam-bem  remette,  satisfa- 
zendo, assim,  seu  desejo  de  contribuir  para  o 
augmento  da  colleção  que  o  «Instituto»  já  possue; 
do  sócio  Cap.  de  mar  e  guerra  Alves  Camará 
offerecendo  4  moedas,  sendo  i  de  ouro  e  3  de 
prata,  adquiridas  em  Tanger,  quando  comman- 
dante  do  crusador  Benjamin  Constant. 

Pelo  Cons.  Presidente  foi  mandado  respon- 
der a  todos  e  agradecer  as  valiosas  offertas  feitas  ao 
«Instituto»,  e  designou  os  sócios  Damasceno  Vieira 
e  Eng.  Imbassahy  da  Silva  para  representarem 
o  «Instituto»  nas  festas  do  «Grémio  Litterario». 
Pelo  mesmo  presidente  foi  noticiado  o  fallecimento 
dos  sócios  Drs,  Adolpho  Frederico  lourinho  ç 


123 


José  de  Oliveira  Leite,  cuja  dedicação  ao  «Insti- 
tuto» era  notória;  ao  mesmo  tempo  propoz  a 
inserção  na  acta  de  um  voto  de  pezar,  o  que  foi 
approvado. 

Em  seguida  passou-se  a  discussão  do  Orça- 
mento da  receita  e  despeza  para  o  corrente  anno, 
de  1902,  que  é  approvado  com  emendas. 

O  projecto  de  orçamento  assim  approvado  é 
o  seguinte: 

RECEITA 

Art  i/: 

Jí  i.*"  Subvenção  estadoal .      .      .      .       3:oooSooo 

5J  2/  Idem  federal.     .....       5:ooo$ooo 

2  3."  Idem   municipal.      .      .      •      .  5oo$ooo 

J^  4.**  Idem   de   exercicios    anteriores 
não  recebidas  a  saber: 

a)  Subvenção  estadoal 7:5ooSooo 

b)  Idem  municipal i:oooSooo 

c)  Idem  federal. i:25oSooo 

?;  5.**  Mensalidades  de    147 

sócios  effectivos 1:7648000 

g  6."  Idem    atrasados.      .      .      .      .  8268000 

JJ  7.**  Jóias    de  sócios 3oo8ooo 

JJ  8."  Donativos S 

í{  9.**  Remissão  de  sócios.      ...  S 
íj   io.°  Producto  de  benefícios 

e  concertos S 

21:1408000 

DESPEZA 

Art  2.": 

^   I."  Juros  e  amortisação 

do  debito  hypothecaVio.     .      .      .      11:0008000 
g  2."  Seguro  do  prédio ii588oo 


124 


g  3.^  Pagamentos  a  credores, 

por  contas 7:7276740 

Ao  Guarda-livros 600S000 

g  4/ Gratificação  ao  Amanuense.     .  3oo$ooo 

g  5.0  Ordenados,  sendo: 

a)  Do  porteiro 6008000 

b)  Do  servente 3oo$ooo 

c)  Do  G.  livros,  gratificação.  .  S 

d)  Do  cobrador  20  7o  com  missão    .  S 
g  6/  Impressão  da  Revista,   2   nú- 
meros-1902.      .      .      .      .      .      .        KOOOSOOO 

g  7.*"  Despezas  geraes,  a  saber: 

a)  Com  a  secretaria,  expe- 
diente e  sellos 3oo$ooo 

b)  Agua.      .      • 108S000 

c)  Carretos  e  despezas  miúdas    .     .  ioo$ooo 
g  S.^^Importancia  da  reclamação  da 

restituição  de  Caução 

de  Júlio* Telles  da  á".  Lobo.  r.oooSooo 

23: 1 5 1S640 
Bahia,  20  de  Abril  de  1902. 

A  Commissão. — (Assignados) — S.  Pires  de  Car- 
valho e  Albuquerque. — A  Cabussú. 

Sobre  esse  projecto  de  orçamento  da  despeza 
fallaram  o  thesoureiro,  Capitão  Ferreira  Braga,  o 
Dr.  Cabussú  e  o  Coronel  Gonçalo  de  Athayde,  pro- 
pondo este  o  adiamento  da  discussão,  em  vista 
da  emenda  apresentada  pela  Commissão  e  das 
ponderações  feitas  pelo  Thesoureiro,  emenda  que 
é  do  theor  seguinte  : 

«Supprima-se  o  logar  de  servente  si  foraugmen- 
tado  para  780S000  o  ordenado  do  amanuense, 
até  que  melhorem  as  condiç(5es  pecuniárias  do 
«Instituto».  A  commissão  de  Fazenda— (Assignados) 
S.  Pires  de  Carvalho  e  Albuquerque. — A.  Cabussú. 


i2r> 


Esta  proposta  foi  apresentada  depois  dest^outra 
lida  pelo  Snr.  Thesoureiro: 

((Emenda aos  ?^?/ 4/  e  5/doArt.  2.Miga-se:  Or- 
denado do  amanuense  20  7o  sobre  960S  768S000. 

Ordenado  do  porteiro  20  0/0  sobre  720S000 
576.S000)).  Sala  das  sessões  do  ((Instituto  Geogra- 
phico»,  em  18  de  Maio  de  1902. — (Assignados) — 
Francisco  Braga.-    João  Torres. — Braz  do  Amaral. 

Sendo  regeitada  a  proposta  de  adiamento,  fal- 
laram  ainda  os  sócios  Damasceno  Vieira,  Isaias 
Santos  e  Dr.  Cabussú,  que  apresentou  o  seguinte 
artigo  additivo  ao  projecto: 

Artigo  additivo:  (( Fica  a  mesa  auctorisada  a 
((transigir  com  a  loteria  que  tem,  de  modo  a  ser 
paga  a  divida  fluctuante  do  ((Instituto».  A  Com- 
missão  (Assignados)— A.  Cabiissú. — S.  Pires  de 
Carvalho  c  Albuquerque .  y> 

Encerrada  a  discussão,  foi  approvado  o  pro- 
jecto de  orçamento  da  despeza,  salvo  as  emendas, 
as  quaes  foram  também  approvadas,  bem  como  o 
artigo  additivo. 

Em  seguida  foram  lidos  diversos  pareceres 
favoráveis  á  admissão  de  sócios  effectivos  e  cor- 
respondentes, sendo  por  escrutinio  secreto  appro- 
vados  para  sócios,  effectivos  Drs.  Américo  Pmto 
Barreto  Filho,  advogado  e  deputado  estadoal;  José 
Gonçalves  de  Castro  Cincurá,  advogado  e  depu- 
tado estadoal;  (íenesio  Sampaio  Neves,  enge- 
nheiro; José  Sabino  Pereira  Filho,  advogado;  Ti- 
bério de  Figueiredo,  advogado  ;Dr.  Bernardo  José 
Jambeiro,  medico  e  deputado  estadoal;  Padres 
Manoel  Bemvindo  de  Salles,  reitor  do  ((CoUegio 
dos  Orphãos  de  S.  Joaquim»  e  Francisco  Fer- 
nandes Badaró;  Pharmaceutico  Clemente  Ta- 
najura Guimarães;  Coronel  Francisco  de  Mello, 
capitalista;  Herhrique  Cancio,  jornalista,  e  profe- 
sor  Cincinato  Ricardo    Pereira  da  F^ranca,  todos 


12G    . 

residentes  n'esta  Capital;  e  para  sócios  correspon- 
dentes: Drs.  Alberto  Santos  Dumont,  brazileiro, 
residente  em  Paris;  Dr.  António  Augusto  de  Lima, 
director  do  Archivo  Publico  Mineir©,   residente 
em  Bello  Horisonte;   Dr.  Von  Ihering,  Director 
do  Museu  de   S.  Paulo,  (Ipiranga);  Alberto  Lóí- 
gren,  Director  do  «Horto  Botânico»  Cantareira, 
(S.  Paulo) ;  Dr.  José  de  Campos  Novaes,  medico ; 
César  Bierremback,  professor  dó  Gymnasio,  am- 
bos de  Campinas;    Américo    Werneck,    literato 
e  agricultor,  em  Lambary,  Minas-Geraes;  Pedro 
de  Queiroz  e  António  Bezerra  de  Menezes,  mem- 
bros do  «.Instituto  Histórico  e  da  Academia  Cea- 
rense», ambos  do  Ceará;  D.  Blas  Vidal,  politico, 
litterato  e  ex-ministro  oriental  no  Rio;  D.  Adol- 
pho  Basãnez,  Cônsul  geral  do  Uruguay  no  Rio 
de  Janeiro;    Coronel  António  Gomes   da  Silva 
Chaves,  engenheiro  militar;  Padre  Dr.  Júlio  Ma- 
ria, litterato,   residente  na  Capital  Federal;  Max 
Fleius,  litterato  e  2°  secretario  do  «Instituto  His- 
tórico e  Geographico  Brasileiro»;  José  Ribeiro  do 
Amaral,   auctor  de  diversos  trabalhos  históricos 
ja  publicados,    residente  na  Cidade  de  S.  Luiz 
do  Maranhão;  Demétrio   Pires  de   Araújo,   jor- 
nalista, residente  na  Feira  de  SanfAnna,  e  Ro- 
mario  ^Martins,  litterato,  residente  em  Curytiba 
(Paraná).  Foi  também  approvado  para  sócio  effe- 
ctivo  o  litterato  bahiano  Francisco  Xavier  Mar- 
ques, residente  n^esta  Cidade. 

Nada  mais  havendo,  levantou-se  a  sessão. 

Salvador  P.  de  Carvalho  e  Albuquerque.— João 
N.  Torres. — /saías  de  Carvalho  Santos. 


127 

94'.  SESSÃO  EM  25  DE  MAIO  DE  1902 

Presidência  do  7".  Vice-Presidentc^  Dr.  Satyro  Dias 

Aos  25  de  Maio  de  1902,  á  i  hora  da  tarde, 
presentes  os  sócios:  Cons.  Dr.  João  Torres,  Drs. 
Satyro  Dias,  Reis  Magalhães,  Alfredo  Cabussú, 
Joaauim  Pires  Muniz  e  Manoel  Pedro  de  Re- 
zende, Professores  Borges  dos  Reis  e  Elias  Naza- 
reth,  Coronéis  Martiniano  de  Almeida  e  Gonçalo 
de  Athayde,  Aloysio  de  Carvalho,  Pharmaceu- 
ticos  Joaquim  Manoel  de  Sant'Anna  e  Luiz  Fil- 
gueiras,  Cap.™  Ferreira  Braga,  Manoel  Quirino, 
Gonçalves  Neves  e  Comm.  Salvador  Pires,  foi 
aberta  a  sessão,  servindo  de  2.®  Secretario  o  sup- 
plente  Aloysio  de  Carvalho,  que  leu  a  acta  da 
sessão  do  dia  3  de  Maio,  sendo  ella  approvada 
sem  debate. 

O  expediente  constou  do  seguinte': 

O fficios:  da  directoria  da  «Associação  dos  Em- 
pregados no  Commercio»,  communicando  a  elei- 
ção e  posse  de  seus  novos  funccionarios  ;  e  do  Dr. 
Intendente  municipal  convidando  o  «Instituto»  a 
se  fazer  representar  na  missa  e  procissão  de  Cor- 
pus'Christi  a  29  do  corrente.  O  Snr.  Presidente 
nomeou  os  seguintes  sócios  para  esse  fim:  Cons. 
Dr.  João  Torres,  Cónego  Manfredo  de  Lima  e 
Dr.  Isaias  de  Carvalho   Santos. 

Cartas:  do  sócio  Cap."'  de  mar  e  guerra  An- 
tónio Alves  Camará,  offer^ecendo  quinze  moedas 
antigas,  de  cobre,  e  vinte  seis  volumes  de  obras 
diversas,  de  sua  bibliotheca  particular,  conforme 
a  relação  feita  em  nota  annexa;  do  sócio  Cap."' 
Manoel  Quirino,   offereçen^Q  três  medalhas    dg 


128 


Campanha  do  Paraguay,  pertencentes  ao  Te- 
nente-coronel  Feliciano  Pimentel,  do  54  bata- 
lhão de  voluntários;  do  Provedor  do  «CoUegio  de 
São  Joaquim»,  offerecendo  para  o  museu  do  «Ins- 
tituto», uma  das  duas  bandeiras  do  regimen  impe- 
rial, existentes  n'aquelle  Collegio. 

O  Cons.  Dr.  João  Torres,  pedindo  a  pala- 
vra disse  que  na  ultima  sessão  deixara  de  fazer 
sciente  que  o  «Instituto»  encarregara  os  consócios 
Drs.Braz  do  Amaral  e  Innocencio  Munôz  de  Àraujo 
Góes,  de  organisarem  as  modernas  epheme- 
rides  da  Bahia,  trabalho  de  alta  necessidade,  por- 
quanto o  que  ha  a  respeito  termina  em  período 
já  distante;  e  aproveitando  a  opportunidade,  pro- 
punha que  em  attenção  a  valiosissima  oíferta  de 
cento  e  cincoenta  volumes  de  obras  diversas  feita 
pelo  nosso  conterrâneo,  Dr.  Virgilio  Cardoso  de 
Oliveira,  actualmente  Secretario  do  Interior  no 
Estado  do  Pará,  lhe  fosse  remettido  o  diploma 
de  sócio  correspondente  do  «Instituto»,  indepen- 
dente de  contribuição  pecuniária,  como  permittem 
os  Estatutos;  o  que  foi  unanimemente  approvado. 

O  Snr.  Presidente  Dr.  Satyro  Dias,  referindo-se 
em  phrase  eloquente  á  morte  trágica  do  inventor 
do  balão  Pax,  e  ao  anniversario  da  grande  ba- 
talha do  Tuyuty,  propoz  que  fossem  insertos  na 
acta,  um  voto  de  pezar  pelo  fallôcimento  do  illus- 
tre  aeronauta  brazileiro  Dr.  Augusto  Severo,  dan- 
do-se  ao  irmão  d'este,  o  Snr.  Senador  federal, 
Dr.  Pedro  Velho,  sciencia  d'cssa  resolução  para 
que,  como  chefe  da  família  enlutada,  acceite  c 
faça  transmittir  a  todos  os  parentes  do  inditoso 
compatriota  os  sinceros  sentimentos  do  «Instituto», 
e  bem  assim  uma  menção  congratulatoria  ao 
exercito  nacional  pelo  facto  heróico  que  se  reme- 
mora na  notável  data  de  24  de  Maio,  sendo  ambas 
as  propostas  approvadas. 


129 


Em  seguida,  declarado  o  fim  principal  da  ses- 
são— a  eleição  da  nova  mesa  administrativa  e  das 
diversas  commissões — independente  do  numero 
de  sócios  presentes,  em  virtude  de  ser  esta  a  se- 
gunda convocação  feita  para  isso,  procede-se  a 
eleição,  na  qual  tomou  parte  o  2/  Secretario  que 
em  tempo  compareceu,  sendo  apurado  o  se- 
guinte resultado: 

Para  presidente :  Cons.  Dr.  Salvador  Pires  de 
Carvalho  e  Albuquerque,  18  votos;  para  1/ vice- 
presidente,  Dr.  Satyro  de  Oliveira  Dias,  17  votos 
e  Cons.  Dr.  João  Torres,  i  voto;  para  2."  vice-pre- 
sidente, Cons.  Dr.  Pedro  Mariani,  18  votos;  para 
I."  Secretario,  Cons.  Dr.  João  Nepomuceno  Tor- 
res, 17  votos  e  Dr.  Reis  Magalhães,  i  voto;  para 
2^  secretario,  Isaias  de  Carvalho  Santos,  17  votos 
e  Coronel  Gonçalo  Pereira,  i  voto;  para  supplentps 
de  secretario,  Aloysio  de  Carvalho,  17  votos,  Dr. 
Joaquim  dos  Reis  Magalhães,  17  votos  e  pharma- 
ceutico  Accioli,  2  votos;  para  tnesoureiro,  Can." 
Francisco  Gomes  Ferreira  Braga,  17  votos  c  Eloy 
Guimarães,  1  voto;  para  Orador  Dr,  Braz  Herme- 
negildo do  Amaral,  18  votos;  para  supplente  de 
orador,  Cons.  Dr.  Filinto  Justiniano  Ferreira  Bas- 
tos, 18  votos. 

Para  comporem  as  diversas  commissões  fo- 
ram eleitos,  por  maioria  de  votos: 

Commissão  de  admissão  de  sócios:  Eloy  de 
Oliveira  Guimarães,  Coronel  Gonçalo  de  Athayde 
Pereira  e  Pharmaceutico  Commeiidador  Joaquim 
Manoel  de  SanfAnna. 

Commissão  de  Fundos  e  orçamento:  Dr.  Al- 
fredo César  Cabussú,  Horácio'  Urpia  Júnior  c 
Commendador  Salvador  Pires  de  Carvalho  e  Al- 
buquerque. 

17 


1.30 


Commissão  de  Redacção  da  Revista:  Cons.  Dr. 
João  N.  Torres,  c  Drs!  Innocencio  Munoz  de 
Araújo  Góes  e  Joaquim  dos  Reis  ^Magalhães. 

Commissão  de  manuscriptos  e  documentos: 
Cónego  Manfredo  Alves  de  Lima,  Cons.  Dr.  Filinto 
Justiniano  Ferreira  Bastos  e  Dr.  Kgas  Moniz  Bar- 
rctto  de  Aragão. 

Commissão  de  Geographia,  historia  e  ethno- 
graphia:  Dr.  Francisco  Marques  de  Góes  Calmon, 
Professor  António  Alexandre  Borges  dos  Reis  c 
Pharmaceutico  Luiz  António  Filgueiras. 

Commissão  de  cstatistica  e  demographia:  Pro- 
fessor Elias  de  Figueiredo  Nazareth,  e  Drs.  Aurélio 
Pires  de  Carvalho  e  Albuquerque  c  Júlio  da  Gama. 

Commissão  de  topographia  e  archcologia:  En- 
genheiro João  Pimenta  Bastos,  Professor  Fran- 
cisco Torquato  Bahia  da  Silva  Araújo  c  Pharma- 
ceutico Accioli  do  Prado. 

•  Commissão  de  philatclia,  numismático  c  cerâ- 
mica: Dr.  Guilherme  Conceição  Fccppel,  Capitão 
Manoel  Raymundo  Quirino  c  Francisco  Ferraro. 

Commissão  de  mappas,  retratos  c  cartas  gco- 
graphicas:  Cap.'"  de  mar  c 'guerra  António  Alves 
Camará,  Dr.  José  Júlio  de  Calasans  e  Alfredo 
Octaviano  Soledade. 

Commissão  de  biographias:  Drs.  Manoel  Joa- 
quim de  Souza  Britto,  Guilherme  Pereira  Rebello 
e  Damasceno  Vieira. 

Foram  proclamados  c  empossados  nos  respe- 
ctivos cargos  os  sócios  eleitos  que  se  achavam  pre- 
sentes. 

Enada  mais  havendo  a  tratar-se,  foi  encerrada 
a  sessão. 

Approvada  em  sessão  de  14  de  Setembro  de 
1902.  —  Salrfulítr  P/7*c's  (h*  Cnrrallio  r  Alhiuiner- 
qr/c, — João  Nrponiuceno  Torrei. ~  -Isaías  de  Carvallio 
San/os. 


131 


93.»  SESSÃO  FM  14  DE  SETEMBRO 
DE   1902 

Presidência  do  Exm,  Snr.  Cons.  Dr.  Salvador  Pires 

Aosquatorze  dias  do  mezde  Setembro  de  1902, 
no  salão  do  Instituto,  á  i  hora  da  tarde,  presentes 
os  sócios  Cons.  Drs.  Salvador  Pires,  presidente,  e 
João  Torres,  i  ."*  Secretario,  Drs.  Braz  do  Amaral  c 
Alfredo  Cabussú,  Engenheiro  Luiz  Imbassahy, 
Padre  Luiz  da  França,  Professores  Elias  Nazarcth 
e  Santos  Sá,  Comms.  Pharm.  Joaquim  Manoel  de 
Sant'Anna  e  Salvador  Pires,  Capitão  Ferreira 
Braga,  Eloy  Guimarães  c  Isaias  Santos,  foi  aberta 
a  sessão,  sendo  lidas  e  approvadas,  sem  debate,  as 
actas  das  sessões  anteriores  de  18  e  25  de  Maio  do 
corrente  anno. 

Em  seguida  foi  lido  o  expediente,  que  constou 
do  seguinte: 

Officios :  dos  Drs.  Secretario  do  Interior  c  Inten- 
dente Municipal,  c  do  Presidente  da  «  Associação 
Commercial»,  agradecendo  a  communicação  da 
eleição  e  posse  dos  novos  funccionarios  do  Instituto 
eleitos  para  o  anno  social  de.  1902  a  1903 ;  dos 
Secretários  das  Sociedades  «Grçmio  dos  Internos 
dos  Hospitacs  »,  «  Club  Commercial  do  Joazeiro  », 
«Sociedade  de  Ethnographia  e  Civilisaçãodosln- 
dios»,  de  S,  Paulo,  «  Beneficente  Académica»,  c 
«  União  Philantropica  dos  Artistas»  communicando 
a  eleição  de  suas  directorias  para  o  mesmo  anno 
social- 1902  a  i9o3;datf  Sociedade  CiVculoCatholico 
Apostólico  Romano»,  desta  Cidade,  communi- 
cando sua  installação  e  enviando  os  Estatutos  ;  do 
sócio  Coronel  Francisco  Félix  de  Araújo,  com- 
municando haver  transferido  sua  residência  para 
a  Capital  Federal;  do  biblioihecario  da  «  Faculdade 
de  Direito»    do  Recife,   reclamando  para  a  sua 


182 


collccçao    vários   numerps  da   Revista,    ao    que 
mandôu-se  attender. 

Cartas:  do  Dr.  PeJro  Velho  agradecendo  os 
votos  de  condolências  que  o  «  Instituto  »  cnviou-lhe 
pelo  fallecimento  de  seu  irmão,  o  Dr.  Augusto 
Severo;  do  Sr,  Karlos  Weber  olferecendo  quatro 
moedds  de  cobre  antigas  e  uma  medalha  com- 
memorativa  do  3/  Centenário  de  Luiz  de  Camões; 
do  sócio  Capitão  de  mar  c  guerra  Alves  Camará, 
offerecendo  para  a  bibliothcca  do  Instituto  ii5 
volumes  de  varias  obras  de  sua  bibliotheca  parti- 
cular;  do  vice-presidente  da  Companhia  de  loterias 
nacionaes  do  Brazil,  solicitando  a  cooperação  do 
"  Instituto  »  sobre  o  projectoapresentado  na  Camará 
dos  Deputados  para  a  extincção  das  loterias  nacio- 
naes, de  que  auferem  recursos  diversos  institutos 
sociaes,  pios  e  beneficentes;  do  sócio  Cons.  Fran- 
cisco Mariaí  Sodré  Pereira,  offerecendo  para  o 
archivo  do  «  Instituto  »  vários  manuscriptos  que 
acompanharam  á  Petição  de  Graça  e  Perdão  que 
o  Dr.  Francisco  Sabino  Alvares  da  Rocha  Vieira 
encaminhou,  em  1834,  á  Regência  Permanente 
sobre  o  assassiniodo  Alferes  José  Joaquim  Moreira 
no  dia  7  de  Novembro  de  i833,  n'esta  Capital,  e 
bem  assim  vários  periódicos  do  tempo  aa  Re- 
gência, de  cuja  lucta  politica  o  delicio  indultado 
originou-se ;  do  cidadão  Virgilio  Pires  de  Carvalho, 
offerecendo  varias  obras,  collecçces  de  leis,  equatro 
projectis  de  guerra  que  pertenceram*  a  seu  pae  o 
Major  Salvador  Pires  de  Carvalho  e  Aragão;  do 
académico  Joio  Carlos  Vicente  Vianna,  offere- 
cendo á  guarda  do  «  Instituto  »  uma  obra  manus- 
cripta  sobre  os  tempos  primitivos  da  Bahia,  es- 
pecialmente da  Villa  de  Jaguaripc,  trabalho  de 
seu  fallecido  pae,  Dr.  Francisco  Vicente  Vianna, 
com  autòrisação  para  ser  publicada  na  Revista, 
salvo,  porém,  oseudireitode  propriedade,  devendo 


133 


os  autographos  scr  reclamados  do  Sr.  Gentil,  con- 
tinuo da  Inspectoria  do  Ensino,  ao  g[ual  se  acham 
confiados ;  do  i  .**  Secretario  do  <^  Instituto  Histórico 
e  Geographico»  do  Rio  Grande  do  Norte,  com- 
municando  a installaçaodo  mesmo « Instituto  »  a  1 5 
de  Junho  ultimo.  Mandou-se  agradecer  as  ofFertas 
recebidas. 

Finda  a  leitura  do  expediente  o  Snr.  Conselheiro 
Presidente  agradeceu  sua  reeleição  e  communicou 
que  fora  acceito  sócio  correspondente  do  «Instituto 
Histórico e  Geographico  Brasileiro», distincção  essa 
que,  disse,  foi  devida  em  grande  parte  ao  valimento 
do  nosso  «Instituto»,  e  leu  diversas  peças,  por  cópia, 
da  acta  da  sessão  em  que  foi  admittido  em  visita 
no  dia  4  de  Julho  do  corrente  anno.  Dando  em 
seguida,  conhecimento  ao  «Instituto»  do  falleci- 
mento  do  sócio  eífcctivo  Dr.  Pedro  Moniz  Leão 
Velloso,  cujo  elogio  fez,  propõe  que  se  insira  na 
acta  um  voto  de  pezar,  o  que  foi  approvado. 

O  Dr.  Braz  do  Amaral,  em  nome  da  commissão 
que  levou  a  eífeito  o  concerto  vocal  e  instrumental, 
em  beneficio  do  «Instituto»,  realisado  no  dia  27 
de  Agosto  ultimo  e  organisado  pela  Exm."  Sra. 
D.  Maria  Elisa  Valente  Moniz  de  Aragão,  illustre 
consócia,  leu  o  seu  relatório,  do  qual  consta  que  a 
receita  até  então  arrecadada  eleva-se  a  2:424Sooo, 
faltando  receber  cerca  de  3ooSooo,  e  que  a  despeza 
importa  em  462^302  conforme  os  documentos 
justificativos  que  apresentava;  e  declarou  que 
acceitava  a  explicação  dada  pelo  Dr.  Cabussú  sobre 
o  offerecimento  de  40S000  feito  pelos  officiaes  de 
rnarinha  que  compareceram  ao  concerto,  oífere- 
cimento  todo  espontâneo,  pois  estavam  munidos 
de  bilhetes  para  cadeiras,  oíferecidos  pelo  Dr. 
António  Muniz. 

Pelo  Snr.  Conselheiro  Presidente  foi  proposto 
que  se  inserisse   na  acta  um  voto  de  louvor  á 


134 


com  missão  pelo  modo  por  que  se  desempenhou  do 
encargo,  o  que  foi  unanimemente  approvado. 

Foram  lidas  duas  propostas:  uma,  de  sócios, 
que  foi  rcmettida  á  commissão,  e  outra,  assignada 
pela  mesa,  para  que,  de  accordo  com  o  art.  i3,  g  2" 
dos  Estatutos,  fosse  elevada  a  sócia  honorária  a 
sócia  eífectiva,a  Exm."Sra.  D.  Maria  Elisa  Valente 
Moniz  de  Aragão;  e,  resolvendo  o  «Instituto»  que 
esta  proposta  fosse  submetiida  á  votação  inde- 
pendente de  ir  á  commissão,  foi  unanimemente 
approvada. 

Nada  mais  havendo  a  tratar,  foi  encerrada  a 
sessão. 

Approvada  em  sessão  de  19  de  Outubro  de  1902. 
— Salvador  Pires  de  Carvalho  e  Albuquerque. — João 
l^epomuceno  Torres.  —  Isaías  de  Carvalho  Santos 


OFFICIO    DO    CONSELHEIRO 
FRANCISCO  SODRÉ 

«Exm.  sr.  conselheiro  desembargador  Salva- 
dor Pires  de  Carvalho  e  Albuquerque,  digno  pre- 
sidente do  «Instituto  GeograpHico  e  Histórico  da 
Bahia». — E'  bem  conhecido  c  deve  estar  ainda  bem 
vivo  á  memoria  de  nossos  concidadãos  daquella 
epocha  e  dos  da  actual  a  quem  tenha  chegado  a 
tradição,  o  facto  que  occupou  então  a  attenção 
inteira  da  cx-provincia,  hoje  Estado  da  Bahia, 
succedido  cm  y  de  novembro  de  i833  entre  o  dr. 
Francisco  Sabino  Alvares  da  Rocha  Vieira  e  o 
alferes  de  1."  linha  José  Joaquim  Ribeiro  Moreira, 
quando  este,  ao  enfrentar  aquelle  á  porta  do  Paço 
Municipal,  o  aggrediu  e  otfendeu  com  um  instru- 
mento aviltante  em  represália  a  injuria  igual  que 
dias  antes  (3o  de  outubro  do  mesmo  anno)  havia 
inflingido  em  seu  irmão  Vicente  Ribeiro  Moreira; 


135 


O  que  talvez  não  seja  assaz  conhecido,  ou  já 
esteja  talvez  esquecido,  foi  a  defeza  documentada 
e  justificada  que  acompanhou  a  Petição  de  Graca 
e  perdão  que  o  dr.  Sabino  encaminhou  em  18^4 
a  Regência  Permanente,  que  a  deferiu  indultan- 
do-o  do  delicto. 

Sabino,  recorrendo  das  Justiças  desta  capital 
para  as  da  então  villa  da  Cachoeira,  foi  ali  condem- 
nado  por  sentença  do  jury  de  29  de  julho  de  1834 
a  pena  de  6  annós  de  prisão  com  trabalho  e  mais 
o  augmento  do  art.  49  do  Código  do  Processo. 

Desta  sentença  interpoz  elle  Recurso  de  Graça, 
sendo  por  decreto  de  3  d:  outubro  de  1834  com- 
mutada  a  pena  em  igual  tempo  de  degredo  para 
á  ex-provincia  do  Rio  Grande  do  Sul;  reconside- 
rado, porém,  o  Recurso,  foi  por  decreto  de  7  de 
novembro  de  i834  concedido  o  perdão  puro  e 
simples,  mandando  ficar  de  nenhum  effeito  o  de- 
creto anterior. 

Foi  referendário  deste  o  notaveL  estadista  Au- 
reliano  de  Souza  Oliveira  Coitinho,  depois  Vis- 
conde de  Sepetiba,  que  tanta  influencia  teve  nos 
fastos  políticos  do  paize  passou. por  ser  o  creador 
e  chefe  de  um  partido  auíico  ao  tempo  da  Maiori- 
dade, e  alguns  annos  depois  gosou  ae  enorme  va- 
limento e  confiança  junto  do  ex-imperador  e  de 
toda  sua  corte. 

O  delicto  indultado  tirou  sua  origem  nas  des- 
avenças das  lutas  da  politica  encandescente  da- 
quelles  tempos  da  Regência  entre  os  periódicos 
Inve:itigailor  Brasileiro ^  a  favor  e  da  redacção  de 
Sabino,  e  do  Jornal  do  Commcrcio,  contra,  e  da  re- 
dacção de  Vicente  Moreira,  irmão  da  victima. 

O  [aveM.iqador,  sustentava  a  Regência  com  to- 
dos os  consectarios  da  abdicação  de  7  de  abril. 
O  Jornal  do  Coinmcrcin^  defendia  a  Restaura- 


136 


ção  do  i,*"  imperador,  a  cujo  partido   se  deu  o 
appeliido  de  Caramiirn. 

Similhantes  papeis  me  parecem  de  algum  va- 
lor á  chronica  aa  Bahia  por  se  referirem  de  perto 
á  vida  particular  de  um  homem  que  teve  parte 
proeminente  nos  seus  acontecimentos:  vindo  a  ser 
e  tornar-se  o  principal  factor  da  Revolução  de  7 
de  novembro  de  loSy,  movimento  mais  accen- 
tuado  do  espirito  e  acção  revolucionaria  e  demo- 
crática, que  se  deu  na  ex-provincia,  e  quiçá,  em 
todo  o  resto  do  ex-Imperio,  com  excepção  do  Rio 
Grande  do  Sul. 

O  «Instituto  Geographico  e  Histórico  da  Bahia» 
devendo  ser  o  repositório  de  toda  sua  historia  po- 
litica, commercial  e  social,  e  de  suas  chronicas, 
aos  seus  archivos,  supponho,  devera  ser  recolhidos 
os  documentos  originaes  e  authenticos  que  as  com- 
provem, como  esses  a  que  me  venho  reportando 
e  que,  como  um  dos  seus  mais  obscuro.'»  consócios, 
tenho  a  satisfação  de  olfcrecer-lhe. 

Desvaneço-me  de  ser  com  particular  estima  e 
elevada  consideração  de — V.  ex.  amigo,  patrício, 
afFectuoso  e  constante  admirador. — Conselheiro  V*'. 
M.  Sodré  Pereira. f> 


Ooncerto  vooal  e  instrumental 

«Sentimos  ainda  resoar-nos  deliciosamente  o 
que  ouvimos  no  concerto  hontem  realisado  em 
beneficio  do  Instituto  Geographico  e  Histórico  da 
Bahia^  no  festival  organisado  peia  actividade  c 
pelo  talento  da  exma.  sra.  d.  Maria  Elisa  Valente 
Moniz  de  Aragão,  distincta  esposado  illustre  lite- 
rato bahiano,  dr.  Egas  Moniz  Barretto  de  Aragão 
{Pethion  de  Villar). 


i:í7 


E'  sob  a  impressão  do  que  a  musica  alli  nos 
proporcionou,  de  emocionante  e  de  indefinivel, 
que  alTirmamos  ter  assistido  a  um  raro  aconteci- 
mento musical,  summamente  honroso  para  o  nosso 
meio  artístico. 

A  professora  laureada — mentalidade  superior, 
consagrada  ao  que  a  arte  produz  de  harmoniosa- 
mente bello — a  sempre  festejada  pianista  d.  Maria 
Klisa  enlevou  o  auditório  em  todas  as  peças  con- 
fiadas á  sua  delicadíssima  interpretação  *e  execu- 
ção: no  concerto  de  Chamínade  a  dois  pianos,  com 
o  dístincto  professor  Narciso  Fígueras;  no  grande 
capricho  hespanhol  do  compositor  polaco  Moszk- 
owskí — peça  de  magnifico  efíeito,  executada  pela 
:>rimeira  vez  na  Bahia;  no  grande  trio  de  Lachner 
oara  piano,  violino  e  violeta  e  na  Arle>iienne^  de 
/iizet,  tocada  a  quatro  mãos,  com  sua  graciosa  dis- 
cípula, senhorita  Angelina  Rebello,  filha  do  dr. 
Guilherme  Pereira  Rebello,  lente  cathedratico  da 
Faculdade  de  Medicina. 

As  enthusiastícas  palmas  que  a  festejaram  fo- 
ram justas  homenagens  ao  seu  talento  tantas  vezes 
comprovado  de  modo  brilhante. 

A  joven  Angelina  Rebello,  pela  firmeza  da  exe- 
cução, revelou  apreciável  estudo  e  mostrou  dis- 
posições naiuraes  de  acompanhar  de  perto  a  gloria 
de  sua  professora,  o  que  conseguirá  com   inteira 

dedicação  á  arte. 

> 

Fxcellente  e  promettedora  a  sua  estréa. 

O-^professor  Scheel  colheu  novos  louros  na  exe- 
cução de  um  solo  de  Sarasate,  em  que  se  paten- 
teou consummado  violinista,  digno  de  confronto 
com  celebridades  eu  ropéas.  Não  exagg^ramos  neste 
preito  que  rendemos  ao  seu  elevado  talento. 

O  dr.  João  Martins,  pela  sua  possante,  sonora 
c  afinada  voz  de  perfeito  barytono,  impoz-se,  por 


138 


duas  vezes,  aos  applausos  do  escolhido  auditório: 
no  prologo  de  Pagliacci  e  na  beila  ária  Herodiade^ 
de  Massenet. 

A  senhorita  Olga  Domschke  foi  merecidamente 
festejada  pela  correcção  com  que  executou  ao  vio- 
lino o  Nocturno  de  Lhopin^  de  Sarasate. 

E'  realmente  uma  vocação  digna  dos  maiores 
estimulos. 

A  banda  musical  dos  Orphãos  de  S.  Joaquim, 
regida  pela  competência  magistral  do  professor 
Guilherme  Mello^  executou  de  forma  briosa  e  cor- 
recta a  Marcha  2  de  Julho  do  finado  maestro  por- 
tuguez  Barretto  deAviz,  um  trecho  triumphal  da 
opera  Aida  e  outra  do  Ernani. 

Ao  digno  regente  enviamos  parabéns  pelos 
justos  applausos  com  que  o  auditório  galardoou 
os  progressos  de  seus  estudiosos  discipulos. 

O  aproveitamento  que  hontem  revelaram  honra 
sobremodo  os  reconhecidos  méritos  do  abalisado 
professor. 

No  final  da  segunda  parte,  mme.  Maria  Elisa 
foi  mimoscada  com  delicada  jóia,  otferccida  f>or 
sua  discípula  joven  Angelina  Rebello,  que  assim 
deu  publico  testemunho  de  gratidão  a  qucrn  se 
mostra  esforçada  por  seu  adeantamento  artistico. 

A  directoria  do  Instituto  offereccu  elegantes 
ramos  de  flores  ás  gentis  executantes. 

Concluindo  esta  rápida  noticia,  cumprimos  o 
dever  de  felicitar  ao  illustrado  Instituto  Geogra- 
phico  e  Histórico  pela  festa  brilhante,  que  lhe  foi 
hontem  propocionada  e  que  tão  grata  impressão 
nos  deixou. 

(/:\v/r.  d' A  Bahia  de  28  de  Ago.ito  de  igo2) 


130 

PROGRAMMA  DO  CONCERTO 

l"  PARTE 

Viarrdto  de  Aviz — Marcha  2  de  Julho,  pela  ban- 
da dos  Orphãos  de  S.  Joaquim. 

I.  Mascagni — Ária  de  barytono,  Pagliacci  pelo 
dr.  João  Martins. 

II.  Sarasate — Zigeiínerweisen — solo  de  violino 
pelo  professor  R.  Scheel. 

III.  Chaminade  —  Conccrstuck  para  2  pianos, 
mme.  Maria  Elisa  Valente  Moniz  de  Aragão  e 
professor  N.  Figueras. 

2"  PARTE 

Verdi — Aidaj  instrumentada  por  Paulus,  pela 
banda. 

I.  Moszkowshj — Grande  capricho  hespanhoL  Solo 
de  piano,  mme.  Maria  Elisa  Moniz  Valente  de 
Aragão. 

II.  Sarasate — Nocturno  de  Cliopin.  Solo  de  vio- 
lino, mlle.   Olga  Domschke. 

III.  Lacliner — Trio  para  violino^  viola  o  piano, 
mlle.  Olga  Domschke,  mme.  Maria  Elisa  Valente 
Moniz  de  Aragão  e  professor  R.  Scheel. 

3'    PARTE 

Verdi — Ernani^  instrumentada  pelo  professor 
Guilherme  Mello,  pela  banda. 

I.  Bizet—Arldesienne.  Suite  de  conccrt.  Piano  a 
quatro  mãos,  mlle.  Angelina  Rebello  e  mme.  Maria 
Elisa  Valente  Moniz  de  Aragão. 

II.  Solo  de  canto,  para  barytono,  dr.v  João 
Martins. 


140 


III.  Alard — Duo  de  violinos,  mlle.  Olga  Dom- 
schke  e  professor  R.  Scheel. 

Os  acompanhamentos  forão  feitos  por  mme. 
Moniz  de  Aragão  e  professor  Figueras. 

O  piano  de  Schiedmayer,  grande  formato,  foi 
gentilmente  cedido  pelo  dr.  Pedro  Celestino. 

Nos  intervallos  tocou  a  banda  do  i.**  corpo 
da  Brigada  Policial. 


1)5'  SESSÃO  EM  19  DE  OUTUBRO  DE  1902 

Presidência  do  Exm.  Snr.  Conselheiro 
Dr.    Salvador  Pires. 

Aos  de/enove  dias  do  mez  de  Outubro  de  1902, 
no  salão  do  «Instituto»,  á  i  hora  da  tarde,  pre- 
sentes os  sócios  Conselheiros  Drs.  Salvador  Pires  de 
Carvalho  c  Albuquerque,  presidente,  e  João  Tor- 
res, í.*  Secretario,  Capitão  Ferreira  Braga,  the- 
soureiro,  Drs.  José  Francisco  da  Silva  Lima,  Bo- 
nifácio Faria  Rocha,  Commendadores  Salvador 
Pires  de  Carvalho  e  Albuquerque  e  pharmaceutico 
Joaquim  Manoel  de  Sant  Anna,  Coronel  Gonçalo 
de  Athayde,  Eloy  Guimarães  e  Isaias  de  Carvalho 
Santos,  2."  Secretario,  foi  aberta  a  sessão,  sendo 
lida  e  approvada  a  acta  da  sessão  anterior. 
O  expediente  constou  do  seguinte: 
Cartas:  do  sócio  correspondente  Dr.  H.  Von 
Ihering,  director  do  Museu  de  S.  Paulo,  offere- 
cendo  um  estudo  sobre  «as  abelhas  indigenas  so- 
ciaes  do  Brazil» ;  do  Snr.  J.  M.  Pelliza,  de  Bue- 
nos-Ayres,  communicando  o  fallecimento  de  seu 
pae,  o  sócio  correspondente  deste  «Instituto»,  Snr. 
Mariano  A.  Pelliza,  no  dia  11  de  Agosto  ultimo; 
do  Dr.  Virgilio  Rossel,  professor  da  Universidade 
de  Berne,  aíçradecendo  a  sua  eleição  de  sócio;  do 


141 


sócio  Alberto  F.  Rodrigues  enviando  uma  edi- 
ção d'«0  Uruguay»,  de  1900  e  o  Almanack  Po- 
pular para  1908;  e  um  officio  do  Tenente-Coro- 
nel  Dr.  António  Gomes  da  Silva  Chaves,  commu- 
nicando  ter  assumido  o  Cargo  de  Chefe  da  Dele- 
gacia da  Direcção  Geral  de  Engenharia  junto  ao 
Commando  do'  3.**  districto  militar,  em  3  de  Se- 
tembro ultimo. 

E'  lida,  em  seguida,  uma  proposta  indicando 
para  sócios  effectivos  os  Drs.  Manoel  Freire  de 
Carvalho,  Miguel  Calmon  do  Pin  e  Almeida  e  do 
General  Dr.  António  de  Sousa  Dantas,  a  qual  é 
enviada  á  respectiva  commissão. 

Pelo  Conselheiro  Dr.  presidente  foi  dito  que 
o  «Instituto»  acaba  de  ouvir  ler  a  communicação 
do  fallecimento  do  esforçado  sócio  correspon- 
dente. Mariano  A.  Pelliza,  illustre  escriptor  e  sub- 
secretario das  Relações  exteriores  em  Buenos-Ay- 
res,  e,  por  isso,  na  forma  da  praxe  adoptada,  o 
«Instituto»  devia  mandar  inserir  na  acta  um  voto 
de  pezar  por  tão  infausto  acontecimento,  o  que  foi 
approvado. 

Pelo  Snr.  Conselheiro  Dr.  i ."  Secretario  foi  lido 
o  balancete  de  Janeiro  a  Setembro  ultimo,  apre- 
sentado pelo  Snr.  Thesoureiro,  accusando  uma 
receita  de^  9:2178000  contra  uma  despeza  de 
8:5928127  e  o  saldo  de  6248873;  sendo  remettido  á 
commissão  de  orçamento:  é  igualmente  lido  o  pa- 
recer da  commissão  de  admissão  de  sócios,  favorá- 
vel a  acceitação,  para  sócios,  dos  Snrs.  Albano  Pe- 
reira de  Carvalho  e  Dr.  Pedro  Luiz  Celestino, 
effectivos,  e  correspondentes  os  Snrs.  Barão  do 
Assii  da  Torre  e  engenheiro  Samuel  Augusto  das 
Neves,  ficando  adiada  a  votação  por  falta  de 
numero  legal. 

O  mesmo  Dr.  i.""  Secretario  propoz  que  fossem 
expedidos  diplomas  aos  sócios  correspondentes, 


142 


Dr.  Alberto  dos  Santos  Dumont,  professor  Emilio 
Augusto  Goeldi  e  o  Dr.  Hermann  Von  Ihering, 
independente  de  contribuição,  pelos  valiosos  ser- 
viços por  elles  prestados  ao  Brazil,  o  que  foi  ap- 
provado. 

Pelo  Snr.  Conselheiro  presidente  foi  dito  que 
em  breve  achar-se-á  entre  nós,  de  passagem  para 
a  Capital  Federal,  o  illustre  brazileiro — Barão  do 
Rio  Branco — escolhido  para  occupar  o  logar  de  mi- 
nistro do  exterior,  peloDr.  Rodrigues  Alves,  e  que 
não  devendo  passar  despercebido  ao  «Instituto» 
a  estada,  embora  por  pouco  tempo,  de  tão  cons- 
pícuo compatriota,  por  isso  nomeava  uma  com- 
missão  composta  dos  sócios  Drs.  José  Francisco 
da  Silva  Lima,  Domingos  Guimarães  e  Braz  do 
Amaral  para  cumprimental-o  a  bordo  e  convidal-o 
para  vir  ao  «Instituto»,  caso  haja  opportunidade 
para  o  desembarque  d'csse  nosso  sócio  honorário. 

O  Dr.  Silva  Lima  disse  que,  sem  cxcusar-se 
do  encargo,  todavia  bem  podia  acontecer  que,  na 
occasião,  não  podessedesempenhar-sedo  mandato 
pelos  múltiplos  affazeres  que  sobre  si  pesam,  mas 
que  envidaria  esforços  para  cumpril-o.  Ainda  o 
Snr.  Gon-iclheiro  presidente,  salientando  os  bons 
serviços  do  sócio  Dr.  Silva  Lima,  agradeceu,  em 
nome  do  «Instituto»  mais  este  que,  certamente, 
será  prestado. 

E  nada  mais  havendo  a  tratar,  foi  encerrada 
a  sessão. 

Aprovada  em  sessão  de  i6  de  Novembro  de 
1902. 

Salvador  Pirrs  de  (Carvalho  e  ÀlhnfjucrqHe.—Jathf 
Nepomacciío  Torres. — Joaquim  Pires  Muniz  de  Car- 
valho. 


14a 


97/  SESSÃO  EM  16  DE  NOVEMBRO  DE  1902 

l^resiíloicia  do  Exm.  Sm\  Conselheiro  l)r.  Sal- 
vador Pires  de  Carvalho  e  Albuquerque, 

Aos  desesseis  de  Novembro  de  1902,  á  i  hora 
da  tarde,  presentes  os  sócios  Conselheiros  Drs.  Sal- 
vador Pires,  presidente,  e  João  Torres,  1/ secreta- 
rio, Drs.  Joaquim  Pires  Muniz,  Júlio  de  Calasans 
e  Joaquim  Tanajura,  Commendadores,  Pharma- 
ceutico  Joaquim  Manoel  de  Sant^Anna  e  Salvador 
Pires  de  Carvalho  e  Albuquerque,  Capitão  Ferreira 
Braga,  Henrique  Praguer,  Eloy  Guimarães,  Padre 
Luiz  da  França  dos  Santos  e  Coronel  Gonçalo  de 
Athayde,  foi  aberta  a  sessão,  servindo  de  2.**  secre- 
tario o  Dr.  Joaquim  Pires  Muniz  de  Carvalho.  Foi 
lida  e  approvada,  sem  debate,  a  acta  da  sessão  an- 
terior. 

O  expediente  constou  do  seguinte:  Officio  da 
direcção  do  Lyceu  de  Artes  e  Otticios  convidando 
o  «Instituto»  a  assistira  sessão  magna  commemo- 
rativa  do  3o."  anniversario  de  sua  installação,  a  26 
Outubro  ultimo.  O  Snr.  Conselheiro  Dr.  presi- 
dente declarou  que  havia  designado  uma  commis- 
são  composta  dos  sócios.  Conselheiro  Dr.  F^ilinto 
Justiniano  Ferreira  Bastos  e  Drs.  Guilherme  Pe- 
reira Rebello  e  João  Pimenta  Bastos  para  repre- 
sentar o  «Instituto»   n'aquella  solemnidade. 

Em  seguida  foi  lida  uma  proposta  para  a  ad- 
missão de  sócios,  a  saber:  Dr.  Augusto  Flávio  Go- 
mes Villaça,  medico,  residente  na  Cidade  de  Ita- 
parica  e  Dr.  António  Augusto  Cardoso  de  Castro, 
Ministro  do  Supremo  Tribunal  Militar,  residente 
no  Rio  de  Janeiro,  ambos  para  sócios  correspon- 
dentes. 

Foi  também  lido  o  parecer  da  Commissão  de 
sócios,  opinando  pela  acceitação,  para  sócios  effe- 


144 


ctivos,  dos  Snrs.  Drs.  General  António  de  Sousa 
Dantas,  Secretario  de  Thesouro  e  Fazenda  do  Es- 
taJo,  Miguel  Calmon  do  Pin  e  Almeida,  Secretario 
da  Afíricultura  e  Manoel  Freire  de  Carvalho,  pa- 
recer que  não  foi  votado  por  falta  de  numero  legal. 
Pelo  Snr.  Conselheiro  Dr.  i.o  Secretario  foi 
communicadoque  o  «Instituto»  teve  três  offertas: 
uma  do  Pharmaceutico  Francisco  Hermelino  Ri- 
beiro—de uma  cédula  de  iSooodo  Império,  outra 
do  sócio  Eloy  Guimarães,  de  lavas  do  Vesúvio  e 
55  moedas  estrangeiras,  de  cobre  e  nikel  de  12  pai- 
res dilterentes,  e  a  ultimado  sócio  Coronel  Gonçalo 
de  Athayde  Pereira,  de  um  fóssil  da  região  ama- 
zonica. 

O  Snr.  Conselheiro  Dr.  presidente,  usando  da 
palavra  referiu-se  á  grande  perda  que  acaba  de 
soítrer  a  Bahia  com  o  fallecimento  do  Dr.  Manoel 
Victorino  Pereira,  e  propoz  que  se  inserisse  na 
acta  um  voto  de  profundo  pezar  pela  perda  de  tão 
notável  bahiano,  communicando  também  a  deli- 
beração ja  tomada  de  fazer-se  o  «Instituto»  repre- 
sentar peia  sua  Mesa  Administrativa  em  todas  as 
homenagens,  que  lhe  forem  prestadas  n*esta  Ci- 
dade. 

A  requerimento  do  sócio  Capitão  Ferreira 
Braga  foi  mandado  inserir,  na  integra,  a  proposta 
do  Snr.  Conselheiro  presidente : 

Snrs.:  A  Bahia,  como  todo  o  Brazil,  foi  sor- 
prchendida  no  dia  9  do  corrente,  pela  infausta  no- 
ticia da  prematura  extincção  de  um  de  seus  mais 
dilectos  filhos,  o  Dr.  Manoel  Victorino  Pereira, 
dotado  de  invejável  talento,  servido  de  uma  eru- 
dição tão  pouco  vulgar  e  cujas  deslumbrantes  scin- 
tiliações  tanto  irradiaram  sobre  a  superfície  inteira 
do  paiz,  que  de  todos  os  seus  mais  recônditos  e 
longínquos  ângulos  porfiadamente  parlem  mani- 
festações de  adhesão  ao  pezar  que  enluta  a  pátria. 


145 


que  o  bemqueria,  á  Bahia,  que  se  ufana  de  lhe  ter 
sido  o  berço,  á  familia  que  idolatradamente  o  es- 
tremecia. Bem  se  comprehende  que  o  «Instituto 
Geographico  e  Histórico»  não  podia  quedar-se  indif- 
ferente  ante  o  sentimento  publico,  ante  o  luto 
geral  por  tão  irreparável  perda;  e,  pois,  im mediata- 
mente içou  em  funeral  o  seu  estandarte,  e  eu  re- 
solvi que  a  sua  mesa  faça-se  representar  em  todos 
os  actos  fúnebres  que  hajam  de  ser  celebrados 
n'esta  Capital  até  á  inhumação  de  seus  venerandos 
despojos;  assim  como  agora  proponho  que  na  acta 
da  sessão  de  hoje  seja  lançado  um  voto  de  profun- 
do pezar,  dando-se  scienciadelle  á  desolada  familia 
do  illustre  extincto. 

Cumpria-me  agora,  em  rápido  esboço,  emittir 
um  juizo  critico  sobre  os  actos  e  factos  que  illus- 
traram  sua  vida  intima  e  publica;  mas  o  que  de 
novo  poderia  dizer-vos  que,  por  uma  antecipação 
reivindicadora  já  não  tenha  sido  feito  pela  imprensa 
jornalística  que,  condensando  a  opinião  publica, 
vulgarisou  os  actos  mais  salientes  e  recommcnda- 
veis  de  sua  afanosa  existência,  desde  a  sua  primeira 
mocidade,  quando  calejava-se-lhe  a  mão  nos  labo- 
res diurnos  da  officina,  ao  mesmo  tempo  que  pelo 
amor  instinctivo  da  sciencia  velava  as  noites  com 
o  livro  entre  mãos,  até  sua  perfeita  virilidade 
mental;  que  tanto  fructificou  na  tribuna  do  mestre, 
no  gabinete  cirúrgico,  na  arena  jornalística,  onde 
esgrimiu,  erecto  e  adestrado  Athleta,  de  altaneira 
fronte,  que  só  curvou-se  quando  o  gelado  sopro  da 
morte  resfriou-lhe  o  suor  das  luctas?  Não;  não  per- 
turbenlos  osomno  tranquillo  em  que  repousa  exte- 
nuado quem  tanto  mourejou  na  vida,  que  c,  no 
dizer  de  um  poeta  : 

Medonho  pélago  de  dores. 

Ooa  de  espinhos  que  nos  dá  o  berço, 

E  que  depomos  nos  umbraes  da  tumba.» 

19 


146 


Approvada  a  proposta  do  sócio  Braga,  por  sua 
vez  o  sócio  Dr.  Joaquim  Tanajura  propoz  que  se 
telegraphasse  aos  consócios  Drs.  Paula  uuimarães, 
Satyro  Dias  e  Montenegro  para  apresentarem  á 
Ex."*'  Viuva  do  illustre  morto  as  condolências  do 
«instituto»,  o  que  foi  approvado. 

Por  escrutinio  secreto  foram  approvados  e  pro- 
clamados sócios  effectivos  o  Commendador  Al- 
bano Pereira  de  Carvalho,  Dr.  Pedro  Luiz  Celes- 
tino e  Barão  do  Assú  da  Torre,  e  sócio  Cor- 
respondente o  Engenheiro  Samuel  Augusto  das 
Neves,  residente  em  S.  Paulo. 

O  Dr.  Joaquim  Pires  fundamentou  uma  moção 
de  felicitações  ao  illustre  consócio  Dr.  José  Joa- 
quim Seabra,  que  foi  approvada,  sendo  expedido 
o  seguinte  telegrama: 

Meza  «Instituto  Histórico»  nome  «Instituto» 
sessão  hoje,  felicita  V.  Ex.  eminente  posição  go- 
verno paiz. 

Nada  mais  havendo  a  tratar,  foi  encerrada  a 
sessão. 

Salvador  Pires  de  Carvalho  e  Albuquerque. — 
João  Nepomuceno  Torres.— Isaias de  Carvalho  Santos. 


98."  SESSÃO  EM  21  DE  DEZEMBRO  DE  1902 

Presidência  do  Exm.    Snr.  Conselheiro 
Salvador  Pires 

Aos  vinte  um  dias  do  mez  de  Dezembro  de 
1902,  á  I  hora  da  tarde,  presentes  os  sócios  Conse- 
lheiros Drs.  Salvador  Pires  de  Carvalho  e  Albu- 
querque, presidente,  e  João  Torres,  i."  secretario, 
Drs.  Reis  Magalhães  e  Joaquim  Tanajura,  Capitão 
Ferreira     Braga,    thesoureiro,    Commendadores, 


147 


pharmaceutico  Joaquim  Manoel  de  SantAnna  e 
Salvador  Pires  de  Carvalho  e  Albuquerque,  Eloy 
Guimarães,  Henrique  Praguer,  Coronel  Gonçalo 
de  Athayde  e  Isaias  de  Carvalho  Santos,  foi  aberta 
a  sessão,  sendo  lida  e  approvada,  sem  debate,  a 
acta  da  sessão  anterior. 

Pelo  Dr.  i.**  Secretario,  Conselheiro  João  Tor- 
res, foi  lido  o  expediente  que  constou  do  seguinte: 

Um  cartão  do  nosso  consócio  Dr.  José  Joaquim 
Seabra,  ministro  do  Interior,  agradecendo  as  con- 
gratulações enviadas  pelo  «Instituto»;  duas  Cartas- 
convitek:  uma  dos  empregados  do  Thesouro  para 
o  «Instituto»  se  fazer  representar  na  missa  em  lou- 
vor de  sua  padroeira,  na  matriz  de  S.  Pedro,  no 
dia  14  do  andante,  e  outra  do  Dr.  Intendente  do 
municipio  doesta  Capital  para  o  «Instituto»  se  fa- 
zer representar  no  acto  da  abertura  da  exposição 
escolar,  no  dia  7,  no  salão  da  bibliotheca  munici- 
pal. Quanto  á  i."  o  Conselheiro  presidente  decla- 
rou que  nomeava  uma  commissão  composta  dos 
sócios,  professor  Torquato  Bahia,  Dr.  Braz  do 
Amaral  e  Capitão  Francisco  Braga;  quanto  a  2." 
disse  que  deixava  de  nomear  uma  commissão  por 
ter  chegado  tarde  o  convite. 

Officios:  do  sócio  professor  Elias  de  Figueiredo 
Nazareth  communicando  ter  sido  acceito  para  só- 
cio correspondente  do  «Instituto»  dé  S.  Paulo'  e 
incumbido  de  represental-o  perante  as  associações 
congéneres,  e  outro  do  «Centro  de  Sciencias,  I.et- 
tras  e  Artes»  de  Campinas,  communicando  a  elei- 
ção de  sua  Directoria. 

Cartas:  do  Dr.  Clodoaldo  de  Freitas,  de  The- 
rezina,  remettendo  varias  publicações;  do  Dr.  Al- 
berto Lofgren,  enviando  trez  exemplares  do  seu 
relatório  sobre  o  «Horto  Botânico  de  S.  Paulo»- 
do  Dr.  José  Arthur  Boiteux,  secretario  do  «Insti; 
tutode  Santa-Catharina,  agradecendo  a  sua  eleição 


Uí< 


para  sócio  correspondenle;  do  sócio  Desembarga- 
dor Licínio  Alfredo  da  Silva,  communicando  sua 
retirada  para  o  Rio  de  Janeiro  e  pedindo  para  ficar 
inscripto  como  sócio  correspondente,  e  do  Dr.  Je- 
ronymo  Gonçalves,  oíFerecendo  dois  pares  de  sapa- 
tos de  borracha,  feitos  na  região  do  Acre. 

E'  lida  também  uma  proposta  para  sócios  eíFe- 
ctivos,  dos  seguintes  cidadãos: 

Dr.  Menandro  dos  Reis  Meirelles  Filho,  En- 
genheiro Lino  Meirelles  da  Silva  e  negociante  Vi- 
cente Ferreira  Lins  do  Amaral,  a  qual  é  enviada  á 
respectiva  com  missão  que,  presente,  deu  seu  pare- 
cer favorqveK  o  qual  foi  lido,  bem  como  o  que  foi 
dado  á  proposta  referente  aos  Drs.  Augusto  Flávio 
Gomes  Villaça  e  António  Augusto  Cardoso  de  Cas- 
tro, ficando,  porém  adiada  a  votação  por  falta  de 
numero  legal,  visto  ser  esta  a  i."  sessão  em  qi:c  é 
apresentado  o  parecer. 

Pelo  Snr.  Conselheiro  Dr.  presidente  foi  dito 
que  n*esia  scssíio  devia  ser  apresentado  o  orça- 
mento da  receita  e  despeza  do  «Instituto». 

O  Commendador  Salvador  Pires,  membro  da 
respectiva  com  missão,  diz  que  não  pode  ser  apre- 
se ntado  o  orçamento  por  se  acharem  dois  membros 
da  commissão  impossibilitados  de  funccionar:  um 
por  doente,  e  outro  por  ausente,  e  por  essa  razão, 
pedia  que  fosse  adiada  a  apresentação  para  a  i. 
sessão,  o  que  o  «Instituto»  approvou. 

O  Snr.  (Conselheiro  Torres  propoz,  então,  e  o 
«Instituto»  approvou,  que  ficasse  vigorando  o  orça- 
mento do  exercicio  anterior  até  ser  confeccionado 
e  approvado  o  novo. 

Foi  submettida  a  votos  uma  proposta,  com  pa- 
recer favorável,  já  adiada  de  outra  sessão,  e,  por 
escrutinio  secreto,  foram,  unanimemente,  approva- 
dos  e  proclamados  sócios  elfectivos  os  seguintes 
cidadãos:  General  Dr.   António  de  Souza  Dantas  e 


141)' 


Drs.  Miguel  Calmou  du  Fin  c  Almeida  e  Manoel 
Freire  de  Carvalho. 

Nada   mais   havendo  a  tratar,  foi  encerrada  a 
sessão. 

— Salvador  Pires  de  Carvalho  c  Albuquerque. — 
João  Nepomuceno  Torres. — Isaias de  Carvalho  Santos. 


OFFERTAS 

Além  dos  Jornaes,  e  Revistas,  nacionaes  e  es- 
trangeiras, ^ue  permutam  com  a  «Revista»,  rece- 
beu o  «Instituto»  durante  o  anno,  muitas  outras 
oliertas  cuja  relação  consta  do  livro  respectivo,  a 
saber: 

KM  JANEIRO — Revista  do  Archivo  do  Muni- 
cipio  da  Capital,  n.  7; — Leituras  Recreativas  (Lyceu 
Salesiano)  ns.  i  a  6; — Almanak  de  Pernambuco 
para  1902; — Almanak  Popular  de  Pelotas,  vol.  9^ 

Do  sócio  major  Rogociano  Teixeira — O  dis- 
curso autographo  proferido  pelo  Dr.  Ruy  Barbosa 
perante  o  Supremo  Tribunal  Federal  impetrando 
habeas-corpus  em  favor  dos  implicados  no  atten- 
tado  de  5  de  Novembro  de  1897,  comum  prefacio 
do  Dr.  Aristides  Milton;  e  um  livro  contendo  vá- 
rios discursos  e  manifestos  do  Dr.  Ruy  Barbosa. 

Do  sócio  Xavier  Marques: — exemplares  de  al- 
guns trabalhos  do  professor  Guilherme  Baldoino 
Embirussú  Camacan. 

Do  sócio  major  J.  Domingues  Codeceira — plan- 
ta do  Forte  Real  do  Bom  Jesus,  edificado  por  Ma- 
thiasde  Albuquerque,  no  Recife. 

De  D.  Maria  José  Serva: — dois  quadros,  o  re- 
trato do  grande  pintor  bahiano  Velasco,  e  uma  fina 
pintura,  obra  do  mesmo. 


IdO 


Do  Capitão  Cândido  Cardoso — 3  cédulas  para- 
guayas. 

Do  Desembargador  José  A.  Saraiva: — «Oito 
annos  de  parlamento  c  o  Conselheiro  Saraiva», 
pelo  ofFertante. 

Do  sócio  Desembargador  Thomaz  Montenegro: 
— O  livro  do  Centenário  (i5ooa  1900)  2  vols.;  Po- 
litica Commercia!  da  França,  2  vols.;  Magnetismo 
e  Somnambulismo,  2  vols.;  Emancipação  dos  es- 
cravos, parecer  do  Dr.  Ruy  Barbosa;  A  deshonra 
da  Republica  pelo  general  Honorato  Caldas;  Annua- 
rio  histórico  dos  povos  por  Levy;  The  New  Bra- 
sil por  Marie  Robinson,  1900;  A  retirada  da  Laguna 
pelo  Dr.  Alfredo  Taunay;  A  Campanha  de  18  r  5, 
attlas  especial  pelo  general  Charrás;  A  Itália  Agrí- 
cola; O  problema  da  pólvora  no  Brazil;  Colonisa- 
ção  da  Algéria,  2  vols.;  Administração  financeira 
das  Communas,  2  vols.;  Historia  antiga  e  moderna, 
2  vols.;  A  reforma  monetária  pelo  Dr.  Amaro  Ca- 
valcanti; A  Carta  do  Brazil,  projecto  elaborado  no 
Estado  maior  do  exercito;  Historia  da  edade  media 
por  Calogcras;  Annuario  da  industria  na  Bélgica; 
Viagem  de  um  economista  na  Itália;  O  marquez  de 
Pombal  por  Clemence  Robert;  O  orçamento  do  im- 
pério desde  sua  fundação  pelo  senador  Liberato 
Carreira;  Os  caminhos  de  ferro  russos  de  iSSy  a 
1862;  A  Industria  na  Europa  por  Luiz  Reibaud; 
Economia  politica  por  Fonteirand;  A  insirucção 
secundaria  na  França  por  Passy;  Discursos  parla- 
mentares por  Mattoso  Camará;  Geoj^raphia  do 
Brazil  pelo  Dr.  Praxedes  Pacheco;  índice  da  Le- 
gislação geral  de  1861  a  1870;  Legislação  sobre  os 
caminhos  públicos  porGarnier;  Almanak  Hachette 
para  1901;  Profissão  das  armas  pelo  brigadeiro 
Sanchez  Osório;  Trabalhos  judiciários  do  Dr.  Cae- 
tano  P.   Montenegro;   O   Poder  em   França  por 


151 


Wallon;  Exposição  nacional  e  notas  pelo  Dr.  Ro- 
sendo Moniz;  Hernâni,  drama  em  5  actos,  por 
Victor  Hugo,  vertido  por  Ernesto  da  Fonseca;  e 
vários  outros  opúsculos. 

EM  FEVEREIRO  E  MARÇO.  Boletim  de  Agricultura 
(S.  Paulo)  n.  12,  1901;  o  Arauto,  n.  i,  i902(Bahia); 
«Revista  de  Lisboa»  Dezembro  de  1901;  Cosmos, 
n.  I,  1901(8.  Paulo;)  A  Situação  (Bahia),  n.  i,  1902; 
Relatório  apresentado  ao  governador  da  Bahia  pelo 
engenheiro  agrónomo  João  Silveira  em  1901;  Regu- 
lamento geral  da  Secretaria  doThesouro  e  Fazenda 
do  Estado;  Relatório  apresentado  ao  governador 
da  Bahia  em  1900  pelo  secretario  da  Viação,  en- 
genheiro José  Joaquim  Ribeiro  Saldanha;  A  «Mala 
da  Europa»,  (1902). 

Do  Director  da  Imprensa  nacional — 8  vols.  do 
Projecto  do  Código  Civil  Brazileiro  e  os  trabalhos 
da  Commissão  especial  da  Camará  dos  deputados. 

Do  sócio  Dr.  Manoel  Cardoso  Barata — As  In- 
dustrias Extractivas. 

Do  sócio  Conselheiro  João  Torres — O  Binóculo, 
impressões  de  viagem  por  Filinto  de  Oliveira; 
Monarchia  e  monarchistas  pelo  Conselheiro  Tito 
Franco  de  Almeida. 

Do  Director  da  Escola  de  Engenharia  de  Lima 
(Peru) — Anales  de  Construcciones  Civiles,  minas 
e  industrias  dei  Peru;  Memorias  publicadas  por  la 
Sociedad  de  ingenieiros  dei  Peru. 

EM  ABRIL. — «Almanak  Illustrado  das  Famílias 
Catholicas  Brazileiras  para  1902;  Annacs  da  Bi- 
bliotheca  e  Archivo  Publico  do  Pará;  Relatório 
apresentado  ao  governador  do  Amazonas  pelo  res- 
pectivo director;  Relatório  do  Comité  Patriótico 
da  Bahia  (Campanha  de  Canudos);  Hypnotismoe 
suggestão,  these  do  Dr.  Ulysses  Paranhos. 


lító 


Do  sócio  engenheiro  Miguel  de  Teive  e  Argollo: 
— Um  catalogo  movei  de  cíassificação  decimal  e  o 
Index  de  Devey. 

Do  Dr.  Anisio  Circundas  de  Carvalho:  —  Um 
arco  artisticamente  trabalhado,  e  uma  collecção  de 
frechas  de  varias  espécies,  obtidos  dos  Bororós 
Coroados,  de  Matto-Grosso. 

Do  Sr.  Romario  Martin;: — Limites  a  Sueste 
(Questão  de  limites  entre  os  Estados  do  Paraná  e 
Santa-Catharina). 

Do  sócio  J.  C.  Branner. — BuUetin  of  the  Geo- 
logical  Society  of  America,  vol.  1 3;  Geology  of  the 
Northeart  Coast  of  Brasil  pelo  otf.;  Depression 
and  elevations  of  the  Sauthern  Archipelagoes  of 
the  Chile  por  Francisco  Vidal  Gormaz. 

— Pela  sócia  Exma.  Viscondessa  de  Cavalcanti: 
— Obras  Clássicas  de  grande  valor:  Virgilius  Bur- 
manorum  (1746).  4  vols.;  C.C.  Taciti — Opera — 
(1672)  2  vols;  Phcdri  Fabulae  (1667);  Ketclius,  De 
Elcgantori  Latinitate,  (1713);  Trium  linguarum  Di- 
ctionarium;  Vossios-  -Ars  Poética  (1747);  Erasmus, 
Stultitia*  Laus — (1676);  I^rasmus,  Vita  et  Epistola* 
(1642);  H.  (irothii,  Dissertatií)nes(i()45;  J.  Pontani, 
Poemata  (i5o5);  N.  Heinsii,  Poemata — (1766);  Di- 
ctionarium  Poeticum  apud  Stephan;  Encomia, 
(1666);  Gasparis  Barkxii,  Poemata;  Symbola  Divina 
et  Humana  Pontificum,  Imperatorum,  Regum; 
Sabini — , Poemata  (1(378);  De  Império  Magni  Ma- 
golis  Carmina  Varia  (i5i8);  Obras  de  Donoso  Cor- 
tes— 5  vols;  Grotius— Le  Droit  de  Prise;  The  Re- 
public  of  Rcpublics;  Bryce-The  American  Com- 
monwealth — 3  vols;  The  Theory  of  our  National 
Existence;  Her  Magestys  Colonies. 

EM  MAIO. — Annaes  do  Brazil,  n.  i  a  3  (Rio)  1902; 
— Theses  de  concurso  ao  cargo  de  Conselheiro  do 
Tribunal  de  Appellação  pelos  Juizes  de  Direito 
l^zequiel  Ponde.  Canâido   Leão  e  Arlindo  Lcone 


153 


cm  1902;  Mensagem  do  governador  da  Bahia  ao 
Congresso  Kstadoal  em  1902;  Relatório  da  Asso- 
ciação Commercial  em  1902;  Idem  da  Sociedade 
Beneficência  Caixeiral  em  1902;  Estatutos  da  ((So- 
ciedade Bahiana  de  Agricultura»  1902. 

Do  sócio  Dr.  José  António  da  Costa- -100 
moedas  de  vários  paizes. 

Do  sócio  capitão  de  mar  e  guerra  António  Alves 
Camará — 4  moedas  adquiridas  em  Tanger,  sendo 
I  de  ouro  e  3  de  prata. 

Do  sócio  Capitão  Manoel  Raymundo  Quirino: 
— 3  medalhas  da  Campanha  do  Paraguay,  perten- 
centes ao*  Tenente  Coronel  Feliciano  Pimentel  do 
54  bathalhão  de  voluntários. 

Do  Provedor  do  «Collegio  dos  Orphãos  de  S. 
Joaquim» — Uma  bandeira  do  regimen  imperial, 
existente  n'aquelle  Collegio. 

Do  bacharel  Aristides  de  Araújo  Maia -Recor- 
dações (Minas),  pelo  oíiertante. 

Do  engenheiro  Demétrio  de  Araújo: — «O  Pro- 
pulsor», I  vol.,  encad,  correspondente  aoannode 
1901. 

Do  académico  José  Teixeira  da  Matta  Bacellar 
— Um  cachimbo  fabricado  na  Ilha  de  Marajó 
(Pará). 

Do  Dr.  Manoel  Pirajáda  Silva:  L'  Histoiredes 
dirigeables,  Santos  Dumont. 

Do  sócio  Capitão  de  mar  e  guerra  António  Al- 
ves Camará — Quinze  moedas  de  cobre,  do  Brazil  e 
de  outras  nações; — La  Geographie,  par  P.  F.  Bai- 
nier — (Paris),*  1877;  Dictionaire  de  T  Economie  Po- 
litique— 1873 — 2  vols;  Histoire  de  la  Litterature 
anglaise — par  H.  Taine,  5  vols;  Histoire  de  Napo- 
lion  I.  par  Lanfrey — 5  vols;  La  Guerre  et  la 
Paix,  par  P.  J.  Proudhon —  2  vols;  Histoire  des 
Verges,  par  Louis  Jacob — ;  La  linguistique,  par 
A.  Horulacque;  La  Ligue  et  Henri  IV,  par  M.  Ca- 

20 


154 


pefigue;  L'esprit  nouveau,  par  Edgar  Quinet;  His- 
toire  des  progress  du  droit  des  gens  en  Europe, 
par  Henry  Wheaton;  Histoire  de  la  Civilisation 
en  Europe,  par  M.  Guizot;  Génio  da  Lingua  Por- 
tugueza,  por  Francisco  Evaristo  Leoni— 2  tomos; 
Historia  de  Portugal  nos  séculos  18  e  19,  por  uma 
sociedade  de  homens  de  lettras;  Philosophia  Fun- 
damental por  Don  Jaymé  Balmés,  2  tomos,  i85i. 

EM  JUNHO— «Revista  do  Instituto  Archeologico 
e  Geographico  de  Pernambuco»,  n.  56,  vol.  10, 
1902;  Leituras  Recreativas (Lyccu  Salesiano),  n.  11; 
Estatutos  do  Circulo  Catholíco  Romano  da  Bahia; 
«Mala  da  Europa»,  ns.  39 e  40;  Publicações  do  Ar- 
chivo  Publico  Nacional,  vol.  iii,  1 902 *e  Catalogo 
da  Bibliotheca  do  mesmo  Archivo;  Correio  de  S. 
Francisco  (Joazeiro),  ns.  i  e  2  1902. 

Do  sócio  Conselheiro  João  Torres — Um  mappa 
das  republicas  sul-africanas,  iheatro  da  guerra  an- 
glo— bóer. 

Do  sócio  Conselheiro  Filinio  Bastos — Duas  me- 
dalhas commemorativas  do  3**  centenário  de  Luiz 
de  Camões  e  do  4*  descobrimento  do  Brazil. 

Do  cidadão  Karlos  Weber — 4  moedas  de  cobre 
dos  annos  de  1761,  i8i3,  i8i4e  1818,  e  uma  me- 
dalha do  3"  centenário  de  Luiz  de  Camões. 

Do  sócio  Engenheiro  J.  Feliciano  da  Rocha — 
Uma  medalha  commemorativa  da  Exposição  de 
Paris,  em   1900. 

Do  sócio  Dr.  Aristides  A.  Milton — A  Campanha 
de  Canudos,  memoria  lida  no  «Instituto  Histórico 
Brazileiro». 

Do  sócio  Dr.  Nina  Rodrigues — O  Alienado  no 
direito  civil  brazileiro,  e  Apontamentos  medico-le- 
gaes  ao  projecto  do  Cod.  Civil  brazileiro,  2  vols. 

Do  sócio  capitão  de  mar  e  guerra  António  Al- 
ves Camará: — 26  obras  em  8g  volumes,  a  saber: 
Encyclopedie  moderne,  par  Firmin  Didot  Fréres 


15Õ 


27  vols.;  oeuvres  Complets  de  BuíFon,  3  vols.;  His- 
toire  des  sciences  naturelles  par  Georges  Cuvier, 
2  vols.;  Elements  de  Chimie  par  Orfila,  2  vols.; 
Du  lait  par  Bouchardat,  i  vol;  Voyage  en  Chine 
par  Lavallée,  i  vol;  Pantheon  Maranhense,  Hen- 
rique Leal,  Lisboa,  4  voJs.;  Annaes  do  observató- 
rio do  Rio,  I  vol.;  Relatório  da  Commissão  ex- 
ploradora do  planalto  central  do  Brazil,  2  vols.; 
Anno  Biographico  Brazileiro,  3  vols.;  O  primeiro 
reinado,  ou  a  Revolução  de  7  de  Abril  de  i83i, 
I  vol.;  O  Império  do  Brazil  na  Exposição  de  Phi- 
ladelphia,  i  vol.;  Historia  de  Rosas  e  sua  epocha 
(Paris)  2  vols.;  Poesias  de  Manoel  Maria  Barbosa 
du  Bocage,  6  vols.;  Biographie  nouvelle  des  con- 
tcmporains,  19  vols.;  O  Economista  Brazileiro,  2 
vols.;  Histoire  deCromwell  par  Villemain  i  vol.; 
O  Pará  na  Exposição  de  Paris,  1889;  e  outros 
opúsculos. 

Pela  Secretaria  do  Ministério  da  Fazenda  do 
Peru — Padron  General  de  minas;  Memorias  de 
viaje  y  datas  relativas  a  los  selvajes  de  la  region 
oriental,  pelo  Dr.  D.  David  Munoz;  Informe  sobre 
las  pertenencias  de  la  mina  «Santo  Domingo»  de 
la  provincia  de  Carabaya  por  el  Ingeniero  de  mi- 
nas D.  José  Balta;  Informe  sobre  la  operacion 
pericial  praticada  en  el  Lavaredo  «Santo  Antó- 
nio de  Poto»  por  el  Ingeniero  D.  J.  Balta;  Confe- 
rencia dada  en  la  «Sociedade  Geográfica»  de  Lima 
por  el  Dr.  Manuel  Samudis;  Memoria  que  el  Di- 
rector de  Fomento  apresenta  ai  Snr.  Ministro  dcl 
Ramo. 

EM  JULHO  K  A(i(Ksio — «Revista  do  Archivo  Publico 
Mineiro»)  (Janeiro a  Junho),  1902;  «Revistada  Asso- 
ciação Typographica  (Bahia),  n.  1, 1902;  «Revista  da 
Legislação»  (Rio),  n.  i;  Manifesto  á  Lavoura  (syn- 
dicatos  agrícolas);  «Mala  da  Europa»,  n.  4^  com  re- 
trato do  principe  D.  Luiz  Felippe;  «Revista  ítalo- 


tt  Americana»,  n*  2,  igaa;  O  cEsiandarte»,  ns- 1  e  a 
(Forlaleííau  lyoj;  Rei  a  tório  apresentado  ao  gover- 
nador de  S.  Paulo  pelo  Dr*  Anionio  Candiao  Ro- 
drigues, igo2;  As  Artes graphicas  da  Bahia  á  nação 
Chilena,   1902* 

Do  sócio  Belisario  Pernambuco— A  Maçonaria 
c  o  proletariado  (Centenário  do  Brazii). 

Do  sócio  Dr.  Luiz  Gualbcrtn-  t^xpostção  his- 
tórica—jurídica  pelo  Dr.  iVianoeJ  da  Silva  Maíra, 
questão  delimites  entre  Santa-Catharina  e  Paraná. 

Do  Sr.  Ernesto  Senna — Conselheiro  António 
Ferreira  Vianna,  sua  vida  e  suas  obras,  1902. 

Do  Sr.  João  de  Brito— «Rogério»,  drama  em 
3  actos,  pelo  oífertante. 

Do  sócio  Philoteio  de  Andrade — O  «Oriente  II- 
lustrado  Goa»,  1899. 

Do  sócio  Conselheiro  Francisco  Sodré  Pereira 
— Vários  manuscriptos  que  acompanharam  a  pe- 
tição de  graça  e  perdão  que  o  Dr.  F^rancisco  Sa- 
bino encaminhou  em  1834  a  Regência  Permanente 
sobre  o  assassinato  do  alferes  José  Joaquim  Mo- 
reira, n^esta  capital,  em  7  de  Novembro  de  i833. 

EM  SETKMBRO— Registro  Oficinal  de  Fomento  (Li- 
ma); Relatório  apresentado  ao  governador  da 
Bahia  pelo  Secretario  de  Agricultura  e  Viação  em 
1902;  Considerações  sobre  a  Conferencia  Âssuca- 
rêira  da  Bahia  pelo  Engenheiro  Alexandre  Góes, 
1902;  «Revista  do  Grémio  Paraense»,  n.  i,  1902; 
«Revista  do  Grémio  Litterario  da  Bahia»,  n.  10, 
iro2;  «Revista  da  Bahia»,  n.   i,   1902. 

— Pela  Directoria  do  Congresso  Latino  Ame- 
ricano (xMontevidéo):  Organisação  e  Resultados 
Geraes  do  Congresso,  2  vols. 

Pelo  sócio  Dr.  Egas  Moniz  B.  de  Aragão: — O 
Maranhão  e  seus  recursos  por  Fran  Paxeco,  O 
Sangue  Latino,  Silvio  Romero  e  a  litteratura  por- 


157 


tugueza,   por   F.    Paxeco;    Mais  Mundos,  por  T. 
Braga. 

Pelo  engenheiro  Miguel  Calmon:  Applicações 
industriaes  do  álcool,  pelo  otFertante. 

Pelo  sócio  Coronel  Raymundo  Alves  da  Cunha: 
Mensagem  ao  Congresso  Legislativo  do  Pará  pelo 
governador  Dr.  Augusto  Montenegro;  Polyanthea 
dedicada  ao  Dr.  Firmino  Cardoso  (Belém.) 

Pelo  académico  Virgilio  de  Aragão:  Varias 
obras  que  pertenceram  ao  seu  fallecido  pae,  ma- 
jor Salvador  Pires  de  Aragão,  entre  outras  as  se- 
guintes: Tratado  dos  reconhecimentos  militares 
pelo  professor*  Unger;  Manejo  do  fusil  allemão, 
cm  1888;  Manejo  da  clavina  Mauser,  modelo  bra- 
zileiro;  Manual  do  aprendiz  artilheiro,  por  Antó- 
nio Duarte;  Curso  da  arte  militar,  pelo  general 
Faré;  Manual  do  louceiro  por  Boyer;  A  táctica 
das  três  armas;  Consolidação  da  legislação  militar, 
4voIs.;  Ordens  do  dia,  exercito  em  operações  no 
Paraguay,  9  vols.;  Leis  e  Decisões  do  Brazil,  29 
vols.;  «Revista  Militar»,  21  fases.;  Os  combates  fu- 
turos, I  vol.;  Guerra  do  Paraguay,  por  Jourdan, 
1890;  A  guerra  em  Campanha  rasa,  i  vol.;  A 
ckisse  militar  perante  as  Camarás,  1  vol.;  Des- 
cripção  e  applicação  dos  telephones;  Hygiene  dos 
quartéis,  these  do  Dr.  Calasans; — 2  cartuchos  com 
projectis,  e  i  granada  para  canhão  rewolver. 

KM  OLTiimo—  Relatório  do  Chefe  de  policia  ^ 
segurança  ao  governador  da  Bahia,  em    1902. 

Pelo  sócio  Major  Rogociano  Teixeira:  A  situa- 
ção da  marinha  mercante  no  Brazil;  Relatório  dos 
serviços  dos  Correios  em  1900  pelo  Dr.  Antonino 
Pires  de  Souza;  «Diário  do  Congresso», n.  17  r,  1902. 

Pelo  sócio  Alberto  F.  Rodrigues:  O  «Almanak 
Popular»  para  1903  (Pelotas);  «O  Uruguay»,  poema 
cpico. 


1Õ8 


Peio  sócio  Barão  de  Studart:  12  exempiares 
do  seu  trabaiilo — O  Padre  Martin  de  Nantes  e  o 
Coronei  Dias  de  Ávila. 

Pelo  sócio  Padre  Dr.  Júlio  Maria:  O  Deus  des- 
presado;  Apostrophes;  A  Graça;  A  Paixão. 

Pelo  académico  Octávio  Brandão:  Um  pente 
de  tartaruga  encontrado  nas  ruinas  do  seminário 
de  Belém,  e  i  barrete  de  pelle  de  macaco  do 
Amazonas. 

EM  NOVEMBRO  E  DEZEMBRO — «Revista  do  Gremio 
Litterario  da  Bahia»,  n.  11,  1902;  Relatório  do  Ins- 
pector Geral  de  Hygiene  da  Bahia,  em  1902;  Annaes 
da  Gamara  dos  Deputados  e  do  Senado  da 
Bahia,  em  1902;  «Revistada  Bahia»,  n.  2;  «Revista 
do  Museu  de  S.  Paulo»,  vols.  i  e  2;  «Revista  do 
Centro  de  Sciencias,  Lettras  e  Artes»,  de  Campi- 
nas, n.  I,  1902:  Estatutos  e  Regimento  Interno 
do  «Instituto  Agronómico  e  Industrial  da  Bahia»; 
Mensagem  apresentada  á  Assembléa  do  Ceará  pelo 
Dr.  Pedro  Augusto  Borges,  em  1902,  e  Relatório 
do  secretario  da  Justiça,  Dr.  António  Sabino  do 
Monte;  Informe  de  los  Profesores  de  la  Escuela 
de  Agricultura,  e  notas  sueltas,  por  Dr.  Patron 
(Lima);  El  Peru  por  António  Raimondi,  vol.  4.% 
Lima. 

Pelo  sócio  Dr.  J.  Branner:  Origin  of  the  fins 
of  fishes. 

Pelo  sócio  major  Rogociano  Teixeira:  l\irecer 
do  senador  Dr.  Ruy  Barbosa  sobre  a  redacção  do 
Projecto  do  Código  Civil  Brazileiro;  Ligeiras  ob- 
servações sobre  as  emendas  do  Dr.  Ruy  Barbosa, 
pelo  Dr.  Ernesto  Carneiro  Ribeiro. 

Pelo  sócio  Dr.  Pedro  de  Queiroz:  P^studos  So- 
ciaes,  O  Projecto  do  Código  e  o  Divorcio,  pelo 
ofFertante, 


159 


Pelo  sócio  Dr.  Severino  Vieira:  Campos  Sai- 
Ics — Discursos— Na  Propaganda,  T.  vol..  Na  Re- 
publica, 2".  vol. 

Pelo  sócio  Dr.  Joaquim  Tosta:  O  Divorcio,  o 
Calholicismo  e  a  mulher  (Conferencia,  Maio  de 
1902). 

Pelo  sócio  Desembargador  Jeronymo  Gonçal- 
ves: 2  pares  de  sapatos  de  borracha  feitos  no  Acre. 

Pelo  Dr.  Alberto  Lofgren:  3  relatórios  sobre 
o  Horto  Botânico  de  S.  Paulo. 

Pelo  Dr.  Clodoaldo  de  Freitas  (Therezina):  A 
Libertação  do  Ceará;  Commemoração  do  meio 
centenário  da  cidade  de  Therezina;  Almanak  Pi- 
auhiense  para  igoS. 

Pelo  sócio  Eloy  Guimarães:  lavas  do  Vesúvio 
e  55  moedas,  de  cobre  e  nikel  de  12  paizes  diffe- 
rentes,  adquiridas  em  sua  ultima  viagem  á  Europa. 

Pelo  sócio  Coronel  Gonçalo  de  Athayde:  um 
fóssil  de  peixe  da  região  amazonica. 


SUMMARIO  DO  N.  29 


PAGS 


Memoria  Histórica  sobre  os  acontecimentos  de  24  de  Novembro 

de  1891  na  Bahia,  polo  Dr.  Braz  H.  do  Amaral  *     .  3 

Levantes  de   pretos  na  Bahia,  pelo  sócio  Dr.  Eduardo  de 

Caldas  Britto 9G 

As  insurreições  dos   africanos  na  Bahia,  por  José  Carlos 

Ferreira 95 

Ofíicio  do  chefe  de  policia  Dr.  Francisco  Gonçalves  Martins 

sobre  a  insurreição  de  1835  e  outros  documentos  .      .  108 

Actas  das  sessões  do  Instituto  em  1902 121 

Concerto  vocal  o  instrumental  em  benefício  do  Instituto   .  136 

Publicações  recebidas  pelo  Instituto  durante  o  unno  de  1902         lOd 


REVISTA 


—  DO  — 


|n§titHta  teir(iíi|ií0  e  iistrò 

H   NTíAlwí   KM   1894,  RECONHECIDO  DE  UTILIOAOE   PUBLICA 
l*é£4.A     LEI   N.     IIO   DE  l3  OE  AGOSTO    DK     iHfp 

Máxima  sunt  documenta  cquidein  res  temporis  acti 
In  pnie^eRs,  validusque  in  wnÚTtô  stimuUis, 


AN  NO  XI 


1904 

VOL,    XI 


N.  3o 


BAHIA 

Typographl»  BAHIAITA,  d«  O.  MelcbUd«B 
25— Rna  do  Arsenal  de  Marinha— 26 

1905 


REVISTA 


—  DO  — 


lnstitnto  iíígroíiliííj  t  iistnrifo 

VVNlíAIM   KM   1894,  RECONHECIDO  DE  UTILIOAOC   PUBLICA 

vílla   lei  n.    iio  de  i3  oe  agosto  DE   1H93 

Máxima  sunt  documenta  equidetn  res  temporis  acti 
In  prcejwns,  validusque  in  veni<'i\8  stimuUis, 


ANNO  XI 


1904 

VOL.    XI 


N.  3o 


BAHIA 

Typograpbl*  BABIAlf  A,  d«  O.  M«lclil«deB 
25— Rna  do  Arsenal  de  Marinha— 26 

1906 


REVISTA 


DO 


iDsinto  GeograpMco  e  Histórico  da  Balda 

Anno  XI  1904  flum.  30 


MEMORIA  HISTÓRICA 

Sobre  a  Prodamaç&o  da  Republica  na  Balda  (*) 

I 
A   PROPAGANDA 

l^AviA  sido  tão  dura  a  repressão  da  revolta 
.jtÍ" republicana  de  iSSy,  tinha  sido,  após  esse 
periodo,  durante  todo  o  2.**  reinado,  tão  astuta- 
mente corruptora  e  hábil  a  politica  do  Império, 
que  parecia  morta,  a  não  ser  um  outro  pequeno 
rebento,  a  arvore  da  Republica  Brazileira  aqui  na 
Bahia  até  cerca  de  i888- 

Não  era,  porém,  completamente  secca  a  planta 
nem  extincta  toda  a  vida.  Havia  propriamente 
torpor  e  para  os  velhos  que  ainda  se  lembravam 
de  1837,  reminiscências  atemorisadoras  e  amargas. 
Um  ou  outro  cidadão  professava  princípios  repu- 
blicanos como  os  Drs.  Frederico  Lisboa  e  Henri- 
que Alvares  dos  Santos  que  publicaram,  o  primeiro 
o  pequeno  periódico  Horizonte,  e  o  segundo  o 
Santelmo;  estes  jornaes  sahiram  e  viveram  algum 

(*)    Memoria  Uda  na  sessão  magna  do  Instituto  de  3  de  Maio  de 
1904,  peto  Orador  Dr.  Braz  do  Amaral. 


fempo  mas  ninguém  os  lia,  além  de  um  pequenís- 
simo circulo  de  crentes  e  enthusiastas  talvez.  Os 
moços  falavam  também  na  Republica  emquanta 
cursavam  as  aulas;  em  regra  geral,  porém,  depois 
disto  alistavam-se  nas  fileiras  de  um  dos  dois  par- 
tidos dominantes  e  eram  arrastados  por  elles. 

O  impulso  dado  pelo  manifesto  de  1870  esmo- 
recera de  todo  e  havia  concorrido  jjoderosamente 
para  isto  a  penitencia  dos  arrependidos,  feita  pelos, 
seus  signatários  que  haviam  acceitado  logares  nos 
conselhos  da  coroa  e  haviam  preferido  as  vantagens, 
das  posições  sociaes  e  seus  proventos  á  gloria  um 
tanto  secca  das  perseguições. 

Após  o  manifesto  de  1870  houve  um  movimenta 
republicano  nas  Provincias  que  repercutiu  aqui  na 
Bahia,  onde  se  fundou  um  club. 

Este  club  funccionou  primeiro  em  uma  casa  da 
antiga  rua  Direita  de  Palácio,  actual  rua  Chile, 
esquina  da  travessa  chamada  de  Maria  Pires  e 
depois  transferiu  as  suas  sessões  para  a  rua  da 
Lama,  onde  hoje  é  o  n.  24.  Delle  faziam  parte: 
Mathias  Tavares  da  Gama,  ourives-gravador,  que 
presidia  ás  sessões;  Frederico  Lisboa,  orador  e 
poeta,  homem  de  talento  e  coração  destinado  ainda 
a  ser  um  dos  caracteres  mais  adamantinos  pela 
pureza  immaculada  do  seu  proceder  na  campanha 
abolicionista;  Júlio  Gama,  filho  do  primeiro  e 
então  estudante  de  medicina,  assim  como  Aquino 
Fonseca;  o  Dr.  Henrique  Alvares  dos  Santos,  o 
capitalista  Fróes,  o  agente  de  negócios  Lycurgo 
Moscoso,  o  bacharel  Teixeira  Soares  e  o  artista 
Sulpicio  de  Lima  e  Gamara,  que  deviam  pertencer, 
27  annos  depois,  ao  club  de  1888;  D.  Garlos  Bal- 
thazar  da  Silveira,  Alipio  Pinto,  Gassiano  HypoUto, 
Alfredo  Montanha,  Gesar  Moniz,  Dr.  António 
Spinola  de  Athayde,  Lellis  Piedade,  então  estu- 
dante de  pharmacia,  Eduardo  Garigé  Baraúna, 
Pamphilo  da  Santa  Gruz,  que  a  revolução  de  1889 


devia  vir  encontrar  tão  dedicado  á  mònarchia  è 
outros. 

Este  club  foi  inaugurado  em  21  de  Abril  de 
1876,  sendo  presidente  da  provincia  o  sr.  desem- 
bargador Henrique  Pereira  de  Lucena,  o  qual  man- 
dou uma  força  de  cavallaria  de  linha  percorrer  as 
immediações  da  casa  emquanto  que  uma  outra 
força  de  infantaria  de  policia  cercou  o  edificio^ 
obrigando  alguns  sócios  a  fugirem  pelo  fundo*  O 
club,  porém,  apezar  de  ter  chegado  a  apresentar 
candidatos  ás  eleições  da  cidade  em  1876,  desappa- 
receu  em  resultado  da  indiflferença  do  publico  e  da 
perseguição  das  autoridades,  o  que  se  compre- 
hende,  attendendo  a  que,  pelas  leis  do  Império, 
as  sociedades  não  se  podiam  considerar  organiza- 
das nem  tinham  existência  jurídica  sem  que  fossem 
antes  os  seus  estatutos  approvados  pelo  governo ; 
ora,  como,  naturalmente,  os  republicanos  não  iam 
submetter  os  seus  estatutos  á  approvação  dos  repre- 
sentantes do  poder  imperial,  acontecia  que  este 
podia  considerar  o  club  da  rua  da  Lama  como  não 
existente  legalmente,  apenas  sociedade  secreta  ou 
união  sediciosa,  da  qual  não  admittia  reclamações. 

O  peridioco  Tribuna  representou  por  algum 
tempo  a  propaganda  sob  as  inspirações  de  Frederico 
Lisboa,  Aquino  Fonseca,  Lellis  e  Carige'  em  arti- 
gos assignados — Alma  de  Tiradentes,  mas  isso 
depois  desappareceu,  e  os  números  que  encontrei, 
de  1877  em  deante,  não  podem  mais  pretender  este 
nobre  papel,  porque  alguns  artigos  de  tendências 
republicanas  são  misturados  a  pasquins,  allusões 
pessoaes  e  grosseiras,  linguagem  insultuosa  e  torpe, 
e  tudo  o  mais  que  revela  a  degradação  de  uma 
gazeta. 

A  massa  da  nação  até  1889  não  estava  no  caso 
de  discutir  c  escolher  uma  forma  de  governo,  pois^ 
só  para  o  fim  do  Império  começava  a  comprehender 
o  jogo  da  monarchia  representativa. 


6 

Ainda,  porém,  a  machina  funccionava  mal  e  só 
após  loannos  de  appUcação  recta  da  lei  eleitoral 
do  sr.  Saraiva  é  que  ella  chegaria  talvez  á  posse  da 
sua  consciência  politica.  Foi  nestas  circumstancias 
que  por  um  processo  todo  revolucionário  se  fez  a 
abolição  do  elemento  servil,  medida  aliás  altamente 
nobre  e  humanitária,  acima  de  todos  os  elogios, 
mas  que  pelo  modo  precipitado  e  imprudente  pelo 
qual  foi  realizada  atirou  o  paiz  ao  caminho  de  gra- 
ves aventuras. 

Previra-o  o  espirito  superior  do  atilado  estadista, 
que  arrostara  o  delirio  do  triumpho  abolicionista 
na  prophecia  que  o  senado  ouviu  dos  seus  lábios 
de  vencido.  A  victoria  da  opinião  publica  na  ques- 
tão, após  uma  curta  e  brilhante  campanha  legal 
que  pôde  servir  de  medida  de  como  nós  estavamo- 
nos  adeantando  em  matéria  de  emprehendimentos 
pelo  systema  da  democracia  representativa,  não 
podia  deixar  de  abalar  profundamente  entre  os 
prejudicados,  que  constituíam  a  classe  dos  agri- 
cultores, grandes  possuidores  do  solo,  que  foi  sem- 
pre a  mais  dedicada  á  monarchia  constitucional, 
o  respeito  pelas  leis  do  Império  e  o  acatamento 
pelas  pessoas  dos  imperantes.  Sentira-o  de  certo 
Pedro  II,  e  não  se  comprehendem  de  outro  modo  as 
suas  longas  hesitações  nesta  questão,  ellc  tão  natu- 
ralmente altruista,  e  tão  inclinado  ás  medidas  ou 
reformas  que  exaltassem  aqui  e  no  extrangeiro  a 
sua  reputação  de  rei  moderno  e  progressista,  e  não 
se  pôde  deixar  de  admittir^  reflectindo  na  precipi- 
tação da  lei  de  i3  de  Maio,  que  ella  foi  principal- 
mente para  a  regência  um  meio  de  popularizar-se, 
preparando  com  esplendido  prenuncio  o  terceiro 
reinado  contra  o  qual  havia  muitas  prevenções  no 
paiz,  e  que  vinha  próximo.  Causas  múltiplas 
tinham  enfraquecido  o  governo  e  dois  factos, 
acima  de  quaesquer  outros,  o  provam  bem:  a 
incapacidade  manifesta  da  autoridade  e  do  poder 


judiciário  para  julgar  o  assassinato  dé  Um  indi- 
viduo, feito  na  rua,  em  pleno  dia,  porque  o  crime 
fora  commettido  por  militares;  e  as  tergiversa- 
ções, fraquezas  e  evidente  impotência  do  governo 
na  chamada  questão  militar,  ainda  amargurada 
e  humilhada  assim  como  todo  o  prestigio  da 
ordem  no  paiz,  pelo  triste  incidente  de  que  foi 
protagonista  um  official  de  marinha  reformado 
e  cuja  prisão,  effectuada  pela  policia  em  condi- 
ções taes  que  muitas  delias  todos  os  dias  se 
fazem,  foi  pretexto  para  um  desses  estardalhaços 
arrogantes,  que  só  se  vêem  nas  localidades  domi- 
nadas pelo  extrangeiro  despótico,  a  quem  as  dis- 
pôs içõe^s  do  direito  commum  não  attingem. 

Conhecia  bem  todos  estes  indicies  de  grave 
moléstia  politica  o  poderoso  demolidor  que  no 
Diário  de  Noticias  abalava,  como  Sansào^  as 
columnas  do  templo,  que  assignara  o  voto  em 
separado  no  congresso  liberal  e  accentuava  a  sua 
attitude  de  guerra  sem  tréguas  no  dia  seguinte 
áquelle  em  que  subia  ao  poder  a  situação  liberal, 
pelo  gabinete  7  de  Junho,  presidido  pelo  visconde 
de  Ouro  Preto. 

Foi  nesses  dias  que  se  fez  ao  Norte  a  viagem 
do  conde  d' Eu,  como  uma  espécie  de  apresentação 
do  futuro  principe  consorte.  Acompanhou-o  no 
mesmo  vapor  costeiro,  em  uma  espécie  de  steeple- 
chase  politica,  o  propagandista  republicano  Silva 
Jardim.  Das  duas  imprudências  devia  resultar  aqui 
na  Bahia  lamentável  intercurrenc ia.        '■ 

Aa  idéas  republicanas  entorpecidas  haviam  sido 
aqui  acordadas  por  um  gmpo  de  mdços,  quast 
todos  estudantes  de  medicina  e  sulistas. 

Das  republicas,  moradas  de  estudantes,  de  Lan- 
dulpho  Machado,  mais  tarde  deputado  federal  por 
Minas,  de  Carlos  Affonso,  fallecido  depois  tãopre- 
maturamente,>de  Leandro  Brandão,  a  que  se  aggte- 
garam  o  vatagoano  Virgílio  de  Lemos,  o  bahiano 


Cosme  Moreira  e  outros,  foi  que  nasceu  a  resolu- 
ção de  se  fundar  um  club  republicano  federal,  á 
semelhança  dos  que  se  estavam  a  organizar  rapida- 
mente no  sul,  após  a  extincçâo  do  elemento  servil, 
principalmente  em  S.  Paulo,  Minas  e  Rio. 

O  club  foi  fundado  em  24  de  Maio  de  1888  e 
inaugurado  em  10  de  Junho  do  mesmo  anno,  na 
sala  das  sessões  do  (íremio  Litterario. 

O  povo,  a  imprensa  e  as  autoridades  foram  de 
todo  indifferentes  a  este  club  perfei